Trabalhos portugueses sobre Zubiri

*Por José Fernández Tejada

Não é a toa ou pura condescendência à Portugal, que abrimos este espaço zubirino para os irmãos portugueses. Não é apenas uma complementação ou para “ficar a bem” por motivos quaisquer, que eles ou nós possamos apelar. Porque, se trata de recolher o esforço do ser humano do pensamento em Portugal e no Brasil, pois somos iguais e irmãos, e ainda usamos a mesma língua, embora a cultivemos de forma própria. Somos todos gente! Somos todos reais, “em pé” e “de carne e osso”, aqui no Brasil como lá em Portugal! Ouçamos este alerta filosófico para nós e para os portugueses:

Um bom conhecimento de nossa história, comúm ou compartida, nos pode ajudar a organizar, com maior garantia de êxito, a colaboração dos povos de América e da península Ibérica. Porque, a esse passado pertencem nossos poetas, novelistas, científicos e filósofos. Um deles é Xavier Zubiri, que nos legou uma herança de reflexão e análises filosóficas”.

Que pretendiam os organizadores do IV Simposio Internacional del Instituto de Pensamiento Iberoamericano, dentro do tema escolhido,“Un filósofo Iberoamericano: Zubiri desde el siglo XXI”? (Salamanca, 16-18 octubre 2008). Entretanto, estamos inundados por pensamentos e países, que tem culturas ricas, diversas, mas diferentes. E então?

Desejando unir nossas forças, conhecendo a história comum de nossos poetas e literatos, cientistas e filósofos, como de nossos políticos, abrimos com grande esperança “Trabalhos portugueses sobre Zubiri”.

Brasil e Portugal não podem estar e viver separados e distanciados, embora estão separados fisicamente pelo desafiador mar Atlântico. Não podemos afirmar que Portugal é o pai de Brasil e nem que Africa é a mãe e pai dos portugueses e brasileiros. O certo é que os espanhóis e portugueses, a vilipendiada, mas geradora, península ibérica, tiveram a “luz” e a coragem de transpor o Atlântico, e assim mudaram a geografia e vida pessoal e social do planeta. A terra, dos países ocidentais e orientais conhecidos, (que podia parecer plana), virou o planeta terra, e assim abriu mais espaço para a globalização das pessoas. A “circulação humana” de pessoas inquietas, de comerciantes, estados e missioneiros realizam essa proeza. Foi deferente noutros lugares e culturas diferentes dentro de sua terra ou fora dela? Hoje não continua assim?

A consciência sentida da globalização humana inicia e é conquistada nesse momento com a constatação da realidade da terra que podíamos circundar, dar a volta, redonda: éramos os mesmos, irmãos, assentados porque nômades, emigrantes e imigrantes com sus diferenças e riquezas, em diversas regiões do planeta. Em todos os lugares do planeta somos os mesmos com crescimentos diversos. Somos a mesma gente abrindo caminho de nossas vidas: os portugueses perdidos nos imensos oceanos na abertura e ousadia de suas pequeninas forças (a saudade) e nós exuberantes e perdidos no calor e na luz do imenso Brasil e plácidas sombras de nossas matas de norte a sul (cultivamos a mesma saudade).

Infelizmente, quase todos, reparamos mais o lado geográfico e histórico e não vemos e não aprofundamos a realidade humana que se expande normalmente, porque tem as mesmas necessidades desde centos de anos. Somos parte da riqueza dos mistérios da expansão da humanidade, mas nos paramos em “unilaterais narrativas”, para destacar a ufania insidiosa e até macabra de vencedores e vencidos. Assim. explicamos os maus feitos dos habitantes desses países. Como pode acontecer isso entre os mesmos homens, entre irmãos? Nos encontros circulatórios expansivos do homem, ficamos míopes da realidade e sentido da humanidade, sempre em movimento, pelo qual nascemos e somos, que nos sustenta vivos aqui na terra. Essas palavras e ações, que esgrimimos, são fruto de nossas racionalidades malsãs, unilaterais e míopes, e, por resumir, maquiavélicas e sofistas. Mas, não são da realidade humana.

