Textos publicados de 2000 a 2021

O que é pesquisar?

Por Xavier Zubiri.

Posfácio de Inteligência e razão. Editora É Realizações, 2011. Pp. 283-287. Tradução de José Fernández Tejada e Fernanda Maria da Silva Fernández Tejada.

“Discurso lido com o motivo da recepção do Prêmio Ramón y Cajal a investigação. Outorgado pelo Ministério da Educação, Ciência a Xavier Zubiri e a Severo Ochoa conjuntamente. O ato teve lugar em 18 de outubro de 1982 na Aula Magna da antiga Faculdade de Medicina de São Carlos, onde ensinou o mesmo Ramón y Cajal. Participaram na entrega os reis e o então presidente do governo Leopoldo Calvo Sotelo. O texto foi publicado no periódico Ya, no dia 19 de outubro de 1982, p. 32” (Descrição na Apresentación, pp. XIX do livro Xavier Zubiri Escritos Menores (1953-1983). Alianza Editorial. Madri. 2006. Pp.321-325.) Gostaríamos de aclarar que o colega e amigo de Zubiri Severo Ochoa, festejado com ele, foi prêmio Nobel e de Fisiologia e Medicina molecular em 1959 com Arthur Kornberg. Ele foi pioneiro da síntese do ácido nucléico (RNA) em 1955. Encontramos a foto desta celebração não final da página do blog: Nossa proposta.

Nota: um pouco da história da importância desse texto.

Entendo necessária esta nota por vários motivos a considerar. É escrito no último ano de sua vida e em pleno amadurecimento. Como apreciaremos, a pesquisa foi seu desafio desde os nos 1920, desde os primórdios. Estudou profundamente todos os caminhos dela. E ainda se deparou com a enfatização da pesquisa como fato científico iniludível para a sociedade humana. Participou do desenvolvimento das ciências em renovação e da busca da filosofia para fundamentar melhor os novos caminhos, praticamente todo o século XX. Então temos em mãos uma síntese dele de todo esse envolvimento intelectual. E poderemos apreciar melhor, a clareza, não logificante pelas racionalidades técnicas e instrumentais, do que seja a pesquisa.

Hoje em dia, como fruto da ciência tecnológica de um mundo melhor, parece temos resolvido todo com a Pesquisa em laboratórios e com mais e mais técnicas e instrumentos. O sistema computacional parece dar conta de todo o problema humano e das sociedades. Essa busca de uma saber maior no ser humano começou desde os primórdios, mas foram os países do oriente médio que para tal desenvolveram os presságios, os mitos, a astrologia, a escrita, a astronomia, a agricultura, e a filosofia que se firmou quando descobre o “saber teorético” diante do espanto criativo desses povos, e por isso o saber da filosofia teorética: não somente fazer o homem pode fazer, mas tem que saber fazer. É o início da busca científica. E nesse saber, se desenvolvem os maravilhamentos admirados da terra e do universo pela presença humana através do logos e da razão. É o problema da “mente humana”, da inteligência.

A Filosofia foi durante muitos séculos, inclusive como nascimento das universidades, a ciência de investigação e pesquisa para a polis, para a religião, que englobavam então todas as ciências existentes ou em via de formação. O Ph.D. dos títulos universitários vem dessa época como Philosophiae  Doctor (Doutor em filosofia, que hoje o usam e manipulam nas ciências, que até renegam a filosofia). Assim, a pesquisa parece que não tem nada haver com a inteligência como buscadora do real, mas com os conhecimentos e tecnologias. Essa busca, já científica, da ajuda de novas técnicas e instrumentos, podemos dizer que começa no humanismo no final da Idade Média para melhorar a realização do homem, como ser humano.  Entretanto, desenvolvemos sentir, não estudado pela filosofia clássica, como capacidade de sentir, o desenvolvem através dos sentidos como sensórios como instrumentos, “humanos”, para se aproximar e buscar a realidade que continua maravilhando o homem.

Então, porque traduzimos esse pequeno texto O que é Pesquisar, para fechar a novidade inédita da tradução esperada ao português da Inteligência senciente?

Primeiro: por que o traduzimos para sua publicação na tradução da Inteligência senciente? A leitura da proposta de Zubiri, nas suas principais obras em vida, nos podem levar a pensar que foi um filósofo fechado e podemos tirar a conclusão de que ele enfrenta o problema da filosófica no século XX de efervescência científica e filosófica de forma hermética, dura com estilo aristotélico e do metafísico espanhol F. Suárez, assim desligando-se do seu país e da humanidade. Não podíamos entender melhor a obra de Zubiri, porque todos estávamos imbuídos do idealismo de Descartes, Kant e Hegel. Ele se queixou de sua produção com a mulher Carmem: “gênio não sou, mas também não sou tonto”. Foi um desabafo coma mulher de perceber como foi recebida a inspiração e a elaboração de sua proposta pelos intelectuais filósofos de sua terra e ainda dos pares alemães e ingleses. Vários deles colegas iniciantes discípulos.

Certamente, lendo um pouco mais profundamente Zubiri, entendemos essa forma de fazer filosofia, sem rejeitar o que seus pares lhe entregaram e dentro de seus motivos, formas mentais e elaborações. Então, percebemos que ele busca a filosofia e o saber rigoroso e reflexivo, os motivos de cada filósofo e descobre o teor de suas elaborações: a filosofia como saber teorético do homem para possibilitar e desenvolver a polis, a humanidade, o mundo. E não podemos deixar de ver esse motivo principal ao refletir sobre os diferentes momentos dinâmicos da obra dos filósofos clássicos e modernos, inclusive tomando conta da história de cada época. E assim estudamos Zubiri. Ele ao partir da descrição fenomenológica das coisas, deixando no seu lugar o método puramente explicativo, começa a elaborar sua pesquisa desde as coisas, como os gregos nos mostraram. Assim temos em mãos esse resumo do que ele entende por pesquisa.

 Bem, X. Zubiri vive entre 1898 e 2983 num mundo em crise, responsabilizando os desvarios dessa crise aos saberes desenvolvidos pela humanidade e também ao saber filosófico, em concreto ao idealismo que concebe a realidade. Isso, o apalpamos e sofremos na carne com os guias políticos e também intelectuais. E ainda, Zubiri sente isso na carne com a situação “invertebrada da Espanha”, detectada por Unamuno. Zubiri viveu a queda do comércio dos pais (secos e molhados) com a perdida das últimas colônias de Porto Rico e Cuba como o sentiram, todos os espanhóis. Espanha estava numa situação caótica social, política e intelectual.


Zubiri vive essa situação grave de todo espanhol e habitante do mundo: a gripe espanhola (1918), a primeira guerra mundial (1919), a bancarrota econômica do mundo (1829). A guerra civil espanhola (1936) e a segunda guerra mundial (1945) e ainda a guerra fria, cujos participantes querem dominar o mundo, quer dizer suas encomias, culturas e políticas, chamando-os de aliados. Vivi em parte todos esses momentos e seus frangalhos impostos na vida familiar e intelectual. A realidade das pessoas continuava sendo deixada de lado, cultivando puras especulações e racionalidades lógicas e instrumentais.

Ele, já inquieto no colégio dos maristas na sua cidade, descobre a filosofia e vê a renovação escolástica e a filosofia fenomenológica, como uma resposta a crise da modernidade, que separava o pensamento da realidade, e ainda o desprezo dos países do norte da Europa para os países da Europa mediterrânea, cultivando “a lenda negra”. Hoje podemos dizer da enxurrada descarada dos fake news. Todavia, no colégio é despertado a desenvolver a força da ciência para entender e melhorar o mundo e seu país. J. Zaragüeta será seu mentor. Acompanha esse ambiente de renovação nas ciências na construção e uso de um grande telescópio para o colégio, que ainda mais o instiga a busca de um saber mais radical. Hoje podemos constatar e apreciar o que isso supôs na busca, quase eterna, do homem com as possiblidades e frutos, a partir do telescópio Hublle para a humanidade e com os computadores quânticos.

O resgate da pesquisa o faz desde as metafísica, de dentro das coisas para fora, que entende que as ciências e a filosofia não o mesmo, mas se precisam.

Em segundo lugar: por que foi colocado como posfácio de Inteligência e Razão?

Pela reflexão anterior vimos a necessidade de traduzir esse texto, não acadêmico, mas científico filosófico que esclareceria em poucas palavras o trajeto de mais de sessenta anos do filósofo. A nossa confusão do emaranhado da pesquisa somente como científica, e também para nossa expectativa, poderiam ser melhor esclarecido por ele mesmo.

Fizemos, por isso, a tradução, com anuência da Fundação de Madri. Entregamo-la à Editora É realizações com um resumo desses motivos e as considerações do Antonio González, diretor de publicações dela. Embora, não formava parte na obra Inteligência senciente, entendíamos de sua importância para entender esse fio condutor da busca do homem se entender e orientar-se no mundo através das ciências e da filosofia.  Dialogamos muito. E felizmente a editora É Realizações, depois das considerações que o lugar dele seria como Posfácio de Inteligência e Razão.

Dessa forma aplaudimos a decisão e a vemos como um resumo sintético do filósofo que “pensava nas coisas que nos dão que pensar”. Arrematava o resumo de toda obra da trilogia: “A inteligência humana sente a realidade. Não é uma inteligência que começa por conceber e julgar a realidade. A filosofia contrapôs o sentir e inteligir fixando-se somente no conteúdo de certos atos. Mas escorregou na formalidade. E aqui é que inteligir e sentir não se opõem, mas, apesar de sua essencial irredutibilidade, constituem uma só estrutura, uma mesma estrutura que, segundo o ângulo por que se olhe, devemos chamar de inteligência senciente ou sentir intelectivo. Graças a isso, o homem fica inadmissivelmente retido na e pela realidade: fica nela sabendo dela. Sabemos o quê? Algo, muito pouco, do que é o real .  Mas retido constitutivamente na realidade. Como? É o grande problema humano: saber estar na realidade” (IRA 282).

Como podemos pesquisar a realidade, a nossa realidade brasileira? Façamos a leitura do texto, captando a riqueza do próprio Zubiri. Façamos a leitura, individual e coletivamente, que será grande alavanca de reflexão mais segura para os que se decidem a serem “sábios pretendentes” a entender, trabalhar e aplicar o dom da realidade nas diferentes áreas do saber.

Estamos aqui reunidos por ocasião do Prêmio à Pesquisa concedido pela Sociedade Espanhola através dos senhores. Então encontro outra fome de expressar minha gratidão a esta premiação senão de esclarecer em poucas palavras o que é esta “pesquisa”, que tão generosamente premiam.

O que é se pesquisa? Evidentemente investigamos a verdade, mas não uma verdade de nossas afirmações, senão a verdade da própria realidade. É a verdade através da qual chamamos o real de verdadeira realidade. É uma verdade de muitas ordens: física, matemática, biológica, astronómica, mental, social, histórica, filosófica, etc.

Mas como investigar esta verdadeira realidade? A pesquisa da verdadeira realidade não consiste num simples ocupar-se dela. É muito mais: é uma dedicação; pesquisar é dedicar-se à verdadeira realidade. De-dicar significa mostrar algo (deik) com uma força especial (de). E tratando-se da dedicação intelectual, essa força consiste em configurar ou conformar nossa mente segundo a exposição da realidade e oferecer o que assim se nos é mostrado à consideração dos demais. Dedicação é fazer com que a verdadeira realidade configure nossas mentes. Viver intelectivamente conforme esta configuração é o que chamamos de profissão. O pesquisador professa a verdadeira realidade.

Esta profissão é algo peculiar. Aquele que apenas se ocupa desta realidade não pesquisa: possui a verdadeira realidade ou pedaços dela. Mas quem se dedica à verdadeira realidade tem uma qualidade oposta: não possui verdades, mas pelo contrário está possuído por elas. Na investigação vamos de mãos dadas com a verdadeira realidade, estamos sendo arrastados por ela. Este arrasto é justamente o movimento da pesquisa.

Esta condição de arrasto impõe à própria pesquisa caracteres próprios: são os caracteres da realidade que nos arrasta.

Antes de mais nada, devemos perceber que tudo o real é real só e respetivamente a outras realidades. Nada é real se não é respectivo a outras realidades. Quer dizer, toda coisa real é desde si própria constitutivamente aberta. Somente se a entendermos desde outras coisas, as quais deveremos buscar, é que teremos entendido o que é a coisa que queremos compreender. Entenderemos assim o que a coisa é na realidade. O arrastamento com que nos arrasta a realidade faz de sua intelecção um movimento de busca. E como isso apenas acontece com outras coisas desde as quais percebemos o que queremos entender, resulta que ao estarmos arrastados pela realidade nos encontramos envolvidos num movimento inacabável. A pesquisa é inacabável não somente porque o homem não pode esgotar a riqueza do real, mas porque é radicalmente. Quer dizer, porque a realidade enquanto tal é desde si mesma constitutivamente aberta. É, o meu modo de ver, o fundamento da famosa frase de Santo Agostinho: “busquemos como buscam os que ainda não encontraram, e encontremos como encontram os que ainda tem de buscar”. Pesquisar o que algo é na realidade é uma tarefa inacabável porque o real nunca está acabado.

Mas, além de aberta, a realidade é múltipla. E o é pelo menos em dois aspectos. 

Em primeiro lugar, porque há muitas coisas a investigar, cada uma com seus caracteres próprios. Pesquisar as notas ou caracteres próprios de cada ordem de coisas reais é justamente o que constitui a investigação científica, ou seja, o que constitui a pesquisa das diversas ciências. Ciência é investigação do que as coisas são na realdiade.

Mas, em segundo lugar, o real é múltiplo não somente porque as coisas apresentam muitas propriedades diferentes, mas também, por uma razão muito profunda: porque o que é aberto é seu próprio caráter de realidade.

E isso arrasta não somente à pesquisa das propriedades do real, mas à investigação do próprio caráter de realidade. Esta pesquisa é um saber de forma diferente: é justamente o que penso eu que seja a filosofia. É a pesquisa daquilo em que consiste o real.

Assim enquanto as ciências investigam como são e como acontecem as coisas reais, a filosofia pesquisa o que ser real. Ciência e filosofia, embora diferentes, não são independentes. É necessário ter isso sempre muito presente. Toda filosofia necessita das ciências e toda a ciência necessita de uma filosofia. São dois momentos unitários da pesquisa. Mas, como momentos, não são idênticos.

Essa questão do que ser real é, antes de tudo, uma autêntica questão por si mesma. Porque as coisas não são somente o riquíssimo elenco de suas propriedades e de suas leis, mas cada coisa real e cada propriedade sua é um modo de seu ser real, é um modo de realidade. As coisas não diferem não somente nas suas propriedades, mas podem diferir no seu próprio modo de ser reais. A diferença, por exemplo, entre uma coisa e uma pessoa é radicalmente uma diferença de modo de realidade. Pessoa é um modo próprio de ser real. É necessário conceituar o que é ser coisa e o que é ser pessoa, quer dizer, devemos pesquisar o que é ser real. Porque há muitos modos de realidade diferentes de ser coisa e pessoa.

