Textos inéditos

Trilogia da Inteligência senciente (1980).

(IV. Prólogo)

-“Etapa metafísica noérgica”-

“Por sua vez, a intelecção não é consciência: é mera atualização do real na inteligência senciente. É o tema do livro que acaba de publicar-se: Inteligência senciente” (NHD 29).

Prólogo

(in Inteligência e realidade. São realizações, São Paulo, 2011 p. x-lvi)

de Inteligência e Realidade

Por Xavier Zubiri.

Nota. Zubiri, dois anos deste prólogo em 1980, -já com quase 80 anos, começou a escrever esta obra, que se está tornando clássica, não tinha ainda claro a abrangência de todas as partes da Trilogia senciente, apesar de tantos anos de um continuo amadurecimento e elaboração.  Por isso, chamou simplesmente de Inteligência senciente, a essa empreitada que enfrenta nesta última elaboração. Mas, durante a elaboração desse desafio nos cursos, viu que ele já tinha descoberto elementos suficientes que superavam a crítica sobre o problema da inteligência, também como logos e como razão. Por isso, vemos na leitura do Prólogo só fez um prefácio para Inteligência Senciente, que depois em poucas palavras o estende para o logos e a razão. Por isso Trilogia da inteligência senciente. Assim fecharia a critica sobre os desvios da inteligência pela enfatização da logificação de todo saber.

Durante cinco páginas e meia que tem o Prefácio, se detém apresentar mais detidamente do que vai tratar na Inteligência senciente, no caso Inteligência e realidade. E apenas mais de meia página dedica a apresentar os modos de intelecção: o logos e a razão. Vemos, ele trabalhando muito mais o que será seu triunfo recolhendo coerentemente todas as peças elaboradas durante seu amadurecimento: senciente, substituindo a inteligência concipiente Porque “ganhou este jogo” e desenmascarou a provisionidade dos conceitos soltos do real; então, necessariamente o logos e a razão são sencientes. Agora para ele, e para nós, por isso nos encantamos com essa via viva que vai escolher as melhores possibilidades para o homem. É claro, só pode ser senciente. Nela nascemos como animais de realidades e nela vivemos e nos realizamos. Por isso, como veremos mais adiante, repararemos que não fez um prefácio para cada parte da trilogia, senão incluindo neste, resumidamente, a tarefa das três partes dela, e publicado em três volumes: Inteligência e realidade, Inteligência e logos e Inteligência e razão. Os três volumes somam mais de mil páginas (Inteligência e realidade -285 páginas-, Inteligência e Logos -396 páginas- e Inteligência e Razão -352 páginas). Sim, são mais de 1.000 páginas de precisão e reflexão na elaboração que fez. Foi quase final de sua vida. “O vinho quanto mais velho melhor”, cabe muito bem falar dele.

Todos coincidimos que esta ousadia inesperada da Inteligência senciente é a marca da superação da inteligência concipiente, porque se elimina todo dualismo, também devemos destacar a importância dos outros volumes. E até D. Gracia, e outros, consideram que a principal parte da Trilogia é Inteligência e logos: porque, como veremos lucidamente, nos mostra como esse senciente, claro inteligência, e não mais sensória, sensível ou instrumental, e transforma a força da lógica e das definições e argumentos, e, como não, do conhecimento. Porque desenvolve pormenormente toda a força destes modos de intelecção.

A proposta desta trilogia senciente consegue convencer aos seus alunos, que junto a ele, criaram o Seminário de Investigação, da coerência e necessidade de sua elaboração. Durante um ano Zubiri se empenha, esclarece e reorganiza a proposta da inteligência como apreensão senciente do real, não faculdade que produz conceitos. Em dois anos, elabora os dois volumes, de que falamos: Inteligência e logos e Inteligência e razão. Pois, Zubiri não é o pensador que destrói o pensamento anterior: o estuda, o analisa e, também, o critica. Busca onde puderam ter errado e vai reconstruir e refazer todos os momentos fundamentais da filosofia desde a Inteligência senciente.  Não despreza o inédito fato realizado pelos gregos com a descoberta da razão humana. Assim, vai trabalhar o logos, como abertura ao campo do real, como momento da inteligência senciente. E finalmente, estuda criativamente as dificuldades da razão, que se deixou logificar, e mostra que ela é a marcha da filosofia para o conhecimento da realidade, quer dizer para dar conta da realidade, que devemos nos apropriar. A realidade é, assim, a medida das coisas reais, não os conceitos, ideias e todos os seus rebuscados derivados.

 Zubiri falava com carinho desta obra de sua trilogia, porque entendemos conseguiu dar conta do problema da inteligência, que era apenas considerada como faculdade. Mas, conforme ia elaborando o primeiro desafio de inteligência e realidade viu que precisava desenvolver mais em concreto o desafio do logos e da razão no problema indicado da inteligência senciente. Confirmou e concluiu, assim, que o problema da inteligência foi o dualismo: pensamento e ser, mente e corpo, katá energéin e kata dýnamis e todos os outros pensadores que entraram nesse desvio dualizado sem perguntar-se aonde iriam acabar, e que responsabilizamos como produtores da crise da humanidade, porque contaminou a dinâmica e o pensar e por isso do fazer.

As sabedorias não são sabedorias da realidade, mas sabedorias conceituais, artificiais não tendo em conta o real das coisas. Ele percebeu que sua longa inspiração, proposta e elaboração exigia um tratamento mais pormenorizado daquilo que tinha sido a diferença da filosofia com as outras sabedorias. E o vai fazer, desde a inteligência senciente e não concipiente. E certamente está enfrentando nada menos que a Crítica da razão pura de E. Kant. Como, também, a substantivação da consciência que inunda, negativamente, o pensamento atual. Ela foi tornada a faculdade todo-poderosa, absoluta. Mas onde saiu a consciência e a pura razão se somos animais de realidades, seres humanos com o pé não chão?

Não há a menor dúvida que esta obra, a Trilogia da Inteligência senciente, é a mais elaborada, criativa e segura do atrevimento inédito filosófico de X. Zubiri. Partes das elaborações aqui contidas já estavam presentes no decorrer de sua obra: ora incoativamente ora de alguma forma bem expressa, mas nunca sistematizada. Aqui nos deparamos com o próprio manancial e o caudal da inspiração zubiriana: a presença da realidade e seu poder, que dá de sí.  Pois, sempre partiu da experiência de todo ser humano de que somos realidades, que estamos no meio delas e delas vivemos.

Certamente a elaboração de Inteligência senciente Zubiri enfrenta-se com Kant, mas também com Husserl e com a Fenomenologia. O teor do Prólogo é a prova de um desafio direto. A teoria do conhecimento kantiana e a consciência da fenomenologia tiveram grande aceitação, como modelo para pensar. Zubiri no seu estudo entende que são concipientes, porque a realidade é antes do ser. Por isso, caímos de novo no dualismo arraigado e perverso no pensar e no viver. O amadurecimento zubiriano nos leva a firmeza de inédita proposta, de que os caminhos analisados partindo dessa inspiração senciente, são os que sempre esperávamos. Zubiri nesse enfrentamento filosófico com toda a filosofia, porém se desfazer-se dele, sem discórdias, supera todas as elaborações apriorísticas kantianas e todo o racionalismo: tanto o realismo ingênuo, como também afirma que o idealismo é ingênuo, falava Zubiri.  “Saber e realidade são congêneres na sua última raiz”. Teremos que largar muitos “mantos” ( T. Barreto) filosóficos de grandes filósofos, não digamos de gurus de todos os tipos, que não souberam ver o desvio radical dos dualismos no saber humano. “Apenas segue a onda” d modo sempre concipiente. Intitulam-se sábios de conceitos soltos de nossa realidade. Porém, o homem nunca parará de saber mais do real em todas as ciências, pois nunca deixará de realizar-se.

Zubiri resume esta obra no último parágrafo assim: “E aqui é que inteligir e sentir não se opõem, mais, que apesar de sua essencial irredutibilidade, constituem uma só estrutura, uma mesma estrutura que, segundo o ângulo por que se olhe, devemos chamar de inteligência senciente ou sentir intelectivo. Graças a isso, o homem fica inadmissivelmente retido na e pela realidade: fica nela sabendo o quê? Algo, muito pouco, do que é real. Mas retido constitutivamente na realidade. Como? É o grande problema humano: saber estar na realdiade” (IRA  282).

Os motivos ficam claros, no início da obra, desde Natureza, História, Deus: o conhecimento é o fruto do trabalho da inteligência, é não a base do saber e nem a da consciência, é o lugar da realidade. Isso é algo grave para Zubiri e para nós um choque diante do uso das teorias do conhecimento, que também enfatizam o lugar primário da consciência. Vejamos como Gracia, agudamente, nos lembra desta situação radical da novidade da proposta de Zubiri:

“É provável que o leitor descubra nesta obra (Estructura dináminca de la realidad-1989)  um novo Zubiri, realmente novo, claro. Se em Sobre la esencia parecia ter como interlocutores principais Aristóteles e a Escolástica, em Inteligência senciente a Kant, Husserl e a Fenomenologia, e em El hombre y Dios a Santo Agostinho, aqui na Estructura dinámica de la realidad, o leitor descobrirá um Zubiri inédito, que com um rigor intelectual enorme e não menos vigor, refaz o caminho de um Hegel, e propõe uma alternativa em extremo convincente, tanto no que concerne a Fenomenologia do Espírito deste como com a Dialética da natureza de Engels... Poucas vezes um filósofo se tem proposto tanto, e poucas vezes também o tem resolvido de modo mais rigoroso e original” (EDR p. V).

Concordamos com Gracia nas leituras do filósofo: a grandeza de sua ousadia de estudar toda a filosofia, a coragem desse enfrentamento como os filósofos gigantes criticando o que não acertaram, o que provocou o desvio do caminho vivo da humanidade. E finalmente nesta obra de Inteligência senciente nos mostra “letra a letra” o caminho senciente próprio do horizonte real humano. Até ficamos estupefatos, de como nos deixamos levar por saberes puramente conceituais, quando somos reais. O senciente é agora, como mergulho seguro para atravessar os mares da vida.

Se nesta obra de Inteligência senciente Zubiri enfrenta-se com a teoria kantiana do conhecimento, reconhecidamente a obra máxima maturidade de Zubiri, isso nos leva a avaliar o que ela significou para ele. Deu ao saber humano e filosófico sua radicalidade senciente. Por isso achamos oportuno apresentar este prólogo completo para o aprecio pessoal de cada leitor e da tamanha ousadia da temática que o envolve frente à kantiana, como o fez noutras obras com outros filósofos. Imprescindível a leitura dele e da obra toda. Ele sabia que estava, como falamos, remando contra maré, mas era necessário para a vida da pessoa. Sorte a nossa que encontramos essa elaboração senciente de Zubiri para tantas inquietações, desesperos e perguntas para a humanidade. Ele é o exemplo do que falou Aristóteles de seu mestre Platão, devemos amar a filosofia mais que aos filósofos. Se continuarmos fazendo o mesmo, onde colocamos nossa vida?

Nota prática: O leitor encontrará um aprofundamento melhor Prefácios para a Trilogia senciente, publicada por É Realizações de São Paulo em 2011. Convidamos o leitor a ler esse material, que poderá ser muito útil. Mas, esta introdução ao estudo da trilogia senciente na que estamos dedicados, tem o sentido de situar o leitor diretamente com os grandes momentos, por nós nos selecionados, nunca os melhores, porque cada um pode apreciar e encontrar mais valor num pensamento ou noutro. Isso é o que estamos empenhados em oferecer para a compreensão da proposta zubiriana.

Entretanto, devido ao fato de que Zubiri faz um prefácio bem sucinto do teor de sua pesquisa, quase 60 anos depois de sua tese de doutorado, achamos que a sua leitura total seria o melhor para os leitores. Podem assim ver a amplitude de seu ponto crítico e a grandeza de sua proposta. Está fazendo filosofia e nós com ele.

Prólogo

(in Inteligência e realidade. Editora É Realizações, São Paulo, 2011, li-lvi)

Por Xavier Zubiri

“Publico este livro sobre a inteligência muitos anos após ter publicado um livro sobre a essência. Isto não é uma mera constatação cronológica. Pelo contrário, tem um sentido intrínseco que não será supérfluo esclarecer. O que significa, aqui, “após”?

Para muitos leitores, a meu livro Sobre la esencia faltava um fundamento porque consideravam que saber o que é a realidade é tarefa que não pode ser levada a efeito sem um estudo prévio do que nos é possível saber. Isso é verdade, quando se trata de alguns problemas concretos. Afirmar, porém de forma absolutamente geral, que isso seja próprio do saber da realidade enquanto tal é algo diferente. Essa afirmação é uma ideia que, de diversas formas, constituiu a tese animadora da quase a totalidade da filosofia moderna de Descartes a Kant; é o “criticismo”. O fundamento de toda a filosofia seria a crítica, os discernimentos do que se pode saber. Penso, no entanto, que isso é inexato. Certamente a investigação sobre a realidade precisa lançar mão de alguma conceituação do que seja o saber. É, porém essa necessidade uma anterioridade? Não creio, porque não é menos verdadeiro que uma investigação das possiblidades do saber não pode ser levada a efeito e, de fato, nunca foi levada a efeito, se não se apela para alguma conceituação da realidade. O estudo Sobre a essência contem muitas afirmações acera da possibilidade do saber. Mas, por sua vez, é verdade que o estudo do saber e de suas possibilidades inclui muitos conceitos a respeito da realidade. É que é impossível uma prioridade intrínseca do saber sobre a realidade e da realidade sobre o saber. O saber e a realidade são, em sua própria raiz, estrita e rigorosamente congêneres. Não há prioridade de um sobre o ouro. E isso não somente devido à condição de fato de nossas investigações, mas devido a uma condição intrínseca e formal da própria ideia de realidade e de saber. Realidade é um caráter formal –a formalidade- segundo a qual o apreendido é algo “em próprio”, algo “de seu”. E saber é apreender algo segundo essa formalidade. Voltarei em seguida a essas ideias. Por isso a suposta anterioridade crítica do saber sobre a realidade, isto é, sobre o sabido, não é no fundo senão uma espécie de timorata hesitação no próprio começo do filosofar. Algo assim como se alguém que quisesse abrir uma porta passasse horas estudando o movimento dos músculos de sua mão; provavelmente não chegaria nunca a abrir a porta.

No fundo, essa ideia crítica da anterioridade nunca chegou por si a um saber do real, e quando o conseguiu tal vez se deveu, em geral, a não ter sido fiel à crítica mesma. Não podia ser de outra forma: saber e realidade são congêneres em sua raiz. Portanto, publicar este estudo sobre a inteligência depois de ser publicado um estudo sobre a essência não significa preencher o vazio de uma necessidade insatisfeita; significa, pelo contrário, mostrar que o estudo do saber não é anterior ao estudo da realidade. O “após” a que antes me referia não é, pois, uma mera constatação de fato, mas a demonstração em ato da deliberada repulsa de toda crítica do saber como fundamento prévio ao estudo do real.

Isso, porém, não é tudo. Venho empregando a expressão “saber” com intencional indeterminação. Porque a filosofia moderna não começa com o saber pura e simplesmente, mas com esse modo de saber que é chamado de “conhecimento”. Assim, a crítica é Crítica do conhecimento, da epistémé, ou como se costuma dizer, é “epistemologia”, ciência do conhecimento. Pois bem, penso que isso é sumamente grave. Porque o conhecimento não é algo que repousa sobre si mesmo. E não me refiro aos fatores determinantes de caráter psicológico, sociológico e histórico do conhecer. Certamente uma psicologia do conhecimento, uma sociologia do saber e uma historicidade do conhecer são coisas essenciais. Não são, porém, como algo primário. Porque o primário do conhecimento está em ser um modo de intelecção. Portanto, toda a epistemologia pressupõe uma investigação do que estruturalmente e formalmente é a inteligência, o Noûs, um estudo de “noologia”. A vaga ideia do “saber” não se concretiza em primeira instância no conhecer, mas na intelecção enquanto tal. Não se trata de uma psicologia da inteligência nem de uma lógica, mas da estrutura formal do inteligir.

Que é, pois inteligir? Ao longo de toda sua história, a filosofia tratou muito detidamente dos atos de intelecção (conceber, julgar, etc.) em contraposição aos diferentes dados reais que os sentidos nos fornecem. Uma coisa, diz-se-nos, é sentir; outra é inteligir. Esse enfoque do problema da inteligência contém, no fundo, uma afirmação: inteligir é posterior ao sentir, e essa posterioridade é uma oposição. Foi a tese da filosofia desde Parmênides, que veio gravitando imperturbavelmente, com mil variantes, em torno de toda a filosofia europeia.

Mas isto é, antes de tudo, uma enorme vagueza, porque não nos foi dito em que consiste formalmente o inteligir enquanto tal. Diz-se-nos, no máximo, que os sentidos dão à inteligência as coisas reais sentidas para que a inteligência as conceitue e as julgue. No entanto, não nos é dito nem o que é formalmente sentir nem, sobre tudo, o que é formalmente inteligir. Pois bem, penso que inteligir consiste formalmente em apreender o real como real, e que sentir consiste em apreender o real em impressão. Real, aqui, significa que os caráteres que o apreendido tem na própria apreensão ele os tem “em próprio”, “de seu”, e não somente em função, por exemplo, de uma resposta vital. Não se trata de coisa real na acepção de coisas além da apreensão, mas do apreendido mesmo na apreensão, mas enquanto é apreendido como algo que ”em próprio”. É o que chamo de formalidade de realidade. É por isso que o estudo da intelecção e o estudo da realidade são congêneres. Pois bem, isto é decisivo. Porque como os sentidos nos dão no sentir humano coisas reais, com todas suas limitações, mas coisas reais, sucede que essa apreensão das coisas reais enquanto sentidas é uma apreensão intelectiva. Daí que o sentir humano e a intelecção não sejam dois atos numericamente diferentes, cada um completo em sua ordem, mas constituem dois momentos de um único ato de apreensão senciente do real: é a inteligência senciente. Não se trata de uma intelecção voltada primariamente para o sensível, mas do inteligir e sentir em sua própria estrutura formal. Não se trata de inteligir o sensível e de sentir o inteligível, sendo de que inteligir e sentir constituem estruturalmente – se se quiser empregar um vocábulo e um conceito impróprios neste lugar- uma única faculdade, a inteligência senciente. O sentir humano e o inteligir não só se opõem, mas constituem em sua unidade intrínseca e formal um só e único ato de apreensão. Este ato, enquanto senciente, é impressão; enquanto intelectivo, é apreensão de realidade. Por tanto, o ato único e unitário de intelecção senciente é impressão de realidade. Inteligir é um modo de sentir, e sentir, é, no homem, um modo de inteligir.

Qual é a índole formal deste ato? É o que eu chamo de mera atualização do real. Atualidade não é, como pensavam os latinos, o caráter de ato de algo. Ser cão em ato é ser a plenitude formal daquilo em que constitui o cão. Por isso, eu antes chamo esse caráter de atuidade. Atualidade, em contrapartida, não é carater de algo em ato, mas de algo que é atual; duas coisas muito diferentes. Os vírus tinham atuidade desde milhões de anos atrás, mas só agora adquiriram uma atualidade que antes não tinham. Mas atualidade não é sempre, como no caso do vírus, algo extrínseco à atuidade do real. Pode ser algo intrínseco às coisas reais. Quando um homem está presente porque é ele que se faz presente, dizemos que esse homem é atual naquilo em que se faz presente. Atualidade é um estar, um estar presente desde si mesmo, desde sua própria realidade.  Por isso, a atualidade pertence à própria realidade do atual, mas não acrescenta, nem tira, nem modifica nenhuma de suas notas reais. Pois bem, a intelecção humana é formalmente mera atualização do real na inteligência senciente.

Aí está a ideia, a única ideia que há em todo este livro ao longo de centenas de páginas. Estas páginas não são senão a explicação daquela única ideia. Essa explicação não é uma questão de raciocínios conceituais, mas de uma análise dos fatos de inteleção. Certamente é uma análise complexa e nada fácil; por isso foram inevitáveis repetições por vezes monótonas. Mas é mera análise.

Pois bem, a intelecção tem diferentes modos, isto é, há diferentes modos de mera atualização do real. Há um modo primário e radical, a apreensão do real atualizado em e por si mesmo: é o que chamo de apreensão primordial do real. Por isso seu estudo é análise rigorosa das ideias de realidade e de intelecção. Mas há outros modos de atualização; São os modos segundo os quais o real é atualizado não somente em e por si mesmo, mas também entre outras coisas e no mundo. Não se trata de “outra atualização”, as de um desdobramento de sua atualização primordial: é, por isso, uma re-atualização. Como a intelecção primordial é senciente, sucede que essas atualizações também são sencientes. São duas: o logos e a razão, logos senciente e razão senciente. O conhecimento não é senão uma culminação de logos e razão. Seria inútil dizer aqui o que são logos e razão; isso será feito ao longo desse estudo.

Este estudo compreende, assim, três partes:

Primeira parte: Inteligência e realidade.

Segunda Parte: Inteligência e logos.

Terceira parte: Inteligência e razão.

Pela intelecção já estamos instalados inadmissivelmente na realidade. O logos e a razão não precisam chegar à realidade, mas nascem da realidade e estão nela.

Hoje somos inegavelmente envolvidos, no mundo inteiro, por uma grande onda de sofística. Como no tempo de Platão e de Aristóteles, também hoje somos arrastados por uma enxurrada de discurso e propaganda. A verdade, porém, é que estamos instalados modestamente, mas inexoravelmente, na realidade. Por isso, mais do que nunca, é necessário hoje fazermos um esforço de submersão no real em que já estamos, para extrair com rigor de sua realidade ainda que sejam alguns pobres fragmentos de sua intrínseca inteligibilidade.”

                                                                                                  Fuenterrabía, agosto de 1980.

Trilogia da Inteligência senciente (1980-1983). (III. Desafios recompensados)

(Etapa metafísica “noérgica”)

Lembramos ao leitor interessado na introdução à leitura de Zubiri, que encontrará, também, informação falada na entrevista a Marcílio Monteiro no Youtube Filosofia ser e pensar para esta etapa que estamos desenvolvendo.  Marcilio desde Pernambuco entrou em contato conosco através do e-mail que encontrou no livro O que é a Inteligência? Filosofia da realidade em Xavier Zubiri (Lumen Juris). Foi uma grata surpresa compartilhar a proposta inédita de Zubiri com ele e será com todos vocês. “Vamos cair no real”, não para quebrar a cara, mas para despertar ao real mesmo sem enganos. Depois de 30 anos lendo e refletindo com Zubiri, penso que sua tarefa entre nós é despertar-nos do letargo de formas de filosófica que nos deram muitos conceitos radicais de nossa existência. A filosofia dualizou o saber filosófico e continua dualizando sempre parte responsável da crise da humanidade que não termina com tantos conceitos e boas intenções. Simplesmente Zubiri na sua inspiração radical nos devolve a realidade, na que todos vivemos. Inteligência senciente é o caminho de que somos “animais de realidades” e não radicalmente “animais racionais”. E seremos racionais, porque somos primordialmente animais de realidades com os pés na terra. Boa leitura. Estaremos juntos até quando puder. Seguiremos unidos nessa tarefa incrivelmente filosófico-metafísica. Aprenderemos a filosofar com um homem filósofo: Zubiri. Obrigado.

Apresentamos anteriormente apenas os relatos da experiência de três estudiosos do campo aberto por Zubiri. Como é normal cada um se deixou cativar na idade própria e pelo que respondia melhor as suas inquietações pessoais, sem distanciar-se em nada das inquietações sociais e históricas de sua época.

Como podemos apreciar o contato com a empreitada de Zubiri nos tira do marasmo e medo de pensar nos dias atuais, tão ávido de pensamentos utilitaristas, “sofistas”, concipientes. E assim nos torna suficientes com seu pensamento para enfrentar nossas inquietações. Para todos, a Trilogia senciente recolhe todas as inquietações sobre a vida e a inteligência das pessoas. Essa foi a preocupação de Zubiri na sua “solidão sonora” e sempre se defrontando com o nascimento da filosofia. O repete muitas vezes em cursos e obras elaboradas. Ele desde sua primeira formulação em NHD se propôs denodamente essa inspiração de que a realidade é antes do ser. Encontrou a pedra fundamental da filosofia da realidade na filosofia primeira. O “de seu”, não como possesivo, mas como próprio, em propriedade, foi o gonzo do giro metafísico e criador da proposta senciente. Nós prendeu com seus caminhos e seus andares até alguns difíceis, finalmente claros, mas coerentes e rigorosos. Nós sentimos sim caminhantes encontrando pedras sencientes, normais, sabendo distingui-las das concipientes, mas fortalecidos. Não há outro motivo na esperada Inteligência senciente, que a nossa decisão de entregar-nos, melhor nos apropriar do melhor de nossas possibilidades para nos realizar como pessoas. Vemos o caminho vivo de que ele levanta desde os primeiros escritos. E a Inteligência senciente nos possibilita os passos tão esperados para chegar à realidade. ”Atualização do real na inteligência senciente”, nos repete Zubiri.

Estamos chegando ao cimo da montanha da elaboração zubiriana e acompanhamos supressos esses momentos para vislumbrar e caminhar no novo horizonte, que o ser humano não pode esquecer e nem deteriorar definitivamente. Sim, desejamos subir ao topo das obscuridades do pensar e do viver, que tanto nos fazem sofrer. Algo assim como se pretendemos subir aos nossos morros cariocas, o fazemos começando por ruas inicialmente agradáveis e muito movimentadas. Já fizemos mais leitores e reflexões que nos encorajaram. Parece que toda a subida vai ser assim, cheia de gente vivendo e com quase todas as possibilidades, embora concipientes. A subida parece possível e agradável. Não vai ser assim. Mais adiante ficamos quase sós. Teremos que subir e subir de todas as formas e maneiras: “o canto dos passarinhos concipientes” nos vai encantar, entretanto somos gente com os pés na terra, e estamos convictos que nem a tentativa de Ícaro nos pode ajudar e temos que seguir subindo os caminhos desviados da filosofia. A nossa vontade de chegar lá sentirá o cansaço: o nosso corpo encontrará limitações e muitas, porém, interiormente estaremos sempre motivados para continuar. As limitações da época, e da história de cada um, teremos que enfrentar. Por fim chegaremos em “casa”, recuperando o horizonte humano.

Sim, os questionamentos diante de tantas teorias nos levaram a descobrir a proposta de Zubiri.  O vivemos atravessando as dificultes da apropriação das melhores possibilidades, este é o momento de encontro-leitura da Inteligência senciente. Reflitamos a metáfora do Sísifo tentando subir e atravessar os “picos dos Andes” (Sobre la esencia)  de nosso continente feitos de labirintos artificias e não reais, miragens dos picos conceituais de tantas teorias. O Sísifo somos nós e o cimo dos Andes é a leitura dele, através de pensamentos artificiais, porém ansiosa e atraente da obra máxima de Zubiri, que nos incita a seguir no meio de horizontes criados. Criamos o sonho real de chegar lá. Chegamos lá no meio de outras tantas leituras, que sempre nos complicavam mais, mas nos cativamos de que aonde levou Zubiri nos leva à experiência de um recomeço senciente.

Continuemos a leitura que Affonso Romano faz dele e de nós em: “Sísifo desce a montanha”. Então, conseguiremos mudar nossa rota, que empreendemos porque buscamos levianamente, novos “paraísos” de sabedorias conceituais e representativas, no meio das dificuldades do pensamento de Zubiri. Entretanto, o pensamento de Zubiri nos desafia e cada vez nos abre mais possibilidades. Já sintonizamos muitas vezes com o pensamento do filósofo. Romano nós lembra todas as dificuldades que sofremos e podemos ir sofrendo de todos os lados conceituais, mas se atreve como bom homem e um bom poeta a gritar poeticamente no meio de nossos receios, interrogações e momentos de coragem: “Parem de jogar cadáveres na minha porta”, porque já estamos fartos de tantas posturas bem intencionadas. Ficamos sem medo de começar a gritar:

“Não venham com jornais sangrentos sob os braços

Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto,

e de semear pregos por onde passo”.

Porém, no meio dessa experiência espoliadora, não podemos desistir que ver nossa vida na leitura de Zubiri, como uma subida que não correspondia com a situação de que partimos e da chegada. Não é a experiência radical humana. Lendo Zubiri, seremos recompensados. Romano expressa muito bem “Como se desce uma montanha”. Como será a leitura de Inteligência senciente.

“Não é fácil

Nem menos perigoso

Do que subir

                               -é diverso.

Se olhamos de fora

-os gestos-

Podem parecer mais lentos.

Para quem desce

Ao contrário, a sensação

Não é de vertigem

– é de complemento.

Subir foi demorado

Descer

                É outra arte.

É como se Sísifo

Do outro lado do monte

Estivesse.

Descer com pedra

Nos ombros

-pode ser leve”.

Consideremos que podemos entender tanto a raízes dos labirintos conceituais, foi a história da filosofia, como também estamos entendendo, melhor nos apaixonando pela surpresas da elaboração senciente de Zubiri. Dessa forma, o esforço e inquietações diante das leituras zubirianas, são dolorosas, como não, todavia, também felizes e esperançosas, porque  poder repetir com Romano em “Aos que virão”:

“Eu sempre amei a vida

Desejoso estou

                               Já de partir.

Não é simplesmente saltar da ponte.

É mais manso o desespero;

Acabar de fazer a mala

Dirigir-se à estação

Dissolver-se no horizonte.

Cansei de escalar muro

Semear entre rochedos

Gritar pros companheiros.

Outros virão, espero

Que venham –

De novo              

                Tentarão”.

Acreditamos na vida humana buscando a melhor possibilidade para se realizar plenamente. E sabemos de nossas limitações. Todavia, nos sentimos filosofando, e como que chegando a meta que nos propusemos. É verdade que nunca chegaremos, seriamos puros objetos, perfeitos, mas não seres humanos, realidades abertas, que devem se apropriar sempre as melhores possibilidades. Perderíamos nossa realidade humana. Sentimos que estamos descendo –entendendo- da grande tarefa que nos propusemos. Sentimo-nos “gregos”, na forma como se enfrentaram com a contemplação do universo incluindo o ser humano. Hoje, além de subir a montanha de tanta confusão do “saber” e da “filosofia”, acompanhamos Zubiri se enfrentado com essas diversas formas que aprisionam as pessoas.  Estamos lendo as obras de Zubiri, “Semeando entre rochedos”, porém, temos a convicção de que nos libertam e fazem realidade a busca do que está além do ser. Nós carregamos de vontade, tivemos coragem de seguir procurando labirintos, uns da vida e muitos construídos, nos debruçamos na quantidade de leituras de pensadores “inquietos”, porém nos encantamos com o mergulhar das leituras Natureza, História, Deus, Sobre la esencia e agora com a Trilogia senciente: Inteligência e realidade, Inteligência e logos e Inteligência e razão. Encontramos outro pensamento: outras palavras, ideias e elaborações. E logo queremos aplicar. “Outros virão, espero que venham- De novo tentarão”.

Enfrentamos “muitos cadáveres” que jogaram na porta desse nosso caminhar, semearam muitos pregos para dificultar essa empreitada, na sociedade e até na academia. Porque, “Cansei de escalar muito -Semear entre rochedos -Gritar pros companheiros”.

Sempre fizemos esse grito, porque temos o direito, o dever e a responsabilidade de manter a vida plenamente. Parece estamos exaustos de gritar “Cansei de escalar muito -Semear entre rochedos -Gritar pros companheiros”. Sempre amei a vida, como dom infinito. Chegaremos com ele ao que falava da “plenitude” da vida humana?

Então, continuamos apresentando a Trilogia senciente e começamos a “heregizar” com a contagiante familiaridade da riqueza e aberturas da Inteligência senciente: estamos chamando a esta segunda parte da etapa metafísica de “etapa metafísica noérgica”. No problema da inteligência, sempre indicado por Zubiri, descobrimos que ela foi cultivada através de dualismos e ideias, não como própria do homem de realidades. Sabemos que não estamos sós. Não somos o primeiro e nem o único que nessa dedicação nos cativamos com os pensamentos claros e rigorosos de Zubiri. Ele não foi um pensador que não parou de amadurecer, mas nos três últimos de vida jogou a caudais transparentes e límpidos sua inspiração: a realdiade é antes do ser. Nunca deixou de andar desbravando o caminho senciente e anquilosados nas repetições de sua proposta. O homem não é animal racional, mas animal de realidades. Poderíamos dar um subtítulo pessoal: a inteligência senciente é anterior e fundadora primordialmente ao dos conceitos. A realidade humana é anterior a sua existência.

Assim, perdemos o medo de filosofar. Porque aprendemos a nos enfrentar até os grandes pensadores com todo respeito e crítica. Se nas primeiras obras Zubiri tem atrevimento de enfrentar-se com Aristóteles, aqui na Inteligência senciente se vai enfrentar com Kant, que impregnou nosso pensar e viver. E também com a consciência-de da fenomenologia. Substantivamos o conhecimento e a consciência. Zubiri agora está nos dando a sua resposta para a pergunta que se fez em 1940 sobre a história rica, complexa e complicada do afazer filosófico: “é o movimento mesmo a que se vê submetida à inteligência, quando intenta precisamente a ingente tarefa de pôr-se em marcha a si mesma desde sua última raiz” (NHD 145). Confirmamos com essa experiência de leituras zubirianas, que a máxima amizade é a filosofia, a verdade da realidade, não os filósofos aguerridos de cada época.

Agora, nessa obra Zubiri 40 anos depois, está desmascarando e refazendo passo a passo os desvios do saber pensar e da filosofia e abrindo o caminho senciente, ou como ele aceitou falar de “a teoria do conhecimento senciente”. Assim, a inteligência é impura, como também a razão. Dessa forma estudamos. Zubiri recolhe as limitações do saber e do viver concipientes refaz o fundamento do saber no sentir humano. Segue os mesmos passos dos grandes filósofos, mas de outra maneira: sencientes. Só assim podemos recuperar que somos realidades.

É importante destacar a relação do amadurecimento de Zubiri em Sobre la esencia e o apresentado aqui na Trilogia senciente. Diego Gracia se expressa no final na Nota Preliminar de Sobre la esencia: “os três volumes de Inteligência senciente constituem o último que ele publicou em vida,  por isso também a expressão mais madura e rigorosa de sua filosofia e o lugar mais apropriado para a correta interpretação de todos os demais escritos. Penso que desde  sua última produção as velhas páginas de Sobre la esencia cobram  nova  luz e adquirem redobrada atualidade”. Nova luz, porque esta obra parece unificar coerentemente todos os momentos de criação filosófica e por isso vai tomando redobradas e constantes atualidades.

Repetimos. Desde os primeiros contatos –em 1990- ficamos cativados com seu pensamento, pelo que nos fazia pensar e da maneira como expunha e elaborava seus pensamentos. Ficamos estupefatos e surpresos, muitas vezes, com o início escalofriante da etapa metafísica em Sobre la esencia. Porque não tínhamos presenciado, acompanhado e nem lido seus cursos, nos quais ele foi extraindo e elaborado sua inspiração desde sua etapa fenomenológica, dessa forma ele perfilava diferente as peças encontradas. Sim, ficamos quase atónitos com o pensamento estudado e repercussão  na sociedade e na condução do povo, assim fomos despertando cada vez mais para o afazer filosófico que busca a verdade da realidade. Nesse mergulho nos jogamos confiantes e com certo receio, porque não sabíamos se sairíamos desse novo fundamento e dos novos passos. Zubiri em Inteligência senciente nos oferece os passos detalhados dos passos do saber dentro do horizonte intramundano.

Quando chegamos a ler e reler Inteligência senciente nós sentimos emergindo nesse oceano zubiriano e sem medo de nadar. Queríamos entender e aplicar, porém como? Víamos o caminho vivo de sua proposta, todavia “esdrúxulo” muitas das vezes, distante do que vivíamos para sermos aprendizes de um fazer filosófico, que percebíamos partindo dentro do homem, do que é dele e ninguém pode tirar e assim delineando-nos com mais calma e detalhadamente a seguir o caminho aberto: a inteligência senciente. Éramos como que resgatados. Porque estávamos como “ensopados” com as teorias do conhecimento e da consciência, que são frutos da inteligência. Teremos intrépidos e “decepcionados”, que “largar” o manto de Kant, como nos ensinou Tobias Barreto, teremos que largar muitos conceitos e teorias puramente concipientes, nos que sempre incidem nossas perguntas.                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Nesse aprender sua proposta lemos o prefácio à tradução inglesa de Natureza, História, Deus também feito por ele em 1980, na mesma época da Trilogia senciente. Era seu mapa de perseguindo sua inspiração radical da realidade, dando-nos até as datas, (por isso não nos sentimos mais velhos na minha idade para recomeçar a filosofar, víamos um caminho verdadeiro e rico).

O fato é que depois de resumir de como entendia a “filosofia do real enquanto real, é metafísica”, em Sobre la esencia, nos revelava a empreitada de seu definitivo passo sobre o problema da inteligência: “Por sua vez, a intelecção não é consciência; é mera atualização do real na inteligência senciente. É o tema do livro que acaba de publicar-se, Inteligência Senciente (Madri, 1980)”.

“Desse modo. O presente livro, Natureza, História, Deus é uma etapa não somente superada, mas assumida nessa metafísica do real, em que há 35 anos me acho empenhado. É, repito, etapa determinada pela inspiração comum do real enquanto real. É uma etapa rigorosamente metafísica. Nela me vi forçado a dar uma nova ideia do que é a intelecção, do que é a realidade e do que é verdade. São os capítulos centrais do livro Inteligência Senciente”. (NHD 29-30).

Vemos nesse resumo, tudo o que nos fez passar no tempo, que nos ajudou atravessando com dificuldade essas etapas. Sim assumimos os passos medrosos, mas confiantes, do mestre. E agora nos sentíamos andando no horizonte da realidade, no nosso horizonte intramundano. E aceitamos alegres e corajosamente a leitura de Trilogia senciente. Nem pensar naquela época que um dia seria procurado para fazer a apresentação de todos los três livros de Inteligência senciente, na publicação em português dessa obra.

Zubiri nessa obra se sente “de tu a tu”, com nada menos que com Kant, que nos inundou com sua teoria do conhecimento, como peça chave do saber humano. Nós  “tornamos kantianos”.  Nós tornamos fenomenologistas. E agora?

Nos parágrafos últimos desse prólogo resume toda a grandeza da proposta de sua obra, e os impecílios que vamos encontrar. Porém reafirma qual será nossa apoio radical. Podemos apreciar mais tarde esse novo mapa escrito por ele:

“Pela inteleção já estamos instalados inadmissivelmente na realidade. O logos e a razão não precisam chegar à realidade, mas nascem na realidade e estão nela.

Hoje somos inegavelmente envolvidos, no mundo inteiro, por uma grande onda de sofística. Como nos tempos de Platão e de Aristóteles, também hoje somos arrastados por uma enxurrada de discurso e propaganda.  A verdade, porém, é que estamos instalados modestamente, mas inexoravelmente, na realdiade. Por isso, mais que nunca é necessário hoje fazemos um esforço de submersão no real em que já estamos para extrair com rigor de sua realidade ainda que sejam alguns pobres fragmentos de sua intrínseca inelegibilidade”.

Esse nos parece o melhor resumo de todo seus esforço e trabalho elaborando sua inspiração. Sua inspiração, seu motivo de descobrir a sabedoria sofística e o que será nossa vida porque estamos na realdiade. Tenhamo-lo sempre presente no meio da grande quantidade de análises dos fatos humanos.

Zubiri chegou a ela depois de 20 anos de Sobre la esencia, e nela nos oferece, como que satisfeito, triunfante, como é o caminho  para chegar ao o real: Inteligência senciente. Escreveu os livros em pouco tempo, entre 1980 e 1983. E podíamos afirmar que a deixou sem finalizar completamente, como legado para nós, que não abrimos mão de ser sencientes. Zubiri não faz como que “uma nova teoria do conhecimento”, não para apenas criticar a kantiana. Mas, nos oferece a Inteligência senciente, o Logos senciente e a Razão senciente, que poderíamos chamar: “teoria” senciente da inteligência, não dominada pelos conceitos “sem carne”.

Nela poderemos ver, e, nos envolver com o ânimo, os conteúdos e conclusões para nos enriquecer. Nela nos deparamos com uma construção inédita passo a passo senciente, de uma sabedoria senciente. Nela Zubiri recoloca as formas mais tensas de busca do real durante séculos de maneira simples e coerentes, dando-nos firmeza, suficiência, como repetirá até não aguentar mais. Poderíamos reconhecer, que formula como problema radical a situação grave aonde chegou a inteligência, e que formulou frente ao “frenesi romântico da especulação” do século XIX, como de toda a filosofia: “Pensar não é raciocinar nem especular, saber é ater-se à realidade das coisas” (NHD 83), em 1935. Agora em Inteligência senciente apresenta a sua formulação definitiva, depois de mais de 50 anos dessa primeira formulação: “a intelecção humana é formalmente mera atualização do real na inteligência senciente” (IRE lv). E avisa: “Não se trata de uma psicologia nem de uma lógica, mas de uma estrutura formal do sentir” (IRE liii). Mas, foi necessário atravessar Sobre la esencia no tratamento do real enquanto real.

Fecharíamos esta consideração com palavras de L. P Wessell Jr:

“Zubiri não é um filosofo que possa ser lido, resumido em notas e devolvê-lo à prateleira. Não posso enfrentar-me a Zubiri somente de forma erudita. Pois ele oferece um acesso à realidade tão profundo, que o fundo de minha realidade pessoal-teórica se sentiu lançada para apropriar-se de sua filosofia primeira, avaliando-a criticamente. Noutras palavras, as ideias de Zubiri me despertaram de um letargo filosófico” (El realismo radical de Xavier Zubiri. Valoración Crítica. Universidad de Salamanca, 1992, p. 244).

Sim um desafio esperado, feliz e longo. Uma nova visão de entender o homem e o mundo. Estudar Inteligência senciente é sentir as pressas por abarcar todas, porém sentimos mais a necessidade de ler e reler cada pensamento e cada página. Não ficaremos cansados de repetir essas leituras, mas o faremos para tentar sugar o que ele nos queria falar. E nesse trabalho nos vemos obrigados a estudar Zubiri desde seus primórdios em Natureza, História, Deus e a elaboração central Sobre la esencia e buscar nos seus muitos Cursos  orais os pensamentos que ele fraguou lenta e firmemente com seus ouvintes e discípulos, agora plasmados na bela obra de um grande ourives filósofo: Inteligência senciente.

Qual é o nosso letargo filosófico do qual nos queixamos estamos buscando outros caminhos para o filosofar? Qual nossa situação diante da proposta surpreendente da realidade e do inteligir senciente do filósofo Zubiri agora ao deparar-nos com a obra máxima da maior maturidade da Inteligência senciente? Há coisas que não conseguimos expressar quando as vemos e sentimos, mas também é certo que não podemos ficar nem pasmados e nem parados e nem alienados. A estrutura humana tem a “energia diferente” de estar no meio das coisas, de senti-las inteligentemente e de dar conta delas apropriando–se dessa comunhão radical, fruto da “especulação cosmológica” através de uma constante comunicação de todos. Sentimos esses escalafrios nas leituras zubirianos anteriores. Todavia, agora ao ler a elaboração minuciosa da análises do ato de pensar, –como uma proposta viva diante do problema da inteligência-, porque está “morrendo” envolvida somente com ideas e conceitos. Nesse choque surge a surpresa positiva e atrevida e que nos faz totalmente mudar nossa ótica e do mundo.

Assim, lembra-nos Thomas Fowler, na Introdução a tradução americana de Inteligência senciente, quando estamos diante de uma obra de arte, delas sentimos o mais profundo e insoldável de tantas possibilidades da realidade humana apreendendo o que ele é, o que faz e o que vive. Todas essas formas de arte sentem, tocam, ouvem… a riqueza inacabável e todas suas possibilidades, como falamos “tocando o fundo da alma” para chocá-la e fortalecer. Também acontece ao estudar as ciências, tanto físicas como humana. O homem não é alheio a este maravilhamento.

Sendo assim, nos sentimos dispostos a reconstruir os andaimes humanos para saber viver, porque os reduzimos a artificiais e concipientes, insuficientes, que só vão desfigurando a realidade do homem e do universo, quer dizer, apagando sua realidade.  Essa tem sido a experiência negativa diária da humanidade: crises mais crises, sofrimentos físicos, espirituais, psicológicos, históricos… e ainda parecem que vai aumentando, porque os “sábios de plantão” cada vez mais desviados só querendo seguir o caminho que nos leva a sufocação humana e  a morte. E como não diante de uma poesia, diante da música. Esse choque não nos deixa letargos, desanimados, mas nos acalmam para inspirar e “arregalar as mangas” na tarefa de enteder a proposta inédita e arriscada de Zubiri. Nela sentimos que está a nossa.

E conclui Fowler, sobre esse choque surpreendente: “não lhe comunicam (essas obras de arte) uma experiência negativa e deprimente da realidade do mundo e das pessoas e sua sociedade… antes ao contrário, não se dá conta de algo especial que sua percepção da realidade se garante a si própria?… Aristóteles disse que a filosofia começa com a admiração, pois bem, se você desejou saber dessas coisas, achará proposta de Zubiri interessante e acessível”.

Que sentimos quando lemos Hamlet ou D. Quixote? Que sentimos quando visitamos uma catedral gótica? Que estamos sentindo quando nos deparamos com o absurdo de que a filosofia se elaborou, em grande parte, aceitando o dualismo sentir e inteligir, cheios de conceitos e conhecimentos? Detalhemos a “energia” de apenas a construção dos nervos da obra de arte gótica em sua época de pouquíssima técnica de construção: onde se inspiram e conseguem através desses nervos – grandes ou pequenos, até nos vitrais- se é o nosso desafio na leitura zubiriana a seguir. Inteligência senciente é o fruto maduro, calmo e rigoroso da solução senciente da inteligência. Com umas pequenas e coerentes elaborações, como que fabricando os pequenos nervos góticos, ou os versos de uma poesia, chegaremos a criar e recriar a obra máxima do homem animal de realidades, que atualiza o real na Inteligência senciente. Quer dizer, nessa obra, onde tudo o elaborado por ele é coerente e toma sentido novo: o horizonte intramundano. É agradável por que é surpreendente mesmo, mas trabalhosa sua leitura para entender e interpretar, aplicar e ir completando. Até para pinçar os melhores momentos dessa minuciosa elaboração desta primeira leitura se torna difícil e trabalhosa, porque exige nela cada linha, cada parágrafo, cada página e de cada capítulo, nos abrem mais e mais e reler e a pensar. Em definitiva, estamos no caminho aberto e vivo de Zubiri para a realização das pessoas. Parece que, namorar-se é fácil. Conquistar o amor sempre, a compreensão da proposta de Subir, é nossa tarefa.

Então amigo leitor? “Que pedir mais de Zubiri, um grande filósofo?” Assim, foi resumido esse desafio para todos por Wessell. Devemos reconhecer sua ousadia de termos dado mais firmeza na busca do real de todos. Sim, é um filósofo com os pés no chão da humanidade, porque é senciente! Trabalhou durante muitos anos e com muita honestidade e rigorosidade para descobrir todos os desvios do dualismos, mente e corpo, no saber filosófico. E temos sim que agradecê-lo de termos aberto esse caminho vivo e nesta obra nos acompanhar passo a passo de um caminhar real pelos passos senciente humanos.  Agradecê-lo, porque nos tirou a venda da nossa cegueira conceitual, que todos responsabilizamos de todas as crises do pensamento e da vida. Agora sabemos distinguir as formas representativas propostas várias sabedorias conceituas. Zubiri nos esclarece como nossa sabedoria deve ser apresentacional da realidade e de nós. Pois, nos devolve a confirmação de que estamos na realidade e dela podemos tirar pedacinhos de nossa realidade, como se realiza nossa vida aos pouquinhos, mas nos apropriando o melhor de nossas possibilidades abertas por nós mesmos, não da boa intenção dos outros.

Trilogia da Inteligência senciente (1980-1983). (II. Encantamentos)

(Etapa metafísica “noérgica”)

 “Desse modo, o presente livro Natureza, História, Deus, é uma etapa não somente superada, mas assumida nessa metafísica do real, em que há 35 anos me tenho empenhado. É, repito a etapa determinada pela inspiração comum do real enquanto real. É uma etapa rigorosamente metafísica. Nela me vi forçado a dar uma ideia diferente do que seja a intelecção, do que é a realidade e do que é a verdade. São os capítulos centrais do livro Inteligência senciente” (NHD 30).

Porque nomeamos a esta etapa de “metafísica noérgica”, se Zubiri só falou de metafísica? Nas leituras de Zubiri, quando entramos a estudar Inteligência senciente, sentimos uma abertura real e precisa para pensar realmente: é a forma de dar conta dela em tudo, senciente e não concipiente. Não temos dúvida que Zubiri nos situa em Sobre la esencia no horizonte da realidade. Isso já é um espanto filosófico. Nela nos deu firmeza nas inquietações que sempre tivemos e levantávamos cada momento diante de um mundo cheio de ideias. Sempre se falava mais de conceitos e teorias de que a prática da vida humana. Sua inspiração, de que o real é antes de nossas existências, já nos devolvia a esperança de viver e pensar melhor. Porque dinamiza de outra forma de viver no mundo: não seremos tratados como entes, como, também, não somos lógicas, nem dialéticas, nem ideias abstratas, nem eu penso, nem conceitos, nem resultado dos a priori e nem fruto de nosso pensamento. Não somos existências conceituais jogadas no mundo, mas suficientes, reais. Não seremos mais comandados por essas formas que nos tiram a nessa autonomia. Não podemos ser consciência-de, como resumo de todas essas formas conceituais representativas do real, mas atualizamos o real pela estrutura senciente-inteligente. Como seria o sentir inteligente que nos oferecia em Sobre la esencia? Como seria esse “cair no real”, tão apelado por todos, se só oferecem caminhos e forças concipientes?

Essa metafísica do real nos replanta como reais, no mundo, que sempre somos. Assim, sempre nos reanima quando pensamos nela e por isso sintonizamos com a realidade antes de existir. Porque existimos assim?  Porque somos reais. O apelo à realidade de muitas formas sempre nos despertou a todos e nos animou na vida. Zubiri nos faz pensar nela, não como lembrança de algo que fomos, mas de algo a resgatar porque já somos: seres humanos. Não há duvida que poder chegar a compreender esse fato, de sentirmos no horizonte da realidade, nos cativou para sempre, porque estamos cansados de horizontes insuficientes, bem intencionados, mas artificiais e não humanos. Em Inteligência senciente Zubiri nos leva como pensar e viver, passo a passo, nessa metafísica do real, e o faz esclarecendo o problema da inteligência, como a única forma que o homem tem para atermos as coisas e apreendermos a realidade.  Que é esse real que exige enfrentar o problema da inteligência? Que é essa inteligência apreendendo o real? Podem andar separados? Como podem ser congêneres se sempre se nos tem ensinado separados dualistamente?

Claro que todos sentimos que essa proposta de Zubiri não nos leva a “realidade material,” que sempre nos encarcera. Continuaríamos ingênuos. Ele percebe na sua inspiração, aprofundando a experiência humana, que as coisas com que vivemos são “coisas consistentes”, porque tem notas que constituem a realidade delas. E essa realidade assim captada é formalmente um sistema. Por isso, são substantivas e não substanciais e subjetuais, dependendo de anexar ou dependentes de algo para serem completas. Então, nos vemos resgatando o campo da realidade, porque assim o apreendemos no mundo humano dela.  A realidade das coisas, de nós também, é formalmente em próprio, suficiente, de seu. Um formalidade do real como apresentação, não entanto puras representações, que cada vez nos deixam mais longe de nós. Não vivemos de boas intenções as mais variadas e a agradáveis. Somos animais de realidades e não entes. O que e como a inteligência apreende a realidade onde ele está vivendo?  Os animais não vivem na realidade, porque não conseguem apreender a realidade, mas os objetos que consomem instintivamente para sobreviver. São dirigidos pelo seu instinto. Zubiri simplesmente nos elabora como só o homem tem a inteligência é senciente e o sentir inteligente atualizando a realidade “de seu” que “dá de si”.

Ponhamos o peixe fora d’água ou numa água contaminada, só poderá ir se asfixiando e morrendo.  Mesmo nos famosos aquários ele não sobreviverá nesse artificial habitat. A mesma coisa acontece com o passarinho na gaiola vive “bem”, mas privado de sua realidade de voar e sobreviver. Para salvar as suas vidas temos que retorna-los à água e à floresta. Porém, os teremos que acompanhar nessa transição para não morrer de fome, porque até a comida agora perderam o habito de pocurar. Assim, estamos retornando com as leituras de Zubiri ao espaço real, do qual não devíamos ser sido tirados.  Teremos que nos acostumar pouco a pouco. Temos confiança em Zubiri porque sempre terá uma palavra coerente e precisa com nossa experiência. Porque ainda, apesar de saltitar de alegria, temos os hábitos criados de pensar e viver de puras teorias. 

Esses simples e belos exemplos, tendo em conta as diferenças com o homem, nos impulsionam a buscar essa nova via de autonomia vital. Mas, o Mito da Caverna de Platão é a melhor expressão desta situação que estamos vivendo diante da abertura da Metafísica da realidade e de Inteligência senciente. Isso nos cativou e nos energizou. Sim, com a aproximação as elaborações senciente de Zubiri nós sentimos atrevidos e libertados das sombras e cegueiras de estar pensando que elas são nossa realdiade. Porque voltamos ao que somos, animais de realidades. Mas como “encarar” essa nova luz, esse foco luminosso, esse diáfano, essas realidade, que sempre desejamos, mas nos ofusca? Zubiri nos reabre com a filosofia do real e com a inteligência senciente: o nosso horizonte de realidade, humano com os pés no chão.

  Dentro deste novo horizonte, que o homem se apropria das riquezas da realidade, somos pessoas. A essa força ou energia de apreensão e de apropriação é como os gregos entenderam a mente chamando-a de noûs. Dessas formas de noûs surgiram às sabedorias: formas como o homem se relaciona com ele, no mundo.  Sentiram que o universo e as coisas não se relacionavam com ele, mas o homem com os segredos do universo e das coisas. Assim surge a especulação oriental e a grega. A sabedoria da astrologia e da astronomia é testemunho. Entretanto, os gregos desenvolveram mais o noûs como dýnamis, embora também, falaram da mente como enérgeian. Mas, o katha dýnamis foi entendido como faculdade: faculdade do sentir e faculdade de inteligir, produzindo ideias e conceitos, e por outro lado sensações. Estava aberta a dualidade do saber e viver que perdura até hoje. Assim, o traduziram os romanos como facultas, faculdade (IRE 4 em diante). Como força da mens, mas foram esquecendo-se de perguntar de onde surge essa força. E Zubiri entendeu o noûs como katá enérgeián, nela está a força e nela radica os atos do sentir e do inteligir enquanto atos. Zubiri vem repetindo essa diferencia constantemente nas suas obras, como nos cursos.  E assim começa Inteligência senciente. Por isso, nos atrevemos chama esta etapa metafísica de noérgica.

Zubiri entende que, este exagero e desvio permitiu um saber dualístico em constante luta: entre o entender e sentir no ser humano, enfatizando ora mente ora o corpo, ora a teoria, ora a prática, sempre dicotomizados. A mente teria capacidade de enteder às coisas e por outro lado tem a capacidade do sentir. Porém, a capacidade do sentir foi sendo menos valorizada, até entender que só atrapalhava o entender e o que devia fazer a inteligência era usar a capricho essas percepções. O próprio Aristóteles diz que podíamos chegar à verdade pelo sentir, mas deixou para tratar depois ou esqueceu-se de desenvolver essa via, só usando a via da inteligência. Por isso desenvolveu a mente pelo caminho do logos e razão. O idealismo surge como embate ao realismo ingênuo, mas os dois esquecem-se da realidade das coisas. Inevitavelmente se deu a logificação da mente e a entificação da realdiade. E Zubiri vai tratar o problema da inteligência como apreensão da realidade, como logos senciente e razão senciente. Um novo caminho vivo para o homem.

Esta forma resumida que ler e entender Zubiri nos leva ao cativamento pelo seu pensamento. Vemos o caminho de desvio total zubiriano– giro metafísico- do concipiente em que nos debatemos e o senciente que é próprio da realidade humana. Mesmo, que sempre necessitamos do logos e a razão sencientes. Zubiri não desfaz a dinâmica da filosofa, descoberta pelos gregos, e de como foram descobertos o logos e da razão. Eles são imprescindíveis no caminhar humano, mas sempre fundamentados na realidade, não soltos dela.

Este é o motivo pelo que tivemos o atrevimento de falar de etapa de metafísica noérgica, porque dessa energia, como dom real, é que a inteligência é implantada e surge como senciente. Só assim podemos ser humanos e pessoas. Tal vez na nossa língua está perto dessa compreensão zubiriana quando falamos: cai no real, liga-te, está sem energia para fazer tal coisa. Podemos entender que as podemos entender como parte do problema da inteligência, que o homem possui como diferença com os seres vivos, uma realidade humana que tem uma sabedoria senciente para se apropriar, não para obedecer às intenções alheias.  Até entendemos diferente a palavra força e energia, por exemplo, na luz e no esporte. Chamamos de energéticos à alimentação que refaz -como se fosse fonte- a disposição do homem, para ter força para as múltiplas modalidades de vida e dos esportes ou para a vida. Não parece que fazemos a mesma diferença entre energia e força, quando falamos dos motores de carro e de tantas fábricas e serviços? Será que Aristóteles não pensava assim, quando falou do motor imóvel?

Assim, foi o choque ou encantamento quando nos deparamos com a proposta zubiriana. Quando começamos a interessar-nos academicamente por Zubiri logo sentimos algo diferente para o que nos propúnhamos. O seguimos estudando com afinco, meio perplexos, todavia, cativados. Aonde nos levaria? Essa pergunta não nos impedia, mesmo às vezes no obscuro, de continuar nos envolvendo com textos mais difíceis. Iriamos nos acostumando a ela, como no Mito da Caverna. Até seremos capazes de voltar aos hipnotizados pelas sombras concipientes das cavernas alertando-os e até ajudado a sair desse estado artificial. Descobrimos que Zubiri estava andando diante de nós da mesma forma, tateando, mas inspirado de que a realidade é antes do ser. O acompanhamos com esperança e inquietação texto a texto, conceito a conceito, melhor, passo a passo de tartaruga, elaborando seu andar com rigor. Percebíamos que “sentíamos firmeza” na transformação do exagero da via concipiente na filosofia e na vida Reparamos que nem ele às vezes sabia aonde chegaria, embora nos insistissem que enfrentávamos era o problema da inteligência e que como pessoas podiam buscar e encontrar: nessa direção radical estava a busca da verdade.

Isso nos instigava para a pesquisa que estávamos definindo. Porque a nossa inteligência e razão parece nos atrapalhar, mais que orientando-nos no caminho da vida? Foi o que tratamos na dissertação de mestrado e doutorado: A ética da inteligência em Xavier Zubiri e Razão e realidade estrutura humana de convivência. Foi nosso mergulho na Inteligência senciente, apoiados na descoberta do pensamento de Sobre la esencia.

Fomos concluindo que muitas vezes não sabíamos aonde chegaríamos, mas ele parecia que, também, estava na “mesma situação paradoxal intelectual”, porém seguindo ousadamente sua inspiração de que a realidade é antes do ser. Nos, ensinou a fazer filosofia e encarar o tema que nos preocupava de outra maneira, mais radical, nas possíveis raízes: como problema da inteligência, que não podia ser dual e que devia ser a única energia do viver humano. Ao depararmos com a leitura de Inteligência senciente, nos surpreendemos e fomos compensados em todas as dúvidas, receios e temores. Nós sentimos sempre caminhando com ele. Por isso, os passos dados em Natureza, História, Deus, através de Sobre la esencia, só podiam continuar nessa obra máxima, dizendo-nos que a inteligência é atualização do real na inteligência senciente.

Por isso, é um dom e uma honra indizível em 2021 poder ler juntos a obra máxima de Zubiri: Inteligência senciente. Gostaríamos de te acompanhar e passar a nossa experiência de encantamento com Zubiri, que todo momento nos surpreende. Esperamos poder acompanhar você leitor nessa gratíssima surpresa. Não estamos decepcionados, e muitos menos arrependidos, de ter encontrado o homem filósofo X. Zubiri em 1990. Chegamos até aqui o descoberto com um encantamento especial, sempre crescente, mas nunca hipnotizador e serviçal. Sintonizamos com a vida e a proposta dele, sem o qual hoje não seriamos o mesmo. Neste longo caminho nunca encontramos leitor que não fale de experiência positiva da companhia de Zubiri. E isto, não somente porque éramos atraídos pelas suas ideias reais e sencientes, mas também pela firmeza sempre de ir buscando um caminho rigoroso para os escabrosos labirintos criados pala filosofia. Não fomos enganados no caminho, que fizemos juntos, menos decepcionados aonde nos levava e nos continua incitando.

Seus passos foram sempre coerentes, rigorosos e abertos. Porque o caminho que nos descobriu foi o senciente, que não terá fim porque somos animais de realidades, e não apenas racionais. Com seus pensamentos encontrávamos ressonância na experiência de cada dia que queríamos andar com os pés no chão, sem a opressão das teorias e boas intenções. Nos escritos, que hoje são muitos, dos leitores zubirianos encontramos essa atitude incrível de pela aceitação de seu pensamento e de total encantamento com suas inéditas laborações.

Este momento de criação do passo decisivo da Inteligência senciente começou a fraguar-se depois de Sobre la esencia, mas principalmente no ambiente do famoso Seminário de investigação que existe até hoje na Fundação de Madri. Nos cursos orais e neste seminário se chegaram muitas pessoas inquietas com suas profissões buscando sempre a verdade de cada realidade.  Entre tantos exemplos de encantamento, escolhemos apenas três pessoas de diferentes épocas e situações, poderiam ser muitos, inclusive os nossos, manifestando esse encantamento de abertura filosófica zubiriana.

Não há dúvida que a leitura, desde o início de Natureza, História, Deus, Zubiri surpreende a todos os que se debruçam nela, fruto perseguido nas inquietações de cada dia ou fruto dos estudos de sua juventude e formação. Todos eles foram cativados e impelidos a ler e reler todas suas obras: não dava apenas para colocar satisfeitos seus volumes na prateleira. A leitura zubiriana exigia mais. Como no seminário muitos procuram ajuda de Zubiri, mas se tornaram grandes no compromisso de buscar um caminho mais real, que todos buscamos. Esperamos que este pequeno recorrido, que estamos fazendo juntos, nos possa ajudar a medir e sopesar o que pode acontecer com a leitura zubiriana realizando uma proposta completa, sistemática e inacabável. Escolhemos como guias, por razões que possuímos através de vários contatos e textos, Diego Gracia, Thomas Fowler e Leonard P. Wessel Jr. Um médico, D. Gracia, que se fez amigo e discípulo de Zubiri desde cedo. Um discípulo e amigo, que se faz íntimo nos anos 1980, o físico Thomas Fowler e posteriormente Leonard, que como filósofo estudou Zubiri e com ele se envolveu desde o pensamento crítico americano. Embora, os exemplos são muitos, entendemos que os escolhidos sejam motivadores para muitos.  

Logo, sentiremos os choques intelectuais deles diante das leituras de cada obra de Zubiri em diferentes épocas e idades e como eles vão se identificando com esse saber especial, contagiante e imparável de seu amadurecimento e de sua repercussão em todos os âmbitos.  Assim, presenciamos o amadurecimento em suas profissões e trabalhos de médico, físico e filósofo, a partir do encontro com Zubiri. Falaremos mais de Gracia, pois dele temos mais informações, e leu Natureza, História, Deus, desde inícios de sua adolescência e o ajudou a tomar grandes decisões, também para sua profissão de médico, que como veremos vai se dedicar a pessoa humana doente tratada pela “medicina”. Uniu a História da Medicina com a Filosofia: busca humanizar a medicina humanizando a formação dos médicos através da bioética do método de deliberação.

Pois bem, Gracia em 2016 falou em entrevista a Felipe Cherubin, de forma resumida sobre sua relação com X. Zubiri.

Se de algo estou orgulhoso é dos Mestres que tive: Xavier Zubiri e Pedro Laín Entralgo. Quando alguém há tido a sorte de ter mestres assim, é muito difícil não sentir-se na obrigação de continuar seu legado e fazer que frutifique o melhor possível. Eu estou orgulhoso de meus “Maestros”.