O homem é uma realidade diferente e suficiente dentre todos os seres: sua inteligência é senciente, seu sentimento é afetante e sua vontade é tendente. Quem não sente isso? Ele é caminhante senciente, sempre aberto para viver. Sente suas necessidades e emigra. Porque é uma realidade autônoma e aberta. Essa estrutura humana é fonte da diversidade e riquezas de nossas forças humanas, que na convivência humana, também como sociedades, devemos percorrer desde o nascimento, união e procriação e a morte. Todos neste planeta sentimos igual de diversas maneiras: o paladar de um alimento mais gostoso, o trabalho que nos realiza e nos oferece sustento, a satisfação do amor, a procriação e, também, o prazer pessoal de viver e entre as pessoas, o bem-estar do corpo e da mente da micção e defecação, o sentir-se realizado e o seu descanso, e a importância do nosso sangue vital para todos, até para fazer exames em todos os lugares do planeta, para viver cuidar e alimentar nosso povo. Quem pode não sentir assim e buscar o melhor sentido para viver? Quem, como se diz, não sente isso “nas veias” em qualquer parte do mundo? Por que, as racionalidades sucessivas e passivas –distantes da realidade- que nos transformam historicamente em objetos e sujeitos, deixando sempre de lado ou no lixo da história, a realidade das coisas e da gente, separadamente ou juntos? Por que nos entusiasmamos com tantas teorias somente mentais, que ao pensar esse desafio humano da época, as interpretam como “irremovíveis” e sempre ideológicas e autoritárias?

Então, devemos saber distinguir entre as formas plasmadas, reduzidas à fórmulas e protocolos quase deterministas, das nossas ações e suas racionalidades históricas; por isso, devemos distinguir as racionalidades reais de nossa inteligência, que deve marchar para a coisa real, como única medida, e dos fatos radicais fundantes e dinâmicos que surgem da experiência humana, do dito homem sapiens sapiens. O que mede as nossas racionalidades? Porque esse homo sapiens, podemos defini-lo de mil formas- não é estritamente racional, concipiente, senão senciente-inteligente, real. Ele perdurou até os dias atuais porque deu conta –senciente inteligente- do que o rodeava, das dificuldades e frutos de seu andar e trabalho. Não resolveu as coisas especulando encima de uma mesa ou sentado num banco, senão andando e escolhendo seu bem-estar e futuro, lutando na vida. Tinha que abrir o melhor caminho e a melhor solução, e assim chegou a ser brasileiro e português. Todos, somos fruto de uma hiperfomalização da vida, como afirma Zubiri.

Sim, os brasileiros e os portugueses somos todos esse homo sapiens.Todos estamos em pé na história, porque temos, em consequência, uma vitalidade interna e a anatomia igual, com traços externos e diversos. Contudo somos aminal de realidades, porque nos abrimos com o sentir afetante das coisas, que nos “tocam,” e porque esse sentir inteligente (e congênere), entendemos as coisas, não inicialmente como entes, mas como realidades que pisamos firmes, nas quais estamos imersos e delas vivemos.

Pois, neste desafio, que é de todos, não somos celtas nem tamoios, nem vikins ou descendentes da Revolução francesa ou russa, é para ser entendido em todas as épocas, mas também visto e narrado e principalmente refletido a partir do que é, de sua realidade. Aqui nosso papel de preocupados a pensar as inquietudes que surgem de nosso caminhar. Tanto filosoficamente, mas com todas as ciências. O pensamento português sempre se desafiou nessa busca humana, e escolheu o caminho sobre o infinito, sobre o absoluto de sua sabedoria, etc., como forma para se entender e dirigir sua história, seu presente e dar conta do futuro. Algo desafiador, como as viagens ousadas com meios exíguos científicos da época para abrir o futuro deles e de todos na globalização. Carregavam, também, suas racionalidades (históricas, econômicas…) Eles sempre buscam, até com sua saudade, que nós herdamos felizmente, um horizonte intra-humano, que nos entendemos e falamos de realidade.

