Textos inéditos

Sobre o Prólogo de Natureza, História, Deus a tradução inglesa

Primeira etapa do pensamento de X. Zubiri.

A filosofia vinha sendo uma mistura de positivismo, historicismo e pragmatismo apoiada em última instância na ciência psicológica, um apoio que se expressou como teoria do conhecimento” (NHD 27).

“A primeira metade do século XIX foi o frenesi romântico dessa especulação. O cientista foi o elaborador de sistemas especulativos. Em face dele alçou-se a voz de “voltas às coisas”. Saber não é raciocinar nem especular: saber é ater-se à realidade das coisas” (id. 82).

“Um exame minucioso ainda que superficial dos estudos recolhidos no volume Natureza, História, Deus fará aperceber ao menos perspicaz que é essa inspiração comum de todos eles” (id. 28).

Natureza, História, Deus (1944) é um clássico na literatura espanhola do século XX. É ainda um livro fundamental na produção escrita de seu autor Xavier Zubiri. A feliz confluência nele se produz por três grandes criações intelectuais: a filosofia grega, a ciência moderna e a tradição fenomenológica, o que o tornou um pensamento rico e ágil, tão enraizado na tradição como rigorosamente inovador. Ao longo das páginas desse livro destacam-se, como o diz seu título, alguns dos conceitos mais importantes da filosofia, como os de natureza, história e Deus. Trabalhando com eles Zubiri formula, por sua vez, suas teses básicas sobre a realidade, a inteligência e a religação, que depois serão desenvolvidas de modo extenso em Sobre la esencia, Inteligência senciente e o Homem e Deus, obras toda publicadas nesta mesma coleção. Dessa forma vista desde os volumes de sua época de maturidade, as velhas páginas de Natureza, História, Deus que agora se publicam em edição definitiva, cobram renovado vigor e crescente atualidade. Isso nos permite afirmar que esse livro é, sem dúvida alguma, a melhor introdução à filosofia de Zubiri. Natureza, História, Deus é um clássico na literatura espanhola. É, ademais, um livro fundamental na produção escrita do autor, Xavier Zubiri” (Editora Alianza Editorial).

Prólogo à Tradução Inglesa

Por Xavier Zubiri.

“Este livro – Natureza, História, Deus – recolhe uma série de estudos publicados em diversos momentos compreendidos entre 1932 3 1944. O fato de pertencerem a esses anos dá ao livro seu carácter próprio. E isso é essencial para orientar o leitor. Porque tal lapso tem duas significações. Uma concerne a cada um dos estudos tomados em si mesmos. Outra concerne à totalidade daqueles. Ou me explicar-se.

Antes de tudo, concerne a cada um dos estudos porque cada um deles tem sua data precisa; e é referindo-se a ela que deve ser lido. Sublinho-o mui energicamente. Cada efeito medeia considerável distância entre a data em que cada estudo foi publicado o momento atua. E nessa distância aconteceram muitas coisas. Em primeiro lugar, foi um tempo em que, conservando o essencial das ideias, me vi forçado a desenvolvê-las em sua própria linha.

Assim no que se refere ao conceito de história. No estudo “O Acontecer Humano: a Grécia e a sobrevivência do Passado filosófico” conceituei a história, como acontecer de possibilidades. Mantenho-o hoje integralmente, mas tal conceituação me levou a um conceito mais radical: a história como acontecer de possibilidades funda-se na história como capacitação.  É graças unicamente à capacitação que se dá, e tem de dar-se necessariamente, o acontecer da possibilitarão e das possibilidades. A história como capacitação foi o tema de um estudo publica do em Realitas I, p. 11-41. (Madri, 1974). Apontarei para isso já no estudo

O mesmo sucede, de certo modo, com o estudo “Em Torno do Problema de Deus”. O problema de Deus revela-se momento estrutura do homem: a religação. Mas esta religação necessitava de ulteriores desenvolvimentos conceituais. Desenvolvimentos na linha de uma sistematização do problema. Apontei para isso já no estudo “Introdução ao Problema de Deus”, publicado na quinta edição desde mesmo livro. Mas desenvolvei a ideias de religação em outra direção, na direção da religação como momento estrutural do homem. É o que chamei dimensão teologal. Foi o tema de vários cursos meus, ainda inéditos, sobre tudo dois. Em primeiro lugar “O problema Teologal do Homem: Deus, Religião, Cristianismo” (Madri, 1972). E depois o curso sobre “O Homem e Deus”, professado na Faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana (Roma, 1973). Um esboço desse ponto de vista está publicado no volume de Homenagem a Karl Rahner (Madri, 1975). Não será demasiado recordar que o estudo “o Ser sobrenatural: Deus e a Deificação na Teologia Paulina” é o estudo essencialmente histórico. Seu conteúdo propriamente teológico foi depois mais precisamente desenvolvido, em meus cursos  professados na Sociedad de Esudios y Publicaciones.

Em outros caos, finalmente, o estado atual do saber científico é muito mais rico e preciso que o daqueles remotos anos. Por isso, o estudo “A Ideia de Natureza: a Nova Física” teria tido de abarcar hoje muitos conceitos essenciais. Certamente, mantenho a ideia de natureza exposta, mas o problema das partículas elementares conduz a problemas filosóficos essenciais. Por exemplo: que é a elementaridade de uma partícula a? Que é uma partícula virtual? Que é a individualidade de uma partícula? Que é a perda de simetria? São temas filosóficos que hoje teria de enfrentar, mas, repito, conservo a ideia de natureza exposta em 1934.

Assim, pois, as ideias básicas de que é natureza, de que é a história e de que é o Deus revelado da religação não só não prescreveram para mim, mas por continuarem vivas é que me forçam aqueles ulteriores desenvolvimentos. É o que expresso dizendo que cada um dos estudos compreendidos neste volume tem uma data precisa.

Pois bem, o lapso 1932-1944 tem um sentido mais profundo que o de fixar as data dos meus estudos. Esse lapso constitui uma etapa de minha vida intelectual. A diferença entre lapso e etapa é essencial, porque se inscreve no conceito mesmo de tempo.

O tempo, com efeito, não é uma adição de datas, mas possui unidade própria, não meramente aditiva.  As datas não são senão momentos dessa unidade que chamamos tempo. Que é essa unidade? Não é este o lugar para tratar tão sério problema. Em seu aspecto meramente descritivo, já o expus em Realitas II, (Madri 1976). Mas agora não aludo a esse conceito descritivo, e sim a um conceito mais profundo: é a unidade estrutural do tempo. O tempo não é algo separado das coisas, mas tão somente um momento delas: as coisas não estão no tempo são temporais. Voltarei logo a essa ideia. Em virtude disso, por serem temporais, essas coisas qualificam seu tempo: é o tempo mesmo o que é qualificado. E esse tempo assim qualificado é o que chamo unidade estrutural. Essa estrutura pende, pois, da índole das coisas.

Se as coisas temporais são as que chamamos coisas físicas, então essas coisas físicas conferem ao tempo uma qualidade própria: o número e a medida. As coisas físicas, com efeito, tem atuação sucessiva. A sucessão é um caráter puramente físico. Pois bem, a sucessão confere ao tempo uma qualidade própria. O tempo é então mensura de sucessão: uma hora, dois dias, dez anos, etc. O tempo como mensura é, assim, cronometria. Se as coisas temporais são os seres vivos, então o tempo é biologicamente qualificado. E a qualidade do tempo biologicamente qualificado é a idade. A idade não é um número, mas uma qualidade temporal própria. Jovem, adulto, velho, etc., são estruturas biologias, e sua qualidade temporal é a idade.  Certamente, a idade pode ser mensurada porque os seres vivos são também coisas físicas. Mas esse número não é idade mesma, senão somente o momento numerante da idade. A velhice de uma célula é numerada, mas esse número não é a idade. Se as coisas temporais são de índole psíquica, ou melhor, psicofísica, então tem uma qualidade estrutural diferente. A vida psíquica constitui como se dizia já desde o início do século XX, uma corrente, um fluxo. Chamavam-na, então fluxo da consciência (deixemos de lado agora a referência à consciência). Pois bem, a corrente psíquica, o fluxo psíquico confere ao tempo uma qualidade original: é a durée, a duração. O caráter numeral do que dura não é a duração mesma, mas o caráter numeral do numerante. A duração é anterior à sua suposta numerabilidade, sua mensura é extrínseca porque a duração em si mesma não é adequadamente apreensível em números. Quando as coisas temporais são os homens na integridade de sua vida, então surge uma qualidade temporal nova. A vida do homem nessa sua totalidade tem um momento essencial constitutivo: é projeto. Pois bem, o projeto: é o tempo como acontecer. Eis, portanto as quatro unidades estruturais do tempo, as quatro qualidades do temo mesmo: mensura, idade, duração, acontecer. Resta o problema de que é o tempo mesmo. É o conceito modal do tempo que chamo de temporalidade. Mas não posso entrar aqui nesse problema. Já o esbocei em Realitas II.


Cada uma das estruturas temporais se matiza, por sua vez, muito diversamente. Assim, o acontecer pode ser biográfico, social, histórico. Quando os projetos humanos dentro de um lapso de tempo respondem ao que poderíamos chamar inspiração comum, então o tempo do acontecer tem matiz temporal próprio: é a etapa (que pode, por sua vez, ser, biográfica, social, ou histórica). Etapa é o acontecer qualificado por uma inspiração comum. Agora se vê que lapso de tempo não é o mesmo que etapa. A etapa é uma qualidade de um lapso de aconteceres. A mudança de inspiração comum é o início de uma nova etapa.

Pois bem, o lapso 1932-1944 é, em sentido rigoroso e estrito, uma etapa de minha vida intelectual. Minhas reflexões filosóficas responderam nesse lapso a uma inspiração comum difícil de definir, mas fácil de perceber.

A filosofia achava-se determinada antes dessa data pelo lema da fenomenologia de Husserl: zu den Sachen selbst, “as coisas mesmas”. Certamente, essa filosofia não era dominante até então. A filosofia vinha sendo uma mistura de positivismo, historicismo e pragmatismo apoiada em última instância na ciência psicológica, um apoio que se expressou como teoria do conhecimento. Partindo dessa situação, Husserl criou, com uma crítica severa, a fenomenologia. É uma volta do psíquico a coisas mesmas. A fenomenologia foi um movimento mais importante a abrir um campo próprio ao filosofar enquanto tal. Foi uma filosofia das coisas e não só uma teoria do conhecimento. Essa foi q remota inspiração comum da etapa 1932-1944: a filosofia das coisas.  A fenomenologia teve assim uma dupla função. Uma, a de apreender o conteúdo das coisas. Outra, a de abrir o livre espaço do filosofar diante de toda servidão psicológica ou científica.  E esta última função foi para mim a decisiva. Naturalmente, a influência da primeira função é sobejamente clara não só em mim, mas em todos os que se dedicam à filosofia desde aquela dada. Mas minha reflexão pessoal teve dentro desta inspiração comum uma inspiração própria.  Por que o que são as coisas sobre as quais se filosofia? É esta a verdadeira questão. Para a fenomenologia, as coisas eram o correlato objetivo ideal da consciência, Mas isso, ainda que obscuramente, sempre me pareceu insuficiente. As coisas são a meras objetividades, mas coisas dotadas de uma estrutura entitativa própria. A essa investigação sobre as coisas, e não só sobre as objetivardes da consciência, se chamou indistintamente ontologia e metafísica. Assim a chamava o próprio Heidegger em seu livro Sein und Zeit. Nessa etapa de minha reflexão filosófica, a concreta inspiração comum foi ontológica ou metafísica. Com isso, a fenomenologia é relegada a ser uma inspiração pretérita. Não se trata de uma influência – aliás inevitável – da fenomenologia sobre minha reflexão, mas da progressiva constituição de um âmbito filosófico de caráter ontológico ou metafísico. Um exame, ainda que superficial dos estudos recolhidos no volume Natureza, História, Deus fará perceber ao menos perspicaz que é essa inspiração comum de todos eles. Era já uma superação incoativa da fenomenologia. Por isso como me expressava no estudo Que é Saber? que eu laboriosamente procurava é o que então chamei de Lógica da Realidade. Recolho todos esses trabalhos no presente volume como testemunho de uma etapa concluída.

A esta etapa se seguiu, pois, uma nova. Por que são a mesma coisa metafísica e ontologia? São a mesma coisa realidade e ser? Já dentro da fenomenologia, Heidegger vislumbrou a diferença entre As coisas e seu ser. Com o que a metafísica passava para ele fundar-se na ontologia.  Minhas reflexões seguiram uma via oposta: o ser se funda na realidade. A metafísica é o fundamento da ontologia. O que a filosofia estuda não é a objetividade nem o ser, mas a realidade enquanto realidade. A partir de 1944 minha reflexão constituiu uma nova etapa: a etapa rigorosamente metafísica.

Nela recolho, como é obvio, as ideias cardeais da etapa anterior, ou seja, dos estudos já publicados neste volume. Mas essas ideias adquirem um desenvolvimento metafísico para além da objetividade, para além de toda ontologia.

Tarefa que não é fácil. Porque a metafísica moderna, dentro de todas as diferenças, esteve fundada sobre quatro conceitos que ao meu modo de ver são quatro falsas substantivações: o espaço, o tempo, a consciência, o ser.  Pensou-se que as coisas estão no tempo e no espaço, que são toda a apreendidas em atos de consciência, e que sua entidade é o momento do ser. Pois bem, ao meu modo de ver isso é inadmissível. O espaço e o tempo, a consciência o ser não são quatro receptáculos das coisa, mas tão somente caracteres das coisas que já são reais; são caracteres da realdiade das coisas, de coisas – repito –já reais em e por si mesmas. As coisas reais não estão no espaço nem no tempo como pensava Kant (seguindo Newton); as coisas são espaçosas e temporais, algo muito distinto de estar no tempo e no espaço.

A intelecção não é um ato de consciência como pensa Husserl. A fenomenologia é a grande substantivação da consciência que corre na filosofia moderna desde Descartes. No entanto, não há consciência; há tão somente atos conscientes. Tal substantivação já se havia introduzido em grande parte da psicologia do final do século XIX, para a qual a atividade psíquica era sinônimo de atividade da consciência, concebendo-se todas as coisas, como “conteúdos de consciência”. Ela criou inclusive o conceito de “a” subconsciência. Isso é inadmissível, porque a coisas não são conteúdos de consciência, mas tão somente termos da consciência: a consciência não é o receptáculo as coisas. Por seu lado, a psicanálise conceituou o homem e sua atividade referindo-se sempre a consciência. Assim nos fala da consciência, do inconsciente, etc. O homem será em última infâmia uma estratificação de áreas qualificadas com relação à consciência. Essa substantivação é inadmissível. Não existe “a” atividade da consciência, não existe “a” consciência, nem “o” inconsciente, nem a subconsciência; há somente atos conscientes, inconscientes e subconscientes. Mas não são atos da consciência, nem do inconsciente, nem da subconsciência. A consciência não executa atos. Heidegger deu mais um passo. Ainda que de forma própria (que nunca chegou a conceituar nem definir), levou a cabo a substantivação do ser. Para ele, as coisas são no e pelo ser, as coisas são por isso entes. Realidade não seria senão um tipo de ser. É a velha ideia do real, esse reale. Mas o ser real não existe. Só existe o real sendo, realitas in essendo, diria eu. O ser é tão somente um momento da realidade.

Diante dessas quatro gigantescas substantivações, do espaço, do tempo, da consciente e do ser, tentei uma ideia do real anterior àquelas. Foi o tema de meu livro Sobre la Esencia (Madri, 1962): a filosofia não é da objetividade nem do ente, não é fenomenologia nem ontologia; é filosofia do real enquanto real, é metafísica. Por sua vez, a intelecção não é consciência; é mera atualização do real na inteligência senciente. É o tema do livro que acaba de publicar-se. Inteligencia Sentiente (Madri, 1980).

Desse modo, o presente livro, Natureza, História, Deus é uma etapa não somente superada, mas assumida nessa metafisica do real, em que há 35 nos me acho empenhado. É, repito, a etapa determinada pela inspiração comum do real enquanto real. É uma etapa rigorosamente metafísica. Nele me vi forçado a dar uma ideia diferente do que é intelecção, do que é a realdiade e do que é a verdade. São os capítulos centrais do livro Inteligencia Sentiente.