Este conceito e essa diferença de modos são uma grave questão. Porque as pessoas estão certamente vivendo “com” coisas. Seja qual for a variedade e a riqueza dessas coisas, aquilo no que estamos situados com elas é na realidade. Cada coisa com que estamos nos impõe uma maneira de estar na realidade. E isso é decisivo. Do conceito que tenhamos do que é realidade e de seus modos depende nossa maneira de ser pessoa, nossa maneira de estar entre as coisas e entre as demais pessoas, depende nossa organização social e histórica. Daí a gravidade da pesquisa do que é ser real. Esta força de imposição é o poder do real: é a realidade mesma como tal, e não somente suas propriedades, o que nos arrasta e domina. Por isso, o poder do real constitui a unidade intrínseca da realidade e da inteligência: é justamente a marcha própria da filosofia.

Por isso Hegel escreveu: “tão assombroso como um povo para o qual não serve de mais nada seu direito político, suas convicções, seus hábitos morais e suas virtudes, o é também o espetáculo de um povo que perdeu sua metafísica”.

Finalmente, pesquisar o que é real é uma tarefa muito difícil. Por isso falava Platão a um jovem amigo principiante na filosofia: “é belo e divino o ímpeto ardente que te lança às razões das coisas, mas exercita-te e treina-te enquanto és jovem nos esforços filosóficos, que aparentemente para nada servem e que o vulgo chama de falatório inútil; do contrário, a verdade e escapará dentre as mãos” Platão se dedicou a esse esforço durante toda a sua longa vida. Algumas vezes se sentia desanimado. Em certa ocasião escreveu: “apeireka tà ónta skopaôn (fiquei exausto esquadrinhando a realidade)”.

Quando os senhores falavam de pesquisa em sua premiação, também estavam pensando na filosofia. É a primeira vez que isso acontece. E eu, e comigo todos os dedicados cultivadores da filosofia, nos sentimos legitimamente satisfeitos. Obrigado em nosso nome”.

A crítica da inteligência em Xavier Zubiri

Por Saldanha Alves Braga*

*Na época (2005) Graduando em Filosofia na Universidade Católica Dom Bosco – Campo Grande, MS. Hoje (2021) Professor efetivo do IFTO – Instituto Federal do Tocantins, Mestre em Educação pela UnB, Pós-graduado em Ensino da Filosofia e Graduando em Psicologia pela ULBRA – Universidade Luterana do Brasil – Campus Palmas.

É a metafísica como física transcendental que supõe uma concepção nova da inteligência”. (Xavier Zubiri 1898-1983).

Primeiro TCC sobre X. Zubiri no Brasil.(Considero importante trazer para a leitura de todos os que se interessam por Zubiri este TCC. O relato do autor nos diz tudo. Saldanha foi ousado seguindo a ousadia de Zubiri em recolher de várias obras dele essa crítica e sua posição de cada autor. Para não ser extenso demais colocamos apenas o sumário dos capítulos do TCC, no lugar da elaboração. É um motivo para procurar na internet na íntegra e poder usufruir de seu trabalho).

“Motivação e Itinerário do contato com a filosofia de Zubiri” relatado por Saldanha.

“O ano era de 2004, eu estava no seminário dos Frades Menores Capuchinhos em Campo Grande, MS, e, ressalto que a formação capuchinha até hoje norteia o meu caminhar com os ideais franciscanos de vida fraterna. Bom, neste mesmo tempo, estava no primeiro semestre do referido ano cursando a disciplina de hermenêutica filosófica na graduação de Filosofia na Universidade Católica Dom Bosco em Campo Grande, Mato Grosso do Sul com o então professor Dr. Frei Márcio Luís Costa, OFM (hoje já deixou a Ordem Franciscana).

Durante as aulas de Hermenêutica o professor Márcio usou vária vezes textos do filósofo espanhol Xavier Zubiri – enfocando principalmente a “realidade senciente” no conceito zubiriano “de suyo”, isso me chamou muito atenção. Registro que à época estava interessado em fazer meu trabalho de conclusão de Curso sobre “o logos em Heráclito”, porém como essas aulas do Frei Márcio haviam me conquistado resolvi procura-lo para saber se não gostaria de me orientar no TCC. Ele então sugestionou que mudasse de tema, e sugestionou que trabalhássemos algo em Xavier Zubiri. Na ocasião me indicou e emprestou-me o livro As cinco lições de filosofia (versão em espanhol). Gostei muito da leitura, confesso que apaixonei pelo estilo “Zubiri de ser e escrever” desde aquela obra. Dessa feita, dei um feedback positivo ao frei Márcio que estava decidido a trabalhar sobre Zubiri na elaboração do meu TCC. Pois bem, em continuidade o frei Márcio me entregou a Trilogia Senciente (também em espanhol, pois não havia sido traduzida ainda no Brasil). Vale ressaltar aqui que o frei Márcio teve contato com a Filosofia de Xavier Zubiri no México quando cursou o Doutorado em Filosofia naquele país (Universidad Nacional Autónoma de México).

Seguindo orientação do mestre, fiz a leitura da referida trilogia e assim como havia sido afetado positivamente pelas Cinco lições de fiosofia, ocorreu o mesmo com a trilogia, é claro que a compreensão não suficiente elaboração do TCC. Dessa leitura ficou muito forte no meu imaginário de iniciante à Filosofia Zubiriana a questão evidenciada de que a Filosofia clássica fundamentou-se na reflexão “concipiente” enquanto que Zubiri propunha uma nova reflexão: “os sentidos são inteligentes e a inteligência é senciente”.  Desta realidade reflexiva o frei Márcio sugestionou que fizéssemos o TCC com a temática: A crítica da Inteligência em Xavier Zubiri. 

Não satisfeito com a leitura, comecei a procurar na internet algo que referenciasse outras leituras em Zubiri, encontrei menções ao Seminário arquidiocesano Redemptoris Mater em Brasília, e nos sites das fundações Xavier Zubiri em Espanha e Estados Unidos. Mas nessa busca na grande rede sobre referências Zubirianas, foi o livro A ética da inteligência em X. Zubiri, UEL, Londrina (Brasil), 1988 do autor José Fernandez Tejada que alavancou minhas energias para a formulação do TCC e consequentemente minha caminhada com Zubiri. Ao procurar o livro pra comprar não encontrei – descobri que havia disponível para leitura – não me recordo se pra venda -, na biblioteca da Universidade Gama Filho no Rio de Janeiro. Lembrei-me que havia uma amiga minha no Rio de Janeiro, chamada Lúcia Fátima. Entrei em contato com ela e pedi que conseguisse o exemplar do  livro para mim junto à Gama Filho. Ela esteve na Gama Filho e me ligou de lá mesmo me dizendo que não só tinha conseguido o livro como também havia conseguido o telefone do autor (Tejada) que residia no Rio de Janeiro. Ela entrou em contado com ele (Tejada) e ele disse a ela que eu poderia entrar em contado com ele por telefone. Assim o fiz. Tirei muitas dúvidas por telefone e também resolvi ir ao Rio para encontra-lo, ele me recebeu muito bem no mês de Maio de 2005. Desse encontro resultou que ao chegar de volta em Campo Grande, MS, comentei sobre o grande Tejada ao então Coordenador do Curso de Filosofia da UCDB, Moacir Aquino. Ele entusiasmou-se e propôs entrarmos em contato com o Tejada para fazermos uma Semana de Filosofia na UCDB em Campo Grande sobre o Filosofía de Zubiri com o professor Jósé F Tejada. Assim em Outubro de 2005 fizemos a semana de Filosofia que por sinal foi esclarecedora e importante, porque nesta mesma semana defendi o TCC, sob a orientação do professor Dr frei Márcio Luís Costa, o Tejada e Dr. Josemar de Campos Maciel, co-participantes da banca. 

Minha caminha segue com Zubiri, no ano de 2010 a convite de Tejada estivemos na Editora È em São Paulo no lançamento da Trilogia Senciente. Momento impar em que Tejada foi palestrante no lançamento. Nossa vida como “animal de realidades” segue…”.

INTRODUÇÃO

                Diversos e renomados autores discutiram a questão da inteligência no âmbito filosófico – só para lembrar alguns: Aristóteles, Kant, Hegel e Husserl – construindo um vocabulário próprio, estes autores se aplicaram numa perspectiva de análise e referências indispensáveis para a compreensão, ou mesmo para quem quer agir de forma conveniente a este mesmo tema quando se fala em estudo. Ou ainda neste mesmo sentido dar-se a possibilidade de elaborar uma crítica a tal temática. Abrem-se, portanto pressupostos que permitem aceitá-los, negá-los ou gestá-los sob uma nova ótica. O que o torna uma problemática que se refuta ou que se acolhe. Hipotetizando-a e verificando-a.

                É, pois, no limiar desta discussão que o filósofo espanhol Xavier Zubiri vai aceitar e refutar muitos dos conhecimentos sobre a inteligência, se referindo, sobretudo, e dando vias argumentativas de oposição ao legado de grandes filósofos clássicos, modernos e contemporâneos. Estes, embora tomando as coisas mesmas como objeto de estudo, terminam por conceber uma inteligência dual, do inteligir e do sentir.

                Zubiri pretende, sobretudo, superar este dualismo que associa sentimento e inteligência com a introdução de elementos transcendentais. Ele propõe a análise do ato intelectivo enquanto real. Pretendendo o que ele chamará de Inteligencia Sentiente.

                É no contexto dessa discussão que também se situa este trabalho. Ele indaga por um caminho filosófico alternativo na abordagem da inteligência. A saber, tem como base a fenomenologia, mas que se preenche também com elementos ontológicos e metafísicos. Visando gerar conhecimento novo em relação às referências tradicionais que tratam do mesmo assunto ao longo da história da filosofia. Por isso o trabalho defende o título de Uma crítica da inteligência em Xavier Zubiri. E está limitado somente a isto.

                Para efeito desta construção crítica, a principal referência bibliográfica a ser utilizada neste trabalho será a obra de Xavier Zubiri comumente denominada de trilogia: Inteligencia Sentiente: inteligencia y realidad, Inteligencia y logos e Inteligencia y Razón. Mas se utilizará de muitas outras obras do autor e de estudiosos de sua filosofia, bem como textos e obras disponíveis na internet. Contudo num campo mais periférico. 

                A metodologia se fundamenta a partir da aplicação levantada nas obras de Metodologia do trabalho científico e Métodos e técnicas de pesquisa.

                No entanto fez-se necessário algumas observações de aplicações práticas. Como recursos metodológicos básicos, discorrem-se o seguinte: citação de referências todas em notas de rodapé.  Citações longas quando forem extraídas de Zubiri serão todas no original em espanhol com tradução nas notas de rodapé. Algumas palavras ficaram tanto no texto quanto nas notas de rodapé no original em espanhol numa tentativa de fidelidade ao que ela pode representar para a filosofia pesquisada. 

                Quanto aos filósofos descritos em cada capítulo como parte do estudo frente à Zubiri. Observe-se o seguinte: com exceção de Platão e Aristóteles, para os demais constam introdução simples com elementos da vida e obra de cada um.

                Ao transcorrer os capítulos percebe-se a progressiva mudança na abordagem zubiriana em cada argumentação. É aí onde aparecem os fragmentos já citados de fenomenologia, ontologia e metafísica. Nesta perspectiva se desenvolveram os capítulos.

                Considerando a amplitude filosófica de Zubiri procurou-se de forma propedêutica fazer um bio-histórico e filosófico de Xavier Zubiri – é o conteúdo do primeiro capítulo.

                O inteligir e o sentir como dicotômicos podem ser oriundos de uma entificação da realidade em Aristóteles e uma concepção do que é saber em Platão. Estes assuntos caracterizam uma crítica da inteligência na Filosofia Clássica – é em suma o que se discorre no segundo capítulo.

                Em Descartes o inteligir e o sentir são dois modos de consciência. Em Berkeley o intelecto é o princípio que governa tudo. Em Leibniz a atividade pensante é intelectiva. Em Kant o mundo sensível e inteligível estão ligados ao problema do conhecimento. E finalmente em Hegel a inteligência é concipiente sem fundamento na realidade. Este é o esqueleto filosófico que permite uma crítica da inteligência na Modernidade. Isto constitui a construção do terceiro capítulo. 

                Husserl se move num plano ‘consciencial’ e ‘faz uma análise dos atos intencionais com que o homem se refere às coisas’ para conceber uma inteligência. Heidegger concebe inteligência na elaboração de sua ‘onto-fenomelogia’ categorial com novos significados que permitem a construção da pergunta pelo sentido do ser. É o que possibilita falar de inteligência contemporaneamente na matriz fenomenológica: Husserl e Heidegger. É a elaboração do quarto capítulo. 

                Por fim, as considerações finais evidenciando as conquistas alcançadas com a pesquisa. A partir de elementos que se considerou como norteadores de resultados. Bem como as lacunas que ficaram descobertas com perspectivas futuras.

(CAPÍTULO I – FUNDAMENTOS BIO-HISTÓRICOS E FILOSÓFICOS DE XAVIER ZUBIRI. . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

1.1.  NASCIMENTO E FORMAÇÃO.  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17

1.2.  MODO FILOSÓFICO.  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21

1.3.  CARACTERIZAÇÃO DO PENSAMENTO ZUBIRIANO. .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24

1.4.  DESENVOLVIMENTO DA OBRA DE ZUBIRI. .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .25

1.5.  OBRAS PÓSTUMAS. .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

1.6.  CONSIDERAÇÕES. .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  .27

CAPÍTULO II – CRÍTICA DA INTELIGÊNCIA NA FILOSOFIA CLÁSSICA: PLATÃO E ARISTÓTELES.  .  . . . . . . . 28

2.1. PLATÃO. .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30

2.2. ZUBIRI FRENTE A PLATÃO. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31

2.3. ARISTÓTELES. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32

2.4. ZUBIRI FRENTE A ARISTÓTELES. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .34

2.5. O FIO DO MEDIEVAL PARA O MODERNO. .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .35

2.6. CONSIDERAÇÕES. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36

CAPÍTULO III – CRÍTICA DA INTELIGÊNCIA NA MODERNIDADE: R. DESCARTES, G. BERKELEY, G.W. LEIBNIZ, I. KANT E G. W. F. HEGEL. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .38

3.1. APROXIMAÇÃO DO QUE SE PODE INTERPRETAR COMO MODERNIDADE. . . . . . . . . . . . . . .39

3.2. COMO ZUBIRI INICIA SEU DIÁLOGO SOBRE MODERNIDADE. . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .40

3.3. R. DESCARTES. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . 42

3.4. ZUBIRI FRENTE A DESCARTES. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43

3.5. GEORGE BERKELEY. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . 45

3.6. ZUBIRI FRENTE A BERKELEY.. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .46

3.7. G. W. LEIBNIZ. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . 47

3.8. ZUBIRI FRENTE A LEIBNIZ. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . .48

3.9. IMMANUEL KANT. . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49

3.10. ZUBIRI FRENTE A KANT. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . .50

3.11. G. W. F. HEGEL. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .54

3.12. ZUBIRI FRENTE A HEGEL. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56

3.13. CONSIDERAÇÕES. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  59

CAPÍTULO IV – FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA: A INTELIGÊNCIA NA MATRIZ FENOMENOLÓGICA, HUSSERL E HEIDEGGER. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  .  . . . . . . . . . . . . . . . . .61

4.1. A APROXIMAÇÃO DA IDÉIA DE FILOSOFIA CONTEMPORÂNÊA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .62

4.2. ENTENDIMENTO BÁSICO SOBRE FENOMENOLOGIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .63

4.3. EDMUND HUSSERL. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .65

4.4. ZUBIRI FRENTE A HUSSERL.. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .66

4.5. MARTIN HEIDEGGER. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .69

4.6. ZUBIRI FRENTE A HEIDEGGER. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72

4.7. CONSIDERAÇÕES. . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .76

CONSIDERAÇÕES FINAIS. .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .78

REFERÊNCIAS . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . .81

ANEXOS . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . 85)

CONCLUSÃO

                A discussão contemporânea sobre a possibilidade de uma Inteligencia Sentiente que permitisse uma verificação argumentativa conjetural e que identificasse junto a grandes filósofos clássicos, modernos e contemporâneos as justificativas filosóficas para uma crítica da inteligência discutida a partir de Xavier Zubiri, foi o contexto em que se desenvolveu este trabalho.