Aqui se deu o nó ou “labirinto”, infelizmente negativamente, que nos envolve a todos. Eles os portugueses, presentes no doloroso nascimento brasileiro, desviaram seus pensamentos da raiz principal. Descobriram depois (muito tarde) os direitos dos índios e dos africanos para acalmar. Por outro lado, nos brasileiros nos afastamos deles meio revoltados, brincando de crianças atrevidas, quase rompendo ou querendo romper os laços de família do sêmen germinal. Não conhecemos, e até desprezamos, nossa história comum, nossa miscigenação. Só salientamos politicamente a unidade ibérica, mas não “ancestralmente”. No meio dessa confusão vieram os ares de crescimento, de entender-nos para um futuro melhor. As ações políticas, culturais e comerciais foram se fortificando. Contudo, realizamos a guinada arriscada de nossa história, ligando-nos à países e ideias pouco próximas, e nelas estamos perdidos. Estamos, longe de nossas complicadas raízes, mas tentando copiar outros povos como modelo, de países mais complicados que o Brasil. Qual seria nossa verdadeira identidade humana? Poderá vir de construções mentais históricas vividas e pensadas por diversos séculos ou de dentro de cada um e de cada povo?

Quando fiz a pós enfrentei este problema, embora meio bem intencionado e inocente. O curso de Ética dos valores e do Pensamento das lusobrasileiro da Gama Filho me pareceu o real caminho a seguir. Mas, encontrei desabores e interesses variados: de correntes filosóficas e ideológicas. Como, falou em e-mail em 2006 meu professor Ricardo Vélez, ao ser exonerado dela, sábia e meio sarcasticamente “estamos açoitando o vento”. São expressões privadas e amigas, mas com um sentido maior, que retrata parte de nossa intelectualidade filosófica e científica. Num desabafo escreveu:

“Pessoalmente estou muito bem, (depois de ser exonerado do curso de doutorado da GF) felizmente sem o compromisso de assistir semanalmente ao espetáculo de superficialidade e inautenticidade do Curso da Gama Filho, um programa denominado de Ética, em que a grande vítima era a própria ética. As limitações financeiras são muito relativas e a gente soluciona com certa facilidade. Os verdadeiros problemas são os que decorrem da escolha consciente e sistemática da banalidade intelectual e moral. E, nesse tipo de estranho imperativo, a Gama Filho certamente ganha sobre as outras instituições”.

Este problema, poderíamos dizer dualístico, por ideias mal construídas, e dicotômico, fazendo sofrer os povos, presente nas universidades brasileiras, me deixou preocupado. Resumindo podemos dizer que Antonio Pain e Miguel Reale, cansados e desiludidos desses ideias soltas –ideologias vindas do marxismo- dos homens intelectuais, com seus grupos de pesquisa perceberam tal situação. (Ver Da esquerda para a direita, de Ricardo Vélez Rodríguez, Távola. 2020). Eles criaram na PUC-RJ, um curso de pós-graduação sobre o Pensamento Luso-brasileiro, como caminho a descobrir e construir  para o Brasil. Tiveram muito trabalho, mas pouca receptividade e poucos resultados, por isso tiveram que mudar para a Gama Filho, que os recebeu. Foi um choque de teorias que cada um defendia, que queriam resolver os problemas brasileiros de outra forma, que, em parte, se inspiravam no livro de Rossa Luxembrugo de 1905: O cristianismo e as Igrejas: o comunismo dos primeiros cristãos.

Embora, Ricardo tenha lido este livro, como muitos outros se desiludiu dessa proposta de revolução, somente extgerna. Ele, orientado por Antonio Pain, realizou a primeira dissertação de mestrado na GF.: A filosofia política de inspiração positivista. Começa o estudo mais profundo da influência positivista no Brasil. Posteriormente faz a tese, que também será a primeira tese, de doutorado sobre o pensamento luso-brasileiro em 1982: Oliveira Vianna e o papel modernizador do Estado brasileiro. Mas, aos poucos muitos foram influenciados pela futilidade intelectual e também pelo cerceamento e imposições da CAPES. Esse caminho ficou reduzido aos intrépidos pesquisadores rodeados de A. Pain e M. Reale. Neste caldo confuso comecei e me arrisquei no caminhar zubiriano. Ainda não entendia bem tais colocações. Entretanto, não me interessavam tais discussões, para mim inválidas, pois filosoficamente tinha estudado bem as limitações do positivismo. E tinha consciência da força positivista do Marquês de Pombal para levantar o “império potuguês o Brasil” através de seu pensamento vindo da Europa. Contudo, era o positivismo.