(No original Zubiri continuava no final agradecendo a dedicação de Fowler: “Agradeço sinceramente ao meu amigo, o grande físico Thomas B. Fowler pela iniciativa, seu entusiasmo e a precisão e exatidão com que tem realizado a tradução deste livro, graças ao qual poderá ser lido em Norte América e nos países de fala inglesa. Muito obrigado, também, a todos quantos tem feito possível esta edição. X.Z.  Madri, novembro de 1980.

(Natureza, História, Deus. Editora É Realizações, São Paulo,  2010.  p. 23-30).

Nota explicativa 1.

História do início dos estudos de Zubiri em América do Norte.

Por Thomas Fowler.

“O interesse pela filosofia de Zubiri na América do Norte se remonta a década de 1960. Duas pessoas foram fundamentais para apresentar o trabalho de Zubiri ao público de fala inglesa nesses primeiros anos de vida. O professorFritz Wilhelmsen (1923-1996) estudou na Espanha e se doutorou em Filosofia na Universidade de Madri em 1958. Foi depois professor na Universidad de Pamplona até 1965. E logo depois se transferiu para a Universidade de Dallas, Texas. Publicou um livro importante The Metaphysics of Love em 1962. Posteriormente foi traduzido ao francês e espanhol. Embora, tomista, Wlhelmsem admirava a filosofia espanhola e escreveu com simpatia sobre os principais pensadores ativos em Espanha durante o século XX, incluindo Unamuno, Ortega y Gasset e, também, Zubiri, a quem descreveu  como o melhor metafísico de Espanha. O próprio Wilhelmsen nunca conheceu Zubiri e ainda quando escreveu seu livro só conhecia os trabalhos dele até inícios dos anos 60. Não parece haver seguido o interesse que teve no início pelo pensamento de Zubiri, embora viajou, depois com frequência para Espanha.

A segunda pessoa que estudou e escreveu sobre a filosofia de Zubiri nesses primeiros dias foi o professor A. R. Caponigri (1915-1984), da Universidade de Notre Dame, South Bend, Indiana.  Diferentemente de W Wilhelmsen, Caponigri conheceu pessoalmente a Zubiri e assistiu aos principais seminários em Madri. Mas ao igual que Wilhelmsen, estudo também os principais pensadores espanhóis do século XX e fez traduções de algumas de suas obras. Seu primeiro livro foi sobre Contemporary Spanish Philosophy em 1967 e nele continha um ensaio sobre a antropologia de Zubiri, escrito originariamente a finais da década de 1940, “A origem do Homem”. Junto com de Theres Sandok. O. S. M., Caponigri tomou a decisão, naquela data, de traduzir a obra original Sobre la esencia. Completou a tradução a finais da década de 1970 e escreveu uma extensa introdução, além de compilar um glossário dos termos filosóficos de Zubiri. Todavia, devido as demoras associadas ao processo editorial, a tradução de Caponigri, com o título Of Essence só apareceu em 1982. Caponigri faleceu antes de conhecer o pensamento último de Zubiri, publicado nos três volumes da Inteligência Senciente e outras obras afins. Como resultado, sua introdução, embora valiosa não reflete a filosofia madura de Zubiri.

Pois bem, ao final da década de 1960, Thomas Fowler, estudante na Universidade de Mayland (College Park, Maryland), se interessou pela literatura e cultura espanhoas e leu o livro de Wilhelmsen. A partir dessa leitura Thomas procurou saber mais sobre Zubiri, e numa viagem a Espanha em 1968 conseguiu cópias dos livros de Zubiri que estavam já impressos. A saber: Cinco lições de filosofia, Sobre la esenciaNaturaleza, Historia, Dios.

Fowler ficou muito impressionado com a claridade e perspicácia dos ensaios deste último livro e começou a traduzi-los para que os leram seus amigos. Visitou Caponigri em South Bend em 1975 e com ele aprendeu muito mais sobre Zubiri e como trabalhava sobre Zubiri. Caponigri proporcionou a Fowler a direção de Ignácio Ellacuría e o recomendou que contatasse com ele para que ele o pudesse apresentar a Zubiri. Então Ellacuría afirmou a Fowler que Zubiri estaria feliz de reunir-se com ele em Madri. Finalmente, Fowler completou sua tradução e o levou consigo o manuscrito em inglês numa viagem em setembro de 1978.  Lá conheceu Zubiri pela primeira vez e mostrou-lhe a tradução, intitula lada Nature, History, God.

Zubiri ficou supresso porque não tinha conhecimento da tradução daquele jovem e ficou atônito e encantado ao constatar que todo o livro já estava traduzido. Zubiri o mostrou a sua esposa Carmen, que conhecia o inglês melhor que ele próprio. Ela lhe afirmou que estava bem feito, com o que ficou satisfeito. A partir desse momento os dois Zubiri e Fowler se fizeram bons amigos, e Zubiri o animou a seguir adiante com o propósito de publicá-lo. Então Fowler pediu a Zubiri que fizesse uma introdução a essa edição inglesa, que Zubiri escreveu logo e mandou a Fowler em 1980. Em esta apresentação à tradução inglesa Zubiri relatou pela primeira vez as três etapas de seu desenvolvimento filosófico (este texto se conhece em espanhol como “Duas etapas”).

Nature, History, God foi publicado em 1981 pela University Press of America, Washington D.C., Fowler visitou Zubiri novamente e participou num dos seminários, em que se discutia com Zubiri a Inteligência e Razão. Durante essa visita Zubiri pediu a Fowler que traduzisse a Inteligência Senciente. Fowler começou a tarefa um pouco mais tarde nesse mesmo ano. Porém, percebeu que tardaria 16 anos sem acabar a tradução devido a complexidade e dificuldade do trabalho, como também pelo compromisso com outra tarefas. Também, durante essa visita de 1982, Fowler conheceu a Diego Gracia, e os dois rapidamente ficaram amigos. Depois de falecido Zubiri no ano seguinte Fowler manteve profícuo contato com Gracia, que o orientou, pediu e trabalharam juntos nos subsequentes projetos zubirianas” . (Enviado por Thomas Fowler em  4/6/2021).

Nota explicativa 2.

Esclarecimento sobre o prólogo à tradução inglesa de NHD e um pequeno percorrido.

Por José Fernández Tejada.

Na minha terra, Espanha, dizemos: “vinho novo em odre velho nunca é velho”. Este provérbio, vindo dos hebreus e dos evangelhos, tem adquirido na história várias significações. Até Freud (era descendente de judeu) parece que se debruçou nele para sua temática e inclusive existe um livro: Freud, Dora e sua nova ‘neurótica. O problema do sentido dado a esse provérbio é a insensata comparação da juventude e do ancião, da coragem e da experiência, da força  e da inteligência. Porém, tem a energia original do cuidado dos povos antigos de guardar seus vinhos, (como de levá-los ao trabalho da rosa), e o significado, indubitavelmente, do avançar do homem na sua sociedade e história, buscando o novo, mas dentro de estruturas velhas.  É o verdadeiro conceito de tradição, tradere. Achamos, assim, que esse provérbio nos pode ajudar a um bom entendimento das centelhas da proposta inédita de Zubiri, mas ele faz questão de seguir as pegadas da descoberta da sabedoria filosófica, que infelizmente nós a prostituímos ficando com substituições quase não entendíveis, todavia devemos aceitar como formas que nos afastam mais e mais da realização do homem. Parece que foi pior no caminhar da sabedoria concipiente (vasilhas velhas) que os contos de fadas mal interpretados, dos filmes de ficção científica e dos desenhos animais, percebendo que estão se distanciando do homem, embora seja para entreter o homem. Sim Zubiri escreveu vinho novo em odres velhos da tradição filosófica, que nos garante os passos suficientes do vigor e rigor de nosso pensamento.

Sempre temos que ter em conta que os toneis velhos de carvalho, e como todos recipientes, devem se limpos e higienizados antes de colocar o vinho novo. Quer dizer o odre velho deve ser limpo das impurezas advindos do uso. O mesmo parece fez Zubiri ao estudar e analisar as corrupções e desvios da filosofia clássica. Muitos preferiram ou não entenderam tal sabedoria e sem compromisso nenhum ou então por urgência e por consumo desenfreado, criaram vinhos, ditos novos, rejeitando os odres modernos e moderníssimos. Resultado, temos um saber moderno e contemporâneo, que não é palatável, bebível e digerível, porque mantem os erros e desvios que cometemos. É confusão de querer construir um mundo novo com um andaime conceitual, rejeitando a tradição que nos sustenta. Erramos de novo na bebida e na forma.

Assim segue nos mostrando, depois de quase 80 anos, o primeiro livro de Zubiri. Ele foi feito com o empenho de uma vida intelectual manifestando os estalos de uma atrevida inspiração filosófica, que se estava amadurecendo. A semeadura foi muito dolorosa. Separou o joio do trigo do saber e da sabedoria filosófica, estudando, muito criteriosamente, por isso a passo de tartaruga e com cuidado começou a dar-nos um vinho especial para nossa vida. Essa constatação, não apenas se deu na década de quando foram escritos, quando muitos na Espanha se sentiram cúmplices daquela forma de pensar, mas hoje é mais patente e fonte de atrevimentos filosóficos, cobrados repetidamente pelo mesmo D. Gracia que o léu de jovem: “Não posso no dizer, que suas páginas  deixaram em mim uma marca indelével e me ajudaram a tomar certas opções de vida”. Por isso defendo que não podemos considerá-lo apenas como uma simples introdução didática e acadêmica ao inquieto pensamento zubiriano.

Podemo-lo ler como uma grande introdução para familiarizarmos com o talante de Zubiri, mas não de forma corriqueira, teórica e repetitiva, porém sempre inspiradora e dinâmica. Ela parece que nos atrai, que nos disse muito mais do que está escrito. Assim poderemos descobrir o que Zubiri levava entre suas mãos filosóficas até a Inteligência senciente, e deixando ainda aberta a inspiração chocante mas que nós atrai, sua criatividade rigorosa e amadurecimento singular. Lega-nos  a tarefa de enfrentar o “problema da inteligência”.

Natureza, História, Deus é a primeira obra de X. Zubiri em 1944, traduzida no Brasil em 2010. Antes, em 1980 foi traduzida para o inglês por Thomas Fowler. Zubiri aceitou de ele fazer um Prólogo especial para esta tradução, em reconhecimento ao trabalho de Fowler. Na obra original constam dois prólogos de Zubiri: Prólogo à primeira edição e Nota à quinta edição, onde Zubiri fala da forma do livro sem dar-se importância, embora fosse interpretada por muitos naquele tempo como se fosse apenas como recolhimento de alguns texto e ainda para ganhar o pão de cada dia.  Nunca buscou Zubiri a fama de filósofo. Para sua mulher falava diante das muitas incompreensões: “gênio não sou, mas também não tonto”. Assim, podemos dizer hoje nesse empenho zubiriano. O que ele nos fala é de um intelectual sério e “assumido” como filósofo, que acabara de se demitir da Universidade Espanhola, porque ela “não tinha mais ambiente propício para a liberdade de pensar”. Parecia uma grande loucura ou suicídio intelectual, mas pensava mais no ambiente propício aberto por Ortega, e por muitos intelectuais espanhóis de todas as áreas do saber, para a tarefa de pensar o homem e a terra da Espanha, senão também do mundo inteiro.

Esta obra é a que mais edições têm necessitado de fazer pela sua procura. Hoje, já são mais de 13 edições, sempre em primeiro lugar de todas as publicações de Zubiri. Por isso, Natureza, História, Deus, foi enriquecida pelo diálogo amigo e rigoroso entre ele e Fowler com um Prólogo, que já se tornou parte do livro, para a Tradução Norte-Americana. Este prólogo de Zubiri, que fez quando já estava escrevendo em pleno amadurecimento sua obra máxima a Trilogia senciente  Por isso, esse prólogo forma parte de Natureza, História, Deus embora o livro tivesse sido escrito na década de 30.

Zubiri nos prólogos existentes parece ficar nos passar certa dúvida da unidade destes texto; apenas afirma que são textos de uma época. Mas, segundo D. Gracia não é mera compilação dos artigos da década de 1930, e nós concordamos, mas deve ser considerado “como um texto com entidade própria e independente, irredutível à simples soma dos artigos que lhe serviram de base”. E este prólogo da edição inglesa mostra isso: Zubiri descreve-o como a está de influência fenomenológica. Foi escrito por Zubiri em pleno desenvolvimento e consciente do que sua vida intelectual sempre estará aberta.

O próprio Zubiri nesse prólogo nos diz que esta obra corresponde a sua primeira etapa de reflexão filosófica, chamada fenomenológica, onde ele se sentiu ajudado pela fenomenologia, não somente pela volta as coisas mesmas, mas pelo espaço de liberdade de pensar aberto por ela.

A intenção da publicação no blog neste prólogo é ajudar o interessado a iniciar sua leitura zubiriana com textos, que parecem soltos e em forma de ensaio, como o ensinou Ortega, mas que revelam uma unidade própria, Zubiri o afirma assim no Prólogo.  Uma iniciação ás andanças filosóficas de Zubiri, mas que são um verdadeiro mergulho na filosofia inédita do autor.

Este é motivo que sentimos durante anos até hoje ao ler e reler Natureza, História, Deus. Vemos Zubiri naquela época arrumando e enriquecendo sua casa intelectual, mostrando a profundidade sem igual da crítica desses conhecimentos e a ousadia de sua inspiração totalmente diferente de seus mestres e colegas, que fizeram sucesso no século XX. Certamente a fenomenologia foi inspiração comum a todos com a volta as coisas mesmas. Porém, Zubiri compreendeu profundamente a fenomenologia como tal e vai completar esse desafio: da volta ás coisas mesmas desde as coisas. Com isso ele chegou aos mistérios e labirintos do ser. E conflitando e discordando com as formas dos caminhos descobertos expressou sem medo e sem pressas, sua crítica e inspiração,  sempre com rigor intelectual: a realidade é antes do ser.

Por isso, agora, depois de ler e reler quase todas suas obras durante muitos dias e anos, podemos apalpar em NHD a força de sua inspiração radical, que já está presente no decorrer dos artigos escritos na década de 1930, que a primeira vista são apenas lições soltas de filosofia, como se fossem de um professor excelente. Assim, Natureza, História, Deus não pode ser apenas uma introdução ao pensamento de Zubiri, mas mergulhar na originalidade, sempre pujante e por isso incompleta, que devemos ir elaborando com ele ou ele conosco. Entendo que a devemos estudar como parte de uma dinâmica de reflexão filosófica do autor, que nos quer contagiar com esse “pensar nas coisas que nos fazem pensar”. Alguns pensamentos ao longo desses artigos revelam o verdadeiro ponto de partida, confuso e em crise nas ciências e na sociedade, indicando os passos lentos a dar, que para ele sempre devem ser completados.

Nota Explicativa 3.

Adentrando-nos em História, Natureza, Deus.

Convidamos a estudar essa obra acompanhando a reflexão esclarecedora e instigante dele, criada pela nova proposta do saber humano, da sabedoria filosófica e metafísica, e, portanto, da necessária, não a “melhor” realização do homem, mas para uma “ótima” realização das pessoas de nossa humanidade.

É nossa firme convicção de amante do saber cativante zubiriano, tirar a cabeça dela do chão, maltratados pelos conceitos de uns e pisar vivendo dentro de nossa realidade de pessoas. Por isso, aproveitamos esta ocasião para separar algumas frases ou pensamentos que indicam essas centelhas da iniciante inspiração de Zubiri. Mas, não somente como centelhas que se desfazem, mas que reiniciam o movimento de uma sabedoria real e apresentativa, não representativa. Gostamos de ver, então, como uma oficina do torneamento das peças novas de um andaime real e senciente a elaborar. Já estamos cansados e confusos de limitação dos andaimes conceituais das formas representativas de nosso saber e da filosofia, e, portanto, da ciência como a praticamos. Só assim a humanidade poderá sair dessa crise dilaceradora, da crise provocada pelo corona vírus e da  aprisionadora normalidade do saber concipiente.