                A sua elaboração, no entanto, permitiu agregar elementos fenomenológicos, ontológicos e metafísicos consumindo em parte o que Zubiri construiu sobre o tema da inteligência com estes mesmo elementos.

                Dada a operacionalização desta pesquisa, consideram-se vários elementos como norteadores de resultados.

                O primeiro se expressa na subjetividade. Uma vez que ofereceu ao autor do trabalho o conhecimento sobre Zubiri e sua filosofia.

                O segundo elemento transita no campo de que a localização do filósofo – Zubiri – num contexto amplo e a vinculação de seu pensamento com outros autores e correntes filosóficas foram importantes. Constituíram aspectos especiais que enriqueceram a discussão e sem dúvida lhe conferiram um caráter de atualidade. Por exemplo, autores das áreas éticas ao entrarem em contato com a Filosofia de Zubiri, ganham um conceito forte de realidade.

                O terceiro elemento, é que Zubiri usa das alternativas possíveis na argumentação filosófica para construir sua crítica à inteligência. O que na verdade confere-lhe o caráter de abertura e não de univocidade absolutizando a solução proposta para a problemática em estudo.

                Um quarto elemento seria uma ampliação da pesquisa com uma possibilidade de estudo no futuro. Frente às lacunas que ficaram abertas nesta pesquisa. Por exemplo: poderia se fazer uma síntese dos principais pontos da filosofia de Zubiri desvinculando somente da crítica a inteligência. 

                E finalmente, pode-se considerar desde a pesquisa realizada, que a estrutura da intelecção elaborada e desenvolvida por Zubiri que lhe permitiu um diálogo amplo com a Filosofia Clássica, Moderna e Contemporânea se fundamenta, sobretudo na atualidade do real na inteligencia Sentiente que se modaliza em caráter de formalidade triplece como apreensão primordial de realidade, como logos e como razão.

                Deste modo, Zubiri dialogou com cada filosofia em particular e concluiu que mesmo o arqué clássico Platão e Aristóteles sob o peso do apoio da filosofia de Parmênides, submergiram a intelecção no logos. Conseqüentemente logificou-se a mente. O saber que pressupunha o contato com as coisas mesmas, tornou-se um modo de saber do logos do homem. Caracterizou-se o logos predicativo aristotélico consagrado na lógica dos princípios demonstrativos. O que ocorrera foi nada mais do que um distanciamento das coisas. Sem ficar de fora nem o próprio Husserl que se anima a uma ‘volta às coisas’ no início de sua fenomenologia. Assim fora implantada a metafísica da inteligência que teve sua estirpe nos grandes clássicos. Surgiu a terrível oposição entre o sentir e o logos. Isto na história da filosofia, parte dos clássicos – Filosofia Platônica e Aristotélica. Passa na Modernidade como, por exemplo, em Descartes, e Hegel. E chega a contemporaneidade com Husserl e Heidegger. Considerando em cada etapa, uma abordagem diferente de cada filósofo. Eis a crítica de Zubiri.

                E por dedução desta crítica, pode-se completar que Xavier Zubiri fizera uma filosofia que não se moveu somente no campo da distinção, mas que ofereceu notas ‘radicalmente novas’ e que estas lhe conferem o caráter radical de uma crítica a toda filosofia anterior, o levando a abordar os problemas em outros planos para terminar numa visão nova da realidade. Mas isto não permite dizer que esta mesma visão, não venha a possuir coincidência com outros pensadores.

                Em suma, a inteligência para Zubiri considerando a formalidade das coisas mesmas, é o ato apreensor ‘sentiente’ do real.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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em 29/09/2005 as 12hs28mn.

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Heidegger (1889 – 1976) gesamtausgabe. Disponível em:

http://www.heidegger.hpg.ig.com.br/gesam.htm acesso em 29/09/2005 às 12hs59mn

Um pequeno favor”: Biografia de X. Zubiri.

Bete de Abreu, que iniciou como gerente, sempre nos acompanhou como “madrinha” da publicação da Inteligência senciente de Zubiri, junto com Natureza, História, Deus e Cinco lições de filosofia e assim nos guiou e “mimou”, com sua pessoa e competência ímpar. Guardo, até hoje, a quantidade e-mails deste ping-pong comercial, mas profundamente inteligente, competente e amigo.

Na ocasião, foi gerente e mediadora do editor Edson Filho, que além da tarefa normal e minuciosa da publicação de qualquer autor, sentiu que se deparava com um filósofo diferente, de qual não tinha obrigação de ser epecialista. É verdade que cada pensador de qualquer área se expressa de forma da própria, embora diferente do que se falou antes, todavia fala desde sua situação histórica.  Em Zubiri sentiram uma espécie de transgressão após estudar os fubdanebtis e a elaboração de quse toda a filosofia. Seu estilo e sua linguagem precisavam ser mais cuidados para intertrepar o que realmente Zubiri quis falar e como falar. Dentro da É realizações ela se encontrou, no ano de 12010, com Felipe Cherubin. “Um bom menino”, falava frequentemente dele. Tinham uma cumplicidade de trabalho e de amizade.

A Editora devia ter um cuidado diferente, porque sentia que essa tradução e publicação deviam ficar na história da presença de Zubiri no Brasil. Tinha sido um filósofo do século XX, pouco entendido e divulgado, pela forma especial de pensar. E pela sua inspiração de que a realidade é antes do ser. Essa tradução e publicação tinha que ser “clássica”, não somente pela sua proposta, mas repeitada e consultada com confianza. A tradução acurada de Carlos Nougué oferecia firmeza linguística e filosófica nessa empreitada. E os estudiosos brasileiros poderiam se reportar a ela com segurança intelectual. Assim, quem cuidou dessa dinâmica empressairal e filosófica foi Bete. Que nos revelou em e-mail: “Também sempre me senti bem com vocês — foi um projeto que adorei fazer. Um dos mais bacanas. Eu não entendia muita coisa, mas consegui apreender um pouco da ideia de Zubiri, aprender sobre ele. Lembro que o Felipe ficava me explicando tudo, tentando dar exemplos concretos”. 

                Foram momenos incríveis, e até urgentes, como é normal nessa tarefa empressarial, de sintonia crescente, sempre respeitando o lugar decada dialogante. Por isso, o único que cabe de respeio a sua presença é chamar-la de nossa mardrinha.

Já no final desta empretida, estontoante para mim, saiu da editora, continuando a tarefa de todos crescendo e ganhando a vida. Vários anos depois em 2013 recebi um é-mail carinhoso,  no meio dos que siguíamos comungando nossas vidas, pedindo “um pequeno favor”. Fiquei surpresso e ao ler e ver aquela Bete competente e amiga.

“Professor, querido, como estão as coisas? Espero que esteja tudo bem, que esteja com saúde e feliz. Novidades lá da editora? Como andam os livros de Zubiri? Estão saindo? Estou escrevendo para pedir um pequeno favor, mas se não puder eu entendo perfeitamente pois sei que é ocupado.

Eu precisava de uma pequena biografia do Zubri e pensei que se o senhor não poderia escrevê-la.

É para a enciclopédia digital da Barsa Planeta. Eu estou fazendo autualizações para eles e vi que não tem o verbete do Zubiri lá, então queria colocá-lo, devido à importância.

Pedi também para o Felipe me ajudar com a minibibliografia do Bernard Lonergan.

Podeira ser um apanhado geral. Não pode ser um texto longo também. Seria um texto para mostrar em linhas gerais quem foi Zubiri e a importância dele e de suas obras. Um verbete de inciclopédia, sabe?

Seria possível? É por uma boa causa. Porque daí, teremos Zubiri na Eciclopédia Digital também. Obrigada. Abraços saudosos de Bete (15/03/2013).

Dias depois do pedido, em diálogo constante, nos esclareica algunas condições sobre o texto. Ela nós alertava, que não poderia colocar nenhum nome. Nem ela e nós sabiamos, que isso não era o nosso propósito. E ela nos motiava: “Mas eu sei que isso não será problema, pois o importante é divulgar o Zubiri. O que peu posso fazer também, depois, é falar para eles colocarem uma página especial na enciclopédia sobre o Zubiri e daí, poderemos pôr fotos, inclusive”.

A essa “querela repentinista” lhe respondei: ““Estamos felizesde mais esta oportunidade de divulgar Zubiri. Temos certeza que tua mão ajudou muito no tempo que tinhas a responsabilidade de intuir e fazer possível divulgar o melhor da cultura do século passado. O projeto Zubiri deve muito a você. Espero que continue. Estaremos,  prontos.”.

Seguindo desafio respondeu: “Imagina, eu não fiz nada. O senhor é que é a parte fundamental de tudo isso. Eu não fiz nada. Nem entendo direito algumas coisas sobre o Zubiri, mas tenho um carinho especial por esse “moço”! 

Mas, ela seguiu cobrando seu pequeno favor: “Eu preciso desse verbete para o fim da semana, será que o senhor consegue me mandar?”. A minha resposta foi: “o que você pede não é nenhum pequeno e nem grande favor, é o nosso dever por aquela que tanto nos ouviu, nos entendeu e nos motivou, prezada Bete”.

Quando mandamos e remandamos, escrevemos: “Aqui está “teu pequeno favor” com carinho e motivação para que continues sendo gente e competente. Muito obrigado querida Bete”.

Ela então continuao puxando o diálogo: “Estamos felizes de mais esta oportunidade de divulgar Zubiri. Temos certeza que tua mão ajudou muito no tempo que tinhas a responsabilidade de intuir e fazer possível divulgar o melhor da cultura do século passado. O projeto Zubiri deve muito a você. Espero que continue. Estaremos  prontos”.

Aí Bete se sintiu no seu ímpeto de gente que quer fazer as coisas de sua responsabilizdade: “Só que o senhor sabe que eu sou da Terrinha, né? Minha família toda é da Ilha da Madeira. Então somos parceiros nessa “união ibérica”!  Grande abraço e fique bem. Bete”.

Verbete Encilopédia digital da Barsa Planeta.

Bete de Abreu que iniciou apenas como gerente, sempre nos acompanhou como “madrinha” da publicação da Inteligência senciente de Zubiri, junto com Natureza, História, Deus e Cinco lições de filosofia e assim nos guiou e “mimou”, com sua pessoa e competência ímpar. Guardo, até hoje, a quantidade e-mails deste ping-pong comercial, mas profundamente inteligente, competente e amigo.

Na ocasião, foi gerente e mediadora do editor Edson Filho, que além da tarefa normal e minuciosa da publicação de qualquer autor, sentiu que se deparava com um filósofo diferente, de qual não tinha obrigação de ser epecialista. É verdade que cada pensador de qualquer área se expressa de forma da própria, embora diferente do que se falou antes, todavia fala desde sua situação histórica.  Em Zubiri sentiram uma espécie de transgressão após estudar os fubdanebtis e a elaboração de quse toda a filosofia. Seu estilo e sua linguagem precisavam ser mais cuidados para intertrepar o que realmente Zubiri quis falar e como falar. Dentro da É realizações ela se encontrou, no ano de 12010, com Felipe Cherubin. “Um bom menino”, falava frequentemente dele. Tinham uma cumplicidade de trabalho e de amizade.

A Editora devia ter um cuidado diferente, porque sentia que essa tradução e publicação deviam ficar na história da presença de Zubiri no Brasil. Tinha sido um filósofo do século XX, pouco entendido e divulgado, pela forma especial de pensar. E pela sua inspiração de que a realidade é antes do ser. Essa tradução e publicação tinha que ser “clássica”, não somente pela sua proposta, mas repeitada e consultada com confianza. A tradução acurada de Carlos Nougué oferecia firmeza linguística e filosófica nessa empreitada. E os estudiosos brasileiros poderiam se reportar a ela com segurança intelectual. Assim, quem cuidou dessa dinâmica empressairal e filosófica foi Bete. Que nos revelou em e-mail: “Também sempre me senti bem com vocês — foi um projeto que adorei fazer. Um dos mais bacanas. Eu não entendia muita coisa, mas consegui apreender um pouco da ideia de Zubiri, aprender sobre ele. Lembro que o Felipe ficava me explicando tudo, tentando dar exemplos concretos”. 

                Foram momenos incríveis, e até urgentes, como é normal nessa tarefa empressarial, de sintonia crescente, sempre respeitando o lugar decada dialogante. Por isso, o único que cabe de respeio a sua presença é chamar-la de nossa mardrinha.

Já no final desta empretida, estontoante para mim, saiu da editora, continuando a tarefa de todos crescendo e ganhando a vida. Vários anos depois em 2013 recebi um é-mail carinhoso,  no meio dos que siguíamos comungando nossas vidas, pedindo “um pequeno favor”. Fiquei surpresso e ao ler e ver aquela Bete competente e amiga.

“Professor, querido, como estão as coisas? Espero que esteja tudo bem, que esteja com saúde e feliz. Novidades lá da editora? Como andam os livros de Zubiri? Estão saindo? Estou escrevendo para pedir um pequeno favor, mas se não puder eu entendo perfeitamente pois sei que é ocupado.

Eu precisava de uma pequena biografia do Zubri e pensei que se o senhor não poderia escrevê-la.

É para a enciclopédia digital da Barsa Planeta. Eu estou fazendo autualizações para eles e vi que não tem o verbete do Zubiri lá, então queria colocá-lo, devido à importância.

Pedi também para o Felipe me ajudar com a minibibliografia do Bernard Lonergan.

Podeira ser um apanhado geral. Não pode ser um texto longo também. Seria um texto para mostrar em linhas gerais quem foi Zubiri e a importância dele e de suas obras. Um verbete de inciclopédia, sabe?

Seria possível? É por uma boa causa. Porque daí, teremos Zubiri na Eciclopédia Digital também. Obrigada. Abraços saudosos de Bete (15/03/2013).

Dias depois do pedido, em diálogo constante, nos esclareica algunas condições sobre o texto. Ela nós alertava, que não poderia colocar nenhum nome. Nem ela e nós sabiamos, que isso não era o nosso propósito. E ela nos motiava: “Mas eu sei que isso não será problema, pois o importante é divulgar o Zubiri. O que peu posso fazer também, depois, é falar para eles colocarem uma página especial na enciclopédia sobre o Zubiri e daí, poderemos pôr fotos, inclusive”.

A essa “querela repentinista” lhe respondei: ““Estamos felizesde mais esta oportunidade de divulgar Zubiri. Temos certeza que tua mão ajudou muito no tempo que tinhas a responsabilidade de intuir e fazer possível divulgar o melhor da cultura do século passado. O projeto Zubiri deve muito a você. Espero que continue. Estaremos,  prontos.”.

Seguindo desafio respondeu: “Imagina, eu não fiz nada. O senhor é que é a parte fundamental de tudo isso. Eu não fiz nada. Nem entendo direito algumas coisas sobre o Zubiri, mas tenho um carinho especial por esse “moço”! 