Assim, encontrei o apoio de Tobias Barreto na constante procura da fundamentação, passando pelo positivismo brasileiro, de nosso pensamento na “nossa cultura”. Como aprofundar isso? Esse esforço de Tobias pareceu-me mais prometedor e fecundo, depois das leituras zubirianas, não definitivo. Pessoalmente, e na aprendizagem de “pensar as coisas que fazem penar”, senti-me atraído. Assim, dentro desse ambiente conflitante e, para mim, cheio de teorias nacionais e internacionais (alemanas naquela época), preferi ir pelo caminho inspirado em X. Zubiri.

No meio dessas teorias e caminhos de um lado e do outro, descobrimos Gilberto Kujawski (Contribuição Contemporânea à história da filosofia brasileira: Balanço e Perspectivas. José Mauricio de Carvalho. UEL. Londrina. 2003. Parte III . p. 289-306), e seu preocupar com nossa identidade brasileira, especialmente dentro de Latino-América, e apoiado na proposta de Ortega e Gasset e Otávio Paz, se pergunta: Que país somos? Qual nossa relação com Latino-América? (e com Portugal e com o mundo?) Sim, somos “mestiços” de “sangue e de cultura”, como todos os povos do planeta terra. E aí estaria nossa rica diversidade. Porém, nos avisa: “devemos usar tudo o que nos aproxima, mas não como representação, que valida tudo”(às coisas que os cercam, aos nossos pensamentos e ações). É algo mais que nos une e nos ajuda a viver. Por isso, vai aprofundar: não vale a pena apelar para a cultura oriental ou outros pensamentos longínquos a nossas cultura. Porque, “não há razões, de como o Brasil despir-se da tradição hispânica, nem lhe serve uma categoria que o vincule a países asiáticos, tão diferentes de nossa cultura”. O mesmo serve par outros pensamentos fora de nossa cultura.

Desejando unir nossas forças, “de lá e de aqui”, num passo mais radical, conhecendo a história em comum de nossos poetas, científicos e filósofos, abrimos com grande esperança Trabalhos portugueses sobre Zubiri. Sebastião J. Formosinho e J. Oliveira Bruno nos desafiam, desde o centro do pensamento português, no prefácio de A dinâmica do espiral: uma aproximação ao mistério de tudo (Coimbra-2013): “real, real: nunca houve nada igual” e “o real não está para ali desembocar, mas estimular a procura”. “É o Mistério da realidade”. Porque “crescer é inerente a toda a realidade”. É exatamente isso que me desafiava no Brasil, para Espanha onde nasci e para o mundo inteiro.

Brasil e Portugal falando a mesma língua, com palavras e pensamentos diferentes, mas se deparam com o mesmo labirinto da razão e nó do sofrimento da humanidade, entretanto, sempre sentimos o poder do real, com sua consistência, suficiência e riqueza variadíssimas: a realidade de todos nós e de nossos países. Todos unidos queremos o melhor de nossos povos e sociedades. Então, vamos elencar os passos dos esforços portugueses sobre Zubiri, para juntos sermos mais fortes na busca do real para os brasileiros e portugueses, quer dizer para todos os moradores do planeta. Vamos retornar ao real onde vivemos e sempre exigimos.

Las lenguas de España. Los orígenes de la literatura española. – ProfeVio História Alternativa, Mapas Históricos, Cartografia, Escola, Espanhola, Mundo, Origem, Escritor, Paisagens
MapaM

Mapa de Portugal componente da Península Ibérica (Google.wodrprerss). Frequentemente falamos da Península Ibérica, que formam juntos Portugal e Espanha. Os romanos chamaram Hispânia à região que conquistaram, porque era abundante em “damanes“, tipo coelhos abundantes nessa região, que se falava em fenício: “I-sephan-im”. De onde viria a palavra Hispânia e depois Espanha. Entretanto, a teoria mais aceita entre os historiadores atuais defendem que a palavra Hispânia procede da fenícia «I-span-ya», que significa “terra onde se forçam metais“. Por outra parte, a origem da palavra Portugal parece vir da conquista romana, embora com raízes fenícias. Seria a cidade romana Galecia, de Porto=Portus Cale. Esta cidade, com o rio Douro, seria o centro de parte do norte de Portugal e da Galícia da Espanha, chamada de Galiza, do nome da Galecia. Hoje segundo pesquisas de DNA revelam que a Península Ibérica abarcava: a região Sul da Francia, toda Espanha e grande parte de Portugal. No Mapa vemos a divisão da Península Ibérica hoje em estados e regiões.