Assim, na leitura de Natureza, História, Deus reparamos muitas vezes, não somente o teor dessa busca, mas também a construção do novo andaime senciente para ir desfazendo-se do concipiente, que não se sustenta mais. E não nos sustenta. Duro e demorado trabalho o de Zubiri, facilitado agora para nós e pro cada um de nós. Vamos separar esses pensamentos que formam a raiz de toda a proposta zubiriana. São faíscas consistentes do grande foco de inspiração radical. Zubiri nós faz pensar desde as coisas e por isso desde a mesma realidade das coisas. A leitura desse novo prólogo como veremos, nos anima nessa convicção e empreitada de todos.

Vejamos alguns exemplos, que podiam ser muitos mais. Todos eles estão sublinhados tanto na nossa obra original como na tradução em português pela É Realizações no Brasil. Desde as primeiras leituras Zubiri surpreende com uma das peças fundamentais da grande inspiração do problema da inteligência, e seu enfrentamento e novas possibilidades. Diz de repente: “saber não é raciocinar nem especular: saber é ater-se modestamente à realidade das coisas (p. 82). É o primeiro enfrentamento escrito sobre a realidade e sobre a inteligência. Podemos ainda separar alguns que nos inquietaram para a abertura do pensar e outros muitos que vocês podem indicar, diante de uma filosofia especulativa e repetitiva que nos inunda, porque a leitura de Zubiri nós abre o dinamismo humano na vida e na inteligência.

Em Nossa situação Intelectual podemos descartar vários pensamentos que surgem como pequenas pedras fundamentais do problema filosófico da inteligência que Zubiri está enfrentado. Mas, vamos separar uma das mais importantes. “Necessita (nossa inteligência) a aprender a aproximar-se das coisas para que elas se lhe manifestem cada vez mais” (p. 50). “Parece que a ciência consiste em dar-nos coisas de que primária e radicalmente não teríamos posse” (id. 56) “São as coisas que nos impõem nossos esforços” (id. 58). “O difícil da questão é que a filosofia não é algo acabado, que esteja aí e de que baste lançarmos mão para nos servirmos a nosso bel-prazer” (id. 63). “A filosofia, pois, deve ser feita, e por isso não é questão de aprendizagem abstrata” (id. 64).

A realidade da verdade nos manifesta realmente a verdade de uma realidade sentida em nosso sentir” (id. 84). “A categoria especial dos sentidos, no homem, reside não em serem ‘sensórios’, mas em serem ‘sentidos’” (id. 84). “A busca do ser real e verdadeiro depende, pois, em ótima instância, da busca desses infalíveis e elementares sentires, para, atendo-se a sua infalível verdade, ter realidade verdadeira das coisas” (id. 90). “O homem não só sente, mas ‘tateia’, por assim dizer, sua impressões das coisas até dar sentido” (id. 92).

“Daqui que Aristóteles, ao desenvolver o problema da ousía, se veja obrigado a tratá-la como ‘sub-stancia’” (id. 127). “Necessitamos saber se a filosofia e o ser do homem vão nutrir-se, em ótima instância, do que ‘acontece no mundo’ ou do que as coisas e o homem ‘são na realidade’” (id. 129).

Ocupar-se da história da filosofia não é, pois, uma simples curiosidade: é o movimento mesmo a que se vê submetida à inteligência quando empreende precisamente a ingente tarefa de pôr em marcha a si mesma partindo de sua última raiz… A filosofia não é sua história; mas a história da filosofia é filosofia” (id. 145). “Porque, definitivamente, a objeção à filosofia procede de certa concepção da ciência que, sem prévia discussão, pretende aplicar-se univocamente a todo e qualquer saber estrito e rigoroso” (id. 148). “Enquanto a ciência imatura é imperfeita, a filosofia consiste no processe mesmo de sua maturidade… A filosofia não é obra do filósofo; o filósofo é que obra da filosofia” (id. 155).

A riqueza e precisão infinitesimal do vocabulário escolástico constitui um dos tesouros que é mais urgente pôr em rápida circulação” (id. 161). “Indubitavelmente, o legado completo de sua razão (de Descartes) genial só foi para alguém, que o recebeu como sutil obséquio de sua intimidade. Par quem?° Deus sabe” (168). “Podemos, com efeito, entesourar toneladas de conhecimentos filosóficos e não ter roçado, nem sequer de longe, o mais vestígio de sua (Pascal) autêntica vida filosófica… os pensamentos de Pascal são, como poucos, gigantescos esforços por perceber original e indeformadamente, diante de sua mente, a realidade do mundo e da vida… Não significa (esse esforço de Pascal) o cego sentimento e oposição à pura razão cartesiana, mas o conhecimento constitutivo do ser cotidiano do homem” (170). “A história não é, para Hegel, supraindividual, mas forçosidade supraindividual”, (id. 176).

“Sócrates introduz na Grécia um novo modo de Sabedoria. Isso necessita de uma explicação” (id. 184). “Contra o que prega o idealismo absoluto, a filosofia não nasce de si mesma” (id. 185).“A experiência do homem, como dizia eu,  é o lugar natural da realidade, graças precisamente a sua limitação, que lhe permite apreender certas coisas e certos aspectos delas com exclusão de outros” (id. 187-188). “O pensar humano, que tomando estaticamente num momento do tempo, é o que é, portanto verdadeiro ou falso, é, tomando-se dinamicamente em sua projeção futura, verdadeiro e falso segundo a via que empreenda… Porque não se trata tão somente de que essas possibilidades que ao pensamento se oferecem sejam verdadeiras ou falsas, mas de que as vias sejam ou não vias mortas. Em cada instante de sua vida intelectual, cada indivíduo e cada época se acham colocados sobre o constitutivo risco de avançar por uma via morta” (id.191-192). “O próprio da mente pensante não é ser uma faculdade de pensar, que tanto pode acertar como errar, mas o possuir uma espécie de tato profundo e luminoso que nos faz ver certeira e infalivelmente as coisas” (id. 207­). “Nasceu o mundo do logos… Porque a partir desse novo estágio, o lugar natural da realidade verdadeira será a razão” (Id. 220). Com Protágoras, “encontrámo-nos a mil léguas da racionalidade do ser que a ciência de seus contemporâneos descobre. Tudo é discutível; porque nada tem consistência firme, o ser é inconsistente” (id. 224). E “o homem se vê entregue à deriva da frivolidade” (id. 224 e 233). “Com isso seu saber deixou de ser sabedoria para tornar-se coisa manejável, tópos, tópico, que se utiliza em benefício próprio ou por ocasião de consagração pessoal mediante a polémica. O zelo e a indolência tem idêntica raiz: o tópico.” (id. 231).

“A sabedoria nasceu da mente pensante. Ao perdê-la, deixou de ser Sabedoria. O saber já não é de uma vida intelectual, s simples receituário de ideias. Por isso a elimina Sócrates” (id. 234). “Sócrates se retira para casa, e nessa retirada recobra seu noûs e deixa a sabedoria tradicional em suspenso. O ‘e’ readquire sua importância e sua gravidade. As coisas recuperam a consistência, tornam-se novamente resistente e suscitam autênticos problemas. Com isso, o homem mesmo adquire gravidade” (id.235). “Paras uns, Sócrates era mais sofista; para outros um bom homem. Para sua descendência foi um intelectual. Na verdade inaugurava simplesmente um novo tipo de Sofia. Nada mais, mas nada menos” (id. 238). Sócrates, “tem seus amigos, e com eles fala. Para um bom grego, o falar está unido ao pensar como era para o semita rezar e recitar; a oração do semita é justamente isso, oração algo de que participa sempre se os, sua boca. Para um bom grego, o falar não se dá isoladamente do pensar: o logos é, a um só tempo, um e outro. Ele sempre entende o pensamento como um diálogo silencioso da alma consiga mesma, e o diálogo com outros como um pensamento sonoro. Sócrates é um bom helénico: pensa falando e fala pensando. De fato, dele sai o diálogo como modo de pensamento” (id.239). “Ao mesmo tempo, Platão e Aristóteles nos deram com isso um lição magistral de história da filosofia, uma lição socrática. A história da filosofia não é cultura nem erudição filosófica. É encontrar-se com os demais nas coisas sobre as quais se filosofia” (id. 256).

“Dizer que uma coisa se apoia no espírito absoluto, equivale a dizer permanece nele como momento seu. Por isso diz Hegel que a verdadeira substância é o sujeito. Esse é o ponto de partida da filosofia de Hegel: o absoluto como sujeito” (id. 267). “O difícil para captar o absoluto de Hegel, não é pensar muito, mas justamente o não pensar nada” (id.268). “ Se não tivesse existido mais que simples visão do mundo, facilmente toda a filosofia teria degenerado numa orgia mística, num frenesi intelectual. Com a frase de Parmênides de que a visão do que é e o ser são a mesma coisas, não seria passado a filosofia do nível de um intuição intelectual, como se repete em Schelling. Essa foi uma das genial contribuições de Palitão para a filosofia” (id.272). “Esta genial visão de Que é o ser?, mas algo como  dizia Platão , que está para além do ser. Em genial visão , dizia obscuramente  Aristóteles que a filosofia surge da melancolia; mas de uma melancolia por exuberância de saúde, katà phýsim, não da melancolia enfermiça do bilioso, katà nóson. Nasce a filosofia da melancolia, isto é no momento em que, de modo radicalmente diferente do cartesiano, o homem se sente sozinho no universo. Enquanto essa solidão significa, para Descartes, recolher-se as si mesmo, para Hegel, em não poder sair de si, a melancolia aristotélica é justamente o contrário: quem se sentiu radicalmente só é quem tem capacidade para estar radicalmente acompanhado. Ao sentir-se só, aparece-me a totalidade do quanto há, enquanto me falta. Na verdadeira solidão, os outros estão mais presentes do que nunca” (id. 274-275).

A nova física é, em maior ou menor grau, justamente isto: uma novidade e, por isso mesmo, um problema (filosófico)” (id.282). “Um colaborador de Rutherford, Nils Bohr, aplicou em 1923 a ideia de Planck para explicar o modelo atômico de seu mestre, e seu êxito experimental acabou por abrir aos pés da ciência o abismo absoluto que a separava da experiência” (id, 287). “E a teoria da relatividade terminou de afastar decididamente das teorias físicas a imaginação. Bem entendido, a imaginação como órgão que representa e, nesse sentido, conhece o que o mundo é. Viu-se então que nas teorias físicas havia dos elementos essenciais: a imagem do mundo seu a estrutura ou formulação matemática, e que desses dois elementos o primeiro é absolutamente caduco e circunstancial: só o segundo expressaria a verdade física. Isto, pois pareceu com bastante claridade antes que se sistematizasse a nova física” (id. 314). “Nada disso acontece na física nova. Além dos citados erros, em toda observação, o observador, pelo mero fato de observar, modifica essencialmente a natureza do observado, porque, como vimos, precisa iluminar seu objeto” (id. 315). Há, pois, uma tentativa, ainda mais radical que a teoria da relatividade, de ater-se à verdade experimental, de criar conceitos experimentais para experiências efetivamente experimentadas. Daí procedem, os distintos caracteres dos fatos de que parte, dos problemas  que a respeito deles suscita e do sentido da solução que encontra para eles” (id. 315).

A nova física levou a sério esse conceito de probabilidade e de observação. Em face da física anterior, tem a virtude com audácia a probabilidade e mover-se sem dissimulá-la. É labor que custou séculos à humanidade. Mas tal vez, que a de acolher-se à necessidade. Não foi um capricho ou um jogo de conceitos – essa é sua grande significação -, mas uma exigência da evolução mesma da ciência, que começou com Einstein e chegou aqui a seu grau máximo: a subordinação da teoria à experiência” (id. 321). “Resumindo: para Aristóteles , a Natureza é sistema de coisas substâncias materiais que vem a ser por causas; para Galileu, a Natureza é determinação matemática de fenômenos (acontecimentos) que varia; para a nova física, Natureza é distribuição de observância. Para Aristóteles, física é etiologia da Natureza: para Galileu, medida matemática dos fenômenos; para a nova física, é cálculo provável de medições observáveis” (id.339).

A Grécia não representa, para nós, um museu de tipos filosóficos clássicos. Representa, em primeiro lugar, a maneira concreta como o espirito do homem entrou na filosofia. Em seu momento de maturidade, os próprios gregos tiveram clara consciência desse enorme fato” (id. 350). “É  mister, que renunciemos resolutamente à ideia de clássico e nos aproximemos da filosofia que o homem adquiriu em sua primeira ascensão ao filosofar, que decidiram a trajetória e a sorte concreta da filosofia na história, e que constituem, sabendo-o ou sem sabê-lo, a base primária sobre a qual se acham abertas e assentadas nossas próprias possibilidades filosóficas. Não é que os gregos sejam nossos clássicos: é que, de certo modo, os gregos somos nós” (id.351). “A Grécia traçou, nesse sentido, a rota da filosofia europeia. Por isso, somos gregos, não por um classicismo romântico. Na Grécia, a inteligência alcançou a primeira fase de sua plena maturidade. E tudo o que veio depois se ergue, em numa u outa medida, no pensamento grego. Por               que a historia não é indiferente o momento em que as coisas acontecem. Um mesmo fato que acontece em duas ordens de possibilidades pode significar coisas absolutamente diferentes” (id. 372).     

Ser coisa consiste precisamente em ‘possuir’ de seuo conjunto de notas que constituem a natureza. Mas, então, o possuir tem duas vertentes. Uma, que dá para fora: as ações de uma coisa sobre as demais. Outra, que dá para dentro: o que constitui o âmbito interno da coisa mesma. Se pela primeira esta posse se chama natureza, pela segunda recebe o nome de realidade, de ser. É a ideia de ousía, da sustância aristotélica, em que culmina sua ideia do ser. É certo que, em Aristóteles, o ser não se acha tematicamente limitado à natureza. Mas sempre se acha plasmado um pouco à imagem e semelhança sua. A substância aristotélica é o ponto cuspidal  da trajetória grega. Da natureza ao ser: aí está a rota que a Grécia seguiu” (id. 377).

“Este carácter fundante faz com que o homem em seus atos não seja só uma realidade atuante de uma ou outra forma, mas uma realidade religada à ultimidade. É o fenômeno da religação. A religação não é senão o carácter pessoal absoluto da realidade humana atualizado nos atos que executa. O homem está religado à ultimidade porque em sua própria índole é realidade absoluta no sentido de ser algo ‘seu’. E, enquanto religante a ultimidade é justamente essa orla de ultimidade que chamamos deidade … Essa abertura para a realidade não é resultado da consciência moral, nem é um sentimento, nem mais uma experiência psicológica, nem estrutura social, senão, que pelo contrário, esses quatro aspectos são o que são somente na e pela religação. Esses quatro aspectos são suscitados algo pela religação. Religação não é, pois, mais um ato do homem, nem é o carácter de alguns atos privilegiados seus, mas o caráter que todo ato tem por ser ato de uma realidade pessoal. A descoberta da deidade não é resultado de determinada experiência do homem, seja histórica, social ou psicológica, mas é  princípio mesmo de toda essa possível experiência. A religação não tem uma ‘origem’, mas um ‘fundamento’. Mostrá-lo assim é obra da inteligência” (id. 397).

Filosoficamente, a inteligência empreende justificadamente, partindo do homem mesmo e das coisas, uma marcha segundo aqueles três passos já indicados: deidade, realidade divina , Deus” (id. 401).

“Basta-nos, por ora, dizer que a pessoa é o ser do homem. A pessoa encontra-se implantada no ser ‘para realizar-se’. Esta unidade, radical e incomunicável, que é a pessoa, realiza-se a si mesma mediante a complexidade do viver” (id 413). “Há, como indiquei antes  e vamos ver a seguir, um problema intelectual em torno de Deus; mas isso não quer dizer que o modo primário de patentear a Deus seja um ato de conhecimento ou de qualquer outra faculdade, nem que o conhecimento seja a última reflexão sobre uma quimérica experiência religiosa; não se trata de nenhum ato, mas de ser homem” (id. 422-3).

A teologia não se identifica com a religião, mas tampouco é um apêndice reflexivo, fortuito e eventual metre acrescentado a ela: toda religião envolve constitutivamente uma teologia. Não pretendia mais” (id. 432).