Em 2007 Gracia ao fazer o Prólogo para a segunda edição de seu livro (Voluntad de verdad. Para leer Zubiri, 1985), que é um clássico para os zubirianos, nos reitera o frutífero desse choque intelectual de sua relação ímpar de jovem  e de discípulo inquieto e amigo íntimo do filósofo:

“Tem passado mais de vinte anos desde a primeira edição deste livro. Para algumas coisas, uma eternidade. Para outras, quase nada. Nos estudos zubirianos tem sucedido coisas muito importantes nesses quatro lustros. Certamente têm acontecido muitas coisas, que elas explicam que nós tenhamos resistido até agora, mesmo ao pedido insistente, para publicar a segunda edição. Ainda é cedo, porque acredito que os estudos zubirianos tem hoje um grau de maturidade que permite ver as coisas em perspectivas, e, portanto, situar, também, no seu lugar este pequeno livro, naquele tempo novedoso e hoje elementar. Cheguei ao convencimento, depois de muitos anos, de que por isso mesmo, pela sua simplicidade, pode servir de introdução a leitura de Zubiri, como reza o subtítulo”. (p. I).

E quando se planteia, a necessidade de outro livro superando este primeiro, fecha no Prólogo:

“Naquele tempo tinha em mãos praticamente somente os textos fundamentais, Sobre la esencia e Inteligência senciente. Desde então, obras novas se tem publicado de Zubiri, até constituir um corpus, que  na atualidade consta de vinte e um volumes (hoje são 30). Tem sentido seguir falando de Zubiri, como se tudo isso (fruto dos cursos orais) não se tivesse publicado? Evidentemente não. Daí meu propósito, embora não renuncie, de escrever uma nova obra (em 2016 a publica: El poder de lo real. Para reeler Zubiri. Tricastella, Madri). Porém, a própria tentativa de fazê-lo tem demonstrado que ela terá de ser, por necessidade, muito mais complexa. Assim, tenho concluído, ao longo dos anos, que a simplicidade desta primeira obra pode resultar útil como introdução e guia de leitura. Esta é a razão de que a publique de novo integralmente. Mas não podemos deixar de advertir, ao possível leitor, que se trata somente de uma ajuda, embora é indispensável para a leitura direta dos textos de Zubiri. Não deve ninguém esquecer que a filosofia, ou pelo mesmo como Zubiri a concebe, é trabalho pessoal, que cada dever realizá-lo. Não é possível fazer filosofia sem comprometer nisso a própria vida. O qual faz inteligível, o porquê com-leva sempre, quando se toma a sério, uma autêntica transformação pessoal. Algo que se encontra a mil léguas de qualquer tipo de erudição e diletantismo” (p. V).

Como começou essa relação tão íntima, “dependente” e por isso superadora com o mestre Zubiri? Então, se tornou um verdadeiro discípulo de Zubiri. Grande estudioso de sua proposta e com vontade de verdade de aplicá-lo para a sua medicina. Juntou Medicina e filosofia. Mesmo sendo presente da direção da Fundação X. Zubiri de Madri, criou como tarefa própria e a original “método da deliberação” em bioética, como processo de praticidade, influenciando o mundo europeu, latino-americano e também, o mundo americano. Tornou-se par com os mais destacados bioéticos do mundo. Um discípulo deve seguir o mestre: superar os desafios próprios. Assim o está fazendo Gracia.

Ouçamos o que ele mesmo nos fala no Prólogo da primeira edição, tres anos depois da morte de Zubiri em 1986. Para nós situar diz: “esta preparação próxima do livro, relativamente rápida, não adquire todo se sentido senão no contexto de uma larga, dilatada preparação remota” (id. IX). Assim nos explica como surgiu essa especial preparação.

“Iniciei meu contato com a obra de Zubiri em torno do ano 1956, no início da adolescência, lendo e relendo, como tantos jovens daqueles tempos, Natureza, História, Deus. Não posso deixar de falar que suas páginas deixaram-me marcas indeléveis e me ajudaram a tomar certas opções na vida. Quando anos mais tarde, em dezembro de 1962, apareceu Sobre la esencia, eu estudava os cursos de filosofia. Durante todo o primeiro semestre de 1963 li uma e outra vez esse texto novo. O rigor, a originalidade e o frescor daquele pensamento, fazia o livro, abismalmente distinto dos manuais de Metafísica e de Teoria do conhecimento, que estudávamos. Porém,  junto a essa impressão positiva havia outra que não era assim. A chave em que o livro estava escrito era completamente diferente e quase contraditório com o de Natureza, História, Deus. Isso colocava ao leitor diante uma espécie de decisão salomónica, obrigando-o a optar pelo Zubiri entusiasta do existencialismo e da ciência moderna de 1944, ou por essa sorte de genial neoescolástico de 1962.

Como tantos outros me resisti à tentação de aceitar essa segunda alternativa. Porém, suspeito que precisava de mais boa vontade e de mais agudo entendimento ,que os meus de então, para salvar o autor da acusação de realismo ingênuo. Por suas páginas pareciam não tinha passado Kant, nem as complicações posteriores da teoria crítica do conhecimento. Carregado de razões abandonei a filosofia pela ciência e inicie meus estudos de medicina. Os seis anos de sua aprendizagem foram uma experiência fascinante, e tem criado em mim uma espécie de segunda natureza, que imprime caráter a quando veio e faro. Porque a realidade terrível da enfermidade e a morte, e o estudo científico do homem que as sofre, não somente não acabaram com minhas velhas inquietudes, senão que pouco a pouco as foram elevando a uma nova ordem.

Não tivesse sabido que fazer nessas circunstâncias sem o saber e amizade, que desde então nunca me tem abandonado, de Pedro Laín Entralgo. Através dele conheci pessoalmente a Zubiri. Foi no outono de 1970, e aproveitei a primeira oportunidade para plantear lhe, em minha opinião, inobjetáveis objeções de Sobre la esencia. Então assisti a um espetáculo insólito e por suposto, inesperado. Longe de contestar-me com respostas tópicas empecei a perceber a surpreendente riqueza intelectual e humana e a fina genialidade de um criador, de um filósofo criador. Fiquei cativado. E, naquele momento, recordei aqueles parágrafos de Natureza, História, Deus: “o difícil do caso é que a filosofia não é algo feito, que está aí e a que podemos recorrer para servi-nos a discrição. Em todo homem, a filosofia é coisas que se deve fabricar-se por um esforço pessoal. Não se trata de que cada um deva começar de zero ou inventar um sistema próprio. Todo o contrário. Precisamente por tratar-se de um saber radical e último, a filosofia se encontra montada, mais que outro saber, sobre a tradição. Do se trata é de que, ainda admitindo filosofias já feitas, esta adscrição seja resultado de um esforço pessoal, que uma autêntica vida intelectual. O demais é brilhante “aprendizagem” de livros ou esplêndida confecção de lições “magistrais”. Se pode, efetivamente, escrever toneladas de papel e consumir uma longa vida numa cátedra de filosofia, e não haver roçado nem sequer de longe, o mais leve vestígio de vida filosófica. Reciprocamente, se pode carecer em absoluto de “originalidade” , e possuir, no mais recôndito de si mesmo, o intento e calado movimento do filosofar” (P. 63-64).

A partir desse primeiro encontro se iniciou uma relação progressivamente mais estreita, que com o tempo chegou a ser íntima. Deixando de lado o que nela houve de pessoal teve uma vertente estritamente filosófica, que se desenvolveu pelo geral dentro dos limites do Seminário de Filosofia que antes tinha sido Sociedad de Estudos e Publicaciones depois Fundación Banco Urquijo. Nele, semana trás semana, sexta feita à sexta feira, fomos desgranando, uma a uma, as objeções de Sobre las esencia e alumbrando uma nova interpretação da filosofia de Zubiri. Desse seminário saíram à incitação e muitos estímulos que levaram a Zubiri a escrever a obra, que na minha opinião, constitui o canto de cisne, os três volumes de Inteligência senciente. Se este livro, que agora estou publicando, tem uma tese de que toda outra obra da produção filosófica de Zubiri pode, deve e ter que ser lida a luz dessa obra, aquilo em que se alcança sua máxima altura filosófica e sua completa maturidade. De Zubiri podem fazer-se, e se tem feito, outras leituras, porém só a que procede ao critério que acabo de enunciar parece-me o mais adequado…”.

É bom lembrar o motivo principal de Gracia da escolha do título Voluntad de verdad, porque resume toda a proposta de Zubiri, e a nossa ainda hoje: “Pelo demais, o título é profundamente zubiriano, embora a expressão Wille zur Wahrheit, procede de Nietzsche, ou tal vez por isso mesmo. O que pretendo neste livro é fundamentar ao todo longo dele é a condição rigorosamente post-nietzscheana ou pós-moderna da atitude filosófica de Zubiri. Também, podemos chamar de pós-idealista ou pós-conceptista. Pronto o leitor compreenderá o porquê” (id. XII).

Teríamos muito a refletir e escrever sobre sua trajetória impecável e imparável: “até que o corpo aguente”, no diz ele repetindo o mestre Laín Entralgo.

Por sua vez Thomas Fowler, (ele é fundador e presidente da Fundação Xavier Zubiri da América do Norte, dedicada à divulgação da obra do filósofo no mundo de fala Inglesa. Editor da revista “The Xavier Zubiri Review”. É também tradutor da obra de Zubiri), que conheceu Zubiri 1980, revelou para Felipe Cherubin em 2016 (O que é a inteligência? A filosofia da realidade em X. Zubiri. Lumen Juris, 212-217):

“Você teve o privilégio de conhecer Xavier Zubiri. Quais são suas lembranças de Zubiri como homem, pensador e amigo?

Zubiri sempre foi gentil, humilde, e interessado nas opiniões dos outros. Quando eu o visitei em Madri pela primeira vez, em 1978, ele não me conhecia. Não entanto me acolheu em sua casa e levou-me para jantar com sua esposa e seu primo. Até então eu conhecia apenas parte de sua filosofia (eu tinha traduzido Naturaleza, Historia, Dios), mas em seguida ele explicou pacientemente muitas de suas novas ideias e me contou sobre seus encontros com Einstein, Heisenberg e outros. Ele nunca foi arrogante ou orgulhoso, realmente acreditava que a busca da verdade era a coisa mais importante em sua vida”.

Quais são os desafios para compreender o legado de Zubiri de uma forma mais abrangente e compreensível?

“Eu acho que a questão é como expandir as ideias de Zubiri a mais áreas? Ele deixou uma estrutura básica em Inteligência Senciente, Sobre a Essência, e a Trilogia Teológica. Mas ele não podia tratar de todos os assuntos possíveis, já que o conhecimento é muito amplo, e novos desenvolvimentos estão sempre acontecendo. Assim, o verdadeiro desafio, não é entender o seu legado de uma forma mais abrangente, mas expandi-la para cobrir novas áreas. Por exemplo, um tempo atrás, eu escrevi sobre o tema da realidade dos sistemas políticos, e como eles são um exemplo de algo real por postulação”.

Qual sua definição de inteligência?

“Aristóteles abre sua Metafísica com as famosas palavras: “Todos os homens, por natureza, desejam saber”. E o que eles procuram saber é a realidade. Mas como Zubiri já disse, a realidade é muito complexa e profunda para ser capturada por alguma fórmula humana. Ciência, arte, música e literatura são todas formas de fornecer alguma medida de realidade para nós. Nós somos “animais de realidades conscientes” e é isto o que nos distingue. A inteligência é a nossa capacidade de compreender a realidade. Ela pode se dar através de qualquer um destes e outros canais”. “Atualmente, estou trabalhando com pessoas na Espanha e na América do Sul em um livro de teologia baseado na filosofia de Zubiri. Zubiri escreveu sobre temas teológicos, mas não desenvolveu qualquer tipo de trabalho que poderia ser facilmente utilizado em escolas, seminários, universidades, etc. para explicar teologia. Isso e o que estamos fazendo. É um exemplo de como o trabalho de Zubiri precisa ser ampliado”.

E bom relembrar de como foi esse encontro com Zubiri. Já falamos ao introduzir o Prólogo a Natureza História, Deus em 1980 e devemos ter em conta as outras partes de sua entrevista com Felipe Cherubin sobre o que nos diz sobre o alcance e repercussões da proposta de Zubiri nas ciências como a física e na matemática. Neles entrevemos uma pessoa cativada por Zubiri e como ele a está divulgando. Mass adiante publicaremos aqui sua entrevista total.

O terceiro testemunho da compreensão, mesmo a contraponto, e o exemplo de Leonard P. Wessell El realismo radical de Xavier Zubiri. Valoración crítica. Ediciones Universidad de Salamanca. 1992. Leonard esteve três dias na minha casa, fevereiro de 1999, junto com Feliciano Ugalde e Juan     depois de terem dado um curso sobre Zubiri no Seminário Redemptoris Mater em Brasília. Dele recolhemos a maneira especial e crítica com o pensamento de Zubiri, influenciado pela filosofia anglo-saxônica e americana, mais pragmatista e empirista. Tal vez tenha sido o único estudioso zubiriano que fez a crítica exatamente do “de seu”, tema central de Zubiri.

Vejamos como o próprio orientador de sua tese de doutorado, Mariano Álvarez Gómez, que fez o prefácio do livro, assim entende essa empreitada “violenta” de Wessell com a leitura de Zubiri:

“Esta investigação tem um ar tenso e nostálgico de um desafio muito particular. Leonard P. Wessell não se enfrenta em rigor a nada que ele não leve dentro de si, desde faz muitos anos, nem a ninguém a não ser a ele mesmo. Por estas duas razões, quer dizer, porque as partes em pleito não são senão duas formas como o autor se enfrenta consigo mesmo e porque a questão de fundo, que não é senão o dilema entre o realismo e o idealismo, maná de sua própria mente, o trabalho mantém a tensão de princípio ao fim, constitui a expressão de um agón ou luta interior.

Este estudo transpira ademais o clima de certa nostalgia porque, como se adverte ao fio da leitura, o autor tem encontrado na obra de Zubiri o motivo e a ocasião de sacar a luz algo que parece ter vindo buscando sempre, e porque o tema que tão apaixonadamente discute é um dos fundamentos. Quer dizer, daqueles fundamentos em cuja solução o pensamento tem buscado desde a antiguidade o sentido de seu próprio destino.

 A tensão leva consigo um apaixonamento em major ou menor grau e a nostalgia expressa de seu uma aditividade subjetiva. Nem um e nem o outro parece compatível com o que exige uma pesquisa: objetividade, rigor coerência e desenvolvimento dos conteúdos correspondentes de uns supostos conceituais. Porém o trabalho de Wessell é objetivo, rigoroso e em extremo sútil por ser estritamente conceitual. O apaixonamento, quando é autêntico, surge da sintonia com as exigências da coisa mesma. Sem esse apaixonamento, demasiado esquecido infelizmente em nosso afazer acadêmico, não se tem feito nunca nada grande, como nos lembra Hegel. E a nostalgia de que aqui se trata resulta do “acordo da origem primeira”, em expressão de Fr. Luis de León. Neste sentido, longe de ser uma atitude subjetiva, representa a tentativa irresistível de ficar em concordância com o originário, e, por conseguinte, não só quer conhecer a verdade senão pretender ater-se a ela.” (id. 16).

Wessell faz um estudo minucioso do “de seu”, comparando como muitos, ou, quase todos, a leitura de Zubiri se apresentava como “passando por cima” desconsiderando a teoria do conhecimento consagrada de E. Kant. Que estava acontecendo? Vimos isso claramente nas palavras de D. Gracia, quando se deparou com Sobre la esencia. Assim aconteceu com todos estudiosos presentes na vida filosófica de Zubiri. Esse choque intelectual fez inclusive que alguns não conseguissem digerir e aceitar, se desandaram. Por isso eles, nos livros publicados, aproveitavam para perguntar ao mestre suas dúvidas e surpresas, porém poucos tiveram o dom de participar de seus cursos orais. Embora, Zubiri sempre respondeu com muita paciência e firmeza, achamos que nem ele o tinha claro como cortar a imposta teoria do conhecimento. Precisava dar um passo mais: a Inteligência senciente, que com carinho falava de sua trilogia senciente. Vejamos como se enfrentou Wessell:

“Em 1980, 1982 e 1983 Zubiri, já aos seus 80 anos de idade, publicou sua trilogia sobre a razão humana: quer dizer: Inteligência e realidade, Inteligência e logos e Inteligência e razão. Podemos considerar como paradigmático o fato de que esse profundo análises da intelecção humana de Zubiri apareceu quase exatamente dois séculos depois de que Immanuel Kant publicara sua obra mestra: A crítica da razão pura (1781). Zubiri deixou, então, mais ou menos antiquados a maioria dos estudos prévios sobre a obra; quer dizer sobre a realidade e a inteligência dela. Porém o Zubiri até aquele momento, incluindo os dois volumes Realitas I-V (1974-1979) era o Zubiri de Sobre la esencia (1962). Assim ademais de seu artículo “Notas sobre a inteligência humana” (1967-1968) e alguma discussão em Sobre la esencia, as doutrinas zubirianas sobre a “realidade” e sua apreensão intelectiva permaneciam meio ocultas ao público dedicado à filosofia. Exceto os poucos que tiveram a oportunidade de assistir às conferências públicas de Zubiri, seus intérpretes possuíam muito pouco para desenvolver uma teoria compreensiva. Tal vez por isso os artigos sobre o pensamento de Zubiri, inclusive os publicados em Realitas se apojavam primeiramente em SE. Então, apareceu a trilogia de Zubiri, a qual, como totalidade, invita a uma comparação com a Crítica da razão pura de Kant. Verdadeiramente, tal comparação se faz já nas contracapas da trilogia”.

Esse primeiro parágrafo de Wessell no Prólogo de seu livro revela a atitude de todos que começamos a ler Zubiri.  Sintonizamos logo nossas inquietações e vivências com o que Zubiri nos vai revelando e envolvendo de maneira coerente. Nós apaixonamos com sua proposta, “amor à primeira vista”, “conversão combativa”, “quase uma devoção”, cativados de novo como o Pequeno Príncipe da terra, do universo e dos homens sem parar vivendo e pensando unissonante, “congeneremente”. Uma proposta que, esperávamos mesmo calados, de poder trilhar o caminho humano de sua senciente realização: pela atualização do real na inteligência senciente.

Wessell faz um estudo minucioso do “de seu”, comparando com as afirmações de Joyce. Ouçamos sua síntese: “Minha reação diante de Zubiri, depois da primeira leitura da trilogia, mostrava elementos de uma “conversão”. Se tratava de um aproximação nova e convincente ao problema da realidade. Porém muitos anos antes, e por processo mais ligeiro e gradual. Tinha aceitado o idealismo como verdade, embora não se tratava do idealismo alemão. Minha vontade de verdade repousou no idealismo anglo-americano. O meus mentores eram Bernadr Bosanquet, A. E. Taylor. F. H; Btradley (todos ingleses) e especialmente Josiah Royce (norte-americano).

E Wessell fecha sua tese em Última palavra (id. 244-2450):

“Por desgraça, há poucos filósofos que tem tematizado adequada e profundamente o problema da realidade em si como problema. Zubiri é um dos filósofos que o tem feito e com grande agudeza.

Zubiri não é um filósofo que se possa leer, resumir em notas e devolver às estantes. Não se pode enfrentar Zubiri somente de forma erudita. Pois, Zubiri oferece um acesso à realdiade tão profundo que o fundo de minha realidade pessoal-teórica se sentiu lançada a apropriar-se de sua filosofia primeira, valorizando-a criticamente Nutras palavras, as ideias de Zubiri despertaram-me de um letargo filosófico.

Tenho entrado em diálogo com ele, algo que somente acontece com poucos filósofos. A meta de meu estudo crítico me tem forçado- a acentuar o momento negativo de minha avaliação e terá criado a impressão de que tem pretendido “refutar” e “rejeitar” a Zubiri. Porém, não é assim. Tenho estudado e avaliado a tese de Zubiri, e é claro que tenho argumentado em favor de um idealismo royceano, porém isto não significa que seja uma refutação. Senão uma apropriação de Zubiri.

Para evitar uma impressão negativa e para pôr de manifesto, embora só brevemente, o ponto de minha postura frente à Zubiri, quero mencionar dois aspectos fundamentais que me parecem de suma importância para a avaliação de um grande filósofo.

1). Zubiri é um filósofo que “da que pensar”. Há poucos filósofos que tenham feito isso. Independentemente da verdade sistemática, objetiva por assim falar, um filósofo é grande, ao meu modo de ver, se aponta uma direção ou a um modo de pensar sobre “as cosias”, que possibilita a marcha filosófica. Kant, com quem gosto de comparar Zubiri, pelo que a grandeza refere-se, possuía e possui grande valor filosófico, porque deu que pensar a tantos filósofos. O Kantismo, Neokantismo, Idealismo, Transcendentalismo e a Fenomenologia brotam da “revolução copernicana” realizada por Kant. E sem Husserl, Heidegger e Ortega e Gasset, se teria desenvolvido o realismo zubiriano? Na minha opinião, há uma “revolução zubiriana”, que tomara influencie com forte impulso filosófico –como um “dar que pensar”- no futuro. Se a filosofia de Zubiri vá a manter-se ou viver transformações em analogia com o pensamento de Kant, não posso afirmar, porém acredito que a filosofia de Zubiri, especialmente depois de suas tradução a várias línguas estrangeiras, vá a “dar que pensar” ao mundo filosófico e haverá outros que, como eu, experimentarão o agón engendrado por um enfrentamento sério com o pensamento de Zubiri, especialmente com o princípio de sua revolução, quer dizer, a ”inteligência senciente”.

2) O momento mais revolucionário e produtivo da filosofia de Zubiri é a “inteligência senciente” e o descobrimento correlativo do “de seu”. Por minha parte, tenho anexado o ad alium ao ex se. Porém, tal ato foi possível porque Zubiri já tinha descoberto o “de seu” e me tem desafiado até tal ponto com sua apresentação de essa nova interpretação da realdiade. Um encontro com a realdiade no sentir mesmo constitui um novo planejamento frutífero de um problema eterno. Não importa se Zubiri tenha desenvolvido plena e logicamente todas as possibilidades no seu descobrimento revolucionário. HD (El hombre y Dios), SH (Sobre el hombre) e EDR (Estructura dinámica de la realidad) são, sem embargo, exemplo do que podem produzir reflexões sobre o “de seu”.

Resumindo: O “dar que pensar” e a “inteligência senciente”, são rasgos fundamentais da filosofia de Zubiri. Que                                                                                                                            pedir mais de Zubiri, um grande filósofo? (Id. 244-245).

Trilogia da Inteligência senciente (1980-1983). (I. Prelimilar)

(Etapa metafísica “noérgica”-)

Considerações preliminares depois do estudo introdutório de Natureza, História, Deus e de Sobre la esencia.

Achamos que este é o momento oportuno de fazer algumas considerações que atravessam necessariamente o encontro diferente com as leituras da obra X. Zubiri. Embora, as façamos honestamente, podem parecer petulância para muitos que negam que a filosofia busque um saber que ajude o homem a se realizar e não a destruir-se. É o que prendemos desde crianças para saber, vamos à escola para juntos adquirir conhecimentos para a vida. Fazemos faculdade para aprofundar esses conhecimentos

.  Então, por que a crise do saber e dos caminhos humanos?  Por que com tantos saberes não sentimos vivendo mal?

Dedicamos a esses saberes muitos esforços para a vida, mas não o conseguimos. Estamos mania tanto a experiência radical que todos temos de viver realmente? Ficamos cheios de deveres e treinamentos para adquirir informações e conhecimentos. Mas, o que estudamos não tem “força” na vida. Dedicamos-nos a eles como repetindo os saberes cada vez mais fragmentados. Queremos despertar nosso pensar com o saber filosófico, mas também caímos no mesmo desespero e contradição. Será que nossa inteligência é apenas adquirir conhecimentos, como instrumentos para aplicar como queiramos? Não parece que buscamos a verdade das coisas, aberta pelos gregos para acompanhar a construção da polis. Compramos muitos livros de e sobre filosofia e a fins, até nos orgulhamos de mantê-los na prateleira bem limpos. E a vida em crise? E o saber que não “resolve”?

A sabedoria humana, que surge do dom de sermos pessoas, foi adquirindo formas de saber sobre a realidade diante da admiração das coisas. Porém, o que constatamos em qualquer lugar do mundo, é que cultivamos e disputamos mais essas “formas de saber” do que “saber das coisas”. Ou, como Zubiri criticou, não nos perguntamos pelas coisas, como o fez Hegel e também a fenomenologia: lógica-de, ente-de, ideia-de, conceito-de, resumidos todos hoje em consciência-de. E as coisas, é o real, que são? O saber seria um motor que acionamos na inteligência para alimentá-la pelas percepções das coisas e usá-la instrumentalmente, porém nossos conceitos não coincidem com a realidade que somos. Zubiri nos mergulhou neste problema, e dedicou sua vida filosófica mostrando-nos a dicotomia nociva entre o pensar e viver. Tínhamos cultivado uma via de conceitos, fazendo questão de elaborar soltos da realidade das coisas. Mas, Zubiri teve a inspiração radical de buscar essa verdade além dos conceitos, além das lógicas, além das dialéticas e ideias abstratas, antes do ser. E nos foi revelando e elaborando o caminho vivo da inteligência senciente. Pois somos reais.

Pois bem, neste recorrido filosófico zubiriano surgiram às considerações que faremos, uma e, muitas, vezes. Tivemos certo receio e cuidados de tê-las, até ficamos com medo de expressá-las. Porém agora depois de 30 anos de fazer grande parte das leituras de Zubiri nos sentimos mais dispostos em revelar essas considerações. Nunca para rixas, e sim filosóficas. Todavia sabemos e queremos que, podemos provocar o conflito e discussão do saber sobre o homem, como herdamos dos gregos, mudando o apoio dos conceitos pelo real, e o caminho do sensório-instrumental pelo caminho senciente. Tivemos claro que não somos entes senão primariamente realidades, e como tais realidades pessoais, temos “a obrigação” de nos realizar, como gente com os pés no chão. É a obviedade e diafaneidade de nossa experiência. Uma diafaneidade que se torna violenta, porque as coisas e nós, também, estamos no mundo e não podemos ser alienados com as mais variadas formas de peneira. Como somos deixados de lado? Se falamos em “destino”: o nosso destino é sermos pessoas. O pensamento de Zubiri atrai sim, mas nos choca sempre de ver a clareza com que coloca os problemas, a profundidade da realidade e como analisa passo a passo, conceito a conceito desde a inteligência, que não é uma máquina a ser usada, mas uma energia real que tem todas as possibilidades para saber viver, dando conta de si. O homem por ser inteligência senciente, que sente o real, tem sua direção e caminhos. Como a pedra será pedra sempre, o homem será sempre homem. Sabemos que seremos incompreendidos e criticados. Poderemos até ser questionados de estar cometendo o mesmo erro de repetição dos saberes agora usando o pensamento zubiriano.

Aqui se encontra o chocante do conflito ou discordia filosósofica, quando fazemos a leitura distorcida de seu pensamento, porque usamos a mesma medida concipiente. Temos na cabeça um parapeito concipiente sempre defendendo-nos da dinámica de pensar e viver. Então, igualamos a proposta de Zubiri com os saberes representativos que ainda usamos. Por isso, podemos afirmar que a dificuldade de ler e enteder Zubiri está nele mesmo, porque nos põe no patamar apresentativo de atualização do real do saber senciente.  Essa constatação pessoal, e também de muitos, nos revela que estudamos mal a filosofia. Quem estuda Zubiri entende logo que aprende filosofia fazendo filosofia com ele. Nós sentimos mergulhados, mas sempre abertos paras seguir mergulhados no real, deixando-nos possuir pela verdadeira filosofia que sempre irá buscado a transformação da polis global e celestial. Quer dizer, deixando-nos possuir por apropriação por nós mesmos. Neles todos estamos incluímos.

Estas considerações deveriam ser discutidas com mais profundidade e “com melhor coração” inclusive com a academia. Sirva, o que falamos, como provocação deste diálogo que gere o conflito de abertura entre os homens, pois embora não falemos o mesmo estamos de acordo no que pretendemos: dignidade do ser humano.

A). Após acompanhar de várias formas a inédita leitura do pensamento de X. Zubiri desde os primórdios, felizmente chegamos ao “Canto do Cisne”, da Inteligência senciente, como a definiu D. Gracia. Porque Zubiri viveu quase a vida toda sendo considerado o “bobo da corte” da filosofa espanhola, embora reconhecendo seu talante especial filosófico, pelo que tentaram aproveitá-lo para fins políticos dos dois “bandos”. Ele, embora, afirma publicamente o valor de Ortega y Gasset na Espanha, sendo durante muito tempo amigos, nunca o citou a forma concreta de elaborar seu raciovitalismo.  Zubiri falou sempre de seu mestre: como incentivou no filosofar. O elogiou e desatacou como filósofo. Porém, o discípulo Zubiri, lenta e rigorosamente chega a máxima expressão do amadurecimento, que nos chocou e nos dinamizou. Este momento se firmou na Inteligência senciente. Seus estudiosos e companheiros do famoso Seminário esperavam essa ousadia intrépida daquele que os fazia pensar. Mas como seria?

Com a sua leitura nos devolve o caminho senciente do penar e viver. Agora passo a passo podíamos acompanhar Zubiri na elaboração daquele algo que esperávamos: nos ofereceria pormenormente e com linguagem menos dura da que estudamos Sobre la esencia, sem deixar de ser rigorosa, criativa e vigoroso. De alguma forma Zubiri viveu toda a vida para isso: descobriu o porquê nos desviamos do caminho humano, feitos de desvios concipientes, que incentivavam sem devolver plenamente o fazer humano. As grandes incógnitas, que sempre tivemos ao ler Zubiri sobre esses caminhos tortuosos inconscientes e conscientes ficam agora claros e desafiantes para todos. Nela podemos usufruir os insights perseguidos e encontrados por Zubiri ao longo dos anos, agora de forma sistemática. Perdemos o medo de entregarmos a esse universo de possibilidades da busca da filosofia, no ímpeto da imensidão dos oceanos abertos. Sentimos a novidade inédita, porque conseguimos acompanhar o desafio filosófico zubiriano desde as primeiras inquietudes e inspirações. Tivemos, até medo em alguns momentos, do que Zubiri nos falava e elaborava: porque com ele cada vez mais nos sentíamos dentro do horizonte realmente intramundano. Como consegui-lo? Desde as primeiras leituras fomos atraídos porque reconhecíamos ser esse o nosso verdadeiro horizonte, no qual estamos imersos e do qual não deveríamos ter saído. Deveríamos seguir buscando a “nossa casa” senciente, sempre com os pés no chão.

Nesse andar juntos fomos entendendo como ele indicou sabiamente no decorrer da investigação o desvio apontado da inteligência ao tratar e cultivar apenas algumas partes do homem e de sua mens pensante. Nesse dualismo construímos nossos saberes e inclusive o filosófico. Não poderia dar certo, todos responsabilizamos que a crise da razão foi provocada por esse dualismo e, também, responsável da crise da humanidade. Esse parece ser o paradoxo que o fez pensar, como de dedicar-se sem medo a tarefa de refazer, transformar e restaurar uma via viva do saber pensar e viver. Pois bem, depois que mais de 60 anos agindo assim, Zubiri na “sua trilogia” “detalhe a detalhe” nos mostra cada passo de uma inteligência que sente, cujo logos e razão são sencientes.

B). Desde que descobrimos as obras de Zubiri nos anos de 1990 percebemos que nos deparamos com um homem que pensa sua vida e história. Assim o acompanhamos e apresentamos relatando um pouco esse caráter nos trabalhos que fizemos. Infelizmente, nem sempre encontramos tal atitude em muitos filósofos. Hoje, é “comum” que os intelectuais sejam “os sábios de plantão” para dirigir o povo que precisa do saber dos intelectuais. Tal apreciação, também a vivenciamos nos dirigentes de sociedades e empresas, como também nos políticos. Todos nos queixamos dessas dicotomias sofridas pelos questionamentos da humanidade.

 E não falamos exclusivamente sobre os comportamentos morais, mas porque ademais não chegam a uma fundamentação real da vida da humanidade. Como justificar tal comportamento? Como pode iluminar um cego ao homem aberto pela inteligência? Encontramos com frequência essa duplicidade intelectual acadêmica, de tal forma que os intelectuais são considerados como uma espécie de “casta sofista” que possui todos os conhecimentos para o mundo dos homens de cada dia. Todos eles prezam o valor educativo de seu saber, mediante bem-esses que o povo paga para ser ensinado a ser cidadão. Reconhecemos, sim, a diferença do argumentam ad homem do argumento do tema em elaboração. Mas, o povo reclama dessa disparidade de dualismos comportamental separando o saber do fazer. Por isso, Bete gerente da editora É realizações, no meio de tantos livros de autores a serem publicadosfoi sempre indagando sobre Zubiri, se expressou coloquialmente: “ah, esse moço (Zubiri) morreu das consequências de divertículis ou câncer”. Quer dizer, morreu como todos e foi pessoa como nós. Fazendo esta reflexão agora em 2021, porque queremos destacar que Zubiri só a partir dos anos 1970 adquire uma dimensão humana e filosófica, mais calma, e mais alegre e mais elaborada. O casal Zubiri amava a simplicidade. Sua esposa Carmem foi ajuda pelo pai Américo Castro para enfrentar a vida familiar. Viveram de traduções. Porque Zubiri tinha livremente se afastado da academia espanhola e quando na década de 1970 os conhecidos quiseram reaver tal direito e dinheiro, ele não aceitou.

Sem dúvida agora Zubiri está descendo a montanha das suas dificuldades da vida e de seu e pensamento. Os alunos atestam tal situação. Também, porque agora estava chegando ao que ele perseguiu e sofreu durante toda a vida: adentrar-se sencientemente no problema da inteligência. Queremos que o leitor sinta esse regozijo de ler e estudar um filósofo nesta obra, que não nos passa mágoas, desânimos. O teor desta abra final nos mostra esse talante especial zubiriano. Ele se sente satisfeito, “se sustenta melhor”, as famosas dores de enxaqueca parece desapareceram depois dos anos sessenta, porém sempre com o mesmo desafio de descobrir os labirintos concipientes da via viva, real. Assim viveu até sua morte. Estava feliz, porque acabava de completar suas proposta filosófica desde a publicação de Natureza, História, Deus, Sobre la esencia: a Trilogia senciente. Nem suspeitou, que hoje seus escritos foram publicados em mais 30 obras. É a publicação dos cursos onde ele encontrou o lugar de fazer filosofia nos ajuda a ver este filósofo vivo em todo momento.

“Xavier Zubiri é um dos pensadores mais vigorosos e importantes do século XX, como que destinado a converter-se num clássico, porém é ignorado na Europa e praticamente desconhecido em Latino-americana e em Espanha (San Salvador e Barcelona 2006). Desde esse país (Espanha) ferido do continente, sua vida recorreu todos os sonhos e as catástrofes do século XX. Se bem que somente uma só vez se refere fugazmente à Espanha no meio de milhes de páginas que escreve, embora sua filosofia transcenda qualquer fronteira, sua vida e sua obra estão impregnadas do drama, do caráter e dos sonhos do país onde nasceu. Nalguma ocasião podemos reparar com na sua prosa estão escondidas a melancolia e as paixões de séculos. Seu drama eclesial, suas ânsias cosmopolitas, sua busca intermitente, se converteram  em aventura quixotesca” (19).

E os autores da biografia Xavier Zubiri. La Soledad Sonora sintetizam no início do Prólogo:

“Zubiri preferia o embaraço da solidão e de uma pesquisa aberta ao fracasso antes de forçar-se a dizer palavras acera de todos os sucessos. Cedo descobriu que, ironicamente, que para muitos que vivem à caça do conhecimento, os sucessos nos carregam pela frente o que se está buscando, como se fossem palha” (p. 19).

Não podemos deixar de destacar o que Gracia nos revela sobre essa relação com o verdadeiro filósofo: “Não deve ninguém esquecer que a filosofia, ou pelo mesmo como Zubiri a concebe, é trabalho pessoal, que cada um dever realizá-lo. Não é possível fazer filosofia sem comprometer nisso a própria vida. O qual faz inteligível, o porquê com-leva sempre, quando se toma a sério, uma autêntica transformação pessoal. Algo que se encontra a mil léguas de qualquer tipo de erudição e diletantismo” (p. V).

 Uma tarefa que inicia na década 1940, onde estuda o tempo todo sem parar nos limites da idade, vai enfrentando cada obstáculo refazendo os caminhos desviados, com a luz da experiência humana, que lhe oferece a realidade e o sentir inteligência como pontos chaves as resolver em tal paradoxo. Nessa busca ousada encontra alegremente na inteligência senciente, que continua fazendo presente a realidade com a atualização e reatualizando o real de toda realdiade, sempre presente em cada um de nós. E isso trabalhando para eliminar o dualismo perverso no homem e no saber. Ele responsabiliza essa dualidade da logificação da realidade e da entificação do real. Desse esforço de titã filosófico não apresenta fluida e coerentemente os passos vivos da inteligência senciente, também do logos e da razão. Não os elimina, mas os transforma, como a real marcha do homem elaborando sua plenitude através da análise coerente e profunda do fato de inteligir e não da faculdade.  Este surpreendente modo da vida da inteligência senciente a podemos apreciar na leitura que vamos realizar a seguir lendo e estudando na trilogia senciente: Inteligência e realidade, Inteligência e logos e Inteligência e razão.

c) Zubiri desde o início de seu pensar se debruça sobre o problema da filosofia que está balançando na pós-modernidade com suas crises. Este preocupação será central no seu contínuo amadurecimento. E cada vez vai centrando mais o problema da filosofia como problema da inteligência. Descobre o dualismo já desde os gregos que se mantém até os dias atuais. Exatamente, confundindo a percepção das coisas com o sentir inteligente das coisas entre as que vive. A pesar de dedicar-se ao problema estudando cada filósofo e os passos que deram, ele não fragmenta o problema, mas o estuda um a um, como na sua unidade de dinamismo humano. São formas de saber que se vão desenvolvendo tentando superar-se, ou pelo menos apontar algum desvio.

Isto leva ao leitor de Zubiri a um problema grave na filosofia: nessa crítica de Zubiri estão superadas as formas anteriores de filosofia?  Zubiri ganhou o nome de gigante da filosofia? Vamos escolher um exemplo de como foi dada essa resposta por D. Gracia, que conviveu com ele por mais de 20 anos e mais 20 anos de estudioso da obra do mestre e presidente da Fundação Zubiri de Madri.

Em 1985, apenas dois anos depois de morrer Zubiri Gracia publica seu primeiro livro sobre ele: Voluntad de verdad. Para leer Zubiri. Tornou-se um clássico para adentrar-nos na filosofia proposta por Zubiri. Pois bem, depois de expor sua experiência com a proximidade de Zubiri nos diz o que contém o livro:

“Acredito que ele condensa melhor que nenhum outro o sentido último da atividade intelectual de Zubiri situa de forma adequada sua obra no contexto da filosofia espanhola contemporânea. Isso último é de máxima importância. Nos últimos anos tem se desenvolvido entre nós uma recentíssima corrente historiográfica que está projetando caudais de luz sobre a filosofia espanhola do último século. Declaro paulatinamente que gostaria de contribuir com ela, situando a Zubiri dentro desse horizonte. Pelo ademais, o título é profundamente zubiriano, embora a expressão Wille zur Wahrheit proceda de Nietsche, ou tal vez por isso mesmo. Se algo temos pretendido, fundamentar ao longo deste trabalho, é a condição rigorosamente pós-nietzschiana ou pós-moderna da atividade filosófica de Zubiri. Também, podemos chamar de pós-idealista ou pós-conceptista. Pronto o leitor compreenderá por que” (p. XI-XII).

Esta declaração de Gracia nos pode oferecer uma quantidade e qualidade de comentários. Porém, nos vamos deter na intenção desta consideração: superou Zubiri com sua reflexão filosófica os gigantes da filosofia? Sabemos que Ortega apostou nele em 1931 depois de escutar o trabalho: Hegel e o problema da filosofia (NHD 257-278). Mas, o jogou no meio deles, tinha talante de filósofo.  O certo é que quando lemos Zubiri logo nos vem essa pergunta.

Para não entrar em disputa vamos trazer o depoimento do mesmo Gracia 2m 1989, quando apresentou o livro um curso especial chamado Estrutura dinámica de la realidad. Vale a pena ouvir Gracia para não  entender que é apenas conclusão precipitada.

“É provável que o leitor descubra neste livro um novo Zubiri, relativamente novo é verdade.  Se em Sobre la esencia parecia ter por interlocutores principais Aristóteles e a Escolástica, em Inteligencia sentiente a Kant, Husserl e a Fenomenologia, e em El hombre y Dios  a São Agostinho e a Teologia, aqui, em Estrutura dinámica de la realdiade, o leitor descobrirá um Zubiri inédito que com rigor intelectual enorme e não menos vigor, refaz o caminho de um Hegel e propõe uma alternativa em extremo convincente, tanto à Fenomelogia del espíritu deste como à Dialéctica de la Naturaleza de Engels. A diferença está em que aqui não se trata de “natureza” nem de “espírito”, senão de “estrutura dinâmica”. Poucas vezes um filósofo se tem proposto tanto e poucas também tem sido resolvido de modo mais rigoroso e original” (EDR v).

Deixamos apenas marcado dessa forma a nossa consideração de que Zubiri tem superado e de forma rigorosa e séria os caminhos concipientes d filosofia.  Por isso, afirmamos, que em Inteligência senciente, critica todo o andaime das teorias do conhecimento proposta por Kant e Hurssel, entre outros.  E, a partir da descrição do ato de inteligir refaz o valor real da inteligência, do logos e da razão. Porque não são fruto do dualismo milenar mas inteligência senciente, que apreende sencientemente a realidade.

“A ética do século XXI é a Bioética”, afirma filósofo espanhol.

Entrevista com Diego Gracia, médico bioético espanhol e presidente

 da Fundação X. Zubiri.

(0riginou, em 18/11/ 2017, o trabalho de Felipe

Cherubin com o mesmo título publicado no Estadão).

Por Felipe Cherubin.

Nota. De novo Felipe Cherubin dialogando com o grande médico e filósofo espanhol Diego Gracia, discípulo de X. Zubiri.

1.-O que é a bioética para o Sr. e como surgiu seu interesse para estudar um campo tão complexo?

A bioética é um movimento que começou em torno de 1970. Naqueles anos eu já tinha estudado Filosofia e Medicina. Aconselhado pelo meu mestre, o professor Pedro Laín Entralgo, fui à Alemanha, onde se tinha desenvolvido durante a metade do século XX um movimento filosófico-médico chamado de “Antropologia médica”. Esta inovação foi o tema de minha tese de doutorado que defendi em 1973. Mas, nesses mesmos anos fui assistindo ao nascimento da Bioética nos Estados Unidos de América. Esse movimento me interessou muito, especialmente, porque sua aplicação prática era mais evidente e, portanto, poderia servir para melhorar a qualidade da assistência médica. Então, viajei parta Estados Unidos no ano 1976 e visitei os principais centros que trabalhavam com a Bioética. Dessa forma ao voltar à Espanha eu tinha uma ideia bastante clara das forças e das debilidades da Bioética americana. Por isso, decidi orientar meu trabalho para essa descoberta, procurando, se fosse possível, unir o pragmatismo da bioética americana com a sólida fundamentação filosófica que se ensinava em Europa.

2.- O Sr. fala que voltou dos Estados Unidos com uma ideia bem clara das fortalezas e das debilidades da bioética norte-americana. O Sr. poderia falar mais sobre isso para novas gerações, que estamos na encruzilhada em buscar novos pontos de apoio na fundamentação do futuro da humanidade?

Antes de ir aos Estados Unidos, eu estudei na Alemanha o movimento de Antropologia médica, que era o ponto de interseção entre Filosofia e Medicina. Todo isso era enormemente interessante, mas repercutia muito pouco na prática, pois era difícil aplicá-lo no dia a dia. Assim, quando fui aos Estados Unidos descobri que a Bioética sim que era prática, que chegava ao médico prático e buscava transformar sua prática diária. Isso me pareceu muito importante, e se tornou a aprendizagem mais valiosa que tirei de minha experiência norte-americana. Também adverti em todo esse movimento um defeito, que era a falta de fundamentação filosófica. Dessa forma, quando voltei à Espanha o que me propus foi buscar um meio de unir ambas tradições, a europeia, mais fundamentadora, e as norte-america, mas pragmática. É o que tenho tentado fazer em todo o tempo ao longo de minha obra.

3.-Os temas relacionados com a verdade e a liberdade geram grandes e acaloradas discussões. Também, muitas vezes carecem de fundamentos caindo nos fundamentalismos. O que a bioética pode esclarecer sobre questões delicadas como o aborto e a eutanásia tornando o debate mais racional?

A bioética pode nos ensinar um modo de enfocar os problemas morais e a tomar decisões sobre eles. A este tema tenho dedicado o major esforço ao longo dos anos. O raciocínio moral tem um método específico, que desde Aristóteles recebe o nome de “deliberação”. Esclarecer isto tem sido o tema fundamental em toda minha atividade. Mas, constatamos hoje que aos seres humanos não lhes gosta deliberar, senão tomar decisões imediatas. Hoje sabemos que essas deliberações estão cheias de muitas tendências, e por tanto não são confiáveis. Kahneman escreveu um famoso livro titulado “Pensar rápido, pensar devagar”, nele diz coisas parecidas. Há que educar a sociedade na deliberação. Esta devia ser à base da educação da escola primária. Mas não somos educados para isso, senão para competir e triunfar, embora seja cometendo injustiças, etc. Por tanto se deliberar serve para todo, também rve para temas tão complexos como o aborto e a eutanásia. É o que tenho esclarecido em artículos e livros que tenho ido publicando. Mas, tanto o aborto como a eutanásia se enfocam sempre desde o ponto de vista que não é moral senão “legal”. Fala-se muito de “direitos” humanos e de se, as mulheres tem direito ao aborto ou as pessoas à eutanásia. Esse enfoque não me interessa muito. A linguagem da ética não é a linguagem do direito senão do dever. Para saber o que em cada caso se deve fazer devemos ver os valores em jogo, ponderar as circunstâncias e consequências e tomar um curso de ação prudente, que sempre é o que salva mais os valores em jogo e os agride menos. Isto é o que devemos fazer em cada caso. Não se trata, pois, de uma norma geral ou de aprovar uma lei no congresso.

4.-O Sr. é chamado de “Maestro Deliberador”, como chegou, como médico e filósofo com tanta firmeza, a esse projeto que explica e defende com tanto afinco?

Como falava anteriormente, a deliberação não foi inventada por mim. Ela é tão velha quanto a filosofia. Aristóteles nos ensinou a todos que a deliberação é o método, não somente da ética, senão de todo “raciocínio prático” (por tanto, da política, da economia, da técnica, dos juízes, etc.). Eu me movimento muito no mundo da medicina. E as decisões que toma um médico são sempre prudentes ou imprudentes. Nesse campo não cabe falar de decisões verdadeiras ou falsas, como si se estivesse analisando um teorema matemático. Um dos nossos grandes erros é não saber que tipo de lógica, estamos utilizando quando falamos ou tomamos uma decisão. Não é a mesma coisa decidir sobre questões matemáticas que sobre problemas médicos ou judiciais. Carece de sentido dizer que um está deliberando sobre se o teorema de Pitágoras é verdadeiro ou não. Aí não cabe a deliberação, porque ela é um procedimento para tomar decisões prudentes em situações de incerteza, como são as mais frequentes na vida. Entretanto, o estranho é que não se nos educa para isto, que é o que temos que utilizar em nossa vida cotidiana. A tragédia máxima de nossa sociedade está no mal enfocado que está todo o sistema educativo.

5.-Então, em que consiste seu método deliberativo. Concretamente, as formas de segregações e de exclusão social poderiam ser mais combatidas numa sociedade deliberativa?

O tenho exposto com bastantes detalhes em muitas de minhas publicações. Inicialmente, a deliberação é um procedimento natural. Todos, quando vamos dirigindo um carro, deliberamos conosco sobre quando devemos freiar, acelerar, mover o volante, etc. Essa experiência rotineira de dirigir nos faz pensar, erroneamente, que a deliberação não necessita de aprendizagem, porque parece que todos, sabemos deliberar. Isto é um erro, tanto na ordem individual e especialmente no coletivo. Porque, quando devemos tomar decisões que afetam a outras pessoas, a major parte das vezes temos que abrir espaço para a deliberação, de tal forma que deixe de ser individual e se transforme em coletiva. Um exemplo claro é a ação de nossos congressistas (parlamentares). Mas, a deliberação coletiva é muito difícil, porque no processo de deliberação temos que dar as razões de nossos pontos de vista e tentar entender as razões dos que não pensam como nós. Assim, para deliberar devemos partir do suposto de que ninguém tem toda a razão e que o outro pode ter tanta razão como eu. Isso não é fácil reconhecer e aceitar. Num debate sempre queremos sair triunfantes e, se podemos sempre esmagar ao contrário, melhor ainda. Assim não é possível deliberar. Devemos aprender a deliberar, o que não é uma aprendizagem fácil. Porque, isto não consiste, por exemplo, em ler ou estudar um artigo ou uns livros sobre a deliberação. Tem que ser uma aprendizagem prática, fazendo exercícios de deliberação. À deliberar somente se aprende deliberando.

6.-Quais são hoje as principais questões que o projeto genoma colocou para a bioética?

Eles são muitos e muito importantes. Pela primeira vez, o ser humano tem a possibilidade de conhecer e manipular a informação da vida, que é o chamado código genético. Isto, começou, faz meio século e desde então os descobrimentos se tem sucedido a um ritmo vertiginoso. O último faz somente uns dias: tivemos a notícia de que tem podido se corrigir um erro genético do metabolismo através da terapia genética num rigoto, o qual permite não somente curar uma doença grave, como é a cardiopatia hipertrófica congênita, senão fazer que ela não passe para a descendência. Isso não quer dizer que não devemos fazê-lo com muitas precauções, porque em caso contrário estaremos produzindo mais mal que o bem. Por exemplo, essas mesmas técnicas podem servir para uma pretendida melhora da condição humana, através da criação de sujeitos mais altos, ou com maior massa muscular, etc. Mas hoje essas técnicas somente estão permitidas para curar doenças, não para promover uma possível melhora da condição humana.

7.- O uso de animais em pesquisas científicas apresentam duros questionamentos por parte dos grupos que defendem a dignidade animal. Em que consistiria a dignidade animal? Tais questionamentos são um retrocesso ou um avanço desde o ponto de vista bioético?

Não há dúvidas de que nas últimas décadas temos desenvolvido uma sensibilidade para o mundo animal (e para o mundo inorgânico). E, isso, o devemos ver como um grande progresso cultural e moral. Os animais não são simples “meios”, como pensava Kant, que os humanos podemos utilizar livremente. Temos obligações para com eles. Isto é algo que hoje todo mundo o aceita. Outro tema distinto é o de se deve obrigar-nos a todos a respeitá-los completamente, como acontece com as vacas na Índia, ou converter-nos em vegetarianos ou veganos. Temos muitas razões para pensar que o bem-estar animal não pode ser levado aos extremos. De fato, os animais seguem sendo necessários, por exemplo, na investigação científica. E claro, que devemos usá-los o mínimo possível e fazê-lo de modo que eles não sofram, etc. Por isso, hoje existem em todos os centros de investigação Comitês de Ética da Investigação Animal. Mas, pensar que podemos prescindir completamente deles, hoje por hoje resulta ilusório.

 8.- Como devemos lidar com a biotecnologia e seus usos nas indústrias farmacêutica, alimentícia e bélica?

Esta pergunta está relacionada com a anterior sobre a genética e suas modificações técnicas. É o que costuma entender-se por biotecnologia. Podemos afirmar que em si não podemos dizer que seja boa ou má, como acontece com todo tipo de técnicas. Todo depende de como se utilizem. Kant diz que, a mesma faca que serve para comer, seve também para matar, ou que o mesmo produto que em determinadas doses é um fármaco, noutras pode ser um veneno. Não podemos condenar a biotecnologia simplesmente. Tudo depende do modo que a utilizemos. E isso é o que tem que estabelecer os parlamentos promulgando leis que proíbam seu uso incorreto. E quando os resultados afetam a toda humanidade, e não só a um país, então são as instituições internacionais que devem estabelecer as normas. O problema é que, tanto nos congressos nacionais como nas instituições internacionais, cada um busca defender seus interesses próprios, e não o interesse comum.

9.-É muito grande o debate sobre a vida artificial e sua associação como um tema relevante para bioética. Mas, a final de contas, é possível a inteligência artificial? O famoso teste de Turing nos fala algo sobre a inteligência senciente?

Nosso desconhecimento do modo como funciona o cérebro é muito grande. É verdade que temos avançado algo, mas muito pouco. Agora nos deparamos com o movimento de “neuroética”. Mas, quase todo que se publica com esse título, é de muito pouca qualidade. Poderemos chegar um dia a conseguir, mediante meios informáticos, como os próprios do computador, gerar-se algo assim como uma inteligência humana? Não o podemos descartar, é possível. Atendo-se ao caso concreto da “inteligência senciente” de que fala Zubiri, pode surgir por mera complexização de estruturas biológicas? Isto é possível No tema da atividade superior do psiquismo humano somente encontramos duas teorias: “a criacionista” e “a emergentista”. Esta última parte do princípio de que a mudanças estruturais fazem com que os elementos que compõem essas estruturas apresentem propriedades novas, desconhecidas até então. Isto acontece continuamente em química. E pode ser que quando a estrutura do sistema nervoso chega a certo grau de complexidade, surja isso que chamamos de “Inteligência senciente”. Todos estamos de acordo em que esse tipo de funções humanas, como a intelectiva, ou todas as que compõem a vida do espírito, são uma novidade qualitativa, que não pode reduzir-se à elementos que a compõem, Isto é o que desde Hegel se chama de “o salto da quantidade à qualidade”. E este é a origem da enorme confusão que há neste campo.

10.- As novas propostas para velhos problemas costumam surgir e se propagar rapidamente. A sua queixa de falta de qualidade dos trabalhos sobre neuroética podem ser incluídos nessa avaliação. No que consiste, então, o movimento chamado “neuroética” que o senhor mencionou?

O mundo da bioética é muito complexo e resulta muito difícil porque é o ponto de interseção de várias disciplinas, pelo menos duas: a Filosofia, por uma parte, e a Biomedicina, pela outra. Ser entendido nos dois domínios, exige uma grande dedicação e muitos anos de estudo. De não ser assim, resulta desastroso. Porque todo o mundo acredita que sabe ética e a consequência é que, se tem uma formação científica, considera que pode falar sem nenhum problema sobre os assuntos éticos de sua ciência. É um erro. Pois no caso concreto da neuroética, a maior parte dos livros quer há no mercado estão escritos por pesquisadores geralmente neuro-fisiólogos, que não tem uma formação filosófica adequada. O resultado é desastroso. Mas também, é o caso contrário, quando os filósofos escrevem de neuroética , porque tem lido alguns artigos sobre neurofisiologia e acreditam que já conhecem a disciplina. Por isso, um dos grandes problemas da bioética é que se carece de formação institucionalizada, com o que qualquer pessoa crê que pode falar e escrever sobre ela. Este é a origem da enorme confusão que há neste campo.

11.-O Sr. tem insistido varias vezes que os valores se constrõem na família e na escola até os 18 anos. Poderia falar-nos disso, já que parece que vivemos numa época que depositou muita confiança na escola e pouca na família?

Não tenho consciência de ter colocado o limite desse processo nos 18 anos. Mas, cada vez estou mais convencido de que os valores se aprendem muito cedo na vida. Eu tenho ensinado ética na Universidade e tenho reparado que as principais opções de valor os jovens as traem já prontas. Daí a importância da família, que é a matriz fundamental nessa aprendizagem dos valores e também do ensino primário e secundário. Não nos damos conta da importância que tem, e essa é a razão do pouco valor que damos aos professores, como também do pouco prestígio social deles nos primeiros graus de formação. Isto é uma tragédia

12.-Tendo em conta todos esses questionamentos, e outros muitos que poderíamos fazer, o Sr. entende que estamos num momento que precisamos repensar a relação médico-paciente? O que a formação universitária pode fazer para preparar o médico para o mundo complexo de valores humanos?

Tem se escrito muito sobre a relação médico-paciente. O ano de 1963 Laín Entralgo publicou um livro excelente intitulado: “La relación médico-enfermo”. Daquela época para cá tem passado muitas coisas, e este livro teria que ser escrito de novo, mas de forma muito diferente. Nem o mesmo título vale hoje. Por isso, não falamos mais de relação médico-enfermo, senão de “relação clínica”, “encontro-clínico, etc. Minha tese, que defendido durante muitos anos, é que é uma relação de deliberação. O profissional deve deliberar com o paciente sobre os fatos clínicos, mas também sobre valores em jogo e sobre os caminhos da ação possível, no sentido de tomar a melhor decisão possível, que deve ser ótima. Este é um exemplo prático de como pode influenciar a deliberação no processo de tomar decisões e melhorar sua qualidade.

13.-Quais são os grandes desafios da bioética no século XXI?

Serão muitos e muitíssimos. A ética do século XXI é bioiética. Noutras épocas não foi assim. Por exemplo, quando eu era jovem, na época do telão de aço e da guerra fria, a confrontação era Oriente-Ocidente, ou o Socialismo-Capitalismo. Hoje a confrontação não é essa, senão confrontação Norte-Sul, quer dizer, o desenvolvimento insustentável do chamado Primeiro Mundo e o sudesenvolvimento, também, insustentável do Terceiro Mundo. Há teóricos que defendem, que nossa única solução é caminhar parta o “Desenvolvimento sustentável”. Mas, não parece que a política internacional vai por aí. Porque o problema não vai ser consertado pelos políticos, primeiro, porque não sabem, e, em segundo lugar, porque não podem. E isto, porque não é um problema político, senão que na sua raiz é social. Ou educamos a sociedade de um modo diferente a como o estamos fazendo, ou o futuro é muito desanimador.

14.-O Sr. afirma que passamos da confrontação Oriente-Ocidente (Socialismo-Capitalismo) para a confrontação Norte-Sul. Qual a raiz desse novo confronto, muito importante para nós,-“africanos” e “latinos”-que somos do polo sul, e o que isso significa geopolíticamente?

A confrontação Oriente-Ocidente tinha uma linha de demarcação muito precisa que era o chamado “cortina de aço”. Mas, com a confrontação Norte-Sul não passa o mesmo. O sul não é, neste caso, o geográfico, o dos países que estão no hemisfério sul, senão o sociológico, o conjunto de países chamados hoje em dia ”em vias de desenvolvimento” ou “subdesenvolvidos”. A confrontação, hoje, Norte-Sul é a confrontação de “a vida”. O subdesenvolvimento é insustentável, e o desenvolvimento do Norte, também, é insustentável. Devemos caminhar para uma meta, a do “desenvolvimento sustentável”, que é diferente, tanto do subdesenvolvimento insustentável, como do desenvolvimento insustentável. Devemos gerar uma nova cultura, que não pode ser a da “pobreza”, senão o da “frugalidade” no consumo. Quando consumimos mais do o estritamente o necessário, teremos que pensar que o estamos tirando de alguém, presente ou futuro. E isso, é um problema moral. Neste sentido a Bioética tem uma enorme responsabilidade na educação de novas gerações na cultura da frugalidade.

15.-O Sr. tem repetido, que “legislamos muito e deliberamos pouco”. Pois no mundo de hoje, a pesar de predicar muito a liberdade para todo, todavia vemos que as coisas se resolvem com mais leis e procedimentos, tanto nos âmbitos internos como externos, como também na ONU e nas cúpulas internacionais. E mesmo em grupos fechados, logo se criam leis próprias, sempre cerceando a vida pessoal e social. Por quê? Vimos recentemente na Espanha debates intermináveis nas eleições sem resolver dos problemas do povo espanhol e de um governo. Qual seria o valor das pessoas deliberativas nesses assuntos políticos?

Na Espanha existe o mesmo problema que em todos os países do mundo. Pois diante da falta de exemplaridade dos partidos políticos tradicionais, aparecem novos partidos que dizem que vão lutar contra a corrupção, etc. Mas, pronto se vê que o que buscam é chegar ao poder. A política se tem convertido na arte de chegar ao poder e manter-se nele tanto como resulte possível. A política não pode ser a terapia de sua própria doença. A terapia tem que vir de fora, da sociedade. Uma sociedade madura, bem educada, escolherá políticos honestos, não corruptos, etc. A linguagem da política é o direito. A linguagem da sociedade é a ética. E o direito é sempre um epifenômeno da ética. Fala-me que valores tem uma sociedade e te direi que políticos elege. E se a sociedade está mal educada, seus políticos o estarão também, por mais que digam que vão acabar com a corrupção, etc.

16.- Como seria possível falar na esperança da “educação moral’ numa sociedade corrompida completamente, imoral e devastada pela miséria e desigualdade? O Direito poderia ser uma esperança ou um intermediário entre política e sociedade para amenizar, e, aos poucos, equilibrar eticamente situações realmente miseráveis e indignas? E em situações, todavia, mais calamitosas, deveríamos deliberar globalmente convocando instituições (“O direito Internacional”) internacionais para socorrer sociedades que sozinhas não se podem levantar? Qual a importância do Direito no método deliberativo na construção das sociedades?

Penso que é necessário diferenciar muito claramente a Sociedade do Estado. Ao longo da história não tem sido assim, o que foi um grande erro. A estrutura básica é a Sociedade. E linguagem da sociedade é a ética, o conjunto de valores que compõe sua cultura. O Estado é um epifenómeno da sociedade, e assim devemos vê-lo. Por isso, as mudanças devem vir de baixo, da sociedade, embora tão só fosse porque dela saem os políticos. A linguagem do Estado, além disso não é a ética senão o Direito. A Ética é a linguagem da Sociedade e o Direito é a linguagem do Estado. São coisas muito diferentes. A ética tem a obrigação de educar a sociedade nos valores e na gestão dos valores. Se conseguíssemos isto, os próprios Estados funcionariam melhor. Por exemplo, haveria menos corrupção. Na minha opinião, é um erro que se comete continuamente, pensar que a corrupção política se vai remediar fazendo outra política, fundando outro partido, por tanto, fazendo mais política. O problema básico não é o Estado, que Marx, discípulo de Hegel, nos ensinou como mera superestrutura, senão da Sociedade, e, portanto a educação da sociedade. A grande tragédia é a péssima educação que se dá aos jovens. O sistema educativo é o único que pode remediar esta situação, mas é o menos estimado e o pior tratado em nossas sociedades. De novo um paradoxo.

17.-O Sr. surpreende ao lidar como médico com grandes responsabilidades e pensador ao mesmo tempo. E isso tanto em consultas difíceis de bioética e transplantes como Diretor da Fundación Xavier Zubiri promovendo Seminários de Investigação e cursos com os professores das escolas sobre Ética e Cidadania. Como surgiu e como descreveria seu “eros pedagógico” para a medicina e para a filosofia?

Tenho afirmado muitas vezes que não sou um escritor que ensina, senão um docente que escreve. Sempre me vejo como professor, como docente. E isso, porque acredito que é esse o grande defeito de nossas sociedades. Alguma vez tenho dito diante de políticos muito qualificados de meu país, que escolhi ser professor porque acredito na educação. E se tivesse acreditado na via política para mudar a sociedade, tal vez tivesse intentado ser político. Pois bem, quando digo isto diante de políticos, eles ficam incomodados. Mas, era isso mesmo, o que eu buscava. Confiamos todo em política. Como se ela tivesse que resolver todos os problemas. E isso é um grande erro, pelo que estamos pagando muito caro.

18.-Biopolítica é um termo comumente usado por pensadores contemporâneos. De Michael Foucault com os estados e seu poder político em todos os aspectos da vida humana ao “biopoder”, tal como o entende Michael Hardt e Antonio Negri como uma espécie de resistência social, que utiliza a vida e o corpo contra o ‘establishment’ (o exemplo dos refugiados ou do terrorismo suicida, para relembrar alguns). Podemos falar que a bioética é o novo paradigma das ciências sociais e políticas?

Que eu tenha conhecimento, o termo biopolítica hoje não tem nenhuma vigência no mundo exceto em Latino-américa, especialmente no Brasil. A partir de um texto de Fouault, se criou todo um movimento. E tal como se está utilizando, me suscita muitos receios, que já tenho exposto a propósito da política. É inútil querer mudar a sociedade através da política. Pois, como falou Marx, a política não é mais que um epifenómeno da sociedade, o que ele chamou de superestrutura. Considero pouco confiáveis todos os intentos de cambiar a política desde os políticos. No fundo de todos eles só veio o mesmo: a conquista do poder.