Depois de destacar essa radical origem e estrutura humana e depois de ver a diversidade de pensamento de cada povo e cultura na situação que descrevemos, como nos podemos entender Brasil e Portugal na busca do real? Sim, nos avisa Zubiri no Prólogo e Conclusão (p. 45-48) de Cinco Lições de Filosofia: “Uma coisa são os conceitos e temas que constituem o conteúdo de uma filosofia; outra, muito diferente, é a ideia estrutural da própria filosofia. São tão diferentes, que alguns mesmos conceitos e até alguns mesmos juízos e raciocínios podem ser perfeitamente comuns a filosofias de estruturas diferentes”.

Assim, Zubiri expos, nos autores escolhidos, tais diferenças na busca da própria estrutura da filosofia, que busca a estrutura do ser humano. Contudo, ele afirma, “uma exposição adequada deveria abarcar muitíssimos pensadores”. Não podemos ter receio dos diferentes temas e conceitos de muitíssimos filósofos de nossos países irmãos de origens diversos e línguas, também, muita diversas. Porém, hoje nos coube viver como agentes, porque cada um nascemos em Portugal ou em Brasil, pouco nos deve importar, pois somos iguais, somos assim atores de dois países, unidos pela mesma língua portuguesa, de origem latina, contudo, de maneira especial devendo usufruir essas pequenas e grandes diferenças linguísticas. Dessa forma devemos ser autores sempre ativos, não nos contentar que somos autônomos, dessa identidade especial de cada povo e cultura, e como não do que estamos vivendo e pensando no momento atual. Devemos ter em conta nosso passado, toda a humanidade vive assim, mais podemos valorizar as dificuldades e conflitos que, por essa diferenças, desencadeamos. Não devemos ter medo. Mas todos visamos o bem da humanidade, somos da mesma terra, somos ibéricos, somos Brasil e Portugal.

Podemos dizer, parafraseando Zubiri, que cada povo é diverso até com objetivos diversos de seu viver concreto e pensar para se realizar. Porém, devemos ter claro, que com o esforço de “viver pensando e pensar vivendo” de cada pensador e país, vamos configurando “de maneira diversa nossa mente” e vida. Aqui, que surgem nossos desentendimentos e até esquecimentos do que somos diversos e até temos rixas, não somente da convivência de cada dia, mas rixas de seres pensantes. Entretanto, desejamos o mesmo, a mesma realização de cada país e habitantes. Será que nunca nos entenderemos? E, portanto, praticaremos o estranhamento de todo tipo?

Zubiri nos fala da diversidade dos filósofos expostos no curso, que parece não se entendem, porém, se invertéssemos esse desacordo? Como?: “Mas, se por entender-se quisermos dizer estar de acordo, evidentemente os filósofos não se entendem, porque eles não estão de acordo. Mas, se por entender-se quisermos significar não saber mais ou menos do que se trata, então é preciso dizer que, pelo contrário, os filósofos são homens que não estão de acordo, mas no fundo se entendem entre si. E esta unidade estranha entre entender-se e não estar de acordo em nada é que, positivamente, constitui um conflito”.

E assim que os encontramos através do conhecimento de nossa história e dos nos pensadores atuais, que revessam os anteriores em busca do mesmo objeto e finalidade: a vida plena do povo. E não adianta reclamar e aumentar nossas ricas diferenças, porque todos estamos submersos nesse conflito. Não podemos ser inimigos e nem avestruzes. O que devemos fazer? Como sair desse conflito entre irmãos, se todos somos gente? Se estamos submersos nesse conflito não podemos sair por combinações dialéticas, mas pondo em marcha, cada um dentro de si, o penosíssimo esforço do labor filosófico”.

Pois bem, esse é o desfio que estamos fazendo nós brasileiros estudar a proposta real e senciente de Zubiri, mas, também, o vemos nos pensadores , mais preciso, para os homens todos. Desejamos, juntos, despertar ao real concreto, “voltar ao rela”, como o temos em no fundo de nossas estranhas culturas ibéricas, não abstrato e pura e repetitivamente teórico. Nem definidor de qualquer tipo, nem na escola, na faculdade e, também, na filosofia, incluindo as culturas, ciências e religiões, para que não usemos a simples definição humana tentada por muitas teorias, como único caminho na condução dos povos. O homem deve ser um animal racional, mas deve ser a partir do real e se soltar com risco para desentranhar esse real fora nas enormes possibilidades abertas, porém deve voltar ao real para conferir e medir. Esse é o caminho vivo, caminhante, problemático e realizador.