Mas, ela seguiu cobrando seu pequeno favor: “Eu preciso desse verbete para o fim da semana, será que o senhor consegue me mandar?”. A minha resposta foi: “o que você pede não é nenhum pequeno e nem grande favor, é o nosso dever por aquela que tanto nos ouviu, nos entendeu e nos motivou, prezada Bete”.

Quando mandamos e remandamos, escrevemos: “Aqui está “teu pequeno favor” com carinho e motivação para que continues sendo gente e competente. Muito obrigado querida Bete”.

Ela então continuao puxando o diálogo: “Estamos felizes de mais esta oportunidade de divulgar Zubiri. Temos certeza que tua mão ajudou muito no tempo que tinhas a responsabilidade de intuir e fazer possível divulgar o melhor da cultura do século passado. O projeto Zubiri deve muito a você. Espero que continue. Estaremos  prontos”.

Aí Bete se sintiu no seu ímpeto de gente que quer fazer as coisas de sua responsabilizdade: “Só que o senhor sabe que eu sou da Terrinha, né? Minha família toda é da Ilha da Madeira. Então somos parceiros nessa “união ibérica”!  Grande abraço e fique bem. Bete”.

Um pouco da história do “Pequeno favor” da Bete. Dessa forma todos colaboramos para a empreitada em dia da Enciclopédia digital da Barsa Planeta. Seguir buscando na publicação da Barsa digital o verbete sobre Xavier Zubiri. E, abraços amigos “do moço Zubiri” e dos “moços pequenos Felipe e José” para a “moça madrinha Bete”.

Verbete Enciclopédia digital da Barsa Planeta.

O significado da filosofia de Xavier Zubiri na filosofia espanhola

José Manuel San Baldomero Ucar.

(Aula Inaugural do ano letivo 1998-1999, ministrada na sede da Universidade de Educação a Distância de La Rioja, Espanha, em 28/10/1998, por José Manuel San Baldomero Ucar)

Traduzido, para o lançamento da Trilogia senciente em São Paulo em 2011 -Espaço Cultural. Editora É Realizações.


Por José Fernández Tejada e Fernanda Maria da Silva Fernández Tejada. Foram entregues mais de 30 exemplares para os participantes.

Ilustres autoridades e queridos amigos e amigas.

No dia 4 de dezembro de 1898, portanto há cem anos, nasceu em San Sebastián um menino que fora batizado, já no dia seguinte ao seu nascimento, na paróquia de Santa Maria, e lhe colocaram os nomes de José, Francisco, Xavier e o sobrenome Zubiri Apalategui.

Eu realmente não sei se comemorar centenários tem um significado importante na cultura de todos os povos. Entretanto, tenho certeza de que fazer tal comemoração no centenário do nascimento de Xavier Zubiri significa mais do que homenagear a memória de uma pessoa já conhecida. Na realidade, significa apresentar um grande desconhecido.

Escolhi palestrar sobre o significado da filosofia de Zubiri na filosofia espanhola porque qualquer outra questão sobre o seu pensamento teria a desvantagem de ser explicado e também ser entendido com muita dificuldade. Isso ocorreria por não se conhecer, de antemão, o léxico metafísico zubiriano, que é muito rico e denso e nada fácil de entender.

Afinal, mesmo hoje, cem anos após seu nascimento, o significado da filosofia de Zubiri permanece um grande mistério, tal como escreveu Diego Gracia, e seu desconhecimento é um “fato cultural escandaloso”, como também afirmou Pedro Cerezo Galán.


De acordo com Diego Gracia, a cultura espanhola sofreu por muitos anos o caso Zubiri de forma realmente conflituosa: mais emocional que intelectual. Houve adesões inquebráveis e rejeições absolutas, motivos pelos quais Zubiri ainda hoje é um mistério.

Por que isso aconteceu? Em que consiste o caso Zubiri?

Para começar a elucidar esse mistério e eliminar o escândalo de sua ignorância, tentarei esboçar a resposta aproximada para duas questões fundamentais:

Quem é Xavier Zubiri Apalategui? Qual é o significado de sua filosofia?

Itinerário da vida de Zubiri


De maneira sucinta, vamos delinear, em primeiro lugar, características e observações do transcurso de sua biografia. Elas são marcos que balizam o espaço que vai de San Sebastián a Madri, passando por Louvain, Freiburg, Berlim, Paris e Roma, e que envolvem os anos de 1898 a 1983.

Xavier Zubiri, como já foi dito, nasceu em 4 de dezembro de 1898, em San Sebastián. Frequentou uma creche onde, tal como na sua casa, só se falava o euskera (língua com raízes anteriores a indo-europeia), e até os seis anos de idade essa foi a sua língua de costume. Em 1905 começou a estudar no Colégio dos Maristas dessa cidade, e em 1915 se formou no ensino médio pelo Instituto de Ensino Secundário de San Sebastián.


No início do curso ministrado entre 1915-1916, entrou no Seminário Conciliar de Madri, onde estudou, de 1915 a 1919, os quatro anos de teol ogia e filosofia de regulamentação da carreira eclesiástica, sob a orientação do padre e professor de filosofia Juan Zaragüeta. Sua formação no seminário de Madri era obrigatoriamente completada participando do curso de filosofia da Universidade Central. Foi nessa instituição que Zubiri conheceu,
em janeiro de 1919, o professor José Ortega y Gasset, com o qual teve uma amizade duradoura, que foi além de suas diferenças filosóficas.


Em 1920 foi para Louvain para graduar-se e doutorar-se em filosofia católica no Instituto Superior de Filosofia, centro patrocinado pelo Cardeal Mercier, como propulsor do movimento da restauração escolástica. Com a devida licença, Zubiri se mudou para Roma, onde obteve, através de um exame especial realizado em novembro, o doutorado em teologia no Collegium Universitas Theologicum Romanae. Voltou para Louvain, e
em 24 de fevereiro de 1921 obteve a licenciatura em filosofia com distinção. No mesmo mês de fevereiro Zubiri defendeu a sua dissertação, orientada por Leon Nöel, com o título Le Problème de l’Objectitvité d’Après Ed. Husserl. I. La Logique Pure.


Em setembro do mesmo ano foi ordenado diácono em San Sebastián. No último trimestre de 1921, Zubiri conseguiu a graduação e o doutorado em Madri. Ortega y Gasset foi o orientador na sua tese de doutorado, Ensayo de una Fenomenologia del Juicio (a primeira obra sobre fenomenologia na Espanha). No dia 21 de maio de 1921, à sua tese foi atribuída a qualificação com laude. E, em outubro, recebeu um prêmio especial pelo seu trabalho.
Em 31 de março de 1923 lhe foi oferecida uma vaga como professor auxiliar na universidade Central por três anos. Entretanto, ele renunciou em 11 de junho do mesmo ano para se concentrar mais em um trabalho pessoal. Na realidade, nessa época ele já estava matriculado na Faculdade de Ciências Matemáticas.


Em novembro de 1926 Zubiri se apresentou ao concurso da cadeira de história da filosofia da Universidade Central, que ficara vaga poucos meses antes, após a morte repentina de seu titular Adolfo Bonilla San Martín. O resultado foi a aprovação por unanimidade. Zubiri estava com 28 anos e estreou como professor catedrático em janeiro de 1927, fechando o curso 1927-1928.

De 1928 a 1931, durante três anos letivos consecutivos, Zubiri foi estudar na Alemanha, por sugestão de Ortega y Gasset. De 1928 a 1930 permanece em Freiburg, frequentando os cursos de Husserl e Heidegger para completar a sua formação filosófica. Na festa dada por Husserl em sua casa, para comemorar sua aposentadoria, ele conheceu Edith Stein, a famosa discípula judia de Husserl, que logo depois passou a freira
carmelita descalça, e posteriormente fora assassinada pelos nazistas. O Papa João Paulo II a canonizou em 11 de outubro de 1998.

Durante os anos de 1930 e 1931 viveu em Berlim, na famosa sociedade científica Kaiser Wilhelm, estudando física teórica com três prêmios Nobel: Max Planck, Erwin Schrödinger e Albert Einstein.


Ao retornar da Alemanha, Zubiri deu suas aulas de filosofia na Faculdade Central, chamada Faculdadelaboratório. Nela, Manuel García Morente, como decano (1931-1936), desenvolveu uma atividade eletrizante na reforma universitária, que possibilitou o ambiente de reforma política que a Segunda República Espanhola havia trazido em 1931. Nos verões de 1933, 1934 e 1935 Zubiri também participou muito ativamente, com
Pedro Salinas, Ramón Menéndez Pidal e Blas Cabrera, na organização dos cursos de verão da Universidad Internacional de Santander.

Na época da revolta do General Franco, em 1936, Zubiri estava em Roma. Ele havia viajado em 1935 para estudar línguas orientais. Zubiri nessa data já dominava grego, hebraico e latim (além de euskera, espanhol e francês). Mas naquela época queria aprender, ou pelo menos familiarizar-se, com a linguagem suméria, akádia, hitita, iraniana e aramaica. O jesuíta orientalista Anton Deimel, professor do Instituto Bíblico, o ajudou a introduzir-se na língua suméria, hebraica e aramaica. O espanhol Luis Palácios, naquele momento professor do Centro Santo Anselmo, Centro Universitário dos Beneditinos em Roma, o auxiliou na aprendizagem do aramaico.


Mas havia um segundo motivo pelo qual Zubiri viajou para Roma: conseguir resolver seu estado eclesiástico pessoal na Sagrada Congregação De Disciplina Sacramentorum. Alcançado o objetivo de laicização, Zubiri casou-se na mesma cidade, em 23 de março de 1936, com Carmen Castro, filha de Américo de Castro e titular da cadeira de Língua e Literatura Espanhola do Instituto de Ensino Secundário de Madri. Ela tinha a aprovação do Conselho de Ampliação de Estudos para preparar sua tese de doutorado.

Em 8 de setembro de 1936, Zubiri deixou Roma (por inquietações e medo do apoio de Mussolini a Franco) e foi para Paris. Ali ele e Carmen viveram no Colégio de Espanha da Cidade Universitária até o outono de 1938. Zubiri continuou a trabalhar com matemática e física. Graças a Blas, Cabrera o admitiu nas aulas do Prêmio Nobel de Física de Luis de Broglie, dos Joliot-Curie e do Cartan. Marcel Bataillon apresentou-o à Masignon e ao famoso linguista iraniano Benveniste. Jacques Maritain, que se tornou amigo de Zubiri na Universidade de Verão de Santander, agora o ajudava, também, a se relacionar com um grupo seleto de orientalistas como Dhore, De Menasce, Laporte e Labat. Em junho de 1938, apresentado por Masignon e Benveniste, foi eleito para a Societé Asiatique. Naquele mesmo ano ele recebeu o diploma de Hautes Etudes. Maritain conseguiu que Zubiri desse dois cursos de curta duração sobre história das religiões no Institut Catholique.

Em 2 de setembro de 1939, um dia após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, praticamente sem documentos e em situação apátrida, o casal regressou a Madri. Perceberam que seriam impraticáveis algumas ofertas que receberam para seguir seus estudos em Uppsala e em Jerusalém.


Não foi fácil a situação de Zubiri durante o novo regime. Discípulo do professor Ortega y Gasset, formado nos inovadores ares filosóficos e científicos europeus, padre secular e, ainda, casado com a filha do intelectual republicano Américo Castro. Estes eram os ingredientes de uma situação pessoal bastante problemática no momento para não ter a simpatia do Novo Estado nacional-católico.

No entanto, o casal Zubiri foi bem recebido em Madri pelo ministro da educação Ibañez Martin. Mesmo assim Carmen Castro aparece em uma lista de catedráticos demitidos de seu cargo no Instituto, onde era concursada. No Natal de 1939, o ministro também comunicou a Zubiri que ele não teria problemas para ficar como catedrático em Madri. Porém, o arcebispo Leopoldo Eijo e Garay fez uma interpretação restritiva da lei canônica sobre sua secularização e forçou a transferência de Zubiri para Barcelona.


Em Barcelona logo consegue grande êxito com os alunos, mas certos acontecimentos o levaram a afastar-se voluntaria e definitivamente de sua cadeira de filosofia. Por quê?


Em primeiro lugar, um dia um decano falangista o repreendeu por explicar Kant na aula de história da filosofia, quando deveria abordar São Tomás de Aquino.

Além disso, houve o episódio da tese de doutorado de Julian Marías. Zubiri, como orientador da tese, avisou a Marías que a leitura de sua tese poderia ser imprudente naquela situação política. Apesar de tudo, Marías decidiu apresentar a tese. Porém, como Zubiri sabia da animosidade que alguns filósofos, membros da banca examinadora, tinham contra ele, optou por não comparecer para não prejudicar o aluno, mas enviou-lhe um telegrama de apoio irrefutável. Juan Zaragüeta assumiu a responsabilidade de defender Marías. Mas uma intriga interna do dominicano Manuel Barbado levou ao fato incomum de suspender uma tese de doutorado. Isso ocorreu porque Marías, um jovem muito promissor, não escondia ser discípulo de Ortega y Gasset e de Zubiri.

A última gota d’água: Zubiri recebeu uma comunicação por escrito do decano da faculdade com a ordem de que os professores deveriam começar cada aula com demonstrações de apoio ao regime.

Em junho de 1942 Zubiri renunciou à sua cadeira de história da filosofia, reconhecendo a incompatibilidade do modelo da Universidade Nacional-Católica com a liberdade necessária para a investigação e o ensino. Esse fato confirmou a depuração já feita em 1937 pelo governo da Frente Popular. Zubiri tornou-se, assim, como qualificou Elias Diaz, “um exilado no interior”.
Depois disso o casal Zubiri tentou voltar para Madri, tendo apenas uma pequena economia de 125 pesetas. Essa volta só foi possível graças a um cheque de seu amigo Alejandro Araoz (a quem Zubiri dedicaria seu primeiro livro, Natureza, História, Deus), equivalente ao salário de um ano de professor. Além disso, as traduções, as aulas particulares, as colaborações na revista Escorial e a edição, logo depois, de Natureza, História, Deus, foram os primeiros socorros para sua sobrevivência.

Um grupo de amigos que se reunia semanalmente com Zubiri para discutir questões filosóficas teve a ideia de transformar essas reuniões domésticas em reuniões com um grupo maior de profissionais. Pedro Lain Entralgo e Carlos Jiménez Diaz, ambos médicos, lideraram um grupo de amigos com os quais organizaram as primeiras conferências-colóquios semanais. As companhias de seguro La Unión e El Fênix cederam o local e os frequentadores pagavam voluntária e generosamente uma quantia de dinheiro. Pouco depois essas conferências deixaram de ser coloquiais e se transformaram em Lecciones de Filosofia. Portanto esses cursos de Zubiri foram originalmente uma ideia para a obtenção de reserva econômica para o sustento digno do filósofo.


Em 1947, Zubiri se reencontrou com seu amigo Juan Lladó. Este era então banqueiro e presidente do Banco Urquijo, fundador e mecenas da revista Cruz y Raya, e foi um dos participantes na redação da Constituição da República de 1931. Ele quem proporcionou a Zubiri uma renda anual para se dedicar a seus estudos, com a única exigência de ministrar cursos anuais de filosofia nas sedes habilitadas pela Sociedad de Estudios y Publicaciones, já existente dentro da instituição bancária.