19.-A morte é tal vez o único fator que nos faz a todos iguais. A utopia da imortalidade acompanha ao homem desde sempre. Com a crescente tecnologia, que tem impacto na longevidade, estaríamos caminhando para uma nova forma de desigualdade social?

Suponho que se está referindo ao tema da criopreservação de corpos, até ver se a ciência acaba descobrindo o elixir da eterna juventude. Minha opinião é que todo está fundamentado num erro, uma ilusão inconsciente do ser humano que não quer morrer, quer ser imortal. Mas não acredito que se vai conseguir por esses procedimentos. Nossa realidade é contingente, e por tanto mortal. A ciência poderá alongar a vida humana, mas desde logo não conseguir a imortalidade. Para isso a sociedade tem buscado outros caminhos, geralmente religiosos. Haverá algo depois da morte? Não podemos segurá-lo, mas sim espera-lo.

20-.Mas, a Bioética tem como objeto a vida humana. Em termos de compreensão me parece possível refletir sobre a noção de “morte”, já que seu opositor (o antônimo) é a noção de “nascimento”. Quando pensamos em termos contrários, podemos nos opor e melhorar nosso entendimento. Por outro lado, ao pensar na noção de “vida” não temos um opositor, um antônimo. Então parece que por não entender o que seria o contrário da vida, não conseguimos entender a vida em si. Tal vez, se pudéssemos fazer essa oposição, nossa existência poderia ser mais “cômoda”. Mas essa falta de “comodidade” me remete às noções chaves de muitos filósofos, como as noções de “ansiedade” (Kierkegaard), “angustia” (Heidegger),”náusea” (Sartre), reminiscência (Platão), etc. Seria este, por tanto, o grande mistério e a grande questão que a bioética nos coloca? Noutras palavras, seria essa incomodidade e que fazer com o ponto central de grandes questões filosóficas como “o sentido da vida” (Ética), “como a vida deve ser vivida” (Sócrates) ou inclusive, ”se a vida vale a pena ser vivida” (Camus), que ao final de contas, em seu conjunto, são os questionamentos primeiros e últimos que movem o campo dos estudos da bioética?

Querido Felipe. O antônimo da “morte” não é só “nascimento, senão também “vida”. Como falou Heidegger, o problema da vida humana é que tem um termo, a morte. O ser humano é, por isso, um ser que em todo projeto que faz tem um tope, a morte. Daí a “angustia” a “ansiedade”, etc. O problema é se a vida e acaba com a morte ou não. Porque se ela acaba com a morte, não está muito claro por que devemos nos esforçar tanto em fazer as coisas bem (Ética), ou o que passa com as pessoas que tem feito muito mal durante sua vida e não se tem podido fazer justiça com elas, etc. Se acaba a vida com a morte? É o tema que tem tentado resolver todas as religiões. Todas elas pensam que não somente nãoacaba a vida com a morte, senão que a verdadeira vida começa então. E se não for assim, parece que Camus tinha toda a razão do mundo ao falar que o único problema filosófico sério era o do suicídio. Se isto é tudo, si a vida é isto, a verdade é que não merece muito a pena vivê-la. Sobre o outro mundo não sabemos nada, mas eu acredito que a ninguém se pode tirar sua “esperança”, de que haja vida além desta vida. Isto, por suposto, vai além da ética e da bioética, e entra de cheio no terreno da religião. Um abraço.

21.-Quando a corrupção se torna assassinato? A corrupção no Brasil atingiu proporções inimagináveis, que já estão falando sobre o major caso de corrupção na história mundial. A falta de respeito e a adulteração dos princípios originais de nossa Democracia resultaram na degradação dos serviços básicos. Milhares de pessoas morrem todos os dias por causa dos devastadores resultados da corrupção que tomaram todas as instituições públicas e privadas. Parece que ela se institucionalizou. Poderia comentar sobre a corrupção como equivalente ao assasinato e que significa num mundo globalizado donde a cultura ocidental predomina?

Atribui-se à Lord Acton a famosa frase: “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. É muito difícil que na gestão do poder não apareça a corrupção, quer dizer, a utilização do poder político em benefício privado de um ou de uns poucos. E é inútil pensar que vai haver política sem corrupção. O que é importante é reduzi-la ao mínimo possível. E isto só se pode conseguir através da educação moral da sociedade. Os países menos corruptos, por exemplo, os escandinavos, se caracterizam por haver tido uma ética social, a calvinista, que é muito estrita. Administrar o poder, muito poder, não há dúvida de que é uma grande tentação. Somente resistem a ela as pessoas com uma sólida formação humana e ética. Entanto a política se entenda como a conquista do poder, e não como serviço público, a corrupção estará intimamente ligada a ela. Por isso vemos todos os dias como muitas das pessoas que se dedicam à atividade política o fazem com este objetivo, o de aproveitar-se do poder que vão gestar. Por tanto, não se trata de um problema político, como tendemos a pensar, porque sempre será preciso que algumas pessoas administrem o poder público, senão como problema social e moral.

22.-Finalmente, o Sr. é um grande estudioso do filósofo Xavier Zubiri. O que a filosofia de Zubiri pode oferecer para pensar a bioética no século XXI?

Eu tive um grande amigo, Ignácio Ellacurría, que assassinaram vilmente em El Salvador no ano 1989, que tinha sido reitor de uma Universidade e professor de filosofia toda sua vida. Ele sempre falava: ”dizem que a filosofia não serve para nada; mas eu acredito que serve para todo”. Saber pensar é fundamental na vida. A filosofia não ensina a triunfar senão a pensar. E isto é fundamental. Suponho que em português existe também a expressão: ”não há nada mais prático que uma boa teoria”. Pois bem, o que eu aprendi de Zubiri foi a pensar e a colocar-me as questões fundamentais da realidade e da vida, que parecem que não servem para nada, mas que servem para todo. Por exemplo, eu não teria podido fazer em Bioética o que tenho feito sem a ajuda de Zubiri. Se de algo estou orgulhoso, é dos Mestres que tive: Xavier Zubiri e Pedro Laín Entralgo. Quando alguém há tido a sorte de ter mestres assim, é muito difícil não sentir-se na obrigação de continuar seu legado e fazer que frutifique o melhor possível. Eu estou orgulhoso de meus “Maestros”.

Bate-papo: Entrevista com Thomas Fowler

                Entrevista concedida a Felipe Cherubin, em 12/04/2013. (in O que é a inteligência? Filosofia da realidade. 212-217).

Por Felipe Cherubin

Nota

 Thomas Fowler é fundador e presidente da Fundação Xavier Zubiri da América do Norte, dedicada à divulgação da obra do filósofo no mundo de fala Inglesa. Editor da revista “The Xavier Zubiri Review”. É também tradutor e incentivador da tradução de todas as obras de Zubiri para o inglês. É a presença de Zubiri aberta pela filosofia da realidade e da inteligência senciente em EE. UU.

Qual a importância desta entrevista de Felipe Cherubin a Thomas Fowler? Não há como ler e estudar Zubiri sem falar da figura de Fowler, porque foi um encontro de um jovem americano inquieto pelas grandes perguntas humanas e que encontrou eco no pensamento de Zubiri. Atrevido foi visitar Zubiri levando debaixo do braço a tradução pronta de Natureza, História. Deus. E Felipe Cherubin, um jovem brasileiro, também inquieto pelas decisivas perguntas pela vida, se encantou com Thomas pela sua empreitada de aplicação de Zubiri, principalmente nas matemáticas.

Então, como Felipe chegou a fazer essa entrevista com Fowler? Porque os dois são pessoas inquietas na busca do que dá que pensar na vida, e a sociedade não pensa. Cherubin mostrou isso desde cedo ao abrir-se à vida de escritor, poeta e filósofo, e assim respondeu a pergunta sobre “trabalha com alguma profissão relacionada à literatura?”.

“Sim. Sou jornalista. Sempre trabalhei em editoras de cultura. Acabei tomando gosto e me especializando em entrevistas, tendo entrevistado já grandes nomes do universo cultural como o filósofo Ken Wilber, o psiquiatra Allen Frances, o linguista Nicholas Ostler, o filósofo Sir Roger Scruton, o psicólogo social Jonathan Haidt, o empreendedor Peter Thiel, o escritor e acadêmico James Miller (conhecido e elogiado por grandes filósofos por sua biografia sobre Michael Foucault) entre muitos outros. Creio que o modelo de entrevista acabou me atraindo, pois ela representa muito do que eu entendo por filosofia: um diálogo que visa enriquecer os envolvidos com novas ideias, revelações, aprendizados e que possa, posteriormente, ser comunicado”.

Para Apreciar melhor o talante atrevido de Cherubin ouçamos o que ele respondeu ao como tinha nascido o seu livro O homem de duas cidades:  De onde veio à ideia do livro

“O livro nasceu de parto normal. Aconteceu naturalmente. Ele é a minha declaração de amor à vida encarnada num personagem que vive seu modo de estar no mundo intensamente e intensamente mergulha em todos os afetos que a existência nos oferece sejam eles bons, maus, virtuosos, viciosos, belos, feios, contraditórios, absurdos ou paradoxais”.

Apreciemos como Fowler e Cherubin dialogam “de parto normal” refletindo sobre problemas em que a filosofia de X. Zubiri reorienta a ciência e faz uso dela. E seus desafios. Fowler conheceu pessoalmente a Zubiri e Cherubin se encantou com a descoberta do pensamento de Zubiri em 2005 e não pararam mais. Cherubin teve a dita de participar do projeto Zubiri da Editora É realizações traduzindo Natureza, História, Deus, a Trilogia senciente e Cinco lições de Filosofia em 2010-2011. Por ele iriam traduzir todas as obras, fazendo da editora a responsável da qualidade da tradução, presença e guardadora em português do legado zubiriano. Esperamos um dia os interessados possam ter tamanha ousadia que merece o rigor intelectual de Zubiri.

Compartilhemos a familiaridade de T. Fowler e Felipe Cherubin nessa entrevista sobre o que os envolvia no que dá que pensar: a proposta de Zubiri presente hoje no pensamento americano e português, e também mundial.  Para tal, não podemos deixar de destacar a publicação The Xavier Zubiri Review. [A REVISÃO DE XAVIER ZUBIRI. Uma publicação da Fundação Xavier Zubiri da América do Norte. Um jornal eletrônico e impresso]. Reparemos o subtítulo dado recentemente por Fowler a essa revista criada por ele, que vem sendo publicada desde a década de 1990: A Revisão de Xavier Zubiri. Sim revisão e não repetição. É a única revista sobre Zubiri que conhecemos, dedicada totalmente aos temas zubirianos: desde interpretações, aplicações e críticas.

Então, sem mais vamos oferecer sua entrevista com Felipe Cherubin.

  1. Você teve o privilégio de conhecer Xavier Zubiri. Quais são suas lembranças de Zubiri como homem, pensador e amigo?

Zubiri sempre foi gentil, humilde, e interessado nas opiniões dos outros. Quando eu o visitei em Madrid pela primeira vez, em 1978, ele não me conhecia. No entanto, me acolheu em sua casa e levou-me para jantar com sua esposa e seu primo. Até então, eu conhecia apenas parte de sua filosofia (eu tinha traduzido Naturaleza, Historia, Dios), mas, em seguida, ele explicou, pacientemente, muitas de suas novas ideias e me contou sobre seus encontros com Einstein, Heisenberg e outros. Ele nunca foi arrogante ou orgulhoso, e claramente acreditava que a busca da verdade era a coisa mais importante em sua vida.

  • Como foi [e tem sido] a recepção do pensamento de Zubiri nos EUA?

Os Estados Unidos estão muito ligados à tradição empirista britânica e, infelizmente, não há muito interesse em filosofia continental de qualquer espécie. Mesmo grandes figuras como Hegel, são negligenciadas, apesar dos problemas óbvios com o empirismo / filosofia positivista. Embora exista interesse na filosofia de Zubiri em alguns lugares, tem sido difícil fazer progressos.

3)            Em seu artigo ”The Development of Mathematical Thought as Confirma- tion of Zubiri’s Noology”, confrontando Kant e Zubiri, ambos filósofos preocupados com questões matemáticas e físicas, você assinala que Kant falhou. O que exatamente você quer dizer com o “fracasso kantiano”?

Kant falhou, porque ainda estava sob a impressão de que a geometria euclidiana era o único caminho possível para compreender o mundo, uma vez que representa a maneira que a mente sintetiza a experiência, de acordo com as categorias kantianas. O desenvolvimento da geometria não euclidiana mostrou que a geometria euclidiana é apenas um sistema matemático possível. Claro, Einstein, mais tarde, incorporou a geometria não euclidiana em sua Teoria Geral da Relatividade, demolindo inteiramente a posição de Kant.

  • Ainda sobre o artigo da questão anterior, você aponta que Zubiri foi bem sucedido na integração da matemática em sua síntese filosófica baseada na inteligência senciente. Você também coloca que, talvez, Zubiri não tenha se dado conta de que os avanços em matemática nos últimos cem anos, confirmaram suas teorias. Entre os estudiosos e admiradores de Zubiri, o aspecto matemático é, de longe, a parte mais difícil de compreender. Como você colocaria, de forma simplificada, a fim de esclarecer a estes estudiosos a respeito dos avanços e legados deixados por figuras icônicas como Gödel, Church, Turing, Lebesgue, Hilbert, Banach, Cantor, Mandel-brot, e tantos outros, que, ao fim, confirmaram a filosofia zubiriana?

Há dois aspectos nesta questão. (1) A realidade dos objetos matemáticos. Desde Platão, matemáticos, e outros, acreditavam que os objetos da matemática, sobre o qual nós argumentamos e provamos teoremas, são reais. Platão colocou-os em algum reino ideal. Aristóteles rejeitou este ponto de vista, mas nunca o explicou satisfatoriamente. Zubiri foi capaz de resolver esta questão por sua noção de real por postulação. (2) Matemática não é estática (como acreditava Kant), mas muito dinâmica. Novos teoremas são provados, e, muitas vezes, os avanços são feitos flexibilizando requisitos ou pressupostos anteriores. Quando um matemático postula algo, ele está fazendo uma declaração sobre a realidade, e o que os matemáticos fazem, é explorar essa realidade postulada. Os novos mundos revelados por Lebesgue e Mandelbrot, por exem-plo, mostram isso claramente. Este é o legado de Zubiri: como compreender o que os matemáticos fazem e como isso está relacionado à realidade.

5) O Teorema de Gödel tornou-se um fetiche moderno e levou a vários tipos de interpretações conceitualmente absurdas. O professor de ciências exatas, Alan Sokal, em seu livro “Imposturas intelectuais”, expôs os abusos de uma plêiade de filósofos modernos que utilizaram conceitos físicos e matemáticos incorretamente, especialmente o teorema de Gödel. Como matemático você acredita que a dificuldade das pessoas, mesmo filósofos e acadêmicos, em compreender esses conceitos, levou a uma nova “onda sofista”? Dada a sua experiência em “ciências exatas”, o que na verdade Gödel descobriu? O que significa a expressão “paradoxo de Gödel”?

O problema que ocupou Gödel foi o da completude: ele havia sido postulado desde a época de Euclides até 1931, assinalando que a matemática era completa, no sentido de que qualquer afirmação verdadeira poderia ser provada. Assim, a verdade e a possibilidade de prová-la (proveability) eram, essencialmente, sinônimos de (ou na) matemática; ninguém duvidava seriamente disso, embora coisas, tais como o “Paradoxo de Russel”, conduziram a certa inquietação. O Teorema de Gödel quebrou este “postulado” e agora sabemos que há afirmações (ou verdades) que não podem ser provadas: Esse seria o chamado “Paradoxo de Gödel” (Ou mais corretamente, o Teorema da Incompletude). A ligação entre a verdade e a capacidade de “provar a verdade” (proveability), obscurecia a natureza da matemática e seus objetos. Zubiri foi capaz de usar o resultado de Gödel e repensar toda a questão da realidade dos objetos da matemática, e que os matemáticos realmente fazem, esclarecendo, assim, a questão de uma vez por todas. Sokal é, sem dúvida, correto em suas observações de que a ciência e a matemática estão à mercê de abusos, através de interpretações incorretas, utilizadas para apoiar diversas posições ideológicas. A ciência tem enorme prestígio em nossa sociedade e, naturalmente, há uma tentação de fazer isso. Zubiri mostrou o caminho a seguir, mas eu tenho medo que a maioria das pessoas não queira investir o tempo em aprender sobre esses assuntos difíceis e o que eles podem nos dizer. Isso é verdade, mesmo para os filósofos e acadêmicos, que deveriam saber melhor. Recentemente eu analisei uma obra de um tomista que estava preocupado com o significado de “surds” (números irracionais). Isso é ridículo, eles não têm qualquer significado, eles apenas são. A verdadeira mensagem da matemática está em outro lugar, como Zubiri apontou.

6) Como compreender as teorias da relatividade, mecânica quântica e física newtoniana, frente à filosofia zubiriana?

A Teoria newtoniana foi baseada em velhas ideias de causalidade. Zubiri percebeu que o desenvolvimento da mecânica quântica implicava uma revisão dessas ideias. Especificamente, ele percebeu que a causalidade determinista (determinismo estrito) é muito forte; e a ciência pode prosseguir com a causalidade estatística. Mais importante ainda, ele percebeu que a própria noção de causalidade, é mais ampla do que os filósofos anteriores postulavam. O determinismo é apenas um tipo de causalidade, que só se aplica em domínios limitados. A ciência usa a noção mais ampla de causalidade ou, nos termos de Zubiri, “funcionalidade”: Isto é, algumas coisas na natureza são mais bem descritas como funções de outras, onde “função” significa qualquer variedade de funções matemáticas, não necessariamente uma que implica o determinismo. A teoria da relatividade não introduz a funcionalidade estatística, tal como fez a mecânica quântica, mas revelou que muitas noções antigas, tais como espaço e tempo absolutos, não são viáveis, e devem ser substituídos por conceitos mais amplos. Isso está de acordo com as ideias de Zubiri sobre a ciência, avançar postulando novas entidades no cânon da realidade.

7) Como matemático e estudioso de Zubiri, como você analisa a descoberta, e depois sua consagração pelo prêmio Nobel, do “bóson de Higgs”? Esta descoberta confirma algum aspecto da filosofia zubiriana?

A descoberta do bóson de Higgs é um caso interessante. Infelizmente, ela não pode ser corroborada de uma vez, já que apenas a equipe do CERN tem uma máquina poderosa o suficiente para fazer o trabalho. Até o momento, temos que confiar nas argumentações da equipe responsável. Mas, a verdadeira questão, é que o atual modelo de forças e partículas (incluindo o Higgs) é conhecido por ser incompleta em maneiras significativas – não sabemos o que é a matéria escura, nem sabemos o que é a energia escura. Isso realmente mostra como as ideias de Zubiri sobre ciência correspondem ao que os cientistas realmente fazem: eles procuram ampliar o cânone da realidade, postulando novas entidades, e, em seguida, verificação da sua existência.

8) Quais são os desafios para compreender o legado de Zubiri de uma forma mais abrangente e compreensível?

Eu acho que a questão é como expandir as ideias de Zubiri a mais reais? Ele deixou uma estrutura básica em Inteligência Senciente, Sobre a esencia, e a Trilogia Teológica. Mas ele não podia tratar de todos os assuntos possíveis, já que o conhecimento é muito amplo e novos desenvolvimentos estão sempre acontecendo. Assim, o verdadeiro desafio, não é entender o seu legado de uma forma mais abrangente, mas expandi-la para cobrir novas áreas. Por exemplo, um tempo atrás, eu escrevi sobre o tema da realidade dos sistemas políticos, e como eles são um exemplo de algo real por postulação.

9) Arte e literatura podem revelar as profundezas da personalidade humana. Como seus artistas e escritores favoritos lhe mostraram os mistérios da vida?

Como observou Zubiri, arte e literatura são duas formas, além da ciência, para penetrar a realidade e revela-la para nós. As pessoas sempre sentiram que a música pode transferi-las para um novo reino. Mas, o mesmo é verdade para todas as artes: Estar na frente de uma grande pintura, como Vista de Deft de Vermeer ou a Anunciação de Simone Martini, sempre fizeram isso por mim.

10) Qual sua definição de inteligência?

Aristóteles abre sua Metafísica com as famosas palavras: “Todos os homens, por natureza, desejam saber”. E o que eles procuram saber, é a realidade. Mas como Zubiri já disse, a realidade é muito complexa e profunda para ser capturada por alguma fórmula humana. Ciência, arte, música e literatura são todas formas de fornecer alguma medida de realidade para nós. Nós somos “animais de realidades conscientes” e é isto o que nos distingue. A inteligência é a nossa capacidade de compreender a realidade. Ela pode se dar através de qualquer um destes e outros canais.

11) Você gostaria de fazer alguma consideração final?

Atualmente, estou trabalhando com pessoas na Espanha e na América do Sul, em um livro de teologia baseado na filosofia de Zubiri. Zubiri escreveu sobre temas teológicos, mas não desenvolveu qualquer tipo de trabalho que poderia ser facilmente utilizado em escolas, seminários, universidades, etc., para explicar teologia. Isso é o que estamos fazendo. É um exemplo de como o trabalho de Zubiri precisa ser ampliado.

Os problemas do estilo e da linguagem “na recepção brasileira” do pensamento de X. Zubiri. (Parte III).

3.- Reflexão filosófica de Felipe Cherubin sobre a superação das “camufladas dificuldades” sobre o pensamento zubiriano na filosofia e no Brasil

Por Felipe Cherubin

“Devaneios” sobre o “de seu” de Felipe Cherubin (in memoriam).

Nota 1.

Quanto mais lemos Zubiri, mais nos cativa de muitas maneiras desafiantes, entretanto, mais nos sentimos imersos na sua proposta de filosofia e na vida. Nós reconhecemos pequenos sim, mas nos faz andar junto a ele, como mergulhador atrevido da sempre aberta realidade. Caminhamos “páreo a páreo” com uma pessoa e filósofo diferente: cativador a primeira vista, e sempre, envolvedor no pensar, rigoroso, sistemático, tradicional, porque, todavia, sempre nos sentimos mais imersos no real e mais convidados a não deixar o caminhar nos passos sencientes. Assim, o vemos em suas obras e assim nos vamos aostumando com seu estilo, linguagem popular e técnica de pensar, e constantemente somos “alertados”, de que o enfrentar a realização de nossa vida não depende radicalmente de dialéticas ou lógicas, mas de descrição de fatos: do homem que é o único ser que surge levantando suas interrogações, da realidade na qual estamos imersos, porque vivemos dela e não podemos sair dela e da inteligência como “problema” do homem para viver, pensar e guiar-se na vida plena humana.

É a experiência original de todos, como foi de nossos antepassados, com o maravilhamento do universo macrocosmo, hoje sem dúvida com os microcosmos. Zubiri sempre nos mergulha irrestritamente no horizonte da realidade, como animais de realidades vivendo com a atualização da inteligência senciente. O peixe fora de seu habitat não poderá viver no mundo dos conceitos, que ao máximo poderão alongar sua morte.

 Assim, temos que interpretar o “devaneio”, como Felipe às vezes se retratava diante dessa riqueza de pensamento de Zubiri. “Devaneio filosófico”, que como Zubiri sentia-se disposto e atrevido para seguir perseguindo essas coisas que realmente nos dão que pensar. Não podíamos cair na armadilha do homem dualizado, porque apenas estava acostumado a usar a “faculdade da inteligência” para resolver o mundo apenas com conceitos, sempre interesseiros.  É o que ele diagnosticou e descobriu o que estava acontecendo nele, nas pessoas e no Brasil. Nosso mundo humano e intelectual está logificado, conceitualizado, e entificado. Estamos fora “da água”, desligados do real. Nesse seu devaneio entendia o pensamento zubiriano como uma radical terapêutica pessoal, social e histórica.

Esta “contaminação zubiriana” sofremos e usufruímos quando lemos e estudamos Zubiri. Nós deparamos com algo, que ele sempre persegue, oral ou sistematicamente, que são os impecílios dolorosos de um saber não humano, porque partem de um dualismo perverso, que foi entificando o homem e a realidade. Aos poucos, seu desafio filosófico e sua linguagem vão se tornando mais claros e coerentes no meio do rigor e precessão de sua filosofia. Nós sentimos filosofando. E como Felipe falava, “somos todos zubirianos”.

Nota 2.

É necessário reconhecer em Felipe essa manifestação do pensar realmente humana. A reflexão dele que apresentamos aqui nos mostra essa teimosia em pensar sencientemente no ser humano. As leituras que ele sempre fazia de outros autores o desafiavam cada vez mais buscando ligações, palavras ou pensamentos que pudessem revelar essa ponte humana para construir para o Brasil em primeiro lugar, como para o mundo, porque ele se sentia “mais grego” com as leituras de Zubiri. Tinha encontrado o horizonte insondável da sabedoria e do pensamento humano

Nós estávamos sempre pensando em como entender melhor e aplicar as inspirações de Zubiri entre nós. Mas ele de repente disparava como cavalo solto buscando a maior liberdade de pensar. Relembrando essas andanças sobre como conseguimos cunhar a tradução do de suyo espanhol para o de seu em português, sugeri e pedi, que algum dia relendo todos esses e-mails que tínhamos mantido com a editora, com o revisor e tradutor, fizesse uma reflexão própria e mais aberta e profunda. De repente, num atropelo de “liberdade informal”, como ele a definiu, de pensar nos mandou os seguintes e-mails “fazendo algumas ligações e indagações filosóficas um tanto pessoais”. Isto, num momento em que já tinha saído da editora há um tempo (em 2013), e começávamos a trabalhar juntos nos prefácios da Trilogia da realidade, que seria publicada em breve (não aconteceu…). Tempos saudosos de nossos constantes pingo-pongs

Felipe, como poucos assumiu a força do pensamento zubiriano, que aparecia em todas suas leituras, indagações e práticas na vida. O seu romance filosófico O homem de duas cidades ficou entre os dez primeiros lugares e depois ficou em segundo lugar. A proposta senciente atravessa toda a trama e até confessa como o personagem central Seth tinha os livros de Zubiri em cima de sua cama. Ele sempre pensava que o caminho senciente nos levava ao perdão e ao amor. Um romance para ser lido e entendido por todo o homem do mundo. Uma promessa humana de que Brasil estava precisando. Infelizmente morreu de acidente de trânsito cedo.

“Comentários sobre o livor de Felipe na Amazon: Dia 4/01/2017.

O “Homem de Duas Cidades” de Felipe Cherubin tem um enorme mérito não apenas pela escrita criativa e background cultural sofisticado, mas também pelas temáticas abordadas. A reconstrução do funcionamento da mente do personagem Seth demonstra anos de estudos em psicologia e psiquiatria já que sem fazer nenhuma menção no livro quem convive com a área de saúde ou com amigos e familiares que padecem do transtorno bipolar logo reconhecem os traços no personagem.O livro não trata de temas já saturados no Brasil como os livros de cunho regionalista, dos temas da pobreza e desesperança do povo brasileiro ou de livros supostamente históricos ou que tratam dos nossos ressentimentos enquanto nação. A meu ver o livro de Felipe tem uma universalidade podendo ser lido por qualquer pessoa mundo afora, não possui uma datação e tudo isso porque trata de questões da condição humana, questões atemporais que estão presentes nos quatro cantos do mundo independente da classe social, da cor de pele, nacionalidade etc. É um livro que faz jus ao momento de globalização que estamos imersos e une a todos por um bem comum: o amor, a fé, a caridade que devemos exercer enquanto comunidade universal, como humanidade onde todos são responsáveis por tudo, pelos caminhos que seguimos não como Estados com interesse egoístas e sim como uma comunidade planetária. Os extremos do personagem Seth em busca de um equilíbrio pode ser lido como uma narrativa simbólica dos esforços da humanidade tentando superar seus exageros e desigualdades. O livro bem lido traz essa perspectiva épica embora o personagem esteja longe de heróis e ídolos e sim perto de todos nós. A jornada épica aqui é a jornada da humanidade em que cada um pode e faz diferença nesse mundo de tantas possibilidades. Já na parte do drama da doença do personagem traz a tona o tabu que temos em falar sobre isso. Recentemente vimos na mídia os atores Robin Willians, o cantor George Michael sofrendo em silêncio e carregando o fardo da doença. A atriz Carrie Fisher que tanto nos encantou na saga Star Wars foi uma das primeiras a falar da sua bipolaridade ajudando milhares e milhares de pessoas, dando a cara pra bater e enfrentando toda sorte de preconceitos e discriminações. Enfim, um livro corajoso tanto na escrita, na estrutura textual quanto nos milhares de temas espinhosos que aborda. Sem dúvidas, o livro exige maturidade e coragem do leitor.

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Obrigado leitor pela sua avaliação inteligente e corajosa. A leitura de O homem de duas cidades espanta, conforta e atropela nossas mesmices de viver um mundo moderno, como ideal. O ideal não está nas “novas tendências”, que são sempre egoístas e econômicas, mas na própria realidade humana que não é regional, é universal, global, comunidade universal e planetária, como diz Felipe é sentir a realidade. Por isso, o homem sempre buscará seus caminhos, diríamos naturais, para tentar superar os exageros e desigualdades. É para a pessoa humana que o cosmos e a terra foram feitas pela “evolução” e pela liberdade de essa rara realidade. E Seth é esse ser humano, que, mesmo sofrendo e ciente de todos “esses ossos quebrados”, busca o equilíbrio de todos os esforços humanos, de todos e de cada um, para superar todos esses desvios de guerras, convivências, malandragens, políticos, de saúde (genéticos ou manipulados =medicina que cura, medicina que adoece), de intelectuais, também filósofos e cientistas. Perdoa copiar tua conclusão, que é de todos: “A jornada épica aqui é a jornada da humanidade em que cada um pode e faz diferença nesse mundo de tantas possibilidades”. 
Por isso um livro de leitura universal. “pode ser lido por qualquer pessoa mundo a fora” em qualquer lugar e em todo lugar. Obrigado e parabéns pela sua justa avaliação. Nada mais e nada menos. Podemos estar felizes com este livro brasileiro aberto a toda a humanidade. Parabéns ao autor.

Como Felipe virou escrior, poeta e sempre jornalista? “O livro nasceu de parto normal. Aconteceu naturalmente. Ele é a minha declaração de amor à vida encarnada num personagem que vive seu modo de estar no mundo intensamente e intensamente mergulha em todos os afetos que a existência nos oferece sejam eles bons, maus, virtuosos, viciosos, belos, feios, contraditórios, absurdos ou paradoxais”.

“Espero o dia em que eu possa acordar e entender que o amor é mais forte que qualquer coisa e que toda ofensa apenas esconde um pedido de ajuda. Espero o dia em que minha esperança e meus sonhos me tornem uma pessoa melhor, mesmo que a realidade mundana tente me sufocar ou me convencer do contrário. Espero o dia que eu encontre as minhas razões de viver e espante todo o vazio para, então, morrer de vida.” __ Felipe Cherubin (Selecionado por ele em O Homem de duas cidades).

“Penso que a nota (que eu tinha mandado o final da nota que foi elaborada para o livro O que é a Inteligência? P. 203-212), está perfeita, “traduzindo” exatamente o que Zubiri expressou em língua espanhola. Creio, que sem sua intervenção para a defesa do termo “de seu” desembocaríamos em um erro ingênuo de preterir o “sentido” do esforço intelectual zubiriano [ou “evolução”] do termo “de suyo” aceitando uma tradução que estaria visando apenas a literalidade.

Essa literalidade acabaria, por sua vez, esvaziando o termo “de suyo” de seu sentido e esse erro de tradução seria uma catástrofe, pois “assassinaria” o aspecto dinâmico do pensamento de Zubiri, nivelando suas reflexões.

Eu iria um pouco além e diria que esse esvaziamento tornaria o “de suyo” uma “palavra de ordem”, um fundamentalismo filosófico, pois suas raízes estariam cortadas. O “de seu” é nada mais nada menos que o fruto maduro das raízes do “de suyo”.

Acredito ainda que a função da obra “Sobre a Essência” foi uma radicalização zubiriana de sua própria “solidão sonora”, ou em outras palavras – um encontro com seus próprios “demônios filosóficos” e uma forma de “exorcizar esses demônios”.

Por exemplo: Foi um embate com o recorte epistemológico da fenomenologia em busca da pureza ontológica de “recortes arbitrários” da realidade. As “várias realidades” fenomenológicas perdem, naturalmente, seu eixo de unidade o que Husserl acabou por transformar a fenomenologia em uma “ciência” acima das “ciências” o que, inevitavelmente transforma a fenomenologia numa filosofia “em mim”, ou seja, num idealismo.

 No fim das contas, a busca husserliana pela realidade culmina na perda total da realidade. Esse fato fica evidente na obra “Krisis” de Husserl, que não deixa de ser um correlato de  “Sobre a Essência”, em que Husserl revê toda sua filosofia e “exorciza” seus “erros”.

Vejo, ainda, Zubiri num enfrentamento da noção quase ininteligível do “dasein” heideggeriano.

Por fim, certamente – a transição de “Sobre a Essência” para a “Trilogia da Inteligência Senciente” não deixa de ser um passo a frente do ensaio “Reflexões do Quixote” de Ortega , sobre a natureza da noção de “circunstância” e do “eu” nela inserido.

Em tempo [uma pequena retrospectiva]: Na tradição filosófica, o aristotelismo e o platonismo sempre foram vistos como correntes irreconciliáveis assim como às vezes se faz uma leitura ingênua do velho e novo testamento como irreconciliáveis.

Na verdade, minha opinião é que as filosofias de Platão e Aristóteles assim como os textos bíblicos são complementares. Eu não vejo a posição de Aristóteles na Metafísica como uma crítica a Platão, mas sim um “puxão de orelha” ou mesmo uma forma de expressar que Aristóteles daria ênfase ao aspecto expositivo e lógico [portanto, um alerta ao leitor].

A filosofia de Aristóteles tem um grande potencial de transformar-se numa filosofia concipiente, já que seu caráter expositivo torna seus conceitos “horizontais”. O primeiro motor aristotélico é um exemplo. A verticalização das noções de “corpo”, “mente” e “alma” é outro exemplo. Em Platão vemos uma verticalidade da noção de “primeiro motor”, assim como uma triangularidade das noções de “corpo”, “mente” e “alma”.

Certamente, a verticalidade Aristotélica ao invés de ser um contraponto a Platão, a meu ver, é antes de tudo uma ampliação filosófica realizada conscientemente por Aristóteles subentendo a horizontalidade e triangularidade platônica. Isso fica evidente quando Aristóteles equaciona realidade e movimento.

As filosofias de Platão e Aristóteles não deixam de ser uma integração dos pontos positivos dos pré-socráticos, sobretudo, Parmênides e Heráclito. A dialética platônica das filosofias dos supracitados pré-socráticos já demonstra a unidade de ambos e um simples silogismo aristotélico os integra facilmente.

Que uma interpretação de que Platão e Aristóteles eram “rivais”, com filosofias “opostas” certamente, em longo prazo criou o embate entre realismo “em si” e idealismo “em mim” e a querela dos universais na idade média ampliou esse pseudo embate que atravessou a filosofia até o século 21.

Portanto, sem uma estrutura dinâmica da realidade não seria possível que algo incluísse e transcendesse uma camada anterior. Ou seja, a realidade ficaria paralisada. Ficaria, portanto, apenas em seu aspecto quantitativo e o aspecto qualitativo estaria liquidado. Um exemplo: você poderia constatar que a quantidade de átomos é maior que a de moléculas, embora as moléculas tenham como substrato os próprios átomos. A leitura apenas quantitativa possibilita recortes epistemológicos – o estudo dos átomos pela física e o estudo das moléculas pela química. Contudo, qualitativamente, esses recortes não explicam nada. Assim, outro exemplo seria a noção de “vida” que inclui átomos e moléculas transcendendo-os numa dinâmica qualitativa. Porém, quantitativamente ela inaugura outro recorte epistemológico: a biologia.

Isso me leva a crer que o interesse de Zubiri pelas “ciências” não era mera curiosidade, mas sim uma intuição precoce de que a realidade não poderia ser uma “monodologia de almanaque” em que cada campo científico – seja a química, a física ou a biologia fossem estratos “puros” como a fenomenologia e tantos outros segmentos intelectuais entre o fim do século 19 e começo do século 20 nos levariam a crer ser uma espécie de solução para tudo – o mapa da natureza.

Por fim, partindo de “Sobre a essência” para a “Trilogia da Inteligência Senciente” e por fim para a “Trilogia da Realidade” [em que os dois últimos volumes incluem e transcendem “Sobre a essência”] estaria de forma completa a filosofia zubiriana em termos de unidade da “apreensão senciente” e realidade. E, a descoberta da “inteligência concipiente”, como um vício filosófico, que embora útil pode “amputar” e “desfigurar” a “unidade”. 

Penso também, que essa reflexão zubiriana não deixa de ser um aprimoramento original de reflexões muito antigas como o da “scala naturae” apontada no “Timeu” de Platão, do simbolismo bíblico da “escada de Jacó”. Alongando mais, vem-me a mente também a noção de “Grande Cadeia do Ser” derivada de Platão e Aristóteles e depois aprimorada pelo Neoplatonismo e magistralmente retomada no século 20 por Arthur Lovejoy. Vejo ainda repercussões na literatura, como por exemplo, o “Paraíso Perdido” e a continuação, pouco citada e lida – “O Paraíso Recuperado [Mas aqui, já entramos em outros estudos e são outros quinhentos]. 

Um grande abraço zubiriano, Felipe Cherubin

Noutro e-mail insiste resumindo o dito:

“Vejo como efeito colateral da escolha do “de seu” uma inevitável reflexão sobre o “de suyo” o que evita que o respectivo termo seja transformado numa “palavra de ordem” ou mesmo que passe batido apenas como um neologismo de caráter “intelectual” no sentido besta e arrogante da palavra. Isso dará ao leitor uma conscientização de que o “de suyo” foi uma definição necessária que dialoga com expressões clássicas da filosofia como o “em si”, o “em mim” para apresentar o “em próprio” que não deixa de explicitar que cada coisa possui o “em próprio” de cada coisa. Ou como eu havia colocado no e-mail anterior: que cada coisa inclui e transcende uma “camada” “inferior” diminuindo nessa escalada [cada vez mais] os aspectos quantitativos para os aspectos qualitativos. Portanto: O exemplo da ‘evolução” de partículas subatômicas até a consciência humana que demonstra um movimento incessante de transcendência e inclusão – o que mostra que nada na “realidade” é descartável ou “superior” ou “inferior” e sim “formalmente necessário”. Outro exemplo: O ser humano inclui e transcende os animais fazendo de nós um “animal de realidades”.

3) Penso que na nota , apesar de concordar 100% com a colocação de que a realidade não é apenas dualismo “objetivo-extra objetivo”, isto é, o velho problema do estatuto da “objetividade” que pelo menos vemos em Descartes , Kant e Husserl  penso que usar a terminologia dualismo “estimulo-realidade” [embora eu entenda perfeitamente o sentido] acho arriscado e temerário utilizar o termo ‘dualismo”, pois ele evoca nas “mentes cartesianas” aquele velho “dualismo maniqueísta” , embora essa leitura de Descartes seja simplista já que ele diz claramente em co-dependência dinâmica e irrevogável de “corpo/alma”. Creio que a simplificação de Descartes em “cartesianismo” está muito arraigado em nossa cultura e o uso do termo “dualismo” pode acender aquela “chama” quase “didático-instintiva” de um estudante associar que Zubiri é um dualista “estimulo-realidade” em contraponto a Descartes com seu “dualismo” “corpo-mente”. É uma indução temerária em nosso ambiente universitário contaminado por leituras simplistas de Descartes e Kant.”

Boa leitura e compreensão do pensamento de Zubiri para o nosso pensamento brasileiro!

Observação.

O mesmo comentário de Felipe pode servir para todo o ímpeto filosófico e a linguagem ou conceitos transformados que Zubiri nos oferece em toda sua leitura. Seu estudo nos situa noutro horizonte, não dos conceitos, mas do real, o intramundano, o nosso.

Os problemas do estilo e da linguagem “na recepção brasileira” do pensamento de X. Zubiri. (Parte II).

2.- Os problemas da divulgação de Zubiri na leitura brasileira: “a realidade como formalidade de seu (de suyo)”.

(Este texto, que hoje copiamos para ser lido depois de Sobre la esencia, foi feito especialmente para enfrentar de vez o problema da recepção de Zubiri no sua base únicaA realidade antes do ser. Desde as primeiras leituras de Natureza, História, Deus percebemos já algumas formulações desta inédita inspiração. Mas, é em Sobre la esencia e com sua maior formulação até o momento entendido e interpretado em Trilogia senciente apreciamos o seu amadurecimento: ater-nos a realidade das coisas (NHD), as coisas são sistemas de notas de suyo –de seu- a realidade é de seu, em próprio (SE)  e a realidade de seu  é atualizada formalmente pela inteligência senciente (IS).

Finalmente, encontramos um pensador, diante de tantas tentativas históricas, que procura desatar a força e dinámica da transformação da “sabedoria humana”, amarrada aos coneitos: porém somos realidade, nela estamos imersos e dela temos que viver. E a nossa inteligência a atualiza modesta e problematicamente apreenendo-a sencientemente.

Que não sente essa expressão “realidade”, que nos sustenta e atrai em todos os momentos alegres e tristes? Embora, os gregos não tenham usado durante séculos essa palavra, não era o que estava, segundo Platão, detrás do ser? Não é a força inviolável dessa mesma palavra, que está detrás de nossos apelos finais aquí no Brasil: liga-te, cai na real?  Zubiri sentiu, como pessoa desde o início do século XX, essa expressão no radical de cada pessoa, “de sua dignidade”, começando pelo descalabro da Espanha, à qual apelamos, como unica medida e guia? Nela todos, de uma forma ou outra, encontramos nosso nascimento (porqué?), e devemos encontrar energia e forças humanas (como) para andar no caminho da realização de cada homem, como ser individual, social e histórico.

Pois bem, Zubiri viu no decorrer de tantas formas de saber, feitas hisrtória, percebendo que ela tinha sido transformada em lógicas e suas formas, em entes, em “eu penso”, em conceitos absolutos, em a prioris, em “fato científico” e deixada de lado, como resíduo ou como podiamos falar hoje deletável. Tinham introducido uma confusão entre o real que sustenta e a figura dele na existência, supervalorizando-a nas riquezas da vida, mas vivida como zumbis. Claro que somos existentes, -não faltaria mais, falaria Zubiri- porém somos existentes realmente porque somos reais, constitutivamente suficientes como homem, gente, pessoa. Zubiri tinha um cuidado de ser fiel a esta inspiração e dela foi tirando coerentemente toda sua elaboração, inédita, não “copiada”. Na leitura total de Zubiri vemos essa preocupação que centraliza a riqueza de seu pensamento. E por isso, o repete em mil situações, porque o homem e o mundo são reais, são físicos, são de seu. Não como um possesivo que posso possuir ou não, mas que é em propriedade, em próprio, de seu.

Assim, não aceita os desvios interpretativos, e como na tradução de outras línguas, de sua inspiração, e nessa agudeza de pensamento persegue às categorias, até hoje usadas, de uma inteligência conceitual. Não deu o aval a tradução alemã de Sobre la esencia, porque não aceitou, se opondo, que o de suyo – de seu-, fosse traduzido por ex se. Porém, aceitou a transcrição do de suyo na tradução inglesa, porque não haver nela linguagem apropriada. Não é assim que sentimos desde o início a tradução para o português, que embora com menos bases linguísticas que o espanhol, sim o podemos traduzir por de seu. Este texto visa um entendimento adequado da realidade como de suyo, não como ente submetido a lógica que mantém a dualidade humana.

Para entrar melhor nessa compreensão da linguagem de Zubiri nada melhor que remeter-nos a Diego Gracia em 2016 no Prólogo a O que a inteligência? Ele fez esse prólogo para o nosso livro sobre a palavra central do pensamento de Zubiri: realidade. “quando começamos a ler (os livros de Zubiri) imediatamente acreditamos saber de que se está falando. Real é um termo que na linguagem ordinária se opõe ao ideal… a expressão não unívoca… Isto é algo que não é fácil entender, e que tem confundido inclusive a maior parte de seus intérpretes… Que significa isto? Estamos supondo que o leitor é espanhol, porque em caso de pertencer à outra área linguística o desconcerto será muito maior. Por isso os autores deste livro tiveram o cuidado de incluir uma nota justificando sua tradução para o português por “de seu”),

 “Nota de esclarecimentos sobre a tradução brasileira da alocução “de suyo” por “de seu”

 (in O que é a inteligência? Filosofia da realidade em Xavier Zubiri. Editora Lumem Juris, Rio de Janeiro, 2016, p. 203-212)

Por José Fernández Tejada e Felipe Cherubin

No fim do ano de 2012, celebramos 50 anos da publicação de Sobre a Essência, de X. Zubiri. Nessa obra, finalizada em 1962, encontramos de forma elaborada e definitiva, uma locução usual na língua espanhola – “de suyo”. Essa locução, filosófico-metafísica constitui o centro da elaboração e do entendimento de todo pensamento metafísico do autor. Nela, Zubiri apoiou toda a construção e sistematização de sua metafísica da realidade.

Na edição da Trilogia Senciente, realizada em 2011, “o editor e sua equipe, após criteriosa avaliação, optaram pela expressão ‘de seu’”, “a fim de expressar, em português, a propriedade filosófica do termo, tal como Zubiri o fez em espanhol”¹. O tempo passou e, hoje, continuamos estudando Zubiri, numa releitura teimosa da força que encerra Sobre la esencia. Nele, livro singular e de difícil leitura, encontramos, definitivamente, o fruto de um período de quase 20 anos de um minucioso e laborioso pensamento, uma complexa e radical concepção de realidade. Uma concepção que deve ser entendida enquanto uma formalidade; um modo no qual as coisas quedam e se impõem à inteligência humana (inteligência senciente) no momento em que são apreendidas. Para entender o que e como essa formalidade é concebida no pensamento do autor, é necessário a análise, dentre outros muitos de um termo em especial; o de suyo.

Embora o termo brasileiro de seu não tenha a mesma história linguística do termo espanhol, -nós o teremos que estudar,- ousamos partir de um longo estudo, discussão e reflexão, incluindo a dicionarização no Aurélio e Caldas Aulete, dar a ele a mesma categoria filosófica que Zubiri deu ao “de suyo”. Esta nota, dessa forma, tem a intenção de dar suporte contextualizado à decisão de traduzir o de suyo pelo de seu e mostrar que, apesar de não muito usual, sua expressão existe em português com a mesma força linguística².

Porém, para adentrar-nos nos detalhes da tradução deste termo de X. Zubiri, devemos ter em conta o cuidado de analisar como foi, de forma técnica e contextualizada, o que ele significa no conjunto da obra e pensamento do autor. Alertamos que, embora Zubiri tenha dialogado de forma intensa com a tradição filosófica, incluso a tradição escolástica, ele não tinha, no seu pensamento e nas suas terminologias, qualquer intenção de conceber o real como algo absoluto ou como substância³. Dentro da filosofia da realidade, o de suyo é “um dos conceitos metafísicos mais genuínos e mais fecundos da filosofia de X. Zubiri e tudo o que implica a expressão simples e sutil de suyo, quando usada no mais puro rigor técnico (4) (grifos nossos).

A filosofia de Zubiri é radicalmente uma filosofia da realidade (reologia). Rafael Martínez Castro comenta assim: “De suyo é a expressão capital dessa “filosofia” que orienta a investigação, a salvo de qualquer suposto ‘realismo’ tradicional. O problema se encaminha através da análise da substantividade” (5). Carlos Baciero (6) abordando os múltiplos desdobramentos que a realidade no autor esconde, afirmou: “a realidade, é primária e formalmente o de suyo. Qualquer outro ponto de vista que pretendamos considerar na realidade, está supondo, inclusive para manter este ponto de vista, o de suyo”. L. Wessell, mesmo fazendo críticas a Zubiri, reconheceu: “em última análise, não há nada que possa dizer- se sobre o que é realidade na filosofia de Zubiri, senão que é de suyo” (7). A. Ferraz Fayos, ao falar da presença física das coisas na apreensão intelectiva, escreveu: “Esse caráter – de suyo – determina radicalmente a condição de real para Zubiri, e se supõe em tudo aquilo que é real” (8) .

O próprio Zubiri expressou essa radicalização do de suyo de forma sucinta e clara: “realidade é o que, formalmente, constitui isso que chamamos coisas. As coisas começam e terminam donde começa e termina o de suyo” (9).

Dessa forma, foi sobre o eixo central do de suyo, cunhado em Sobre la esencia, e repetido a todo o momento ao longo de todas suas obras, que se deu o elemento radical da filosofia de Zubiri. Diego Gracia resumiu a seguinte tese geral presente em Sobre la esencia: “a realidade, não é ‘em si’, nem ‘para si’, nem ‘em mim’, senão que é ‘de suyo’” (10)

Sobre la esencia: a radicalidade do de suyo como substantividade do real .

Para elaborar a sua proposta filosófica, Zubiri partiu da linguagem comum, como todos os filósofos o fizeram, para expressar uma formulação filosófica. A expressão de suyo tem todo um significado histórico em espanhol. Ela aparece, com toda força, em Cervantes, Frei Luis de León e Santa Teresa. Também pode ser encontrada na novela anônima e picaresca El Lazarillo de Tormes (11). Ela também guarda relação com a língua materna do autor – o euskera –, com a expressão usual berez  (12) com o mesmo significado da expressão em espanhol (13).

Em Sobre la esencia, o de suyo aparece em sua plena maturidade metafísica para abordar sobre as determinações e características do que seria a realidade (14) Zubiri, ao introduzir pela primeira vez o de suyo, afirma:

“Conforme tenho falado há muitíssimos anos, a coisa me é presente como algo de suyo. A a-realidade, consiste formalmente em não envolver este momento do de suyo, senão, ao máximo, o momento de independência. Independência não é outra coisa que mera extra- animidade. A realidade, pelo contrário, é a coisa como algo de suyo”  (15).

Nós não temos a informação exata de onde provém a referência “de muitíssimos anos”. Com certeza, se refere aos seus diversos cursos ocorridos desde 1945, com Ciencia y Realidad. Introducción al Problema de la Realidad. Nessa época, deixando sua inspiração fenomenológica da Lógica da Realidade, Zubiri se adentrou e constituiu “a etapa rigorosamente metafísica” do seu pensamento. Ele buscava uma “filosofia pura” como algo originário. De uma lógica como uma construção mental, como um caminho expositivo de conceituações, Zubiri mudou o foco para uma descrição de raiz fenomenológica do ato da inteligência. Essa mudança, aparece em Sobre la esencia, quando Zubiri introduziu, pela primeira vez, o termo de suyo, articulando as características da apreensão intelectiva humana.

Vejamos como Zubiri expressou essa radical preocupação:

“Conceber, não é a maneira primária e fundamental de enfrentar-nos intelectivamente com as coisas”406. O homem tem modos distintos de apreender as coisas. “Um é sentindo-as, e, nisto, comparte o homem univocamente a condição do animal (…). Mas o homem tem outro modo de apreender as coisas: apreendendo-as como realidade. É a apreensão intelectiva” ( 17).

Então, realidade não é sinônimo de extra-animidade. Por conseguinte, o dualismo decisivo, não é o dualismo ‘objetivo-extraobjetivo’, senão o dualismo ‘estímulo-realidade’” (18) Zubiri, portanto, apresentou as formalidades pelas quais uma mesma coisa é apreendida intelectivamente e me está presente, embora de um modo formalmente distinto. Comentou o autor:

“A coisa se atualiza na inteligência, se apresentado intelectivamente, como sendo de suyo, antes de nos estar presente (…). Primariamente, não se trata de conceber assim as coisas, senão de enfrentar-se apreensivamente com elas, segundo a formalidade de realidade. Realidade é esse de suyo das coisas. Certamente, esta não é uma definição, mas uma explicação. Toda explicação coloca o explicado noutra linha. No caso da realidade, tem se colocado na linha dos conceitos. Aqui, pelo contrário, colocamos a realidade na linha do enfrentamento imediato com as coisas. E nesta linha, a realidade é o de suyo” (19).

Não se trata de saber ou conhecer para conceber a realidade, mas de apreendê-la, uma vez que ela está presente pelas notas – de suyo – que possui.

Assim sendo, para melhor alicerçar o porquê da nossa tradução, precisamos entender, antes    de seguir adiante, como foi o envolvimento linguístico e filosófico de Zubiri, ao elevar a expressão de suyo a uma dimensão filosófico-metafísica. Para isso, necessitamos partir do ponto radical levantado por Zubiri: o homem enfrenta-se com as coisas (com ele mesmo e com o meio), que estão presentes e devemos dar conta delas. Mas, o que é o estar presente das coisas? Como nos é possível enfrentá-las?

Zubiri, ao apresentar o âmbito do essenciável (capitulo sétimo de Sobre la esencia (20) apontou que devemos notar que as coisas estão aí. Mas, o que é que acabamos por notar e que possibilitam que as coisas assim o sejam? O homem chega às coisas pelas notas que elas possuem. E, nelas, notamos que há uma “necessidade formalmente real”, pela qual as coisas se apresentem tais como são – formalmente possuidoras de notas. E isto é devido, pois há uma unidade primária e constitutiva; um sistema formal, na qual a coisa é uma realidade substantiva. Explicou Zubiri:

                “Esta coisa, enquanto substantiva, é o sistema mesmo; não existe “outra coisa” oculta trás dele. As notas são “momentos” reais daquilo que fisicamente está se atualizando nas notas das coisas, e estas notas, enquanto unidade primária, são o próprio sistema; ou seja, a substantividade das coisas mesmas” (21).

As notas das coisas têm um caráter constitutivo ou respectividade. A respectividade de várias realidades substantivas constitui o “mundo”. Existe algo primário e crucial; uma respectividade interna das notas, que as remete a uma mesma realidade substantiva. É isto que constitui o sistema, onde cada nota é “intrínseca, formal e constitutivamente notada”. Vejamos como Zubiri explicou seu achado:

“Na substantividade ou sistema, cada nota possui um caráter constitutivo genitivo (não substantivo) e um caráter nota-de (mais gramatical), expressando que cada nota é, física e realmente, de algo; das coisas que constituem e estão no mundo. Nesse caso, não há uma respectividade conceitual, relacional ou anexada. Em Sobre la Esencia, Zubiri apontou os limites das filosofias clássica e moderna, a partir do conceito de essência, tidos pelo autor como concipientes. Para superá-los, através da via senciente, ele propôs “um órgão conceitual adequado” (22).

Mergulhando no logos do saber essencial do homem sobre a realidade, e querendo superar o logos concipiente, o filósofo detectou três formas linguísticas: o logos predicativo, o logos ante-predicativo ou nominal e o logos nominal construto. Os três não se excluem. No entanto, as diferentes linguagens os usam de forma distinta para poder nominar as coisas. As línguas indo-europeias, empregam somente a flexão nominal e o regime preposicional.

“Outras línguas, por exemplo, as românicas, empregam somente as preposições. As línguas semíticas, empregam tanto a flexão como as preposições e o estado construto. Outras, perderam a flexão nominal e empregam somente os dois últimos recursos” (23).

Zubiri reconhecia que todas as línguas expressam as coisas por nomes para “falar de sua realidade”. Mas, quando tomadas em sua especificidade, se expressam nominalmente de distintas maneiras. O autor destacou que: “Em alguns momentos, a linguagem expressa as coisas conexas mediante nomes morfologicamente construídos uns sobre os outros, de sorte, que a conexão se expressa mediante a unidade prosódica, fonética e semântica de dois ou de vários nomes.

É o que Zubiri chamou de estado construto” (24). Nesse estado, ao contrário de outras construções, os nomes ocupam um lugar definido na frase, sem poder separar-se; nesse ponto, transparece um novo aspecto de realidade:

“Na flexão nominal e no regime preposicional, uma coisa está sendo, tanto acentuada em e por si mesma, como está sendo modificada intrinsecamente, como se relacionando extrinsecamente. No estado constructo, o real é conceituado como um sistema unitário de coisas, as quais estão construídas umas segundo as outras, formando um todo entre si. Aqui, o primário não são as coisas, senão a unidade do sistema. A conexão não é, nem flexão nem relação, senão sistema intrínseco” (25).

Portanto, encontramos o logos nominal construto; o adequado órgão conceitual que Zubiri buscava para dar o tratamento metafísico do real como uma formalidade – de suyo. Comentou o autor:

“Eis aqui, o órgão conceitual adequado que buscávamos para nosso problema: o logos nominal construto. A essência (realidade) não pode ser conceituada, nem em função da substância, nem do sujeito absoluto, nem em função da definição, nem em função relacional, senão em função da “construtividade” intrínseca”  (26).

Dessa forma, não se trata de um genitivo indicando uma relação nominal, na qual exista um sujeito que pertença à uma coisa ou a algo absoluto, mas, sim, de um genitivo, que nos leva a apreender e conceituar a estrutura da realidade, expressa na respectividade interna de cada nota do sistema. Notas que possuem um caráter físico (‘construto’), enquanto realidade. Por isso que na sua expressão nota-de, o de não é um genitivo gerador de algo ou mesmo modificante, senão construto.

Zubiri explicou e caracterizou linguisticamente o de suyo:

“Como em espanhol não há flexão nominal, tenho usado a preposição de unida com um traço” (27), (….) “não se trata, pois, de uma mera descrição ou ilustração linguística, senão de uma estrutura real e física, independentemente das vicissitudes da expressão gramatical” (28).

Este é, portanto, o problema estudado em Sobre la esencia. Zubiri usou a expressão e a força linguística do de suyo, caracterizando a formalidade de realidade, para expressar a sua filosofia da realidade. Igualmente apontou, na crítica e radicalização dos diversos logos, a descoberta e a inspiração de “um novo e original aspecto da realidade” (29)– o logos constructo. E é nessa base que nos apoiamos para apresentar o de seu, em português, com a mesma força filosófica. Justificamos essa opção pelas seguintes razões:

“Primeiro, porque toda a filosofia ocidental tem as mesmas bases e expressões conceituais, que foram elaboradas para explicar o que são as coisas, ou seja, o que é a realidade. Zubiri sempre as teve em conta e viu, na sua elaboração, a falta de algo mais originário que pudesse dar-lhes fundamento. Segundo; o sentido de propriedade que as expressões suyo e seu (espanhol e português) possuem respectivamente. Elas indicam o que cada coisa possui; o em próprio de cada coisa (30). Terceiro; tanto a língua espanhola como a portuguesa, têm como base, na sua cultura, artes, filosofia e literatura, a língua latina, com seus sentidos e terminologias próprias.

Quarto, Zubiri pretendeu restaurar a vida intelectual e filosófica dando um giro metafísico (não hermenêutico ou linguístico). Ele partiu da formalidade da realidade, ou do de suyo, para restabelecer a via viva do homem como animal de realidades. Nessa busca, a realidade, para o autor, não era algo subjetual, conceitual, estático e passivo, mas, sim, uma força, uma estrutura, um sistema constitutivo; uma noérgia substantiva, dentro de uma espécie de campo. O de suyo aparece, nominal e tecnicamente, na elaboração do autor, como algo presente, constituído de notas, que, pela sua respectividade talitativa, funda a ordem transcendental das coisas. A realidade é a alteridade das coisas presentes, que possui algo que lhe é próprio, enquanto intrínseca formalidade. Nessa intenção, o de seu surge, uma  vez que os possessivos, quando “substantivados”, expressam, no singular, que pertencem ou são propriedade de alguém. Aqui radica a maior argumentação para a nossa decisão de traduzir o de suyo pelo de seu: “o real qua real, pertence-se a si mesmo. O real, como um de suyo, é assim um seu” (31).

Podemos, finalmente, concluir que a língua portuguesa, na sua expressão de pronomes possessivos, tem a mesma base linguística e conceitual que as notas das coisas que pertencem e são próprias de uma espécie de sujeito radical. O que melhor expressa essa constatação, é o sinônimo zubiriano do em próprio, sobre o qual não houve divergências na tradução. Zubiri superou a “substantivação” do sujeito, pela substantivação da realidade, como formalidade de seu, à qual se referiu; conseguiu tal superação, ao proporcionar-nos, na busca radical, um órgão conceitual adequado para oferecer uma nova conceituação de realidade.

A partir de sua descoberta, inspirado de como as línguas semitas nomeiam as coisas, descobriu o logos construto, pelo qual chegou ao de suyo. O mesmo órgão conceitual cabe no esforço de buscar a melhor expressão em português, ao traduzir toda a riqueza filosófico-metafísica do de suyo e transferi-la para o de seu.

Notas:

1. Nota da edição Brasileira da Trilogia Senciente. in X. Zubiri. Inteligência e Realidade, p. xlvii.

2. “Na tradução inglesa (1980) de Sobre la esencia e, depois, de Trilogia da Inteligência

Senciente, os tradutores mantiveram o “de suyo” em espanhol, por não ter locução

semelhante em inglês. Na tradução para o alemão (1968) foi utilizado o termo ex se. Zubiri não

aprovou essa tradução, por ter dado uma interpretação escolástica do texto. Cf. nota 3 para

uma abordagem mais ampla sobre o significado do “de suyo” para Zubiri, na visão de Carlos

Baciero.

3. No texto Conceptuación metafísica del “de suyo”. C. Baciero (1974) fez uma detalhada

análise das possíveis conceituações que podemos fazer acerca do “de suyo”. Na primeira

parte, Aproximação Nominal, o pesquisador, seguindo a argumentação de Zubiri em Sobre la

esencia, negou que o filósofo tenha usado a tradução dos termos latinos per se, a se, de se, ex

se para expressar o de suyo. Esses termos pertenceriam ao patrimônio de toda a tradição

filosófica e possuem significados formais distintos. “Poderia parecer, no entanto, que todos

eles se englobam de uma maneira indiscriminada na tradução do de seu, com o que esta

noção ficaria afetada por uma intrínseca e irremediável ambiguidade”. Não é assim que as

entendeu Zubiri e expressamente as descartou, uma a uma, dando-lhes o devido sentido, para

explicar o de “suyo”. E continua Baciero: “É bem verdade que, no fundo desses diversos

sentidos atribuídos ao de suyo, repousam transcendidos por ele como sua última explicação, o

sentido técnico e estrito, em cuja perseguição e análise estamos empenhados. Todos eles

encontram-se ultimamente no radical sentido do de seu”. Portanto, complementou que Zubiri

não só os descartou, como os analisou um a um, para dar a devida explicação e caracterização

técnica da sua proposição do “de suyo”. Imbuído desse sentido de análise, Baciero se adentrou

no tratamento metafísico do de suyo, através das vias da “atualização intelectiva humana”, da

“ulterior determinação metafísica do de suyo”, da “essência e o de suyo”, e, finalmente, da

“estrutura do de suyo”. Esse texto de Baciero em muito nos ajudou na nossa busca de

fundamentar a tradução do “de suyo” para o português.

4. C. Baciero. Conceptuación metafísica del “de suyo”. In Xavier Zubiri. Seminario REALITAS II. Trabajos: 1974- 1975. Madrid, Sociedad de Estudios y Publicaciones, 1976. (313-350), p. 313.

5, R. Martínez Castro, R. La metafísica de Zubiri: una especulación sobre la sustancia. In J.

A. Nicolás y Óscar Barroso. Balance y perspectivas de la filosofia de X. Zubiri. Granada, Editorial

Comares, 2004. p. 160.

6. C. Baciero, C. Op. Cit. p. 338. Conceptuación metafísica del “de suyo”. in Xavier Zubiri.

Seminario REALITAS II. Trabajos: 1974-1975. Madrid, Sociedad de Estudios y Publicaciones,

1976. (313-350), p. 338.

7. Wessell Jr, L. P. El realismo radical de Xavier Zubiri. Valoración Crítica. Salamanca,

Ediciones Universidad de Salamanca, 1992. p. 109

8. Ferraz Fayos, A. Zubiri: El realismo radical. Madrid, Editora Cincel, 1988, p. 129.

9. Zubiri, X. SE, p. 413.

10. Gracia, D. Apresentação. In Estructura Dinámica de la Realidad, p. iv.

11. Marquínez Argote, G. Genealogia de la palabra realidad. Aproximamiento literário a la

metafísica zubiriana. In Cuadernos de filosofia latino-americana. (Bogotá) no-56-57. 1993, p. 9 e

14.