Temos consciência que, esses riscos para escolher a melhor possibilidade do “real português”, vocês o fazem com outra linguagem e perspectivas: resumindo, sua sabedoria de “absoluto”. Entretanto, todos buscamos o mesmo: o real em próprio, como propriedade de sua estrutura, como “formalidade de seu”. Não de um de seu possesivo, mas de um de seu constitucional, sistemático, estrutural, contudo sempre dinâmico, porque a realidade substantivamente “dá de si”. Sim, o real se nos impõe para nos realizar livremente, não obrigados pela descarada ou sutil imposição de governos, cientistas, intelectuais e responsáveis de empresas, como o estamos sofrendo do Corona-Vírus. Porque este se nos impõe para destruir a todos: pobres e ricos, homens e mulheres, fortes ou fracos. Todos nossos sonhos e projetos. Aí é que, quando sofremos na carne somos todos iguais. Não caiamos de novo nos caminhos, nas elaborações, nos raciocínios, puramente especulativos, soltos do real. Não percamos mais tempo em tudo acreditando e fazendo cada vez o que sempre temos feito: correr o perigo de acreditar e fazer rebuscadas combinações dialéticas, feitas pelo povo como pelas autoridades políticas e religiosas, dos intelectuais das faculdades públicas e particulares, dos livros de auto ajuda, que nos falam do que queremos ouvir, dos “formadores de opinião”, como das propagandas “muito humanas”, e “bem intencionadas”, mas que de forma prodigiosa nos convencem no caminho que não nos realiza. Até hoje continua o “pão e circo”, quando pessoas se propõem e realizam pequenos e grandes eventos para distrair os povos. Que diria Tobias Barreto, preocupado com o bem do povo de seu município e de todos, desses resultados de tantas e diversas formas de elaborações sem grandes reflexões?

Entremos de vez, “no penoso, no penosíssimo esforço do labor filosófico”. Pensemos mais, reflitamos com mais rigor. Não voltemos às frivolidades que até hoje, consciente ou inconscientemente, praticamos. Enfrentemos todos o real, de forma mais luminosa e senciente, e assim poderemos resolver melhor o nosso conflito, na vida diária -“viver pensando e pensar vivendo”-, e nas nossas atividades pensantes, e seremos mais irmãos e gente.

Vamos deixar de intrigas de irmãos e lembremos, o que lembra Silvio Monteiro, da PUC de Pernambuco, e mestrando na Unicamp-SP: “Tenho uma grande admiração pelos pensadores da tradição  ibérica. Lendo Gilberto Freyre descobri a riqueza que caracteriza essa tradição.
Gilberto Freyre em seu discurso “A Propósito Dos Hispanos” proferido na academia de ciências de Lisboa, falou da “redescoberta do concreto” presente no “modo tradicionalmente ibérico do homem estudar-se a si mesmo, menos como ser abstrato que como ser situado”. De algum modo tal elogio freyreano à maneira espanhola de pensar aplica-se a Xavier Zubiri”.

Então, um pouco de história e a filosofia do real, também, não fazem mal. Retiremos os muros históricos, nos tornemos iguais porque o somos, sempre guardando nossa idiossincrasia. Por isso, não faz mal refletir melhor e mais. De essa forma, o nosso desafio desde o Brasil, com essa junção de trabalhos portugueses e brasileiros, pelo mesmo objetivo -“cair no real“- veremos os homens de cada terra buscando a mesma e plena realização humana de formas diversas e ricas. Ou como nos falavam Formosinho e Oliveira: “crescer é inerente a toda a realidade”.