De 1942 até sua morte, a vida de Zubiri transcorreu silenciosa no exílio interior de sua casa em Madri. Suas saídas se limitavam, quase sempre, às exigidas pelos cursos anuais nas diversas sedes da Sociedad de Estudios e Publicaciones.

Durante anos: rasteiras, silêncio e perseguição. Rasteiras foram, por exemplo, as dificuldades com o clero nacional-católico no verão de 1943. Nessa data estava na imprensa o livro Natureza, História, Deus. No entanto, os maldosos censores foram dando o imprescindível Nihil obstat a cada artigo (já antes publicados em revistas) que compunha o livro, motivo pelo qual sua edição fora atrasada um ano. Silêncio porque, apesar do sucesso editorial em 1944 de Natureza, História, Deus, as revistas do Conselho Nacional de Investigações Científicas, Arbor e a Revista de Filosofia nem sequer mencionaram o livro, mesmo não sendo abundante a produção bibliográfica espanhola na área da filosofia. Mas, acima de tudo, a perseguição à sua pessoa e ao seu trabalho.


De 1942 a 1958, alguns importantes representantes do clero se envolveram em uma campanha de desprestígio do trabalho de Ortega, proibindo a leitura e a distribuição de seus livros na Espanha. A perseguição atingiu seu auge em 1958, após a morte do filósofo, quando o dominicano Santiago Ramírez pretendia “mostrar que o pensamento filosófico de Ortega é contrário aos dogmas e princípios da religião católica e que sua leitura é perigosa para aqueles que aceitam a fé e o ensinamento da Igreja”.

Zubiri fez profissão pública de “Mi Maestro Ortega” em 18 de março de 1936 nas páginas da revista El Sol num artigo intitulado Ortega, Professor de Filosofia, e outro em 19 de outubro de 1955 no ABC, com motivo da morte de Ortega. Por conseguinte, a operação ortodoxa que levou ao Índice de livros proibidos, A Agonia do Cristianismo e Do Sentimento Trágico da Vida de Miguel de Unamuno, também dirigida contra Ortega e Zubiri. Os ataques continuaram contra Zubiri, especialmente no artigo Em Torno ao Problema de Deus.
No entanto, esses ataques adquiriram uma virulência especial no dominicano Teófilo Urdánoz, em 1946, na revista La Ciência Tomista. Urdánoz coloca Zubiri dentro do antropocentrismo existencialista e o considera revolucionário e totalitário em comunhão espiritual direta com as ideias de Unamuno e Ortega.

O dominicano “nega o pão e o sal”. Quer dizer: nega o lugar de Zubiri como um historiador da filosofia, que considera “a história das aberrações humanas”, e nega também sua força de pensador, que aponta para um sistema próprio no panorama filosófico do momento. Deve ser dito, no entanto, que Zubiri também recebeu reconhecimentos.

Em 1953 recebeu uma homenagem (revista Alcalá, dois volumes) pelos seus 25 anos como professor universitário. Em 1968, por seus setenta anos, recebeu outra grande homenagem de seus velhos amigos, intelectuais e prestigiados cientistas espanhóis da época e dos exílios exterior e europeu.


Em 1973, Zubiri e sua obra receberam mais um decisivo reconhecimento público: ele foi convidado pelo prelado geral dos jesuítas Pedro Arrupe para dar um curso de doze aulas sobre o problema teológico do homem na Universidade Gregoriana em Roma. Na verdade, não foi a primeira vez que Arrupe reconhecia o valor de Zubiri e de sua filosofia, porque desde 1965 havia ordenado que o jesuíta Ignácio Ellacuría viajasse todos os anos de El Salvador para Madri a fim de ajudar Zubiri na publicação de seus escritos inéditos.


Mas Zubiri, além do duro exílio interno na sua casa em Madri, ainda, podemos dizer, sofre de outro exílio, não tão dramático como o da universidade, mas não por isso menos sentido. Até 1980, nunca havia dado nenhuma aula em sua terra natal. Porém, isso aconteceu em 1º de outubro desse ano, aos 81 anos. Zubiri fez seu discurso, como Doctor Honoris Causa em teologia concedido pela Universidade de Deusto, por ocasião do centenário da sua Faculdade de Teologia. Dessa forma os jesuítas acabam com seu exílio de Euskadi.


Pouco antes de sua morte chegaram os reconhecimentos oficiais. Em novembro de 1979, o Presidente da República Federal da Alemanha condecorou Zubiri com Das Grosse Verdienst Kreuz em sua categoria mais elevada para quem não é chefe de Estado.

Em 18 de outubro de 1982, Xavier Zubiri e seu amigo Severo Ochoa, laureado com o Nobel, receberam, do Rei Juan Carlos, o Prémio Ramón y Cajal de Investigação, concedido pela primeira vez pelo Ministério da Educação e Ciência.


Zubiri morreu em 21 de setembro de 1983, dia de São Mateus. Há um aspecto simbólico acerca de sua morte que não passou despercebido pela imprensa: o sepultamento por vontade própria no cemitério civil, ao lado de seu sogro, Américo Castro, político e intelectual heterodoxo em tantas formas. O fato tem todo um simbolismo do que representa o pensamento e a vida de Zubiri. Com a decisão de ser enterrado no cemitério civil, mesmo sendo um crente cristão, Zubiri deu a lição final de sua secularizada
filosofia: uma ponte entre a margem sagrada e a margem profana, afirmando sua radical unidade pela religação ao poder do real.

O significado das linhas de filosofia de Zubiri


Se delinear uma vida complicada de 85 anos foi difícil, explicar o significado de uma história intelectual e de uma filosofia tão complexa como a zubiriana, sempre em evolução até seu resultado final, é tarefa impossível. Entretanto, tentarei, também, delinear precariamente, em esboço, algumas notas que, do meu ponto de vista, constituem o significado da filosofia zubiriana na filosofia espanhola.

Para essa tarefa, vou usar uma anedota que, metade a sério e metade brincadeira, o próprio Zubiri associou com o destino intelectual de sua vida e ao sentido último de sua própria obra, de acordo com sua esposa Carmen Castro.


Trata-se do significado em euskera de seu nome e sobrenome. Em euskera, Xavier significa “casa nova”.


Como se sabe, esta fora a designação dada ao castelo da família Jaso, em Navarra, que foi a família de São Francisco Xavier. Zubiri ou Subiri significa, em euskera, “ao lado da ponte”. Apalategui tem em euskera o significado de “uma prateleira do armário” ou “uma prateleira”, mas no basco-francês significa simplesmente “biblioteca”.

Biblioteca (Apalategui), ponte (Zubiri) e casa nova (Xavier). Aqui estão três símbolos pelos quais podemos tentar compreender o significado da filosofia de Zubiri.

1 Apalategui, “Biblioteca”.


Vamos começar com o último: Apalategui, biblioteca. Zubiri foi um escritor de livros e artigos que já ocupam um lugar importante na produção bibliográfica da cultura filosófica espanhola. O quanto escreveu Zubiri? Onde escreveu? Como escreveu? Sobre o que escreveu?

A obra de Zubiri inclui 19 livros publicados, com 28 reedições, oito traduções – alemão, inglês, italiano [agora também em português, pela Editora É) –, 30 artigos, alguns também traduzidos para francês, inglês e italiano, 18 prefácios, introduções e epílogos, e outras obras menores. Por outro lado, ainda não foram publicados cerca de 20 cursos oferecidos na Sociedad de Estudios y Publicaciones.
Onde escreveu? Sem contar as publicações acadêmicas (Louvain e Madri) e outras menos significativas, Zubiri escreveu principalmente nas revistas Cruz y Raya, Revista de Occidente, Escorial, Editora Nacional, Sociedad de Estudios y Publicaciones e Alianza Editorial. Como escreveu Zubiri? Os principais caracteres formais da escrita filosófica zubiriana são: a autenticidade, a integridade, a concisão, a cristalinidade e patetismo, como fora ressaltado em várias ocasiões por Lain Entralgo. Esse conjunto de caracteres pode ser resumido numa nota radical e constitutiva de sua escrita: rigor. Zubiri escreve com rigor. Rigor significa, acima de tudo, a ruptura consciente com o ensaio como forma de expressão filosófica, que é imediatamente percebida por quem se aproxima de sua obra pela primeira vez. Fazer filosofia com rigor significa pensar e escrever sem concessões para o público e, ainda estar a salvo dessas tentações de publicidade, propaganda e burocrático-administrativos, que normalmente acocham em nosso país o exercício público da profissão de filósofo.
Sessenta anos de dedicação à filosofia, confrontando-se com os magos e os pirotécnicos da linguagem filosófica, fizeram de Zubiri um artesão do conceito e da palavra na mais séria tentativa para elevar a língua espanhola a um nível filosófico de coerência e disciplina a que nunca chegou. Escrever com rigor não é mumificar nem arcaizar. Com completo domínio da terminologia filosófica, Zubiri procurou injetar nas palavras o sentido que exigia o pensamento. Para tal rejuvenesceu arcaísmos, Espaço Cultural É Realizações
Xavier Zubiri – Homenagem aos trinta anos da Trilogia Senciente mergulhou nas profundezas das etimologias dando significado rigoroso aos termos da linguagem coloquial, e com seu “talento denominador” criou uma infinidade de neologismos quando o léxico velho se mostrava incapaz de expressar as suas descobertas.


Sobre o que escreveu? Tendo em conta a produção já realizada, mas não publicada na íntegra, poderíamos falar que Zubiri escreveu sobre inteligência, realidade, Deus, homem e história.


Zubiri primeiro escreveu sobre o problema da inteligência. Esse problema da inteligência ocupa muitas páginas na produção zubiriana. Portanto, sua contribuição decisiva materializou-se a partir do ano de 1976, quando começou a escrever o manuscrito que mais tarde se tornaria a Trilogia da Inteligência Senciente. A ela dedicou praticamente seus últimos sete anos e foi publicado a partir de 1980, em três volumes, com os títulos:
Inteligência e Realidade, Inteligência e Logos e Inteligência e Razão. Zubiri desenvolveu sistematicamente, nessa obra, uma teoria de inteligência para responder, de forma mais implícita do que explícita, a muitas das objeções decorrentes da hesitação temerosa dos leitores distanciados e próximos de Sobre la Esencia.


Zubiri escreveu, em segundo lugar, sobre o problema da realidade. Sobre la Esencia (1962) é a elaboração mais sistemática e precisa das obras de Zubiri sobre a realidade. Mas posteriormente ele deu alguns cursos importantes sobre o mesmo tema. Por exemplo, o livro Estrutura Dinámica de la Realidad e, ainda, o importantíssimo texto Respectividad de lo Real. Zubiri também tem alguns estudos cosmológicos. Entre seus escritos há materiais muito elaborados para pensar sobre um corpo de estudos cosmológicos: um longo estudo sobre a matéria, escrito em 1973; outro curso com quatro aulas sobre o espaço (1973), publicado em 1974 em Realitas I; ademais, outro com duas aulas sobre o tempo (1970),
que foi parcialmente elaborado no texto El Concepto Descriptivo del Tiempo. E, em 1996, dois cursos (de 1970 e 1973) e outros textos foram publicados sob o título de Espacio. Tiempo. Materia.


Em terceiro, Zubiri escreveu sobre o problema de Deus. Esse tema aparece prematuramente nas preocupações do jovem Zubiri, e quase em todas as obras dedicadas ao estudo de acesso do homem a Deus levam no seu título a palavra “problema”: Sobre el Problema de Dios (1935), El Problema de Dios (1948-1949), Introducción al Problema de Dios (1963), El Problema Filosófico de la História de las Religiones (1965), El Problema de Dios en la História de las Religiones (1965), El Hombre y el Problema de Dios (1968), El Problema Teológico del Hombre: Dios, Religión, el Cristianismo (1971-1972), El Problema Teologal del Hombre (1975), El Hombre y Dios (1984), El Problema Teologal del Hombre: Cristianismo (1997). Somente a lista de seus títulos reflete que, para Zubiri, Deus, a religião e a história das religiões são questões filosóficas que preocuparam o autor ao longo de sua vida. Sua descoberta central é o conceito de religação, em resposta ao problema teologal do homem, e não a um problema teológico. Zubiri enfatizou muitas vezes que os problemas são diferentes: o teologal é o que envolve a versão ao problema de Deus e o teológico é o que envolve a Deus mesmo.


Em quarto lugar escreveu sobre o homem. Como descreveu Ellacuría, a preocupação e a ocupação de Zubiri sobre o problema filosófico do homem foi constante e ininterrupta ao longo de seus mais de sessenta anos de produção teórica. Embora ele não tenha publicado um livro definitivo sobre o homem, podemos dizer que tudo o que fora escrito e falado filosoficamente por Zubiri tem a ver com o homem. E isso se dá seja porque o ser humano torna-se objeto imediato de sua reflexão, seja porque o ser humano fica iluminado pelo menos imediatamente por essa mesma reflexão. A verdade, entretanto, é que os escritos de Zubiri são mais de índole metafísica que antropológica. Zubiri tem um rico histórico de palestras e escritos que apresentam, no todo ou em parte, como tema o homem, do qual somente uma parte está publicada: El Origen del Hombre, El Hombre Realidad Personal, El Problema del Hombre, El Hombre y su Cuerpo, Notas sobre la Inteligencia Humana, La Dimensión Histórica del ser Humano, El Problema Teologal del Hombre e Sobre el Hombre (1986).


Em quinto lugar, Zubiri escreveu sobre história e história da filosofia. Os títulos expressivos dessa abordagem são: Sobre o Problema de la Filosofia, Hegel y El Problema Metafísico e Filosofia y Metafísica. Estes dois últimos estudos foram publicados no livro Natureza, História, Deus. O último texto mencionado foi dividido em duas partes: a primeira intitulada La Filosofia y la Justificación de su Objeto y a segunda Qué es Saber?
Ainda escreveu Cinco Lecciones de Filosofia (1963), La Dimensión Histórica del ser Humano e Los Problemas Fundamentales de la Metafísica Occidental (1994)
que completam, por agora, o panorama da obra escrita de Zubiri sobre a história da filosofia.


Aqui concluímos uma breve e forçada revisão da densa biblioteca (Apalategui), criada em sua vida por Xavier Zubiri.

2. Zubiri, “Ponte”


Como mencionado, o nome Zubiri em euskera é outro símbolo do destino e do significado da obra de Xavier Zubiri. “Zubiri” significa, em euskera, junto à ponte. Esse nome foi escolhido na Idade Média para nomear uma pequena cidade do vale de Esteribar (Navarra), localizado na margem direita do rio Arga, no local onde uma ponte fora construída para possibilitar a rota de peregrinação que vinha de toda a Europa e por Roncesvalles até Santiago de Compostela. Simbolicamente, então, Zubiri significa a ponte no caminho
para a Alemanha.


Certamente não foi Zubiri a primeira ponte intelectual estendida desde Espanha para a Alemanha. Na verdade, a germanofilia filosófica despontou na vida intelectual espanhola com a visita de Julian Sanz del Rio a Heidelberg, durante o curso de 1843 à 1844. Continuou com a viagem para Leipzig com Ortega y Gasset em 1905 até 1907 e ainda com a viagem de Zubiri a Freiburg e Berlim de 1928 a 1931. Essa viagem realizada por Zubiri deve ser inserida numa tradição que precisa ser levada em conta para compreender o
sentido e o alcance da estadia do autor na Alemanha.