12. Zubiri aprendeu a falar em euskera, utilizando-a até os seis anos. “Como diz o próprio

Zubiri, somente em euskera berez, ele poderia encontrar um equivalente para melhor traduzir

uma noção tão importante como “de suyo”. “Este conhecimento de uma língua semi-

aglutinante (euskera), lhe serviu de base para aprender com facilidade outras línguas

aglutinantes, como o sumério”. J. Corominas e J. Albert Vicens. Xavier Zubiri. La Soledad

sonora. Madrid, Taurus, 2006. p. 30.

13. “Há várias hipóteses sobre a origem deste modismo” (“de suyo”): Zubiri já o usava nas

aulas antes de 1933. Ellacuría afirma que vem da expressão vasca, berez. Diego Gracia

entendeu que Zubiri teve a ideia ao traduzir as Disputaciones de Suárez e tentou traduzir ao

espanhol a expressão latina ex se, embora Zubiri não tenha aprovado na tradução alemã, o de

seu pelo ex se. Marquínez Argote documenta o uso em El Quijote” Cfr. J. Corominas e. Op. cit.

P. 748.

14. De suyo só aparece, entretanto, nas páginas 394-402, muito embora o tratamento

acerca da realidade se dê nas páginas 103-108. Diego Gracia comentou a situação indicando

que o termo aparece também no capítulo 9 (“tal vez de modo algo artificioso”) e ao longo do

artigo 3º-“Essência e Realidade”, no qual Zubiri tratou dos aspectos referentes de como se faz

a apreensão intelectiva humana e como define os seus conceitos básicos da sua filosofia

primeira – “talidade” e “transcendentalidade”. “Aqui é, também, onde aparece pela primeira

vez o termo de suyo”.

15. Zubiri, X, SE, p. 394

16. Zubiri, X. Op. cit. p. 391

17. Zubiri, X. Op. cit. p.391.

18. Zubiri, X. Op. cit. p. 393.

19. Zubiri, X. Op. cit. p.394-395.

20. Zubiri, X. Op. cit. p. 103-108.

21. Zubiri, X. Op. cit. p. 146-147.

22. A proposição de Zubiri era o logos nominal construto; peça principal, segundo o autor,

para superar aquilo que chamou de inteligência concipiente. Zubiri fez essa descoberta na

década de 30, durante sua estadia em Roma e Paris, ao estudar línguas orientais e semitas.

Isso possibilitou a sua etapa metafísica, com o estabelecimento do logos nominal construto na

expressão espanhola de suyo. Nela, o autor, não só se distanciou para sempre do modelo

clássico expositivo de fazer filosofia, como criou o seu próprio método, utilizado em todas as

suas obras, de uma forma descritiva construta, pela qual abordou todos os seus temas. Em

Sobre la Esencia, esse método transpareceu enquanto uma estrutura rígida, usada para

descrever as notas constituintes da realidade (sistema). Na obra Inteligência Senciente, o logos

construto possui um caráter dinâmico, uma vez que descreve as notas enquanto uma

realidade que se atualiza.

23. Zubiri, X. Op. cit. p. 355.

24. Zubiri, X. Op. cit. p. 354.

25. Zubiri, X. Op. cit. p. 354-355.

26. Zubiri, X. Op. cit. p. 355-356. Cf, também, o trabalho de Ricardo Espinosa Lolas: El

logos nominal constructo en el pensamiento de Zubiri. The Xavier Zubiri Review, n. 3, ano

2000-2001. http//www. zubiri.org/, p. 121-133.

27. Zubiri, X. Op. cit. p.290.

28. Zubiri, X. Op. cit. p. 293.

29. Zubiri, X. Op. cit. p. 354.

30. Exemplos: 1) “Comunidades Negras dos EUA buscam Papai Noel para chamar de seu

Título da notícia do UOL, por Marcelo Ninio. 25/12/2015. Acessado no mesmo dia. 2) “Um

emprego público para chamar de seu”. Título da notícia do Cad. Boa Chance, do O Globo,

8/3/2015, p. 1.

31. Zuburi, X. Op. cit. p. 484.

Os problemas do estilo e da linguagem “na recepção brasileira” do pensamento de X. Zubiri.(Parte I).

Nota. Fazendo o percorrido filosófico de Zubiri não podemos de não lembrarmos da experiência que tivemos na primeira leitura, como acontece até hoje tentando apresentar Sobre la esencia. Achamos oportuno enfrentar esse problema. Esta obra é a central, e a partir de sua elaboração, Zubiri chegará até a Trilogia senciente. Já iniciamos a dar mais cuidado a esta situação com a publicação de D. Gracia em 2016: Zubiri um pensador difícil de ler. Ler Zubiri nessa obra é assistir ao difícil e grandioso parto de sua inspiração nascendo fundamentada. Assim dedicaremos as três partes subsequentes a esclarecer e ajudar você nesta empreitada filosófica.

1.-Introdução depois de 30 anos. Qual é “a dificuldade” e cativação do pensamento filosófico de Zubiri?

Por José Fernández Tejada.

Depois de mais de 30 anos estudando Zubiri, pensamos que podemos nos manifestar sobre o que o fazia pensar na sua terra maltratada, mas “de sol e de luz” e irradiá-lo para nós brasileiros que moramos numa “terra de luz e calor”, quer dizer de pessoas que continuamos pesando. Aproveitamos, neste ponto de partida, o que ele diz sobre a situação da época de Hegel: “de uma época que esteve prestes a não amalgamar os indivíduos senão deixando-os incomunicados” (NHD 176). Diagnóstico que hoje ainda nos define, e continua fazendo-nos sofrer: comunicados pelo progresso e tecnologias, coloridas e mais velozes pela internet, mas cada vez mais incomunicados como pessoas no meio da realização pessoal, social e histórica.

Porém, também, o jovem Zubiri seguidamente não se amedronta com essa triste leitura do mundo, nem com Hegel filósofo, porque tem a convicção de que “a história da filosofia não é cultura nem erudição filosófica. É encontrar-se com os demais filósofos nas coisas sobre as que se filosofa” (id. 256). E todas as coisas são o nosso médio, que são a nossa casa, e, também encontramos “homens filósofos brasileiros”, que “ao sentir-me (nos) só, aparece-me (nos) a totalidade de quanto há, enquanto me (nos) falta. Na verdadeira solidão, os outros estão mais presentes do que nunca”. E quando nos sentimos desanimados e como sós na tarefa humana, pois não queremos ser eremitas intelectuais”, ele nos lembra: “a solidão da existência humana consiste num sentir-se só, e por isso defrontar-se e encontrar-se com o restante do universo inteiro” (id. 275).

Assim Zubiri, ele tinha 21 anos, se vai posicionando na sua tese de doutorado em Louvaina e Madri, sobre essas preocupações filosóficas de não aceitar explicações e argumentos e buscar como bom ser humano e filósofo, um estudo mais profundo de unir o pensar e o viver diante das formas em uso. Assim, enfrenta o objetivismo idealista da modernidade, que fazia sucesso na Europa e levou Brentano, que inspirou Husserl, para a descoberta da fenomenologia. Husserl se deparou com os limites dela, porém, nos deixou essa herança humana da buscar novos fundamentos para pensar livremente.

É interessante deixar claro que esta reflexão juvenil é o ponto de partida de Zubiri, questionando já os desvios encontrados e criticando elaborou sua proposta de que a realidade é antes do ser. E o faz inicialmente alertando sobre os fundamentos objetivistas da consciência. Neste embate vemos como ele se posiciona frente aos gigantes da filosofia clássica e moderna.

Uma coisa nos chama a atenção desde esse momento dele de como estuda e fala dos filósofos, não os cita como referências bibliográficas, mas os “sabe de cor”. Isso o sentimos nas suas leituras onde encontramos apenas duas únicas e longas notas de rodapé em toda sua elaboração: sobre a “verdade” (NHD) e sobre o “físico” (SE). Pois bem, isso não foi casual ou rebeldia. Era já a marca de fazer filosofia e de ensinar a filosofar. No prólogo da tese de doutorado Ensayo de una teoría fenomenológica del juízio (Universidad Central, Madrid, 1923), explica o porque não faz as citações: “para evitar dificuldades materiais tenho omitido de propósito toda cita no curso do trabalho; em cambio tenho dado no início “algumas indicações bibliográficas” (contadas somam 101 indicações, desde os autores Achi a Ziehen, quase todas em alemão e francês). Esse comportamento, de que o leitor tem necessidade dessas leituras prévias, foi até em Inteligência senciente, e por isso seus alunos e discípulos, na faculdade e depois nos cursos, falam que Zubiri parecia jogar a todos, sem prévios avisos, no afazer filosófico.

Vale a pena lembrar como ele se enfrentou com os responsáveis do confuso juízo para pensar e viver. Assim, reconhece que os problemas do juízo, “quase sempre ligado ao problema da verdade”, faz um percorrido de como ele tem dominado as filosofias desde Aristóteles até a modernidade. O juízo, resumido para Aristóteles, é a definição. Para as teorias modernas o juízo se fundamenta essencialmente no subjetivismo psicológico, que com Galileu e Descartes se torna num “conceitualismo e terminismo”, pois só o mundo mecânico e geométrico tem valor. “O mecanicismo moderno é essencialmente idealista”. “Assim se tem consumado a longa crises preparada desde começos do século XV: o mecanicismo, matemático e idealista a base de uma teoria subjetivista” (p. 19).  Depois desmascara Kant, que defende a teoria da objetualidade, onde a síntese do a priori da consciência é o juízo, subsumindo o diverso da intuição num conceito” (id. 21).

Assim, o jovem Zubiri se posiciona: “O sofisma de ambos os sistemas estriba em raciocinar assim: Todo o que não é real não é ser. E, todo o que não tem mais que o ser do sujeito não pode ter mais que um valor subjetivo” (id. 22).

Mas, não fica nisso, porque a teoria leibniziana da apercepção –fundamentada na Aritmética e a Álgebra- é aplicada à vida psíquica. Aqui a falsa ponte. Então essa teoria mecanicista construí a biologia como determinismo biológico da evolução do ciclo vital. Por isso, “o domino original e obscuro da consciência, objetivo das ciências psicológicas” (id. 25). “Tal é a grandes rasgos, o esquema da ciência a mediados do século XIX. Sua evolução ulterior vai a ser a história de sua crises mortal” (id. 25).

Esta base da crise mortal, diz Zubiri, vai obrigar o filósofo a “adotar novas posições intelectuais”, porque “a ciência moderna nasceu da interpretação subjetivista e cosmológica da matemática (id. 36). Essa leitura que vai fazer Brentano e Husserl, abrindo a fenomenologia, que tenta ser o melhor da objetividade-de, porém acabam formulando como consciência-de, deixando a realidade fora como resíduo. Sendo a consciência uma faculdade autónoma da objetividade, deixando sem perguntar o de que. Sempre o essencialismo que todo justifica sem discutir o que está detrás do ser, o que as coisas são, o que está detrás, ou melhor, dentro dos objetivismos e das consciências. Ainda, as destacam com o de, porém não das coisas, para enfatizar “essencialisticamente” a absoluta autonomia dessas faculdades.

Zubiri se situa nesse “âmbito ambivalente”, – a profundidade nos fatos, porém, voltando-se a se fundamentar na essência da consciência- da fenomenologia. Contudo deixa muito claro na sua forma de filosofar, que é “ser professo da filosofia”, não professor para ensinar senão para pensar o que está além do ser, para a realidade que atrai a todos e é de todos.  Sente que as necessidades filosóficas não estão satisfeitas com essa crítica da situação em que nos encontramos que pode e deve ser pontual, e afirma: “o que vai obrigar o filósofo a buscar tal situação e obrigar-se a adotar novas posições intelectuais” (id. 26). Por isso Zubiri nos apresenta no seu pensar e na busca filosófica como elaborar de maneira especial essa empreitada.

Nos hoje nos sentimos semelhantes à situação que Zubiri enfrentou. A realidade, e não os conceitos é a nossa casa, nosso oikós, a realidade do brasileiro, no meio do horizonte intramundano, porém experimentamos que querem que sigamos suas sabedorias soltas de nossa realidade, num horizonte que não é o nosso. Como isso daria certo?

Temos a experiência de que todos somos seres humanos. Porém, temos a experiência milenar de que nos trataram com os “poderes” da lógica, comparados aos do ente, que desenvolveram mais a subjetividade que a nossa rica e complexa realidade da substantividade real que somos. Com o correr do tempo, de desvio em desvio da “sabedoria humana”, sempre deles, fomos medidos pelo eu penso, pelos a priori e pelos conceitos absolutos. Transformaram-nos freneticamente em deuses a custo de tirar-nos a humanidade. E pela sabedoria, feita só tecnologia instrumentalizadora, insistem em tornar-nos máquinas, robôs, pura fisiologia ou puros algoritmos, que idealizada pelos “sábios de plantão”, nos transformaremos em transumanos. E a onda sofista hoje não parará de sugar-nos para nos ensinar evoluirmos para “zumbis transmundanos”. Nós dualizam para sermos melhor dicotomizados. A sabedoria feita conceitos se soltou num “frenesi especulativo”, só com a boa intenção de colaborar pagando impostos para a eles e sermos cobaias suas para mantê-los no falso poder de suas sabedorias.

 O homem segue se sentindo com os pés na terra. E isso unicamente porque não somos jogados de qualquer forma na vida, mas como dom doado, que se vai comunicando, e por isso comungando essa realidade humana com todos e em todos os lugares e tempos. Temos experiência de que assim temos uma autonomia quase total para realizar esse dom, que nos leva a superar os obstáculos e problemas do existir e do acontecer, dificuldades que podemos superar, porque não são jogadas pelas “boas sabedorias”. Essa ajuda para viver entitativamente nos tira “a pele real”, a constituição humana de cada um de nós. Somos maltratados, pela sabedoria de nossa inteligência dominada e deturpada, que nos rouba a nossa dignidade, no lugar de iluminar o caminho humano.

Temos resumido o suficiente zubirianamente, os dilemas das inquietações reais que hoje vivemos. Essa queixa, que muito tempo nos remove, encontrou apoio no homem e filósofo X. Zubiri. Esse encontro, ocasional para nós no mestrado, foi benvindo fazendo-nos ver que “muitas sabedorias” construíram um andaime puramente conceitual, que acabou entificando a realidade, no lugar de realizá-la.

Então, como ter um melhor entendimento dessa situação repetitiva de conceitos sobre conceitos soltos por essas sabedorias? Como aprofundar isso?  Como será o saber realmente humano para construir o novo andaime real que procurávamos? Como interpretar a proposta senciente de Zubiri entendendo, interpretando, pensando suas elaborações sistemáticas que nos ajudassem a viver no nosso horizonte intramundano? Como escrever tal inspiração com os pés no chão em português, que não é minha língua materna, mas que falamos, ou tentamos falar, mais de 55 anos de moradia no Brasil? Não tivemos reparos de enfrentar essa barreira. Em definitiva, somos iguais no mundo, nascidos de pais situados nos mais diversos lugares da terra.

Conseguimos esse despertar quando nos debruçamos na primeira obra dele Natureza, História, Deus no mestrado. Era uma forma nova de encarar os problemas fundamentais do ser humano. E revelavam uma ousadia a realizar. Nela conseguimos seguir seus pensamentos e raciocínios, sempre abertos porque incoavam novos pensamentos. Um primeiro impacto diferente diante da confusão de todo tipo de sabedorias: identificamo-nos com isso, com o estilo e formulações próprias e cativantes, que atiçavam nossas preocupações. Por isso, fomos seguindo lendo e relendo com dificuldade e entusiasmo suas obras. Porém, reparamos que em Sobre la esencia falava o mesmo, mas de outra forma de estilo e rigor.  Parecia que estávamos caindo em lógicas de puros raciocínios, em invenções de puro probabilismo, em tratados pesados e infecundos. Por que tínhamos a ideia de que o
problema do gênero do tratado é gastar nosso raciocínios? Todavia, não dava para interpretá-lo dessa forma. Suspeitamos a grandeza desse novo caminho filosófico-metafísico, bem diferente dos que nos teimavam iluminar. Lemos e relemos seus pensamentos desafiadores. Em Inteligência senciente ficamos mais tranquilos, porque nos falava do mesmo, entretanto com uma clareza e precisão de pensamentos que nos conquistaram de vez na vida e em nossas pesquisas. Zubiri nos oferece mais claramente todo o fruto de sua inspiração inicial. Assim, podíamos construir um andaime senciente inteligente, real para nossa vida real.

Mas, ficava sempre a pergunta: seria possível volcar para o pensamento português e brasileiro, tal ousada e inédita empreitada? Não o duvidávamos, porque se tratava de captar os fundamentos reais de problemas reais, da vida real do homem real em todos os lugares que nasceram. Dessa constatação da experiência de todos, não podemos ter nenhuma dúvida.

Não é nosso propósito fazer um trabalho mais profundo, portanto mais extensivo e acadêmico, sobre este tema que a leitura de Zubiri nos levanta, como o foi de todas as propostas filosóficas, quando chegaram aos outros países. Vamos fazer um pequeno rascunho (que nos pode servir para desenvolvê-lo mais tarde) para destacar o problema dos gêneros literários, de sua ligação com o senso comum, e de suas elaborações filosóficas, desses termos sugados do povo para dar-lhes um rigor e abrangência filosófico-metafísico.

Os leitores de Zubiri são unânimes, como nos resume Francisco González de Posada: “a obra de Zubiri considera-se difícil e de muito fastidiosa leitura, tem fama de exigir uma trabalhosa e árdua compreensão e de ser de muita difícil compreensão. E, isso, ainda porque está demorando sua entrada nas redes da filosofia oficial e profissional”. (Xavier Zubiri Inteligência senciente, Edição abreviada por Francisco González de Posada, Tecnos, Madri, 2004, id. 32).

Zubiri foi uma “ovelha humana e filosófica descarrilada e estranha” no campo da filosofia? Pode um espanhol fazer filosofia? Como volcar sua proposta inédita nos géneros literários e nas palavras espanholas, matrizes e categorias de sua proposta? Como ser feito entre nós? O dito até aqui é que essas perguntas nos dão base suficiente para questionar-nos da mesma forma com a presença de Zubiri no Brasil através da nossa linguagem e cultura.

Para centrar esta questão, F. González de Posada cita Antonio Ferraz, que assim afirma: “Xavier Zubiri tem produzido uma filosofia. Toda a filosofia é um sistema conceitual em que tomam corpo três ideias matriciais: a ideia de realidade, –do ser-, a ideia do conhecimento e a ideia do homem. Essas ideias são a resposta ao três problemas básicos que a filosofia se planteia e são como os eixos coordenados que permitem articular outras ideias-problemas: mundo, Deus, essência…; sensibilidade, entendimento, razão, verdade…; sociedade, história, moralidade, religião…Zubiri há configurado todas essas ideais com originalidade, ao fio de um colossal diálogo com a tradição filosófica. Há, portanto, uma filosofia zubiriana. Os eixos coordenados são suas ideias de inteligência, de realidade e de homem”  (id. 37 e Ferraz, Zubiri: el realismo radical, p. 9).   

Seguindo a apresentação de González de Posada, buscando contextualizar as raízes de sua obra, ele diz: “a física do século XX é um dos transfundos de sua filosofia, é o transfundo autêntico, o determinante de sua nova principal conceição da realidade… e sobre essa novíssima visão da física, que oferece das coisas reais, da realidade, concebe o mundo, como conjunto de coisas reais entanto que reais, estabelecendo a ordem de realidade, a ordem transcendental” (id. P. 44). Por isso argumenta: “devemos transitar pela ciência do século XX que tem iluminado umas profundas revoluções científicas, e por tanto, impõe uma drástica revolução na concepção da realidade” (id, 56). Esta será “sua ubiquação pessoal filosófica: a ‘metafísica’ da ‘realidade’” (id. 25). Zubiri, embora, criticou a ciência antiga -matemática-, que deturpou o pensar humano, agora sente a necessidade caminhar juntos e se evolverá com as ciências, de tal forma que será impossível estudar Zubiri alienando-nos das ciências. Estaremos deturpando a forças de seu pensamento. O que muitos em geral o fazem.

Pois bem, o conceito da expressão realidadetem para Zubiri, segundo González, uma abrangência inusitada filosoficamente: “uma concepção da realidade e outra concepção sobre a inteligência são os dois polos do programa filosófico de Zubiri. A realidade é o núcleo de sua metafisica, porém também origem e fundamento; … E junto a ele, devemos sinalar, destacando-as, a outra ideia fundamental: ‘na realidade estamos, ela nos possui e dela partimos inexoravelmente’ (id. 52).

Assim sendo, González expressa a nossa situação diante da leitura de Zubiri: “Zubiri não fazia caso nem às modas nem aos modos do momento –sempre efêmeros-, senão que originava outra senda, o que provocou perplexidades e abandonos –deserções- de discípulos e partidários  prévios. A suposta dificuldade intrínseca de sua obra –dificuldade baseada no sua fundamentação na ciência do século XX, (física e biologia) num estilo literário denso com usos novos da linguagem em que aparecem  excessivos novos términos e inclusive novas acepções de outros, e no plano em que se coloca sua reflexão- exigem um notável esforço, não somente para o leitor culto senão par aos profissionais da filosofia, que tem noutros autores muito a ler, explicar e difundir, presupostamente, de mais fácil intelecção” (id. 59).

Sim, parece que nos acostumaram ao mais fácil do saber, quer dizer ao mais urgente e menos preciso. Porém, como já indicávamos no caminho manipulado por sabedorias conceituais, repito, porque soltas da realidade.

Pintor-Ramos citado por González (id. 449), expõe a forma dessa configuração da filosofia de Zubiri através da constante elaboração de sua filosofia: “Porque esta obra reflui sobre os anteriores trabalhos de maturidade; agora é possível compreender melhor o encalce da “realidade”, como estrato determinante da vida humana, sua articulação interna, sua distensão e suas virtualidades para os outros problemas filosóficos. Numa última instância, o que nessas obras se desenvolve é uma nova ideia da filosofia, não apresentada como programa teórico, senão na sua plena realização” (Pintor-Ramos, A. Genesis y formación de la filosofia de Zubiri, 2ª ed. Ampliada. Universidade Pontifícia de Salamanca. p. 138).

Como aparece o tratamento preciso do eixo da realdiade na obra de Zubiri? D. Gracia nos diz : “a teses geral de Sobre la esencia é que a realidade não é “em si”, nem “para si”, nem “em mi” senão que é de “suyo”. A teses de Estructura dinámica de la realidad é complementária da anterior, e afirma que a realidade “da de si”… Portanto, não é que o “de seu” dei consecutivamente “de si”, senão que o “de seu” é constitutivamente “dar de si”. Poderíamos falar que as realidades são estruturas que “de-seu-dão-de-si’”.
(Presentación
de Estructura dinámica de la realidad, 1989, p. v). Dessa forma Gracia nos faz ver que Zubiri conhece os desvios da história da filosofia, porém não tem medo de enfrentá-la .Assim resume o embate muito duro e demorado de Zubiri para resgatar o conceito de realidade, que estava dentro do ser: não é substância, nem subjetualidade, mas substantividade do real constituído por notas constitucionais. E por isso a realidade é algo físico e constituído, não intencional,  artificial ou puramente conceitual

Apresentamos, até agora de maneira resumida e fragmentária, a profundidade e abrangência do termo realidade, porém já podemos melhor nos colocar o problema da tradução de Zubiri para o nosso português. Entendemos que este pode ser o melhor momento, depois do nossa apresentação introdutória de Natureza, História, Deus e Sobre la esencia, no blog (parte I e II de Sobre la essencia) para tocar os assuntos mais radicais de que a realidade é antes do ser: sua inspiração, o uso fundante de sua filosofia e de como podemos usá-lo dentro de nossa cultura e língua portuguesa. Em definitiva, uma das dificuldades encontradas pelos leitores em Zubiri, além de seu estilo de tratado, é a quantidade de neologismos, palavras com sentido diferente, que nem todas tiveram aceitação, porém todas elas foram formas e tentativas da linguagem espanhola de fazer filosofia. Esse esforço descomunal de Zubiri servirá e será útil e necessário para nosso afazer filosófico brasileiro? Lembramos o que Tobias Barreto respondeu ao perguntar-se: por que devíamos introduzir um novo filósofo na nossa cultura? Simplesmente, se for útil para o povo brasileiro. E assim o pensamos e experimentamos entre nós.

Alertamos, que quando descobrimos o caminho aberto por Zubiri no mestrado e doutorado, não nos fizemos perguntas medrosas. Somente nos sentíamos pessoas. Mergulhamos de corpo inteiro nessa busca por explicações e apoios mais suficientes para a sabedoria humana, que só a aceitamos para guiar nossas vidas. Nesse mergulho nos encontramos com todas as dificuldades até aqui levantadas. Encontramos reações pessoais, acadêmicas de tamanha empreitada de Zubiri. Ficamos cada vez encantados. Porém encontrávamos dúvidas e reparos para transcrever certas palavras e sentidos que usava Zubiri. Certamente nossas línguas têm a mesma raiz latina, influenciada pelo grego. Sabemos como podemos deturpar os sentidos de certas palavras quando as usamos noutra língua e nas traduções feitas, como aconteceu com os romanos ao transcrever a filosofia grega. A etimologia e a filologia foram grandes companheiras da filosofia. Elas buscam a captação expressiva da apreensão do que se viu nas coisas. E aí vimos o apoio que buscávamos par ver as coisas da realidade brasileira, mais que nas estruturas gramaticais. A linguagem milenar do povo capta sempre essa radicalidade, porém não o torna problema, o aceita, e o filósofo tem oficio de descobrir a melhor solução. A filosofia que sai dessa sabedoria comum tenta plasmá-la pelos intelectuais em termos mais técnicos, científicos e filosóficos. É o nosso caso.

Entretanto devemos ter sempre em conta que esses “cuidados” da expressão humana formam parte de nosso amadurecimento de pessoas. Temos consciência do que esses grandes pensamentos influenciaram muitos povos de diferentes linguagens. E tiveram que optar pelas formas linguistas de cada povo. Reconhecemos as distorções que se deram. E ainda, dessa forma, se desenvolveram falsas superioridades linguísticas e de seus povos, que temos pagado muito caro, e por isso desprezaram outros povos com suas linguagens.

Então, como seria nosso pensamento brasileiro acolhendo a inspiração inédita zubiriana da realidade e da inteligência senciente? Aqui víamos o centro do problema, para entender, criticar e superar os passos anteriores do saber, do qual estávamos confusos, desorientados e descontes.

Desde o início das leituras de Zubiri, preocupados que estávamos de sua proposta diferente e cativante, a fomos pensando no lugar de nossa situação pessoal, espanhol e morando mais de 30 anos (em 1990) naquela ocasião no Brasil, de uma forma que de qualquer maneira sentíamos sua forças inéditas. Novos caminhos a percorrer. Assim fomos pesquisando e escrevendo em português essas buscas que encontravam eco na proposta da realidade e da inteligência senciente de Zubiri. Entendo que não tivemos a preocupação das formas linguísticas, porque nos sentíamos atingidos, e assim todos questionávamos, da mesma maneira e pelos mesmos problemas.

Aí veio os momentos necessários desse questionamento, de como estávamos falando e escrevendo em português de um pensador espanhol, e nós nascido na Espanha. Temos que confessar que nunca nos anos de mestrado e doutorado recebi alertas ou reproches da linguagem usada, só do portunhol. Também falamos com outros brasileiros, que também nunca me alertaram sobre o uso inadequado de expressões zubirianas. Todos, estávamos buscando a verdade da realidade do Brasil. Quando da publicação em 2010, em português pela É Realizações, em 2010, fomos procurados para opinar sobre esses termos em que Zubiri expressava sua tamanha ousadia, inicialmente, fomos pegos de surpresa. Usei minhas leituras e interpretações, de quase todas as obras, sobre como surgiu e sobre os amadurecimentos de Zubiri até o final de sua vida. Nos não tivemos dúvidas pessoais da linguagem, forma e sentidos novos. Porém, nos apoiávamos na experiência de 20 anos de leituras dentro e fora da academia. Consultamos dicionários também. Tínhamos a opinam suficiente do uso em português de palavras e sentidos introduzidos por ele. Tivemos divergências com discussão de motivos, sim. Convivemos e estudamos sempre com brasileiros.

Hoje vemos traduzida em português sua inspiração, precisão e o sentido das “categorias” dessa nova filosofia. Sua tradução é fiel e precisa e pode ajudar o pensamento brasileiro a se enriquecer. Entendo que está na hora de perdermos os reparos nacionalistas, sempre  inconsequentes, por parte de estudiosos e pesquisadores e citemos as obras traduzidas. Não buscamos um filósofo, buscamos a verdade do saber humano. Sim devemos usar os termos “técnicos” de Zubiri para enriquecer a dinámica de nosso próprio pensamento brasileiro. A resistência de estudar Zubiri, porque é espanhol, não nos pode proibir de comungar essas ideias e passá-las para o português. Não tem mais sentido não nos valer em português de sua linguagem, porque o que está nela outra forma de fazer filosofia. Certamente “essa filosofia” que tem raízes na cultura espanhola, e devemos distinguir muito bem que não se trata de espanholizar, mas também nem germanizar, afrancesar, americanizar, chinesizar, africanizar o saber e o afazer filosófico próprio do Brasil.  A resistência veio mais da academia, porque ficou parada e como satisfeita, sem descobrir que s gigantes da filosofia foram responsáveis dos desvios dela.

Esse foi o teor de nosso envolvimento brasileiro com Zubiri, que é espanhol, pouco nos importa, que nos ofereceu uma filosofia senciente frente à filosofia concipiente que nos é legada através de muitos desvios e formas, e que entendemos são os responsáveis da crise da humanidade. Zubiri teve em seu mestre Ortega um exemplo de como lidar com esse problema e que traduziu para o espanhol a palavra alemã erbelins por vivência, que hoje é usada, até familiarmente por espanhóis, portugueses e brasileiros. Não devemos deixarmos “espanholizar”, mas precisamos ajudas suficientes que nos façam usar a sabedoria própria do homem e que possa ser foco luminoso de nossa realidade. Então, escutemos o especialista em filosofia e filosofia de Zubiri, Pintor-Ramos:

“Esta claro que Zubiri não se propõe espanholizar nenhuma filosofia, e quando sua própria filosofia refere-se a pensamentos estranhos, prima sempre pela compreensão conceitual seguida de um esforço por aclimatar essa compreensão com as mínimas violências linguísticas; se as vezes, também, tem-se criticado de certo saber ranço na sua terminologia, isso se deve provavelmente a necessidade de recorrer a fontes primárias de derivação terminológica, sem que isso signifique nenhum intento de passar por alto possíveis desacertos” (Pintor-Ramos, A. in Presentación –p. 16- de Realidad, Posibilidad, Religión: História de tres palabras. De Germán Marquínez Argote, Centro de Estudios Cervantinos, Salamanca, 2012).

Vejamos então, a importância da linguagem na filosofia e na ciência que exige rigor e precisão. Vejamos como esse rigor e precisão conceituais, são importantes sempre, porém o rigor e precisão devem  ser e só podem ser dos conceitos da realidade apreendida. Um exemplo. Quando comecei a estudar Zubiri nos anos 1990 usamos a expressão senciente para poder desenvolver a riqueza do pensamento do novo “sentir” de Zubiri. Entretanto, observamos que houve apreciações diversas e não compreensíveis para o que Zubiri nos falava. Entendemos que houve deturpação, e como sempre, nas áreas atritantes hoje em dia da relação do homem e do animal. Exageramos, porque estamos “cuidando” (e gastamos mais) melhor o animal que ao homem, porque ele é totalmente objetivo, não como realidade autônoma, e por isso só responde a suas necessidades materiais. Homem, diferentemente dos animais, é uma realidade autônoma, porque ele é agente e ator de sua vida, porém é tudo isso, senão não seria vida, é autor dela, por issopessoa. Toda sua inspiração se funamenta em elimiar todo dualismo no homem, porque a experiência humana reclama da autonomia, e por isso fala de sua dignidade em todos os lugares da terra. Porque o senciente em Zubiri é inteligente, não puramente sensorial.

 Assim encontramos, entre outras muitas expresões na sua filosofia, que são desafiadoras, tranformaformadoras do pensar, com a expressão senciente, sentiente em espanhol, que nos captivou, inclusive dando força e sentido a expressão, já consagrada de ficar com os pés no chão. Não tivemos dúvida quando o traduzimos para o português, porque o senciente para Zubiri é dar conta da realidade presente das coisas e isso só se faz pelo sentir, a nota de animalidade, porém no homem é um sentir inteligente ou inteligência senciente. A realidade humana é uma estrutura de notas que o diferem de outras realidades, pelas notas próprias de sua constituição: sentir e inteligir numa unidade única d uma aividade complexa  e rica.

Sabemos que a água é constituída por H2O. Porém, uma vez constituída não podemos desconstituir e nunca faremos água com outra constituição química. A molécula de H está constituindo a água, mas não será agua sem a moleca H, que junto com duas moléculas de Hidrogênio constituem sempre a água. Da mesma forma Zubiri entende que as coisas são o que são, porque se constituem de seu, e não por anexão, e como elas são apreendidas por qualquer sabedoria humana. A constituição humana é sentir e inteligir, animalidade e mente, ser vivo que se apreende como realidade, não sensivelmente, mas sencientemente. Zubiri chega à convicção de que há uma inteligização do sentir, mas não como anexo despois do sentir, mas como hiperformalização do sentir. Então a inteligência é apreensão dessa realidade. Por isso, o saber do homem não apreende primeiro qualquer tipo de conceito ou conteúdo objetivo para depois conceituar, logificar, raciocinar. Esse foi, segundo ele, o desvio radical como problema da inteligência desde os gregos: o desenvolveram como dýnamis –força, faculdade- deixando sem tratar a energéia –energia- que os homens sentiram ao contemplar os céus e a natureza nessa especulação radical cuidar usando a faculdade da razão. Eles não contemplaram, “especularam”, sentindo o som das estrelas e o perfume das flores? Não o fizeram com a apreensão primordial da realidade, da nua realdiade, como momento que Zubiri vai o chamar, de prius. Embora, a inteligência senciente ou o sentir intelectivo estão apreendendo –numa unidade constituída-, o real e a realidade das coisas. Podemos afirmar que na constituição da água o hidrogênio é antes ou depois do oxigênio?

Dessa forma entende Zubiri, que o homem está apetrechado de dar conta de sua realidade, porque abre um leque quase infinito de possibilidades, que ao escolher uma ou mais o faz se apropriando para sua existência. O animal não tem essa inteligização de sua animalidade, porque isso é apenas sensível, e com a formalidade de estímulo responde às suas necessidades. Mas a filosofia e as ciências, nessa diferencia, desenvolveram com sensível, sensorial e instrumental, e por tanto concipiente. Os conceitos fazem, assim, o ser e a realidade representando-a.

Então, agora podemos falar do exemplo dado sobre senciente, uma das palavras chave da leitura de Zubiri, com rigor e precisão conceitual de sua filosofia, porém não tratadas pelas filosofias tanto clássica como moderna, peque confunde o sensível da animalidade com o senciente humano. Claro que no homem sente as coisas com seus sentidos, porém as sente inteligentemente ou intelige as coisas sencientemente. Nenhum dos dois tem uma autonomia separada, embora, os dois formam uma única realdiade. Então, o “senciente” hoje tão badalado hoje no cuidado animal, não é mesmo do senciente de que nos fala Zubiri. Na conceituação do primeiro se dá a dualidade no homem. Porém no homem o sensível se apresenta como sensibilidade estrutural. Por isso o senciente forma uma estrutura com a inteligência. No homem o “sensível” é apreensão primordial das coisas sentindo-as porque estão presentes para serem atualizadas, não representadas, sendo assim as apreende sentindo-as na inteligência, e nessa única constituição poderão da conta de sua realidade. Nunca para que a faculdade da inteligência faça o que queira com a presença das coisas sentidas.

O “senciente” de que hoje se fala é diametralmente oposto ao que Zubiri fala da inteligência senciente ou do sentir intelectivo. Continuamos construindo teorias da dualidade, surgida na Grecia ao não “prestarem atenção” sobre a diferença conceitual da dýnamis e energéia da mens. Zubiri nos mostra isso muito bem e nos apresenta o homem sem essa dicotómica da realidade, que possibilita de todos os desvios. Necessitamos de rigor e precisão conceitual na nossa vida, nas ciências e na filosofia de qualquer pensador.

Por que insistimos que o senciente que hoje se pretende usar na vida animal, fica entubando a clareza do pensamento humano sobre a contemplação de sua experiência. Não podemos pensar em criar puras polêmicas. E o rigor e precisão conceituais de toda sabedoria? Assim, resumidamente, apresentam a senciência: “Discriminar um animal senciente apenas porque ele não é humano configura um caso de especicismo, que o filósofo põe no mesmo patamar do racismo ou do escravismo, classificações não exatamente abonadoras” (Folha de S. Paulo, 11/02/2010). Esses defensores partem de que o animal sente, não faltava mais, diria Zubiri, porque “percebe pelos sentidos”, que “recebe impressões através dos sentidos”. Sim isso é a vida de qualquer planta ou animal. E o homem é “animal”, porém não animal racional nem com fundamentação matemática, científica, algorítmico ou reduzido a mecanismos cerebrais. O homem é animal de realidades, o que significa que apreende sensivelmente o real, entretanto sopre como animal inteligente.  Não podemos, então, entender e aceitar essas argumentações de que “a senciência nunca poderá ser entendida, não importa o progresso da neurociência da compreensão do funcionamento do cérebro”. Estamos dando importância exagerada aos animais e aprofundandos menos a realização das pessoas. Que estamos pretendendo?

Que consciência pode haver da percepção dos sentidos? A consciência não existe, falará Zubiri, existem atos conscientes ou inconscientes, surgidos da apreensão primordial das realdiade. É pena que tenhamos intelectuais que ainda acreditam no dualismo usado e praticado milenarmente e que sempre criticamos porque nos faz mal. Zubiri nos cativa porque nos oferece novas sendas do caminho humano mesmo. E a compreensão das suas expressões, expressões fruto e cheias de reflexão rigorosa, nós podem ajudar a corrigir os desvios dualísticos, de que tanto nos queixamos.

Para finalizar, tenhamos em conta como resume Zubri ao tratar da “impressão de realidade”:

“A filosofia clássica escorregou na impressão de realidade. É esta impressão, porém, o que consntitui o inteligir primordial, e não as combinações, incluindo as seletivas, do que se costuma chamar de inteligência animal. Muito menos ainda se pode falar, como é hoje frequente, de inteligência artificial. Tanto em um caso como no outro, o executado, seja ele pelo animal, seja pelo mecanismo eletrônico, não é inteligência, porque tudo isso concerne tão somene ao contuédo da impressão, mas à sua formanlidade de realdiade. São impressões de conteúdo, mas sem formalidade de realidade. Por isso é que não são inteligência” (IRE 57).

Se, deixamos cair um peso de ferro nos pés sentimos dor humana, porque no cérebro se deu uma ligação sináptica. O peso pelo peso, não produz dor, como acontece quando cai no chão ou na água. Nesses fatos se produz uma reação física. E dai, falaria Zubiri? Nós o sentimos assim, num campo totalmente diferente do limite do ser vivo da pura impressão, e sentimos-inteligentemente e somos uma estrutura real humana, que além da sentir a dor falamos e pulamos de dor, porque foi provocada pelo pesso do ferro, provocando uma reação que não é apenas fisiológica. Para próxima teremos mais cuidado. O animal fugirá, nós continuaremos usando aquele ferro para o trabalho de nossa tarefa, “porém com cuidado”. O “cuidado do animal” é sensório e por isso fugir.

Assim, os problemas do estilo e da linguagem “na recepção brasilera” do pensamento de X. Zubiri são muito imórtantes e existem sim, porém não são tanto problema, como a expressão senciente hoje, podiamos citar muitos, onde vemos que os nosos intelectuais se preocupam más com a moda exigida por interessados com pensamentos mais frágeis, menos reflexivos, e pouco duradouros, contudo lucrativos.  Reconhecemos que nós e todas as pessoas nos deparamos com a busca da verdade da realidade, que sentimos dentro de nós, puxada e elaborada pela proposta de Zubiri.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

“Zubiri é um pensador difícil de ler”

(Prólogo in O que a inteligência? p. 1-6)

Por Diego Gracia.

–                                             –Tradução por Felipe Cherubin e José Fernández Tejada-

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Zubiri iniciou uma revolução no pensamento filosófico, que, pouco a pouco, foi ganhando adeptos e difundindo-se em Universidades e Centros de pesquisa filosófica, em distintas partes do mundo. Claro que a primeira influência foi na Espanha e nos países americanos de língua hispânica. Essa influência, como não podia ser de outro modo, repercute, também, na área linguística portuguesa, tanto em Portugal como no Brasil. O presente volume é uma boa prova dos muitos anos de dedicação dos autores ao estudo da filosofia zubiriana, e, também, uma mostra evidente da fecundidade do pensamen-to de Zubiri, assim como do muito que pode oferecer às culturas de nossos povos.

Zubiri é um pensador difícil de ler e, ainda mais, de entender corretamente. Isso acontece pela novidade de seus questionamentos. Há uma regra que sempre se cumpre, e é que, quanto mais original é o autor, mais difícil resulta entendê-lo bem e se cometem erros graves com maior facilidade na interpretação de seu pensamento. Isto se deve a um fenômeno elementar de que todo autor tem necessariamente que expressar suas novas descobertas, suas novidades, com palavras, bem da língua comum, bem da linguagem filosófica. Em ambos os casos, esses termos terão, por necessidade, um significado distinto ao novo que ele quer dar. Isto é o que torna difícil a leitura correta e a interpretação adequada dos grandes pensadores, que são aqueles, que têm aportado grandes novidades ao saber de que tratam. Por necessidade, terão que utilizar termos velhos, dando-lhes um sentido novo. O leitor, sempre embebido do sentido comum desses termos, mas ainda não familiarizado com o sentido novo, tenderá a interpretá-los mal, privando ao autor daquilo que é mais original e novo na sua obra.

Por isso, ao interpretar um autor qualquer, e por sabido, também, a um filósofo, exige um esforço enorme e a dedicação de muitos anos. Somente com muita paciência, vamos familiarizando-nos com o vocabulário do autor e, especialmente, somente depois de muitos esforços, entenderemos esses termos no seu sentido correto, aquele que o autor deu.

Vamos colocar um exemplo. O termo mais repetido nos livros de Zubiri é o de “realidade”. Quando começamos a ler, imediatamente acreditamos saber de que se está falando. Real, é um termo que na linguagem ordinária, se opõe ao ideal. Porque há coisas que pensamos, e esses pensamentos têm existência mental, mas, certamente, não real. O real, pelo contrário, tem existência extramental, existe fora da mente, fora de nós mesmos, tem uma consistência própria; que em certa medida se opõe, exigindo-nos respeito. O real, falamos por isso, é objetivo. Os objetos são reais. Ob-jectum é precisamente isso o que se nos opõe, o que tem entidade própria, distinta da propriedade mental. Em alemão se diz Gegen-stand, o que está fora de mim e frente à mim.

Tudo isso é demasiadamente conhecido, tanto que, quando estudamos ou lemos a palavra realidade todos acreditamos saber de que estamos falando. Todos, menos os filósofos. Estes submeteram, ao longo dos séculos modernos, o termo realidade a uma crítica dura e nos levaram ao erro de crer que as coisas são em si tal como nos aparecem aos sentidos. Esta interpretação foi qualificada de “realismo ingênuo”. De fato, a filosofia moderna, tentando superar essa dificuldade, procura refúgio na própria consciência, pelo que abandona o velho “realismo”, à custa de converter-se num “idealismo”. Podemos confirmar que realidade não é um termo unívoco e nem claro. E, o sentido mais usual como o pensamos normalmente ao utilizar o termo, resulta que não é filosoficamente correto, de modo que precisa ser depurado.

Assim tenta fazer a filosofia moderna. E pagou caro por isso, porque caiu noutra ingenuidade, o que Zubiri chamou de “subjetivismo ingênuo”. Ele escreve: “Se é um realismo ingênuo – e o é – pelo fato de fazer das qualidades sensíveis propriedades das coisas fora da percepção, é um subjetivismo ingênuo declará-las simplesmente subjetivas” (IRE 178, ed. Portuguesa, 128). A primeira ingenuidade consiste em considerar que a coisas são “em si”, tal como aparecem. A segunda ingenuidade está em pensar que somente tem realidade “em mim”. Porém, se nenhuma destas duas posturas, divididas ao longo da história da filosofia, é correta, temos na nossa frente um grande problema: saber o que é realidade ou como devemos entendê-la.

É neste ponto que interveio Zubiri. E o fez afirmando que, por realidade, não deve entender-se o “em si” dos antigos, nem o “em mim” dos moder-nos, mas o que ele chamou “de suyo”. Que significa isto? Estamos supondo que o leitor é espanhol, porque em caso de pertencer à outra área linguística o desconcerto será muito maior. Por isso, os autores deste livro tiveram o cuidado de incluir uma nota justificando sua tradução ao português por “de seu”.

“De suyo” é uma expressão usual no idioma espanhol. Utilizada em expres-sões tais como “de suyo, no inverno as temperaturas são mais baixas em Castela”, ou “de suyo, em zonas tropicais abundam os mosquitos”. Zubiri toma essa expressão da linguagem coloquial, mas para dotá-la de um sentido técnico preciso, para dar-lhe conteúdo filosófico. Entretanto, se realidade não é “em si” e nem “em mim”, senão “de seu”, será necessário aclarar o que seja o “de seu” para dotar de conteúdo ao termo realidade. Podemos afirmar que já sabemos o que não significa, mas não sabemos qual é o significado positivo. O que nos faz supor que encerra a novidade básica e fundamental da filosofia de Zubiri.

Todo esse debate sobre o “em si” e o “em mim” teve lugar nas disputas sobre os dados da percepção humana. O que percebemos, é confiável? Até que ponto o é? Copérnico afirmou que a terra gira ao redor do sol, pelo que está em movimento, apesar de que nossos sentidos parecem dizer-nos o contrário. São confiáveis nossos sentidos? Um bastão parcialmente submergido na água aparece a nossa vista como quebrado, apesar de que não está quebrado. Então, podemos afirmar que a percepção é pouco confiável. Entretanto, tem a seu favor uma característica, a imediatez. Mas isso se tem dito, uma e outra vez ao longo da história da filosofia, que tem caráter intuitivo; é a chamada “intuição sensível”. O mero “dar-se conta” é imediato, portanto, nele há de encontrar-se a verdade primária, porque não é possível ir mais atrás. Tudo parte daí. Pelo menos, isso é o que se tem dado como suposto classicamente.

Zubiri, entretanto, o nega. É significativo que um filósofo, que dedica centenas de páginas a descrever o ato de “dar-se conta”, não tenha falado nunca de intuição, nem denominado intuitiva a percepção. Por que será? Sem dúvida, porque não acreditava na imediatez da percepção. Até tal ponto chega sua desconfiança a respeito dela, que a situa no nível de intelecção, que chama de “logos”. A coisa é tão mais surpreendente, que considera que há um nível prévio, o próprio do que denomina de “apreensão primordial”.

A percepção, pois, não se identifica com intuição e também não com a apreensão primordial. Uma coisa é a apreensão primordial e outra é o “logos”. Não se trata de dois atos, porque só há um ato, que denomina de “ato de apreensão”, mas dentro dele, é necessário distinguir dois momentos distintos, o da apreensão primordial e o do logos. O único imediato, o único que, como dizia Zubiri, consiste em “mera atualização”, é o primeiro a apreensão primordial. Dessa forma, não há mediações de nenhum tipo. Se algo significa “mera atualização”, isso é a pura presença sem intermediações. Algo que já não acontece no logos.  

Dos produtos do logos, não somente dizia Zubiri que estejam “meramente atualizados”, senão que afirmou taxativamente que são resultados de um processo de “livre criação” por parte do ser humano.

Isto é algo que não é fácil entender, e que tem confundido, inclusive, a maior parte de seus intérpretes. Porque se há tanta diferença entre apreensão primordial e o logos, teríamos que considerá-los “atos” distintos: um imediato, o da apreensão e, o outro mediado, o do logos. Mas isto não é assim. Zubiri repete uma e outra vez, que não há mais atos que um, o ato da apreensão. Distingui-los é fruto da análise, que leva a cabo o filósofo. Esta é uma análise complexa, mas necessária para evitar os erros clássicos, o realismo ingênuo de uma parte e o subjetivismo, também ingênuo, da outra. A apreensão (repare que fala da apreensão, evitando a palavra clássica percepção) não é intuitiva, nem imediata. É verdade, que nela há uma parte em que abundam as mediações, que se chama logos. Somente há um momento imediato, consistente na mera atualização, e, a isto, é o que denomina apreensão primordial. Seria melhor, e ainda mais claro, dizer “momento primordial da apreensão”, porque ao chamá-lo “apreensão primordial”, se tende a pensar que se trata de um ato em si mesmo, coisa que é incorreta.

Chegando até aqui, é necessário dizer o que é primário do primeiro desses momentos e o que pertence ao segundo. Em Zubiri, isto está muito claro. O que se apreende é uma coisa, seja qual for, mas nessa apreensão, há algo genérico que esta minha apreensão compartilha com outra qualquer e, outra parte, que é específica desta apreensão em concreto. Zubiri disse, por isso, que o primeiro momento é “inespecífico e transcendental”, enquanto que o segundo é “específico e talitativo”. Ao primeiro, chamou, também, formalidade e, ao segundo, conteúdo. Isto significa que, ao apreender algo, por exemplo, este papel branco, eu estou apreendendo um conteúdo específico, o papel branco. Diferente do outro que é azul, mas, ao mesmo tempo, estou apreendendo como “de seu” (não “em si”) branco, quer dizer, como “real”. E isto acontece igualmente em todas as apreensões que se tenha. O momento de conteúdo varia, enquanto que o momento de formalidade permanece invariável. Tudo o que apreendo, o apreendo como “real”, quer dizer, “de seu”, como sendo algo com entidade própria, que, mesmo se dando no ato de apreensão, é de algum modo distinto dele mesmo, fazendo valer o caráter próprio. Pois bem, esse caráter formal, que se dá na apreensão humana e que faz do apreendido algo com entidade própria dentro da própria apreensão, é o que Zubiri entendia por “realidade”. Assim, o papel branco se impõe como “de seu” real, ou seja, como “realmente branco”, embora, isto, não legitime que diga que é “em si” branco, como afirmou o realismo ingênuo. E, isso, porque os conteúdos, embora pareçam imediatos, não o são. A ciência nos tem dado múltiplos exemplos disso. De fato, isso que chamamos branco, é uma construção cultural. Nem todo mundo considera brancas as mesmas coisas, e é uma pura convenção cultural dizer onde acaba o branco e onde começa outra cor. Imagens de computadores eletrônicos com telas coloridas distinguem milhares de cores. Nós, é claro, não temos palavras para designar todas, tampouco capacidade de fazê-lo.

Foi necessário este rodeio para retomar ao tema que nos questionávamos no início destas linhas: O que é realidade? Afirma-se, continuamente, que a filosofia de Zubiri é “realista”, entretanto, isso, mais que ajudar, desorienta. Não se trata de nenhum realismo dos clássicos na historia da filosofia. Zubiri não aceitou o conceito de “intuição sensível”. Não há tal intuição. Nela se dá por suposto que nossa percepção do papel branco é direta e imediata; quer dizer, que se intuem os “conteúdos”. Portanto, a intuição sensível considera que há conteúdos que se dão de modo direto imediato e irrefutável. Mas Zubiri não pensava assim. Não acredita que haja conteúdos imediatos. Todos os conteúdos estão mediados. Por isso, a análise da percepção o situa, para surpresa de muitos, não na parte dedicada à apreensão primordial, senão no logos.

Antes, asseguravam que isto veio para Zubiri diretamente da ciência. E a ciência é tudo, menos um pensamento ingênuo. É caracterizada pelo seu método crítico. E uma das coisas que ela tem criticado, é a pretensão de que as percepções sejam intuitivas ou imediatas. Zubiri aprendeu essa lição, nos anos de sua juventude, com os psicólogos da Gestalt, em especial Wolfgang Köhler.

Relembremos, também, os exemplos do cubo de Necker e o vaso de Rubin. Os exemplos poderiam multiplicar-se. A percepção é um fenômeno extremamente complexo, que tem muito pouco de imediato. Poderíamos então deduzir disso que nada nela é imediato? Isso seria cair no completo relativismo, algo impossível de conceber, e muito menos de aceitar, em filosofia. Algo deve dar-se como imediato. Por isso, concluiu Zubiri, não é o conteúdo, senão a forma, a formalidade de realidade. Daí a definição de realidade como pura formalidade, a formalidade com a que apreendemos as coisas. Este exemplo da percepção é importante para compreender o modo de Zubiri fazer filosofia. Porque a maior parte dos filósofos, inclusive contemporâneos, tentaram fazer filosofia à margem das descobertas da ciência. Partem da experiência comum, porque pensam que é mais direta e menos manipulada. Isso nos permite entender porque há tão poucos filósofos, por exemplo, no século XX, que se tenham preocupado de ter em conta, na sua reflexão filosófica, os dados da ciência.

No âmbito cultural alemão, é frequente acolher às chamadas Ciências do espírito ou da cultura, tais como História, a Linguística ou a Filologia, mas, é surpreendente o pouco apreço que se tem tido pelas chamadas Ciências da natureza. A atitude de Zubiri foi exatamente contrária. Soube e quis ter em conta os dados das ciências na sua reflexão filosófica. Ele era consciente de que a filosofia e a ciência não se identificam, embora só fosse porque a ciência se ocupa basicamente de “conteúdos”, enquanto a filosofia estuda, de preferência, a “formalidade”. Mas, precisamente por isto, o filósofo não podia dizer quase nada dos conteúdos à margem da ciência. Ignorar isto é condenar-se irremissivelmente ao fracasso.

Tenho sentido conveniente relembrar estes conceitos fundamentais ao começo deste livro, escrito em equipe pelos pesquisadores José Fernández Tejada e Felipe Cherubin, O que é a inteligência? Filosofia da realidade em Xavier Zubiri, porque está na base de todos os demais desenvolvimentos que o leitor encontrará nas suas páginas. Somente falta felicitar os autores pelo sucesso de seu livro e animá-los a continuarem na mesma linha, trabalhando para que o pensamento de Zubiri possa resultar o mais frutífero que merece para os leitores de língua portuguesa. Eles serão os primeiros a serem beneficiados.

Madrid, 7 de Janeiro de 2016.

Diego Gracia

Médico e filósofo. É Presidente da Fundación Xavier Zubiri, de Madrid (zubiri. net). Diretor do Seminário de Investigação Xavier Zubiri, fundado pelo próprio Zubiri em 1971. Professor Emérito de História da Medicina e Bioética da Escola de Medicina da Universidade Complutense. Diretor do Máster em Bioética da mesma Universidade. Professor de Filosofia e Ética em várias universidades e centros espanhóis e estrangeiros. Acadêmico da Real Academia Nacional de Medicina, e da Real Academia de Ciências Morais e Políticas. Muito presente (Master Itinerante) nos grupos de Bioética da América latina e, também, mantém contato frequente com os professores de bioética do Centro Universitário São Camilo, de São Paulo, e com a Sociedade Brasileira de Bioética. Autor de mais de uma dezena de livros sobre bioética e filosofia, alguns traduzidos no Brasil pela Loyola.

Sobre la esencia (1962). (Parte II)

Segunda etapa do pensamento de X. Zubiri.

Metafísica da realidade-

3. 2. Visão mais ampla de Sobre la esencia através dos próprios pensamentos de Zubiri.

Assim, vamos acompanhar mais amplamente, e com seus pensamentos, a empreitada da leitura não fácil, porém proveitosa, de Sobre la esencia para nosso afazer filosófico sempre arrastados para resgatar a realidade, a nossa realidade humana, “para cair no real”. Tentamos, até agora, várias formas de tirar pedras nesse caminho, que nos introduzissem na situação de sua elaboração num momento histórico repetido de sofrimento da humanidade. Não deixemos de lembrar, da situação histórica e social de todos em buscar soluções urgentes, como mais profundas das ciências e da filosofia. Felizmente foi no século XX, que surgiram cada vez mais fortes e até mais controversos, os gritos de todos os saberes da terra, defendendo “o valor e a dignidade de cada pessoa”. Do contrário, perderemos o motivo radical de Zubiri, mostrado nesta obra, de “cairmos no real humano”, de sentirmos fortes porque nosso horizonte é o real e dentro dele, não do mais o entitativo, do além. Zubiri nos mostra de forma inédita nesses tempos, que não se deixou levar pelas ondas de soluções respetivas, embora camufladas, senão pela reflexão e rigor ímpares das ciências e da filosofia. Podíamos resumir nas próprias palavras dele: “se a ciência mudou a filosofia deve mudar”. E custe o que custar, em todos os sentidos dessa busca necessária.

A essência é a primeira forma que os gregos deram a mistério do ser, se apoiando na dýnamis que se apoiava na energeia.E Zubiri vai respeitar esse momento e analisa seu desenvolvimento, desde a estrutura muito bem elaborada de Aristóteles até nossos dias.

A intelecção pensante tem que realizar uma árdua tarefa para conceituar com rigor o “que” essencial de algo” (id. 17).

Assim problematiza desde o início da obra o problema da realidade, que quer desvendar para fundamentar suficientemente a realidade das coisas e do homem. Nunca entende a filosofia separando essas duas coisas, em que uma não esteja implicada com a outra de forma radical.

Zubiri faz um recorrido na obra, de como essa inspiração sempre desafiadora da essência que se tem desenvolvido.

Começa por Husserl: “Em definitiva, a essência seria para Husserl uma unidade eidética de sentido, e como tal repousaria sobre si mesma no orbe de ser absolvo, distinto, independente e separado do orbe da realidade de fato”. “Porém, pese a toda essa riqueza das análises fenomenológicas, esta concepção da essência radicalmente insustentável, tanto nos seus supostos, como no seu conteúdo” (id. 27). “Ao separar esses dois momentos –essencialidade e facticidade- e substantivá-los benefício de todos os tipos de saber –saber absoluto e saber empírico- Husserl tem desconjuntado a realidade e a realidade se tem ido para sempre das mãos” (id. 32).

Aqui a sútil e dura conclusão a que chega Zubiri: de novo a realdiade mesmo ficou do lado de fora ficou desconjuntada e para sempre se foi das nossas mãos. Grave diagnóstico do saber filosófico. Poderíamos dizer popularmente, perdeu a oportunidade de dar um passo mais radical na radicalidade do ser sentida pelos gregos.

Que entende Hegel por essência?” (id. 39). “A essência é assim a determinação interior do ser, o que forçosamente concebemos ao conceber ele; seu suposto intrínseco. Nisso consiste sua verdade: a essência e a verdade radical” (id. 43). “Por tanto, nem existe “a” razão nem existe o primado metafísica da razão sobre o real. A metafísica jamais poderá ser uma lógica. E insustentável o supremo primordial da metafísica hegeliana. Em segundo lugar, é insustentável a identificação da coisa real com o conceito objetivo enquanto produto da concepção formal” (id. 47). Noutro lugar afirma: “… para Hegel a essência não ‘é” já algo de antemão, senão que é algo que se “vá fazendo” em e pelo movimento intransitivo; melhor dito, a essência é movimento intransitivo mesmo. Agora bem, isso é insustentável” (id. 56). Porque temos que conceber a essência?  “Pensando, quer dizer, “em” o pensar é onde nos vemos forçados  a concebê-la; porém, não estamos obrigados “pelo” pensar senão pela força das coisas, isto é, pela força do ser previamente inteligido. O que o pensar “põe” não é a essência no ser, senão o essencial do ser na inteligência... A essência como suposto do ser, não dinamismo intransitivo, senão estrutura física. Não é “suposto de ser” senão “ser-suposto”. “A forçosidade de ser é a ratio congnescendi da essência, não sua ratio essendi. A essência não é forçosidade de ser; as coisas são de fato como são e nada mais” (id. 57).

Porque, “o que o pensar ‘põe’ não é a essência do ser, senão o essencial do ser na inteligência” (id. 57).

Gostaríamos alertar ao leitor, que Zubiri na sua argumentação usa uma expressão, que nos pode parecer um jogo de palavras, que será fundamental para conceituar sencientemente a inteligência na sua trilogia: “o essencial do serna inteligência”. Então, conclui no final desse tratamento da essência em Hegel:

“Frente ao conceptismo de Hegel é necessário sublinhar energicamente os foros do real, seja ou não adequadamente concebível. Uma coisa são, pois, os conceitos formais, outra é a realidade” (id. 58).

Também, é necessário para uma boa compreensão Zubiri destacar, que ele discute duramente com Hegel, senão o maior responsável dos conceitos, mas por tentar sacralizar com seu Espirito Absoluto o poder dos conceitos, que só nascem do poder de uma inteligência concipiente. que ele já percebeu na filosofia clássica ao entender o homem como mente e corpo, sendo a mente a faculdade do logos e da razão e o sentidos a faculdade das paixões. Aqui também vemos a clareza e força de seus repetidos inamissíveis e insustentáveis, ao criticar o pensar e viver só da força dos conceitos. Por isso, como muitos sintonizou vibrando com o lema da fenomenologia: “abaixo os pré-conceitos”.

“Para Hegel, segundo temos viso, se trata do conceito formal. Porém, pode entender-se aquela frase (“essência é a realidade do conceitos”) referindo-a ao conceito objetivo. Tal é o ponto de vista de todas as formas de racionalismo, oriundas da filosofia dos séculos XIV e XV, encarnadas por Descartes, e que culminam em Leibniz e no mesmo Kant. O conceito objetivo de uma coisa não é, desde logo, a coisa mesma” (id. 59). “E como ‘o que’ uma coisa é, é justamente sua essência, resulta que a essência, para estas filosofias, não é senão o conteúdo do conceito objetivo. Naturalmente os conceitos a que se referem são em primeira linha as Ideias divinas: a essência será o conteúdo objetivo destas Ideias” (id. 59).

“Em definitiva, a essência é o representado objetivamente no conceito. Como tal, é anterior ao real e fundamento de sua realidade num tríplice dimensão: como medida ou verdade ontológica do real, como possibilidade interna do real e como coisa ideal em sí mesma. Porém, isto é inamissível. Nesta conceição da essência, se entrecruzam, incondicionalmente, os temas mais dispares e no fundo deixa intato o problema da essência” (id. 62).

Depois de um longo e preciso caminho desses caminhos da essência, conclui:

“Numa palavra, o problema está na essência física em e por si mesma. Ter confundido, ou quando menos tiver involucrado, a essência “física” com o que os escolásticos de última hora chamaram essência “metafísica” ou abstrata (eu diria, conceptiva), quer dizer, ter confundido aquilo sem o qual a coisa não pode ser realdiade formal, com aquilo sem o qual a coisas não pode ser concebida: este tem sido o grave erro do racionalismo em nosso problema” (id. 73).

Pois bem, Zubiri começou sua pesquisa para assentar nas diferentes formas da filosofia chegar à realidade tentar chegar aos mistérios do ser. Inverteu seu caminho partindo do esforço da fenomenologia, depois com Hegel e juntamente examinou no racionalismo a forma de representar o ser e a essência dos ser. Ele agora vai enfrentar nada menos que Aristóteles, onde ele vai encontrar a mais rica elaboração da essência, mas o vai responsabilizar por entender por direcionar a busca pelo ser como substancial: essência substancial. A essência de um sujeito. Essa subjetualidade irá ganhando força através de séculos na forma de ente, na forma do racionalismo, na forma do conhecimento absolto e na forma da consciência-de. Para Zubiri todas elas se apoiam em conceitos representativos. Vejamos o como estuda Aristóteles que, apesar ser seu ponto de apoio para sua nova elaboração, também o vai criticar e responsabilizar das consequências de sua criatividade racional.

“… a realidade não seria a realdiade conceitual, nem formal e nem objetiva, senão a coisa mesma como correlato de seu conceito; quer dizer, a realidade de aquilo do qual o conceito é conceito, a realidade concebida não concebida senão qua real. Em tal caso, a determinação da essência não se apoia na verdade do conceito, senão na realidade. O conceito não seria mais que o órgão com que apreendemos isso que na coisa é sua essência; e a essência mesma seria aquilo em que na coisa e como momento real dela, responde ao conceito. Tal é o ponto de vista de Aristóteles. Assim, o que aqui temos chamado conceito, Aristóteles chama mais propriamente definição. E a razão é clara: a essência é o “que”, o de algo e a resposta a nossa pergunta de que é algo, é para Aristóteles, justamente a definição.