“O mundo, em cada época, é dotado de peculiares graças e pecados. Não é  forçoso que uma pessoa tenha sobre si o pecado dos tempos, nem, é lícito que lhe seja imputado, por isso pessoalmente. O tempo atual é tempo de ateísmo, é uma época soberba de seu próprio êxito. O ateísmo afeta hoje, primo e per se, nosso tempo e nosso mundo. Os que não somos ateus somos o que somos a despeito do seu³.  A nossa época é rica nesse tipo de vidas, exemplares em todos os sentidos, mas diante das quais sempre surge um último reparo: ‘Pois bem, e daí?…; existências magníficas de esplêndida figura, desligadas de tudo, errantes e errabundas… Como época, nossa época é época de desligamento e de desfundamentação. Por isso, o problema religioso de hoje não é problema de confissões, mas o problema religião-irreligião. E, naturalmente, não podemos esquecer que é também, a época da crise da intimidade”. (id. 441). “A religação é a possibilidade da existência enquanto tal” (Id. 442).

A perspectiva teológica dos gregos (patrística) é muito diferente da latina. É uma teologia essencialmente personalista. O movimento primário como uma prioridade metafísica e intelectual, e não só de fato, do homem para Deus é um movimento de pessoa para pessoa…

 Isso é Deus para os gregos. Uma pura ação pessoal, insondável; na pureza de seu ato já está expressa o caráter de sua pessoa. Em Deus, a natureza é tida por identidade radical na pessoa. Visto de fora, manifesta-se como êxtase infinito, como fecundidade infinita; e por isso concebemos a Deus como amor. Sua unida metafísica é um êxtase. E na pureza de seu ato se expressa finalmente, também a absoluta unificação de todos os atributos com seu próprio ser, em intimidade metafísica…

Aí está, pois mais ou menos alcançado, o ponto de partida. Deus é essencialmente uma pura ação, um puro amor pessoal. Como tal, extático e efusivo. A estrutura desse êxtase é a fusão mesma do amor em três planos: uma efusão interna, a vida trinitária; uma criação externa e uma doação deificante. É o que vamos ver” (id. 469-471).

Resumamos. Em Deus, como amor efusivo, seu êxtase procede à produção de uma vida pessoal que subsiste o ato puro de sua natureza: é a Trindade. Seu ser efusivo tende a exteriorizar-se livremente em duas formas. Primeiro, ‘naturalmente’, produzindo coisas diferentes dela: a criação. Depois, ’sobrenaturalmente’, deificando sua criação inteira mediante uma Encarnação pessoal em Cristo e uma comunicação santificadora no homem pela graça. Por essa deificação, que afeta de algum modo à criação inteira, essa volta a associar-se à vida íntima de Deus, mas de modo diverso: em Cristo, por uma verdadeira circumincessão da natureza humana na divina; no homem, por uma posse extrínseca, mas real, de Deus; nos elementos visíveis por uma transfiguração gloriosa” (id. 525-6). (in Xavier Zubiri. Natureza, História, Deus. É Realizações, São Paulo, 2010)

A modo de conclusão sempre aberta.

Selecionamos para o leitor alguns pensamentos de X. Zubiri da primeira obra Natureza, História, Deus. São pensamentos de um intelectual de filosofia que ainda não constituem uma forma ou sistema de pensar, mas já percebemos claramente nela essa pretensão ousada dentro da situação atual do saber e da sociedade.

 Podemos aplicar a Zubiri na época que escreveu, o que ele nos falou de Pascal: “Por isso, mais que uma filosofia pronta, há em Pascal justamente o que seu título indica: pensamentos filosóficos que ainda não chegaram a ser filosofia. Mas, isto sim, enquanto pensamentos, os de Pascal são, como poucos, gigantescos esforços por receber original e indeformada, diante de sua mente, a realidade do mundo e da vida” (id. 170). Reparemos que Zubiri destaca para aprender e fazer filosofia que tenhamos sempre presente o mundo e a vida. Não entende essa separação do intelectual do que se passa na vida e mundo da humanidade e  do que seja o universo. Ele já tinha claro, estudado e consciente, naquele momento, que o saber filosófico viva um dualismo intelectual e, portanto na sociedade. Era fruto da forma final da  modernidade que separou conceitualmente o pensar e a realidade.

Penso, que isto, é o que nos revelou a esquadrinhar melhor a obra que estamos apresentando e estudando com a ocasião do surpreendente Prólogo a educação inglesa, já na maturidade de seus 80 anos.  Nesses textos, parece que ele estava falando de seus próprios esforços de lutar contra os gigantes da filosofia e não teve medo. Nos textos da obra, como selecionamos para o leitor, vemos Zubiri já dialogando com esses gritantes do pensamento, e sem medo  reprimido e com firmeza clara, de contrariá-los das suas elaborações, tanto nos passos que deram como nos seus objetivos ou motivos, para legar-nos tamanhas elaborações.

É diferente Zubiri, quando fala do envolvimento de Hegel, “quando publica a Fenomenologia do Espírito em 1807. A publicação do livro, diz Zubiri,  significa uma profunda crise para a pessoa de Hegel e para sua época” (id. 175). Concretamente dento “da crise da filosofia da identidade, um apelo irracional ao Absoluto, onde toda diferencia  se desvanece”, que ele ensinava,  e “uma profunda crise se produz em sua inteligência”. De tal forma que na Fenomenologia do Espírito, “palpita uma emoção intelectual e uma veemência que já não voltarão a se encontrar em nenhum outro escrito de Hegel. Sob sua roupagem abstrata e abstrusa, a Fenomenologia do Espírito é, na verdade, a confissão intelectual da crise de sua inteligência. Hegel a chama de experiência, e experiência da consciência” (id. 175).

Assim, Zubiri interpreta a situação desse momento de Hegel, mas conclui: “A Fenomenologia foi e é o despertar para a filosofia. A filosofia mesma, a efervescência intelectual de sua existência como manifestação do que ele chama de espírito absoluto. O humano de Hegel, tão calado e alheio ao filosofar, por um lado, adquire, por outro, caráter filosófico ao elevar-se à suprema publicidade do concebido. É, reciprocamente, o pensar concipiente apreende no indivíduo que foi Hegel com a força que lhe confere a essência absoluta do espírito e o sedimento intelectual da história inteira. Por isso Hegel, é em certo sentido, a maturidade da Europa”.

Pois bem, dentro desta crítica sútil ao estranho e rico envolvimento de Hegel, como humano e como filósofo do absoluto, Zubiri reconhece: “Seja qual for nossa posição última com respeito a ele, toda iniciação atual à filosofia deve consistir, em boa parte, numa “experiência”, numa inquisição, da situação em que Hegel nos deixou instalados” (id. 177).

Não há dúvida que Zubiri se convence e se apega totalmente a Pascal. Embora, o avalie sente nele um palpitar filosófico diferente: “Em Pascal  se assiste, em parte, a um dos poucos ensaios levados a efeito por apreender conceitos filosóficos adequados a algumas das mais importantes dimensões do homem.  Por exemplo, seu conceito, tão vago, é verdade, e, portanto mal entendido e mal usado, de ‘coração’. Não significa o cego sentimento em oposição à pura razão cartesiana, mas o conhecimento constitutivo do ser cotidiano e radical do homem” (id. 170).

Assim que devemos entender os textos aparentemente soltos para filosofar em público de Natureza, História, Deus. Todos eles rebassam, e o vimos nos pensamentos que escolhemos, esse “pensar profundo” para atingir melhor “o conhecimento constitutivo do ser cotidiano e radical do homem”. Zubiri não explicita um sistema filosófico, que o fará mais farde, mas partindo do real, e o revela espontaneamente em peças fundamentais de seu pensamento que delas surgirão as elaborações mais acuradas, coerentes e suficientes, sempre partindo no centro de sua busca a realidade humana, o homem concreto de todos nós.

Finalizamos com palavras de Zubiri sobre Pascal: “Tudo menos um cartesiano cálculo de probabilidades. Como  no caso de tantos outros, percebe-se em Pascal a inadequação entre o que quer dizer e aquilo com que tem de expressar-se: a inadequação entre o pensamento pessoal e o mundo em que se acha inscrito. E isso, com que um pensador tem de expressar-se e até dizer a si mesmo o que pensar, não são somente os vocábulos, mas também o elenco de conceitos que seu mundo lhe oferece, e nos quais tem de apoiar seu pensamento para levar a inteligência própria e de seus leitores para ‘o quer dizer’” (id. 171-2).

Agora desde nossa situação atual, já que temos estudado a trilogia madura de Zubiri, poderemos sentir em Natureza, História, Deus a coerência firme dela para nós diante do impasse despertado pela sua leitura. Concordamos e gostaríamos de aplicar para essa  nossa situação intelectual o que Diego Gracia fala na Presentación da obra Sentimento y Volición em 1992:

“Este princípio heurístico exige um especial esforço por parte do leitor. Supõe, em primeiro lugar, que ele deve ter lido e ter dominado o conteúdo de Inteligência Sentiente. E supõe, também, que, ao ler esses cursos (textos) deve ir recreando seu conteúdo desde as categorias daquela obra. É óbvio que o pensamento vertido neles não está a altura da trilogia, e que é  o leitor quem tem de fazer o esforço de elevá-los a esse nível. Isto exige, certamente, um enorme esforço, mas que será recompensado com fecundíssimos descobrimentos (SS 13). 

Resumamos o desafio de Gracia: para entender mais os textos de NHD agora, devemos entender que as faíscas que nos surgem da leitura de Natureza, História, Deus são a partir da coerência e firmeza da leitura apreendida da obra máxima da Inteligência senciente.  E é porque sintonizamos como os conteúdos dessa leitura que s complementam. Gracia o indica, e nós o repetiremos muitas vezes, que a leitura desses “textos soltos”, que compõem Natureza, História, Deus nos despertam e nos levam a recriar os problemas levantados segundo a Inteligência senciente. E finalmente, para não ficar com medo nunca desse caminho a percorrer, seremos os primeiros beneficiados recompensados com fecundíssimos descobrimentos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Esta foi a situação de Zubiri em Natureza, História, Deus, que vemos tem ainda a ver conosco ajudando-nos em nossa situação do século XXI, buscando conceitos que nos levem à realidade, que não podem ser mais fruto da mente absoluta, mas da realidade concreta da experiência do ser humano. E como temos escutado num vídeo de brasileiros, que fazemos nosso: “não só da natureza vive o homem”, ou então, “todos abrimos os olhos para acordar” E, nós falamos depois de estudar e reler Zubiri: somente podemos viver e escolher os conceitos profícuos que sejam da realidade, “da experiência humana feita conceitos” benfeitores para o homem e o mundo.

Rios voadores do pensamento de Zubiri no Brasil

*Por José Fernández Tejada

Parte I – A experiência da filosofia do real no pensamento brasileiro

Introdução – Um momento histórico

O pensamento brasileiro recebeu, felizmente, nos anos de 2010-2012, no meio de outros livros e textos filosóficos, um “presente real” e “irreversível” com a tradução cuidadosa de três obras que marcaram a inédita e extemporânea filosofia de Xavier Zubiri (1898-1983): “Natureza, História, Deus” (em 2010), “Cinco lições de Filosofia” (em 2012) e “A Trilogia Senciente” (em 2011), pela Editora É Realizações.

Um sonho e uma necessidade que se estava realizando. Abria-se para nós brasileiros uma ponte “suficiente” para caminhar no horizonte da realidade, filosofando sobre a radicalidade das coisas, incluindo o saber e viver humanos. Era o fruto filosófico do legado da fenomenologia: a volta às coisas, desde as coisas, que a Zubiri o levou à fonte dos gregos, e desde as coisas mesmas. Outros países iniciaram o maravilhamento zubiriano de formas e tempos diferentes, sintonizando com a realidade antes do ser. Ele, assim, nos abria, ou melhor, nos devolvia dentro do horizonte da realidade do qual nunca devíamos ter saído. Começamos a navegar mais firmes com ele.

Assim, todos, fomos cativados para um filosofar “de precisão conceitual e rigor formal” diferente. Zubiri nos espanta e nos atrai pelos seus conhecimentos, questionamentos, análises, sutilezas linguísticas e neologismos, levando-nos como que “forçada e teimosamente” sempre, por todos os mares da filosofia. E isto, apesar da dureza e da linguagem, quase incompreensíveis, como falaram e condenaram os que não tentam entender sua proposta. Mas Zubiri, é um intelectual diferente, um filósofo em ação sem dar-se importância ao que possam falar de suas exposições e de seus passos de tartaruga. Ele mesmo fica descontente com seus avanços e os submete a novos esforços e análises. Seu pensar surgia para nós dif&iacu te;cil e estranho, porque nunca tínhamos ouvido tal clareza e ousadia, mas honesto, coerente e consistente e sempre aberto, porque a inteligência é sentir o real, e não reduzida ao raciocinar e especular e outras boas invenções. Assim, o questionamos. Felizmente, nos deparamos com uma “teoria da experiência do real” e, não com as cansativas e insistentes teorias puramente racionalistas, que tendem a confundir e que nos impõem suas realidades, como “entes” e “resíduos” (hoje corrupções por todos os lados e os fake news e outras criações camaleônicas, mais perversas), pois não somos radicalmente animais racionais. Nem objetos e nem sujeitos. Nunca o seremos! Como falou o juiz André Nicolit em 2020 ao produzir o habeas corpus sobre o músico de Niterói: “o melhor da política, da economia, do socia l” e de “um processo são as pessoas por dentro”.

Essas obras traduzidas de Zubiri são o início crítico, incoativo e inspirador, a matriz da experiência do diálogo filosófico que ele vivia e o final generoso de seu amadurecimento ímpar, irregular e extemporâneo. Embora, sua vida intelectual despontou prematura, esses livros foram elaborados em idade madura com muita intensidade científica e filosófica, inspiração própria e sem pressas das urgências históricas e intelectuais do século XX. Sua maturidade filosófica saiu dos padrões, tanto do ápice da normalidade, como pela duração até sua morte. Os intelectuais, e também os filósofos estudados por ele, pararam geralmente de amadurecer nos padrões, aceitos em geral (com mais ou menos 40 anos), no início da segunda metade d o século XX, ou corrigiam meio confusos suas inspirações voltando atraidos pela base das coisas (nos meandros da objetividade da consciência) ou ao esquecimento.

A primeira obra, ele publicou com quarenta e dois anos de idade, a segunda com sessenta e três anos e a terceira com mais de oitenta anos. Zubiri não se media pelas pressas e vaidades, embora ávido do saber, nem no seu afazer filosófico, mas sempre expunha sua vida e a dos outros para pensar. Foi dando passos pequenos, entretanto firmes, como o reconhece, repetidamente em Sobre la esencia, ao se referir aos cursos, que ele deu como liberdade e sobrevivência fora da academia inóspita espanhola daquele tempo, como algo que estava alicerçando. Seu amadurecimento foi fruto da atitude filosófica de passo de tartaruga, como exige esta tarefa.

Podemos apreciar e valorizar, que ele ficou ativo e amadurecendo quase todo o século XX, entre os anos 1916 (início do curso de filosofia até a tese doutoral: Ensayo de una teoria Fenomenológica del Juicio,1921 e já doutor em Teologia) até 1983. Foi nesses inícios de estudo que teve a inspiração radical. E quando da sua morte, estava revisando El Hombre y Dios e La génesis humana. Por tanto, enfrentou todos os avanços humanos e tecnológicos, anteviu as bases para outros, como também se deparou com as mentiras políticas e imposturas intelectuais e as crueldades produzidas. Nos estava tirando do mundo representacional para o horizonte da presentacional. Suas últimas preocupações filosóficas após escrever a Trilogia da Inteligência Sencie nte foram sobre o embrião humano e sobre as partículas elementares para continuar dando conta de seu único problema: o ser humano como pessoa, “animal de realidades”, como “ser individual, social e histórico”. Este tema central no seu pensamento, o obrigou desde jovem a questionar os problemas filosóficos de outra forma e fundamentos, que formulou: o real é antes do ser. Ficar rebuscando os conceitos de pessoa, herdados de puras teorias não mudavam nada dela. Um novo passo era necessário.