Quando Zubiri viaja, em 1928, à capital da Floresta Negra, aconteciam os chamados “anos míticos deFreiburg” (1928-1933). Naqueles tempos, ao lado de Husserl, como professor emérito e de Heidegger, davam suas aulas o historiador H. Friedrich, o filólogo Fraenkel, o economista Eucken e o sucessor de Heidegger, W. Szilasi. Nesses anos estudaram em Freiburg Karl Löwitt, Hannah Arendt, Edith Stein e Leo Strauss.


Em Berlim, como dissemos, Zubiri estudou física teórica na famosa sociedade científica Kaiser Wilhelm com Plank, Schrödinger e Einstein. Aqueles foram os dias em que, como ele mesmo costumava falar, produzir física na Alemanha era “um fato biológico, um fato tão natural como o cabelo produzir caspa”.


Zubiri, a ponte para a Alemanha, aparece, portanto, como uma ponte com três arcos. Um arco com a filosofia de Martin Heidegger, o outro arco para a Grécia onipresente, e um terceiro arco para a física.


2.1. Zubiri, a ponte para Martin Heidegger.


Pode-se dizer que Martin Heidegger foi para Zubiri, como escreveu recentemente H. G. Gadamer, o que aquele mestre tinha sido para ele. De acordo com Gadamer, “Heidegger era um mestre do pensamento e um mestre do ensino, capaz de levar os alunos a outros mestres do pensamento”.


Não é fácil responder à pergunta de quais foram os conteúdos específicos da filosofia de Heidegger que convenceram Zubiri. Alguém poderia pensar que Zubiri veio de Freiburg transformado num filósofo existencialista. Entretanto, deve-se esclarecer que não há nenhuma razão decisiva para colocar o rótulo de existencialista a Heidegger e sim muitos contra. Zubiri faz a leitura de Heidegger decididamente ontológica, contrária, portanto, a qualquer interpretação existencialista ou antropológica existencial. É nesse nível ontológico (CLF, 270) onde Zubiri estabelece um diálogo crítico com Heidegger, de consequências decisivas para o pensamento zubiriano.


Pode-se dizer que, na comunicação com os seus discípulos, Heidegger aparecia como a ruptura com toda a tradição e a exigência de um novo começo filosófico muito mais radical. A filosofia de Heidegger serviu, portanto, para ratificar as carências já identificadas por Zubiri na fenomenologia de Husserl e incentivá-lo a romper o círculo encantado de consciência, com uma nova sensibilidade para os problemas filosóficos. Zubiri seguiu Heidegger no caminho que o levou a separar-se de Husserl, para fazer da filosofia uma ontologia pura e simples e despertá-lo à questão da verdade (NHD 38, 57, 61, 71,
73, 74, 82, 240, 476).


Mas acima de tudo, Zubiri acompanhou Heidegger na sua volta à Grécia. Embora Heidegger não deixasse de refletir sobre os pré-socráticos a partir do seu primeiro curso, parece que eles só foram importantes e decisivos após Ser e Tempo (1927). Essa referência constante aos gregos o fez acreditar que Heidegger sentia pelo mundo grego uma nostalgia continuadora dos diferentes ressurgimentos do sonho helenizante, que obcecou periodicamente o pensamento alemão (Goethe, Schlegel, Hegel, Nietzsche). Não é assim. Heidegger tinha afirmado a impossibilidade de qualquer “volta aos gregos” comparável com “zu zurück Kant” dos neokantianos. O que está em Heidegger é um intenso esforço para voltar-se para os gregos para compreendêlos melhor do que eles se entendiam a si mesmos, com o objetivo de radicalizar a fenomenologia fazendo de Aristóteles um fenomenólogo “avant la lettre”.


Zubiri reconheceu que foi Heidegger que revelou a importância fundamental dos filósofos gregos e encorajou-o a prestar-lhes mais atenção. Isso o levou a tomar consciência histórica da própria época e a buscar possibilidades filosóficas para o pensar desde si mesmo, através da reconstrução dos grandes motivos do passado presentes nas principais filosofias. As referências ao passado nunca tiveram para Zubiri uma função erudita e enciclopédica, mas eram possibilidades para apropriar-se do presente. Quando Zubiri
considera a filosofia como eterna repetição, como Heidegger (Wiederholung), está pensando nessa assunção de possibilidades de que falava Heidegger.


2.2. Zubiri, a ponte para Aristóteles


Em Heidegger, Zubiri encontra principalmente um grego: Aristóteles. A biografia do filósofo alemão aparece desde o início ligada à figura de Aristóteles. Como o próprio Heidegger confessou, seus interesses iniciais para a filosofia foram despertados enquanto ainda era estudante do ensino médio, com a leitura do texto de abertura do curso de 1862 de Brentano, A Significação Múltipla do Ser em Aristóteles, que em 1907 lhe deu de presente Conrad Gröber, amigo da família, pároco de Costanza (Konstanz) e depois arcebispo
de Freiburg. Esse livro, um estudo rigoroso da doutrina do ser, sensibilizou e motivou Heidegger pelo caminho do estudo contínuo de Aristóteles e da filosofia grega.
Heidegger repetida e intensamente dedicou-se ao estudo de Aristóteles. O que ele foram os temas principais de sua obra: o problema do ser é o problema mais radical por seu modo onímodo e onipresente; o conceito da linguagem (logos) como essencialmente apofânica; a compreensão da verdade como desvelamento; a relação entre Ser e Verdade; e a intelecção do ser como presença.


Zubiri assumiu todas elas, como demonstram seus escritos imediatamente posteriores ao seu retorno a Alemanha.


2.3. Zubiri, a ponte para a ciência.

Zubiri queria fazer filosofia com o rigor e a profundidade que fosse possível, mas à altura dos tempos. Essa expressão de Heidegger em O que é Metafísica significava que a filosofia, longe de negligenciar o progresso da ciência, tinha que fazer dele elemento integrante do filosofar.

A concretização de como entendia Zubiri a expressão de Heidegger “estar à altura dos tempos” está contida em seu estudo “A Nossa Situação Intelectual”. Essa situação foi caracterizada pela erupção maciça da ciência, que deixava o cientista e o filósofo no vai e vem (“corda bamba”) de três tendências muito perigosas: a positivação niveladora do saber, a desorientação da função intelectual e a ausência de vida intelectual.


Essas três tendências representavam uma ameaça radical à inteligência e constituíam o risco iminente de que deixara de existir a vida na verdade. E era isso que tinha que ser superado. Mas não abandonando a ciência pelos perigos apresentados para a vida intelectual, pelo contrário, enfrentando em cheio os desafios que o saber científico colocava. Só assim se conseguiria superar a confusão, a desorientação e o descontentamento íntimo consigo mesmo. Essa superação era para Zubiri uma exigência do nosso tempo e quem não o tentara não estava à altura de nossos tempos.


Zubiri respondeu a essa exigência de “altura de nossos tempos” de duas formas. Primeiramente, adotou um espírito científico com o próprio filosofar: a filosofia não deve deixar que nenhum outro saber a supere em exigência e rigorosidade, objetividade e autolimitação na busca das coisas como elas são ou como se encontram. Mas, em segundo lugar, tentou estar em dia, o mais possível, com os melhores conhecimentos científicos testados e os que mais se aproximavam dos cânones tradicionais da ciência.


Esse interesse pela ciência para tomar altura foi o que levou Zubiri a estudar física teórica em Berlim. Mas, antes de ir para Berlim, Zubiri estava ciente da necessidade de contar com a ciência para o afazer ilosófico. Na verdade, seu interesse pela matemática o levou para reestudo da mesma na Faculdade de Madri. Também é conhecida sua participação com Julio Rey Pastor na Secção de Matemática da Associação Espanhola para o Progresso das Ciências; ele também foi, desde 1925, sócio numerário (membro) da Sociedade
Matemática Espanhola. Berlim foi uma ponte de conhecimento e de interesses, que acarretou em estudos posteriores em Paris, com Louis de Broglie (1936-1938) e com o matrimônio Joliot-Curie. Essa ponte levou Zubiri a estabelecer uma relação intelectual e uma amizade posterior com o prêmio Nobel W. Heissenberg, que aliás esteve, várias
vezes, visitando Zubiri em sua casa no exílio madrilenho.


Em suma, como escreveu Carmem Castro, pastas inteiras cheias de escritos de filosofia e de física trouxe Zubiri da Alemanha para a Espanha. Elas estavam cheias de ideias, esboços, problemas, tensões e preocupações intelectuais. Possibilidades para investigar. Eram pedras brutas para polir, perfilar, reformar ou rejeitar, pelo artesão do conceito, a estrutura de sua própria filosofia, para uma casa nova.

3.-Xavier, “Casa Nova”


Repetimos que Xavier significa em euskera “casa nova”. A novidade na filosofia espanhola da casa construída e habitada por Zubiri no exílio interno é, do meu ponto de vista, triplo: é uma filosofia pura, é uma filosofia radical e é uma filosofia como forma de vida.


3.1. Xavier, casa nova, significa uma filosofia pura.

A casa nova que inaugura Zubiri na filosofia espanhola é aquela na qual habita uma filosofia pura. Contra qualquer tipo de concessão à dispersão temática de signo estético, político ou psicológico (casa antiga), antes de qualquer ponto de partida extrafilosófico, Zubiri foi um filósofo puro.


Zubiri pode ser justamente considerado o primeiro filósofo puro da filosofia espanhola. É verdade queo jesuíta Francisco Suárez representou na história do pensamento espanhol um elevado nível de coerência e de disciplina metafísica. Mas Suárez escreveu no século XVII em latim. Ortega, tal como Unamuno e Eugenio d’Ors foram pensadores, entretanto suas ideias se dispersaram em dissertações políticas, estéticas, morais, psicológicas, ficcionais e até mesmo irônicas e pitorescas. Principalmente Unamuno e Ortega não
puderam fazer na sua vida somente filosofia, nem filosofia pura. As urgências intelectuais de suas respectivas circunstâncias vitais fizeram com que seu pensamento filosófico andasse, inevitavelmente, misturado com a literatura e o jornalismo.


Toda a obra de Zubiri, no entanto, é estritamente filosófica. Um trabalho tão tenso, vigoroso e rigorosocomo a filosofia pura, que, como disse José Luis López Aranguren, fazem de Zubiri nem um pensador nem um intelectual, mas sempre um filósofo.


Fazer filosofia pura significava para Zubiri fazer filosofia como foi feita na Grécia. Em 1933,
portanto dois anos depois de voltar da Alemanha, escreveu em um artigo na Revista de Occidente sobre o problema da filosofia: “Com todas as suas limitações, a filosofia grega nasceu, pelo menos, por si só, enfrentando-se com as coisas em contato imediato com elas. Mas o homem da era cristã não se encontrou nunca consigo mesmo de uma forma imediata, senão mediante Deus, isto é, sempre olhando fixamente no ente infinito” (SPF, II, 117).


A criação do mundo a partir do nada, a ideia judaico-cristã com que a filosofia grega não contou foi para Zubiri o ponto de partida da teologização da filosofia. A partir desse momento não houve mais filosofia pura, porque tudo o que é chamado de filosofia de Santo Agostinho a Hegel era um imensa teologização da filosofia, não filosofia pura (CLF, iii; SPF, II, 116).


A filosofia com o cristianismo começou a ser essencialmente teológica (NHD, 229). Dessa forma o mundo perde a sua verdade, as coisas são um nada vistas desde Deus, e se elas são algo, é desde seu ato criador (SPF II, 112). A filosofia, assim, ficou instalada no horizonte do que é podendo não ser, e a metafísica se transformou em teoria da criação (SE, 200). A filosofia depois da Grécia é a filosofia do nada (SPF, II, 114). O espírito humano foi separado do universo e se projetou excentricamente sobre a divindade convertida em razão do universo (NHD, 229).


Fazer filosofia pura significou, portanto, para Zubiri, fazer uma metafísica intramundana. Com esse termo Zubiri segue uma questão heideggeriana (SE, 201, 210, 237, 303), tentando evitar a concepção da realidade como “outra” realidade separada ou anterior as coisas reais. Por isso a apresenta sempre em função da talidade das coisas reais. Contra qualquer tipo de logicismos, Zubiri reivindicou a primazia do físico. A metafísica tem de ser radicalmente “física”. Para Zubiri, físico não é nem algo natural, como oposto ao técnico ou artificial (Aristóteles), nem o que tem “physis”, natureza em si (própria), mas o físico é o fisicamente real, “puro pleonasmo, mas muito útil” (SE, 13). Físico, nesse sentido, não se opõe ao metafísico, como seria de se identificar com o empírico ou positivo, mas é por excelência o metafísico.


O físico pode, portanto, ser considerado a partir de duas perspectivas. Como um termo do saber positivo é simplesmente o que é real. E, como o objeto da metafísica é a estrutura formal e última da realidade enquanto tal. “Portanto, o que é chamado de metafísico, quando se fala de essência metafísica, é para mim mais bem conceptivo que metafísico” (SE, p. 276). “A realidade física é a realidade qua realidade, portanto, o seu caráter físico é eo ipso um caráter formalmente metafísico” (SE, 292). O metafísico, portanto, não é uma
fuga para algo diferente do físico, mas ater-se ao físico mesmo. Pois, enquanto o saber físico-positivo se atém ao que é a coisa real, a sua determinada concreção real; o saber físico-metafísico se atém ao que a coisa real enquanto tal e a estrutura da realidade enquanto realidade. Então, Zubiri procurou superar a dualidade ônticoontológica estudando a realidade em sua dupla vertente: de talidade e de transcendentalidade funcional trascendentalmente vinculadas.
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3.2. Xavier, casa nova, significa uma filosofia radical


Quem lê a obra de Zubiri vai descobrir constantemente contínuas chamadas à radicalidade.
Encontramos nas suas obras filosóficas nominações como raiz, radical, radicalismo, e expressões como consideração radical, polo radical, raiz radical, última raiz comum, raiz metafísica, realização radical. Todas elas formam os acabamentos de um pórtico indicador de uma vontade de radicalidade. Isso levou a vários autores a qualificar de radicalismo, com muita propriedade, a filosofia de Zubiri como uma filosofia radical. Mas o que é uma filosofia radical?

O radicalismo zubiriano se opõe à repetição de fórmulas que foram criadas para resolver problemas reais, mas que se repetem mecanicamente, sem perceber que tais problemas não são mais os geradores dessas fórmulas. Foi o próprio Ortega y Gasset que opôs a filosofia radical à filosofia escolástica, entendida como fé cega nas autoridades espirituais. E isso porque partem da crença de que determinados textos contêm declarações definitivamente válidas e respostas atemporais. A filosofia radical opõe-se a qualquer filosofia escolástica, pela prioridade que dá à problemática sobre a doutrina. O radicalismo é o oposto da escolástica. Zubiri não é um filósofo escolástico, em qualquer sentido. A
vontade de radicalidade, característica do afazer filosófico zubiriano, significa precisamente a discordância com qualquer tipo de doutrinas ou ideias que são reconhecidas, de antemão, baseadas na veneração à autoridade do mestre que a professa, ou seja, a oposição a qualquer forma de uma filosofia de escola. Contra qualquer interesse de escola, José Gaos afirmou que Zubiri não é um discípulo de alguém, em qualquer sentido do termo. A filosofia de Zubiri é uma filosofia radical, constitutivamente aberta, essencialmente esboçante,
alheia e contrária, portanto, a qualquer tipo de cerração escolástica. Em nenhum momento de sua formação Zubiri conformou-se com a doutrina dos seus mestres. Nem o tomismo, ou mesmo o realismo crítico de Louvain, nem o raciovitalismo orteguiano, nem a nomenologia
de Husserl, nem a ontologia de Heidegger, e tampouco o realismo aristotélico foram etapas definitivas que pararam a investigação de Zubiri.