1. 1945. I.K.L. MARTINS, Diamantino–“A religião na filosofia de Xavier Zubiri”, Revista Portuguesa de Filosofia, vol. 1, fasc. 4 (1945) 394-397. “Diamantino Martins assinou várias recensões nesta revista com as siglas “I.K.L.”. A expressão elogiosa sobre Zubiri “douto professor de Barcelona” incorre, no entanto, numa pequena incorreção: Zubiri tinha abandonado a Universidade de Barcelona em 1942. Nos anos 40 e 50 do século passado, vários autores se referiam na RPF a Zubiri como um existencialista cristão”. O mesmo aconteceu na Espanha.

2. 1949. GARCIA DOMINGUES, José. A noção de “Existência religada” em Zubiri. Revista Luso-brasileira, Atlântico. Lisboa -Rio de Janeiro. Série Nova, Número 7, p. 63-71. ) Nas capas e no texto não encontramos ano. Mas, na Capa, do lado esquerdo em cima, podemos ler impresso em tinta em carimbo redondo e outro em reto: janeiro de 1949. Conseguimos ler integralmente. Merece sua leitura para sentir a sábia preocupação de Garcia Domingues e a interpretação do que diz Zubiri e do que abre nesse livro. Vale a pena para se adentrar facilmente em Zubiri nesta data, para somar com as muitas resenhas e elaborações até hoje, de um novo caminhar da filosofia no meio da crise que naquele tempo se encontrava. E nisso é atual nos dias de hoje.


3. 1997. FERNANDES GONÇALVES, José Manuel –A Via da Religação no Pensamento de Xavier Zubiri. Revista Filosófica de Coimbra, Vol. 6, n°12,997, pp. 315-381.

4. 2006. ALTE DA VEIGA, Manuel. Sophia e o desejo de theoria. Revista portuguesa de pedagogia. Univ. do Minho. Número 40-1 e p. 261-292.

5. 2007. PINHEIRO TIXEIRA, João António. A finitude do infinito : o itinerário teologal do homem em Xavier Zubiri / coord. Faculdade de Teologia. Universidade Católica Portuguesa. – Lisboa : Universidade Católica Editora, 2007. – 509 p. ; 25 cm. – (Fundamenta, 27). – Bibliografia, p. 493-509. – ISBN 978-972-54-0161-3. Vejamos o resumo:

“O Homem é o modo finito de ser Deus» desponta como uma espécie de motivação que subjaz a todo o texto: por estranho que pareça, o finito aparece como uma realização do infinito sem que tal finitude o menorize, apouque ou desfigure. O assumir da finitude por parte do infinito configura uma poderosa certificação da sua infinitude: esta é de tal ordem que até acolhe o finito sem deixar de ser infinito. O infinito é-o tanto mais quanto menos se fecha sobre si mesmo e quanto mais integra o finito. O finito, neste caso, não constitui uma limitação, nem tão-pouco um acréscimo ao infinito. Constitui, antes, uma presença, uma plasmação, uma epifania. No fundo, o que se pretende é pensar Deus e o Homem como intersignificantes, partindo do princípio de que Deus só é pensável com o homem e de que o homem nunca é pensável sem Deus”.

6. 2010??? . ONOFRE PINTO, João Carlos. ???? O enigma da «religação» ao poder do real e a exigência da «experiência» de Deus. Jornada de Filosofia da Religião. Religião depois da “morte de Deus”: Abordagens filosóficas contemporâneas. João Carlos Onofre Pinto, SJ:
“Xavier Zubiri (1898-1983) interessou-se especialmente por três grandes temas: a realidade, a inteligência (inteleção humana) e Deus. O tema de Deus supõe a articulação dos anteriores: a realidade impõe-se à inteligência como um «poder» ao qual o homem está religado, de modo que a razão humana não pode escapar à pergunta pelo fundamento radical. Este é o início do peculiar itinerário do «problema teologal do homem». Nesta apresentação, ver-se-á, por um lado, a crítica do filósofo espanhol a várias das tradicionais «provas» ou «vias» da existência de Deus, e, por outro, a sua proposta do «facto radical» da «religação» como âmbito onde o problema de Deus pode ser «experimentado», resultando daí diferentes respostas: teísta, ateia ou agnóstica”.

7. 20????___________________. “Noergología. Actualidad y dinamismo en Javier Zubiri: Inteligencia, sentimento y volición”. Tese de doutorado. Univ. de Comillas, Madri. ???? .