Também, encontramos em Zubiri um ser humano igual a nós. A sua vida não foi fácil, mas deixou sua casa cheia de livros e muitos livros, onde se sentia mais inspirado, transformada depois de sua morte em Fundación Xavier Zubiri (Rua Nuñez de Balboa, 90 5º Madrid. 28 006. Tel. 91-431 5418. fzubiri@zubiri.net). E não teve uma vida fácil, desde o diagnóstico de não sobrevivência feito pelo médico que assistiu ao seu nascimento. Foi diagnosticado de jovem que ficaria cego se continuasse estudando tanto. Atravessou a “gripe espanhola”. Sofreu até quase os cinquenta anos de dores no estomago e de enxaqueca. O consultou com médicos especialistas e nada detectaram. Saiu do consultório de um especialista na Alemanha, porque só se interessava apoiar sua pesquisa. Foi muito dolorosa sua redução ao estado laico, pois se tinha ordenado sacerdote. Foi lisonjeado e finalmente vigiado pelo regime militar da guerra espanhola. Casou-se com a filha do historiador Américo de Castro, reconhecido republicano atuante. (É bom lembrar, que este historiador e humanista espanhol, de fama mundial, nasceu na cidade de Cantagalo no Rio de Janeiro em 1885, onde é lembrado. Teve amizade com Gilberto Freire e voltou a Cantagalo a convite da UFRJ em 1946). Zubiri demitiu-se de sua cátedra de História da Filosofia por causa de que não tinha a liberdade de pensar dentro “daquela academia espanhola”. Durante muitos anos teve dificuldades do seu sustento. Mas, captou e foi reconhecido por um grupo de amigos que sempre estiveram ao seu lado, que o motivaram em tudo, e em parte por eles começou a dar os famosos cursos, também para seu sustento. Era feliz com a amizade dos amigos em algum jantar após os cursos e, também, gostava de assistir aos touros. Mas ele nunca deixou de fazer filosofia à “altura dos tempos” e “pensar nas coisas que davam que pensar”. Teve diverticulite e faleceu de câncer, como muitos, depois de várias operações aos 84 anos em plena consciência, criatividade e amadurecimento filosófico. Enterrado por vontade própria na sepultura do sogro republicano no cemitério civil.

Sua esposa e amigos, que o conheciam muito bem, pediram no enterro “uma oração pelo eterno descanso de sua pessoa”, e não aceitaram que se rezasse por sua alma, porque, a vida toda Zubiri lutou contra esse dualismo, que rompia a vida pessoal e social em todas as formas, e ofereceu sua proposta, simples e ousada, para tão perversa dicotomia da alma e do corpo. A pessoa, sua grande e única preocupação, é uma realidade (de nenhuma maneira ente, “somente no homem –e isso por sua inteligência- assistimos à constituição plenária e formal de uma estrita substantividade individual: é a ‘inteligização’ da animalidade” (SE 1985, p. 173), [1] que sente o real, e é moral por estrutura, porque deve realizar-se por apropriação suas melhores possibilidades. Zubiri não acreditava mais nessa teoria dualista, que inoculou milenarmente toda espécie de cultura humana. A pessoa é “animal de realidades”.

No ser humano, como todos sentimos, não há uma estrutura do corpo separada da outra estrutura do espírito, unidas somatória e copulativamente à capricho, para depois formar o homem, como se uma delas falasse mais alto quando a outra se cala, como que se revezando a capricho. Somos uma realidade pessoal e, por isso, podemos ter consciência. Como podemos mudar ao nosso capricho essa realidade, só se for com o interruptor dos conceitos, para ter uma ideia nova do homem? Porém, a pessoa humana é algo mais que uniões vitamínicas, biológicas, cerebrais, mecânicas, cromosômas, ligações sinâpsiais na neurociência e algorítmicas em todas as formas digitais. No entanto, o fato é que o ser humano é um processo de “hiperformalização” aberto de milhões de anos. O homem é um animal, mas não somente animal, também pode parecer uma máquina, mas é um ser vivo hiperformalizado, raro que somos todos. As duas partes, no homem, é uma estrutura inseparável e única: constituem o homem como animal de realidades. O poder do real dando de si nos deu essa hiperformalização estruturada de inteligência senciente. Quem somos nós para romper a dinâmica dessa estrutura real?

Por que a filosofia e a ciência, também as diversas culturas e a religiões (não somente ocidental, mas oriental, repetindo Zubiri, “com signos contrários”), se perderam dualisticamente nesses esforços de esclarecer e viver esta experiência radical do problema? Como os primeiros esboços da realidade humana, na mais diversidade de mitos em todas as culturas, escolheram as “formas instinto-racionais separadas” até as mais cruéis, denegrindo e dilacerando o sentir humano e com isso a realização do ser pessoal? O homem é uma realidade partida e limitada? Que limites ela tem? Só é um animal mal acabado? E onde está o humano? Não é isso que acontece até hoje? Sentimos que somos uma única realidade (além do acontecer), “paira para o homem o problema do que &e acute;” (NHD. 129), mas a dicotomizamos, ora submetendo o corpo ao espírito e vice-versa, não como resposta de nossa liberdade humana, mas a contento dos interesses e caprichos criados por uma “razão pura” e, por isso, autônomo-absoluta-determinista.

A proposta filosófica de Zubiri foi entendida inicialmente como escolástica, existencialista e “conservadora”, frente às mudanças ou modas progressistas e cientificistas, entretanto supera, com bastante rigor, suficiência e coerência, os fundamentos do realismo clássico e do idealismo moderno, como as tentativas de mudanças da modernidade, também pela fenomenologia e até de Heidegger, incluindo a inteligência animal e artificial, teimosamente alicerçadas nos ardiles da consciência. Também do marxismo. Zubiri considerou como insuficientes, e não radicais, as bases que justificavam esses dualismos, que defendem ainda como válidos, para algumas formas escamoteáveis da contemporaneidade.

As ciências em mudança crítica foram seus dialogantes e aceitou o “apelo” comum de mudar com elas, partindo da experiência e não dos conceitos. Seus estudos na Alemanha, como na Itália e França com filósofos e cientistas, também, praticado com os pares espanhóis tiveram essa preocupação. Assim, como questionou a filosofia clássica e moderna, também a estendeu ao marxismo (idealismo com signo contrário, é expressão de Zubiri), à psicologia, à psico-análise, às fenomelonogías, ao existencialismo, ao realismo crítico, ao neotomismo, ao positivismo e aos esforços da escola de Frankfurt, ao estruturalismo e à filosofia hermenêutica e analítica. Embora, em todas elas podemos reconhecer motivos e questões importantes. Mas, como ele repetia, “esqueceram, de fazer a última pergunta”: que é “o ser”, que englobava e, como que, a caixa preta de todos esses esforços tentados. Ficavam presos às substantivações do “espaço, tempo, consciência e ser”. Porque, “a filosofia vinha sendo uma mistura de positivismo, historicismo e pragmatismo apoiada em última instância na ciência psicológica, um apoio que se expressou como teoria do conhecimento” (NHD 27).

Queremos enfatizar que estas obras traduzidas ao nosso português, do pensamento de Zubiri, foram muito bem escolhidas e sua edição rigorosa e primorosa. Parabenizamos ao tradutor Carlos Nougué e ao editor Edson M. de Oliveira Filho. O mesmo aconteceu, também, com as obras que constam no Projeto X. Zubiri da editora É Realizações, idealizado por Felipe Cherubin. Várias delas, segundo nos consta, também traduzidas por Nougué à espera apropriada para publicação. Elas contribuirão para a descoberta da originalidade e atualidade, que o pensamento de Zubiri tem a nos oferecer neste século XXI no Brasil, no meio das mais contraditórias possibilidades do acontecer histórico global. Nosso pensamento e língua ficaram enriquecidos. Vamos continuar.

Nestas obras traduzidas temos as bases desafiadoras, críticas e sua inspiração. Temos seu talante filosófico e os caminhos maduros do sentir inteligente. Caminho instigador para as necessárias aplicações.

Rios voadores do pensamento de Zubiri no Brasil – (continuação)

Por José Fernández Tejada

Parte I – A experiência da filosofia do real no pensamento brasileiro

Introdução – Um momento histórico (continuação)

Zubiri escreveu a primeira obra Natureza, História, Deus (NHD), nela “recolheu uma série de estudos publicados em diversos momentos compreendidos entre os anos 1932-1944”. Nesses textos manifestava o domínio e reflexão radical da temática milenar humana (a ciência, o homem e sua história e a religião) de autores mais importantes de toda a filosofia, mas também sua crítica (“saber não é raciocinar nem especular”) e se posicionando para adentrar-se no caminho vivo (“saber é ater-se modestamente à realidade das coisas”, NHD 82). Esta foi sua primeira formulação diante do dilema que se deparava: “Necessitamos saber se a filosofia e o ser do homem vão nutrir-se, em última instância, do que ‘acontece no mundo’ ou do que as coisas e o homem ‘são na realidade’” (id. 129). E conclui: “A verdade é que nisso está envolto o destino inteiro da filosofia e do ser do homem” (id. ib.). Zubiri enfrentou de forma nova sem amadurecer os principais temas humanos: natureza (ciência), história (do homem) e de Deus (religação, não na esteira do ente).

Da esquerda para a direita: foto da primeira tradução para o português de Natureza, História, Deus pela Editora É Realizações, em 2010, e cópia do livro original em espanhol.

Esta inspiração zubiriana estava em uníssono com a “exigência da evolução mesma da ciência que começou com Einstein e tem chegado aqui ao seu grau máximo: a subordinação da teoria à experiência” (id. 321). Naquela ocasião, nem o mesmo filósofo sabia onde ia chegar. Caminhou a passo de tartaruga buscando a radicalidade do real no meio de formulações problemáticas em vigor, sabendo que esse era o verdadeiro problema humano. Intrigou a muitos por isso: estava detrás das coisas que realmente o faziam pensar para refundamentar os problemas da metafísica, ou filosofia primeira, e consequentemente das filosofias segundas. Os labirintos inventados destas provinham da insuficiência dos fundamentos. E daí os caminhos concipientes, como “angustiante coeficiente de provisionalidade que ameaça dissolver a vida contemporânea” (NHD 67). Era necessário “a restauração da vida intelectual”. Por isso, ao ler NHD por motivos diversos, como nós, descobrimos que algo novo e concreto estava oferecendo e desenhando: um caminho vivo de pensar. Pelo menos, uma nova forma de “estudar” filosofia, de reaprender o que se nos tinha ensinado mal, não de pura aprendizagem e erudição para fazer trabalhos e teses. Nós encantamos com os rasgos do caminho indicado e insólito, porque era um convite a pensar por nós mesmos e ir despindo-se do que tínhamos mal aprendido nos cursos de Filosofia, de Ciências e de Religião. Por isso, todos os que deparam com Zubiri, nós sentimos maravilhados e dispostos a aprofundar tais pensamentos. Nem Zubiri naquele tempo, e nem nós, sabíamos aonde chegaríamos. Estávamos a caminho de um novo pensar filosófico e da vida de gente real, e teimamos em continuar neles.

Zubiri estava levantando outras coordenadas para navegar e outros fundamentos para filosofar. Um horizonte diferente estava se abrindo – o do real congênere com a inteligência – (problema que deu conta superando o desafio da modernidade de imbricar o pensamento e a realidade) e nele encontramos nosso lugar. Até hoje, NHD é a obra que mais edições (13) e traduções (inglês, francês, alemão, russo, italiano e português) foram feitas. A melhor obra a ser relida para se adentrar paulatinamente nos choques intelectuais que provocam sua obra madura, e daí pular para a abertura dos “abismos do ser”. Esta obra não é um ensaio agitador, mesmo do modelo criativo do mestre Ortega, embora reflita sua influência. Transmitia um estilo e forma de pensar diferente, não somente das filosofias clássicas e modernas, mas do próprio “maestro” Ortega e das fenomenologias. Ele é o radical e demorado enfrentamento com os verdadeiros problemas da época, que precisava de novos fundamentos. Estava aplicando incoativamente as bases da inteligência senciente e da filosofia do real. Por isso, despertou muito ânimo, mas houve muitos mal-entendidos, que não desanimaram Zubiri, mas desajudou a muitos, criando falsas expectativas.

Nesta obra, podemos apreciar que o caminho escolhido por Zubiri não será de ensaios de agrados e de levantar fáceis adeptos. Zubiri reconhece que “os estudos filosóficos de nossa pátria” estão prestes, até pela própria essência da filosofia, a desvanecer-se em vagas ‘profundidades’ nebulosas” (id. 161). Pois “a riqueza e precisão infinitesimal do vocabulário escolástico constitui um dos tesouros que é mais urgente pôr em rápida circulação”. E isso porque “grande parte desse tesouro passou para o idioma nacional”, que não pode negar que ficou enriquecido com “essenciais dimensões semânticas”, e que Zubiri foi recuperando seguindo a Suárez. Por isso, “já é aqui sabido que as Disputationes de Suárez serviram de texto oficial de filosofia em quase todas as universidades alemãs no século XVII e em grande parte do século XVIII” até Leibniz. Zubiri resgatará a metafísica, nas andanças de Suárez, que “desde Aristóteles, (é) a primeira tentativa de fazer da metafísica um corpo de doutrina filosófica independente” (id. 162).

Assim, NHD foi um passo decisivo para Zubiri e para todos nós que o estudamos, entretanto era o ponto de partida com enigmas a resolver. Assim, não foi bem compreendido por soar a escolasticismos. Também, na época as interpretações foram entusiasmadas por ressoar existencialismos ou heideggerianismos, que era o que, euforicamente, se aceitava e se consumia na academia e fora dela. Os problemas da guerra civil pararam e pioraram tal entendimento e discussões levantadas. Mas, ficava claro nesta obra que Zubiri não tinha como propósito nacional “europeizar” Espanha. Mas radicalizar o afazer filosófico. A enfatização do tema El problema de Dios, pela religiosidade especial de Espanha e Latino américa, criada pela contrarreforma, prejudicou o estudo das outras partes ou temas da obra. Isto nos parece que continua acontecendo. Por que, embora Zubiri tratasse deste tema propositalmente, mas ele no contexto de toda obra o faz desde sua nova inspiração e caminho senciente. Porque, em NHD nós convida abrir-nos a um novo horizonte de pensar, que não era restrito às fronteiras de escolas filosóficas, religiosas e geográficas. Porém, nem todos os leitores entenderam e aceitaram NHD, como desafio a realizar a abrangência e força da inspiração da semente plantada: o real é antes do ser, onde toda a experiência humana receberia sua vitalidade própria: cultura, religião, ciência, filosofia história, sociedade. O título sucinto do livro abrangia toda essa temática. E as suas palavras refletiam a inspiração de algo real e concreto: um caminho novo a abrir, o sentir humano, que ele chamou de “via viva”: “sua fórmula intelectual é justamente o problema da filosofia contemporânea” (id. 67).

Depois de NHD Zubiri mergulhará buscando o andamento de suas inspirações no espaço livre dos cursos orais, que agora estão quase todos publicados. Estes cursos se tivessem sido publicados na ocasião, teriam ajudado ao crescimento nas inquietações junto com Zubiri. Mas Zubiri sempre quis aperfeiçoar mais e mais suas buscas. Entretanto, muitos de seus frequentadores ficaram marcados fragmentariamente para sempre, ou ajudaram a continuar seus caminhos ou foram crescendo com as construções momentâneas e até o desafiaram a escrever e pôr no papel os passos do amadurecimento contínuo do mestre. Temos exemplos biográficos e bibliográficos importantes das duas opções.

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Após o divisor de águas –como giro metafísico- de Sobre la esencia, em 1962, Zubiri ministrou o curso, Cinco Lições de Filosofia com um novo curso inédito (CLF), não para relaxar ou baixar o tom de seu desafio crítico de partir do real, apesar do valor especial de ter “certo caráter expositivo exemplar”. Era seu teor e talante de filosofar em tantos cursos ministrados (hoje são mais três volumes), que tiveram mais frutos que os conhecidos. E assim seguiria. Com isso cativou a muitos filósofos, médicos, psicólogos e psiquiatras, poetas, teólogos e cientistas e até toureiros, que frequentaram seus cursos e, também, se tornaram amigos. Entretanto, CLF foi o único curso que fez questão de publicar e o fez imediatamente no mesmo ano de 1963. Essas lições de filosofia, não são apenas aulas brilhantes sobre a História da Filosofia. Ele quis esclarecer e passar sua experiência de como buscar o saber filosófico, e o fez através de um grupo de grandes filósofos que ele escolhe, podiam ter sido outros. Os estudava, procurava seus motivos e suas propostas, mas também os submetia à crítica severa para provocar, não somente as divergências.