Enfocada, assim, a questão da essência Aristóteles começa por acercar-se a coisa real pela via da definição, para dizermos logo que é a essência como momento da coisa (tó tí ên eínai)” (id. 75).

“O verdadeiramente entitativo é a natureza. Por tanto, só dos entes naturais há essência. Estes entes naturais são, pela sua vez, de caráter muito diferentes. Há alguns que mais que entes são entes de entes, afecções de otros entes. Se predicam, em efeito, de outros e não tem entidade separada destes. Senão refira a eles e por analogia com eles: são os acidentes. A diferença do acidente, a substância (oûsía) é o sujeito último de toda predicação: a predica de nenhum outro nem existe em outro. Somente as substâncias têm, pois um verdadeiro “que”, um tí… Toda definição é assim um logos oûsía, o logos de uma substância. Proposições de forma definitória pode haver de todo o que se queira, porém definição só há dá substância. Somente as substâncias têm, por tanto, essência” (id. 77-78).

“Esta interpretação da essência como algo que compreende “a” matéria mesma, não é a única possível, porque nesse ponto, como em tantos outros, as frases de Aristóteles não são fáceis de compaginar… E aqui, convergem, o conceito de essência como correlato real da definição com o conceito da essência como momento real da substância. Recordemos, em efeito, que para designar a essência assim entendida Aristóteles usou um vocábulo, que embora tenha consagrado já filosoficamente, era sem embargo usual entre os gregos: o vocábulo eidos (eídos), que os latinos traduziram por species, espécie. Em Aristóteles, este vocábulo tem dois sentidos” (id. 79-80).

“Porém, este conceito da essência adoece, pelo menos, de uma turba ambivalência. E assim é como em quase todos os problemas filosóficos da filosofia primeira Aristóteles afronta a questão por duas vias: a via da predicação (logos) e a via da natureza (phýsis)” (id. 82).

“Agora bem, em nenhum desses três pontos (analisados) é satisfatória a concepção aristotélica” (id. 83).

“Pelo peso da tradição platônica, Aristóteles, em efeito, vá à coisa, em nosso problema, com o órgão da noção de que é possível ter dela em forma de definição. E como só é definível o universal, resulta que a essência envolve, ante tudo para Aristóteles, um modo formal de universalidade específica. O predomínio lo lógos, é o que tem lançado o problema da essência pela linha da especificidade” (id. 88).

“E a insuficiência dessa concepção se faz mais aguda se pensamos no que sucede  Aristóteles quando toma juntos os dois conceitos de essência. Para Aristóteles a essência aparece sempre suportada pelo seu sujeito substancial: é o sujeito de “atribuição” de uns predicados, é sujeito de “inhesão” de umas notas reais. É uma teoria  da essência montada sobre uma teoria da realidade como subjetual. Dai a indiscrimanção da essência abstrata e da essência como momento físico. Agora bem, como para Aristóteles a essência é específica, no lugar de chegar a uma ideia unitária da essência e da substancia essenciada, resulta que se vê advogado a uma irredutível dualidade” (i. 92).

Assim conclui Zubiri as diferentes formas de ir à realdiade das coisas. E isto o faz desde o nascimento da filosofia quando descobriu o logos e a razão. Mas esse estudo profundo e claro nos foi alertando sobre os desvios de cada autor na hora de seria as pistas do ser como essência. Embora, diríamos, embora escolha, quer dizer confia que deve encontrar nele o que é realidade de outra inspiração, o talante aristotélico dessa busca, também o faz responsável  de uma essência subjetual, que perdura até os nossos dias.

Apalpadas as insuficiências e vacilações desse contato especial com a realidade –especial por ser indireto- estamos já na franquia para dar mais um passo: ir diretamente à realdiade e tratar de averiguar em e por ela, que é isso da essência” (id. 94).

Zubiri dá um novo passo, depois de suas reflexões na sua pesquisa no capítulo sexto –resumo introdutório- (traduzido no início da primeira parte)que segundo pesquisadores é um capítulo, embora diga introdutório, mas é muito importante porque oferece quase todos os elementos de sua dolorosa e lenta elaboração. Torna-se este capítulo um verdadeiro mapa do da motivação dos passos que ele pretende seguir.

“… nós é forçoso retrotrair à realidade por sí mesma e inquirir nela qual é esse momento estrutural seu, que chamamos essência. Tomando-o em si mesmo, independentemente de toda função ulterior que possa desempenhar, seja na ordem da existência, seja na ordem da especificação, etc.” (id. 97).

“Para isso, voltemos ao ponto de partida de nossa investigação. Comecei por uma determinação provisional do conceito de essência. Só tinha naquele momento a finalidade de encaminhar a discussão com as ideias usuais de essência” (id. 97).

Aproveitamos esse pensamento de Zubiri para que reparemos e nos acostumemos ao estilo rigoroso dessa obra. Zubiri dá mais m passo na sua pesquisa, mas frequentemente sente a necessidade de repeti-nos o passo anterior para falar da seriedade e coerência do que vai construindo. O vemos também na Inteligência senciente, embora mais leve e agradável. Estamos percebendo a diferente elaboração filosófica, e por tanto seu enfoque e dinámica, definido e definitivo a partir desta obra. Como podemos reparar as palavras cuidadas, como que medidas, de sua criatividade rigorosa. Em certo momentos parecem um monótono estilo da linguagem, mas são partes escolhidas de sua construção. Embora em Sobre la essência sentíssemos Zubiri lutando consigo mesmo para dar ao novo passo, o que o torno às vezes as difícil e até confuso. Quem sobre a montanha procura veredas, às vezes as mais dispares, e ainda briga consigo porque não sabe de antemão onde e quando chegará ao cimo da montanha. São as atrapalhadas imprevisíveis de um bom Sísifo, que como ele não desistirá. No final veremos o que conseguiu. E se chegou a vislumbrar mundo desde a altura incomensurável dessa auspiciosa e pretendida montanha. Por isso falará:

“Em definitiva, em nossa determinação provisional, a essência compreende, pelo menos, cinco pontos, que convém destacar distintamente…” (id. 98).

Na sua acepção mais inócua, essência é pura e simplesmente o “que” de algo, quer dizer, a totalidade das notas que possui. Tomadas na unidade interna” … “Ao conjunto unitário destas notas que necessariamente possui a coisa real, é ao que no sentido formal e próprio chamamos essência” (id. 97-8).

“Com nossa discussão temos descoberto, pois, que a fórmula provisional do que a essência, não passa de ser uma vaga indicação, cujos possíveis erros nos em sido descobertos pelas anteriores ideias. E necessário, por tanto precisar com rigor aquela fórmula” (id. 100). “O essenciável, o essenciado e a essência mesma: é aqui, pois, os três círculos do problema com que temos de enfrentar-nos” (id. 101).

Vemos aqui, como ele inicia sua pesquisa a partir da expressão mais inócua, mais do povo, e sempre vai fazer assim, vai buscando as categorias técnicas filosóficas para elaboração de sua empreitada. Poderíamos dizer, que, partindo dessa experiência radical vai conseguir sólidos conceitos experimentais para a proposta de encontrar uma suficiente fundamentação para o saber humano.

No capítulo 7 começa a descrever o Âmbito do “essenciável” e inicia essa busca quando “falamos que uma nota essencial a uma coisa, ante todo, quando não pode faltar-lhe, quando “há de ter”, só pena de não ser tal coisa. Neste sentido é essencial à faca ter fio, como é a essencial ao cachorro ter sensibilidade, etc. Isto é verdade, porém, absolutamente insuficiente. Mas o positivo do momento de necessidade está noutra coisa da frase, nesse sútil,

 “para que a coisa seja tal”… Porque a coisa ( para ser tal), “É realidade todo e somente aquilo que actúa sobre as demais coisas e sobre si mesmo me verte, formalmente, das noras que possui. Expliquemo-lo” (id.103-4).

As propriedades arrancam da realidade e se fundam nela; as possibilidades arrancam do sentido que as coisas reais têm na vida e se fundam em dito sentido: as chamaremos por isso “coisas-sentido”. Esta contraposição (com “coisas-realidade”) no não tem nada a ver com a oposição aristotélica tékne e physis” (id. 105).

E fecha o seu raciocínio: “Toda necessidade essencial é sempre, e somente, uma necessidade real, segundo o conceito de realidade que acabamos de expor. Isso não obsta, evidentemente, para que na linguagem corrente falemos do essencial a propósito de toda sorte de coisas, sejam ou não irreais; é que as consideramos como se fossem. E isso por uma razão profunda: é que apreendidas pelo homem essas coisas, irreais sem si mesmas, produzem efeitos reais sobre ele. O homem, em efeito, é o único ser, que para ser plenamente real tem que dar o rodeio “essencial” da irrealidade. Este é o ponto que aqui não temos que por que desenvolver, e do que me tenho ocupado amplamente nos meus cursos” (id. 107-8).

Gostaríamos de alertar mais uma vez ao leitor, como Zubiri vai construindo os passos de suas elaborações. Entre tudo, devemos reparar que essas elaborações, que se tornam duras em Sobre la esencia, e frequentemente precisamos respirar, tem uma única finalidade: o ser humano para viver. Se o homem não existisse só haveria natureza objetiva, repetitiva com pequenas e demoradas variantes de evolução, e não natureza física e real. Isso ajudará a Zubiri a encontrar uma expressão, que conceitue esse homem real, e que nesta obra vai resumir na busca pelo ser do homem. Ainda devemos observar que não última frase desse capítulo lembra-nos que essa pesquisa da realidade humana é uma constante nos seus cursos, diríamos, e é o centro que a sua pesquisa, o que justifica as duras elaborações dentro de uma lógica do real. Continuemos reparando, sempre, como Zubiri vai introduzindo nesta obra conceitos bem pensados e pesados, que ele vai realizando na elaboração de viva voz nos seus cursos privados. Eles foram verdadeira oficina, ou melhor, fornalha de sua certeira inspiração.

No capítulo 8 fala do outro ponto indicado, sobre a realidade “essenciada”. “Delimitado assim o âmbito da realidade como âmbito formalmente essenciável, nos perguntamos agora quais são as coisas, que dentro deste âmbito posee a essência, quer dizer, quais são as realidades essenciadas. E Agora neste capítulo o vamos observar mergulhando mais na sua busca inquieta e dinámica.

E vai dividir em três partes: Realidade e verdade (p. 112), Unidade estrutural da realidade simpliciter (p.135) e Caráter formal da unidade do real (p. 143). O que vamos perceber, que embora se tivesse alimentado do conceito de verdade de Heidegger, como desvelação, agora da outo conceito superando o conceito de verdade como desvelação.

Zubiri está elaborando a ideia de realidade nesta obra, mas nela usa todos seus esforços e metas alcançadas nos seus cursos. Assim é o amadurecimento intelectual. Não existe inspiração fotográfica

“Falamos da realidade verdadeira. A verdade de que aqui se trata não é a verdade lógica, a conformidade do pensamento com as coisas. Aqui verdade não é conformidade senão algo mais profundo: o fundamento de dita conformidade. Porém de que fundamento se trata? Evidentemente sem inteligência não existiria verdade” (id. 112). “O ato próprio e formal da intelecção respeito ao inteligido é ser mera “atualização” da coisa na inteligência, e, portanto, o inteligido em quanto inteligido é tão só “atualizado”… Tomo a atualização como um simples fato bem constatável; o único que a coisa adquire pela inteleção é mera atualidade na inteligência. Inteligir é um mero atualizar a coisas. Toda outra concepção é inaceitável ante tudo por falta de última radicalidade. Posição, ideação, correlação intencional não poderiam ser nem tão se que o que pretendem ser (e às vezes efetivamente são) se não foram simples modalizações – umas modalizações entre outras várias- disto que é atualizar. E, desde logo, não confundamos este caráter com outro que tanto predicamento tem na filosofia atual, graças a Heidegger, saber com a “desvelação” (id. 113).

“O inteligido é realidade não só de fato, senão no seu modo formal de ser apreendido; o inteligir enquanto tal é apreender algo como realidade ou, como tenho falado tantas vezes em meus cursos, enfrentar-se com as coisas como realidades… O inteligido qua inteligido é formalmente “realidade”. Estímulo e realdiade são, ates de mais nada como costumo dizer, os dois careares formais, as duas formalidades do apreendido enquanto tal. Não é aqui o lugar de estudar a articulação precisa de estímulo e realdiade. É suficiente dizer que o próprio estímulo pode ser apreendido na estimulação mesma como realmente estimulante, isto é, como estímulo real. O que a acontece é que, em tal caso, á não é puro estímulo, e o ato do apreendido, já não é puro sentir” (id.115).

“Sem a coisa real não haveria verdade, porém sem inteligência, isso é, sem uma apreensão de dita coisa real como real, o que há com essa coisa não “seria” verdade” (id. 116).

“Por outra parte, nesta outra visão, de que falamos não se trata de um “brote”, senão de um “atualização” ou “projeção” da coisa real na totalidade de suas notas, não só em cada uma delas por si, como acontece no brote de Aristóteles (id. 126).

A visão de fora para dentro é um visão em inhesão e conduz a uma teoria das categorias do ente. A visão de dentro para fora é uma visão em atualização ou projeção e conduz a uma teoria das dimensões da realidade. Estas duas visões não incompatíveis senão que ambas são necessárias para uma adequada teoria da realidade. Não é agora o momento de descobrir as dimensões da realidade” (id. 127).

“A verdade real, quer dizer, a ratificação da realidade própria na intelecção tem três dimensões: parentetização, seguridade e constatação. Toda a realidade possui indiferente e indissoluvelmente. Nenhuma delas tem rango preferente, nem prerrogativa de nenhuma classe sobre as outras dois. As três são congêneres como momentos estruturais da primária atualização intelectiva de uma coisa real. Porém, são formalmente diferentes, tanto que seu desdobramento na intelecção ulterior matiza fundamentalmente a atitude do homem ante o problema da realdiade.

“O homem, em efeito, pode mover-se intelectualmente com preferência na riqueza “insoldável” da coisa; vê nas suas notas algo assim como sua riqueza em erupção. Está inseguro de todo e de todas as coisas. Não sabe si chegará a alguma parte, nem o inquieta demasiadamente o exíguo da claridade e da seguridade que pode encontrar na sua marcha. O que lhe importa é resgatar a realdiade, pôr de manifesto e desenterrar suas riquezas; concebidas e classificá-las com precisão. É um tipo de inteleção perfeitamente definido: a intelecção …Toda intelecção verdadeira tem algo de aventura, algo de razoável e algo de ciência, porque patentização, seguridade e constatação são três dimensões constitutivas do real, e por isso são irrenunciáveis. Porém o predomínio de algumas dessas qualidades sobre as demais no desenvolvimento da intelecção matiza a atitude intelectual” (id. 131-132).

Qual é esta unidade (das dimensões estruturais da realidade da realdiade)? (id. 134)

“Ao falar da riqueza, por exemplo, se corre o risco de pensar que se rata de uma simples abundância de notas. Porém, não é assim; é a riqueza da coisa “para” seu sólido estar sendo… Há que começar, pois, por discernir qual é o tipo de notas da realidade simpliciter” id. 135).

“Em primeiro lugar, há em toda cosa real que se referem a uma conexão ativa ou passiva, necessária ou não, com outras notas da realidade. Um ser vivente tem, por exemplo, necessidade de alimentos” (id. 135. Em segundo lugar, “há, por outro lado, outas notas formais que no se devem a essa conexão senão a índole mesma da coisa, ou quando menos, á sinergia de ambos os fatores (índole e conexão). Por exemplo, a gordura mesma se ela constitui uma disposição metabólica especial…” (id. 136). “A essas notas que formam parte do que vulgarmente se chama a índole de uma coisa, chamarei notas de tipo constitucional, a diferença de outras que são notas de tipo adventício. Pois bem, a estrutura primária da coisa é a ‘constituição’” (id 137). “Pois bem, a estrutura primária da coisa é  a “constituição”. Precisamente por isso é pelo q      eu me decido a dar o rango filosófico a este conceito. A constituição assim entendida é de caráter “físico” e não lógico; é também rigorosamente individual” (id. 137). “Aquilo que primariamente afeta a tridimensionalidade é a constituição. A unidade estrutural do real é, pois, concretamente ‘constituição’”(id. 142).

A unidade constitucional não é uma unidade aditiva (item 3)… Um átomo de prata não uma simples adição de partículas elementares, nem a água é uma mera adição de átomos,; um cachorro não é um conglomerado d elementos químicos, nem tão siquera de  células acopladas ativamente, não é um mosaico nem na ordem de constituição nem na ordem de seu funcionamento. Acepipando ideias que esclarecerei detalhadamente mais tarde, direi que a unidade constitucional não é unificação ou união, senão unidade primária” (id.143)

“Pois bem, as notas constitucionais, como momentos de uma unidade primária, o que constituem é isso que chamamos “sistema”. E este sistema é formalmente tridimensional. Os indivíduos assim constituídos são sistemas de notas” (id. 144).

“Pois bem, suficiência constitucional é a razão formal da substantividade. Para compreender o que isto quer dize basta com pensar que não toda agrupação de notas é capaz de ter substantividade no sentido que acabamos de definir, porque pode não possuir suficiência constitucional, seja porque lhe faltam notas, seja porque as que possui não toleram uma suficiência na ordem da constituição. Assim, não pode haver uma coisa que consistisse nada más que ter certa figura espacial e ser consciente. Não teria substantividade nenhuma, porque para que as notas tivessem unidade constitucional suficiente, necessitaria ter outra porção de notas más entre elas, por exemplo, certa massa, certa inteligência, et. Figura e consciência não constituem unidade suficiente” (id. 153).

“Substantividade e substancialidade ou subjetualidade são, pois dois momentos distintos de toda realidade simpliciter. Substancialidade é aquele caráter segundo o qual brota ou emergem dessa realidade, determinadas notas ou propriedades, ativas ou passivas, que em uma ou outra forma lhe são inerentes; precisamente por isso são sujeitos…substantividade é, pelo contrário, suficiência na ordem constitucional” (id. 157).

“No extremo oposto, entre as substantividade caraterizadas por combinação funcional, há uma realidade substantiva, a humana, na que a substantividade se articula com a subjetualidade de um modo parcialmente muito distinto, porque a substantividade humana tem uma área que excede enormemente da área das substâncias como entes em quanto substâncias. Em efeito, ademais das propriedade formais que emergem “naturalmente” das substâncias que a compõem, a substantividade humana tem  outras cuja raiz não é uma “emergência” senão uma “apropriação”:  a apropriação de possibilidades” (id. 159).

“A realdiade substantiva cujo caráter “físico” é ter necessariamente propriedades por apropriação é justamente que eu entendo por realidade moral. O moral em sentido usual de bens, valores e deveres, somente é possível na realidade que é constitucionalmente moral no sentido explicado. O moral é a seu modo também “físico” “ (id. 160-1).

“Concluamos. A substantividade não é nada diferente do sistema mesmo de notas constitucionais enquanto clausurado e total. A razão formal da substantividade não é senão essa suficiência na ordem da constituição…” (163).

“A individuação é um momento que se refere à realidade substantiva  considerada em si mesmo, de sorte que é dentro dessa realidade, e não fora dela ou anteriormente a eles, onde há que averiguar si, ademais do momento de individualidade, há  na coisa algum momento que precisamente considerado seja susceptibilidade  de multiplicação nos outros indivíduos” (id. 165).

“Porém, os animais são mais substantivos, porque que ademais sentem seu médio e sua realidade em forma de “estímulo”. Somente no homem –assistimos a constituição plenária e formal de uma estrita substantividade individual: e a “inteligização”  da animalidade. Pela inteligência, o homem se enfrenta com o médio e consigo mesmo como “realidades” –nisto consiste formalmente a inteligência- e na sua virtude se possui a si mesmo como realidade formalmente ‘própria’” (id.  173).

Isto suposto: que é a “essência” mesma dessa realidade ‘essenciada’’? (id. 174). É o tema do capítulo 9.

“Pois bem, a essência não é species senão constituição substantiva. Formalmente não é o que corresponde à definição; por tanto não haverá que buscar a essência na análises metafísica dos predicados que se atribuem à coisa, senão  pelo contrário, na análise das estruturas r dela, de suas notas e da função que elas desempenham no sistema constitucional de sua substantividade individual tato estrita como singular. É essência no momento “físico” da coisas real. Aristóteles, como já falei, roçou  o problema ao falar da forma substancial” (id. 177).

“Com isso, temos apurado com certo rigor o caráter próprio da essência. A essência, falava, é um princípio, quando menos necessitante da realidade simpliciter de algo. A essência assim entendida tem como acabamos de ver, um preciso caráter. É, em primeiro lugar, algo “físico” e não meramente conceptivo. Em segundo lugar, é um “momento” e não uma coisa ou força. Em terceto lugar, é um momento entitativos. É finalmente, o conjunto dessas notas de algo enquanto possui uma “função própria” individual, de ordem constitucional, e que concerne formalmente a substantividade, isto é, à suficiência constitucional de algo. Isto suposto, entremos na análise interna da essência” (id. 186).

“Junto a estas notas ou propriedades fundadas forçosamente noutras, existem justamente outras que são, estrita e rigorosamente, infundadas. Não quero falar, naturalmente, que não estejam produzidas por causas que sejam sua razão de ser. Todas as realidades substantivas que conhecemos por experiência está causada e nesta sentido estão fundadas. Porém, ao falar aqui de notas infundadas não me estou referindo à origem senão a esturra formal da realdiade substantiva, isto é , me sinto na línea da suficiência constitucional. E nesta línea há notas que não derivam de outras notas constitucionais, senão que repousam sobre si mesmas. E neste sentido preciso é no que digo que são infundadas. Evidentemente, são as que determinam a estrutura inteira do sistema constitucional.  Ademais elas são mais que “constitucionais”; são “constitutivas”. Não se confunda, pois o constitucional com o constitutivo. Tanto as notas fundadas como as infundadas são constitucionais, porém só as infundadas são constitutivas. Pois bem, as notas constitutivas é ao que chama formalmente notas essenciais” (id. 189).

“A essência não é, pois sujeito ou substância (úpokeímenon) nem momento da substância, senão o momento interno da substantividade. Noutros termos: não é essência da substância, como pensou Aristóteles, senão essência da substantividade” (id. 193).

Este é o tema do passo seguinte: “A essência, momento último da substantividade” (id. 195).

“Consideremos, em primeiro lugar, as notas essenciais tomadas em si mesmas. Como infundadas que são as notas essenciais, falava, as notas essenciais ou constitutivas são últimas, constituem a ultimidade da realidade substantiva, o que esse é em última instância. O constitutivo é , ates de tudo, o último. Essencialidade é então ultimidade constitucional. Esta ultimidade se manifesta pela sua vez na triple ordem do que chamarei: sua “condição metafísica, seu “carater entitativo e “seu conteúdo constitutivo”. Pela sua condição metafísica, a essência é absoluta, ou como falarei logo, fatual. Pelo seu carater entitativo, a essência é ultimidade individual. Pelo seu conteúdo constitutivo,  a essência é inalterável (id. 195).

“Desde outro ponto de vista, dentro das realidades humanas, há uma radical diferença de condições metafísicas. A realidade humana, assim, executa atos que como tais são realização de algo possível… Há dois tipos de possível. Um é possível no sentido de potencial (incluso da azarado). A realidade como realização do potencial é “fato”. Nesse terceiro conceito, o mais estrito, o que se chama um fato. Porém há outro tipo de possível: o que se chamam as possibilidades que o homem possui (por oferecimento ou por criação) na sua vida. Aqui o possível significa “posibilitante”. A realização dessas possibilidades conferem ao real uma condição metafísica precisa: é ‘sucesso’” (id. 204).

Reparemos como Zubiri, embora esteja elaborando uma teoria apresentativa da realidade não o faz por ser, como le diz, de “metafísico ambulante” buscado adivinhar e vende-la ao primeiro incauto, senão, como reparamos nessa última citação, e não é a primeira e nem a última, o está fazendo porque é a base para resgatar a realidade humana, seu tema central. Daqui, autores tiraram a conclusão de que está abrindo uma nova antropologia, quando está resgatando o ser humano de suas formas intencionais de pensar e viver.

“São, as notas essenciais que tem essa capacidade (unidades fisicamente suficientes); e essa sua suficiência é justamente essa condição metafísica que chamamos “’absoluto” (id. 208). “A essência tem, pois, como condição metafísica ser absoluta no sentido de autossuficiente; por tanto o absoluto é, como temo dito, puramente fatual” (id. 209).

A terceira zona da realidade do mundo a constituem os homens. Desde o ponto de vista de sua inserção nas zonas dos seres vivos, o animal humano procede ou se origina de outro ‘phylum animal’. Nesse último, tem havido, pois, no momento dado, não geração senão mera originação. O animal humano, efetivamente, possui, entre outras peculiaridades, uma inteligência intransferível pela que se enfrenta com as coisas e consigo mesmo, como realidades. Graças a isso, a causalidade quase-substantividade individual tem abocado a uma estrita substantividade individual” (id, 242).

“Tal é o caso do homem pelo que a sua inteligência se refere. Porém ainda nesse caso, o conhecimento da irredutibilidade de tida nota não significa o conhecimento adequado disso que é a espécie humana. É que às vezes costuma-se chamar de natureza de algo aquilo que constitui sua irredutibilidade peculiaridade. Porém, isto não nós dá todo o que constitui a espécie humana; para isso necessitamos saber, não somente que homem tem inteligência irredutível ao psiquismo animal, senão também todas as notas constitutivas disso que, com inevitável, mas irritante obscuridade, costuma-se chamar-se “animal” ou “organismo animal”, como caráter genérico da espécie humana. Porque, que tipo concreto de animal é esse que entra na estrutura da espécie humana?” (id. 245).

Como é a essência; no seu conteúdo constitutivo inalterável? Parte III.

“De onde resulta que a essência física não é forçosamente um singular que nasce e se reproduz e se corrompe e “nada mais”, senão que é uma essência constitutiva que ademais de nascer e de corromper-se, ou bem “repete”, ou bem “engendra”, ou bem finalmente “origina” uma nova essência constitutiva. Empregando o conceito grego de “gênesis”, diremos que toda essência constitutiva é termo genérico de outra, e que esta gênesis inclui as três possibilidades: de repetir, engendrar e originar” (id. 254).

“Porém essa concepção não é forçosamente aceitável nem tão sequer na sua forma atenuada. Antes de tudo, é inegável, por ser um fato perfeitamente constatado, que no mundo tem havido “extinção” de essências especificas. Porém, ademais é outro fato que as essências específicas não têm coexistido ao tempo cósmico; ela têm, quando menos, sua hora de aparição” (id. 255). “A metafísica das essências específicas é uma metafísica genética. Quer dizer, frente à ideia clássica da perdurabilidade da essência, há que afirmar a ideia de uma evolução essencial na linha do específico” (id. 257).

“Em definitiva, as notas essenciais são as notas infundadas e por isso, constitutivas. Consideradas em si mesmas, são notas “ultimas”. Esta ultimidade possui três caracteres: ser de condição fatual, de caráter entitativo e formal individual, e de conteúdo inalterável. Consideradas, não em mesmas, senão respeito das demais notas, as notas essenciais, ao ser infundas, são “fundantes” daquelas. Isso é o rapidamente temos de ver agora” (id. 262-3).

“Essência, momento fundante da substantividade (id. 264).

“Todas as notas, que não são constitutivas, quer dizer, que não pertencem formalmente ao essencial, são “inessenciáveis”. A diferença entre o essencial e inessencial é, pois, uma diferença de notas segundo sejam ou não constitutivas da coisa real. Não é como pretendia Hegel, uma diferença, que eu me permiti (para maior claridade) de “condição”, como se todas as notas de uma coisa foram em e por si mesmas, na sua mera indiferença de ser, inessenciais, entanto que todas elas seriam essenciais na sua condição de supostos do ser da coisa em questão (id. 268).

“É uma noção de essência “física” desde o ponto de vista de suas notas. Porém, ainda a costa de fatigosas repetições, digamos que é necessário entender corretamente esse caráter. Quando a filosofia tradicional tem falado de essência física, a tem entendido sempre na ordem da substancialidade: essência física são os “princípios substanciais” da realidade física das coisas. Porém, o que temos chamado aqui de essência física é algo entendido na ordem a  substantividade: essência física é o “sistema” de notas constitutivas da substantividade enquanto tal” (id. 275).

Agora vemos claro como Zubiri aplicando o sentido de físico como real se opondo ao intencional, que deixou claro o conceito de físico na grande nota inicial. E nesta cita deixa claro como foi sua inspiração anterior e que foi dando forma na elabora dos cursos.

 “De onde que o “físico” não se opõe ao “metafísico”, senão que é o metafísico por excelência. Físico não é sinônimo de “empírico” ou “positivo”, senão que o físico mesmo é susceptível de uma dupla consideração, positiva e metafísica. O físico, em efeito, pode considerar-se, por um lado, como aquilo que é “real”; e neste sentido, é termo do saber positivo. Porém, o físico pode ser considerado como estrutura formal e última da “realidade” enquanto tal e neste sentido é o termo do saber metafísico. Por isso, o que se costuma chamar “metafísico” é quando se fala de essência “metafísica”, é para mim mais bem “conceptivo” que “metafísico”; em rigor, a essência metafísica é meramente conceptiva. Tenho desenvolvido essas ideias amplamente nos meus cursos. Esta sínteses basta par uma rápida alusão” (id. 276).

“É o problema da unidade essencial enquanto unidade, a segunda das quatro grandes questões que surgiram a propósito da essência” (id. 277). E o tema do Artículo segundo: “A unidade essencial” (id. 278).

“dito assim, sem mais, isto é verdade desde certo ponto de vista. Porém ,o problema não está corretamente planteado, porque entanto não se nos diga qual é a índole destas internas possibilidades e qual é o caráter de seu ato, todo fica no ar. Agora bem, na exposição anterior se parte, sem mais da identidade ente o “por si mesmas” e “em si mesmas”, isto é, “na  sua razão objetiva própria”. E isso nos lança o problema por uma falsa rota, tanto pelo que concernem às possibilidades como pelo que concerne a seu ato” (id. 280).

“Por isso podemos entender, que o problema da realidade essencial, como problema do “por si mesmo” recai sobre duas questões: sobre a razão formal da intrínseca unidade essencial e sobre a principialidade dessa unidade. Tratemo-lo sucessivamente” (id. 286).

Aqui Zubiri vai desenvolver um tema fundamental para o conceito de realidade não conceitual:

Sobre a razão formal da unidade essencial” (id. 287).

“Portanto, a versão (à realidade) não é já propriamente uma “relação”, porque em rigor toda relação pressupõe a realidade já constituída de seus relatos, sendo assim que essa versão de que falamos, não somente não só pressupõe a nota senão que é um dos momentos que a constitui na sua realidade física. Este caractere constitutivo da versão é o que tenho chamado de “respectividade”; dela vou me ocupar nesse (in & 2) detidamente” (id. 287).

“A versão intrínseca às demais notas é uma respectividade interna, e a índole física de cada nota enquanto constitutivamente respectiva de  “nota-de” (id. 288).

“A nota não é “nota” + “de” as demais, senão que é “nota-de” as demais” (id. 289).

“O que com maior claridade, expressa esse caráter unitário da nota e do “de”, é tal vez a forma gramatical em que se expressa muitas vezes o genitivo em línguas semíticas. Em nossas línguas indo-europeias, paras expressar essa “relação” se coloca em genitivo, mediante uma flexão nominal, o sujeito “de” quem é a coisa (casa-de-Pedro)… Porém em algumas línguas semíticas, as vezes que se põe em genitivo (digamo-lo assim) é a casa, pois o que se quer expressar formalmente é só a pertinência dela a Pedro; e assim se falara “cassa-de-Pedro”. É o que se chama “estado construto do homem (casa), a diferença do estado “absoluto” em que fica Pedro. A casa não é casa sem mais senão que formalmente “casa-de” Pedro, entanto que ele é somente o termo inafetado e absoluto dessa singular “realização”. Juntos formam um todo unitário; por isso, em estado construto, como bem é sabido, os termos formam uma unidade semântica, morfológica e até prosódica, indissolúvel… Como em espanhol não há flexão nominal tenho usado a preposição “de” unida com um guião, seja a Pedro (flexão ), seja a casa (estado construto)” (id. 289 -290).

Reparemos como Zubiri vai elaborando como ourives o sistema da filosofia da realidade. Parece que se reparamos um pouco vemos o movimento seguro e firme  de seu pensamento, elaborando parte por parte e dando de si, vai aparecendo o conceito mais simples e mais metafísico de sua inspiração sobre a realidade. Vemos quantas partes já lapidou e relapidou. Como ele, em cada movimento novo, não deixa escapar o anterior nessa coerência, e nos vai oferecendo o polo da realdiade de sua proposta. O seu pensamento parece expressar simples e necessariamente aquele outro movimento, que parece sair de suas mãos. O seu rigor e reflexão parece nós asfixiar, mas respirando lentamente, lendo de novo nos abre mais e mais os olhos. A pesar de tanto esforço mental e físico nos espanta e nos cativa, porque parece que poderia ser dita aquela formalidade, que embora difícil e lenta nos enriqueça. Parece mentira que tenhamos dificuldade e satisfação desses conceitos da experiência da realdiade, que nos vai apresentando desde dentro da realdiade. Parece nos cansar até a exaustão, mas nos vai revigorando: viver o dom da realidade agora poderá ser possível.

 “Coerência, é um caráter metafísico, isto é, um caráter físico da realidade, porém de uma realidade enquanto tal. Não se trata do correlato real de um conceito objetivo. Nesse sentido a essência seria aquilo em que a coisa “consiste” a diferença de aquilo que a coisas meramente “é” sem consistir nela. Assim, por exemplo, este papel “é” branco, mas não consiste em ser branco. Porém, o homem não somente é corpóreo, senão que, pelos menos parcialmente “consiste” em corporeidade” (id. 298).

“Ante tudo, o fundamento da comunidade específica. É coisa que já expusemos… O específico, descíamos, é algo certamente “comum”, porque é algo que é comum por estar “comunicado”; somente na medida em que algo está comunicado ou é comunicável por ser especificamente comum. Esta comunicação é o que chamávamos multiplicação por transmissão.” (id. 309-310).

Este “desde si mesma” é formalmente, a unidade coerencial. Por tanto, a razão formal da unidade essencial é a coerência. É aqui o primeiro que buscávamos (id. 320)

“Porém, não é suficiente, com isso para caracterizar por completo a unidade essencial. Não  é sí que cada nota vertida às demais “desde si mesma, senão que ademais está vertida a elas “de antemão”.  Isto é, a unidade essencial é uma unidade “primária”.  É a segunda questão que nós propusemos dilucidar para apreender a índole da unidade essencial primária do real enquanto” (id. 320-321).

“Ao dizer que a unidade essencial é unidade primária, o que queremos dar a entender é que a unidade mesma é em si é em algum modo “anterior” (trótepon) as notas, que são umas, de sorte que o primário não é que essas sejam “componentes” da unidade, senão, pelo contrário, que sejam “analisadoras” da unidade mesma” (id. 322).

“Sobre a primariedade essencial” (& 3). “Desde o ponto de vista de suas notas, a essência constitutiva é um sistema de notas necessárias e suficientes para que a realidade substantiva tenha todas suas demais notas. Desde o ponto de vista de sua unidade, a essência constitutiva é o ponto e vista de sua unidade coerencial primária. Não são senão dos aspectos de uma realidade, a realidade da essência constitutiva. A luz que vem de ambos os aspectos, voltemos a olhar agora a essência constitutiva na sua integral realidade física, como momento  da realidade substantiva: é o problema “essência e realidade” o terceiro dos quatro passos que nos tínhamos proposto dar para a conceituação de essência” (id. 342).

Essência e realidade”. (artículo terceiro).

“Este carater da essência nos deixa sumidos em graves problemas. E ante tudo, o problema de como apreender e expressar conceitualmente a essência; entanto se considere a essência como determinação de um sujeito, o órgão natural para apreender a essência seria o logos predicativo. Ao abandonar aquele conceito, se nos coloca de novo o problema do qual seja o logos da essência…O primeiro, constitui a ordem da “talidade”; o segundo é a ordem “transcendental” (id. 344).

“Por tanto, nos obrigamos a forjar um órgão conceitual adequado para o caso. Para consegui-lo apelamos naturalmente à linguagem. E isso não só e nem se quer principalmente, (como fizeram os gregos) porque a linhagem seja “significativa”,  zoné sen-mantikè, senão porque significa “expressando” (id. 345). “A filosofia clássica se apoiou num logos perfeitamente determinado: o logo predicativo. Sobre é está montada a “lógica”, como órgão primário para apreender o real. O logos predicativo envolve um sujeito e umas determinações predicativas, predicadas daquele mediante o verbo ser” (id. 347).

“Fundados no exemplo que acabamos de citar (o homem é animal racional), os manuais de  Lógica se têm acostumado  infringir duas classes de definições, a definição “física” e  definição “metafísica”. A primeira será a que anuncia os princípios ou partes físicas e separáveis d essência, como se falo “o homem é um composto de corpo orgânico e alma racional”. Seria metafísica a definição que enuncia,  as partes metafísicas da essência , seu gênero e sua diferencia, como algo se digo “o homem é animal racional”. Parece então que o que tenho chamado “proposição essencial” é justo a definição física. Porém, isso não é assim…” (id. 350).

“Daí o esforço intelectual por apreender o essencial da realidade não por que ser um esforço por defini-la. De fato, só do homem –já o vimos porque- se tem dado estrita definição, discutível e até inegável tal vez, mas estrita definição; nenhuma outra realidade tem sido univocamente apreendida em gênero próximo e última diferença. Por outro lado, de todas as realidades, inclusive da humana, se tem descoberto caracteres constitutivos, quer dizer, notas essenciais suas. A diferença do que acontece na definição esse conhecimento da essência constitutiva é progredinte… O fim do saber essencial não é nem intuir nem definir, senão apreender sua unidade coerencial primária as notas constitutivas necessárias e suficientes para que a realdiade substantiva em todas as demais notas” (id. 352).

“Mas há vezes em que a linguagem expressa coisas conexas mediante nomes morfologicamente construídos uns aos outros, de sorte que a conexão se expressa mediante a unidade prosaica, fonética e semântica de dois ou vários nomes. É o “estado construto”. Por isso, os nomes em estado construto ocupam um lugar perfeitamente definido na frase, sem poder separar-se do nome em estado absoluto. Neste terceiro recurso morfológico transparece conceituado um novo e original aspecto fada realidade” (id. 354).

“As línguas indo-europeias empregam somente a flexão nominal e o regime preposicional. Outras línguas, por exemplo, as românicas empregam tanto a flexão como as proposicionais e o estado construo, entanto as outras tem perdido a flexão nominal e empregam somente os dois últimos recursos… Com o qual a expressão “estado construto” já não desliga aqui um mero recurso morfológico, senão uma estrutura real e física. Mestre sentido real, e somente uma estrutura real e física. Nesse sentido real, e somente nesse , é no que tenho empregado e empregarei no sucessivo aquela expressão. É aqui, pois o órgão conceitual adequado que buscávamos para nossa problema: o logos nominal construto” (id. 355).

(Essência e talidade” -& 2)“Averiguar “qual” seja essa essência, quer dizer, qual seja esse “tal”, é assunto do saber positivo. Porém, concerne formalmente a metafísica a conceituação da “talidade” mesma. A essência, pois , é essência ante tudo na ordem da realidade” (id. 357).

“Em primeiro lugar, segundo acabamos de ver, cada nota não é “tal” como é, senão pelo que nela imprime a existência de todas as demais. Porém então, esse todo não pode ser ilimitado, pois se fora nenhuma nota poderia ser “tal” como é, senão que sua última caraterização ficaria sempre incompleta indefinidamente” (id. 366). “É a realdiade física da essência na ordem da talidade: é aquilo segundo qual coisa é “isso” e não o “outro”, quer dizer, é a maneira de estar “construída” a coisa real como ‘tal’” (id. 371).

Essência e Transcendentalidade(& 3). “É a transcendentalidade do real. A ordem da realidade enquanto realidade é uma ordem transcendental, a diferencia da ordem da realidade enquanto realidade “tal”, que é a ordem da realidade. Por conseguinte, a essência enquanto que é aquilo segundo o qual a coisa real, pertence à ordem transcendental (id. 372).

“O eu transcendental é o eu objetualizador da experiência. A contraposição “experiência-transcendência” acaba de perfilar assim o conceito do transcendental no idealismo. Esta filosofia tem carregado acento sobre o momento da idealidade. Com o qual parece que se tem invertido os termos respeito da filosofia medieval para a qual a ordem transcendental é a ordem do ente enquanto ente. Por isso, “transcendentalismo” é sempre um vocábulo que tem nos ouvidos modernos, claras e fortes ressonâncias idealistas” (id. 376).  “O idealismo chega a esse conceito partindo do eu empírico. O idealismo faz ver sem esforço que o eu puro e o empírico, embora, não são dois eu numericamente diferentes, não são idênticos” (id. 377).

“Porém essa é uma concepção idealista da realidade, não uma concepção nova do transcendental enquanto tal. Daqui se segue que “o idealismo transcendental”, na questão que nos ocupa, é uma falsa expressão. Porque não se inscreve a transcendentalidade dentro da realdiade, senão ao contrário, a idealidade dentro do transcendentalidade do real. Metafisicamente, pois, não é um “idealismo transcendental, senão se vale a expressão, um “transcendentalismo idealista”. A transcendentalidade não tem mudado. Porém, não basta com isso, porque, ademais, a concepção idealista da realidade mesma é inamissível. E é necessário, quando mens, deixar bem claro para perfilar com maior precisão a ideia da ordem transcendental como ordem da realidade enquanto tal. Em primeiro lugar, o idealismo, como outras muitas filosofias que não são idealistas, concebe a realidade do “sujeito”, como um “eu, e um “eu”, que na sua pureza transcendental consiste formalmente “ir-para”, “(ir-hacia)” o eu não-eu… Em segundo lugar, a filosofia com Descartes tem inscrito a ordem do real no verdadeiro: seria real aquilo que é realmente tal como eu penso... Em terceiro lugar, e finalmente, aquilo ao que vá o “eu” puro tem para o idealismo caráter de sujeito. Com o qual a metafísica, que até Kant tinha sido isso que Clauberg pela primeira vez chamou de “ontologia”, se tem convertido em Kant no que pudéssemos chamar de “objetologia”. E isto é impossível. (id. 380-381).

Como concebe a escolástica a ordem transcendental?… Para a escolástica aquilo que primariamente concebe a inteligência e ao que se reduzem em ótima instância todos os conceitos é o “ente”: toda coisa, se nos fala, em efeito, é inteligência na medida, que entendo que “é” isto ou o outro; e a coisa considerada assim, a coisa enquanto tal que “é”, é justamente o que se chama “ente”. Daqui que aquilo em que convêm todas as coisas seja no “ser”. Porém, que se entende aqui por “ser”? (id. 383).

“Aqui basta-nos com ter exposto sumariamente que é esse ente e que é a ordem transcendental para a Escolástica; a ordem transcendental é a ordem do ente real nominalmente considerado, a ordem do ente para existir, a ordo entis ut sic.” (id. 387).

“Temos assim os seis transcendentais clássicos: ens, res, unum, aliquid, verum, bonum. É ai a ordem transcendental segundo a filosofia escolástica” (id. 388). “Sem embargo, se bem se olhe, na expressão essa ideia aparecem sempre entrevados três conceitos: ser, realdiade e existência. Esses conceitos se usam, a pesar de todos os esforços, um pouco promiscuamente…” (id. 389).

Realidade para a escolástica, resume Zubiri,

é a equação: realidade=existência”, porque realidade é extra-animal, é extra-animalidade (realidade é o existente, extra-animalidade é existência) e porque “o existente tem efeitos efetuados sobre as coisas” (id. 390).

Zubiri a partir desses esclarecimentos entende que pode já expor sua proposta mais concisa, sustentada e detalhamento. Não vamos transcrever toda essa sua criatividade buscando uma filosofia da realidade mesma, que não seja mais concipiente. O caminho até agora foi longo, mas cada vez mais vai encontrando o que buscava: uma formalidade apresentativa do real. Embora, já o começou fazer anteriormente, agora expõe sua proposta de forma mais ampla, incluindo momentos chaves do desenvolvimento da Inteligência senciente. Terá que amadurecer mais ainda, mas já planta as pedras reais da realdiade, recolhida e elaboradas nos cursos. Porém, não podemos deixar de destacar, e o faremos citando o próprio filósofo, a expressão radical que sustenta toda a construção zubiriana: “de suyo”, “de seu”. É a primeira vez que usou esse termo tecnicamente na sua filosofia.

Embora, entendemos que a partir deste momento Zubiri parece se sentir mais “a cavalheiro”, depois de tanto esforço, de tantas quedas e tentativas no meio da confusão milenar sobre a realidade. É verdade, que não o faz sistematicamente, e nem de forma das modas, o que nos pode causar confusão, mas é o afloramento definitivo da sua inspiração dando frutos, que serão fundamentais e aprimorados na Inteligência senciente. Por esse motivo, embora temos a tentação de transcrever todos os frutos, não o faremos porque seria muito longo. Entretanto, o faremos suficientemente para seguir seu raciocínio e motivar a leitura desse final de Sobre la esencia, como recompensa do esforço intelectual que Zubiri nos obrigou a realizar com ele. Fomos também pequenos Sísifos incansáveis e aceitando erros e cansaço, buscando a realidade, não representativa onde os conceitos impõem sua realidade deturpando assim a verdadeira sabedoria e vida humana. Vejamos.

“O momento de independência nos levaria, ao máximo, a uma “correlação” entre o sentir e o sentido na sua reciproca independência de variações. Porém, o prius (da realidade)é algo absolutamente diferente: é a positiva e formal “remissão” ao que é a coisa antes da apresentação. Segundo costumo dizer desde faz muitíssimos anos, a coisa me é presente como algo “de suyo”. A irrealidade consiste formalmente em não envolver esse momento do “de seu” (id. 394). “Agora bem, esse algo, pode ser “de seu” de muitas maneiras distintas. Todas envolvem como momento intrínseco, a natureza…Por tanto, natureza é tão só um momento do ser “de seu”, mas nada mais… Quer dizer. O “de seu” é anterior à natureza e fundamento dela” (id. 395-6).

“Numa palavra, tanto a existência como a essência pressupõem a realdiade. Que é essa anterioridade?… Porém é que no exórdio da metafísica não de deve partir é de uma conceituação distinta dos momentos de cada coisa real, senão que, justamente ao contrário, partimos da coisa real qua real… Toda coisa real, em efeito, por ser “de seu”, está qua real formalmente tratada respeito de todas as demais coisas, incluindo entre elas a inteligência e sua própria intelecção… Somente fundados nessa formalidade, isso é, na realdiade que realidade, poderemos descobri seus dois momentos de  essência e de existência “ (id. 400-1).

A realdiade possui, certamente, o caráter de érgon, um caráter que se me permite a expressão, chamei-a de “érgico”, isto é atua sobre as demais coisas, efetuando determinadas operações. E em virtude, se considera esse carater érgico como caráter do que é real” (id. 401).

“O que acontece, é que por superposição de ambos os sentidos (nominal e  copulativo) se produz o espelhismo de pensar que existir seja um sentido do ser, como se “existir” fosse “ser consistente”. Foi à origem da expressão esse existentiae e de outras similares. Que isto seja um espelhismo, que dizer, que a intelecção direta do real não é uma “especialização” do sentido do “ser”, é algo que perdura em nossas línguas, a saber, a frase nominal. Como é sabido, primitivamente, (como  pode ver-se, por exemplo, em védico e em avéstico) a frase nominal não é a elipses de um “ser” sobre-entendido, senão que é um tipo original e originário da frase estritamente “a-verbal”; somente em estudos ulteriores de algumas línguas, por exemplo , o sânscrito clássico, poderá falar-se de elipses. A frase nominal expressa à complexão real  diretamente e sem verbo copulativo. É verdade que se encontra limitada a sentencias, identificações, etc.; porém esses casos são justamente aqueles nos que quer expressar com toda força a nua realidade. E justamente , então, se espera sim o verbo “ser”, com só a complexão nominal” (id. 407-8).

A realidade é o “de seu”; e somente porque a coisa é “de seu” pode reatualizar “de seu” essa sua realdiade. E essa re-atualização é o “ser”. Então, a coisa já é “seu”, ademais “é” (id. 410).

“Se perguntará que é isso que chamo “atualidade ulterior”; O veremos sumariamente logo; por agora basta com tê-lo indicado dizendo que é uma como afirmação ou reafirmação da realdiade na sua realidade. Por isso, não há esse reale, ser real, senão o que eu venho chamando de realitas in essendi, a realidade em seu ser, ou melhor, todavia, a realidade “em ser”. Ultimamente não há um ser substantivo, senão nua realidade” (id. 411).

“Uma vez compreendido isso, nada impede ater-se a estruturas d nossas língua, nas quais aqueles vocábulos são invitáveis muitas vezes”…   Realidade é o que formalmente constitui isso que chamamos coisas. As coisas começam e terminam onde começa e término o “de seu”… O homem está aberto às coisas pela sua sensibilidade. Isso é, acede primariamente as coisa sentindo-as… Essa pura sensibilidade é a que possui o animal; porém também o homem. O homem não sé somente aquilo que o distingue do animal, senão também o que comparte com ele. Todavia o homem, não só sente as coisas, como estímulos, senão também como realidades; o estímulo mesmo é radicalmente sentido como realidade estimulante, isso é como estímulo “real”. A abertura as coisas como realidades é o que formalmente constitui a inteligência. A formalidade própria do inteligido é “realidade”. Entretanto, essa formalidade não é algo primariamente “concebido” senão “sentido”… inteligência senciente (id. 414).

Contra o que a escolástica pós-clássica vem falando desde faz mais de meio século, a inteligência não é “faculdade” do ser, senão “faculdade de realidade”” (id. 416).

“Porque na intelecção senciente, em impressão de realidade, temos presente o real, não só como algo independente do ato (isso acontece também no estímulo), senão que o real nos está presente como algo cuja presença é consecutiva ao que ela é já “de seu” (id. 417).

“Essa questão é a seguinte: a inteligência e a vontade do ente inteligente e volente não são formalmente atributos ou caracteres de sua entidade enquanto tal; isso quer dizer, inteligência e vontade não são momentos transcendentais do ente inteligente e volente, senão momentos de seu modo especial de ser, momentos de sua talidade. Não são propriedades transcendentais. Porém, pelo contrário, tem uma estrita ‘função” transcendental (não outra coisa, são tanto a relação transcendental como o respeito possível), já que somente com vistas à inteligência e a vontade tem ente, enquanto tal, as propriedades transcendentais de verdade e bondade…” (id. 424).

“Função transcendental é , pois, a função pela que uma talidade constitui as propriedades transcendentais da realidade. Em virtude dessa função, a realidade enquanto tal não somente  possui “materialmente”, por assim falar, uma possibilidades transcendentais, senão que é “formalmente” uma verdadeira estrutura transcendental” (id. 425).

Mundanidade não é senão respectividade do real entanto que realidade; não tem nada que ver com o homem, Finalmente façamos notar que se a respectividade não seja própria formalmente ao carater de realidade, o que teríamos é ou bem a respectividade meramente biológica, o “meio” dos seres vivos, ou bem “mero entorno” cósmico, como campo de ação e reação. Porém, nem meio nem entorno são formalmente mundo; mundo, repito, é a respectividade do real na sua formalidade de realidade” (id. 428).

“Em definitiva, a ordem transcendental é a ordem das coisas reais enquanto reais, isto é, como algo “de seu” (id. 432).

O primeiro é chegar à realidade; o segundo é chegar a ser. E isso último é o que sempre se expressa com a metáfora do phós, da luz. O devir de um vivente, como devir na respectividade mundanal, é por isso “alumbramento” (dar a luz), um eís phós parietai, como falava Plutarco; viver é viver a luz do dia, tó phós óran (Sófocles)” (id. 433-434).

“Tenho dito da filosofia de Heidegger mais do que estritamente diz ao ponto de que estamos tratando; porém tenho querido fazer assim para enquadrar devidamente o sentido de suas afirmações sobre o ser. Heidegger tem o inquestionável mérito, não precisamente de haver distinguido ser e ente (em forma mais ou menos turba, já o temos dito, essa distinção transcorre no fundo da Escolástica e até de Kant), senão o mérito de haver-se feito questão do ser mesmo aparte do ente” (id. 441). “Porém, Heidegger busca uma Ontologia. Para isso concebe a compreensão do ser de uma maneira, pala sua vez ontológica… Isso põe Heidegger diante de seus olhos quando parte de que “o ser se dá na compreensão do ser”” (id. 442).

“A realidade não é, portanto, um tipo de ser, senão que, ao contrário, ”ser” é algo fundado na realidade: o ser se dá ao deixar a coisa real na sua realidade, porém não é a realidade mesma” (id. 447).

Como qual, o radical do homem se torna em compreensão do ser. Agora bem, isso é insustentável, primeiro, porque a função primária do homem não é compreender o ser, senão enfrentar-se sencientemente com a realidade das coisas, e segundo, porque o ser carece de toda substantividade; o ser só é “respectivamente”; e essa respectividade não é a respectividade ao homem, senão à realidade de todo. Portanto, é a realdiade e só a realidade o que tem substantividade” (id. 453).

“Agora bem, algo, por ser conteúdo determinado “próprio”, é transcendental de todo, é “de seu”, é realidade. O “de seu” é, pois, o caráter transcendental de todo o conteúdo determinado. Na linha da apreensão vimos que um conteúdo podia não ter formalidade real, senão ter formalidade “estímulo”” (id. 457).

“Aqui ao contrário, estamos nos movendo no conceito de essência, que está além tanto da existência como da essência clássica; essência é aqui o quid na ordem ao “de seu”. E então nesse conceito essência é anterior aos dois términos clássicos no sentido em que uma razão formal é anterior àquilo de que é razão. A razão formal é “fundamento”, porém o tem só enquanto razão formal. E nessa razão formal se incluem os dois términos clássicos não confusamente, senão distintamente; a essência é tanto existência como essência, porque ambas tem que começar por ser “de seu”, e essa ordem ao “de seu” é justamente a essencialidade mesma da essência de que falamos” (id. 461-2).

“Se assim não fosse, teríamos tantas realidades como notas, e não teríamos uma realidade senão um agregado de realidades. O “de seu” construtamente determinado é um caráter transcendental de realidade, uno e o mesmo para todas as notas” (id. 476).

“Inútil repetir que a essência nesse terceiro conceito é primária e formalmente a essência constitutiva, não a quidditiva. Porém por outra parte, desde há muitas páginas, viemos falando, que a essência é sinónimo de realidade” (id. 477).

Por isso, é pelo que a função da essência respeito do talitativamente inessencial, não é “sustentar” senão “reificar”. Nesses dois pontos (a realidade como substantividade e a essência como construtividade) se cifra, pelo que faz a nosso problema, toda a diferença com Aristóteles” (id. 481).

“O “seu” é pelo contrário, um momento que pertence intrinsecamente ao “de seu” segundo uma estrutura de fundamentação: o real é “seu”, porqueé “de seu”. O “seu”, a incomunicabilidade, não é senão uma “resultante”, por assim falar, do “de seu”. Por isso, é pelo que a incomunicabilidade não é só uma propriedade transcendental, senão que tem o caráter de momento estrutural transcendental” (id. 485).

“Por isso, deveríamos introduzir, também aqui, vocábulos adequados para evitar confusões. A essência enquanto que transcendentalmente é já indivíduo, diremos que tem individuidade… De sorte que não há então senão um só indivíduo nos seus dois momentos de individuidade e individualidade. Porém, esses dois momento devem ser entendidos corretamente” (id. 490).

“Talitativamente, o real é, segundo vimos, pluridimensional; a coisa se atualiza nas suas notas num triplo respeito, a saber: riqueza, solidez e estar sendo. Estas três dimensões talitativas tem uma precisa função transcendental como momentos do “de seu”. (id. 495). “Perfeição, estabilidade, duração, são três dimensões segundo as quais o real está plasmado desde seu interior na exterioridade intrínseca de suas notas” (id. 499).

“Todo o real, toda essência, é “de seu” no duplo sentido momento estrutural de constituição e dimensão… Ao que me refiro é a outra coisa; é a esse momento segundo o qual, por ser algo “de seu”, a essência fechada é algo “em si” mesma. Toda sua realidade transcendental fica esgotada em ser “de seu em si”. Nisto é o que consiste a essência fechada… Claro nenhuma essência faz exceção a isso, no sentido de que nenhuma essência carece de ser algo “e si”. O que sucede é que as essências que em função transcendental não somente são “em si”, senão que são em si tais, que ao seu próprio “de seu” pertence no ato segundo comportar-se não só segundo as notas que tem, senão ademais notas que segundo seu próprio caráter de realidade. Nesse ato (é o único decisivo nesse assunto) essa estrutura é só o que constitui a essência “aberta”. Abertura é aqui um caráter estrutural transcendental… São sem dúvida, as essências inteligentes e volente (id. 499-500).

A essência intelectiva é “de seu”, aberta a todo o real qua real. As essências fechadas são, pois, as que não são intelectivas. A inteligência, que é uma nota essencial, tem uma função  transcendental exclusiva dela” (id. 501). “Foi o erro de todos os subjetivismos: a essência intelectiva por ser algo “só em si”, seria essência fechada. Agora bem, a essência intelectiva não é só de seu algo em si, posto consecutivamente em relação com outras realidades, senão que sua abertura pertence constitutivamente e formalmente à sua própria realidade em sí. A essência intelectiva é algo de seu, “aberta em si mesma”” (id. 502). “isto significa que na ordem constitutiva transcendental, uma essência aberta não somente se pertence a si mesma, senão que se pertence a si mesma de modo peculiar” (id. 503).

“E no “de seu” da essência aberta é o que transcendentalmente consiste a pessoa” (id. 506).

“… a intelecção é em sí mesma senciente, e o sentir é inteligente, e de que, na sua estrutura essencial constitutiva, inteligência e sentir constituem sua estrutura única. Pode dar-se, e de fato se dá sentir sem intelecção, porém a recíproca não é certa: toda intelecção é ultimamente senciente. Por isso o homem é “animal de realidades”; e disso resulta que o homem é “animal pessoal”. O homem vai elaborando sua personalidade em distensão e protensão precisamente porque estruturalmente é personeidade, e o é animalmente” (id. 507).

Ao falar de princípios reais, parece que eu ipso fica já concebida a realidade no sentido que esse conceito tem desde as origens da nossa ciência europeia. Nada mais ilusório. A realidade do real tem sido historicamente entendida de maneiras muito diversas. Tem sido entendida em primeiro lugar como “poder:” a realidade seria um sistema d poderes ou poderosidade… Outo modo de entender a realidade é entendê-la como “força”. Certamente não é uma força no sentido da física de Newton e Leibniz, senão uma força sui generis, a força da realidade; essa ideia ainda se expressa em nossos idiomas quando falamos que algo tem que ocorrer “pela força das coisas”. Porém, pode entender-se também que a realidade do real consiste em que cada coisa real é algo “de seu”, o que respeito das concepções anteriores poderia chamar-se de “nua realidade”. Com isso nasceu lentamente em Grécia nosso saber…Mas devemos falar que em toda apreensão do real estão esses três caracteres…Não se trata de dar-lhes uma preponderância que nem tem nem podem ter, senão inscrevê-los no caráter de “nua realidade”, no “de seu”. As coisas  não somente atuam “de seu” sobre as demais, senão que têm “de seu”, também certo poder dominante sobre elas. Não foi precisamente a unidade desses caracteres o que expressou Anaximandro no seu célebre àrké?” (id. 510-1).

Aquilo de que é princípio a essência é, pois, a substantividade. A substantividade é um sistema de notas dotado de suficiência na ordem da constituição: dentro desse sistema a essência é um sistema fundante, o sistema e notas constitutivas… O essencial como princípio é um princípio estrutural” (id, 511-12).

“Estrutura é uma unidade intrínseca expressada em propriedades sistemáticas. Habituados à ideia de unidade substancial, esta ideia da unidade de substantividade pode parece mais laxa, uma unidade de rango inferior. Porém, não é assim; a verdadeira e radical unidade do real é a unidade de substantividade…” (id. 513).

“Essa estrutura é em princípio, não somente das notas constitucionais da substantividade; é princípio também de suas notas adventícias. Aqui, adventício não significa fortuito, senão devido à conexão de uma realidade substantiva com outras; adventício é “adquirido(id. 514).

“Há, efetivamente, uma essência intramundana, o homem, que é uma essência “aberta”, e “aberta” numa forma sumamente precisa: sencientemente…Aqui possibilidade tem um caráter distinto do meramente potencial. Com umas mesmas potências, possui “atualização”; porém as possibilidade passam para o ato por “aceitação” ou “aprovação”. Daí que a atualização já não seja mero movimento, nem a atualidade mero fato. A atualização é um “suceder” e a nota atualizada é “sucesso” ou “evento”. É uma diferencia rigorosamente metafísica. O fato é a atualidade de uma mera potência; o sucesso é a atualidade de uma possibilidade” (id. 515-516).

“Se retrotraímos agora essa diferença operativa à estrutura mesma, a diferença entre essência fechada e aberta cobra um cárter principial radicalmente diferente em ambos os casos. A estrutura da essência fechada é princípio “do onde” algo é feito; a essência humana aberta é princípio “de onde” algo é sucesso. E nesse sentido essa última essência tem carater de princípio “eventual”. Aqui, repito, eventual não é algo azarado (id. 516).

Zubiri chega ao fim de sua dolorosa, laboriosa e longa pesquisa sobre a realidade, e afirma no último parágrafo:

“Em definitiva, como princípio, a essência é princípio estrutural da substantividade” (id. 517).

Podemos falar essência, podemos falar de realidade, “porque faz muitas páginas viemos falando que essência é sinónimo de realidade” (id. 477)

Modo de conclusão. .

Repetimos, e respiramos finalmente com Zubiri, e agora podemos falar de essência, como podemos falar de realidade. Contudo Zubiri vai escolher a realidade, tanto que mais tarde, nos revelou, que devia ter titulado sua pesquisa de Sobre la realidad, tanto para eliminar tantos mal entendidos, como para dar-nos o que sempre fomos: realidades, sem formas conceptivas, que nos possam desviar. “Porque, desde há muitas páginas, viemos falando, que a essência é sinónimo de realidade” (id.477).

Depois da leitura destas visões sintéticas e mais amplas Sobre la esencia podemos convidar você, se estiver interessado e com vontade, a ler o original da obra. Será mais fácil agora. Ler as obras maduras de Zubiri, sem ajuda (ou mesmo com essa ajuda) é tarefa de sísifos, neste mundo de provisionalidades, vendido pelo falso fundamento da opinião e do progresso, esperando um dia entende-lo melhor. Não podemos e nem devemos ler pelos outros. Zubiri nos convida e cativa para essa imersão nos caminhos do real e do real. Zubiri nos levou a experimentar o oceano infinito do real, mal interpretado e vivido pelas formas concipientes de nossas sabedorias, para sair dessa imersão filosófica do homem. Esta é a nossa impressão depois de ter lido Sobre la esencia: encontramos nele o nosso real, mas o vemos ainda problemático para pensar e viver, e isso diante do andaime conceitual que milenarmente construímos, e como se queixa Zubiri gastando nossas melhores energias.

Não será fácil interpretar e viver aplicando esse novo horizonte intramundano, porque “estamos mal acostumados” a conceitos soltos da realidade. Porque, em nosso caminho deveremos ir fazendo perceptos, fictus e conceitos, como a dinámica real do logos, porém conceitos da realidade experimentada e pensada sencientemente e não permitir mais que eles continuem impondo seus caprichos de sofistas, de filósofos, cientistas e muito menos de “metidos a sábios e a políticos salvadores” de plantão, como de povo também contaminado, quando agora poderemos e teremos que continuar fazendo conceitos, porém da realidade. Porque Zubiri nos colocou no horizonte do real que somos. Deste mar redescoberto do real não queremos sair mais. Todos o queremos, porém o “cachimbo dos conceitos” nos mal acostumou a pensar e andar entitativamente. Zubiri nos abre a outro modo de fazer filosofia e de andar nela para unir pensamento e realidade. Seremos recompensados depois de rumiar seu conteúdo até o final da obra, e teremos a grata e problemática experiência de que poderemos cair no real, com os elementos dados na nessa obra podermos andar sencientemente no real, sem pensar que vamos “quebrar à cara”.