É verdade que sua formação juvenil proporcionou a Zubiri um bom conhecimento da filosofia escolástica, mas mesmo quando cuidadosamente analisados seus primeiros trabalhos, deixa a impressão de que sua presença é muito difusa. Desde 1925, o único interesse para Zubiri propriamente do tomismo é pela hermenêutica. Confrontado com a intenção da neoescolástica franco-belga por ressuscitar os mortos, Zubiri advoga uma via de exêgesis do tomismo, que o compreenda e o contextualize. Nem a alternativa mais atraente, naquele momento, da renovação do tomismo, o realismo crítico, da Universidade de Louvain, lhe parecia viável. Ele veio de Louvain convencido de que o suposto realismo crítico era realista apenas em suas intenções (CCM 212), e referindo-se a ele em sua tese de doutorado, Zubiri o condenou como perturbador e defunto (TFJ, 110). Zubiri veio de Louvain convicto de que a nova abordagem da filosofia devia se dar no caminho iniciado por Brentano e Husserl (CCM, 205-CCM, 211). Uma maneira de fazer de Zubiri um filósofo escolástico foi com alguma frequência incluí-lo na chamada “Escuela de Madrid”. A expressão “Escuela de Madrid” é designada, na historiografia da filosofia contemporânea
espanhola, a influência da pessoa, da atividade e do pensamento de Ortega y Gasset sobre um amplo grupo de pensadores que começou a funcionar em articulação com o advento da Segunda República, sendo o período entre 1933 e 1936 os de seu estabelecimento e máxima vigência. Além de Zubiri, Manuel García Morente, José Gaos, María Zambrano e Julián Marias foram incluídos no núcleo do entorno orteguiano.


Se a necessidade de um tempo de conformidade com a exigência do mestre é o requisito necessário para que haja uma escola, isso é o que não se deu de forma alguma em Zubiri. A influência de Ortega termina logo. Desde a sua viagem à Alemanha em 1928 e especialmente desde o seu retorno em 1931, Zubiri pode ser considerado desligado do afazer filosófico orteguiano, embora seja eterna sua gratidão ao trabalho de
oxigenador do ar cultural espanhol com o europeu. Além disso, Zubiri deve a Ortega a influência de seu excepcional magistério e uma vinculação remota com a tradição entregue pelo “maestro” como possibilidade e apropriada com um poder, embora superada pelo discípulo radicalmente pela própria criação livre. Zubiri, discípulo de Husserl, tampouco seguiu seu mestre. Embora tenha aceitado desde muito cedo que era necessário colocar os problemas filosóficos na nova linha de Husserl, a fenomenologia, logo percebeu que a obra de Husserl não era suficientemente radical em seu desenvolvimento fenomenológico. Zubiri indicou, logo em 1921, que o verdadeiro problema da filosofia era o da sua radicalização, ou seja, aproximar-se da realidade sem mediações de qualquer tipo. Nem sequer com a mediação fenomenológica, como “a consciência”, “a intencionalidade”, “o sentido”.
Tampouco Zubiri parou em Heidegger. Ele foi gradualmente o abandonando nas colocações e soluções ontológicas, que o amarravam a Heidegger e foi obrigado a tomar posições mais pessoais, que começaram como incipientes esboços e sugestões, ainda sem um nome próprio nos escritos de 1931 a 1944. Entretanto, essa influência de Heidegger transformou tais primeiros passos em elementos constitutivos de seu sistema aberto, em sua etapa estritamente metafísica (1962-1983): a metafísica frente à ontologia, a realidade
frente ao ser, a existência real frente a existência modal (animal de realidades), a possibilidade real frente a possibilidade modal (radicalismo histórico). Foi especialmente a divergência com a concepção heideggeriana do conhecimento o que permitiu o desmonte, por parte de Zubiri, da ontologia de Heidegger. Para este, estar presente na intelecção era
desvelação (IRE, 135). Para Zubiri, no entanto, a desvelação não é formalmente o ato de intelecção, mas sim caráter especial da atualização. Se há desvelação é porque há atualização, e, portanto, o momento de desvelação está fundamentado no momento da atualização. A condição própria e formal do inteligido é estar atualizado na inteligência senciente (SE, 114). Zubiri analisa o dado na impressão sensível. A abertura radical
já está na impressão de formalidade de realidade, cujo caráter não é nem conceptivo, nem lógico, nem sequer intencional, mas físico, real e noérgico.


Para corrigir Heidegger, Zubiri se voltou para Aristóteles. Nele constatou (1935) que entender umas vezes significava demonstrar e outras especular, mas, que no mesmo estagirita, entender significaria, também, experimentar, sentir. A principal tarefa filosófica foi, então, descrever os dados imediatos, não como dados da consciência, mas como dados do sentir, que fazem saber as coisas mesmas em sua realidade (FM 40). O sentir para Zubiri se tornou o único caminho verdadeiro para a realidade.
Desde Aristóteles se falava da atualização como um ato comum do cognoscente e do conhecido, mas não fora dito que o caráter da realidade é o que formalmente constitui a experiência. Zubiri descobre que o constitutivo formal da experiência é ser provação física da realidade, ou seja, atualização das coisas em sua realidade (SH, 570). Os três volumes de sua obra Inteligência Senciente são o resultado do encontro e confronto com Aristóteles sobre o sentir. Essa obra é o desenvolvimento de uma ideia raiz: a intelecção humana é formalmente mera atualização da realidade na inteligência senciente. O neologismo ”senciente” expressa o caráter senciente da inteligência. “Inteligir é uma forma de sentir
e o sentir é no homem um modo de inteligir”, repete constantemente Zubiri. “O sentir humano e o inteligir constituem em sua intrínseca e formal unidade um só e único ato de apreensão” (IRE, 10). A realidade se sente, se apreende como realidade pelos sentidos, e somente se a realidade é de alguma forma sentida poderá ser concebida ou pensada realmente.


A intelecção consiste em ser mera atualização do real. Isso significa que a função principal e radical da inteligência é deixar-se apoderar pela realidade sencientemente apreendida, e ficar apoderado por ela de tal maneira que as demais funções intelectivas, como afirmar, julgar, etc., se desenvolvam a partir dessa implantação radical na realidade.

Ter superado a tradição filosófica clássica e ter construído uma forma aberta de realismo são as duas características primárias do radicalismo filosófico de Zubiri. Em primeiro lugar, é um realismo aberto porque a realidade está continuamente dando de si “em” e “desde” a matéria. Mas fisicamente não se pode reduzir tudo à matéria, porque existem rredutibilidades estritas e níveis hierárquicos. Segundo Thomas B. Fowler, esse caráter hierárquico da realidade é uma das principais contribuições da reflexão zubiriana para a criação de um novo paradigma de complementariedade entre a ciência moderna e a filosofia. Para Fowler, a abordagem hierárquica dos sistemas de Zubiri mostra que a realidade tem “camadas” ou “níveis”, e que o comportamento de cada nível é limitado por, mas não totalmente determinado pelos níveis abaixo (EDR, 90).Esse enfoque hierárquico leva inevitavelmente ao fracasso de todo reducionismo materialista da realidade. Como ele próprio escreveu:


“Seria um grande erro pensar que as estruturas transcendentais do ser pendem só da
estrutura dos elétrons ou da matéria inanimada. Estamos sempre inclinados a acreditar
que quando se refere ao amor ou às pessoas, na verdade, está se falando sobre algumas
coisas antropomórficas e metafóricas, mas o que conta são os campos eletromagnéticos
e os elétrons. Mas por quê? Aquelas outras coisas não são realidades? (…) Não é o mesmo
a estrutura dinâmica do movimento local, a estrutura dinâmica dos fenômenos físicos, a
estrutura dinâmica de um ser vivo, ou de uma pessoa humana, e muito menos do conjunto
inteiro da história e da sociedade humana. (EDR, 64). O realismo de Zubiri também é aberto, porque a realidade está continuamente dando de si “em” e “para” (hacia). Fisicamente, há uma abertura para a realidade enquanto que realidade, mas ela não apenas se lhe “atualiza” ao homem na inteligência senciente, mas também se “impõe” com uma força
“última”, “possibilitante” e “impelente” (HD, 139). É o poder de real que liga, que “re-liga” o homem à realidade. Isso é o que Zubiri chama de “religação”.


A religação, portanto, é um dado primário, que surge da mera descrição do dado em impressão de realidade. E a esse poder da realidade, enquanto que último, possibilitante e impelente, Zubiri chama de “deidade”. A deidade não é Deus, mas a própria realidade intramundana enquanto poderosa e religante. Mas o poder do real é enigmático (HD, 96-97). Não porque seja obscuro, mas porque aponta para o fundamento da deidade. A religação, o poder do real, não esgota na deidade o problema de Deus, mas apenas
o coloca enigmaticamente (HD, 269). A religação lança a pessoa (HD, 374), realidade relativamente absoluta, para além da impressão de realidade, para a busca, já desde a razão metódica, desse “fundamento” do poder do real, a realidade absolutamente absoluta, Deus.


3.3. Xavier, casa nova, significa uma vida filosófica dedicada à investigação


A novidade da construção zubiriana não só se deve à forma sólida de sua arquitetura filosófica, mas também ao modo vivo de realizar a sua dedicação à filosofia, entendida como forma de vida. É difícil encontrar no passado histórico espanhol a figura de um filósofo, como Zubiri, que tenha mantido tão fortemente a coerência entre a opção vital e sua dedicação intelectual em circunstâncias tão difíceis. Não aparece facilmente na cultura espanhola a figura de um escritor como ele, que não cedeu jamais à moda, não buscou a popularidade ou recompensa material, não bajulava os poderosos nem venerava a autoridade dos seus professores. Não é fácil encontrar o perfil de um pensador que atendesse aos problemas que o grau de aceitação que as soluções pudessem suscitar no público leitor e, ainda mais, que tivesse uma desconformidade tão permanente com sua própria tarefa, de se exigir a revisão constante de suas ideias.
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Diante desta atitude vital, como poderíamos conceituá-la? Como a de um pro-fissional? Como a de um pro-fessor? Como a de um pro-fesso? O termo “profissão” é um termo ambíguo, que adquire significados diferentes caso se utilize no âmbito civil ou canônico. Na ordem civil, o homem que exerce uma profissão é chamado de “profissional”. Na ordem
canônica, no entanto, o que faz profissão religiosa é chamado de “professo”.

Zubiri, embora fosse profissional e professor de filosofia, ele se nomeava da forma mais simples: “professo” em filosofia. Por quê?


O motivo é que o profissional e o professor de filosofia tendem a considerar-se habitualmente possuidores e depositários de uma verdade. O professo da filosofia, pelo contrário, se vê como um iniciante humilde e eterno, dirigido, arrastado e possuído pelo apelo da verdade. Isso é o que era originalmente o filósofo grego, aspirante à sabedoria, pois somente os deuses são sábios. É o que foi a metafísica em Aristóteles, “um saber
que se busca”.


Esse espírito de professo foi interpretado por Zubiri como uma busca incessante da verdade, como uma profissão de verdade. Zubiri disse tantas vezes com Santo Agostinho: “Procuremos, como alguém que quer encontrar, e encontremos como alguém que ainda precisa continuar procurando, pois, quando o homem termina algo, é justamente quando começa” (NHD, 32).

Assim o repetiu até o final de sua vida.


Em 18 de outubro de 1982, gravemente doente com câncer e pronto para passar pela morte a uma outra forma de realidade, Zubiri foi premiado com o El Premio Nacional de Investigación Santiago Ramón y Cajal. Seu discurso foi uma espécie de testamento, e ao receber o galardão falou olhando-se a mi mesmo e olhando seu grande amigo, o Nobel Severo Ochoa, coparticipante do prêmio:


“A investigação da realidade verdadeira não é uma mera ocupação com ela. Certamente
é uma ocupação, mas não é mera ocupação. É muito mais: é uma dedicação. Pesquisar
é dedicar-se à realidade verdadeira. Dedicar significa mostrar algo (deik) com uma força
especial (de). E se tratamos de dedicação intelectual, essa força consiste em configurar e
conformar nossa mente segundo a apresentação da realidade, e oferecer o que assim se
nos mostra à consideração dos demais (…). Essa profissão é algo peculiar. Aquele que só faz
ocupar-se dessas realidades não investiga: possui a realidade verdadeira ou pedaços dela.
Mas, o que se dedica à realidade verdadeira tem uma qualidade de certa forma oposta: não
possui verdades, mas, pelo contrário, está possuído por elas. Na pesquisa, vamos de mãos
dadas com a realidade verdadeira, estamos arrastados por ela, e esse arrastar é justamente o movimento da investigação” (CRS 43).


Conclusão


Xavier Zubiri Apalategui, aqui estão três nomes cujos significados em euskera, “casa nova”, “ponte” e “biblioteca”, revelam o poder que a realidade deu de si numa filosofia e numa vida, a filosofia e a vida de Xavier Zubiri Apalategui. Muito obrigado.

Ainda podemos falar e recorrer à Metafísica?

TRIBUNA DO NORTE. POLIFÔNICAS IDÉIAS. (02/março/2002)

Por José Fernández Tejada

Temos ainda muito presente à experiência paradoxal do século XX diante das contradições e euforias do fim do milênio e do estrear violento do XXI. Uma rápida retrospectiva desta questão nos leva a concluir, negativamente, à pergunta de nosso questionamento, se não pararmos para saber e entender o que queremos fazer com a Metafísica e o que realmente ela é. Então, vamos acompanhar, porque sem questionar, a comitiva fúnebre do enterro da metafísica. Certamente ela não é a “panaceia” para todas as obscuridades da humanidade. E nem, “um buraco sem saída”. E nem coisa impossível para o homem, porque foi ele quem a trouxe para suas grandes interrogações. Foi a ela que no meio das perguntas e respostas, os gregos recorreram e legaram.  Então, não podemos participar só por acompanhar, nem aplaudindo e nem lastimando-nos, do “enterro da Metafísica”. Estaremos participando desse enterro sem saber o que tem no caixão? Contudo, para que serviria “uma dita ciência do além do que são as coisas” que procura as explicações da vida em essências, substâncias, em ideias e conceitos pré-estabelecidos ou, em última instância, em “Deus”, sempre do além? Será que a interpretação dada por Aristóteles foi bem entendida e seguida? Será que vale a pena perguntarmos pela metafísica se nos sentimos aquém de tudo do que ela propôs e parece insistir? Apesar da premência, que a vida do homem tomou já nos finais do século XIX, os “pensadores” do século XX a reduziram em seus projetos salvadores a um “coeficiente de provisoriedade” da vida intelectual, segundo o filósofo Xavier Zubiri. Por isso, na linguagem dos críticos da globalização, a vida em geral e a humana em concreto, são apenas “matéria prima” para “os tiranos”, como o mercado, que tudo justifica, orienta e devora. Estaríamos voltando ao pé da letra de Aristóteles a grandeza descoberta nela? Podemos afirmar que teríamos descoberto e substituído por outra metafísica do “além de nós”? Ou aquela indicação primeira, como indicava Aristóteles, deve mudar de direção, de dentro de nós, (não do além) do indivíduo e do concreto, do físico humano?