O texto, por meio dos filósofos abordados, é um exemplo da força de seu pensamento na busca de um saber radical acerca da realidade em cada momento histórico, o que nos leva ao próprio âmago do modo de ser e viver a filosofia: seu eterno conflito. Por isso, mais parece uma ponte aberta, simples e imponente a atravessar, entre o modo de fazer e viver a filosofia e a elaboração formal de sua obra. Seu filosofar é um diálogo diferente, sem medo, não pura erudição, mas para apresentar e contrastar seus motivos, pesquisas e iniciantes elaborações a partir do ainda incógnito fundamento do real. Esta obra é parte e exercício de sua herança a ampliar.

Naquele tempo cativou muitos os leitores, principalmente jovens estudantes de filosofia de toda Espanha, e continua nos cativando. Até a editora Alianza o está publicando, também há mais de quarenta anos, em formato de coleção popular de “el libro de bolsillo”, tão usado na Espanha para difundir de forma mais barata livros importantes pela sua didática e pelos seus conteúdos. Zubiri passa para todos que estudar filosofia dessa forma já é fazer filosofia, porque nos mergulha positivamente no conflito constante da marcha da filosofia dentro de nós mesmos e com os outros. A filosofia é uma ponte arriscada para transitar detrás do espanto pelo real e não para admirá-la ficando parados nela e pasmos pelo que ela é e a vista que oferece. A filosofia é o conflito dos homens buscando o real para eles. Temos que atravessar essa ponte, ou mergulhar, com os riscos necessários e chegar do outro lado.

A terceira obra traduzida ao português, a Trilogia da Inteligência Senciente (IS): Inteligência e Realidade (IRE), Inteligência e Logos (IL) e Inteligência e Razão (IRA), Zubiri a escreveu entre 1980-1983. A sua clareza de análises nos empolga, mas pode confundir, como o turista, que gosta de visitar os campos na hora de colher frutos maduros, mas não se envolve no necessário e trabalhoso esforço de preparar a terra, as sementes e seu crescimento. Nesta obra ele chegou ao máximo amadurecimento e criatividade filosófica. Ele ficou feliz, também, seus discípulos do Seminário de Investigação e todos os que o estudamos por tal ousadia. Com mais de 80 anos, Zubiri pretendia escrever só um livro (só fez um prólogo) sobre A inteligência senciente, e escreveu três sem descanso, a Trilogia senciente para descrever o ato de inteligir e o lugar do logos e da razão. Porque como nos relembra Diego Gracia, o primeiro livro exigia que Zubiri nos deixasse claro nos outros o lugar do logos e da razão para “reificar” “o ser”, diante do estrago milenar da logificação da inteligência entificando o real. Ainda muito lúcido e muito criativo, nos ofereceu sua obra máxima dando-nos conta concreta da congeneridade do real e da inteligência nos seus mínimos detalhes. A realidade como formalidade em próprio, com o desdobramento radical da impressão e apreensão da realidade, é o eixo central da obra. A impressão de realidade, o elo radical perdido pela via concipiente, é seu triunfo. A substantividade das coisas, a estrutura do real são o primordial, porque a inteligência apreende o real e, por tanto, o radical é a impressão de realidade, e não os conceitos. A inteligência não é radicalmente representacional, mas apresentacional.

A terceira obra traduzida ao português, a Trilogia da Inteligência Senciente (IS): Inteligência e Realidade (IRE), Inteligência e Logos (IL) e Inteligência e Razão (IRA), Zubiri a escreveu entre 1980-1983.

Assim, a inteligência primordialmente é sentir o real. Suas análises minuciosas do fato da intelecção surpreenderam a todos e o continuam a surpreender, também às ciências humanas, que demoram a se abrir, para podermos dar os primeiros passos na via viva do sentir inteligente. E isso, não como adendo ou valor anexado conceitual. E, ainda, escorregamos sempre na nebulosa da consciência, como caixa milagrosa, ou interruptor mágico, como explicação para os dualismos. No fundo fugimos de toda responsabilidade. É o que hoje vemos com as modas intelectuais de consumo em muitas áreas, não realmente contemporâneas, no desafio das inteligências múltiplas, da inteligência e escolas emocionais e da própria neurociência e seus subprodutos. Como também nas áreas psicológicas e psiquiatras. Ela, a consciência, faria a ponte e união. Porém, o logos e a razão também são modos da inteligência primordialmente sencientes e por isso não começam nos conceitos, mas devem ser sencientes dando muito trabalho. E se são sencientes o sentir, a impressão, a afecção, os afetos, os sentimentos, o amor, a empatia… São reais e não adendos inventados à nossa mercê, mas são constitutivos da realidade humana, e é deles e que somos “obrigados” a pensar e viver.

A consciência não é um maravilhoso receptáculo, onde as coisas tomam forma, mas “sua autonomia de atos conscientes ou inconscientes” surge na inteligência que sente as coisas. Só existem atos conscientes ou inconscientes do fato real do ato senciente da inteligência. Na trilogia senciente, elaborará com surpresa essa resposta, que ele iniciou em NHD de como o homem sente as coisas e se sente: “como em todo sentir, portanto, no sentir da mente se ‘con-sente’ o homem; junto à ‘ciência’ das coisas que o sentir dá, temos uma ‘consciência’ do homem” (NHD 91). Outro problema que irá desatar com agradáveis e gravíssimas consequências, é que o conhecimento é fruto da inteligência e não como base do pensar. Esta constatação zubiriana põe em xeque todas nossas teorias e “manias” (filosóficas ou não) da preponderância do conhecimento. Hoje em dia no domínio dos conhecimentos se apoiam todos os esforços da sociedade. Não podemos ter uma sociedade humana apoiada somente em conhecimentos.

Por tanto, o desafio de Zubiri pode ser resumido: o que é a inteligência na realização do homem? Sua inteligência não pode ser concipiente, a realidade não é ente e o homem não primariamente animal racional. Sempre apelará a essa realização, mesmo na sua máxima maturidade, como nas últimas revisões sobre La génesis de la realidad humana (1983) como desafio radical. Encontramos nessa obra expressões claras da atualidade de suas reflexões, porque ao escrever Inteligência Senciente teve presente, e cita expressamente, logo nas primeiras indagações (IRE 57) a problemática atual da “inteligência artificial” (“mecanismo eletrônico”) junto com a da “inteligência animal” (do início do século XX) frente ao verdadeiro problema da inteligência humana. Elas “são impressões de conteúdo, mas não impressão de realidade”, “por isso não são inteligência”. Hoje, podemos falar o mesmo aplicado, condenando a enxurrada das “inteligências emocionais” e derivados, que se apoiam nos sentimentos, afetos ou emoções, como “dádivas dos inventores da roda”. Eles desconsideram que eles são assim, é porque surgem e tem seu sentido no “sentir” dos sentidos do homem, que todos somos e devemos usufruir, do contrário não são inteligência senciente, continuamos entes. Este é problema confuso que devemos destrinchar, com honestidade e rigor, no meio de tantos avanços científicos, às vezes duvidosos, e tantas tecnologias boas e ruins. Haja, visto hoje os cuidados e temores de uma vacina segura para o Covid.

Para Zubiri então, não adianta dar voltas usando a inteligência com alguma qualidade de afecção (paixões ou afetos e empatias…). São “todas, inteligências sensíveis” (“impressões de conteúdo”), e não sencientes como intelecção no sentir. “O homem é animal de realidades”. O homem é uma inteligência senciente, um sentimento afetante e uma vontade volente.

A maturidade “tardia” desta obra ocorreu depois de um longo caminho de pensar nas coisas, que davam que pensar. Cada passo, de tartaruga de seu caminhar, como ele diz, foram grandes esforços que apoiaram os seguintes. Os cursos orais, que são muitos, mostram isso, foram sua oficina e fornalha “penosíssima” desse pensar. Coincidentemente, em 24 de fevereiro de 2020 recebemos com surpresa, porque já tinham sido publicados vários cursos (3 volumes), a notícia de que a Fundação de Madri com Alianza Editorial havia publicado o primeiro curso extra universitário (com mais de trinta aulas) Ciencia y Realidad (1945-1946) superando as 800 páginas. É o início trabalhoso da etapa madura da metafísica, vinculando filosofia e ciências. Sobre la esencia (com os cursos publicados Sobre la realidad e Estructura dinâmica de la realidad) seu giro metafísico definitivo. Dessa forma A trilogia Senciente é o fruto estruturado, a luz que relumina, embeleze e dinamiza todo o edifício filosófico construído sobre “o real antes do ser”. A melhor possibilidade aberta do horizonte do real.

Que quis falar Zubiri na expressão “pensar nas coisas que dão que pensar”, e por que a ela se remete com muita frequência e parece resumir o foco principal e alimentador de sua filosofia? Na trilogia senciente (IRA 20) responde, ao esclarecer que é atividade pensante. Certamente é uma atualização do real “do que é preciso fazer e dizer”, portanto o inteligir é já pensar em atividade. Assim, nos alerta: “não é que a vida me force a inteligir, senão que a inteligência, por ser intelecção senciente, é o que me força a viver pensando” (id. 26). O dado “na intelecção é dado-de e dado-para”. Não na forma da filosofia clássica e moderna. Assim “a linguagem corrente expressa esta intrínseca unidade com uma expressão, que não só é feliz, mas, considerada com estrito rigor formal, manifesta a estrutura unitária de duas formas de dado: as coisas dão que pensar. O real não somente se dá na intelecção, mas dá que pensar. Este “dar” é, pois, a unidade radical das duas formas de dado no real. E este dar que pensar é justamente inteligir em atividade” (id. 24). Por isso, nela nos inspiraremos, o faremos sempre e a repetiremos e nos agarraremos: Zubiri nos passou esse legado.

Desde cedo o filósofo se formulou como problema da inteligência: as coisas que dão que pensar. A ele se entregou. Buscou tal ousadia em outras culturas, ciências, filosofias e religiões. Descobriu que todas elas tinham fundamentos insuficientes. Sua crítica clara e honesta o levou a analisar e explicar com muitos detalhes a inteligência senciente ancorada no polo da filosofia do real. Mesmo, no tempo e âmbito de inspiração, sempre foi seu ponto de partida e de entendimento para analisar problemas e questioná-los: a inteligência no ser vivo é a única forma do homem dar conta de sua realidade, que tem que auto-possuir-se por apropriação. Sua formula inicial, que lhe ocupou toda sua longa vida, foi: ater-se modestamente à realidade das coisas, incluindo-se nelas.

Nesta busca e insistência, em esclarecer em que consiste para o homem real a atividade pensante, está o nó a analisar, redescobrir, criticar e dinamizar no pensamento ocidental e, também, no global. O filósofo nos descreverá muito bem até nos seus primeiros balbucios no processo “preponderante nos homens primitivos, e que constitui a base da mitologia” como “pensar fantástico”, que “tenha acreditado entender a realidade” (Sobre el Hombre, 655). Por quê? Esse novo modo de mirar as coisas não é apenas o caminho de experimentação da irrealidade. “Essa tolerância não depende já de minha fantasia, mas depende das coisas”. Isso não é problema de esquema estrutural, mas de força criadora da inteligência. Porque (id. 656), “voltando do orbe do irreal ao mundo do real, o homem vai adquirindo o sentido da realidade em que a razão consiste. Mas esse encontro com a realidade não depende da razão, senão primariamente da inteligência”.

Zubiri ainda insiste nessa dificuldade, e nova forma de entender a inteligência, quando se debruça com algo muito próximo à dinâmica dos mitos: quando discute a ideia de destinação presente na tragédia grega. O homem não é só agente e autor da vida, mas também “tem a sorte de representar e desempenhar… porque a figura da vida tem forçosamente uma linha de destinação” (id. 587). “A grandeza da tragédia grega está em que se seus personagens não são donos de sua vida, senão em que se possuem tragicamente, como atores da moira dos deuses. Daí a incompreensão de uma interpretação puramente psicanalítica da tragédia grega” (id. 588). Essas três dimensões (agente, autor e ator) foram insuficientemente desenvolvidos na história e da inteligência: como factum nos estoicos, no mundo israelita como destino expresso no profetismo. No cristianismo se desenvolve como desígnio de Deus, como será encarnada pelo idealismo de Hegel parecido ao ardil biológico, aqui nos deparamos com o ardil da razão… pondo em marcha a vontade de Deus na história. Conclui Zubiri: “nem o naturalismo, nem o escepticismo, nem o idealismo da vida são aceitáveis, porque o homem… por ser psicofisicamente senciente o homem é agente de seus atos, por estar aberto à realidade, é autor por ser elemento deste mundo e ator da vida que lhe há tocado viver. As três dimensões intervêm no ato” (id. 592).

Podemos completar este percorrido sucinto dos caminhos da inteligência para a realização humana com o atrevimento de seu discípulo de A. González Mistérios Rupestres (in Pensamiento, v. 75, -2019- n. 286): “Nos animais (pintados) se capta a riqueza esplendorosa da vida…”. Dá-se, “a comunhão dos nossos atos e o surgir de todas as coisas… assim estamos arraigados no infinito surgir das coisas”. E é esse infinito surgir que a inteligência apreende e deve dar conta. Mas isso está como que aberto a todos os embates da inteligência de enfrentar-se com as coisas, porque depois de conviver, estudar, até de corrigir com o mestre e “para ler Zubiri”, D. Gracia resumirá, que “somos levados pelo poder do real”. A inteligência tem sempre a âncora desta medida, não mais dos conceitos.

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Sendo assim, estas três obras traduzidas ao nosso português nos oferecem a dinâmica completa da força da filosofia de Zubiri e seus desafios para todos e nos fustiga e dá confiança suficiente para pensar e viver no caminho vivo da inteligência senciente. Temos em nossa língua brasileiro-portuguesa grande parte do tesouro zubiriano. Se tal fato nos cativa e nos alenta, é porque descobrimos nela algo profundo na atividade pensante na história da humanidade: uma crítica do que fazemos diante dos problemas de cada época, que “sempre tem o problematismo do real”, buscar as insuficiências de nossos apoios, e descobrir passos mais firmes para “florescer” e expandir a realidade humana. Um exercício irrecusável e necessário do logos e da razão, mas não mais para continuar logificando a inteligência, como se sua força fosse afirmar o que são as coisas, potencializada na razão, apoiada em princípios determinantes.

Se não mudarmos, continuaremos logificando a inteligência e entificando a realidade como “ser”. Ao depararmos com Zubiri em NHD mergulhamos nessa crítica do que são o logos e razão concipientes, não somente do século XX, mas através da fenomenologia, leva esta crítica até os gregos. As críticas, por exemplo, da modernidade hoje, migalhas coloridas e descompromissadas, da crítica científica e filosófica que faz dela Zubiri em Nossa situação intelectual: “o homem e a razão perderam-se, ficaram de certo modo aniquilados”. O homem “se encontra… sem mundo, sem Deus e sem si mesmo”. “Foge de seu próprio vazio”. E sente assim, “o angustiante coeficiente de provisionalidade…” (NHD 67).

Entretanto, em toda essa obra, o filósofo nos joga no amanhecer de algo novo, apesar de tanto desvario: temos que entrar “no abismático fundo”, “das interrogantes últimas da existência”, que clamam por uma situação “trans-real”, “trans-física” “metafísica”, “como problema da filosofia contemporânea”. Isto, não o encontraremos no que “acontece no mundo”, mas no que “as coisas e o homem, são em realidade” (id. 129). Dessa forma nos convida e nos submerge na renovação da vida intelectual. Mas, que tipo de renovação da vida intelectual? Este problema não se resolve com “o brilhante aprendizado de livros” ou com a “esplêndida elaboração de lições ’magistrais’ e ‘escrevendo toneladas de papel’” (id. 64). Que fazer então? Reaprender a buscar novos fundamentos para superar os conflitos.

Depois destes apelos para um bom caminho filosófico no início de NHD, Zubiri não cobra mais nada neste sentido ao longo de sua vida filosófica. Parece que esqueceu as dores da humanidade e buscou a distância. Porém, passa ele mesmo –exemplo socrático- a renovar a vida intelectual. E quem lê e entende Zubiri, o faz também. Aqui começa o caminho junto a ele. Nos leva por vales agradáveis (NHD, cursos…), caminhos difíceis e montanhas ríspidas, mas para vislumbrar novo horizonte (Sobre la esencia, Sobre la realidad, Estructura dinámica de la realidad…) e finalmente nos alimenta e abre el caminho com a Trilogia senciente. Depois, que escreveu esta obra, (quarenta anos depois) ao fazer o Prólogo, quando pensamos que há dito e ensinado tudo, e está satisfeito, cobra o cuidado que devemos ter nas dialéticas, na lógica e nos raciocínios, que somos obrigados a elaborar, sobre a mudança da vida intelectual e diz no único prólogo: “Hoje somos inegavelmente envolvidos, no mundo inteiro, por uma grande onda de sofística” (IRE lvi).