Zubiri nos mantêm o ânimo e nos revela expressamente esse talante filosófico, aos seus oitenta anos de vida produtiva (1982):  

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     Na pesquisa vamos da mão da realidade verdadeira, estamos arrastados por ela, e esse arrastão é justamente o movimento da pesquisa” (Escritos Menores -1953-1983-. p. 321-325).

Parafraseando a Ramos Gangoso, tentei fazer uns resumos, os mais claros e breves que tenho conseguido de Sobre la esencia, obra tão densa e decisiva para a sabedoria das pessoas. Confio que seja a pretensão zubiriana: divisor das águas conceituais, que sempre nos confundem com imersão das águas sencientes, porque reais, acompanhados por ele. Sabemos que, a ajuda deste trabalho, é insuficiente, por motivos pessoais e pelos expostos, mas entendemos que pode ser insubstituível, como nos falou Ellacuría.

Entretanto, não nos podemos furtar do que adverte Pintor-Ramos sobre obra e estilo de Zubiri: “Não somente de fato, senão também por exigências teóricas, o que determina o tratado zubiriano é o predomínio da dimensão “representativa”, na qual devem articular-se a apelativa e a expressiva. A própria concepção intelectiva de Zubiri torna indispensável essa ordenação”.

E Pintor-Ramos nos avisa da necessidade de fazê-la, tendo em conta esses possíveis desvios: “A filosofia é fundamentalmente obra da razão. Essa razão jamais parte de si mesma, senão que, desde o dado, marcha para (hacia) o ignoto abrindo uma via ulterior que perfila um esbozo racional…” (Pintor-Ramos. La filosofia de Zubiri e su género literário. p. 28-29).

Então, deixe de ter reparos e pedir ajuda, e busque pensar e viver das riquezas desse mundo real em que vivemos. Porque, é necessário que cada um faça filosofia hoje de sua realidade na realidade de sua terra.

Sobre la esencia (1962). (Parte I).

Segunda etapa do pensamento de X. Zubiri

Metafísica da realidade-

Minhas reflexões seguiram uma via oposta: o ser se fundamenta na realidade”. “Foi o tema de meu livro Sobre la esencia” (NHD. 28 e 29).

Não se trata, em efeito, de tomar dois conceitos já feitos, o da substância e o da essência, e ver de acoplá-los de uma ou outra forma, senão em colocar-se o problema, que debaixo desses dois vocábulos late, o problema da estrutura radical da realidade e de seu momento essencial (SE. 6).

É realidade todo e somente aquilo, que atua sobre as demais coisas ou sobre sí mesmo em virtude formalmente das notas que posse. Expliquemo-lo” (id. 104).

“Desde outro ponto de vista, dentro das realidades humanas, há uma radical diferença de condições metafísicas. A realização humana, em efeito executa atos que como tais são a realização de algo possível” (id. 204).

“Pois bem, esse caráter constitucional é justo o que chamamos “substantividade”. O que a constitui é uma substantividade, e realidade assim constituída é uma realidade substantiva” (id. 146).

O fim do saber essencial não é intuir nem definir, senão apreender na sua unidade coerência primária, as notas constitutivas necessárias, e suficientes para que a realidade substantiva tenha                                                                                                                                                                                                                                                               todas suas notas” (id. 353).

“Segundo costumo falar desde há muitos anos, a coisa me é presente como algo ‘de seu’” (id. 394).

Introdução. (de Sobre la esencia)

Por Xavier Zubiri.

“Esta (é uma) especulação sobre a substância”.

(Aristóteles, Met. 1069 a 18.)

Essência é o título de um dos temas centrais de toda metafísica. O vocábulo latino essentia é um termo culto; é o abstrato de um presunto particípio presente essens (esente) do verbo esse (ser).Morfologicamente é, pois, o homólogo exato do grego ousía, que é pela sua vez (ou quando menos assim era percebido pelos gregos) um abstrato do particípio presente feminino ousía do verbo eînai (ser). Esta homologia poderia levar a pensar que ousía significava essência. Sem embargo, não é assim.  O vocábulo grego, na linguagem usual, é muito rico em sentidos e matizes; e muitos deles usa Aristóteles. Mas, quando o filósofo o usou em termo técnico, significou não essência, senão substancia, substância. Pelo contrário, o que este vocábulo latino traduz exatamente é o termo úpokeímenon, aquilo que “está-por-baixo-de”, o que “é-suporte-de” acidentes (sinbebnókta).

Não é uma mera complicação de azares linguísticos; e para o próprio Aristóteles, a ousía, a substância, é especialmente e em primeira linha (malvista) o úpokeímenon, o sujeito, o subs-tante. Pelo contrário, a essência corresponde mais bem ao que Aristóteles clamou tó t´em eínai e os latinos de quidditas, “o que” é a oúsía, a substância. Para Aristóteles, a realidade é radicalmente substância e a essência é o momento dela.  A essência é, pois, sempre e só, essência da substância.

Esta implicação, ou mútua referência de essência e substância dentro de sua inegável distinção, tem percorrido como é forçoso, ao longo de toda a história da filosofia, porém cobrando distinto caráter. Durante a Idade Média se repetem fundamentalmente as ideias de Aristóteles sobre esse ponto. Mas, a partir de finais do século XIV e culminando a ideia em Descartes, a essência começa a dissociar-se da substância, e fica referida a esta de um modo, por assim falar laxo. Descartes não duvida. Em efeito, de que a só evidência imediata garante que a essência do ego é ser res cogitans, algo pensante, entanto que a essência do mundo é ser uma res extensa, algo extenso.

Agora bem, aqui, res não significa coisa, isto é substância, senão tão somente o que a escolástica entendia por res, a saber, a essência no seu sentido latíssimo, o “que”; contudo tenho traduzido o termo por “algo”. E esta res ou essência é tão distinta de “coisa” ou substância, que para apreender àquela seria suficiente à cogitação evidente, entanto que para assegurar-se de que a essência se encontra realizada em “coisas ou substância”, não basta a Descartes com a evidência, senão que tem que dar o problemático rodeio de apelar nada menos que a veracidade infinita. A essência e a substância ficam implicadas, pois, mas da maneira mais laxa concebível: tão somente pela potentia Dei ordinata, pelo poder “razoável” de Deus.

A partir de este momento esse vínculo quase cai por sí mesmo, e a substância fica além da essência; não podia menos de suceder assim. Porém, a essência continua referida a uma substância especial, a substância pensante. Que em quanto pensante seria um sujeito substancial. A essência seria então um ato formal de concepção desse pensamento ou quando menos seu termo meramente objetivo: é o idealismo da essência nas suas formas e matizes.

Na filosofia atual, é verdade que ainda esta implicação parece desvanecer-se. Fiel, se não à letra, sim ao espírito cartesiano, Husserl seguindo ao escolástico Brentano, afirmará que as essências nada tem que ver com as substâncias, porque a consciência mesma não é substância pura. De sorte que o orbe inteiro das essências repousa sobre sí mesmo. As substâncias não são senão suas incertas e contingentes realizações. É a deformação mais cartesiana do cartesianismo. Um passo a mais, e des-substancializada a consciência, fica reduzida ao ser “minha consciência”, e este “mim” cobra o caráter de ser simplesmente “meu próprio existir”. Com o qual, o que antes se chamou “sujeito” pensante, consciência, etc., é agora somente uma espécie de ímpeto existencial, cujas possibilidades de realização dentro da situação em que se encontra, são justamente a essência, algo assim como um precipitado essencial do puro existir. É a tese de todos os existencialismos. A realidade tem ficado des-substancializada e a essência realizada em forma puramente situacional e histórica.

Poderíamos pensar, então, que os acontecimentos intelectuais tenham recaído mais bem sobre a substância que sobre a essência, como se o conceito desta se tivesse conservado imperturbavelmente idêntico na filosofia. Nada mais errôneo. Porém, é um erro explicável, porque os termos consagrados pela má tradição multissecular podem produzir, pelo mero fato de sua consagração, a enganosa impressão de que ao empregá-lo, todos entendem da mesma maneira, quando a verdade é que muitas vezes envolvem conceitos diferentes. E isso é o que ocorre em nosso caso.

Ao fio da transformação do conceito de realidade como substância, se tem transformado o conceito de “o que” é essa realidade, a saber, a essência. Por singular paradoxo nos encontramos, pois, diante mesmo problema, que desde um princípio teve que debater-se o próprio Aristóteles: a implicação entre a estrutura radical da realidade e a índole de sua essência.

Por isso é que tenho colocado, como lema do trabalho, a frase com que começa Aristóteles o livro XII de sua Metafísica: “Esta (é uma) especulação sobre a substância”.  Nesta passagem Aristóteles reafirma sua ideia da realidade como substância, e trata de encontrar suas causas. Mas nada impede -todo o contrário- aplicar àquela frase uma investigação acerca da essência da substância tal como ele a leva a cabo no livro VII. Agora bem, ao inovar essa frase não o faço como título de um propósito de repetir as ideias, senão como lembrança da primariedade com que Aristóteles enfrenta esse problema, e como um convite a recomeçá-lo. Não se trata, em efeito, de tomar dois conceitos já feitos, o de substância e da essência, e ver de acoplá-los numa outra forma, senão de plantear-se o problema que debaixo desses dois vocábulos late, o problema estrutural da realidade e de seu momento essencial (SE. 6).

Capítulo primeiro. O problema da essência.

“Em definitiva nos perguntamos em primeiro lugar, pela essência considerada não como término de nossa maneira de afrontar as coisas reais, senão como momento delas. No segundo momento, nos perguntamos da entrada por esse momento considerado em si mesmo, e não no seu eventual respeito à existência. Em terceiro lugar, no perguntamos finalmente por esse momento como momento estrutural e físico da coisa real. Tal é a direção que vamos afrontar o problema da essência. A primeira vista pudesse parecer que é uma redução do problema metafísico da essência da coisa à “mero essencial” dela, quer dizer, somente ao mais importante do que a coisa é. Porém, veremos no curso desse estudo que não é assim, senão todo o contrário.

Fica com isso marcado o caminho inicial de nossa pesquisa. Antecipando ideias, começarei por uma determinação provisional do conceito de essência, que será por sua vez uma formulação mais precisa de nosso problema. Examinarei depois alguns conceitos mais importantes do que se tem dado na filosofia para essência, não tanto por um legítimo desejo de informação, senão como meio, em certo modo dialético, para enfocar a visão de essência. Então, estaremos já em franquia para tratar finalmente de enfrentar-nos de uma maneira direta e positiva com o problema da essência” (id. 10).

(Editora Alianza S. A., Madrid, 1985. Primeira ed. em Aliazana Editorial S. A.. Depois de quatro edições da “Sociedad de Estudios y Publicaciones”: 1962, 1963, 1963 e 1972. Pp. 1-6 e 10).

Resumo Introdutório. Capítulo sexto. (SE. 97-101).

Por Xavier Zubiri.

(Traduzimos, também, este capítulo, porque é considerado o melhor resumo do próprio Zubiri de problema enfrentado em Sobre la esencia o que ajudará a que fique mais claro a problematição feita por ele.)

Nós propomos averiguar que a essência. Com o objetivo de acercar-nos melhor ao problema, é que tenho demorado na discussão de alguns conceitos clássicos da existência. O resultado mais tangível dessa discussão tem sido mostrar-nos que se queremos saber que é primária e formalmente a essência, é forçoso retrotrair-nos à realidade por si mesma e inquirir nela qual é esse momento estrutural seu, que chamamos essência, tomando-o em si, independentemente de toda função ulterior que possa desempenhar, seja na ordem da existência, seja na ordem da especificação, etcetera.

Para isso, voltemos ao ponto de partida de nossa investigação. Comecei por uma determinação provisional do conceito de essência. Não tinha naquele momento mais finalidade que a de encaminhar a discussão com as ideias usuais de essência. Agora, ao entrar já a tratar diretamente da essência, como momento estrutural da realidade, é necessário recolher rápida e sistematicamente o dito naquela determinação provisional para orientar nossos próprios passos.

Na acepção mais inócua, essência é pura e simplesmente o “que” de algo, quer dizer, a totalidade das notas que possui, tomadas na sua unidade interna. Porém, este “que” pronto se nos mostra em nossa experiência como algo mais ou menos variável, sem que por isso a coisa deixe de ser a mesma. E então, é essência a unidade interna daquelas notas que presumivelmente compõem a mesmidade da coisa e impedem confundi-la com outras. E isso nos força a perguntar-nos, quais são, dentro dessas notas que pertencem à mesmidade da coisa, as que em estrito rigor não podem faltar a essa coisa, e ainda, que tem de possuir necessariamente para que não deixe de ser o que era antes na acepção anterior. Ao conjunto unitário destas notas, que necessariamente possui a coisa real, é ao que no sentido formal e próprio chamamos essência.

Esta unidade da essência tem dois caracteres fundamentais. Em primeiro lugar, é uma unidade primária, porque nela as diversas notas, não são senão momentos abstratos em que se desprega aquela unidade originária. Em segundo lugar, como não todas as notas que uma coisa real possui hic et nunc lhe são essenciais, resulta que a essência, frente a todo o demais que tem ou pode ter ou não ter a coisa, constitui na sua unidade de realidade verdadeira de dita coisa; o princípio de suas demais notas. Uma unidade primária realidade verdadeira e principial: é aqui, pois, os dois caracteres que, por tanto, possui a essência como unidade interna daquilo que não pode faltar à coisa, que compete necessariamente a ela.

Em definitiva, em nossa determinação provisional, a essência compreende, pelo menos, cinco pontos, que convêm destacar distintamente:

1º. A essência é um momento de uma coisa real.

2 º. Este momento é unidade primária de suas notas.

3 º. Esta unidade é intrínseca à coisa mesma.

4º. Esta unidade é um princípio em que se fundamentam as demais notas (necessárias ou não) da coisa.

5º. A essência, assim entendida é, dentro da coisa, sua verdade, a verdade da realidade.

Pois bem, o breve análises das ideias mais usuais acerca da essência, não tem sido uma mera curiosidade histórica nem uma simples discussão dialética, senão o caminho que nos tem aproximado positivamente ao preciso problematismo da essência. E isso por duas maneiras.  Em primeiro lugar, ao mostrar-nos que aquelas concepções não são totalmente falsas, porém sim radicalmente insuficientes, a discussão nos tem feito ver o que a essência não pode ser, e o que formalmente tem de ser, quer dizer, nos têm levado a destacar tematicamente esses cinco pontos. A unidade primária, efetivamente, não pode ser extrínseca à coisa, senão intrínseca a ela, de sorte que é inamissível interpretar a essência como “sentido”, que flutuará sobre si mesmo, independentemente da realidade de fato. Por outra parte, como realidade verdadeira, é a essência a que tem de ser fundamento de todo conceito formal e objetivo, e não ao contrário. Finalmente, a essência não é formalmente o princípio da especificação expressado numa definição, senão que é um momento estrutural físico da coisa tomada em e por si mesma. Correlativamente, o inessencial não é o puramente fático; nem tampouco é um “mero ser”, nem é o extra conceitual, nem é o individuante.

Porém, a discussão teve ademais outro objetivo. Não somente destacou aqueles cinco pontos, senão que os mostrou radicalmente problemáticos. Neste sentido, a discussão não foi uma “refutação”, senão todo o contrário, uma espécie de primeira aproximação por tateios aporéticos, à correta conceição desses pontos. Basta com deter-nos um momento na reflexão sobre cada um deles. Por exemplo, depois do que temos dito a propósito do insuficiente da diferença entre o natural e o artificial em Aristóteles, que se entende por coisa real? Que as notas essenciais constituam uma unidade per se, o sabemos desde Aristóteles e o repetem Descartes e Leibniz. Porém, de que unidade se trata? Não é unidade conceptiva, como diria Leibniz. Que esta unidade seja intrínseca à coisa, o demonstrou Husserl, porém não sabemos a ciência certa, que é formalmente intrínseca a essência na coisa mesma.   Que a essência seja o princípio é claro; porém que é esse princípio e de que é princípio? Não o é desde logo, um princípio gerante, como queria Hegel. E a essência não é princípio tão só de certas notas necessárias. Finalmente, que a essência seja realidade verdadeira da coisa, está sempre claro que por essa verdade não se entenda primariamente a correspondência com o conceito, como falavam Leibniz e Hegel, seguindo, em parte, a filosofia medieval. Que essa correspondência exista, é inegável, porém é formalmente alheia à essência e à verdade primária da coisa. Então, que é essa verdade da coisa?

Com a nossa reflexão descobrimos, pois, que a fórmula provisional do que é essência, não passa de ser uma vaga indicação, cujos possíveis erros temos descoberto pelas ideias anteriores. É necessário, por tanto, precisar com rigor aquela fórmula. Enfrentados diretamente com a realidade, é nela onde devemos buscar isso que é sua essência e qual é a índole daqueles cinco pontos, quer dizer, qual é essa chamada “função especial”, que o que designamos com o nome de essência, desempenha dentro da coisa real mesma e pelo que ela é em si mesma. Essa função é o que constitui a essência como momento estrutural “físico” da coisa. É aqui o que buscamos.

Para poder precisar sua índole procedamos pelos que enumeramos. Ao analisar a ideia aristotélica de essência, e a título de antecipação, sugerimos o exame das três questões que designei então, de uma maneira quase puramente nominal: o essenciável, o essenciado e a essência mesma. Entendo por “essenciável” o âmbito só dentro do qual existem as coisas que possuem essências, embora nem todas as possuam. Chamo “essenciada” à coisa, que dentro desse âmbito possui própria e estritamente essência. Finalmente, temos que encontrar a “essência” mesma como momento estrutural e formal de dita coisa. Estes três conceitos são o título dos três problemas que aponta a ideia de essência:

1º A essência, falamos, é o conjunto do que não pode faltar à coisa real, o que é necessário a ela. Porém, de que se trata? E que se entende aqui por realidade? É justamente, a delimitação estrita da área do “essenciável”.

2º A essência é a realidade verdadeira. Quer dizer, dentro do essenciável há algumas realidades, não todas, que são “verdadeiras”, a diferença de outras que não o são. Quais são estas que chamamos “verdadeiras realidades”? Estas serão as realidades “essenciadas”.

3 º A essência é uma unidade primária de suas notas e princípio necessitante, quando menos de algumas das demais notas da coisa. Quais são estas notas? Em que consiste o carater principial intrínseco da real? Só averiguando-o teremos apreendido a “essência” em si mesma, como momento estrutural e físico da realidade, o que constitui, dentro dela, a diferença entre o essencial e a inessencial.

O essenciável, o essenciado, a essência mesma: é aqui, pois, os três círculos do problema com que nos temos que enfrentar.

(Editora Alianza S. A., Madrid, 1985. Primeira ed. Em Aliazana Editorial S. A.. Depois de quatro edições da “Sociedad de Estudios y Publicaciones”: 1962, 1963, 1963 e 1972. Pp.97-101)

Nota 1. Breve apresentação sobre a leitura de Sobre la esencia.

“Minhas reflexões seguiram uma via oposta: o ser se fundamenta na realidade. A metafísica é o fundamento da ontologia” (NHD 28)

“Diante dessas quatro gigantescas substantivações, do espaço, do tempo, da consciência e do ser, tentei uma ideia do real anterior àquelas. Foi o tema de meu livro Sobre la esencia (Madrid 1962): a filosofia não é filosofia da objetividade nem do ente, não é fenomenologia nem ontologia; é filosofia do real enquanto real, é metafísica” (NHD. 29).

Todos nos espantamos de uma “maravilha da natureza”, seja como se locomove uma centopeia, como da imensidão e força das águas das cataratas de Iguaçu ou da garganta do Diabo, e de tantas outras no mundo. Diante desse espanto logo nos perguntamos, onde surgiu essa energia e força? Como anda a centopeia? Por isso, que Thomas Fowler escreveu a respeito: da filosofia proposta por Zubiri:

“Alguma vez já se comoveu com uma peça musical, ou se emocionou ao máximo diante de uma grande obra de arte, ou um poema magnífico deixando-se em temor? Você não acreditou que esse momento comunicava a você uma grande verdade? Ao ler uma grande obra de literatura, você não fala acerca de Hamlet e Dom Quixote como se fossem reais? Ao estudar matemáticas, na houve um momento em que a beleza e o poder do assunto o levaram a desejar saber acerca da realidade dos objetos que estudou? E sua experiência diária da vida: tocar e ouvir? Não lhe comunicam uma experiência deprimente da realidade do mundo: pessoas, lugares, coisas, eventos […] não se dá conta de uma caraterística de sua apercepção da realidade que de alguma maneira só garante a si mesma? […] você não pensa que a ciência nos diz algo acerca do mundo também? Aristóteles disse que a filosofia começa com admiração, pois bem se você desejou saber qualquer dessa coisas achará Xavier Zubiri e sua filosofia imediatamente interessante e acessível”.

Por isso, Saldanha Alves Braga, quando em 2005, fez o primeiro TCC no Brasil sobre Zubiri (A crítica da inteligência em Xavier Zubiri), postou este parágrafo de Fowler no primeiro capítulo, como expressão de sua admiração e espanto diante do que ele percebeu em Zubiri. A surpresa ímpar que temos ao ler Zubiri é esse maravilhamento diante de uma elaboração filosófica que nos atrai irresistivelmente, embora não a entendemos de repente e nem a possamos aplicar plenamente. Ao igual do que sentimos diante de uma centopeia, de umas cataratas, da imensidão dos oceanos, de uma música de Bach ou gregoriana, da flauta no Andes, das pinturas desde as rupestres até a atuais, desde o primeiros números sentidos pelos fenícios, de tantos avanços científicos, diante dos milhões de informações da via digital […] não nos despertam para a realidade radical, nua, do mundo e da nossa, seja qual for, frente as realidades deformadas que nos servem todos os dias e a todas as horas? Não nós levam, a expressar, finalmente, rendendo-nos  a desejar “cair no real”?

Bem essa é experiência desafiadora que sentimos ao ler Zubiri desde as primeiras páginas, sejam da época que sejam, ou dos anos 1940 ou de 1962, ou de 1980. O que nos espanta e atrai é que estamos entrando (imersos) em nosso terreno, em nossa vida, situações e problemas com a iluminação de um foco de luz radiante e diáfano, “violentamente diáfano”, totalmente diferente da luz de penumbra e pobre dos conceitos milenares, apenas nos dando uma obscura e limitada representação da realidade. Mas, essa experiência que vemos, e relatada por muitos leitores de Zubiri, falam de cativação, de “amores a primeira vista”, “quase devoção”, dedicação, diante das obras de Zubiri. Isso que desejamos a você ao se debruçar em Sobre la esencia.

O espanto certamente será como ele nos oferece uma nova sabedoria da formalidade da realidade, que se faz presente e se atualiza na inteligência, que sente. Entretanto, sabemos que essa admiração vai ser diferente e até rejeitada com a forma, rigor e cuidado de seu pensamento nessa exposição sobre o resgate da realidade e nós como realidades de “carne e osso”. Sua admiração diante de Sobre la esencia terá momentos de “tédio de lógica” e sabedoria dos motivos e temas dos gigantes da filosofia, mas valerá a pena sua admiração final pelo que nos abriu do horizonte da realidade.

Por isso, o ímpeto jovem de I. Ellacuría ao descobrir Zubiri, logo apresentará em 1965 ao próprio filósofo os famosos Índices de Sobre la esencua de Xavier Zubiri, com 194 páginas. Nele Ellacuría, não de forma insubstintuível, apresenta um Índice de Materias, um Índice esquemático e um Índice ideológico. E isso, “para facilitar o manejo desta obra tão importante e tão difícil de dominar e ainda de estudar” (Ellacurría 7).

Pelos mesmos motivos, o interessado por Zubiri, E. Ramos Gangoso escreveu 1954 uma Exposicióm Sumária e Crítica de Sobre la esencia del Doctor X. Zubiri, com 69 páginas. Assim justifica esse trabalho: “Foi meu propósito fazer algo menos difícil para muitos leitores, a leitura do original, não muito fácil, entre outros motivos pela introdução de palavras novas, inventadas ou postas em circulação pelo autor. Difícil, também, pela multidão de distinções e subdistinções que superam os cérebros de Suarez e Duns Escoto, e pelas abundantes repetições que entorpecem a leitura e obscurecem o sentido”. Hoje ainda, entendemos, devido a tantos “pensamentos débeis” e urgentes da ciência e dos ensaios filosóficos achamos conveniente seguir essas preocupações com a leitura de Zubiri, principalmente com a leitura de Sobre la esencia.

Várias vezes temos lido essa obra e em situações diferentes, ainda me lembro da primeira vez atoleimado na metade da década a de 1990, porém essa leitura constante tem sido um desafio constante e incalculável diante da riqueza dela. “Difícil o osso de roer”, mas também degustando esse algo mais que ele nos transmite, que é o fundo desse estremecimento de todos os que se aproximam dele. Como vamos explicar na próxima nota não foi fácil para ninguém, e nem para ele. Zubiri foi elaborando como ourives, sua inspiração radical –a realidade é antes do ser– a passo de tartaruga, com reflexão rigorosa e vigorosa. Grão por grão, degrau sobre degrau, elo por ela até chegar a riqueza da insoldável realidade.

A leitura, que convido a fazer, não é completa e nem exaustiva, nem para ele foi, porque o faremos da mão –de Sobre la esencia-, palavra por palavra, frase por frase, e página por página. Pensamento por pensamento para desgranar e tentar assimilar pausadamente e  com paradas bruscas, porém dadivosas. Um exercício de pensar nas coisas que a todos nos fazem pensar, porque somos reais, porém temos a experiência de que fomos tratados como entes, como seres soltos da realidade, de nosso mundo. “Como marionetes”.

Nota 2. “O ambiente” de expectativa da publicação de Sobre la esencia.

A publicação de Natureza, História, Deus em 1944 foi o início “público” do filósofo X. Zubiri. Mas, não no sentido dos sofistas para ensinar e viver melhor. Não vendeu seu saber, nem para a universidade oficial franquista. Podemos comparar sem receio essa atitude dele, repetimos diferente da postura sofística, com Sócrates, que se retira do público dos sofistas e só se dedica aos amigos e povo de sua vizinhança. Ele cria assim uma nova Sabedoria (socrática) no meio dos conhecidos e de sua cidade e que a autoridade pública não aceitou, até o condenou a morte.

Assim, Zubiri cativado e possuído por essa sabedoria socrática, com os pés no chão do saber, a admiração e espanto pelo homem, tomou a decisão de sair do ambiente das faculdades públicas espanhoas, para dialogar com todos e dedicar-se com liberdade a pensar nas coisas que o faziam pensar, com seus amigos e colegas. Como Sócrates não abriu mão do verdadeiro saber da realidade do homem. Foi sua fonte de inspiração e para eles ensinava a pensar. Aqueles textos, daquela  primeira obra, mostram isso e “necessariamente” tinham como base a crítica da atitude intelectual e humana, ou humano e intelectual, sempre separados. Para Zubiri foi uma libertação das armadilhas do controle seu pensamento, porque nos continuam tornando infecundos para a vida, e, ainda, nos ensinam a fazer repetições ocas, que só interessavam ao poder político do momento, como foi no caso de Sócrates no tempo dos sofistas.  

Por isso, se desligou da Universidade Pública oficial da época. Não ficou receoso e com medo de sua atitude intelectual. Sem um dinheiro no bolso voltou a Madri, onde ele teve a liberdade de pensar motivado por Ortega e outros intelectuais e a pedido dos amigos começou a expor aquela inédita sabedoria na Espanha, retrógrada e ditatorial, frente a toda a filosofia “macarrônica” que se ensinava nas faculdades e colégios, através de cursos privados para seus amigos e “vizinhos”. E claro, com eles foi complementando seu sustento diário com as traduções que ele e sua esposa (doutorada em literatura espanhola) foram fazendo do alemão e francês.

Com esse livro, Natureza, História, Deus, houve um despertar de muitos espanhóis que o leram, sendo ajudados a se preparar para a vida escolhendo cargos e carreiras, que exigiam um saber pensante das coisas reais. Enriqueceu e ajudou muitos na hora de decidir seus caminhos. A leitura desses textos respiravam outros ares. Por isso a aceitação, até hoje, com sucessivas edições (mais de 13) e traduções (mais de 5). Esse despertar dos espanhóis, e dos vizinhos do mundo, para um saber reflexivo, critico e criador será reforçado mais tarde com a leitura de Cinco lições de Filosofia. São os dois livros que mais edições têm até hoje. Espanhóis anônimos e discípulos declarados foram cativados para andar melhor na luz do saber humano, seja do povo, religioso, filosófico e científico.

Na elaboração destes trabalhos Zubiri teve a firmeza de sua inspiração radical de todos os homens, que a fez sua, de que tinha que mudar o fundamento do saber: a realidade das coisas, e a realidade do homem são antes do ser, de sua existência. Em definitiva, todos, sentimos, que, temos nascido num país de terra, de pais de carne osso, precisávamos comer dos frutos plantados na terra, nela temos nosso sustento, nossas alegrias e tristezas, nela temos nossos amores e filhos. Tínhamos que elaborar que a realidade, a nossa também, é anterior a qualquer elaboração posterior. Mas, como podia ser nesse mundo dos pré-conceitos? Porém, Zubiri teimou que esse era o caminho. “A anterioridade, da que fala Zubiri, é uma anterioridade na ordem intelectiva: “a coisa-realidade” e “coisa-sentido” são congêneres, porém equivalentes; a segunda envolve intrinsecamente a primeira e se encontra estruturalmente fundada nela” (Corominas 616). Assim seria nosso caminho de vida.

Essas inquietações de sua intrépida preocupação intelectual foram reforçadas com a fenomenologia, mas logo descobriu que ela e outras muitas tentativas eram dualistas e representativas da realidade, sem compromisso com a realidade humana existente, e acontecendo, e, diríamos, funcionando.

Esse primeiro livro é a expressão da primeira etapa, despertou, até no povo falsamente eufórico, uma expectativa de esperá-lo com ansiedade com motivos muito diversos, com a expectativa do seu outro livro que falavam estava escrevendo. Não podia ser menos depois de estar fazendo todas as formas para tirar “Espanha invertebrada” do mundo entitativo em crise total.  Essas expectativas foram muito diversas, até em alguns dos primeiros discípulos. O fato é que Zubiri publicou Sobre la esencia no meio destas expectativas. Mas, sobre o que estava escrevendo, si ele estava dedicado totalmente aos cursos privados? Entretanto, nos cursos privados falava coisas que respondiam aos anseios profundos e do dia das pessoas, tanto que em alguns desses cursos eram frequentados por pessoas de outros países, inclusive do Brasil. Esses cursos eram verdadeiras fornalhas de expectativas inusitadas para uma via nova para as pessoas, embora não claras. Todos viram neles pensamentos incoativos de nova sabedoria.

É verdade que Zubiri, que sempre trabalhou intelectualmente a passo de tartaruga Zubiri, não gostava se exibir e nem aceitar imposições sofistas, seja da universidade seja da sociedade, nem de seus pares. Não gostava de propaganda vazia, porém recebia muito bem a todos, inclusive aos que se aproximavam fazendo perguntas. Assim o fez como muitos discípulos, como, por exemplo, com Ignácio Ellacuría que o elevou a amigo, quase filho, e colaborador de sua criatividade, durante muito tempo nesse caminhar. Ele lembrava para algum deles: “eu também perguntava muito a Husserl”. E ele sempre tentava responder e motivar. Assim, quase ninguém conseguiu entrever o amadurecimento irreversível a que chegou a Sobre la esencia. O que sentiam e se encantavam os frequentadores de seus cursos é que suas aulas eram um lugar criativo de uma fome nova de falar da filosofia.

Nesse envolvimento intelectual com o mundo, Zubiri foi buscando o que é realidade primordialmente para a pessoa. Por isso, fruto desse esforço incomum, passou a escrever denodadamente sobre a gente, que era o que mais o fazia pensar: Sobre a Pessoa. Dedicou muito tempo a essa impreterível tarefa e chegou a escrever mais de 200 páginas. À respeito diz Corominas:

“Tinha previsto dar cinco lições tituladas “Sobre la persona” (num curso que esta dando. Entanto, quando as desenvolve se produz um drástico cambio de orientação no projeto do livro que está escrevendo. A análises da realidade pessoal o conduz inexoravelmente a uma doutrina geral da realidade que, ainda não tem todavia bem elaborada. Para despegar uma noção da pessoa que seja uma boa alternativa a outras baseadas na ideia de substância, deve desenvolver mais ideias sobre a estrutura, as propriedades e a essência da substantividade.  Zubiri acredita agora que antes de escrever um livro sobre a pessoa deve escrever sobre a realidade e suas estruturas básicas. Este novo livro, que se titulará Sobre la esencia, deverá conter uma nova teoria zubiriana da substantividade e da realidade em quanto tal. Tardará três anos mais em acabá-lo” (Corominas 602-3). (As aulas do curso sobre a pessoa estão recolhidas, hoje, parcialmente na Revista de Occidente e postumamente no volumem Sobre el hombre).

Vemos como deixou de escrever sobre a pessoa, onde uma nota que fez sobre de que entendia por realidade ocupava poucas linhas e a partir dela escreveu o livro Sobre la esencia, que tem 517 páginas. Sim, ele estava elaborando a segunda etapa intelectual, que já é metafísica, e não mais fenomenologia e nem ontológica, que publicou quase vinte anos depois de Natureza, História, Deus. Conclui Corominas na apreciação desta etapa: “O objeto particular da atenção de Zubiri nesses anos tem sido a realidade humana. Quem tem seguido seus cursos acreditam haver aprendido dele os perfis de uma nova antropologia” (id. 605). Os temas que vai elaborar mais já estão presentes nos cursos como realidade, realidade pessoal, inteligência senciente, “de seu”, etc. São peças que serão desenvolvidas e encaixadas em Sobre la esencia. E assim o diz várias vezes Zubiri nas próprias páginas desse livro. A estas alturas Zubiri mostra outra forma de fazer filosofia e Corominas resume:

“Por cima do valor decisivo que se atribui a seus ensinamentos está o fato de que muitos o consideram como exemplo e mestre de vida intelectual. Admiram sua autenticidade pessoal e uma incansável vontade de verdade que o conduz continuamente a repensar os problemas e a afinar suas concepções no transcurso de seu trabalho denodado. Sometendo-o agora ao duro ofício de escrever” (id. 606).

O livro foi publicado no meio desses ambivalentes entendidos, com euforia espanhola de quase toda sociedade. A isto ajudou na época a situação histórica de Espanha: que solicita a abertura de negociações com o Mercado Comum Europeu, até por pessoas seguidoras do franquismo. O povo espanhol se abria ao desenvolvendo intelectual e econômico da Europa. O casamento do príncipe Juan Carlos com a princesa Sofia de Grecia, será visto como uma possível saída da ditadura.

Quando em junho de 1961 Zubiri tem quase pronto o novo livro, que mantém o nome em secreto até para o jovem discípulo Ellacuría, escreve a sua esposa Carmem: “Me contento que ateu pai (Américo Castro) não tenha a má impressão de meu engendro. Contento-me que as pessoas não o vejam como inadmissível. O demais! Sabes? Escrever um livro é um grandíssimo fastígio. Caramba” (id. 607).

“Uns dias antes de Natal de 1962, (depois de muitas revisões e desentendimentos com os editores e com ele mesmo) aparece finalmente Sobre la esencia, editado pela Sociedad de Esudios y Publicaciones. Nele Zubiri define sua filosofia enfrentando-se fundamentalmente com Husserl e com Heidegger” … “O livro se converte de imediato num best-seller. Em poucas semanas é necessário fazer duas novas edições para satisfazer a demanda” (id. 614).

Se, muitos compraram o livro, até para revender, seus pares espanhóis, e mais tarde seus pares europeus, criticam a produção de Zubiri tachando, até com ignomínias, e catalogando-o, como escolástico, tradicional e materialista. O título não atrai, tanto que confessará mais tarde o filósofo que devia ter se intitulado o Sobre a realidad, já que era esse o nó a desatar por ele. “E ainda, se deparam (os leitores) com um vocabulário técnico muito difícil para as pessoas acostumadas a ensaios ligeiros. Quem se empenha em ler o livro não costuma ter uns conhecimentos das filosofias de Husserl e Heidegger, suficientes como para apreciar com quem está dialogando Zubiri. Para colmo, a obra deixa em penumbra algumas claves decisivas para a correta assimilação. Zubiri não faz nada para que o leitor, longe de introduzir lhe na sua posição, a dá por suposta; tampouco lhe oferece nenhuma pista sobre o que é verdadeiramente importante. A ambiguidade de alguns fragmentos consegue, inclusive, que intérpretes com a maior boa vontade e conhecedores do transfundo fenomenológico e heideggeriano leiam Sobre la esencia como uma re-atualização de Aristóteles, o que os leva a se perder em questões obsoletas ou marginais” (id. 620).

Entretanto, também foi bem interpretada por alguns dos questionamentos dinâmicos desta obra, mesmo diante das neblinas aludidas.  “Cremos, que Zubiri está dentro da grande escolástica –escreve José María de Alejandro- não dentro de um partido; suas diferenças com Aristóteles não são de princípio, senão de penetração e avanço”. “Na história da filosofia representa o pensamento clássico e Zubiri uma marca importante, sem pretensão de inovação revolucionária de sinalada importância calçado do pensamento clássico, sem gabar-se de inovação revolucionária, vem a completar suas insuficiências, sem desviar-se de sua trajetória fundamental” (J. Zaragüeta). Temos a surpresa grata de saber, que no Brasil nos anos 1963, o espanhol vivendo no Brasil há mais de 30 anos, R. P. Malarriga, biólogo, escreveu um livro em espanhol, aqui no Brasil, depois da leitura de Sobre la esencia, viu “Uma teorira da espécie” a propósito de X. Zubiri Sobre la esencia, (tem mais de 120 páginas),Instituto Geobiológico. Canoas. RS. Ele vê no livro de Zubiri um tesouro, conseguindo destacar no pensamento central de Sobre la esencia uma metafísica intramundana e  ainda no seu “Apêndice” nos diz que naquela “obra havia um pensamento incoativo”.

Porém, teve seus detratores em Espanha, como na Europa: “O realismo ibérico não autoriza a uma indissolúvel vinculação materialista. É pouco estanho e azarado, que o maior pensador dos útimos tempos suscite essas inquietudes” (Pablo Cepada) (Corominas 618).  Apenas vamos nomear os nomes dos que menosprezaram Zubiri: Heidegger (“não faz nenhum comentário”), Gadamer (“sugerindo-me que madure seu livro sobre Aristóteles”) (Corominas 631), Russell (“conheço esse tipo de xerga desde há setenta anos. Lembra-me, muito as declarações dos adictos ao LSD em momentos de trance”), Ayer, Moore e outros ingleses (“Quase todos consideram a filosofia e metafísica espanhola) contagiadas por uma rama da filosofia delirante da filosofia alemã e por infantis obsessões escolásticas”) (Corominas 667). Essa crítica é incompeensível no meio, que se diz intelectual ativo.

Pois bem, é nosso propósito tentar ajudar a ler Sobre la esencia com a experiência incompleta de seu conteúdo especial e criativo numa elaboração inusitada, difícil e às vezes obscuro na sua linguagem. Zubiri como ele mesmo falava “não é um filósofo da moda”. Entendemos, na leitura mais detida e profunda de sua obra, sua maneira estranha e “incoerente” da abertura da Espanha a Europa. Mas, a leitura e releitura e estudos, também, pormenorizados, de suas partes nós levam a apreciar melhor o inconsequente recebimento para a abertura espanhola e de toda a filosofia. Podemos afirmar que a culpa de não ser bem entendido, ainda hoje na filosofia, é o teor de sua obra, portanto ele.

Vamos usar o mesmo método empregado quando apresentamos uma leitura de Natureza, História, Deus. Como veremos, a seleção dos seus pensamentos exige de todos, interesse e preparo em contato, não erudito, com os maiores filósofos, mas inquietos e abertos a uma sabedoria mais real. E por isso, nos surpreendemos e nos cativamos com Zubiri, mais ainda quando o vemos lutar contra todo um pensamento dualístico, que maltrata o homem e a natureza, que descobre como concipiente e por isso, logifica a mente e entifica toda a realidade. Fazendo do homem finalmente como resíduo do ser

Com certeza vamos estranhar a leitura amena e provocativa de NHD, porque o entramos fazendo paso a passo colocações problemáticas do caminho da filosofia, conceitos e categorias ao uníssono com a linguagem técnica, e enorme e profunda sabedoria que envolve a escrita de Sobre la esencia. Zubiri nos está, sem consentimento e sem rodeios, mergulhando num mar nunca navegado que nos cativa e se abre quase infinitamente, e ao mesmo tempo faz um convite de não termos medo onde vamos chegar. Nele está envolvido na tarefa a elaborar de uma filosofia da realidade e de formas coerentes e apresentacionais da realidade, e não mais representacionais, como ele afirma que tem sido quase todas as formas da filosofia desde a grandiosa elaboração de Aristóteles: debatendo-se dentro do misterioso do ser, das nuances da essência e da substancialidade ou subjetualidade. Zubiri embora fale e discorde de muitos filósofos, mas parece que a sua luta é com o próprio Aristóteles, desde as coisas, que desvio os caminhos do saber filosófico. Porque Aristóteles resume e absorve toda essa problemática e por isso Zubiri vai analisar desde seus motivos até sua enorme e estrutural elaboração. Zubiri foi comparado a partir deste livro, Sobre la esencia, com Aristóteles e, também com o metafísico F. Suárez. Neles se espelha elaborando uma reflexão profunda e cuidadosa, criando novas formas de categorias para expressar com rigor a força de seus pensamentos, porém com eles discute o conflito do filosofa, porque buscam o memo. Da mesma forma que fez com Aristóteles o fará com Heidegger, e outros, quando o responsabiliza da ontologia do Dasein, do ser.

Mas, antes, sigamos as palavras de Pinto-Ramos sobre essas esperanças versus Sobre la esencia. “São muitos que se consideram incapazes de penetrar no núcleo desse pensamento e alguns se negam resolutamente a intentá-lo”. Por que? Pintor-Ramos, amigo e discípulo, lembra que para entender melhor o que se discute das dificuldades do estilo de Zubiri: “Acredito a filosofia está necessitada vez mais que nunca, de precisão conceitual e rigor formal” (IRA. 172 ). (id. 28)

E segue seu raciocínio: “Uma das razões, que se tem levantando desde a publicação de Sobre la esencia, são os moldes formais da obra de Zubiri: hoje essa dificuldade se fala abertamente. A ideias de fundo poderia resumir-se assim: as obras de Zubiri exigem do leitor um esforço excessivo, que não resulta proporcionado para os resultados que se podem alcançar. A obra de Zubiri cria uma autêntica “linguagem” muito difícil penetração, o qual não passa de ser um artifício gratuito entre as cultura filosófica habitual em nosso médio e a obra de Zubiri, sem que haja nenhuma via de comunicação entre esses dois continentes separados”.

Então se pergunta Pintor-Ramos: ” O gênero literário que utiliza Zubiri é gratúito, inclusive, vantajosamente, por outro gênero?”. ( La filosofia de Zubiri y su género literário. Fundación Xavier Zubiri, núm. 2, p. 3). E vai continuar respondendo inicialmente: “É fácil entender isso se recordamos agora que no fundo da linguagem em que se expressa a filosofia é linguagem ordinária. Para o historiador da filosofia se trata, ademais, de uma linguagem escrita e o mínimo que podemos conceder aos “gramatólogos, é que isto condiciona de modo importante o problema. A escritura implica sempre um espaço público e uma pretensão de objetividade, na que a subjetividade individual do autor fica desdobrada e se submete a umas regras impessoais marcadas por códices linguísticos…” (id. p. 8).

Pintor-Ramos, que conhecia muito bem Zubiri , o seguia e criticava, conclui: Se isso é assim, a ruptura de Zubiri com o ensaio vai tornar muito problemática a recepção de seu pensamento; seus leitores potenciais inicialmente são pessoas não preparadas, enm dispostas a superar o âmbito do ensaio, o qual só é possível se se passa por alto o mais específico do tratado: precisão e rigor. O público filosófico conquistado por Ortega segue a Zubiri, entanto esse equívoco pode manter-se, porém depois da publicação de Sobre la esencia, isso já não é mais possível e exigia a correspondente maturação do antigo leitor para que se mude no leitor de tratados filosóficos. Não parece que isso último se tenha dado de modo geral, nem em Espanha nem no resto de países hispano-americanos” (id. 28-29). Diria eu , que nem no mundo inteiro que continuamos brincando com os coneitos para ver se dá certo.

Pintor-Ramos, amigo e discípulo, lembra para enteneder melhor o que se discute das dificuldades do estilo de Zubiri: “Acredito a filosofia está necessitada vez mais que nunca, de precisão conceitual e rigor formal” (IRA. )- p. 216)???? (id. 28)

Não podemos esquecer que Zubiri foi descoberto e impulsionado como filósofo por Ortega. Ele deu a Zubiri o Ser e o tempo em alemão e instigou-o a estudar com Heidegger e descobrir suas potencialidades filosóficas. “Seus ensaios foram um despertar da filosofia em Espanha e influenciou a muitos, como também em latino-américa” (id. “As propostas dentro do mundo hispânico contra esse domínio do enaismos filosóficos não conseguiram mudar a direção fundamental” ( p. 26).

“Não cabe a menor dúvida que Zubiri emerge na filosofia espanhola depois da estela de Ortega e disfruta desse o começo da altura por ele (Ortega) ganho. Quando em 1936 Zubiri faz uma avaliação mais completa que há na sua obra do trabalho de Ortega, ordena em quatro grandes funções : a) resoador; b) propulsor; c) a sensibilizador; d) acolhedor … Agora bem, Zubiri faz com Ortega o que pouco antes fez com Husserl: separar na sua obra o que é impagável, impulso ao filosofar, de sua própria filosofa concreta e em nenhum momento há sintomas de que Zubiri expressa adesão a filosofia de Ortega” (id. 26-27).

Diante o dito, não podemos esperar uma leitura fácil, se não estivemos dispostos a andar da mão com ele, como com muitos grandes filósofos.

Então, traduzimos a introdução dessa obra para ter o mapa dela feito por Zubiri. Nela Zubiri não nos engana e fala claro seu problema radical e o modo de enfrenta e caminhos a seguir. E o faz com uma forma profundamente clássica e rigorosa no seu caminhar. Então, selecionamos o pensamento central dessa batalha, como a determinação de ver e assimilar a forma nova de falar da realidade e por isso do homem. D. Gracia, na leitura e discussão no Seminário de Investigação sobre realidade e atualidade, no vídeo 1978, dialoga com Zubiri mesmo e participantes e relembra para todos o seguinte pensamento que resume todo seu desafio de Sobre la esencia. “É realidade todo e somente aquilo que atua sobre as demais coisas ou sobre si mesmo em virtude, formalmente, das notas que possui. Expliquemo-nos” (SE. 104).Nesse pensamento podemos ver que estão contidos muitos elementos radicais e suficientes para todo o desafio a esclarecer para regatar o conceito da presença do real. Desse pensamento sairão da sua mente todos os desdobramentos da batalha pela filosofia da realidade. Por exemplo, está falando de formalidade do real, não como representação como ele critica na filosofia, mas formalidade de apresentação da atualidade do real. A realidade não é passiva, mas que atua respectivamente com as outras coisas e com o homem. Ela é a constituição das notas que possui. Por isso, a realidade tem uma estrutura “física” interna.

Queremos advertir que, as obras de Zubiri, quase todas não tem notas de rodapé. Isso vai estranhar até pelos melhores estudiosos. E ele inclusive vai falar expressamente que o leitor interessado deve ter condição de identificar onde estão as fontes dos filósofos tratados. A sua capacidade de ler e reler detalhes importantíssimos das formas anteriores buscando nelas algum elemento que ofereça raízes de sua elaboração da realidade, na que o ser humano vive. Por isso, vamos destacar essas duas notas de várias páginas e que ele elabora para colocar a primeira pedra, e que terá o poder radical para as elaborações. A primeira a encontramos em NHD, quando ele sob a inspiração fenomenológica fala da verdade, á-létheia (NHD 50).  A segunda, está logo no início do livro Sobre la esencia, (páginas 11-13): “Ao longo de todo este trabalho aparece continuamente o vocábulo “físico”, que resumindo sua longa explicação o podemos resumir: o físico se opõe ao artificial”. E no seu caso se preocupa como pode influenciar, e dependendo de como o entendamos, podemos errar no caminho, como tem acontecido. Parece, dirá ele, que não perceberam esse pequeno detalhe que deturpou o pensamento ocidental. “Aqui, pois, o “físico” se contrapõe ao “intencional”. E daí, que “físico”, veio a ser símbolo de “real”, em sentido estrito deste vocábulo”.

Por isso, ao ler o livro veremos muitas vezes, quase sempre entre aspas, a palavra “físico” sendo usada nesse sentido, que será o fundamento, que dinamiza e fundamenta sua elaboração, como permeará todo seu afazer filosófico em construção. Até nos assuntaremos como ele o usa repetidamente quase até a saciedade.

Assim, só usará a palavra físico, como sinônimo de real, não algo fictício e intencional. Essa distinção será a marca de sua proposta. Por isso, teremos que fazer sempre um esforço mental para poder nos colocar no sentido recuperado desta palavra: físico, essência física, real, estrutura física, sistema de notas, substantividade, em próprio, algo de seu. Não, como parte de uma catalogação dos objetos. Do contrário continuaremos em pane intelectual, perdidos e sempre descontentes, melhor não sairemos nunca do pane contraditório do físico-material e objeto de investigação de fatos, usado muitas vezes na vida e sempre nas ciências. Não conseguiremos cair no real que sempre nos acolhe e viver com os pés na nossa terra, porque não vivemos num mundo intencional, mas real, físico, já constituído. O real não é intencional e nem nossa vida é ente. “ ‘O físico’ não se opõe ao ‘metafísico’, senão que é o metafísico por excelência” (id. 276).

Ainda antes de entrar na leitura de Sobre a esencia gostaria o de fazer outra reflexão para não se enterrar-nos na dificuldade da leitura e compreensão desta obra da maturidade central e divisora de águas e definitiva de Zubiri. Pelo que ele diz, e pela linguagem usada, não podemos concluir que ela é uma discórdia de “sábios” dentro do conflito filosófico. Então, assim corremos o perigo de interpretar Zubiri brigando com os filósofos, principalmente com os mais importantes e “clássicos”. E nem podemos tirar conclusões rápidas e ficar com a impressão, fruto da ansiosa espera pelos espanhóis, na época, pelas críticas até ignominiosas, até de discípulos, de leitores, de filósofos da mesma cultura, como das diversas culturas europeias, de que é um livro confuso e desorganizado sem um desafio concreto de enfrentar, lutar e resolver. Porém, ele tem como desafio maior: a pessoa e assim o descobriremos na sua leitura o homem como animal de realidades, e não primariamente animal racional.

A leitura é “difícil” de ler e de interpretar o desafio do autor para seguir os dinamismos da filosofia. Não podia ser de outra maneira, tanto diante do tempo de “oba oba” das formas de filosofia para superar as antigas e modernizar o mundo, quando porque ele se tornou um Sísifo teimoso no forcejo de dar conta da firme inspiração de que a realidade é antes do ser. Zubiri se propôs, de vez, superar todos os caminhos concipientes (querendo fazer dos conceitos a realdiade) do saber que, segundo ele, desviaram o saber e a vida humana. Assim, enfrentou, e rebuscou sem pressas e sem receios, os possíveis desvios do logos e da razão, inédita descoberta dos gregos, que se prenderam mais na logificação de todo o saber, porque o desenvolveram dualisticamente, o pensamento como entitativo e como representativo do que as coisas são, incluindo nesse “balaio”, um montão de “essencialismos” pressupostos, que todo o justificam, mesmo para os não cultivadores do filosofar.

Dessa forma, a filosofia  tornou o saber, como ele bem percebeu desde os anos 1920, num saber subjetivo, mecanicista e matemático. Porém, a vida humana não é primariamente subjetivista, nem é uma máquina e a sua medida não é o determinismo interpretado levianamente das matemáticas. Por isso, se enfrentou a esse pequeno desvio, mas desvirtuado, do caminho vivo e realizador da vida humana, que nos deixou confusos do que sabemos e vivemos. Nessa luta ele não se poupou de nada. E também, não fara para nos facilitar. Como ele, teremos que pensar e pensar, refletir e refletir, elaborar e elaborar passo a passo.

 Por isso, elabora essa obra divisora de aguas, não por ambivalência obscura, mas vivendo o caminho íngreme de um Sísifo. Não se desanimou e nem perdeu o fio da meada de sua inspiração, porque sentia dentro de si que tinha condições de subir nesses caminhos tortuosos, para dar conta que seja a realidade, que todos almejamos todos os dias. Até ele, parece que não ordenou, e nem parou, de escrever seus pensamentos radicais, oferecendo-nos “brutamente” seus esforços de “um abusado e ousado gigante” frente aos gigantes consagrados da filosofia. Esperamos ajudar nesse caminho de mais um Sísifo, você, na leitura e enriquecimento de Sobre la esencia.  Valerá a pena. Chegaremos lá.

Nas páginas finais, veremos que encontramos já definitivo, o que Zubiri nos legou: o porquê e as pedras fundamentais de que não devemos voltar atrás de nossa procura pela realdiade. Sim seremos mais teimosos na realização do homem porque ele é real e com os pés no chão. Vislumbraremos com renovado e diáfano fulgor o horizonte da realidade, do qual não devíamos ter saído. Boa leitura. Não podemos esperar uma leitura amena e fácil pelo que já falamos da situação que rodeou tanto a elaboração de Sobre la esencia como de seu entendimento primário.

Também, gostaríamos que, devemos em conta que ademais de colher os pensamentos que tínhamos sublinhado no livro, procuramos uma leitura mais atenta para não parecem soltos, esse é o nosso propósito, isso nos levará a fazer uma leitura completa buscando e seguindo seu pensamento reflexivo e sempre coerente, devemos falar lógico, dentro da inspiração que oferece esse ritmo e desenvolvimento.

Então, só se tivermos presente esses “alertas duros e sinceros” poderemos adentrar-nos na leitura de Zubiri, já maduro com 65 anos na época, a partir dessa obra. Por isso, no início de Sobre la esencia Zubiri se questiona das várias formas de ater-nos a que tipo de coisas e diz: “Porque não é o mesmo –e sobre isso insistirei largamente no decorrer deste trabalho- a estrutura  de uma coisa em tanto que término do logos, predicativo, e a estrutura “física” interna de uma coisa tomada em si e por si mesma. Toda realidade pode ser feita término de um logos predicativo, porém isso não significa que esteja fisicamente “composta” de um atributo e de um sujeito. É a essência algo fisicamente distinto da existência?” (id. 8-9). A essência foi para todos a busca de um saber maior e também a forma de encobrir as repetições de sabedorias modernas e até falsamente contemporâneas, porque não conseguem realizar um saber de implicar a realidade e o pensamento. Só o podemos conseguir se tomamos a essência como energia da realidade a ir atualizando-se.      

Nota 3. Leitura sintética e sublinhada de Sobre la esencia.

Já limos no início deste trabalho a Introdução desta obra. Então, já nos encontramos com esse homem filósofo e podemos ter sentido muito estranha a colocação do problema filosófico que quer enfrentar. Parece que não é de nosso tempo. É totalmente diferente dos livros de filosofia atuais, que ainda parecem manuais cheios de conhecimentos, datas e pensamentos deles, de teorias até as melhores elaboradas. Então, é fácil “decorar” e aprender filosofia, que para pouco serve. Parece “infelizmente”, que não tem nada a ver como os problemas intelectuais em que nos debatemos. E ainda, que nos pode falar um filósofo espanhol no efervescente século XX, em todas as ciências? Que nos pode apresentar ele diante da contínua crise (bancarrota) da humanidade? Não “revoluciona” nada, não se preocupa das “massas”, como filosoficamente fez seu mestre Ortega e Gasset. Podemos esperar algum benéfico ou transformação de suas obras? Que ele quer com esse estilo e linguagem, que parecem da Idade Média? Assim, quer ser um “metafísico ambulante” pretendendo adivinhar o que se passa no mundo? Podemos dar crédito?

Contudo, já limos sua Introdução à obra central de sua a proposta: Sobre la esencia. Essa Introdução é pequena sim, mas seguida de um montão de páginas, que chegam a 517, e ainda mais, providas de 54 páginas de Indice Analítico. Que podemos esperar de Zubiri legando-nos tal proposta metafísica? Porque já “topamos” com um metafisico. Mesmo assim, vamos tentar acompanha-lo, embora com bastante receio. Se não agradar, o deixamos de lado. Será?

Todavia vamos seguir nosso interesse intelectual teimoso de busca por apoios e caminhos novos, formas vivas, para as inquietações sobre o mundo em pedaços e em constante crise de tudo. Vivemos nele, mas não pensamos muito nos seus problemas, porque nos deprime. Porém, dessa forma de pensar nunca sairemos desse monto quebrado. Certamente em Zubiri encontraremos “um amor à primeira vista” diferente, porém sempre com cuidados de que e como ele nos vai cativando.  Tal vez um dia, felizmente, o descobriremos. Faremos de tudo para que não seja tarde. Isso já aconteceu na Espanha feita pedaços, “invertebrada”, falava Unamuno. e em vários países, entretanto hoje muitos estão cativados dinamicamente por sua proposta, tanto de transformação dos fundamentos, como dos caminhos refeitos. Então, antes de ajudá-lo a fazer um pequeno mergulho na sua elaboração mais criticada, porém “divisora de águas”, Sobre la esencia, vamos resumi-la para estar com você, em poucas palavras, mostrando  o fio condutor, a trama e aonde chegou.

A “história” do trama filosófico de Sobre la esencia é fácil hoje de resumir no papel.  Porém, foi difícil para Zubiri, –e para nós agora seguir compreendendo-, quando a elaborou partindo apenas de que a realidade é anterior ao ser. Quando o ser de Heidegger era no século XX, e para muitos com o materialismo de Marx, a radicalização maior com que a filosofia tinha encontrado. Foi obra de Heidegger, dentro de uma inspiração fenomenológica, gritar contra o esquecimento do ser dos gregos.  Zubiri frequentou os cursos de Heidegger durante um ano e comprou outros, como era costume na época na Alemanha. Eu tive experiência disso em Madri.

Mas, Zubiri se deparou com o mesmo Aristóteles, que foi o que filosoficamente se enfrentou “teoreticamente” com os mistérios do ser grego desenvolvendo a essência como substância. Aqui estaria para ele o início e a deturpação dos caminhos filosóficos do espanto do homem diante do universo. Então, vejamos o que ele tirou a limpo dessa confusão sobre a essência, para despojar dela as vestes lógicas e entitativas, que no decorrer dos tempos, relegou os conceitos da apresentatividade pelos da representatividade do real. Vejamos, em vários atos, como recuperou os conceitos formais da atualização do real. E dessa forma a atualização de nossas realidades.

                3.1. Visão sintética do conteúdo dinâmico de Sobre a esencia.

  1. Em primeiro lugar repassa as ideias clássicas sobre a essência: como sentido em Husserl, como conceito formal em Kant, como conceito objetivo no racionalismo e em Hegel, como correlato real da definiam a partir de Aristóteles.
  2. De posse desses conhecimentos, o esforço de Aristóteles foi crescendo e deturpando, o que seu mestre Platão tinha dito: “o que há depois do ser?”. O problema que encontra Zubiri é que Aristóteles fez esse esforço apoiando-se na substância da essência do ser: ýpokeimenon=substância=subjetualidade=sujeito, que marcou toda a elaboração intelectual do Occidente, filosófica e científica. Dessa forma a essência foi perdendo o que buscava além do ser: a realidade do mundo e do homem. O pensamento foi, sempre, a fonte da vida humana admirando-se em conjunto com o universo. Também, os estudiosos de Aristóteles, fomos desviando o caminho da realidade.
  • Aqui se torna a elaboração mais profunda e “pesada”. Deixa o estilo de ensaio, e escreve de forma rigorosa, como que medindo seu pensamento com suas palavras, Até, terá coragem de neologizar expressões do povo ou científicas (são mais de 120), para enfrentar as dificuldades das línguas. A busca zubiriana da realidade exigirá dele, e ele não se negará custo o que custar, mais reflexão, mais criatividade filosófica e atrevimento. Não deixa dúvida do que ele as colhe ou inventa em cada momento para encadear seus argumentos. Até parece repetitivo e cansativo. Não é assim. E, como ele repete, vai aproveitar as partes que já foi descobrindo nos cursos. Agora, como será sua coerência em tamanha tarefa?
  • Então como ficam as elaborações do ser e da realidade no decorrer dos tempos?
  • Serve-se da “verdade real” como fio condutor para entrar na estrutura da realidade. Realidade é expressão nova nas línguas, para expressar o mais forte e próprio das coisas. A humanidade sempre acreditou e manteve essa verdade. E essa verdade, não como desvelação, mas está dentro das coisas, então o caminho é partir desse dentro. Isso seria o que estaria além do ser em que todos acreditam e sustentam. E que hoje devemos buscar um vocábulo, que diga essa menearia de ser real. Isso é o fato. Por isso: “Inteligir é um mero atualizar a coisa” (id. 113). (vemos já como ele usa o que já elaboro sobre a inteligência, como érgom e dýnamis da mens). Por isso: a realidade é a unidade estrutural do real constitutivamente, não vinda de for, intencional ou artificial, mas “físico”. Por tanto, a realidade das coisas é um sistema, consequentemente é autossuficiente pelas notas constitucionais dele. Assim, não pode ser sujeito substancial ou subjetualidade.
  • Então, as coisas são substantivas e a realidade é substantividade. E o homem é uma realidade substantiva, não sujeito para levar ou suportar os pesos da vida. Só pela inteligência humana assistimos à constituição de uma substantividade plenária e formal de estrita substantividade individual: é a “inteligização” da animalidade. Fica claro nesse enfrentamento de Zubiri com Aristóteles, que a diferença da  substancialidade deste é “aquele caráter segundo o qual brotam ou emergem da realidade, determinadas notas ou propriedades, ativas ou passivas, que numa ou noutra forma lhe são inerentes, precisamente por isto são sujeitos” “Substantividade é, porém, suficiência na ordem constitucional” (id. 157).
  • Por tanto, o constitutivo, e não anexado nem que seja de boas intenções, está constituído por notas constitucionais. Notas-de próprias de qualquer realidade, não intencional como a definição e o predicativo. “A substantividade tem o caráter formal de sistema de notas e não de sujeito delas”.
  • Então, o órgão conceitual adequado que buscávamos para nosso problema é o logos nominal construto. De maneira que a essência não pode conceituar-se nem em função da substância ou sujeito absoluto, nem em função da definição, nem em função racional, senão em função da “construtividade” intrínseca.
  1. Assim, podemos distinguir sem medo nas coisas, na realidade, a talidade (conteúdos ) e a transcendentalidade na ordem do real.
  • E a constituição do homem é sentir e inteligir, portanto, para enfrentar-nos com a realdiade, não podemos conceber primeiro, senão apreendendo-as: impressão de realidade.
  • A realidade não é esse reale, mas está sendo real, realitas in essendo. Por isso a realidade é érgon e a inteligência é noérgica. Dessa forma, a inteligência é atualização do real na inteligência senciente. “É a maneira primária de apresentar-se o real, no seu caráter érgico ou irredutível, à formalidade “de seu”, do em próprio”. “As coisas, começam e terminam onde começa e termina o “de seu””. Dessa forma, o homem não é uma entidade, mas uma realidade de notas constitucionais: a inteligência, o sentimento e a vontade, são constitucionais da realidade humana. Essa formalidade do “de seu”, se move na formalidade do real, e por isso a inteligência senciente, (o sentimento afetante) e a vontade volente se apresentam como prius antes de sua apresentação. “A realidade está presente independente de mim, porque por ter caráter “de seu”, é antes de sua apresentação mesma e como fundamento dela”.”
  • “O “de seu” construtamente determinado é um caráter transcendental de realidade, uno e o mesmo para todas as notas”.
  • “Desde faz muitas páginas, viemos dizendo que essência é sinónimo de realidade”.
  • “Assim, a essência aberta é na ordem constitutiva transcendental “personeidade”,… por essa personeidade, “personaliza” (em princípio) todo quanto deriva de sua talidade ou advém a ela: tem “personalidade”.” Pela sua intelecção senciente o homem é “animal de realidades” e por isso é “animal pessoal”.
  • “Em definitiva, como princípio a essência (realidade) é princípio estrutural da substantividade”

Com Zubiri nesta obra, chegamos ao cimo da montanha dos conceitos e nos deparamos com o horizonte de realidade, escondido e deteriorado ao decorrer de séculos. Poderemos andar nele modesta e problematicamente, que dizer, reconhecendo que estamos nele, e somos dele, porém nos devemos apropriar com a nossa decisão cada dia de suas imensas e insondáveis riquezas. Então seguiremos aprofundado. Valerá a pena o novo esforço. Seremos recompensados.