Nessa forma confusa e desorientada, também do politicamente correto e pelo social, atravessamos todo o século que passou e nesta mesma tormenta de “bombas e pão” parece estamos encaminhando o XXI. Assim se expressava um leitor do Jornal do Brasil diante do drama dos refugiados afegãos em alto mar: “Será que questões diplomáticas são mais importantes do que 438 vidas dos afegãos?” A burocracia dos tribunais não é metafísica, senão ao contrário ao contrário, que determina sobre o status de emigrantes ou refugiados? Quem são os afegãos diante dos fanatismos políticos, econômicos e religiosos? Pura matéria a formar, que vem do além, ao seu capricho. Porém, essas pessoas, antes, de mais nada são realidades humanas situadas no Afeganistão e, por isso, são parte da Humanidade, como nós. Que pode fazer por elas a “Metafísica”? Do jeito que a entendemos e praticamos como forma volátil, nada, porque somos intramundanos. Por que tal situação do mundo de hoje nos leva a corroborar a “morte da Metafísica” para sempre? Mas que “morte” e de que “metafísica” devemos falar? Onde que estaria a metafísica chegando indicada por Aristóteles diante das perguntas gregas sobre as coisas?

Assim, será que podemos recuperar a Metafísica numa época em que se deu por encerrada a sua possível vitalidade? Mas, essa mesma metafísica que se tenta enterrar, não continua sorrateiramente dando-nos sustentação teórica (princípios) para as decisões políticas, econômicas e sociais? Que princípios e que raízes sãó esses? Não se escondem nelas as razões últimas de tudo o que hoje se faz e planeja? Então, de novo, que é metafísica? Que força poderia ter a busca de uma “explicação abstrata” e além de nossas vidas e possibilidades reais e concretas? Onde estariam as “ultimidades da vida, do mundo e do homem”? Será que isso é a Metafísica? Ao menos nos encontramos numa grande confusão sobre o que significa e realmente seja a “Metafísica” e com ela nos debatemos.

Pode ser que, ao propor-nos buscar as “ultimidades da vida, do homem e do mundo” nos tenhamos perdido de inflexão em inflexão, de desvio em desvio até tal diagnóstico e celebração “oba oba” da razão e da ciência, sem saber bem do que está morrendo. Parece que sintonizamos com o que “sábios de plantão” perceberam e falaram do por que da inutilidade dessa metafísica para o mundo, e ainda, como “alunos preguiçosos”, levamos a sério só a indignação do seu grito e não entendemos o que eles queriam dizer e em que se apoiar. Nós perdemos no caminho, tal como eles se perderam, dentro de “categorias existentes” de um “saber transcendental”, sejam aristotélicas, escolásticas ou modernas de Descartes, Hegel e Kant, ou pós-modernas, não entendemos bem o que elas discutem e nos detemos em discussões e mais discussões. Se o sol dá calor e brilha não é pelo que nos acusamos dele, senão se acusamos o mais fielmente, porque é real, esquenta e é foco de luz. Mas, o que essas categorias nos falam de um saber transcendental? Assim nos sentimos alegres ao poder repetir o grito: “abaixo os preconceitos”, mas continuamos apoiados em novas formas de preconceitos, princípios e teorias soltas do que é. Criamos uma algazarra de conceitos e mais conceitos, de fragmentos e mais fragmentos do homem, de sua vida, de seus projetos e de seu futuro. Juntamos, amontoamos e fazemos cruzamentos de informações e pensamentos em função de quê (metafísica)? Somos como crianças que desfazem o brinquedo para depois tratar montá-lo. O cultivo fútil da “metafísica” nos levou a usá-la como “meios de vida”: sobrevivência, mas sobrevivência de prazer hedonista, fama, espetáculo, financiamentos de pesquisa, claro que sempre mercadológicos. Neste pedestal se constitui o saber atual como postura intelectual e não como atitude.

Foi assim quando os sofistas rejeitaram os filósofos da Natureza e, como eles, se perderam em belos e astuciosos raciocínios. Foi assim na época da decadência da Grécia com os filósofos enciclopedistas porque se tornaram meros repetidores de Sócrates, Platão e Aristóteles, não entenderam o que eles levaram nas “suas mãos”. Também repetimos durante muitos séculos os andaimes lógicos da filosofia aristotélica e nos perdemos em discussões que a nada levaram ou distorceram. A “morte da metafísica” não veio nos mostrar que estávamos fazendo metafísica onde ela radicalmente não estaria? Perdidos que estávamos em brigas de escolas, nas ideias, conceitos, sistemas metafísicos e teorias do conhecimento fomos afastando-nos das coisas que são realmente as que nos dão o que pensar e viver. Assim, as coisas, incluindo o homem, hoje são esvaziadas de sua própria realidade pelo “discurso e pela propaganda”, canção repetitiva de muitos intelectuais. A metafísica da inteligência clássica não encontrou sua sustentação para apreender a realidade e por isso conceber e abrir um caminho vivo?

A filosofia se debatia já nesta confusão, quando Andrônico de Rodas no século X só quis ajudar a catalogar os livros recém-descobertos de Aristóteles. Então, colocaram os volumes sobre a Natureza em primeiro lugar, depois os livros sobre a Filosofia Primeira. Dessa forma parece que a filosofia, como metafísica, fosse considerada, diríamos apenas geograficamente e de arrumação bibliotecária, como depois da física. A confusão em parte, estava feita e cristalizada: o afazer metafísico passou a significar somente o que está “mais além” do físico. Platão nunca usou o vocábulo transcendente, mas foi ele quem iniciou sua elaboração ao separar das coisas sensíveis as “ideias”; entretanto as ideias estavam presentes nas coisas e eram seus paradigmas. Aristóteles discordou desta separação, mas elaborou sua “filosofia primeira” desde uma substância separada, que é a substância eterna. Assim, esta ideia de metafísica marcou o pensamento ocidental. O “meta-físico” passou a ser somente o “ultra-físico”. Exemplo, como em Kant é a inteligibilidade do conhecimento ou razão transcendental. Hoje é a confusão e o caos. E o que eram as coisas com as quais convivemos? Então, é melhor enterrar. Bela solução pragmatista.

As coisas e o homem foram quebrados ao meio, porque se separou o sensível do inteligível. O homem será um composto da faculdade da inteligência e da faculdade de sentir. As coisas, que são suficientes por si mesmas, ficaram para trás, sempre desconsideradas até serem manipuladas e entificadas a “imagem e semelhança” do ilustrado de plantão. De Santo Agostinho a Hegel viveu-se uma “metafísica da niilidade”: “as coisas são um desafio à nada”. Frente ao assombro dos gregos, de que as coisas mudam, o assombroso, a partir do cristianismo, é que haja coisas, que estão sendo presentes. Os grandes filósofos sempre experimentaram esse radical assombro frente às coisas: que são elas? Para que servem ao homem? Porém, o afazer metafísico se constituiu, não sobre as coisas, que estão presentes, mas sobre a mudança e sobre a niilidade. A metafísica foi caindo mais na representação, e não na apresentação, da inteligência e do sentir separados. Claro que só podíamos cansar-nos e afastar-nos dessa filosofia, dita primeira, metafísica porque nada tinha a ver com o homem e seus projetos no mundo.

Então mais do que a morte da metafísica estamos diante do único e verdadeiro desafio dos filósofos com os quais estamos submergidos, segundo Zubiri, “num conflito do qual não podemos sair por combinações dialéticas, mas pondo em marcha, cada um dentro de sí, o penoso e penosíssimo esforço do trabalho filosófico”. E este é o problema da filosofia contemporânea: assombrar-se com as coisas de hoje, iluminá-las e dar conta delas real e metafisicamente, mas não apenas a partir de minhas construções mentais.

A filosofia sempre caminhou procurando a Metafísica das coisas nas ideias, nos conceitos, e hoje nos discursos de consenso e argumentativos. Reduziu todo seu esforço às coisas em si ou para si e não no que as coisas são, porque elas estão sendo, são reais. Construiu belos castelos metafísicos, mas sempre na direção do mais-além, deixando o homem e sua história aqui na terra desbaratados.

E se o metha da metafísica fosse o mais dentro das coisas, da realidade, do homem? Quer dizer do intrafísico, do intrahumano e intramundano? Em que significado? Não é nessa direção que clamaram as vozes reais do homem no século XX e continuam a gritar neste início de século XXI, como relatamos no início? Não são esses os gritos do povo americano e islâmico, que antes de tudo querem ficar de pé, como humanidade? A luta, pela terra, pela saúde, pela educação, pelo tratamento urgente da AIDS, pela dignidade da criança, do negro, do índio, da mulher, da dignidade humana, não são os gritos, como diz Milton Santos, dos “de embaixo”? E é nessa direção que parece ressurgir a força da verdadeira Metafísica.

Se os filósofos foram ficando confusos e desorientados com esse tipo de construção oca da metafísica, também foram ficando descontentes com a forma de justificá-la diante das primariedades da vida e do homem. Algo ficou perdido nesse laborioso afazer filosófico que no século XIX toma conta de Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Marx, Husserl, Heidegger… E também de cientistas como Plank, Einstein, Heisenberg, Gödel… Todos estes pensadores, e todos os homens da terra, se encontraram com o real maniatado pela metafísica em vigor. Mas, “não se pode tampar o sol com a peneira”. Condenaram a Metafísica, mas sempre queriam dar conta das coisas, pelo menos as usufruindo. Criticaram e se indignaram, mas desde a mesma postura do além da metafísica reinante. Lutaram e nem sempre saíram ilesos, mas deram sua contribuição negativa. De novo passaram a criticar as diferentes posições, mas se perderam na mesma confusão, porque não encontraram o ponto sublime e esquecido da Metafísica radical: o real das coisas, das coisas mesmas.

Husserl estava certo ao captar por onde deveríamos recuperar o valor da Metafísica: “a volta às coisas” e “às coisas mesmas”. O homem não vive sua vida nos conceitos feitos além, mas com os pés no chão: vive com coisas e no meio delas para dar conta delas. O filosofar não estaria primeiramente em conceber ideias, mas em sentir inteligentemente as coisas: apreender a realidade. Então, Zubiri exigiu desse volta às coisas, que seja “desde as coisas mesmas”.

Na experiência metafísica ocidental as coisas ficaram entificadas porque a função intelectual vaga caoticamente no meio dos conceitos. Quer dizer, somente desenvolvemos a função concipiente da inteligência e não a função co-determinante de inteligência senciente. Aumentamos o fosso iniciado por Platão de separar as ideias das coisas e resgatamos “a volta às coisas”, mas, também com Husserl, ficamos presos a objetividade da consciência e as coisas mesmas ficaram entre parênteses. Com Heidegger resgatamos o ser das coisas, jogado no mundo, mas não a realidade, e gastamos nossas melhores forças com os existencialismos, que só provocaram mais angústia no homem. E com eles as coisas foram jogadas na lata de lixo da história como resíduos. Perdemo-nos hoje na analítica, na hermenêutica e na linguística, que também ancoram suas ideias no método e no sentido, quer dizer na representação da realidade.

Não há dúvidas de que a inconsistência dos discursos pós-modernos são a nova forma desse sofisma. E o que foi um “torneio de razões contra razões” hoje mais parece uma guerra pirotécnica das estrelas (bombas mortíferas), indiscutivelmente, do mercado, dos meios de vida dos poucos escolhidos. Por isso lemos nas manchetes dos jornais: “ricos põem o planeta à beira da recessão” ou “só os ricos ficam mais ricos, com a riqueza americana dos anos 90”. E isso, não somente se aplica a Estados Unidos, Europa e Japão, mas também ao Brasil e tantos outros países pobres ou ricos, onde a divisão de renda não muda; “os ricos” fizeram de suas riquezas, meios de vida e a morte dos “outros”.

As ideias e conceitos, que já eram separadas das coisas, entraram em conluio na velocidade cibernética, constituindo seu castelo virtual. São os desejados aviões comerciais transformados em bombas mortíferas nas torres gêmeas de Nova York. É a tecnologia da guerra que joga bombas e alimentos no Afeganistão. É o pó do antraz entregue em casa aos possíveis milhões e milhões de endereços de seres humanos no mundo. É a nova plasticidade do conceito de Ideia Absoluta de Hegel. É a mais “bela” manifestação da crise da razão em não dar conta do real. Hoje por todos os lados e latitudes a inconsistência do discurso se alimenta da mesma metafísica inconsequente, que não morreu, mas que continua não podendo dar conta do real, porque está separada da realidade.

O filósofo espanhol, Xavier Zubiri (1898-1983), percebeu tal confusão e atrevidamente sai do domínio exclusivo do giro antropológico da filosofia moderna, que rodopia e vagueia em torno da subjetividade. Ele também atravessa o giro linguístico do sentido como representação da realidade e enfrenta a crise da metafísica desde seu âmago propondo um giro metafísico: quer dizer, fazer girar o centro do afazer metafísico desde o real e seu poder. É com as coisas que vivemos e delas devemos dar conta, não podemos procurar qualquer tipo de caminho que nos separe delas. É o que aconteceu com a metafísica, cuja morte e sepultamento desejam-se celebrar.

A proposta do filósofo espanhol é que ao recuperar a questão fenomenológica do sentido, possamos inserir esse sentido através do sentir as coisas: não primariamente as “coisas- sentido”, mas “coisas-realidade”. Pois, somente depois de sentir as coisas e dentro delas é que podemos dar sentido variadíssimo às mesmas para o nosso benefício. A debilidade inerente e intrínseca à razão foi descrita por Wigenstein e ficou provada pelo teorema de Gödel. Zubiri escolhe aquilo que foi preterido: o caminho do sentir e da sensibilidade, estruturalmente com o inteligir, para recuperar o vigor da Metafísica. Ou como a física quântica nos ensinou: a experiência é anterior aos conceitos. Assim, os levam ao fundamento do filosofar: as coisas são sentidas na nossa inteligência. Conclui um de seus estudiosos, Diego Gracia: “é a atitude de Zubiri que deste modo tenta saldar uma conta secular da filosofia. Com Zubiri a filosofia tem deixado de andar de cabeça, e se apoia, espero que de uma vez por todas, sobre os pés”.

Temos exemplos no Brasil de pensadores que não embarcaram nessa metafísica traidora que buscou sem resultados as explicações últimas de uma racionalidade que se perde nos devaneios do ultra-fisico. Josué de Castro em 1946 constrói sua Geografia da Fome exatamente sobre uma crítica ao racionalismo que deixou de lado o “instinto da fome”. Paulo Freire nos fala do “saber de experiência feito” e Milton Santos não se cansa de repetir que o futuro da humanidade está na “sabedoria da escassez”. Com Zubiri, todos parecem concordar, que o afazer metafísico estaria no que foi deixado de lado e jogado na lata da história: a realidade da vida, do homem e do mundo. O homem pode e deve fazer metafísica porque é “animal de realidades”.

Que nos decidamos logo elevar-nos a estes reais e verdadeiros conceitos Metafísicos., tirados da experiência humana. Voltemos a fazer “Metafísica do real”. Voltemos e experimentemos a radical pergunta Metafísica: o que são as coisas no meio das quais vivemos para dar conta da vida, do mundo e do homem brasileiro, americano e afegão neste início do século XXI.

Que vamos fazer com a “Metafísica”? Uma querela mal enfrentada e resolvida ou uma querena que nos leva por mares novos  e nunca navegados do ser humano. Decidamos sabiamente.

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