O que quer dizer isso agora, depois de tanto rigor e precisão conceitual? Que cuidado é esse? Quer dizer, que ele durante quarenta anos fez a sua parte e que nos devemos fazer a nossa. Mas, fazendo-o bem feito. O que é fazer bem feito? Para isso, como o fez muitas vezes, tirou da língua comum de sua terra expressões que o ajudaram a pensar de forma filosófica e metafísica. Como fizeram os gregos. E nós devemos fazer o mesmo entre nós. Como?

Na renovação da vida intelectual encontramos o mesmo obstáculo do mestre nesse fazer bem feito: a frivolidade da vida intelectual (NHD 233), típica da sabedoria dos sofistas, visível e que se espalha em todos os campos. Não podemos ser enganados com falsas retóricas. Essa frivolidade produziu a futilidade, que é a não utilidade dessa produção sofistica para a verdadeira retórica e para a vida. A retração de Zubiri, quando se demitiu da academia em 1942, a semelhança de Sócrates, não foi uma postura como a dos sofistas “elegante ou displicente”, mas “é o sentido de sua vida mesma”, “atitude essencialmente filosófica”. Com a retórica sofistica, “a realidade perdeu a gravidade do que é”, porque “quando o dizer se solta do pensar e esse deixa de gravitar inteiramente em torno do centro das coisas, o logos fica solto e livre”. E isto é a frivolidade intelectual: “ser um puro falar como se pensasse”. Por isso Zubiri descreveu nossa época, é “época de desligamento e de desfundamentação” (id. 441). Mas, “o homem é o animal que fala das coisas que vê”, “zónn lógon ékhon”, o homem não é o animal racional radicalmente, senão é o logos e poder, não de fonemas e sons informativos, mas do mundo sentido e das significações. Então, o logos tem sua força na “precisão conceitual e rigor formal” ao expressar o que sente das coisas, portanto como os gregos o interpretaram, como voz das coisas. Mas, isso não justifica, e Zubiri rejeita qualquer logicismo cultural, clássico, moderno e contemporâneo, que se pode refugiar nos esconderijos do conhecimento cultural, religioso, científico e filosófico.

Este encontro com Zubiri, convidando a filosofar com rigor intelectual sobre a realidade, nos cativou e despertou a todos os aqui relatados e a outros muitos, não descobertos. Não podemos aceitar as frivolidades, mesmo as incoadas, porque nos levarão muito mais distantes de nossa realidade. Ele nos desafiou a empreender com seriedade nossas próprias empreitadas filosóficas. A partir destas reflexões de Zubiri, tivemos mais forças para pensar e nós expressar, fomos nos envolvendo e tendo coragem para estudá-lo, questioná-lo e ter sempre a teimosia de não deixar de perceber ver, no mundo da sociedade e intelectual, posturas sofistas por todos os lados e categorias. Várias vezes (com o mote de “intelectuais de plantão”) as identificamos e condenamos, também, neste trabalho. Nunca para ofender, mas para alertar que por esse caminho de posturas não trataremos da realidade que somos todos. Porque essa via de frivolidade é via morta, fragmentado o homem em estratos de consciência.

Porque, na busca realidade das coisas e da realização das pessoas, não cabe à frivolidade sofista, nem nos tempos de Platão e de Aristóteles, nem nos tempos de Zubiri e nem no nosso. Temos que estar atentos. É mais. “A aludida frivolidade, diz Pintor Ramos (in Presentación de Realidad, Posibilidad, Religión. G. Marquínez Argote, Centro de Estudos Cervantinos, 2012, 22), é a confirmação de que a vida atual está ao alcance do menos reflexivo: o ideal de formação da inteligência na disciplina da realidade é suplantado pelo empenho de poder dominar muita informação, esta informação tende a se converter por mecanismos do poder em publicidade e, finalmente, a publicidade se degrada facilmente em mera propaganda. Este termo final está muito longe de sua inserção na realidade e busca suplantá-la por uma “realidade” virtual que carece de consistência”. Zubiri fala clara e repetidamente, já o tinha alertando sobre considerar a vida intelectual escrevendo toneladas de papel, depois, também, de críticas sérias e esclarecimentos da apreensão da força e luz do real, que essas interpretações insuficientes, que encontramos na filosofia clássica, moderna e seus rebotes sobre o real, são “fonte de inúmeras confusões que ensejam falsas interpretações” (IR 172), é por isso são inamissíveis, e não possíveis, porque são um absurdo e quimeras, reclama Zubiri em Sobre la esencia. Nosso caminhar, até pelas dificuldades de entender a proposta do filosofo, “é a religação” do homem com sua realidade (NHD 442) e “saber estar na realidade” (IRA 282).

A leitura e estudo destas obras traduzidas, e continuaremos apoiando o editor da É Realizações para continuar tal projeto de tradução, nos fazem mudar de forma radical andaimes conceituais que tínhamos da inteligência e dos sentidos, e por tanto, de dar conta da aventura humana: os sentidos são inteligentes e a inteligência é senciente. O homem é uma realidade porque é um sentir inteligente, não originalmente um ente de uma inteligência pura, lógica ou racional. Os dualismos teóricos e práticos, conscientes ou não, todas as dicotomias, cruéis para as pessoas, e seus fantasmas bem fantasiados, seriam eliminados dos desafios humanos de dar conta da vida. Sentir a realidade é primeiro, o que enraíza e abre nossa vida e por isso, podemos abrir os caminhos, devemos conceituar na medida do real, que nos guia. O caminho senciente estava aberto. A inteligência para ser racional é radicalmente senciente e o conhecimento é fruto dessa inteligência senciente, e não ponto de partida (a priori) e medida de ação (hoje estamos intoxicados com tanto conhecimento…). Porém, nós nos reconheceremos como animais de realidades (pessoas, gente), não mais exclusivamente como animais, racionais ou entes metafísicos.

Podemos, dizer, que começamos a sermos desnudados com muitas dificuldades e contras de tantas vestes inventadas, “até bem intencionadas e confeccionadas”, com formas ousadas e coloridas, sempre na moda, para ficarmos com nossa pele real de esplendor e rugas. Até muitas vezes gostamos dessas novas peles. Porém, sentimos no encontro com Zubiri uma sensação de voltar ao que somos, experimentando satisfação, e vergonha, também, de tanto tempo perdido na história da humanidade, mas com muita vontade de sermos reais. Lamentamos que o humanismo passado e presente, não conseguiu decifrar, ou o fez unilateralmente, que os sentidos não são sensórios, mas um sentir humano. Continuamos atolados e entretidos nos dualismos inoculados, considerando os sentidos apenas instrumentos de nossas tristes dicotomias.

Sendo assim, uma parte básica dessa inspiração radical de Zubiri estava agora em português, dando-nos apoio rigoroso às nossas inquietações pela realidade mundana e cósmica. Os questionamentos da nossa experiência pelo real encontravam um andaime próprio e a explorar em terras brasileiras, também, “cheias de sol e de luz”, como Zubiri, na época, desafiou a Espanha empobrecida cultural e historicamente.

Nesses mesmos anos, era o compromisso e contrato da editora É realizações, seria reeditado o livro A Ética da Inteligência em Xavier Zubiri de José Fernández Tejada, e publicadas a tese de doutorado do mesmo, Razão e Realidade, estrutura humana de convivência e a tese de doutorado de Antonio Tadeu Cheriff dos Santos, A ética do cuidado em Xavier Zubiri, O Horizonte de uma Bioética de Realidade. Não o foram. Embora, em 2012 foi publicado Cinco lições de filosofia de X. Zubiri e, em 2014, a tradução da Introdução ao pensamento de X. Zubiri de Secretan Fhilibert. Mantinha-se, ainda, a promessa da publicação da Trilogia da realidade (já traduzida e com prefácios prontos). E em breve a Trilogia teologal, Sobre la volición e Los problemas metafísicos de la filosofia occidental. E, também, tínhamos em pauta traduções dos melhores estudiosos do pensamento de Zubiri no Projeto X. Zubiri da editora. Nesse ínterim, soubemos pela secretária geral da Fundación Marta LLadó da compra pela Editora É Realizações dos direitos autorais de mais de oito obras de Zubiri. Tínhamos, então, motivos para esperar dias melhores.

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Visando esse horizonte se expressou Felipe Cherubin em 2013: “Teríamos, então, um Zubiri praticamente “completo” em língua portuguesa e com a vantagem de acompanhar ótimas traduções, fidelidade aos conceitos, prefácios excepcionais e originalidade ‘interpretativa’”. Estávamos a caminho. Infelizmente, este projeto muito bem estruturado como trabalho de todos, editora, e colaboradores, ficou até hoje nas primeiras cinco obras. Confiamos que esse projeto seja retomado.

Mesmo assim, diante das dificuldades que já apareciam, em 2013, Felipe Cherubin nos animou na ocasião trabalhando para a publicação da trilogia da realidade: “Com a primeira etapa concluída (traduções das trilogias senciente e da realidade e a proposta da trilogia teologal)… poderia ser uma abertura a um horizonte para rever a filosofia de Zubiri nesse século 21 pela ‘ótica da aventura brasileira’ de ‘cariocas e paulistas, risos’”. Ninguém desanimou diante da tormenta que já prevíamos: “Melhor fazer de tudo, nos alertava Cherubin, para dar a melhor contribuição possível agora. Não sei, mas corremos o risco de estarmos diante do fim do projeto Zubiri”. Assim o fizemos e o faremos.

Realmente no ano de 2013 o “tempo foi fechando” e fomos logo o Sísifo descendo a ladeira de novo. Não entanto, nós reanimamos, nós levantamos e procuramos fazer sempre o melhor possível, mesmo contra a corrente, até hoje.

Esperávamos, assim, que a radicalidade do pensar da proposta senciente de Zubiri ganharia pleno voo para enriquecer o pensamento brasileiro, sem prejulgamentos de temas, interesses de universidades, escolas filosóficas e ideologias, o que nos preocupava era a vida e a história do povo brasileiro. Todos os interessados tinham partido de algumas obras do filósofo que nos levavam aos polos da metafísica da realidade e da noologia senciente de Zubiri. Então, o único intuito que nos despertava era filosofar para o Brasil, “cair no real”, não no real como “grande massa amorfa” (também, de manobras), nem semelhante a um muro de concreto, e menos para continuar “quebrando à cara”, “driblados” pela direita e pela esquerda, e por muitas espécies de labirintos intelectuais, políticos e econômicos, para a mesma finalidade: o poder sobre o povo. Hoje, temos a nosso favor, a experiência diária de que somos reais, e não objetos ou sujeitos de manobras. Abria-se a esperança de um caminho novo dando o giro metafísico dos conceitos para o real. Poderíamos ter voz, podíamos fortalecer melhor o pensamento brasileiro. Era necessário continuar trabalhando arduamente e semeando para que outros pudessem colher. O poder do real mantinha em pé todos os esforços a fazer.

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Encantos e surpresas da filosofia de X. Zubiri: “Rios voadores do pensamento de Zubiri no Brasil”

Por José Fernández Tejada

Os que nos deparamos com o pensamento de Zubiri, sempre questionamos o porquê de não terem sido publicadas antes, aqui no Brasil, para as pessoas interessadas e elaborações acadêmicas, essas obras marcantes de seu pensamento. Há uma imensa publicidade de outros filósofos e de seus sucedâneos. Simplesmente Zubiri e sua proposta são uns desconhecidos. Proposital ou pura “ignorância e desinformação”? Diante desse dilema nos perguntamos: por que, então, será que preferimos os pensamentos de “sucesso imediato” (pensamento débil e não reflexivo) que provocam euforia, mas que se consumem logo sem compromisso verdadeiro, e repetem as mesmas insuficiências e erros idealistas e realistas? Será que no exercício intelectual não percebemos isso? Que outros motivos, podemos ter? Quem não teve essa sensibilidade intelectual e acadêmica? Por que a vida comum do povo sempre se guiou e se mede “pelo real”?

Por que os intelectuais, pensamos mais nos conceitos? Por que não estavam presentes essas obras de Zubiri, pelo menos na língua original (é isso que constatei pelo menos até o início da década de 1990), em algumas bibliotecas das universidades brasileiras privadas e públicas no Rio de Janeiro? O que houve para serem traduzidas ao português, antes obras de M. Unamuno, J. Ortega y Gasset, Julián Marías, que nitidamente Zubiri se inspirou, e inspirou, seguiu e superou como o estuda uma bibliografia farta, e não se publicou nada de Zubiri? É questão apenas cronologia do tempo passar? Ou é morosidade, preconceitos ou preguiça mental?

É pena ver vários filósofos, geógrafos, antropólogos, sociólogos, cientistas em geral, brasileiros não ter lido Zubiri fora dos padrões convencionais da época, que atendiam as urgências e descuidaram de: uma nova fundamentação, como Husserl, pretendia. E que Zubiri deu uma guinada completa buscando a realidade antes do ser. Celebrava-se a morte da metafísica, porém não perceberam que ela já estava sem futuro há muito tempo, porque os pensadores “com muita ousadia de cada época” escolheram a via concipiente. E, como mostra Zubiri uma via morta. Este questionamento sempre nos acompanhará no trabalho que fazemos.

Por que se deu um estudo marcante no Brasil, e “consumismos” durante a metade do século XX, o marxismo, o positivismo, a filosofia fenomenológica, existencialismo, do ser, e outras, sem quase mostrar as limitações e novos caminhos oferecidos? Brasil vinha marcado pelo esforço naturalista da pós-monarquia e afundado no positivismo o pensamento brasileiro vestiu-se do “esteticismo do poder”, da grande pirotecnia verbal do pós-modernismo, da pirotecnia algorítmica e finalmente das redes digitais. Todas, repetindo Marquínez, formam parte de que: “A aludida frivolidade, é a confirmação de que a vida atual está ao alcance do menos reflexivo”. E como não refletimos os homens vão para a morte. Ficamos presos num redemoinho de urgências históricas e intelectuais perdendo o horizonte em que queremos viver e pensar o futuro. Temos claro, onde se apoiam “as filosofias segundas”? Mas como fazer aplicações senão encontramos o poio suficiente para as filosofias segundas? Porque temos medo da filosofia primeira. Por isso, ficávamos nas aplicações fáceis e que dão fama em todas as suas formas. Zubiri foi um profundo conhecedor desses impasses e seus labirintos, desses autores e seus passos, e até foi até companheiro (e não aluno, porque foi estudar com eles depois de formado e ter feito doutorado) de vários filósofos e cientistas de renome, e grandes estudiosos das ciências exatas e humanas. Mas, teve a inspiração de superar todas essas formas que tinham surgido como reação à filosofia clássica e moderna: a realidade é antes do ser.

Zubiri tinha claro, nas suas pesquisas, que essas novas propostas eram idealistas, essencialistas e dualistas, e, por isso, insuficientes para a marcha do filosofar e portanto para o bem da humanidade. Inspirou-se na escolástica, Ortega, Husserl, Heidegger e Aristóteles. Compartilhou essas inquietações com N. Hartmann, Einstein, Heisenberg e Schroedinger, Köhler, Goldstein e Mangold. Fez saber ao seu mestre Heidegger, essa crítica, a inspiração e empreitada do real, quando se despediu pessoalmente dele em 1931. Esta estranheza de sua obra carregou Zubiri por bastante tempo. Tinha certeza que Heidegger não publicaria a segunda parte do Ser e o Tempo. Nós sentimos tudo isso no início de nosso caminhar.

O que aconteceu no pensamento brasileiro que não sintonizou com esse desafio zubiriano? Porque a filosofia proposta por Zubiri, também, não foi bem recebida na Espanha e na filosofia europeia, muito menos na Inglaterra? Parece que temos dificuldade de assimilar e digerir os pensamentos elaborados para uma época, que são passos importantes, entretanto ficamos como que ruminando sem perceber que o pensamento humano e filosófico é dinâmico e busca o mais radical. Somos carregados sem parar pela dinamicidade do real, e não, porque nos damos o luxo de assistir da sala vip o mundo pegar fogo? Porque, então, não poder estudar na nossa língua uma proposta, tão simples e radical como a de Zubiri, com a qual todos, sintonizamos?  Outra coisa será que a entendamos e a façamos nossa.