8. 2009. BULO VARGAS, Valentina. (Chile). Verdad del cuerpo en Xavier Zubiri. Revistra Portuguesa de Filosofia. V. 65, número extraordinário dedicado a : “O Dom, a Verdde, a Morte. Abordagens e perspectivas”.

9. 2013. REVISTA PORTUGUESA DE FILOSOFIA. Xvier Zubiri: Uma filosofia da Realdiade. Publicação: 2013 Tomo: 69Fascículo: 1


> Apresentação

     João Carlos Onofre Pinto
» Texto Completo (PDF) / pp. 5-6.

> Neurofilosofia y Noología Zubiriana 
    Jesús Conill
» Resumo / pp. 7-26.

> Silogismo Poético y Ficto: Comparación entre Alfarabi y Xavier Zubiri
    Francisco Márquez Osuna
» Resumo / pp. 27-40.

> Zubiri’s Notion of Mentality and the Multiplicity of Systems of Reference in Reason’s Quest: The Contributions and Challenges of an Interdisciplinary Research of Complex Realities
    Luis O. Jiménez Rodríguez, SJ
» Resumo / pp. 41-56.

> Zubiri, la vía de la Verdad, la Vía de la Opinión y la Cuestión de la Sustancia
    Víctor M. Tirado San Juan
» Resumo / pp. 57-92.

> Anotações Críticas de Sobre a Essência: Eliminando “A Densa Neblina” sobre a Filosofia da Realidade de X. Zubiri
    José Fernández Tejada & Antônio Tadeu Cheriff dos Santos
» Resumo / pp. 93-124.

> “Per Realitatem ad Deum”. Breve Iniciação à Teofilosofia de Xavier Zubiri
    João António Pinheiro Teixeira
» Resumo / pp. 125-142.

> Historia de la Palabra Religión, desde sus Orígenes Latinos hasta Zubiri
   Germán Marquínez Argote
» Resumo / pp. 143-164.

> La Dedicación del Hombre a la Vida Intelectual
   Pedro Abellán Ballesta
» Resumo / pp. 165-180.

Recensões

> ALVES, José António – Limites da Consciência. O meio segundo de atraso e a ilusão da liberdade. Porto: Fronteira do Caos, 2013, 256 pp. (Alfredo Dinis, SJ)

> ZUBIRI, Xavier – Natureza, História, Deus. Prefácio de Joathas Bello, tradução de Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2010, 557 pp. (João Carlos Onofre Pinto, SJ). Texto Completo (PDF) / pp. 185-188.

10. 2013. ZUBIRI, Xavier – Natureza, História, Deus. Prefácio de Joathas Bello, tradução de Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2010, 557 p. ISBN: 9788588062986. IN

Recensões. “A publicação, em português, de Natureza, História, Deus (NHD) é um importante acontecimento, que merece um caloroso aplauso. A cuidada tradução de Carlos Nougué e a excelente qualidade gráfica repõem alguma justiça frente a uma inquietante espera de quase 70 anos desde a edição original (1944). Compreende-se: Zubiri nunca foi um autor de moda. Mas mereceu a atenção dos espíritos mais vigilantes, além e aquém-fronteiras. Uma pequena mostra disso vem-nos da própria Revista Portuguesa de Filosofia. Já no seu primeiro ano (1945), o filósofo jesuíta Diamantino Martins publicou uma elogiosa recensão à obra do “douto professor de Barcelona”¹. Porém, focaliza exclusivamente o texto “Em torno do problema de Deus”. Justifica-se, pois, uma apresentação um pouco mais ampla e atualizada da obra…”

11. 2013. PINHEIRO TEIXEIRA, João Antonio. “Per Realitatem ad Deum”. Breve Iniciação à Teofilosofia de Xavier Zubiri. Revista Portuguesa de Filosofia 69 (1):125-142 (2013).

12. 2015. RODRIGES DIMAS, Samuel Fernando. A ação criadora de Deus na teologia filosófica de Xavier Zubiri. Cauriensia, Vol. X (2015) 489-505, ISSN: 1886-4945. Universidade Católica Portuguesa – Lisboa /CEFi.

13. 2020. SOLS LUCIA, José. “Ignacio Ellacuría, filósofo mártir de la realidad histórica, discípulo de Xavier Zubiri,” Revista Portuguesa de Filosofia 76, no. 4 (2020): 1619–58, https://doi.org/10.17990/RPF/2020_7

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