Sobre o Prólogo de Natureza, História, Deus a tradução inglesa. Primeira etapa do pensamento de X. Zubiri.

A filosofia vinha sendo uma mistura de positivismo, historicismo e pragmatismo apoiada em última instância na ciência psicológica, um apoio que se expressou como teoria do conhecimento” (NHD 27).

“A primeira metade do século XIX foi o frenesi romântico dessa especulação. O cientista foi o elaborador de sistemas especulativos. Em face dele alçou-se a voz de “voltas às coisas”. Saber não é raciocinar nem especular: saber é ater-se à realidade das coisas” (id. 82).

“Um exame minucioso ainda que superficial dos estudos recolhidos no volume Natureza, História, Deus fará aperceber ao menos perspicaz que é essa inspiração comum de todos eles” (id. 28).

Natureza, História, Deus (1944) é um clássico na literatura espanhola do século XX. É ainda um livro fundamental na produção escrita de seu autor Xavier Zubiri. A feliz confluência nele se produz por três grandes criações intelectuais: a filosofia grega, a ciência moderna e a tradição fenomenológica, o que o tornou um pensamento rico e ágil, tão enraizado na tradição como rigorosamente inovador. Ao longo das páginas desse livro destacam-se, como o diz seu título, alguns dos conceitos mais importantes da filosofia, como os de natureza, história e Deus. Trabalhando com eles Zubiri formula, por sua vez, suas teses básicas sobre a realidade, a inteligência e a religação, que depois serão desenvolvidas de modo extenso em Sobre la esencia, Inteligência senciente e o Homem e Deus, obras toda publicadas nesta mesma coleção. Dessa forma vista desde os volumes de sua época de maturidade, as velhas páginas de Natureza, História, Deus que agora se publicam em edição definitiva, cobram renovado vigor e crescente atualidade. Isso nos permite afirmar que esse livro é, sem dúvida alguma, a melhor introdução à filosofia de Zubiri. Natureza, História, Deus é um clássico na literatura espanhola. É, ademais, um livro fundamental na produção escrita do autor, Xavier Zubiri” (Editora Alianza Editorial).

Prólogo à Tradução Inglesa

Por Xavier Zubiri.

“Este livro – Natureza, História, Deus – recolhe uma série de estudos publicados em diversos momentos compreendidos entre 1932 3 1944. O fato de pertencerem a esses anos dá ao livro seu carácter próprio. E isso é essencial para orientar o leitor. Porque tal lapso tem duas significações. Uma concerne a cada um dos estudos tomados em si mesmos. Outra concerne à totalidade daqueles. Ou me explicar-se.

Antes de tudo, concerne a cada um dos estudos porque cada um deles tem sua data precisa; e é referindo-se a ela que deve ser lido. Sublinho-o mui energicamente. Cada efeito medeia considerável distância entre a data em que cada estudo foi publicado o momento atua. E nessa distância aconteceram muitas coisas. Em primeiro lugar, foi um tempo em que, conservando o essencial das ideias, me vi forçado a desenvolvê-las em sua própria linha.

Assim no que se refere ao conceito de história. No estudo “O Acontecer Humano: a Grécia e a sobrevivência do Passado filosófico” conceituei a história, como acontecer de possibilidades. Mantenho-o hoje integralmente, mas tal conceituação me levou a um conceito mais radical: a história como acontecer de possibilidades funda-se na história como capacitação.  É graças unicamente à capacitação que se dá, e tem de dar-se necessariamente, o acontecer da possibilitarão e das possibilidades. A história como capacitação foi o tema de um estudo publica do em Realitas I, p. 11-41. (Madri, 1974). Apontarei para isso já no estudo

O mesmo sucede, de certo modo, com o estudo “Em Torno do Problema de Deus”. O problema de Deus revela-se momento estrutura do homem: a religação. Mas esta religação necessitava de ulteriores desenvolvimentos conceituais. Desenvolvimentos na linha de uma sistematização do problema. Apontei para isso já no estudo “Introdução ao Problema de Deus”, publicado na quinta edição desde mesmo livro. Mas desenvolvei a ideias de religação em outra direção, na direção da religação como momento estrutural do homem. É o que chamei dimensão teologal. Foi o tema de vários cursos meus, ainda inéditos, sobre tudo dois. Em primeiro lugar “O problema Teologal do Homem: Deus, Religião, Cristianismo” (Madri, 1972). E depois o curso sobre “O Homem e Deus”, professado na Faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana (Roma, 1973). Um esboço desse ponto de vista está publicado no volume de Homenagem a Karl Rahner (Madri, 1975). Não será demasiado recordar que o estudo “o Ser sobrenatural: Deus e a Deificação na Teologia Paulina” é o estudo essencialmente histórico. Seu conteúdo propriamente teológico foi depois mais precisamente desenvolvido, em meus cursos  professados na Sociedad de Esudios y Publicaciones.

Em outros caos, finalmente, o estado atual do saber científico é muito mais rico e preciso que o daqueles remotos anos. Por isso, o estudo “A Ideia de Natureza: a Nova Física” teria tido de abarcar hoje muitos conceitos essenciais. Certamente, mantenho a ideia de natureza exposta, mas o problema das partículas elementares conduz a problemas filosóficos essenciais. Por exemplo: que é a elementaridade de uma partícula a? Que é uma partícula virtual? Que é a individualidade de uma partícula? Que é a perda de simetria? São temas filosóficos que hoje teria de enfrentar, mas, repito, conservo a ideia de natureza exposta em 1934.

Assim, pois, as ideias básicas de que é natureza, de que é a história e de que é o Deus revelado da religação não só não prescreveram para mim, mas por continuarem vivas é que me forçam aqueles ulteriores desenvolvimentos. É o que expresso dizendo que cada um dos estudos compreendidos neste volume tem uma data precisa.

Pois bem, o lapso 1932-1944 tem um sentido mais profundo que o de fixar as data dos meus estudos. Esse lapso constitui uma etapa de minha vida intelectual. A diferença entre lapso e etapa é essencial, porque se inscreve no conceito mesmo de tempo.

O tempo, com efeito, não é uma adição de datas, mas possui unidade própria, não meramente aditiva.  As datas não são senão momentos dessa unidade que chamamos tempo. Que é essa unidade? Não é este o lugar para tratar tão sério problema. Em seu aspecto meramente descritivo, já o expus em Realitas II, (Madri 1976). Mas agora não aludo a esse conceito descritivo, e sim a um conceito mais profundo: é a unidade estrutural do tempo. O tempo não é algo separado das coisas, mas tão somente um momento delas: as coisas não estão no tempo são temporais. Voltarei logo a essa ideia. Em virtude disso, por serem temporais, essas coisas qualificam seu tempo: é o tempo mesmo o que é qualificado. E esse tempo assim qualificado é o que chamo unidade estrutural. Essa estrutura pende, pois, da índole das coisas.

Se as coisas temporais são as que chamamos coisas físicas, então essas coisas físicas conferem ao tempo uma qualidade própria: o número e a medida. As coisas físicas, com efeito, tem atuação sucessiva. A sucessão é um caráter puramente físico. Pois bem, a sucessão confere ao tempo uma qualidade própria. O tempo é então mensura de sucessão: uma hora, dois dias, dez anos, etc. O tempo como mensura é, assim, cronometria. Se as coisas temporais são os seres vivos, então o tempo é biologicamente qualificado. E a qualidade do tempo biologicamente qualificado é a idade. A idade não é um número, mas uma qualidade temporal própria. Jovem, adulto, velho, etc., são estruturas biologias, e sua qualidade temporal é a idade.  Certamente, a idade pode ser mensurada porque os seres vivos são também coisas físicas. Mas esse número não é idade mesma, senão somente o momento numerante da idade. A velhice de uma célula é numerada, mas esse número não é a idade. Se as coisas temporais são de índole psíquica, ou melhor, psicofísica, então tem uma qualidade estrutural diferente. A vida psíquica constitui como se dizia já desde o início do século XX, uma corrente, um fluxo. Chamavam-na, então fluxo da consciência (deixemos de lado agora a referência à consciência). Pois bem, a corrente psíquica, o fluxo psíquico confere ao tempo uma qualidade original: é a durée, a duração. O caráter numeral do que dura não é a duração mesma, mas o caráter numeral do numerante. A duração é anterior à sua suposta numerabilidade, sua mensura é extrínseca porque a duração em si mesma não é adequadamente apreensível em números. Quando as coisas temporais são os homens na integridade de sua vida, então surge uma qualidade temporal nova. A vida do homem nessa sua totalidade tem um momento essencial constitutivo: é projeto. Pois bem, o projeto: é o tempo como acontecer. Eis, portanto as quatro unidades estruturais do tempo, as quatro qualidades do temo mesmo: mensura, idade, duração, acontecer. Resta o problema de que é o tempo mesmo. É o conceito modal do tempo que chamo de temporalidade. Mas não posso entrar aqui nesse problema. Já o esbocei em Realitas II.


Cada uma das estruturas temporais se matiza, por sua vez, muito diversamente. Assim, o acontecer pode ser biográfico, social, histórico. Quando os projetos humanos dentro de um lapso de tempo respondem ao que poderíamos chamar inspiração comum, então o tempo do acontecer tem matiz temporal próprio: é a etapa (que pode, por sua vez, ser, biográfica, social, ou histórica). Etapa é o acontecer qualificado por uma inspiração comum. Agora se vê que lapso de tempo não é o mesmo que etapa. A etapa é uma qualidade de um lapso de aconteceres. A mudança de inspiração comum é o início de uma nova etapa.

Pois bem, o lapso 1932-1944 é, em sentido rigoroso e estrito, uma etapa de minha vida intelectual. Minhas reflexões filosóficas responderam nesse lapso a uma inspiração comum difícil de definir, mas fácil de perceber.

A filosofia achava-se determinada antes dessa data pelo lema da fenomenologia de Husserl: zu den Sachen selbst, “as coisas mesmas”. Certamente, essa filosofia não era dominante até então. A filosofia vinha sendo uma mistura de positivismo, historicismo e pragmatismo apoiada em última instância na ciência psicológica, um apoio que se expressou como teoria do conhecimento. Partindo dessa situação, Husserl criou, com uma crítica severa, a fenomenologia. É uma volta do psíquico a coisas mesmas. A fenomenologia foi um movimento mais importante a abrir um campo próprio ao filosofar enquanto tal. Foi uma filosofia das coisas e não só uma teoria do conhecimento. Essa foi q remota inspiração comum da etapa 1932-1944: a filosofia das coisas.  A fenomenologia teve assim uma dupla função. Uma, a de apreender o conteúdo das coisas. Outra, a de abrir o livre espaço do filosofar diante de toda servidão psicológica ou científica.  E esta última função foi para mim a decisiva. Naturalmente, a influência da primeira função é sobejamente clara não só em mim, mas em todos os que se dedicam à filosofia desde aquela dada. Mas minha reflexão pessoal teve dentro desta inspiração comum uma inspiração própria.  Por que o que são as coisas sobre as quais se filosofia? É esta a verdadeira questão. Para a fenomenologia, as coisas eram o correlato objetivo ideal da consciência, Mas isso, ainda que obscuramente, sempre me pareceu insuficiente. As coisas são a meras objetividades, mas coisas dotadas de uma estrutura entitativa própria. A essa investigação sobre as coisas, e não só sobre as objetivardes da consciência, se chamou indistintamente ontologia e metafísica. Assim a chamava o próprio Heidegger em seu livro Sein und Zeit. Nessa etapa de minha reflexão filosófica, a concreta inspiração comum foi ontológica ou metafísica. Com isso, a fenomenologia é relegada a ser uma inspiração pretérita. Não se trata de uma influência – aliás inevitável – da fenomenologia sobre minha reflexão, mas da progressiva constituição de um âmbito filosófico de caráter ontológico ou metafísico. Um exame, ainda que superficial dos estudos recolhidos no volume Natureza, História, Deus fará perceber ao menos perspicaz que é essa inspiração comum de todos eles. Era já uma superação incoativa da fenomenologia. Por isso como me expressava no estudo Que é Saber? que eu laboriosamente procurava é o que então chamei de Lógica da Realidade. Recolho todos esses trabalhos no presente volume como testemunho de uma etapa concluída.

A esta etapa se seguiu, pois, uma nova. Por que são a mesma coisa metafísica e ontologia? São a mesma coisa realidade e ser? Já dentro da fenomenologia, Heidegger vislumbrou a diferença entre As coisas e seu ser. Com o que a metafísica passava para ele fundar-se na ontologia.  Minhas reflexões seguiram uma via oposta: o ser se funda na realidade. A metafísica é o fundamento da ontologia. O que a filosofia estuda não é a objetividade nem o ser, mas a realidade enquanto realidade. A partir de 1944 minha reflexão constituiu uma nova etapa: a etapa rigorosamente metafísica.

Nela recolho, como é obvio, as ideias cardeais da etapa anterior, ou seja, dos estudos já publicados neste volume. Mas essas ideias adquirem um desenvolvimento metafísico para além da objetividade, para além de toda ontologia.

Tarefa que não é fácil. Porque a metafísica moderna, dentro de todas as diferenças, esteve fundada sobre quatro conceitos que ao meu modo de ver são quatro falsas substantivações: o espaço, o tempo, a consciência, o ser.  Pensou-se que as coisas estão no tempo e no espaço, que são toda a apreendidas em atos de consciência, e que sua entidade é o momento do ser. Pois bem, ao meu modo de ver isso é inadmissível. O espaço e o tempo, a consciência o ser não são quatro receptáculos das coisa, mas tão somente caracteres das coisas que já são reais; são caracteres da realdiade das coisas, de coisas – repito –já reais em e por si mesmas. As coisas reais não estão no espaço nem no tempo como pensava Kant (seguindo Newton); as coisas são espaçosas e temporais, algo muito distinto de estar no tempo e no espaço.

A intelecção não é um ato de consciência como pensa Husserl. A fenomenologia é a grande substantivação da consciência que corre na filosofia moderna desde Descartes. No entanto, não há consciência; há tão somente atos conscientes. Tal substantivação já se havia introduzido em grande parte da psicologia do final do século XIX, para a qual a atividade psíquica era sinônimo de atividade da consciência, concebendo-se todas as coisas, como “conteúdos de consciência”. Ela criou inclusive o conceito de “a” subconsciência. Isso é inadmissível, porque a coisas não são conteúdos de consciência, mas tão somente termos da consciência: a consciência não é o receptáculo as coisas. Por seu lado, a psicanálise conceituou o homem e sua atividade referindo-se sempre a consciência. Assim nos fala da consciência, do inconsciente, etc. O homem será em última infâmia uma estratificação de áreas qualificadas com relação à consciência. Essa substantivação é inadmissível. Não existe “a” atividade da consciência, não existe “a” consciência, nem “o” inconsciente, nem a subconsciência; há somente atos conscientes, inconscientes e subconscientes. Mas não são atos da consciência, nem do inconsciente, nem da subconsciência. A consciência não executa atos. Heidegger deu mais um passo. Ainda que de forma própria (que nunca chegou a conceituar nem definir), levou a cabo a substantivação do ser. Para ele, as coisas são no e pelo ser, as coisas são por isso entes. Realidade não seria senão um tipo de ser. É a velha ideia do real, esse reale. Mas o ser real não existe. Só existe o real sendo, realitas in essendo, diria eu. O ser é tão somente um momento da realidade.

Diante dessas quatro gigantescas substantivações, do espaço, do tempo, da consciente e do ser, tentei uma ideia do real anterior àquelas. Foi o tema de meu livro Sobre la Esencia (Madri, 1962): a filosofia não é da objetividade nem do ente, não é fenomenologia nem ontologia; é filosofia do real enquanto real, é metafísica. Por sua vez, a intelecção não é consciência; é mera atualização do real na inteligência senciente. É o tema do livro que acaba de publicar-se. Inteligencia Sentiente (Madri, 1980).

Desse modo, o presente livro, Natureza, História, Deus é uma etapa não somente superada, mas assumida nessa metafisica do real, em que há 35 nos me acho empenhado. É, repito, a etapa determinada pela inspiração comum do real enquanto real. É uma etapa rigorosamente metafísica. Nele me vi forçado a dar uma ideia diferente do que é intelecção, do que é a realdiade e do que é a verdade. São os capítulos centrais do livro Inteligencia Sentiente.

(No original Zubiri continuava no final agradecendo a dedicação de Fowler: “Agradeço sinceramente ao meu amigo, o grande físico Thomas B. Fowler pela iniciativa, seu entusiasmo e a precisão e exatidão com que tem realizado a tradução deste livro, graças ao qual poderá ser lido em Norte América e nos países de fala inglesa. Muito obrigado, também, a todos quantos tem feito possível esta edição. X.Z.  Madri, novembro de 1980.

(Natureza, História, Deus. Editora É Realizações, São Paulo,  2010.  p. 23-30).

Nota explicativa 1.

História do início dos estudos de Zubiri em América do Norte.

Por Thomas Fowler.

“O interesse pela filosofia de Zubiri na América do Norte se remonta a década de 1960. Duas pessoas foram fundamentais para apresentar o trabalho de Zubiri ao público de fala inglesa nesses primeiros anos de vida. O professorFritz Wilhelmsen (1923-1996) estudou na Espanha e se doutorou em Filosofia na Universidade de Madri em 1958. Foi depois professor na Universidad de Pamplona até 1965. E logo depois se transferiu para a Universidade de Dallas, Texas. Publicou um livro importante The Metaphysics of Love em 1962. Posteriormente foi traduzido ao francês e espanhol. Embora, tomista, Wlhelmsem admirava a filosofia espanhola e escreveu com simpatia sobre os principais pensadores ativos em Espanha durante o século XX, incluindo Unamuno, Ortega y Gasset e, também, Zubiri, a quem descreveu  como o melhor metafísico de Espanha. O próprio Wilhelmsen nunca conheceu Zubiri e ainda quando escreveu seu livro só conhecia os trabalhos dele até inícios dos anos 60. Não parece haver seguido o interesse que teve no início pelo pensamento de Zubiri, embora viajou, depois com frequência para Espanha.

A segunda pessoa que estudou e escreveu sobre a filosofia de Zubiri nesses primeiros dias foi o professor A. R. Caponigri (1915-1984), da Universidade de Notre Dame, South Bend, Indiana.  Diferentemente de W Wilhelmsen, Caponigri conheceu pessoalmente a Zubiri e assistiu aos principais seminários em Madri. Mas ao igual que Wilhelmsen, estudo também os principais pensadores espanhóis do século XX e fez traduções de algumas de suas obras. Seu primeiro livro foi sobre Contemporary Spanish Philosophy em 1967 e nele continha um ensaio sobre a antropologia de Zubiri, escrito originariamente a finais da década de 1940, “A origem do Homem”. Junto com de Theres Sandok. O. S. M., Caponigri tomou a decisão, naquela data, de traduzir a obra original Sobre la esencia. Completou a tradução a finais da década de 1970 e escreveu uma extensa introdução, além de compilar um glossário dos termos filosóficos de Zubiri. Todavia, devido as demoras associadas ao processo editorial, a tradução de Caponigri, com o título Of Essence só apareceu em 1982. Caponigri faleceu antes de conhecer o pensamento último de Zubiri, publicado nos três volumes da Inteligência Senciente e outras obras afins. Como resultado, sua introdução, embora valiosa não reflete a filosofia madura de Zubiri.

Pois bem, ao final da década de 1960, Thomas Fowler, estudante na Universidade de Mayland (College Park, Maryland), se interessou pela literatura e cultura espanhoas e leu o livro de Wilhelmsen. A partir dessa leitura Thomas procurou saber mais sobre Zubiri, e numa viagem a Espanha em 1968 conseguiu cópias dos livros de Zubiri que estavam já impressos. A saber: Cinco lições de filosofia, Sobre la esenciaNaturaleza, Historia, Dios.

Fowler ficou muito impressionado com a claridade e perspicácia dos ensaios deste último livro e começou a traduzi-los para que os leram seus amigos. Visitou Caponigri em South Bend em 1975 e com ele aprendeu muito mais sobre Zubiri e como trabalhava sobre Zubiri. Caponigri proporcionou a Fowler a direção de Ignácio Ellacuría e o recomendou que contatasse com ele para que ele o pudesse apresentar a Zubiri. Então Ellacuría afirmou a Fowler que Zubiri estaria feliz de reunir-se com ele em Madri. Finalmente, Fowler completou sua tradução e o levou consigo o manuscrito em inglês numa viagem em setembro de 1978.  Lá conheceu Zubiri pela primeira vez e mostrou-lhe a tradução, intitula lada Nature, History, God.

Zubiri ficou supresso porque não tinha conhecimento da tradução daquele jovem e ficou atônito e encantado ao constatar que todo o livro já estava traduzido. Zubiri o mostrou a sua esposa Carmen, que conhecia o inglês melhor que ele próprio. Ela lhe afirmou que estava bem feito, com o que ficou satisfeito. A partir desse momento os dois Zubiri e Fowler se fizeram bons amigos, e Zubiri o animou a seguir adiante com o propósito de publicá-lo. Então Fowler pediu a Zubiri que fizesse uma introdução a essa edição inglesa, que Zubiri escreveu logo e mandou a Fowler em 1980. Em esta apresentação à tradução inglesa Zubiri relatou pela primeira vez as três etapas de seu desenvolvimento filosófico (este texto se conhece em espanhol como “Duas etapas”).

Nature, History, God foi publicado em 1981 pela University Press of America, Washington D.C., Fowler visitou Zubiri novamente e participou num dos seminários, em que se discutia com Zubiri a Inteligência e Razão. Durante essa visita Zubiri pediu a Fowler que traduzisse a Inteligência Senciente. Fowler começou a tarefa um pouco mais tarde nesse mesmo ano. Porém, percebeu que tardaria 16 anos sem acabar a tradução devido a complexidade e dificuldade do trabalho, como também pelo compromisso com outra tarefas. Também, durante essa visita de 1982, Fowler conheceu a Diego Gracia, e os dois rapidamente ficaram amigos. Depois de falecido Zubiri no ano seguinte Fowler manteve profícuo contato com Gracia, que o orientou, pediu e trabalharam juntos nos subsequentes projetos zubirianas” . (Enviado por Thomas Fowler em  4/6/2021).

Nota explicativa 2.

Esclarecimento sobre o prólogo à tradução inglesa de NHD e um pequeno percorrido.

Por José Fernández Tejada.

Na minha terra, Espanha, dizemos: “vinho novo em odre velho nunca é velho”. Este provérbio, vindo dos hebreus e dos evangelhos, tem adquirido na história várias significações. Até Freud (era descendente de judeu) parece que se debruçou nele para sua temática e inclusive existe um livro: Freud, Dora e sua nova ‘neurótica. O problema do sentido dado a esse provérbio é a insensata comparação da juventude e do ancião, da coragem e da experiência, da força  e da inteligência. Porém, tem a energia original do cuidado dos povos antigos de guardar seus vinhos, (como de levá-los ao trabalho da rosa), e o significado, indubitavelmente, do avançar do homem na sua sociedade e história, buscando o novo, mas dentro de estruturas velhas.  É o verdadeiro conceito de tradição, tradere. Achamos, assim, que esse provérbio nos pode ajudar a um bom entendimento das centelhas da proposta inédita de Zubiri, mas ele faz questão de seguir as pegadas da descoberta da sabedoria filosófica, que infelizmente nós a prostituímos ficando com substituições quase não entendíveis, todavia devemos aceitar como formas que nos afastam mais e mais da realização do homem. Parece que foi pior no caminhar da sabedoria concipiente (vasilhas velhas) que os contos de fadas mal interpretados, dos filmes de ficção científica e dos desenhos animais, percebendo que estão se distanciando do homem, embora seja para entreter o homem. Sim Zubiri escreveu vinho novo em odres velhos da tradição filosófica, que nos garante os passos suficientes do vigor e rigor de nosso pensamento.

Sempre temos que ter em conta que os toneis velhos de carvalho, e como todos recipientes, devem se limpos e higienizados antes de colocar o vinho novo. Quer dizer o odre velho deve ser limpo das impurezas advindos do uso. O mesmo parece fez Zubiri ao estudar e analisar as corrupções e desvios da filosofia clássica. Muitos preferiram ou não entenderam tal sabedoria e sem compromisso nenhum ou então por urgência e por consumo desenfreado, criaram vinhos, ditos novos, rejeitando os odres modernos e moderníssimos. Resultado, temos um saber moderno e contemporâneo, que não é palatável, bebível e digerível, porque mantem os erros e desvios que cometemos. É confusão de querer construir um mundo novo com um andaime conceitual, rejeitando a tradição que nos sustenta. Erramos de novo na bebida e na forma.

Assim segue nos mostrando, depois de quase 80 anos, o primeiro livro de Zubiri. Ele foi feito com o empenho de uma vida intelectual manifestando os estalos de uma atrevida inspiração filosófica, que se estava amadurecendo. A semeadura foi muito dolorosa. Separou o joio do trigo do saber e da sabedoria filosófica, estudando, muito criteriosamente, por isso a passo de tartaruga e com cuidado começou a dar-nos um vinho especial para nossa vida. Essa constatação, não apenas se deu na década de quando foram escritos, quando muitos na Espanha se sentiram cúmplices daquela forma de pensar, mas hoje é mais patente e fonte de atrevimentos filosóficos, cobrados repetidamente pelo mesmo D. Gracia que o léu de jovem: “Não posso no dizer, que suas páginas  deixaram em mim uma marca indelével e me ajudaram a tomar certas opções de vida”. Por isso defendo que não podemos considerá-lo apenas como uma simples introdução didática e acadêmica ao inquieto pensamento zubiriano.

Podemo-lo ler como uma grande introdução para familiarizarmos com o talante de Zubiri, mas não de forma corriqueira, teórica e repetitiva, porém sempre inspiradora e dinâmica. Ela parece que nos atrai, que nos disse muito mais do que está escrito. Assim poderemos descobrir o que Zubiri levava entre suas mãos filosóficas até a Inteligência senciente, e deixando ainda aberta a inspiração chocante mas que nós atrai, sua criatividade rigorosa e amadurecimento singular. Lega-nos  a tarefa de enfrentar o “problema da inteligência”.

Natureza, História, Deus é a primeira obra de X. Zubiri em 1944, traduzida no Brasil em 2010. Antes, em 1980 foi traduzida para o inglês por Thomas Fowler. Zubiri aceitou de ele fazer um Prólogo especial para esta tradução, em reconhecimento ao trabalho de Fowler. Na obra original constam dois prólogos de Zubiri: Prólogo à primeira edição e Nota à quinta edição, onde Zubiri fala da forma do livro sem dar-se importância, embora fosse interpretada por muitos naquele tempo como se fosse apenas como recolhimento de alguns texto e ainda para ganhar o pão de cada dia.  Nunca buscou Zubiri a fama de filósofo. Para sua mulher falava diante das muitas incompreensões: “gênio não sou, mas também não tonto”. Assim, podemos dizer hoje nesse empenho zubiriano. O que ele nos fala é de um intelectual sério e “assumido” como filósofo, que acabara de se demitir da Universidade Espanhola, porque ela “não tinha mais ambiente propício para a liberdade de pensar”. Parecia uma grande loucura ou suicídio intelectual, mas pensava mais no ambiente propício aberto por Ortega, e por muitos intelectuais espanhóis de todas as áreas do saber, para a tarefa de pensar o homem e a terra da Espanha, senão também do mundo inteiro.

Esta obra é a que mais edições têm necessitado de fazer pela sua procura. Hoje, já são mais de 13 edições, sempre em primeiro lugar de todas as publicações de Zubiri. Por isso, Natureza, História, Deus, foi enriquecida pelo diálogo amigo e rigoroso entre ele e Fowler com um Prólogo, que já se tornou parte do livro, para a Tradução Norte-Americana. Este prólogo de Zubiri, que fez quando já estava escrevendo em pleno amadurecimento sua obra máxima a Trilogia senciente  Por isso, esse prólogo forma parte de Natureza, História, Deus embora o livro tivesse sido escrito na década de 30.

Zubiri nos prólogos existentes parece ficar nos passar certa dúvida da unidade destes texto; apenas afirma que são textos de uma época. Mas, segundo D. Gracia não é mera compilação dos artigos da década de 1930, e nós concordamos, mas deve ser considerado “como um texto com entidade própria e independente, irredutível à simples soma dos artigos que lhe serviram de base”. E este prólogo da edição inglesa mostra isso: Zubiri descreve-o como a está de influência fenomenológica. Foi escrito por Zubiri em pleno desenvolvimento e consciente do que sua vida intelectual sempre estará aberta.

O próprio Zubiri nesse prólogo nos diz que esta obra corresponde a sua primeira etapa de reflexão filosófica, chamada fenomenológica, onde ele se sentiu ajudado pela fenomenologia, não somente pela volta as coisas mesmas, mas pelo espaço de liberdade de pensar aberto por ela.

A intenção da publicação no blog neste prólogo é ajudar o interessado a iniciar sua leitura zubiriana com textos, que parecem soltos e em forma de ensaio, como o ensinou Ortega, mas que revelam uma unidade própria, Zubiri o afirma assim no Prólogo.  Uma iniciação ás andanças filosóficas de Zubiri, mas que são um verdadeiro mergulho na filosofia inédita do autor.

Este é motivo que sentimos durante anos até hoje ao ler e reler Natureza, História, Deus. Vemos Zubiri naquela época arrumando e enriquecendo sua casa intelectual, mostrando a profundidade sem igual da crítica desses conhecimentos e a ousadia de sua inspiração totalmente diferente de seus mestres e colegas, que fizeram sucesso no século XX. Certamente a fenomenologia foi inspiração comum a todos com a volta as coisas mesmas. Porém, Zubiri compreendeu profundamente a fenomenologia como tal e vai completar esse desafio: da volta ás coisas mesmas desde as coisas. Com isso ele chegou aos mistérios e labirintos do ser. E conflitando e discordando com as formas dos caminhos descobertos expressou sem medo e sem pressas, sua crítica e inspiração,  sempre com rigor intelectual: a realidade é antes do ser.

Por isso, agora, depois de ler e reler quase todas suas obras durante muitos dias e anos, podemos apalpar em NHD a força de sua inspiração radical, que já está presente no decorrer dos artigos escritos na década de 1930, que a primeira vista são apenas lições soltas de filosofia, como se fossem de um professor excelente. Assim, Natureza, História, Deus não pode ser apenas uma introdução ao pensamento de Zubiri, mas mergulhar na originalidade, sempre pujante e por isso incompleta, que devemos ir elaborando com ele ou ele conosco. Entendo que a devemos estudar como parte de uma dinâmica de reflexão filosófica do autor, que nos quer contagiar com esse “pensar nas coisas que nos fazem pensar”. Alguns pensamentos ao longo desses artigos revelam o verdadeiro ponto de partida, confuso e em crise nas ciências e na sociedade, indicando os passos lentos a dar, que para ele sempre devem ser completados.

Nota Explicativa 3.

Adentrando-nos em História, Natureza, Deus.

Convidamos a estudar essa obra acompanhando a reflexão esclarecedora e instigante dele, criada pela nova proposta do saber humano, da sabedoria filosófica e metafísica, e, portanto, da necessária, não a “melhor” realização do homem, mas para uma “ótima” realização das pessoas de nossa humanidade.

É nossa firme convicção de amante do saber cativante zubiriano, tirar a cabeça dela do chão, maltratados pelos conceitos de uns e pisar vivendo dentro de nossa realidade de pessoas. Por isso, aproveitamos esta ocasião para separar algumas frases ou pensamentos que indicam essas centelhas da iniciante inspiração de Zubiri. Mas, não somente como centelhas que se desfazem, mas que reiniciam o movimento de uma sabedoria real e apresentativa, não representativa. Gostamos de ver, então, como uma oficina do torneamento das peças novas de um andaime real e senciente a elaborar. Já estamos cansados e confusos de limitação dos andaimes conceituais das formas representativas de nosso saber e da filosofia, e, portanto, da ciência como a praticamos. Só assim a humanidade poderá sair dessa crise dilaceradora, da crise provocada pelo corona vírus e da  aprisionadora normalidade do saber concipiente.

Assim, na leitura de Natureza, História, Deus reparamos muitas vezes, não somente o teor dessa busca, mas também a construção do novo andaime senciente para ir desfazendo-se do concipiente, que não se sustenta mais. E não nos sustenta. Duro e demorado trabalho o de Zubiri, facilitado agora para nós e pro cada um de nós. Vamos separar esses pensamentos que formam a raiz de toda a proposta zubiriana. São faíscas consistentes do grande foco de inspiração radical. Zubiri nós faz pensar desde as coisas e por isso desde a mesma realidade das coisas. A leitura desse novo prólogo como veremos, nos anima nessa convicção e empreitada de todos.

Vejamos alguns exemplos, que podiam ser muitos mais. Todos eles estão sublinhados tanto na nossa obra original como na tradução em português pela É Realizações no Brasil. Desde as primeiras leituras Zubiri surpreende com uma das peças fundamentais da grande inspiração do problema da inteligência, e seu enfrentamento e novas possibilidades. Diz de repente: “saber não é raciocinar nem especular: saber é ater-se modestamente à realidade das coisas (p. 82). É o primeiro enfrentamento escrito sobre a realidade e sobre a inteligência. Podemos ainda separar alguns que nos inquietaram para a abertura do pensar e outros muitos que vocês podem indicar, diante de uma filosofia especulativa e repetitiva que nos inunda, porque a leitura de Zubiri nós abre o dinamismo humano na vida e na inteligência.

Em Nossa situação Intelectual podemos descartar vários pensamentos que surgem como pequenas pedras fundamentais do problema filosófico da inteligência que Zubiri está enfrentado. Mas, vamos separar uma das mais importantes. “Necessita (nossa inteligência) a aprender a aproximar-se das coisas para que elas se lhe manifestem cada vez mais” (p. 50). “Parece que a ciência consiste em dar-nos coisas de que primária e radicalmente não teríamos posse” (id. 56) “São as coisas que nos impõem nossos esforços” (id. 58). “O difícil da questão é que a filosofia não é algo acabado, que esteja aí e de que baste lançarmos mão para nos servirmos a nosso bel-prazer” (id. 63). “A filosofia, pois, deve ser feita, e por isso não é questão de aprendizagem abstrata” (id. 64).

A realidade da verdade nos manifesta realmente a verdade de uma realidade sentida em nosso sentir” (id. 84). “A categoria especial dos sentidos, no homem, reside não em serem ‘sensórios’, mas em serem ‘sentidos’” (id. 84). “A busca do ser real e verdadeiro depende, pois, em ótima instância, da busca desses infalíveis e elementares sentires, para, atendo-se a sua infalível verdade, ter realidade verdadeira das coisas” (id. 90). “O homem não só sente, mas ‘tateia’, por assim dizer, sua impressões das coisas até dar sentido” (id. 92).

“Daqui que Aristóteles, ao desenvolver o problema da ousía, se veja obrigado a tratá-la como ‘sub-stancia’” (id. 127). “Necessitamos saber se a filosofia e o ser do homem vão nutrir-se, em ótima instância, do que ‘acontece no mundo’ ou do que as coisas e o homem ‘são na realidade’” (id. 129).

Ocupar-se da história da filosofia não é, pois, uma simples curiosidade: é o movimento mesmo a que se vê submetida à inteligência quando empreende precisamente a ingente tarefa de pôr em marcha a si mesma partindo de sua última raiz… A filosofia não é sua história; mas a história da filosofia é filosofia” (id. 145). “Porque, definitivamente, a objeção à filosofia procede de certa concepção da ciência que, sem prévia discussão, pretende aplicar-se univocamente a todo e qualquer saber estrito e rigoroso” (id. 148). “Enquanto a ciência imatura é imperfeita, a filosofia consiste no processe mesmo de sua maturidade… A filosofia não é obra do filósofo; o filósofo é que obra da filosofia” (id. 155).

A riqueza e precisão infinitesimal do vocabulário escolástico constitui um dos tesouros que é mais urgente pôr em rápida circulação” (id. 161). “Indubitavelmente, o legado completo de sua razão (de Descartes) genial só foi para alguém, que o recebeu como sutil obséquio de sua intimidade. Par quem?° Deus sabe” (168). “Podemos, com efeito, entesourar toneladas de conhecimentos filosóficos e não ter roçado, nem sequer de longe, o mais vestígio de sua (Pascal) autêntica vida filosófica… os pensamentos de Pascal são, como poucos, gigantescos esforços por perceber original e indeformadamente, diante de sua mente, a realidade do mundo e da vida… Não significa (esse esforço de Pascal) o cego sentimento e oposição à pura razão cartesiana, mas o conhecimento constitutivo do ser cotidiano do homem” (170). “A história não é, para Hegel, supraindividual, mas forçosidade supraindividual”, (id. 176).

“Sócrates introduz na Grécia um novo modo de Sabedoria. Isso necessita de uma explicação” (id. 184). “Contra o que prega o idealismo absoluto, a filosofia não nasce de si mesma” (id. 185).“A experiência do homem, como dizia eu,  é o lugar natural da realidade, graças precisamente a sua limitação, que lhe permite apreender certas coisas e certos aspectos delas com exclusão de outros” (id. 187-188). “O pensar humano, que tomando estaticamente num momento do tempo, é o que é, portanto verdadeiro ou falso, é, tomando-se dinamicamente em sua projeção futura, verdadeiro e falso segundo a via que empreenda… Porque não se trata tão somente de que essas possibilidades que ao pensamento se oferecem sejam verdadeiras ou falsas, mas de que as vias sejam ou não vias mortas. Em cada instante de sua vida intelectual, cada indivíduo e cada época se acham colocados sobre o constitutivo risco de avançar por uma via morta” (id.191-192). “O próprio da mente pensante não é ser uma faculdade de pensar, que tanto pode acertar como errar, mas o possuir uma espécie de tato profundo e luminoso que nos faz ver certeira e infalivelmente as coisas” (id. 207­). “Nasceu o mundo do logos… Porque a partir desse novo estágio, o lugar natural da realidade verdadeira será a razão” (Id. 220). Com Protágoras, “encontrámo-nos a mil léguas da racionalidade do ser que a ciência de seus contemporâneos descobre. Tudo é discutível; porque nada tem consistência firme, o ser é inconsistente” (id. 224). E “o homem se vê entregue à deriva da frivolidade” (id. 224 e 233). “Com isso seu saber deixou de ser sabedoria para tornar-se coisa manejável, tópos, tópico, que se utiliza em benefício próprio ou por ocasião de consagração pessoal mediante a polémica. O zelo e a indolência tem idêntica raiz: o tópico.” (id. 231).

“A sabedoria nasceu da mente pensante. Ao perdê-la, deixou de ser Sabedoria. O saber já não é de uma vida intelectual, s simples receituário de ideias. Por isso a elimina Sócrates” (id. 234). “Sócrates se retira para casa, e nessa retirada recobra seu noûs e deixa a sabedoria tradicional em suspenso. O ‘e’ readquire sua importância e sua gravidade. As coisas recuperam a consistência, tornam-se novamente resistente e suscitam autênticos problemas. Com isso, o homem mesmo adquire gravidade” (id.235). “Paras uns, Sócrates era mais sofista; para outros um bom homem. Para sua descendência foi um intelectual. Na verdade inaugurava simplesmente um novo tipo de Sofia. Nada mais, mas nada menos” (id. 238). Sócrates, “tem seus amigos, e com eles fala. Para um bom grego, o falar está unido ao pensar como era para o semita rezar e recitar; a oração do semita é justamente isso, oração algo de que participa sempre se os, sua boca. Para um bom grego, o falar não se dá isoladamente do pensar: o logos é, a um só tempo, um e outro. Ele sempre entende o pensamento como um diálogo silencioso da alma consiga mesma, e o diálogo com outros como um pensamento sonoro. Sócrates é um bom helénico: pensa falando e fala pensando. De fato, dele sai o diálogo como modo de pensamento” (id.239). “Ao mesmo tempo, Platão e Aristóteles nos deram com isso um lição magistral de história da filosofia, uma lição socrática. A história da filosofia não é cultura nem erudição filosófica. É encontrar-se com os demais nas coisas sobre as quais se filosofia” (id. 256).

“Dizer que uma coisa se apoia no espírito absoluto, equivale a dizer permanece nele como momento seu. Por isso diz Hegel que a verdadeira substância é o sujeito. Esse é o ponto de partida da filosofia de Hegel: o absoluto como sujeito” (id. 267). “O difícil para captar o absoluto de Hegel, não é pensar muito, mas justamente o não pensar nada” (id.268). “ Se não tivesse existido mais que simples visão do mundo, facilmente toda a filosofia teria degenerado numa orgia mística, num frenesi intelectual. Com a frase de Parmênides de que a visão do que é e o ser são a mesma coisas, não seria passado a filosofia do nível de um intuição intelectual, como se repete em Schelling. Essa foi uma das genial contribuições de Palitão para a filosofia” (id.272). “Esta genial visão de Que é o ser?, mas algo como  dizia Platão , que está para além do ser. Em genial visão , dizia obscuramente  Aristóteles que a filosofia surge da melancolia; mas de uma melancolia por exuberância de saúde, katà phýsim, não da melancolia enfermiça do bilioso, katà nóson. Nasce a filosofia da melancolia, isto é no momento em que, de modo radicalmente diferente do cartesiano, o homem se sente sozinho no universo. Enquanto essa solidão significa, para Descartes, recolher-se as si mesmo, para Hegel, em não poder sair de si, a melancolia aristotélica é justamente o contrário: quem se sentiu radicalmente só é quem tem capacidade para estar radicalmente acompanhado. Ao sentir-se só, aparece-me a totalidade do quanto há, enquanto me falta. Na verdadeira solidão, os outros estão mais presentes do que nunca” (id. 274-275).

A nova física é, em maior ou menor grau, justamente isto: uma novidade e, por isso mesmo, um problema (filosófico)” (id.282). “Um colaborador de Rutherford, Nils Bohr, aplicou em 1923 a ideia de Planck para explicar o modelo atômico de seu mestre, e seu êxito experimental acabou por abrir aos pés da ciência o abismo absoluto que a separava da experiência” (id, 287). “E a teoria da relatividade terminou de afastar decididamente das teorias físicas a imaginação. Bem entendido, a imaginação como órgão que representa e, nesse sentido, conhece o que o mundo é. Viu-se então que nas teorias físicas havia dos elementos essenciais: a imagem do mundo seu a estrutura ou formulação matemática, e que desses dois elementos o primeiro é absolutamente caduco e circunstancial: só o segundo expressaria a verdade física. Isto, pois pareceu com bastante claridade antes que se sistematizasse a nova física” (id. 314). “Nada disso acontece na física nova. Além dos citados erros, em toda observação, o observador, pelo mero fato de observar, modifica essencialmente a natureza do observado, porque, como vimos, precisa iluminar seu objeto” (id. 315). Há, pois, uma tentativa, ainda mais radical que a teoria da relatividade, de ater-se à verdade experimental, de criar conceitos experimentais para experiências efetivamente experimentadas. Daí procedem, os distintos caracteres dos fatos de que parte, dos problemas  que a respeito deles suscita e do sentido da solução que encontra para eles” (id. 315).

A nova física levou a sério esse conceito de probabilidade e de observação. Em face da física anterior, tem a virtude com audácia a probabilidade e mover-se sem dissimulá-la. É labor que custou séculos à humanidade. Mas tal vez, que a de acolher-se à necessidade. Não foi um capricho ou um jogo de conceitos – essa é sua grande significação -, mas uma exigência da evolução mesma da ciência, que começou com Einstein e chegou aqui a seu grau máximo: a subordinação da teoria à experiência” (id. 321). “Resumindo: para Aristóteles , a Natureza é sistema de coisas substâncias materiais que vem a ser por causas; para Galileu, a Natureza é determinação matemática de fenômenos (acontecimentos) que varia; para a nova física, Natureza é distribuição de observância. Para Aristóteles, física é etiologia da Natureza: para Galileu, medida matemática dos fenômenos; para a nova física, é cálculo provável de medições observáveis” (id.339).

A Grécia não representa, para nós, um museu de tipos filosóficos clássicos. Representa, em primeiro lugar, a maneira concreta como o espirito do homem entrou na filosofia. Em seu momento de maturidade, os próprios gregos tiveram clara consciência desse enorme fato” (id. 350). “É  mister, que renunciemos resolutamente à ideia de clássico e nos aproximemos da filosofia que o homem adquiriu em sua primeira ascensão ao filosofar, que decidiram a trajetória e a sorte concreta da filosofia na história, e que constituem, sabendo-o ou sem sabê-lo, a base primária sobre a qual se acham abertas e assentadas nossas próprias possibilidades filosóficas. Não é que os gregos sejam nossos clássicos: é que, de certo modo, os gregos somos nós” (id.351). “A Grécia traçou, nesse sentido, a rota da filosofia europeia. Por isso, somos gregos, não por um classicismo romântico. Na Grécia, a inteligência alcançou a primeira fase de sua plena maturidade. E tudo o que veio depois se ergue, em numa u outa medida, no pensamento grego. Por               que a historia não é indiferente o momento em que as coisas acontecem. Um mesmo fato que acontece em duas ordens de possibilidades pode significar coisas absolutamente diferentes” (id. 372).     

Ser coisa consiste precisamente em ‘possuir’ de seuo conjunto de notas que constituem a natureza. Mas, então, o possuir tem duas vertentes. Uma, que dá para fora: as ações de uma coisa sobre as demais. Outra, que dá para dentro: o que constitui o âmbito interno da coisa mesma. Se pela primeira esta posse se chama natureza, pela segunda recebe o nome de realidade, de ser. É a ideia de ousía, da sustância aristotélica, em que culmina sua ideia do ser. É certo que, em Aristóteles, o ser não se acha tematicamente limitado à natureza. Mas sempre se acha plasmado um pouco à imagem e semelhança sua. A substância aristotélica é o ponto cuspidal  da trajetória grega. Da natureza ao ser: aí está a rota que a Grécia seguiu” (id. 377).

“Este carácter fundante faz com que o homem em seus atos não seja só uma realidade atuante de uma ou outra forma, mas uma realidade religada à ultimidade. É o fenômeno da religação. A religação não é senão o carácter pessoal absoluto da realidade humana atualizado nos atos que executa. O homem está religado à ultimidade porque em sua própria índole é realidade absoluta no sentido de ser algo ‘seu’. E, enquanto religante a ultimidade é justamente essa orla de ultimidade que chamamos deidade … Essa abertura para a realidade não é resultado da consciência moral, nem é um sentimento, nem mais uma experiência psicológica, nem estrutura social, senão, que pelo contrário, esses quatro aspectos são o que são somente na e pela religação. Esses quatro aspectos são suscitados algo pela religação. Religação não é, pois, mais um ato do homem, nem é o carácter de alguns atos privilegiados seus, mas o caráter que todo ato tem por ser ato de uma realidade pessoal. A descoberta da deidade não é resultado de determinada experiência do homem, seja histórica, social ou psicológica, mas é  princípio mesmo de toda essa possível experiência. A religação não tem uma ‘origem’, mas um ‘fundamento’. Mostrá-lo assim é obra da inteligência” (id. 397).

Filosoficamente, a inteligência empreende justificadamente, partindo do homem mesmo e das coisas, uma marcha segundo aqueles três passos já indicados: deidade, realidade divina , Deus” (id. 401).

“Basta-nos, por ora, dizer que a pessoa é o ser do homem. A pessoa encontra-se implantada no ser ‘para realizar-se’. Esta unidade, radical e incomunicável, que é a pessoa, realiza-se a si mesma mediante a complexidade do viver” (id 413). “Há, como indiquei antes  e vamos ver a seguir, um problema intelectual em torno de Deus; mas isso não quer dizer que o modo primário de patentear a Deus seja um ato de conhecimento ou de qualquer outra faculdade, nem que o conhecimento seja a última reflexão sobre uma quimérica experiência religiosa; não se trata de nenhum ato, mas de ser homem” (id. 422-3).

A teologia não se identifica com a religião, mas tampouco é um apêndice reflexivo, fortuito e eventual metre acrescentado a ela: toda religião envolve constitutivamente uma teologia. Não pretendia mais” (id. 432).

“O mundo, em cada época, é dotado de peculiares graças e pecados. Não é  forçoso que uma pessoa tenha sobre si o pecado dos tempos, nem, é lícito que lhe seja imputado, por isso pessoalmente. O tempo atual é tempo de ateísmo, é uma época soberba de seu próprio êxito. O ateísmo afeta hoje, primo e per se, nosso tempo e nosso mundo. Os que não somos ateus somos o que somos a despeito do seu³.  A nossa época é rica nesse tipo de vidas, exemplares em todos os sentidos, mas diante das quais sempre surge um último reparo: ‘Pois bem, e daí?…; existências magníficas de esplêndida figura, desligadas de tudo, errantes e errabundas… Como época, nossa época é época de desligamento e de desfundamentação. Por isso, o problema religioso de hoje não é problema de confissões, mas o problema religião-irreligião. E, naturalmente, não podemos esquecer que é também, a época da crise da intimidade”. (id. 441). “A religação é a possibilidade da existência enquanto tal” (Id. 442).

A perspectiva teológica dos gregos (patrística) é muito diferente da latina. É uma teologia essencialmente personalista. O movimento primário como uma prioridade metafísica e intelectual, e não só de fato, do homem para Deus é um movimento de pessoa para pessoa…

 Isso é Deus para os gregos. Uma pura ação pessoal, insondável; na pureza de seu ato já está expressa o caráter de sua pessoa. Em Deus, a natureza é tida por identidade radical na pessoa. Visto de fora, manifesta-se como êxtase infinito, como fecundidade infinita; e por isso concebemos a Deus como amor. Sua unida metafísica é um êxtase. E na pureza de seu ato se expressa finalmente, também a absoluta unificação de todos os atributos com seu próprio ser, em intimidade metafísica…

Aí está, pois mais ou menos alcançado, o ponto de partida. Deus é essencialmente uma pura ação, um puro amor pessoal. Como tal, extático e efusivo. A estrutura desse êxtase é a fusão mesma do amor em três planos: uma efusão interna, a vida trinitária; uma criação externa e uma doação deificante. É o que vamos ver” (id. 469-471).

Resumamos. Em Deus, como amor efusivo, seu êxtase procede à produção de uma vida pessoal que subsiste o ato puro de sua natureza: é a Trindade. Seu ser efusivo tende a exteriorizar-se livremente em duas formas. Primeiro, ‘naturalmente’, produzindo coisas diferentes dela: a criação. Depois, ’sobrenaturalmente’, deificando sua criação inteira mediante uma Encarnação pessoal em Cristo e uma comunicação santificadora no homem pela graça. Por essa deificação, que afeta de algum modo à criação inteira, essa volta a associar-se à vida íntima de Deus, mas de modo diverso: em Cristo, por uma verdadeira circumincessão da natureza humana na divina; no homem, por uma posse extrínseca, mas real, de Deus; nos elementos visíveis por uma transfiguração gloriosa” (id. 525-6). (in Xavier Zubiri. Natureza, História, Deus. É Realizações, São Paulo, 2010)

A modo de conclusão sempre aberta.

Selecionamos para o leitor alguns pensamentos de X. Zubiri da primeira obra Natureza, História, Deus. São pensamentos de um intelectual de filosofia que ainda não constituem uma forma ou sistema de pensar, mas já percebemos claramente nela essa pretensão ousada dentro da situação atual do saber e da sociedade.

 Podemos aplicar a Zubiri na época que escreveu, o que ele nos falou de Pascal: “Por isso, mais que uma filosofia pronta, há em Pascal justamente o que seu título indica: pensamentos filosóficos que ainda não chegaram a ser filosofia. Mas, isto sim, enquanto pensamentos, os de Pascal são, como poucos, gigantescos esforços por receber original e indeformada, diante de sua mente, a realidade do mundo e da vida” (id. 170). Reparemos que Zubiri destaca para aprender e fazer filosofia que tenhamos sempre presente o mundo e a vida. Não entende essa separação do intelectual do que se passa na vida e mundo da humanidade e  do que seja o universo. Ele já tinha claro, estudado e consciente, naquele momento, que o saber filosófico viva um dualismo intelectual e, portanto na sociedade. Era fruto da forma final da  modernidade que separou conceitualmente o pensar e a realidade.

Penso, que isto, é o que nos revelou a esquadrinhar melhor a obra que estamos apresentando e estudando com a ocasião do surpreendente Prólogo a educação inglesa, já na maturidade de seus 80 anos.  Nesses textos, parece que ele estava falando de seus próprios esforços de lutar contra os gigantes da filosofia e não teve medo. Nos textos da obra, como selecionamos para o leitor, vemos Zubiri já dialogando com esses gritantes do pensamento, e sem medo  reprimido e com firmeza clara, de contrariá-los das suas elaborações, tanto nos passos que deram como nos seus objetivos ou motivos, para legar-nos tamanhas elaborações.

É diferente Zubiri, quando fala do envolvimento de Hegel, “quando publica a Fenomenologia do Espírito em 1807. A publicação do livro, diz Zubiri,  significa uma profunda crise para a pessoa de Hegel e para sua época” (id. 175). Concretamente dento “da crise da filosofia da identidade, um apelo irracional ao Absoluto, onde toda diferencia  se desvanece”, que ele ensinava,  e “uma profunda crise se produz em sua inteligência”. De tal forma que na Fenomenologia do Espírito, “palpita uma emoção intelectual e uma veemência que já não voltarão a se encontrar em nenhum outro escrito de Hegel. Sob sua roupagem abstrata e abstrusa, a Fenomenologia do Espírito é, na verdade, a confissão intelectual da crise de sua inteligência. Hegel a chama de experiência, e experiência da consciência” (id. 175).

Assim, Zubiri interpreta a situação desse momento de Hegel, mas conclui: “A Fenomenologia foi e é o despertar para a filosofia. A filosofia mesma, a efervescência intelectual de sua existência como manifestação do que ele chama de espírito absoluto. O humano de Hegel, tão calado e alheio ao filosofar, por um lado, adquire, por outro, caráter filosófico ao elevar-se à suprema publicidade do concebido. É, reciprocamente, o pensar concipiente apreende no indivíduo que foi Hegel com a força que lhe confere a essência absoluta do espírito e o sedimento intelectual da história inteira. Por isso Hegel, é em certo sentido, a maturidade da Europa”.

Pois bem, dentro desta crítica sútil ao estranho e rico envolvimento de Hegel, como humano e como filósofo do absoluto, Zubiri reconhece: “Seja qual for nossa posição última com respeito a ele, toda iniciação atual à filosofia deve consistir, em boa parte, numa “experiência”, numa inquisição, da situação em que Hegel nos deixou instalados” (id. 177).

Não há dúvida que Zubiri se convence e se apega totalmente a Pascal. Embora, o avalie sente nele um palpitar filosófico diferente: “Em Pascal  se assiste, em parte, a um dos poucos ensaios levados a efeito por apreender conceitos filosóficos adequados a algumas das mais importantes dimensões do homem.  Por exemplo, seu conceito, tão vago, é verdade, e, portanto mal entendido e mal usado, de ‘coração’. Não significa o cego sentimento em oposição à pura razão cartesiana, mas o conhecimento constitutivo do ser cotidiano e radical do homem” (id. 170).

Assim que devemos entender os textos aparentemente soltos para filosofar em público de Natureza, História, Deus. Todos eles rebassam, e o vimos nos pensamentos que escolhemos, esse “pensar profundo” para atingir melhor “o conhecimento constitutivo do ser cotidiano e radical do homem”. Zubiri não explicita um sistema filosófico, que o fará mais farde, mas partindo do real, e o revela espontaneamente em peças fundamentais de seu pensamento que delas surgirão as elaborações mais acuradas, coerentes e suficientes, sempre partindo no centro de sua busca a realidade humana, o homem concreto de todos nós.

Finalizamos com palavras de Zubiri sobre Pascal: “Tudo menos um cartesiano cálculo de probabilidades. Como  no caso de tantos outros, percebe-se em Pascal a inadequação entre o que quer dizer e aquilo com que tem de expressar-se: a inadequação entre o pensamento pessoal e o mundo em que se acha inscrito. E isso, com que um pensador tem de expressar-se e até dizer a si mesmo o que pensar, não são somente os vocábulos, mas também o elenco de conceitos que seu mundo lhe oferece, e nos quais tem de apoiar seu pensamento para levar a inteligência própria e de seus leitores para ‘o quer dizer’” (id. 171-2).

Agora desde nossa situação atual, já que temos estudado a trilogia madura de Zubiri, poderemos sentir em Natureza, História, Deus a coerência firme dela para nós diante do impasse despertado pela sua leitura. Concordamos e gostaríamos de aplicar para essa  nossa situação intelectual o que Diego Gracia fala na Presentación da obra Sentimento y Volición em 1992:

“Este princípio heurístico exige um especial esforço por parte do leitor. Supõe, em primeiro lugar, que ele deve ter lido e ter dominado o conteúdo de Inteligência Sentiente. E supõe, também, que, ao ler esses cursos (textos) deve ir recreando seu conteúdo desde as categorias daquela obra. É óbvio que o pensamento vertido neles não está a altura da trilogia, e que é  o leitor quem tem de fazer o esforço de elevá-los a esse nível. Isto exige, certamente, um enorme esforço, mas que será recompensado com fecundíssimos descobrimentos (SS 13). 

Resumamos o desafio de Gracia: para entender mais os textos de NHD agora, devemos entender que as faíscas que nos surgem da leitura de Natureza, História, Deus são a partir da coerência e firmeza da leitura apreendida da obra máxima da Inteligência senciente.  E é porque sintonizamos como os conteúdos dessa leitura que s complementam. Gracia o indica, e nós o repetiremos muitas vezes, que a leitura desses “textos soltos”, que compõem Natureza, História, Deus nos despertam e nos levam a recriar os problemas levantados segundo a Inteligência senciente. E finalmente, para não ficar com medo nunca desse caminho a percorrer, seremos os primeiros beneficiados recompensados com fecundíssimos descobrimentos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Esta foi a situação de Zubiri em Natureza, História, Deus, que vemos tem ainda a ver conosco ajudando-nos em nossa situação do século XXI, buscando conceitos que nos levem à realidade, que não podem ser mais fruto da mente absoluta, mas da realidade concreta da experiência do ser humano. E como temos escutado num vídeo de brasileiros, que fazemos nosso: “não só da natureza vive o homem”, ou então, “todos abrimos os olhos para acordar” E, nós falamos depois de estudar e reler Zubiri: somente podemos viver e escolher os conceitos profícuos que sejam da realidade, “da experiência humana feita conceitos” benfeitores para o homem e o mundo.

Rios voadores do pensamento de Zubiri no Brasil

*Por José Fernández Tejada

Parte I – A experiência da filosofia do real no pensamento brasileiro

Introdução – Um momento histórico

O pensamento brasileiro recebeu, felizmente, nos anos de 2010-2012, no meio de outros livros e textos filosóficos, um “presente real” e “irreversível” com a tradução cuidadosa de três obras que marcaram a inédita e extemporânea filosofia de Xavier Zubiri (1898-1983): “Natureza, História, Deus” (em 2010), “Cinco lições de Filosofia” (em 2012) e “A Trilogia Senciente” (em 2011), pela Editora É Realizações.

Um sonho e uma necessidade que se estava realizando. Abria-se para nós brasileiros uma ponte “suficiente” para caminhar no horizonte da realidade, filosofando sobre a radicalidade das coisas, incluindo o saber e viver humanos. Era o fruto filosófico do legado da fenomenologia: a volta às coisas, desde as coisas, que a Zubiri o levou à fonte dos gregos, e desde as coisas mesmas. Outros países iniciaram o maravilhamento zubiriano de formas e tempos diferentes, sintonizando com a realidade antes do ser. Ele, assim, nos abria, ou melhor, nos devolvia dentro do horizonte da realidade do qual nunca devíamos ter saído. Começamos a navegar mais firmes com ele.

Assim, todos, fomos cativados para um filosofar “de precisão conceitual e rigor formal” diferente. Zubiri nos espanta e nos atrai pelos seus conhecimentos, questionamentos, análises, sutilezas linguísticas e neologismos, levando-nos como que “forçada e teimosamente” sempre, por todos os mares da filosofia. E isto, apesar da dureza e da linguagem, quase incompreensíveis, como falaram e condenaram os que não tentam entender sua proposta. Mas Zubiri, é um intelectual diferente, um filósofo em ação sem dar-se importância ao que possam falar de suas exposições e de seus passos de tartaruga. Ele mesmo fica descontente com seus avanços e os submete a novos esforços e análises. Seu pensar surgia para nós dif&iacu te;cil e estranho, porque nunca tínhamos ouvido tal clareza e ousadia, mas honesto, coerente e consistente e sempre aberto, porque a inteligência é sentir o real, e não reduzida ao raciocinar e especular e outras boas invenções. Assim, o questionamos. Felizmente, nos deparamos com uma “teoria da experiência do real” e, não com as cansativas e insistentes teorias puramente racionalistas, que tendem a confundir e que nos impõem suas realidades, como “entes” e “resíduos” (hoje corrupções por todos os lados e os fake news e outras criações camaleônicas, mais perversas), pois não somos radicalmente animais racionais. Nem objetos e nem sujeitos. Nunca o seremos! Como falou o juiz André Nicolit em 2020 ao produzir o habeas corpus sobre o músico de Niterói: “o melhor da política, da economia, do socia l” e de “um processo são as pessoas por dentro”.

Essas obras traduzidas de Zubiri são o início crítico, incoativo e inspirador, a matriz da experiência do diálogo filosófico que ele vivia e o final generoso de seu amadurecimento ímpar, irregular e extemporâneo. Embora, sua vida intelectual despontou prematura, esses livros foram elaborados em idade madura com muita intensidade científica e filosófica, inspiração própria e sem pressas das urgências históricas e intelectuais do século XX. Sua maturidade filosófica saiu dos padrões, tanto do ápice da normalidade, como pela duração até sua morte. Os intelectuais, e também os filósofos estudados por ele, pararam geralmente de amadurecer nos padrões, aceitos em geral (com mais ou menos 40 anos), no início da segunda metade d o século XX, ou corrigiam meio confusos suas inspirações voltando atraidos pela base das coisas (nos meandros da objetividade da consciência) ou ao esquecimento.

A primeira obra, ele publicou com quarenta e dois anos de idade, a segunda com sessenta e três anos e a terceira com mais de oitenta anos. Zubiri não se media pelas pressas e vaidades, embora ávido do saber, nem no seu afazer filosófico, mas sempre expunha sua vida e a dos outros para pensar. Foi dando passos pequenos, entretanto firmes, como o reconhece, repetidamente em Sobre la esencia, ao se referir aos cursos, que ele deu como liberdade e sobrevivência fora da academia inóspita espanhola daquele tempo, como algo que estava alicerçando. Seu amadurecimento foi fruto da atitude filosófica de passo de tartaruga, como exige esta tarefa.

Podemos apreciar e valorizar, que ele ficou ativo e amadurecendo quase todo o século XX, entre os anos 1916 (início do curso de filosofia até a tese doutoral: Ensayo de una teoria Fenomenológica del Juicio,1921 e já doutor em Teologia) até 1983. Foi nesses inícios de estudo que teve a inspiração radical. E quando da sua morte, estava revisando El Hombre y Dios e La génesis humana. Por tanto, enfrentou todos os avanços humanos e tecnológicos, anteviu as bases para outros, como também se deparou com as mentiras políticas e imposturas intelectuais e as crueldades produzidas. Nos estava tirando do mundo representacional para o horizonte da presentacional. Suas últimas preocupações filosóficas após escrever a Trilogia da Inteligência Sencie nte foram sobre o embrião humano e sobre as partículas elementares para continuar dando conta de seu único problema: o ser humano como pessoa, “animal de realidades”, como “ser individual, social e histórico”. Este tema central no seu pensamento, o obrigou desde jovem a questionar os problemas filosóficos de outra forma e fundamentos, que formulou: o real é antes do ser. Ficar rebuscando os conceitos de pessoa, herdados de puras teorias não mudavam nada dela. Um novo passo era necessário.