Quais, então, foram os motivos e intenções? Desinteresse em buscar sempre fundamentos mais radicais? Acomodação e puras repetições teóricas? Imersos em urgências, provisionalidades e futilidades?  Por que, durante tantos anos, a academia brasileira ficou cultivando experiências filosóficas, que se tornaram ideológicas ou que foram superadas? Porque esse passo de elefante no pensar da academia? Porque esse emperramento? O que é filosofar? Para que ela serve? Só para conquistar uma cadeira de docente, status e sustento digno? Estas perguntas valem também para questionar em todas as culturas e nas ciências. A filosofia é para repetir (“animal”) e ficar sendo coisas apenas fechadas ou para repensar (“pessoa”) e conduzir a vida humana? Os clones humanos ou robôs não poderão existir, se o homem não for pessoa criativa, que busca se realizar. De donde eles se vão inspirar, imitar e recargar? Somos radicalmente animais-inteligentes, inteligência-senciente. Daí parte o dinamismo do surgir humano num leque de possibilidades apropriadas e por apropriar.

Então, o espanto relatado de alguns brasileiros aqui apresentados, que nos deparamos com metafísica do real e da inteligência senciente, tem teor de lamento e alegria, porque há pouco tempo, tivemos acesso por vários caminhos da simplicidade e originalidade da rigorosa obra de X. Zubiri em nossa língua. É como o re-estreno da abertura do horizonte da realidade em que vivemos. Durante anos, fomos privados de uma alimentação séria e rigorosa. Assim, poderíamos resumir esse espanto zubiriano, experimentado por muitos, com as palavras de frei João, desde o Maranhão em 2003: “Por natureza sempre quis ser realista, não sobrevoar a realidade com nenhuma ideia ou doutrina. Encontrar Zubiri impulsionou-me mais ainda nesta direção. Tenho colhido muitos frutos neste seguimento, mesmo na execução de meu ministério sacerdotal” (e-mail. 20/3/2003). 

Esse relato resume a experiência de todos que se deparam sem preconceitos com Zubiri. Mas, agora com a tradução de parte de suas obras ao português brasileiro por brasileiros, conseguiremos ler, estudar e citar essas obras com rigor em nossa língua. Temos apoios condizentes e suficientes. Recuperamos o dinamismo do pensar e do filosofar buscando a ultimidade das coisas do Brasil, incluindo as coisas de cada um.

Assim, dentro desse ambiente meio eufórico e tenso, nunca de orgulho de erudição, gostaríamos de fazer um inventário do pensamento de Zubiri no Brasil. Pretendemos verificar as linhas de força, as veias e veredas percorridas ou leitos de “rios voadores” que se foram formando, abrindo e construindo, ao deparar-nos com a preocupação contagiante e trabalhosa da introdução da proposta filosófica inédita de X. Zubiri no Brasil. Também mostraremos algumas pedras. Achamos que temos a obrigação e direito de tentar esse caminho senciente no Brasil pela novidade radical que nos oferece frente às outras opções intelectuais e intelectualistas, já trilhadas e insuficientes, tanto nas teorias e aplicações, como para continuar enfrentando nossa identidade e problemas próprios. Queremos apresentar a importância de estudar e rever o pensamento zubiriano na “óptica brasileira”, que clama pelo real. Queremos filosofar “com liberdade” sem os preconceitos de fundamentos de ideias e especulações ou instituições, que recorrem sempre à essencialíssimos e substancialismos camaleônicos, também no Brasil, feitos modas e tendências, mesmo nos meios acadêmicos.

A novidade descoberta pela ciência dos rios voadores, (“a experiência sentida e feita conceitos” pela ciência), como processo vital-ecológico no Brasil, que acontece de muitas formas no mundo inteiro, que tomamos como metáfora guiadora, merece uma explicação singela. Essa expressão é muito importante, não por ser uma teorização, mas ser teorização de uma realidade atmosférica e ecológica. A inspiração da metáfora surgiu ao estudar com meu neto Pedro Lucas, de 8 anos, a matéria de Geografia do quarto ano do Ensino Fundamental. Me encantei e vi a força dessa realidade geográfica brasileira, como deve acontecer noutras regiões da terra, para nosso trabalho. Senti sua força. Meus outros netos mais velhos não estudaram dessa forma e eu nunca tinha ouvido falar. Em definitivo a vida, a nossa vida, pode ter surgido fruto de bactérias, que foram capazes de “roubar” oxigênio e água, e depois, principalmente, por hiperformalização. E, no caso de experimentado pela ciência, por evapotranspiração e grandeza do mar quente e da floresta para potencializar tal vitalidade para o planeta.

 “Os Rios Voadores são uma espécie de curso d’água invisível que circula pela atmosfera. Trata-se da umidade gerada pela Amazônia e que se dispersa por todo o continente sul-americano”. Esses rios voadores serão chuva em quase todo o Brasil e ainda em Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina. “A origem dos rios voadores acontece da seguinte forma: as árvores da Floresta Amazônica “bombeiam” as águas das chuvas de volta para a atmosfera, através de um fenômeno denominado evapotranspiração, ou seja, a água das chuvas que fica retida nas copas das árvores evapora e permanece na atmosfera em forma de umidade. É exatamente essa umidade que forma os rios voadores”. Mas, onde nascem e se abastecem esses rios? Da evaporação das águas quentes do oceano atlântico central, que é atraída pela umidade mais fria da floresta Amazônica. “Nós somos rios voadores” da proposta senciente que se abastecem da realidade e são benfeitores dos outros pela força do real. Nós somos rios voadores porque recebemos o poder do real, o sentimos e o transmitimos. Nós pensamos e queremos um Brasil melhor.

Não podemos deixar de reconhecer que somos essa forma de evapotranspiração da realidade para sermos uma realidade aberta, como pessoas e que devemos seguir processo e ciclo de espalhar essa força, feito chuva real para beneficiar e animar as pessoas, e os demais seres vivos, a seguir novos caminhos. Somos realidades para a plena realização. E isto não de vez e bruscamente como tormentas, mas constante e denodadamente, às vezes brutas. É dever de casa. O que somos, o que apreendemos e o que nos tornamos por apropriação como seres humanos, é que sentimos inteligentemente o real, nap. dos conceitos criados. Os rios voadores sempre existiram, como o poder do real, e éramos beneficiados, mas não tínhamos a experiência feita conhecimento de que é assim que temos mais vida. A realidade, como sistema e processo, sempre foi realidade, embora, nos enredamos em conceitos. O ecossistema da Amazônia, como de quase toda América Latina, é um sistema que tem um processo riquíssimo de “umedecer a vida” (umidade relativa do ar e chuvas…) e irrigar nossas terras e, segundo, seu alcance cria os diversos microssistemas brasileiros. Neles os homens se adaptaram (sertões, cerrados, pantanais, florestas…) buscando sua sobrevivência em todos os sentidos mais diversos e ricos. Por isso concluímos: estamos submersos na realidade e nela e dela devemos nos realizar. Outro país também tem seus processos de chuvas. Que especulação nos pode contradizer? Do contrário, pagaremos com as angústias e sofrimentos. O fenômeno dos rios voadores não é exclusivo do Brasil, mas forma parte da ecologia e sobrevivência do planeta Terra. Assim o poder do real desenterrado por Zubiri.

Essa evapotranspiração do real através de Zubiri veio para nós principalmente de Colômbia, de Espanha, da Universidade Gregoriana de Itália, do México através de Márcio Luís Costa que orientou Saldanha, de Campo Grande Mato Grosso do Sul. Com certeza houve outras fontes que não identificamos ainda.

Queremos, antes de avançar no nosso trabalho, desfazer um questionamento. O verdadeiro fazer filosófico não é, e nem pode ser, nem conservador e nem progressista, nem da direita e nem da esquerda, e nem religioso ou civil, é outra coisa, nos sentidos catalogados, porque a filosofia só busca o real de todas as coisas com a força real da inteligência para que a vida humana seja real para todos. É na busca do real que todas se fundamentam. O projeto da humanidade é único e de todos: realizarmos como pessoas no mundo e no universo. Podemos resumir o dinamismo do saber filosófico hoje, que tomou força no lema da pós-modernidade: a união e imbricação entre o pensamento e a realidade, também para o Brasil.

Por isso, ao realizar nosso trabalho, revelaremos brasileiros trabalhando e “estremecidos” pela descoberta de pensar senciente, não por interesses eruditos ou egoísmos acadêmicos. Foi todo muito espontâneo e consentido. Mas não tivemos facilidades neste mergulho inusitado. Alguns, também, se debruçaram com trabalhos e teses acadêmicas. Mas todos, tentamos andar “com os pés no chão” fugindo dos anacronismos e paradoxos de muitos esforços especulativos da vida, da religião e da academia, em que fomos educados; nós deparamos que temos que “cair no real”, porque “somos de carne e osso” e “normais”. Temos que “dar sentido” ao nosso país e humanidade, “sentido” ele a partir do “real que somos”. Pois, todos no mundo inteiro, nos sentimos assim como gente, porque, com a proposta de X. Zubiri, vislumbramos e percebemos que há fundamentos mais radicais e caminhos vivos dos que os concipientes, que nos teimam em oferecer para engolir, apesar de nos levarem longe demais fora do horizonte intramundano. Poderemos testar e usar a “medida do real”, que é de todos e para todos, em toda simples força e radicalidade para que o pensar humano encontre suas melhores possibilidades, e não a “medida ou cânon dos conceitos” que é sempre feita na mesa de estudo, e hoje no computador, de quem só concebe.

Sentimos, logo, na leitura de Zubiri um caminho vivo para tirar o comando absolutista e tirano da humanidade dos racionalismos independentes do pensar real, sempre objetivistas ou subjetivistas, dualistas. Assim, nos descobrimos de verdade que somos “animais de realidades”, e não “entes metafísicos” ou “zumbis”, ou como fala Cherubin, não reduzidos a “entificações e zumbificações” de quaisquer interesse ou ideologias das ciências e da filosofia, não digamos da política contaminada, que, com raras exceções, no mundo inteiro não é a arte de cuidar do povo. Não podemos ser objetualizados e nem subjetualizados. O mesmo, podemos dizer da cultura, religião e das artes, que devem aproximar-se do real com seus esforços mais diversos.

Sintonizamos com o pensamento de Zubiri porque somos reais, pessoas comuns, raros, mas normais, que vivemos no meio das coisas e delas temos necessidade de viver, no meio num mundo quase virando catástrofe. Somos “animais de realidades”, ou como Cherubin se expressava nisso “somos todos zubirianos”. Poderemos aspirar e dar conta de nós, não num mundo dos conceitos manipuladores e nem da lua ou de marte, nem do mundo dos ETS, com todo respeito onde possam habitar, mas no horizonte mundano do real em que já “todos-humanidade” nós sentimos surgidos, situados, enraizados e nascidos.

O homem se abre num mundo real para a humanidade viver, dentro do lugar que ocupe dentro do maravilhoso universo. Mas, será que nossa sina é sermos autodestruídos aos poucos como humanidade pelo próprio homem, como apresentado muitas vezes pelos filmes de ficção? Por acaso os plânctons e as flores se destroem a si próprios? Porque parece que o homem está sendo destruído, não pelo homo nascido já lúpus, mas feito lúpus, de propósito, porque escolhe o caminho de só os conceitos, e por tanto de uma inteligência distorcida e egoísta (“a medida do homem” e paga, como o ensinaram os sofistas) pelos sábios e poderosos de vez, quer dizer, pelos sofistas de todas as classes e cores, que vendem muita sabedoria como produto agregado e salvador, para sua gloria e bem-estar, ao negociar soluções mirabolantes para melhorar o mundo.

Resumindo nossas interpretações do real, do homem e da sociedade segundo Zubiri, não podemos deixar de procurar cada vez mais sua proposta como muito viável e por muito tempo. É a maior tentativa de elaborar um caminho vivo do real para todos. Cada vez fica mais claro que o caminho concipiente é responsável de muitos labirintos da humanidade. É o questionamento de muitos. Sim, e de sua bancarrota. Lutamos muito, escrevemos muito e descobrimos muito, mas sempre em vão. Melhor, em vão não, mas para pior. Nosso dualismo em tudo, nossa logificação e entificação continuam dominando nossos esforços sociais, históricos, religiosos e políticos. Buscamos a resposta para nossas grandes perguntas, mas nos perdemos no caminho dos conceitos como se fossem realidades. Discernimos bem o campo do real, mas nos perdemos e ficamos nos desafios da irrealidade. Incompletos. Aqui nem o logos e nem a razão são inteligentes. São sensórios e assim só instrumentos. Perdemos a medida do real, perdemos a inteligência senciente. Raramente voltamos à realidade, onde nós vivemos e o povo normal vive. Nessa irrealidade construímos nossos desejos, planeamentos, projetos. Assim tudo dá errado. Não respondem a realidade e por isso reclamamos e sofremos, somos como que destruídos. E triste esperar o melhor no caminho dos conceitos, nos caminhos que nos levam ao mal viver. À destruição, à bancarrota contemporânea. Parece perdemos o fôlego humano.

Por isso, este trabalho, apesar de fragmentário e incompleto, será um exercício de todos, prazeroso, e motivador, nunca desolador apesar de todos os contratempos e dificuldades tidos, de ver como essa proposta inédita de Zubiri enfrenta a tradição concipiente da filosofia clássica e moderna feita labirintos traidores a toda hora, também no Brasil. Estamos como brasileiros nos enfrentando com o problema da inteligência, como problema primordial. É mais, acreditamos como falava Zubiri, que a história da filosofia, portanto, a história do pensar, indígena e posterior, das primeiras veredas e rios voadores brasileiros adentrando-se no pensamento do real, já é filosofar. Queremos que esta esperança não murche. Muitos já o tentaram noutros tempos e por outros caminhos. Queremos fazê-la florescer. A proposta inédita de Zubiri desperta, assim, no meio do clamor do povo, um interesse singular a muitos, que não abrem mão de buscar a filosofia das coisas, do real, ou melhor, de sua identidade e possibilidades, sentir que o real nos busque e possamos deixá-lo entrar para direcionar nossas inquietações brasileiras, somos assim rios voadores do poder do real.

Nós queremos possibilitar que, a força dessa proposta senciente de sentir o real, entre em todos e fecunde suas vidas de realização verdadeira. Dessa forma, mostraremos de fato o exercício de pensar sobre as coisas que nos dão que pensar, como os gregos, e por tanto, uma via nova da experiência filosófica no pensamento brasileiro. Nós descobriremos que estamos fazendo filosofia, pelo menos tentando.

Os que, ocasional ou academicamente, nos deparamos com as obras de X. Zubiri, nós espantamos no dia a dia e filosoficamente com seu pensamento, e reaprendemos a não ter medo do amor pela verdade da realidade e pela realidade verdadeira. Assim podemos resumir o entusiasmo humilde de nossa mudança e clamar com sinceridade o que Zubiri falava da influência de Ortega: “fomos, mais que discípulos, fomos feitura sua, no sentido de que ele nos fez pensar, ou pelo menos nos fez pensar em coisas e na forma em que até então não o tínhamos feito.” (Sobre el problema de la filosofia y otros escritos -1932-1944-, p. 269). Ou como descrevia Diego Gracia quando de seu primeiro encontro pessoal com Zubiri em 1970 (Prólogo, Volundad de Verdad): “comecei a perceber surpreendentemente a riqueza intelectual e humana e a originalidade de um criador, de um filósofo criador, de um filósofo. Fiquei cativado”.

Todos que se aproximam de Zubiri com “olhos limpos e coração aberto” ficam cativados e dispostos a se envolver com esse novo caminho humilde e problematicamente. Por quê? É o teor de nosso trabalho, somos seres reais e disso temos que viver, não podemos aceitar que nos tratem de outra forma. Assim elaboramos nosso trabalho Rios voadores do pensamento de X. Zubiri no Brasil, que não pode ser apenas histórico, para preencher alguma lacuna no tempo. Queremos mergulhar no pensamento brasileiro para participar do conflito dos caminhos para viver realmente no Brasil.

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