Também, encontramos em Zubiri um ser humano igual a nós. A sua vida não foi fácil, mas deixou sua casa cheia de livros e muitos livros, onde se sentia mais inspirado, transformada depois de sua morte em Fundación Xavier Zubiri (Rua Nuñez de Balboa, 90 5º Madrid. 28 006. Tel. 91-431 5418. fzubiri@zubiri.net). E não teve uma vida fácil, desde o diagnóstico de não sobrevivência feito pelo médico que assistiu ao seu nascimento. Foi diagnosticado de jovem que ficaria cego se continuasse estudando tanto. Atravessou a “gripe espanhola”. Sofreu até quase os cinquenta anos de dores no estomago e de enxaqueca. O consultou com médicos especialistas e nada detectaram. Saiu do consultório de um especialista na Alemanha, porque só se interessava apoiar sua pesquisa. Foi muito dolorosa sua redução ao estado laico, pois se tinha ordenado sacerdote. Foi lisonjeado e finalmente vigiado pelo regime militar da guerra espanhola. Casou-se com a filha do historiador Américo de Castro, reconhecido republicano atuante. (É bom lembrar, que este historiador e humanista espanhol, de fama mundial, nasceu na cidade de Cantagalo no Rio de Janeiro em 1885, onde é lembrado. Teve amizade com Gilberto Freire e voltou a Cantagalo a convite da UFRJ em 1946). Zubiri demitiu-se de sua cátedra de História da Filosofia por causa de que não tinha a liberdade de pensar dentro “daquela academia espanhola”. Durante muitos anos teve dificuldades do seu sustento. Mas, captou e foi reconhecido por um grupo de amigos que sempre estiveram ao seu lado, que o motivaram em tudo, e em parte por eles começou a dar os famosos cursos, também para seu sustento. Era feliz com a amizade dos amigos em algum jantar após os cursos e, também, gostava de assistir aos touros. Mas ele nunca deixou de fazer filosofia à “altura dos tempos” e “pensar nas coisas que davam que pensar”. Teve diverticulite e faleceu de câncer, como muitos, depois de várias operações aos 84 anos em plena consciência, criatividade e amadurecimento filosófico. Enterrado por vontade própria na sepultura do sogro republicano no cemitério civil.

Sua esposa e amigos, que o conheciam muito bem, pediram no enterro “uma oração pelo eterno descanso de sua pessoa”, e não aceitaram que se rezasse por sua alma, porque, a vida toda Zubiri lutou contra esse dualismo, que rompia a vida pessoal e social em todas as formas, e ofereceu sua proposta, simples e ousada, para tão perversa dicotomia da alma e do corpo. A pessoa, sua grande e única preocupação, é uma realidade (de nenhuma maneira ente, “somente no homem –e isso por sua inteligência- assistimos à constituição plenária e formal de uma estrita substantividade individual: é a ‘inteligização’ da animalidade” (SE 1985, p. 173), [1] que sente o real, e é moral por estrutura, porque deve realizar-se por apropriação suas melhores possibilidades. Zubiri não acreditava mais nessa teoria dualista, que inoculou milenarmente toda espécie de cultura humana. A pessoa é “animal de realidades”.

No ser humano, como todos sentimos, não há uma estrutura do corpo separada da outra estrutura do espírito, unidas somatória e copulativamente à capricho, para depois formar o homem, como se uma delas falasse mais alto quando a outra se cala, como que se revezando a capricho. Somos uma realidade pessoal e, por isso, podemos ter consciência. Como podemos mudar ao nosso capricho essa realidade, só se for com o interruptor dos conceitos, para ter uma ideia nova do homem? Porém, a pessoa humana é algo mais que uniões vitamínicas, biológicas, cerebrais, mecânicas, cromosômas, ligações sinâpsiais na neurociência e algorítmicas em todas as formas digitais. No entanto, o fato é que o ser humano é um processo de “hiperformalização” aberto de milhões de anos. O homem é um animal, mas não somente animal, também pode parecer uma máquina, mas é um ser vivo hiperformalizado, raro que somos todos. As duas partes, no homem, é uma estrutura inseparável e única: constituem o homem como animal de realidades. O poder do real dando de si nos deu essa hiperformalização estruturada de inteligência senciente. Quem somos nós para romper a dinâmica dessa estrutura real?

Por que a filosofia e a ciência, também as diversas culturas e a religiões (não somente ocidental, mas oriental, repetindo Zubiri, “com signos contrários”), se perderam dualisticamente nesses esforços de esclarecer e viver esta experiência radical do problema? Como os primeiros esboços da realidade humana, na mais diversidade de mitos em todas as culturas, escolheram as “formas instinto-racionais separadas” até as mais cruéis, denegrindo e dilacerando o sentir humano e com isso a realização do ser pessoal? O homem é uma realidade partida e limitada? Que limites ela tem? Só é um animal mal acabado? E onde está o humano? Não é isso que acontece até hoje? Sentimos que somos uma única realidade (além do acontecer), “paira para o homem o problema do que &e acute;” (NHD. 129), mas a dicotomizamos, ora submetendo o corpo ao espírito e vice-versa, não como resposta de nossa liberdade humana, mas a contento dos interesses e caprichos criados por uma “razão pura” e, por isso, autônomo-absoluta-determinista.

A proposta filosófica de Zubiri foi entendida inicialmente como escolástica, existencialista e “conservadora”, frente às mudanças ou modas progressistas e cientificistas, entretanto supera, com bastante rigor, suficiência e coerência, os fundamentos do realismo clássico e do idealismo moderno, como as tentativas de mudanças da modernidade, também pela fenomenologia e até de Heidegger, incluindo a inteligência animal e artificial, teimosamente alicerçadas nos ardiles da consciência. Também do marxismo. Zubiri considerou como insuficientes, e não radicais, as bases que justificavam esses dualismos, que defendem ainda como válidos, para algumas formas escamoteáveis da contemporaneidade.

As ciências em mudança crítica foram seus dialogantes e aceitou o “apelo” comum de mudar com elas, partindo da experiência e não dos conceitos. Seus estudos na Alemanha, como na Itália e França com filósofos e cientistas, também, praticado com os pares espanhóis tiveram essa preocupação. Assim, como questionou a filosofia clássica e moderna, também a estendeu ao marxismo (idealismo com signo contrário, é expressão de Zubiri), à psicologia, à psico-análise, às fenomelonogías, ao existencialismo, ao realismo crítico, ao neotomismo, ao positivismo e aos esforços da escola de Frankfurt, ao estruturalismo e à filosofia hermenêutica e analítica. Embora, em todas elas podemos reconhecer motivos e questões importantes. Mas, como ele repetia, “esqueceram, de fazer a última pergunta”: que é “o ser”, que englobava e, como que, a caixa preta de todos esses esforços tentados. Ficavam presos às substantivações do “espaço, tempo, consciência e ser”. Porque, “a filosofia vinha sendo uma mistura de positivismo, historicismo e pragmatismo apoiada em última instância na ciência psicológica, um apoio que se expressou como teoria do conhecimento” (NHD 27).

Queremos enfatizar que estas obras traduzidas ao nosso português, do pensamento de Zubiri, foram muito bem escolhidas e sua edição rigorosa e primorosa. Parabenizamos ao tradutor Carlos Nougué e ao editor Edson M. de Oliveira Filho. O mesmo aconteceu, também, com as obras que constam no Projeto X. Zubiri da editora É Realizações, idealizado por Felipe Cherubin. Várias delas, segundo nos consta, também traduzidas por Nougué à espera apropriada para publicação. Elas contribuirão para a descoberta da originalidade e atualidade, que o pensamento de Zubiri tem a nos oferecer neste século XXI no Brasil, no meio das mais contraditórias possibilidades do acontecer histórico global. Nosso pensamento e língua ficaram enriquecidos. Vamos continuar.

Nestas obras traduzidas temos as bases desafiadoras, críticas e sua inspiração. Temos seu talante filosófico e os caminhos maduros do sentir inteligente. Caminho instigador para as necessárias aplicações.

Rios voadores do pensamento de Zubiri no Brasil – (continuação)

Por José Fernández Tejada

Parte I – A experiência da filosofia do real no pensamento brasileiro

Introdução – Um momento histórico (continuação)

Zubiri escreveu a primeira obra Natureza, História, Deus (NHD), nela “recolheu uma série de estudos publicados em diversos momentos compreendidos entre os anos 1932-1944”. Nesses textos manifestava o domínio e reflexão radical da temática milenar humana (a ciência, o homem e sua história e a religião) de autores mais importantes de toda a filosofia, mas também sua crítica (“saber não é raciocinar nem especular”) e se posicionando para adentrar-se no caminho vivo (“saber é ater-se modestamente à realidade das coisas”, NHD 82). Esta foi sua primeira formulação diante do dilema que se deparava: “Necessitamos saber se a filosofia e o ser do homem vão nutrir-se, em última instância, do que ‘acontece no mundo’ ou do que as coisas e o homem ‘são na realidade’” (id. 129). E conclui: “A verdade é que nisso está envolto o destino inteiro da filosofia e do ser do homem” (id. ib.). Zubiri enfrentou de forma nova sem amadurecer os principais temas humanos: natureza (ciência), história (do homem) e de Deus (religação, não na esteira do ente).

Da esquerda para a direita: foto da primeira tradução para o português de Natureza, História, Deus pela Editora É Realizações, em 2010, e cópia do livro original em espanhol.

Esta inspiração zubiriana estava em uníssono com a “exigência da evolução mesma da ciência que começou com Einstein e tem chegado aqui ao seu grau máximo: a subordinação da teoria à experiência” (id. 321). Naquela ocasião, nem o mesmo filósofo sabia onde ia chegar. Caminhou a passo de tartaruga buscando a radicalidade do real no meio de formulações problemáticas em vigor, sabendo que esse era o verdadeiro problema humano. Intrigou a muitos por isso: estava detrás das coisas que realmente o faziam pensar para refundamentar os problemas da metafísica, ou filosofia primeira, e consequentemente das filosofias segundas. Os labirintos inventados destas provinham da insuficiência dos fundamentos. E daí os caminhos concipientes, como “angustiante coeficiente de provisionalidade que ameaça dissolver a vida contemporânea” (NHD 67). Era necessário “a restauração da vida intelectual”. Por isso, ao ler NHD por motivos diversos, como nós, descobrimos que algo novo e concreto estava oferecendo e desenhando: um caminho vivo de pensar. Pelo menos, uma nova forma de “estudar” filosofia, de reaprender o que se nos tinha ensinado mal, não de pura aprendizagem e erudição para fazer trabalhos e teses. Nós encantamos com os rasgos do caminho indicado e insólito, porque era um convite a pensar por nós mesmos e ir despindo-se do que tínhamos mal aprendido nos cursos de Filosofia, de Ciências e de Religião. Por isso, todos os que deparam com Zubiri, nós sentimos maravilhados e dispostos a aprofundar tais pensamentos. Nem Zubiri naquele tempo, e nem nós, sabíamos aonde chegaríamos. Estávamos a caminho de um novo pensar filosófico e da vida de gente real, e teimamos em continuar neles.

Zubiri estava levantando outras coordenadas para navegar e outros fundamentos para filosofar. Um horizonte diferente estava se abrindo – o do real congênere com a inteligência – (problema que deu conta superando o desafio da modernidade de imbricar o pensamento e a realidade) e nele encontramos nosso lugar. Até hoje, NHD é a obra que mais edições (13) e traduções (inglês, francês, alemão, russo, italiano e português) foram feitas. A melhor obra a ser relida para se adentrar paulatinamente nos choques intelectuais que provocam sua obra madura, e daí pular para a abertura dos “abismos do ser”. Esta obra não é um ensaio agitador, mesmo do modelo criativo do mestre Ortega, embora reflita sua influência. Transmitia um estilo e forma de pensar diferente, não somente das filosofias clássicas e modernas, mas do próprio “maestro” Ortega e das fenomenologias. Ele é o radical e demorado enfrentamento com os verdadeiros problemas da época, que precisava de novos fundamentos. Estava aplicando incoativamente as bases da inteligência senciente e da filosofia do real. Por isso, despertou muito ânimo, mas houve muitos mal-entendidos, que não desanimaram Zubiri, mas desajudou a muitos, criando falsas expectativas.

Nesta obra, podemos apreciar que o caminho escolhido por Zubiri não será de ensaios de agrados e de levantar fáceis adeptos. Zubiri reconhece que “os estudos filosóficos de nossa pátria” estão prestes, até pela própria essência da filosofia, a desvanecer-se em vagas ‘profundidades’ nebulosas” (id. 161). Pois “a riqueza e precisão infinitesimal do vocabulário escolástico constitui um dos tesouros que é mais urgente pôr em rápida circulação”. E isso porque “grande parte desse tesouro passou para o idioma nacional”, que não pode negar que ficou enriquecido com “essenciais dimensões semânticas”, e que Zubiri foi recuperando seguindo a Suárez. Por isso, “já é aqui sabido que as Disputationes de Suárez serviram de texto oficial de filosofia em quase todas as universidades alemãs no século XVII e em grande parte do século XVIII” até Leibniz. Zubiri resgatará a metafísica, nas andanças de Suárez, que “desde Aristóteles, (é) a primeira tentativa de fazer da metafísica um corpo de doutrina filosófica independente” (id. 162).

Assim, NHD foi um passo decisivo para Zubiri e para todos nós que o estudamos, entretanto era o ponto de partida com enigmas a resolver. Assim, não foi bem compreendido por soar a escolasticismos. Também, na época as interpretações foram entusiasmadas por ressoar existencialismos ou heideggerianismos, que era o que, euforicamente, se aceitava e se consumia na academia e fora dela. Os problemas da guerra civil pararam e pioraram tal entendimento e discussões levantadas. Mas, ficava claro nesta obra que Zubiri não tinha como propósito nacional “europeizar” Espanha. Mas radicalizar o afazer filosófico. A enfatização do tema El problema de Dios, pela religiosidade especial de Espanha e Latino américa, criada pela contrarreforma, prejudicou o estudo das outras partes ou temas da obra. Isto nos parece que continua acontecendo. Por que, embora Zubiri tratasse deste tema propositalmente, mas ele no contexto de toda obra o faz desde sua nova inspiração e caminho senciente. Porque, em NHD nós convida abrir-nos a um novo horizonte de pensar, que não era restrito às fronteiras de escolas filosóficas, religiosas e geográficas. Porém, nem todos os leitores entenderam e aceitaram NHD, como desafio a realizar a abrangência e força da inspiração da semente plantada: o real é antes do ser, onde toda a experiência humana receberia sua vitalidade própria: cultura, religião, ciência, filosofia história, sociedade. O título sucinto do livro abrangia toda essa temática. E as suas palavras refletiam a inspiração de algo real e concreto: um caminho novo a abrir, o sentir humano, que ele chamou de “via viva”: “sua fórmula intelectual é justamente o problema da filosofia contemporânea” (id. 67).

Depois de NHD Zubiri mergulhará buscando o andamento de suas inspirações no espaço livre dos cursos orais, que agora estão quase todos publicados. Estes cursos se tivessem sido publicados na ocasião, teriam ajudado ao crescimento nas inquietações junto com Zubiri. Mas Zubiri sempre quis aperfeiçoar mais e mais suas buscas. Entretanto, muitos de seus frequentadores ficaram marcados fragmentariamente para sempre, ou ajudaram a continuar seus caminhos ou foram crescendo com as construções momentâneas e até o desafiaram a escrever e pôr no papel os passos do amadurecimento contínuo do mestre. Temos exemplos biográficos e bibliográficos importantes das duas opções.

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Após o divisor de águas –como giro metafísico- de Sobre la esencia, em 1962, Zubiri ministrou o curso, Cinco Lições de Filosofia com um novo curso inédito (CLF), não para relaxar ou baixar o tom de seu desafio crítico de partir do real, apesar do valor especial de ter “certo caráter expositivo exemplar”. Era seu teor e talante de filosofar em tantos cursos ministrados (hoje são mais três volumes), que tiveram mais frutos que os conhecidos. E assim seguiria. Com isso cativou a muitos filósofos, médicos, psicólogos e psiquiatras, poetas, teólogos e cientistas e até toureiros, que frequentaram seus cursos e, também, se tornaram amigos. Entretanto, CLF foi o único curso que fez questão de publicar e o fez imediatamente no mesmo ano de 1963. Essas lições de filosofia, não são apenas aulas brilhantes sobre a História da Filosofia. Ele quis esclarecer e passar sua experiência de como buscar o saber filosófico, e o fez através de um grupo de grandes filósofos que ele escolhe, podiam ter sido outros. Os estudava, procurava seus motivos e suas propostas, mas também os submetia à crítica severa para provocar, não somente as divergências.

O texto, por meio dos filósofos abordados, é um exemplo da força de seu pensamento na busca de um saber radical acerca da realidade em cada momento histórico, o que nos leva ao próprio âmago do modo de ser e viver a filosofia: seu eterno conflito. Por isso, mais parece uma ponte aberta, simples e imponente a atravessar, entre o modo de fazer e viver a filosofia e a elaboração formal de sua obra. Seu filosofar é um diálogo diferente, sem medo, não pura erudição, mas para apresentar e contrastar seus motivos, pesquisas e iniciantes elaborações a partir do ainda incógnito fundamento do real. Esta obra é parte e exercício de sua herança a ampliar.

Naquele tempo cativou muitos os leitores, principalmente jovens estudantes de filosofia de toda Espanha, e continua nos cativando. Até a editora Alianza o está publicando, também há mais de quarenta anos, em formato de coleção popular de “el libro de bolsillo”, tão usado na Espanha para difundir de forma mais barata livros importantes pela sua didática e pelos seus conteúdos. Zubiri passa para todos que estudar filosofia dessa forma já é fazer filosofia, porque nos mergulha positivamente no conflito constante da marcha da filosofia dentro de nós mesmos e com os outros. A filosofia é uma ponte arriscada para transitar detrás do espanto pelo real e não para admirá-la ficando parados nela e pasmos pelo que ela é e a vista que oferece. A filosofia é o conflito dos homens buscando o real para eles. Temos que atravessar essa ponte, ou mergulhar, com os riscos necessários e chegar do outro lado.

A terceira obra traduzida ao português, a Trilogia da Inteligência Senciente (IS): Inteligência e Realidade (IRE), Inteligência e Logos (IL) e Inteligência e Razão (IRA), Zubiri a escreveu entre 1980-1983. A sua clareza de análises nos empolga, mas pode confundir, como o turista, que gosta de visitar os campos na hora de colher frutos maduros, mas não se envolve no necessário e trabalhoso esforço de preparar a terra, as sementes e seu crescimento. Nesta obra ele chegou ao máximo amadurecimento e criatividade filosófica. Ele ficou feliz, também, seus discípulos do Seminário de Investigação e todos os que o estudamos por tal ousadia. Com mais de 80 anos, Zubiri pretendia escrever só um livro (só fez um prólogo) sobre A inteligência senciente, e escreveu três sem descanso, a Trilogia senciente para descrever o ato de inteligir e o lugar do logos e da razão. Porque como nos relembra Diego Gracia, o primeiro livro exigia que Zubiri nos deixasse claro nos outros o lugar do logos e da razão para “reificar” “o ser”, diante do estrago milenar da logificação da inteligência entificando o real. Ainda muito lúcido e muito criativo, nos ofereceu sua obra máxima dando-nos conta concreta da congeneridade do real e da inteligência nos seus mínimos detalhes. A realidade como formalidade em próprio, com o desdobramento radical da impressão e apreensão da realidade, é o eixo central da obra. A impressão de realidade, o elo radical perdido pela via concipiente, é seu triunfo. A substantividade das coisas, a estrutura do real são o primordial, porque a inteligência apreende o real e, por tanto, o radical é a impressão de realidade, e não os conceitos. A inteligência não é radicalmente representacional, mas apresentacional.

A terceira obra traduzida ao português, a Trilogia da Inteligência Senciente (IS): Inteligência e Realidade (IRE), Inteligência e Logos (IL) e Inteligência e Razão (IRA), Zubiri a escreveu entre 1980-1983.

Assim, a inteligência primordialmente é sentir o real. Suas análises minuciosas do fato da intelecção surpreenderam a todos e o continuam a surpreender, também às ciências humanas, que demoram a se abrir, para podermos dar os primeiros passos na via viva do sentir inteligente. E isso, não como adendo ou valor anexado conceitual. E, ainda, escorregamos sempre na nebulosa da consciência, como caixa milagrosa, ou interruptor mágico, como explicação para os dualismos. No fundo fugimos de toda responsabilidade. É o que hoje vemos com as modas intelectuais de consumo em muitas áreas, não realmente contemporâneas, no desafio das inteligências múltiplas, da inteligência e escolas emocionais e da própria neurociência e seus subprodutos. Como também nas áreas psicológicas e psiquiatras. Ela, a consciência, faria a ponte e união. Porém, o logos e a razão também são modos da inteligência primordialmente sencientes e por isso não começam nos conceitos, mas devem ser sencientes dando muito trabalho. E se são sencientes o sentir, a impressão, a afecção, os afetos, os sentimentos, o amor, a empatia… São reais e não adendos inventados à nossa mercê, mas são constitutivos da realidade humana, e é deles e que somos “obrigados” a pensar e viver.

A consciência não é um maravilhoso receptáculo, onde as coisas tomam forma, mas “sua autonomia de atos conscientes ou inconscientes” surge na inteligência que sente as coisas. Só existem atos conscientes ou inconscientes do fato real do ato senciente da inteligência. Na trilogia senciente, elaborará com surpresa essa resposta, que ele iniciou em NHD de como o homem sente as coisas e se sente: “como em todo sentir, portanto, no sentir da mente se ‘con-sente’ o homem; junto à ‘ciência’ das coisas que o sentir dá, temos uma ‘consciência’ do homem” (NHD 91). Outro problema que irá desatar com agradáveis e gravíssimas consequências, é que o conhecimento é fruto da inteligência e não como base do pensar. Esta constatação zubiriana põe em xeque todas nossas teorias e “manias” (filosóficas ou não) da preponderância do conhecimento. Hoje em dia no domínio dos conhecimentos se apoiam todos os esforços da sociedade. Não podemos ter uma sociedade humana apoiada somente em conhecimentos.

Por tanto, o desafio de Zubiri pode ser resumido: o que é a inteligência na realização do homem? Sua inteligência não pode ser concipiente, a realidade não é ente e o homem não primariamente animal racional. Sempre apelará a essa realização, mesmo na sua máxima maturidade, como nas últimas revisões sobre La génesis de la realidad humana (1983) como desafio radical. Encontramos nessa obra expressões claras da atualidade de suas reflexões, porque ao escrever Inteligência Senciente teve presente, e cita expressamente, logo nas primeiras indagações (IRE 57) a problemática atual da “inteligência artificial” (“mecanismo eletrônico”) junto com a da “inteligência animal” (do início do século XX) frente ao verdadeiro problema da inteligência humana. Elas “são impressões de conteúdo, mas não impressão de realidade”, “por isso não são inteligência”. Hoje, podemos falar o mesmo aplicado, condenando a enxurrada das “inteligências emocionais” e derivados, que se apoiam nos sentimentos, afetos ou emoções, como “dádivas dos inventores da roda”. Eles desconsideram que eles são assim, é porque surgem e tem seu sentido no “sentir” dos sentidos do homem, que todos somos e devemos usufruir, do contrário não são inteligência senciente, continuamos entes. Este é problema confuso que devemos destrinchar, com honestidade e rigor, no meio de tantos avanços científicos, às vezes duvidosos, e tantas tecnologias boas e ruins. Haja, visto hoje os cuidados e temores de uma vacina segura para o Covid.

Para Zubiri então, não adianta dar voltas usando a inteligência com alguma qualidade de afecção (paixões ou afetos e empatias…). São “todas, inteligências sensíveis” (“impressões de conteúdo”), e não sencientes como intelecção no sentir. “O homem é animal de realidades”. O homem é uma inteligência senciente, um sentimento afetante e uma vontade volente.

A maturidade “tardia” desta obra ocorreu depois de um longo caminho de pensar nas coisas, que davam que pensar. Cada passo, de tartaruga de seu caminhar, como ele diz, foram grandes esforços que apoiaram os seguintes. Os cursos orais, que são muitos, mostram isso, foram sua oficina e fornalha “penosíssima” desse pensar. Coincidentemente, em 24 de fevereiro de 2020 recebemos com surpresa, porque já tinham sido publicados vários cursos (3 volumes), a notícia de que a Fundação de Madri com Alianza Editorial havia publicado o primeiro curso extra universitário (com mais de trinta aulas) Ciencia y Realidad (1945-1946) superando as 800 páginas. É o início trabalhoso da etapa madura da metafísica, vinculando filosofia e ciências. Sobre la esencia (com os cursos publicados Sobre la realidad e Estructura dinâmica de la realidad) seu giro metafísico definitivo. Dessa forma A trilogia Senciente é o fruto estruturado, a luz que relumina, embeleze e dinamiza todo o edifício filosófico construído sobre “o real antes do ser”. A melhor possibilidade aberta do horizonte do real.

Que quis falar Zubiri na expressão “pensar nas coisas que dão que pensar”, e por que a ela se remete com muita frequência e parece resumir o foco principal e alimentador de sua filosofia? Na trilogia senciente (IRA 20) responde, ao esclarecer que é atividade pensante. Certamente é uma atualização do real “do que é preciso fazer e dizer”, portanto o inteligir é já pensar em atividade. Assim, nos alerta: “não é que a vida me force a inteligir, senão que a inteligência, por ser intelecção senciente, é o que me força a viver pensando” (id. 26). O dado “na intelecção é dado-de e dado-para”. Não na forma da filosofia clássica e moderna. Assim “a linguagem corrente expressa esta intrínseca unidade com uma expressão, que não só é feliz, mas, considerada com estrito rigor formal, manifesta a estrutura unitária de duas formas de dado: as coisas dão que pensar. O real não somente se dá na intelecção, mas dá que pensar. Este “dar” é, pois, a unidade radical das duas formas de dado no real. E este dar que pensar é justamente inteligir em atividade” (id. 24). Por isso, nela nos inspiraremos, o faremos sempre e a repetiremos e nos agarraremos: Zubiri nos passou esse legado.

Desde cedo o filósofo se formulou como problema da inteligência: as coisas que dão que pensar. A ele se entregou. Buscou tal ousadia em outras culturas, ciências, filosofias e religiões. Descobriu que todas elas tinham fundamentos insuficientes. Sua crítica clara e honesta o levou a analisar e explicar com muitos detalhes a inteligência senciente ancorada no polo da filosofia do real. Mesmo, no tempo e âmbito de inspiração, sempre foi seu ponto de partida e de entendimento para analisar problemas e questioná-los: a inteligência no ser vivo é a única forma do homem dar conta de sua realidade, que tem que auto-possuir-se por apropriação. Sua formula inicial, que lhe ocupou toda sua longa vida, foi: ater-se modestamente à realidade das coisas, incluindo-se nelas.

Nesta busca e insistência, em esclarecer em que consiste para o homem real a atividade pensante, está o nó a analisar, redescobrir, criticar e dinamizar no pensamento ocidental e, também, no global. O filósofo nos descreverá muito bem até nos seus primeiros balbucios no processo “preponderante nos homens primitivos, e que constitui a base da mitologia” como “pensar fantástico”, que “tenha acreditado entender a realidade” (Sobre el Hombre, 655). Por quê? Esse novo modo de mirar as coisas não é apenas o caminho de experimentação da irrealidade. “Essa tolerância não depende já de minha fantasia, mas depende das coisas”. Isso não é problema de esquema estrutural, mas de força criadora da inteligência. Porque (id. 656), “voltando do orbe do irreal ao mundo do real, o homem vai adquirindo o sentido da realidade em que a razão consiste. Mas esse encontro com a realidade não depende da razão, senão primariamente da inteligência”.

Zubiri ainda insiste nessa dificuldade, e nova forma de entender a inteligência, quando se debruça com algo muito próximo à dinâmica dos mitos: quando discute a ideia de destinação presente na tragédia grega. O homem não é só agente e autor da vida, mas também “tem a sorte de representar e desempenhar… porque a figura da vida tem forçosamente uma linha de destinação” (id. 587). “A grandeza da tragédia grega está em que se seus personagens não são donos de sua vida, senão em que se possuem tragicamente, como atores da moira dos deuses. Daí a incompreensão de uma interpretação puramente psicanalítica da tragédia grega” (id. 588). Essas três dimensões (agente, autor e ator) foram insuficientemente desenvolvidos na história e da inteligência: como factum nos estoicos, no mundo israelita como destino expresso no profetismo. No cristianismo se desenvolve como desígnio de Deus, como será encarnada pelo idealismo de Hegel parecido ao ardil biológico, aqui nos deparamos com o ardil da razão… pondo em marcha a vontade de Deus na história. Conclui Zubiri: “nem o naturalismo, nem o escepticismo, nem o idealismo da vida são aceitáveis, porque o homem… por ser psicofisicamente senciente o homem é agente de seus atos, por estar aberto à realidade, é autor por ser elemento deste mundo e ator da vida que lhe há tocado viver. As três dimensões intervêm no ato” (id. 592).

Podemos completar este percorrido sucinto dos caminhos da inteligência para a realização humana com o atrevimento de seu discípulo de A. González Mistérios Rupestres (in Pensamiento, v. 75, -2019- n. 286): “Nos animais (pintados) se capta a riqueza esplendorosa da vida…”. Dá-se, “a comunhão dos nossos atos e o surgir de todas as coisas… assim estamos arraigados no infinito surgir das coisas”. E é esse infinito surgir que a inteligência apreende e deve dar conta. Mas isso está como que aberto a todos os embates da inteligência de enfrentar-se com as coisas, porque depois de conviver, estudar, até de corrigir com o mestre e “para ler Zubiri”, D. Gracia resumirá, que “somos levados pelo poder do real”. A inteligência tem sempre a âncora desta medida, não mais dos conceitos.

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Sendo assim, estas três obras traduzidas ao nosso português nos oferecem a dinâmica completa da força da filosofia de Zubiri e seus desafios para todos e nos fustiga e dá confiança suficiente para pensar e viver no caminho vivo da inteligência senciente. Temos em nossa língua brasileiro-portuguesa grande parte do tesouro zubiriano. Se tal fato nos cativa e nos alenta, é porque descobrimos nela algo profundo na atividade pensante na história da humanidade: uma crítica do que fazemos diante dos problemas de cada época, que “sempre tem o problematismo do real”, buscar as insuficiências de nossos apoios, e descobrir passos mais firmes para “florescer” e expandir a realidade humana. Um exercício irrecusável e necessário do logos e da razão, mas não mais para continuar logificando a inteligência, como se sua força fosse afirmar o que são as coisas, potencializada na razão, apoiada em princípios determinantes.

Se não mudarmos, continuaremos logificando a inteligência e entificando a realidade como “ser”. Ao depararmos com Zubiri em NHD mergulhamos nessa crítica do que são o logos e razão concipientes, não somente do século XX, mas através da fenomenologia, leva esta crítica até os gregos. As críticas, por exemplo, da modernidade hoje, migalhas coloridas e descompromissadas, da crítica científica e filosófica que faz dela Zubiri em Nossa situação intelectual: “o homem e a razão perderam-se, ficaram de certo modo aniquilados”. O homem “se encontra… sem mundo, sem Deus e sem si mesmo”. “Foge de seu próprio vazio”. E sente assim, “o angustiante coeficiente de provisionalidade…” (NHD 67).

Entretanto, em toda essa obra, o filósofo nos joga no amanhecer de algo novo, apesar de tanto desvario: temos que entrar “no abismático fundo”, “das interrogantes últimas da existência”, que clamam por uma situação “trans-real”, “trans-física” “metafísica”, “como problema da filosofia contemporânea”. Isto, não o encontraremos no que “acontece no mundo”, mas no que “as coisas e o homem, são em realidade” (id. 129). Dessa forma nos convida e nos submerge na renovação da vida intelectual. Mas, que tipo de renovação da vida intelectual? Este problema não se resolve com “o brilhante aprendizado de livros” ou com a “esplêndida elaboração de lições ’magistrais’ e ‘escrevendo toneladas de papel’” (id. 64). Que fazer então? Reaprender a buscar novos fundamentos para superar os conflitos.

Depois destes apelos para um bom caminho filosófico no início de NHD, Zubiri não cobra mais nada neste sentido ao longo de sua vida filosófica. Parece que esqueceu as dores da humanidade e buscou a distância. Porém, passa ele mesmo –exemplo socrático- a renovar a vida intelectual. E quem lê e entende Zubiri, o faz também. Aqui começa o caminho junto a ele. Nos leva por vales agradáveis (NHD, cursos…), caminhos difíceis e montanhas ríspidas, mas para vislumbrar novo horizonte (Sobre la esencia, Sobre la realidad, Estructura dinámica de la realidad…) e finalmente nos alimenta e abre el caminho com a Trilogia senciente. Depois, que escreveu esta obra, (quarenta anos depois) ao fazer o Prólogo, quando pensamos que há dito e ensinado tudo, e está satisfeito, cobra o cuidado que devemos ter nas dialéticas, na lógica e nos raciocínios, que somos obrigados a elaborar, sobre a mudança da vida intelectual e diz no único prólogo: “Hoje somos inegavelmente envolvidos, no mundo inteiro, por uma grande onda de sofística” (IRE lvi).

O que quer dizer isso agora, depois de tanto rigor e precisão conceitual? Que cuidado é esse? Quer dizer, que ele durante quarenta anos fez a sua parte e que nos devemos fazer a nossa. Mas, fazendo-o bem feito. O que é fazer bem feito? Para isso, como o fez muitas vezes, tirou da língua comum de sua terra expressões que o ajudaram a pensar de forma filosófica e metafísica. Como fizeram os gregos. E nós devemos fazer o mesmo entre nós. Como?

Na renovação da vida intelectual encontramos o mesmo obstáculo do mestre nesse fazer bem feito: a frivolidade da vida intelectual (NHD 233), típica da sabedoria dos sofistas, visível e que se espalha em todos os campos. Não podemos ser enganados com falsas retóricas. Essa frivolidade produziu a futilidade, que é a não utilidade dessa produção sofistica para a verdadeira retórica e para a vida. A retração de Zubiri, quando se demitiu da academia em 1942, a semelhança de Sócrates, não foi uma postura como a dos sofistas “elegante ou displicente”, mas “é o sentido de sua vida mesma”, “atitude essencialmente filosófica”. Com a retórica sofistica, “a realidade perdeu a gravidade do que é”, porque “quando o dizer se solta do pensar e esse deixa de gravitar inteiramente em torno do centro das coisas, o logos fica solto e livre”. E isto é a frivolidade intelectual: “ser um puro falar como se pensasse”. Por isso Zubiri descreveu nossa época, é “época de desligamento e de desfundamentação” (id. 441). Mas, “o homem é o animal que fala das coisas que vê”, “zónn lógon ékhon”, o homem não é o animal racional radicalmente, senão é o logos e poder, não de fonemas e sons informativos, mas do mundo sentido e das significações. Então, o logos tem sua força na “precisão conceitual e rigor formal” ao expressar o que sente das coisas, portanto como os gregos o interpretaram, como voz das coisas. Mas, isso não justifica, e Zubiri rejeita qualquer logicismo cultural, clássico, moderno e contemporâneo, que se pode refugiar nos esconderijos do conhecimento cultural, religioso, científico e filosófico.

Este encontro com Zubiri, convidando a filosofar com rigor intelectual sobre a realidade, nos cativou e despertou a todos os aqui relatados e a outros muitos, não descobertos. Não podemos aceitar as frivolidades, mesmo as incoadas, porque nos levarão muito mais distantes de nossa realidade. Ele nos desafiou a empreender com seriedade nossas próprias empreitadas filosóficas. A partir destas reflexões de Zubiri, tivemos mais forças para pensar e nós expressar, fomos nos envolvendo e tendo coragem para estudá-lo, questioná-lo e ter sempre a teimosia de não deixar de perceber ver, no mundo da sociedade e intelectual, posturas sofistas por todos os lados e categorias. Várias vezes (com o mote de “intelectuais de plantão”) as identificamos e condenamos, também, neste trabalho. Nunca para ofender, mas para alertar que por esse caminho de posturas não trataremos da realidade que somos todos. Porque essa via de frivolidade é via morta, fragmentado o homem em estratos de consciência.

Porque, na busca realidade das coisas e da realização das pessoas, não cabe à frivolidade sofista, nem nos tempos de Platão e de Aristóteles, nem nos tempos de Zubiri e nem no nosso. Temos que estar atentos. É mais. “A aludida frivolidade, diz Pintor Ramos (in Presentación de Realidad, Posibilidad, Religión. G. Marquínez Argote, Centro de Estudos Cervantinos, 2012, 22), é a confirmação de que a vida atual está ao alcance do menos reflexivo: o ideal de formação da inteligência na disciplina da realidade é suplantado pelo empenho de poder dominar muita informação, esta informação tende a se converter por mecanismos do poder em publicidade e, finalmente, a publicidade se degrada facilmente em mera propaganda. Este termo final está muito longe de sua inserção na realidade e busca suplantá-la por uma “realidade” virtual que carece de consistência”. Zubiri fala clara e repetidamente, já o tinha alertando sobre considerar a vida intelectual escrevendo toneladas de papel, depois, também, de críticas sérias e esclarecimentos da apreensão da força e luz do real, que essas interpretações insuficientes, que encontramos na filosofia clássica, moderna e seus rebotes sobre o real, são “fonte de inúmeras confusões que ensejam falsas interpretações” (IR 172), é por isso são inamissíveis, e não possíveis, porque são um absurdo e quimeras, reclama Zubiri em Sobre la esencia. Nosso caminhar, até pelas dificuldades de entender a proposta do filosofo, “é a religação” do homem com sua realidade (NHD 442) e “saber estar na realidade” (IRA 282).

A leitura e estudo destas obras traduzidas, e continuaremos apoiando o editor da É Realizações para continuar tal projeto de tradução, nos fazem mudar de forma radical andaimes conceituais que tínhamos da inteligência e dos sentidos, e por tanto, de dar conta da aventura humana: os sentidos são inteligentes e a inteligência é senciente. O homem é uma realidade porque é um sentir inteligente, não originalmente um ente de uma inteligência pura, lógica ou racional. Os dualismos teóricos e práticos, conscientes ou não, todas as dicotomias, cruéis para as pessoas, e seus fantasmas bem fantasiados, seriam eliminados dos desafios humanos de dar conta da vida. Sentir a realidade é primeiro, o que enraíza e abre nossa vida e por isso, podemos abrir os caminhos, devemos conceituar na medida do real, que nos guia. O caminho senciente estava aberto. A inteligência para ser racional é radicalmente senciente e o conhecimento é fruto dessa inteligência senciente, e não ponto de partida (a priori) e medida de ação (hoje estamos intoxicados com tanto conhecimento…). Porém, nós nos reconheceremos como animais de realidades (pessoas, gente), não mais exclusivamente como animais, racionais ou entes metafísicos.

Podemos, dizer, que começamos a sermos desnudados com muitas dificuldades e contras de tantas vestes inventadas, “até bem intencionadas e confeccionadas”, com formas ousadas e coloridas, sempre na moda, para ficarmos com nossa pele real de esplendor e rugas. Até muitas vezes gostamos dessas novas peles. Porém, sentimos no encontro com Zubiri uma sensação de voltar ao que somos, experimentando satisfação, e vergonha, também, de tanto tempo perdido na história da humanidade, mas com muita vontade de sermos reais. Lamentamos que o humanismo passado e presente, não conseguiu decifrar, ou o fez unilateralmente, que os sentidos não são sensórios, mas um sentir humano. Continuamos atolados e entretidos nos dualismos inoculados, considerando os sentidos apenas instrumentos de nossas tristes dicotomias.

Sendo assim, uma parte básica dessa inspiração radical de Zubiri estava agora em português, dando-nos apoio rigoroso às nossas inquietações pela realidade mundana e cósmica. Os questionamentos da nossa experiência pelo real encontravam um andaime próprio e a explorar em terras brasileiras, também, “cheias de sol e de luz”, como Zubiri, na época, desafiou a Espanha empobrecida cultural e historicamente.

Nesses mesmos anos, era o compromisso e contrato da editora É realizações, seria reeditado o livro A Ética da Inteligência em Xavier Zubiri de José Fernández Tejada, e publicadas a tese de doutorado do mesmo, Razão e Realidade, estrutura humana de convivência e a tese de doutorado de Antonio Tadeu Cheriff dos Santos, A ética do cuidado em Xavier Zubiri, O Horizonte de uma Bioética de Realidade. Não o foram. Embora, em 2012 foi publicado Cinco lições de filosofia de X. Zubiri e, em 2014, a tradução da Introdução ao pensamento de X. Zubiri de Secretan Fhilibert. Mantinha-se, ainda, a promessa da publicação da Trilogia da realidade (já traduzida e com prefácios prontos). E em breve a Trilogia teologal, Sobre la volición e Los problemas metafísicos de la filosofia occidental. E, também, tínhamos em pauta traduções dos melhores estudiosos do pensamento de Zubiri no Projeto X. Zubiri da editora. Nesse ínterim, soubemos pela secretária geral da Fundación Marta LLadó da compra pela Editora É Realizações dos direitos autorais de mais de oito obras de Zubiri. Tínhamos, então, motivos para esperar dias melhores.

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Visando esse horizonte se expressou Felipe Cherubin em 2013: “Teríamos, então, um Zubiri praticamente “completo” em língua portuguesa e com a vantagem de acompanhar ótimas traduções, fidelidade aos conceitos, prefácios excepcionais e originalidade ‘interpretativa’”. Estávamos a caminho. Infelizmente, este projeto muito bem estruturado como trabalho de todos, editora, e colaboradores, ficou até hoje nas primeiras cinco obras. Confiamos que esse projeto seja retomado.

Mesmo assim, diante das dificuldades que já apareciam, em 2013, Felipe Cherubin nos animou na ocasião trabalhando para a publicação da trilogia da realidade: “Com a primeira etapa concluída (traduções das trilogias senciente e da realidade e a proposta da trilogia teologal)… poderia ser uma abertura a um horizonte para rever a filosofia de Zubiri nesse século 21 pela ‘ótica da aventura brasileira’ de ‘cariocas e paulistas, risos’”. Ninguém desanimou diante da tormenta que já prevíamos: “Melhor fazer de tudo, nos alertava Cherubin, para dar a melhor contribuição possível agora. Não sei, mas corremos o risco de estarmos diante do fim do projeto Zubiri”. Assim o fizemos e o faremos.

Realmente no ano de 2013 o “tempo foi fechando” e fomos logo o Sísifo descendo a ladeira de novo. Não entanto, nós reanimamos, nós levantamos e procuramos fazer sempre o melhor possível, mesmo contra a corrente, até hoje.

Esperávamos, assim, que a radicalidade do pensar da proposta senciente de Zubiri ganharia pleno voo para enriquecer o pensamento brasileiro, sem prejulgamentos de temas, interesses de universidades, escolas filosóficas e ideologias, o que nos preocupava era a vida e a história do povo brasileiro. Todos os interessados tinham partido de algumas obras do filósofo que nos levavam aos polos da metafísica da realidade e da noologia senciente de Zubiri. Então, o único intuito que nos despertava era filosofar para o Brasil, “cair no real”, não no real como “grande massa amorfa” (também, de manobras), nem semelhante a um muro de concreto, e menos para continuar “quebrando à cara”, “driblados” pela direita e pela esquerda, e por muitas espécies de labirintos intelectuais, políticos e econômicos, para a mesma finalidade: o poder sobre o povo. Hoje, temos a nosso favor, a experiência diária de que somos reais, e não objetos ou sujeitos de manobras. Abria-se a esperança de um caminho novo dando o giro metafísico dos conceitos para o real. Poderíamos ter voz, podíamos fortalecer melhor o pensamento brasileiro. Era necessário continuar trabalhando arduamente e semeando para que outros pudessem colher. O poder do real mantinha em pé todos os esforços a fazer.

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Encantos e surpresas da filosofia de X. Zubiri: “Rios voadores do pensamento de Zubiri no Brasil”

Por José Fernández Tejada

Os que nos deparamos com o pensamento de Zubiri, sempre questionamos o porquê de não terem sido publicadas antes, aqui no Brasil, para as pessoas interessadas e elaborações acadêmicas, essas obras marcantes de seu pensamento. Há uma imensa publicidade de outros filósofos e de seus sucedâneos. Simplesmente Zubiri e sua proposta são uns desconhecidos. Proposital ou pura “ignorância e desinformação”? Diante desse dilema nos perguntamos: por que, então, será que preferimos os pensamentos de “sucesso imediato” (pensamento débil e não reflexivo) que provocam euforia, mas que se consumem logo sem compromisso verdadeiro, e repetem as mesmas insuficiências e erros idealistas e realistas? Será que no exercício intelectual não percebemos isso? Que outros motivos, podemos ter? Quem não teve essa sensibilidade intelectual e acadêmica? Por que a vida comum do povo sempre se guiou e se mede “pelo real”?

Por que os intelectuais, pensamos mais nos conceitos? Por que não estavam presentes essas obras de Zubiri, pelo menos na língua original (é isso que constatei pelo menos até o início da década de 1990), em algumas bibliotecas das universidades brasileiras privadas e públicas no Rio de Janeiro? O que houve para serem traduzidas ao português, antes obras de M. Unamuno, J. Ortega y Gasset, Julián Marías, que nitidamente Zubiri se inspirou, e inspirou, seguiu e superou como o estuda uma bibliografia farta, e não se publicou nada de Zubiri? É questão apenas cronologia do tempo passar? Ou é morosidade, preconceitos ou preguiça mental?

É pena ver vários filósofos, geógrafos, antropólogos, sociólogos, cientistas em geral, brasileiros não ter lido Zubiri fora dos padrões convencionais da época, que atendiam as urgências e descuidaram de: uma nova fundamentação, como Husserl, pretendia. E que Zubiri deu uma guinada completa buscando a realidade antes do ser. Celebrava-se a morte da metafísica, porém não perceberam que ela já estava sem futuro há muito tempo, porque os pensadores “com muita ousadia de cada época” escolheram a via concipiente. E, como mostra Zubiri uma via morta. Este questionamento sempre nos acompanhará no trabalho que fazemos.

Por que se deu um estudo marcante no Brasil, e “consumismos” durante a metade do século XX, o marxismo, o positivismo, a filosofia fenomenológica, existencialismo, do ser, e outras, sem quase mostrar as limitações e novos caminhos oferecidos? Brasil vinha marcado pelo esforço naturalista da pós-monarquia e afundado no positivismo o pensamento brasileiro vestiu-se do “esteticismo do poder”, da grande pirotecnia verbal do pós-modernismo, da pirotecnia algorítmica e finalmente das redes digitais. Todas, repetindo Marquínez, formam parte de que: “A aludida frivolidade, é a confirmação de que a vida atual está ao alcance do menos reflexivo”. E como não refletimos os homens vão para a morte. Ficamos presos num redemoinho de urgências históricas e intelectuais perdendo o horizonte em que queremos viver e pensar o futuro. Temos claro, onde se apoiam “as filosofias segundas”? Mas como fazer aplicações senão encontramos o poio suficiente para as filosofias segundas? Porque temos medo da filosofia primeira. Por isso, ficávamos nas aplicações fáceis e que dão fama em todas as suas formas. Zubiri foi um profundo conhecedor desses impasses e seus labirintos, desses autores e seus passos, e até foi até companheiro (e não aluno, porque foi estudar com eles depois de formado e ter feito doutorado) de vários filósofos e cientistas de renome, e grandes estudiosos das ciências exatas e humanas. Mas, teve a inspiração de superar todas essas formas que tinham surgido como reação à filosofia clássica e moderna: a realidade é antes do ser.

Zubiri tinha claro, nas suas pesquisas, que essas novas propostas eram idealistas, essencialistas e dualistas, e, por isso, insuficientes para a marcha do filosofar e portanto para o bem da humanidade. Inspirou-se na escolástica, Ortega, Husserl, Heidegger e Aristóteles. Compartilhou essas inquietações com N. Hartmann, Einstein, Heisenberg e Schroedinger, Köhler, Goldstein e Mangold. Fez saber ao seu mestre Heidegger, essa crítica, a inspiração e empreitada do real, quando se despediu pessoalmente dele em 1931. Esta estranheza de sua obra carregou Zubiri por bastante tempo. Tinha certeza que Heidegger não publicaria a segunda parte do Ser e o Tempo. Nós sentimos tudo isso no início de nosso caminhar.

O que aconteceu no pensamento brasileiro que não sintonizou com esse desafio zubiriano? Porque a filosofia proposta por Zubiri, também, não foi bem recebida na Espanha e na filosofia europeia, muito menos na Inglaterra? Parece que temos dificuldade de assimilar e digerir os pensamentos elaborados para uma época, que são passos importantes, entretanto ficamos como que ruminando sem perceber que o pensamento humano e filosófico é dinâmico e busca o mais radical. Somos carregados sem parar pela dinamicidade do real, e não, porque nos damos o luxo de assistir da sala vip o mundo pegar fogo? Porque, então, não poder estudar na nossa língua uma proposta, tão simples e radical como a de Zubiri, com a qual todos, sintonizamos?  Outra coisa será que a entendamos e a façamos nossa.

Quais, então, foram os motivos e intenções? Desinteresse em buscar sempre fundamentos mais radicais? Acomodação e puras repetições teóricas? Imersos em urgências, provisionalidades e futilidades?  Por que, durante tantos anos, a academia brasileira ficou cultivando experiências filosóficas, que se tornaram ideológicas ou que foram superadas? Porque esse passo de elefante no pensar da academia? Porque esse emperramento? O que é filosofar? Para que ela serve? Só para conquistar uma cadeira de docente, status e sustento digno? Estas perguntas valem também para questionar em todas as culturas e nas ciências. A filosofia é para repetir (“animal”) e ficar sendo coisas apenas fechadas ou para repensar (“pessoa”) e conduzir a vida humana? Os clones humanos ou robôs não poderão existir, se o homem não for pessoa criativa, que busca se realizar. De donde eles se vão inspirar, imitar e recargar? Somos radicalmente animais-inteligentes, inteligência-senciente. Daí parte o dinamismo do surgir humano num leque de possibilidades apropriadas e por apropriar.

Então, o espanto relatado de alguns brasileiros aqui apresentados, que nos deparamos com metafísica do real e da inteligência senciente, tem teor de lamento e alegria, porque há pouco tempo, tivemos acesso por vários caminhos da simplicidade e originalidade da rigorosa obra de X. Zubiri em nossa língua. É como o re-estreno da abertura do horizonte da realidade em que vivemos. Durante anos, fomos privados de uma alimentação séria e rigorosa. Assim, poderíamos resumir esse espanto zubiriano, experimentado por muitos, com as palavras de frei João, desde o Maranhão em 2003: “Por natureza sempre quis ser realista, não sobrevoar a realidade com nenhuma ideia ou doutrina. Encontrar Zubiri impulsionou-me mais ainda nesta direção. Tenho colhido muitos frutos neste seguimento, mesmo na execução de meu ministério sacerdotal” (e-mail. 20/3/2003). 

Esse relato resume a experiência de todos que se deparam sem preconceitos com Zubiri. Mas, agora com a tradução de parte de suas obras ao português brasileiro por brasileiros, conseguiremos ler, estudar e citar essas obras com rigor em nossa língua. Temos apoios condizentes e suficientes. Recuperamos o dinamismo do pensar e do filosofar buscando a ultimidade das coisas do Brasil, incluindo as coisas de cada um.

Assim, dentro desse ambiente meio eufórico e tenso, nunca de orgulho de erudição, gostaríamos de fazer um inventário do pensamento de Zubiri no Brasil. Pretendemos verificar as linhas de força, as veias e veredas percorridas ou leitos de “rios voadores” que se foram formando, abrindo e construindo, ao deparar-nos com a preocupação contagiante e trabalhosa da introdução da proposta filosófica inédita de X. Zubiri no Brasil. Também mostraremos algumas pedras. Achamos que temos a obrigação e direito de tentar esse caminho senciente no Brasil pela novidade radical que nos oferece frente às outras opções intelectuais e intelectualistas, já trilhadas e insuficientes, tanto nas teorias e aplicações, como para continuar enfrentando nossa identidade e problemas próprios. Queremos apresentar a importância de estudar e rever o pensamento zubiriano na “óptica brasileira”, que clama pelo real. Queremos filosofar “com liberdade” sem os preconceitos de fundamentos de ideias e especulações ou instituições, que recorrem sempre à essencialíssimos e substancialismos camaleônicos, também no Brasil, feitos modas e tendências, mesmo nos meios acadêmicos.

A novidade descoberta pela ciência dos rios voadores, (“a experiência sentida e feita conceitos” pela ciência), como processo vital-ecológico no Brasil, que acontece de muitas formas no mundo inteiro, que tomamos como metáfora guiadora, merece uma explicação singela. Essa expressão é muito importante, não por ser uma teorização, mas ser teorização de uma realidade atmosférica e ecológica. A inspiração da metáfora surgiu ao estudar com meu neto Pedro Lucas, de 8 anos, a matéria de Geografia do quarto ano do Ensino Fundamental. Me encantei e vi a força dessa realidade geográfica brasileira, como deve acontecer noutras regiões da terra, para nosso trabalho. Senti sua força. Meus outros netos mais velhos não estudaram dessa forma e eu nunca tinha ouvido falar. Em definitivo a vida, a nossa vida, pode ter surgido fruto de bactérias, que foram capazes de “roubar” oxigênio e água, e depois, principalmente, por hiperformalização. E, no caso de experimentado pela ciência, por evapotranspiração e grandeza do mar quente e da floresta para potencializar tal vitalidade para o planeta.

 “Os Rios Voadores são uma espécie de curso d’água invisível que circula pela atmosfera. Trata-se da umidade gerada pela Amazônia e que se dispersa por todo o continente sul-americano”. Esses rios voadores serão chuva em quase todo o Brasil e ainda em Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina. “A origem dos rios voadores acontece da seguinte forma: as árvores da Floresta Amazônica “bombeiam” as águas das chuvas de volta para a atmosfera, através de um fenômeno denominado evapotranspiração, ou seja, a água das chuvas que fica retida nas copas das árvores evapora e permanece na atmosfera em forma de umidade. É exatamente essa umidade que forma os rios voadores”. Mas, onde nascem e se abastecem esses rios? Da evaporação das águas quentes do oceano atlântico central, que é atraída pela umidade mais fria da floresta Amazônica. “Nós somos rios voadores” da proposta senciente que se abastecem da realidade e são benfeitores dos outros pela força do real. Nós somos rios voadores porque recebemos o poder do real, o sentimos e o transmitimos. Nós pensamos e queremos um Brasil melhor.

Não podemos deixar de reconhecer que somos essa forma de evapotranspiração da realidade para sermos uma realidade aberta, como pessoas e que devemos seguir processo e ciclo de espalhar essa força, feito chuva real para beneficiar e animar as pessoas, e os demais seres vivos, a seguir novos caminhos. Somos realidades para a plena realização. E isto não de vez e bruscamente como tormentas, mas constante e denodadamente, às vezes brutas. É dever de casa. O que somos, o que apreendemos e o que nos tornamos por apropriação como seres humanos, é que sentimos inteligentemente o real, nap. dos conceitos criados. Os rios voadores sempre existiram, como o poder do real, e éramos beneficiados, mas não tínhamos a experiência feita conhecimento de que é assim que temos mais vida. A realidade, como sistema e processo, sempre foi realidade, embora, nos enredamos em conceitos. O ecossistema da Amazônia, como de quase toda América Latina, é um sistema que tem um processo riquíssimo de “umedecer a vida” (umidade relativa do ar e chuvas…) e irrigar nossas terras e, segundo, seu alcance cria os diversos microssistemas brasileiros. Neles os homens se adaptaram (sertões, cerrados, pantanais, florestas…) buscando sua sobrevivência em todos os sentidos mais diversos e ricos. Por isso concluímos: estamos submersos na realidade e nela e dela devemos nos realizar. Outro país também tem seus processos de chuvas. Que especulação nos pode contradizer? Do contrário, pagaremos com as angústias e sofrimentos. O fenômeno dos rios voadores não é exclusivo do Brasil, mas forma parte da ecologia e sobrevivência do planeta Terra. Assim o poder do real desenterrado por Zubiri.

Essa evapotranspiração do real através de Zubiri veio para nós principalmente de Colômbia, de Espanha, da Universidade Gregoriana de Itália, do México através de Márcio Luís Costa que orientou Saldanha, de Campo Grande Mato Grosso do Sul. Com certeza houve outras fontes que não identificamos ainda.

Queremos, antes de avançar no nosso trabalho, desfazer um questionamento. O verdadeiro fazer filosófico não é, e nem pode ser, nem conservador e nem progressista, nem da direita e nem da esquerda, e nem religioso ou civil, é outra coisa, nos sentidos catalogados, porque a filosofia só busca o real de todas as coisas com a força real da inteligência para que a vida humana seja real para todos. É na busca do real que todas se fundamentam. O projeto da humanidade é único e de todos: realizarmos como pessoas no mundo e no universo. Podemos resumir o dinamismo do saber filosófico hoje, que tomou força no lema da pós-modernidade: a união e imbricação entre o pensamento e a realidade, também para o Brasil.

Por isso, ao realizar nosso trabalho, revelaremos brasileiros trabalhando e “estremecidos” pela descoberta de pensar senciente, não por interesses eruditos ou egoísmos acadêmicos. Foi todo muito espontâneo e consentido. Mas não tivemos facilidades neste mergulho inusitado. Alguns, também, se debruçaram com trabalhos e teses acadêmicas. Mas todos, tentamos andar “com os pés no chão” fugindo dos anacronismos e paradoxos de muitos esforços especulativos da vida, da religião e da academia, em que fomos educados; nós deparamos que temos que “cair no real”, porque “somos de carne e osso” e “normais”. Temos que “dar sentido” ao nosso país e humanidade, “sentido” ele a partir do “real que somos”. Pois, todos no mundo inteiro, nos sentimos assim como gente, porque, com a proposta de X. Zubiri, vislumbramos e percebemos que há fundamentos mais radicais e caminhos vivos dos que os concipientes, que nos teimam em oferecer para engolir, apesar de nos levarem longe demais fora do horizonte intramundano. Poderemos testar e usar a “medida do real”, que é de todos e para todos, em toda simples força e radicalidade para que o pensar humano encontre suas melhores possibilidades, e não a “medida ou cânon dos conceitos” que é sempre feita na mesa de estudo, e hoje no computador, de quem só concebe.

Sentimos, logo, na leitura de Zubiri um caminho vivo para tirar o comando absolutista e tirano da humanidade dos racionalismos independentes do pensar real, sempre objetivistas ou subjetivistas, dualistas. Assim, nos descobrimos de verdade que somos “animais de realidades”, e não “entes metafísicos” ou “zumbis”, ou como fala Cherubin, não reduzidos a “entificações e zumbificações” de quaisquer interesse ou ideologias das ciências e da filosofia, não digamos da política contaminada, que, com raras exceções, no mundo inteiro não é a arte de cuidar do povo. Não podemos ser objetualizados e nem subjetualizados. O mesmo, podemos dizer da cultura, religião e das artes, que devem aproximar-se do real com seus esforços mais diversos.

Sintonizamos com o pensamento de Zubiri porque somos reais, pessoas comuns, raros, mas normais, que vivemos no meio das coisas e delas temos necessidade de viver, no meio num mundo quase virando catástrofe. Somos “animais de realidades”, ou como Cherubin se expressava nisso “somos todos zubirianos”. Poderemos aspirar e dar conta de nós, não num mundo dos conceitos manipuladores e nem da lua ou de marte, nem do mundo dos ETS, com todo respeito onde possam habitar, mas no horizonte mundano do real em que já “todos-humanidade” nós sentimos surgidos, situados, enraizados e nascidos.

O homem se abre num mundo real para a humanidade viver, dentro do lugar que ocupe dentro do maravilhoso universo. Mas, será que nossa sina é sermos autodestruídos aos poucos como humanidade pelo próprio homem, como apresentado muitas vezes pelos filmes de ficção? Por acaso os plânctons e as flores se destroem a si próprios? Porque parece que o homem está sendo destruído, não pelo homo nascido já lúpus, mas feito lúpus, de propósito, porque escolhe o caminho de só os conceitos, e por tanto de uma inteligência distorcida e egoísta (“a medida do homem” e paga, como o ensinaram os sofistas) pelos sábios e poderosos de vez, quer dizer, pelos sofistas de todas as classes e cores, que vendem muita sabedoria como produto agregado e salvador, para sua gloria e bem-estar, ao negociar soluções mirabolantes para melhorar o mundo.

Resumindo nossas interpretações do real, do homem e da sociedade segundo Zubiri, não podemos deixar de procurar cada vez mais sua proposta como muito viável e por muito tempo. É a maior tentativa de elaborar um caminho vivo do real para todos. Cada vez fica mais claro que o caminho concipiente é responsável de muitos labirintos da humanidade. É o questionamento de muitos. Sim, e de sua bancarrota. Lutamos muito, escrevemos muito e descobrimos muito, mas sempre em vão. Melhor, em vão não, mas para pior. Nosso dualismo em tudo, nossa logificação e entificação continuam dominando nossos esforços sociais, históricos, religiosos e políticos. Buscamos a resposta para nossas grandes perguntas, mas nos perdemos no caminho dos conceitos como se fossem realidades. Discernimos bem o campo do real, mas nos perdemos e ficamos nos desafios da irrealidade. Incompletos. Aqui nem o logos e nem a razão são inteligentes. São sensórios e assim só instrumentos. Perdemos a medida do real, perdemos a inteligência senciente. Raramente voltamos à realidade, onde nós vivemos e o povo normal vive. Nessa irrealidade construímos nossos desejos, planeamentos, projetos. Assim tudo dá errado. Não respondem a realidade e por isso reclamamos e sofremos, somos como que destruídos. E triste esperar o melhor no caminho dos conceitos, nos caminhos que nos levam ao mal viver. À destruição, à bancarrota contemporânea. Parece perdemos o fôlego humano.

Por isso, este trabalho, apesar de fragmentário e incompleto, será um exercício de todos, prazeroso, e motivador, nunca desolador apesar de todos os contratempos e dificuldades tidos, de ver como essa proposta inédita de Zubiri enfrenta a tradição concipiente da filosofia clássica e moderna feita labirintos traidores a toda hora, também no Brasil. Estamos como brasileiros nos enfrentando com o problema da inteligência, como problema primordial. É mais, acreditamos como falava Zubiri, que a história da filosofia, portanto, a história do pensar, indígena e posterior, das primeiras veredas e rios voadores brasileiros adentrando-se no pensamento do real, já é filosofar. Queremos que esta esperança não murche. Muitos já o tentaram noutros tempos e por outros caminhos. Queremos fazê-la florescer. A proposta inédita de Zubiri desperta, assim, no meio do clamor do povo, um interesse singular a muitos, que não abrem mão de buscar a filosofia das coisas, do real, ou melhor, de sua identidade e possibilidades, sentir que o real nos busque e possamos deixá-lo entrar para direcionar nossas inquietações brasileiras, somos assim rios voadores do poder do real.

Nós queremos possibilitar que, a força dessa proposta senciente de sentir o real, entre em todos e fecunde suas vidas de realização verdadeira. Dessa forma, mostraremos de fato o exercício de pensar sobre as coisas que nos dão que pensar, como os gregos, e por tanto, uma via nova da experiência filosófica no pensamento brasileiro. Nós descobriremos que estamos fazendo filosofia, pelo menos tentando.

Os que, ocasional ou academicamente, nos deparamos com as obras de X. Zubiri, nós espantamos no dia a dia e filosoficamente com seu pensamento, e reaprendemos a não ter medo do amor pela verdade da realidade e pela realidade verdadeira. Assim podemos resumir o entusiasmo humilde de nossa mudança e clamar com sinceridade o que Zubiri falava da influência de Ortega: “fomos, mais que discípulos, fomos feitura sua, no sentido de que ele nos fez pensar, ou pelo menos nos fez pensar em coisas e na forma em que até então não o tínhamos feito.” (Sobre el problema de la filosofia y otros escritos -1932-1944-, p. 269). Ou como descrevia Diego Gracia quando de seu primeiro encontro pessoal com Zubiri em 1970 (Prólogo, Volundad de Verdad): “comecei a perceber surpreendentemente a riqueza intelectual e humana e a originalidade de um criador, de um filósofo criador, de um filósofo. Fiquei cativado”.

Todos que se aproximam de Zubiri com “olhos limpos e coração aberto” ficam cativados e dispostos a se envolver com esse novo caminho humilde e problematicamente. Por quê? É o teor de nosso trabalho, somos seres reais e disso temos que viver, não podemos aceitar que nos tratem de outra forma. Assim elaboramos nosso trabalho Rios voadores do pensamento de X. Zubiri no Brasil, que não pode ser apenas histórico, para preencher alguma lacuna no tempo. Queremos mergulhar no pensamento brasileiro para participar do conflito dos caminhos para viver realmente no Brasil.

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