Nossa proposta

*Por José Fernández Tejada

Apresentação desafiadora e caminhante.

Nesta empreitada de muitos brasileiros que estamos apresentando, desejamos saudações de alegria”, como foi recebido pelos organizadores da XV Semana de Filosofia da UCDB de Campo Grande em 2005. Saudações de alegria desafiadora, porque nos enfrentamos com uma situação como problema filosófico da maturidade de cada um e do Brasil. Se Hegel é o maior esplendor do idealismo, também é o início de seu fracasso. E, Zubiri, em 1931, depois de estudar o problema de Hegel e de sua maturidade, se remove e grita como pessoa e como filósofo e não apenas o repete. Lembra-se das metáforas provocantes do mestre Ortega, tendo a inspiração de uma nova luz do foco luminoso. Comunga, então, com a “melancolia pela exuberância” de Aristóteles, que o leva a uma solidão sonora. Porém, não a entende como Descartes, que significa “recolher-se em si mesmo”, e nem a opção de Hegel, “não poder sair de si”. Essa solidão de saúde e de vida que todos podemos praticar, e que Zubiri viverá a vida toda, assim o leva a iniciar sua maturidade, distanciando-se deles. Este é seu desafio:

“Justamente ao contrário: quem se sentiu radicalmente só é quem tem capacidade para estar radicalmente acompanhado. Ao sentir-me , aparerece-me a totalidade de quanto há, enquanto me falta. Na verdadeira solidão, os outros estão mais presentes do que nunca. A solidão da existência humana não significa romper amarras com o restante do universo e tornar-se eremita intelectual ou metafísico: a solidão da existência humana consiste num sentir-me só, e por isso defrontar-se e encontrar-se com o restante do universo inteiro (NHD 274-275)”. Assim, pensava Zubiri na sua juventude e assim o pensou até sua morte.

Assim, X. Zubiri, nesta claridade de seu papel no mundo, com apenas 34 anos, faz a sua primeira proposta radical de mudanças para Espanha “invertebrada” (de Unamuno), que queremos repetir para nós brasileiros, como o fizemos na dissertação de mestrado em 1993, parafraseando com o mestre frente a Hegel: “Esperamos que o Brasil, país de sol, luz e saudades, decida algum dia a elevar-se a conceitos metafísicos”.

Quais? Ele nem sabia, como nós, mas estamos juntos tentando e cativados pela velho empenho de muitos gentes e filósofos, mas recém e estreada empreitada humana da volta ao real, refeita por Zubiri. Semelhantemente aos pássaros voadores da Sociedade dos Poetas Mortos, constatamos nestas décadas, que nós aproximamos de Zubiri, uma revoada irrequieta de muitos brasileiros, que no seu tempo e inquietações próprias foram despertados nas primeiras leituras de Zubiri. Contagiaram-se com seus estudos e escritos buscando o foco luminoso para o universo e para o Brasil. A catalogação de todos eles, que apresentamos nos Trabalhos brasileiros sobre Zubiri, que apresentamos noutro lugar, são essa mostra e frutos de nossa solidão sonora. Embora, encontramos, muitas vezes, reações de incompreensão e até contrárias e depreciativas pelo esforço que estávamos fazendo. Fomos enfrente. E encontramos novas luzes reais e caminhos sencientes para as nossas tarefas pessoais e profissionais. E também, o tentamos para o Brasil.

Como foi esse percorrido, seus desafios e resultados? Como o está sendo no meio da pandemia que se impõe, nos assola e nos faz refletir? Será que a presença deste vírus, não nos faz pensar que a realidade, quer dizer alguma coisa mais forte? Será que tal situação descrita não deixa claro, que nossas aspirações pela realidade são superiores às especulativas racionalidades das culturas, religiões, sociedades, políticas e da história, portanto das atuais racionalidades mundiais? Não é assim que aconteceu de muitas formas em toda a história?

É, então, afirmamos com muita satisfação, que podemos relacionar todos os estudos feitos, que conseguimos, em todo Brasil sobre o “espanto zubiriano”: surpresas, cativações, estudos, discussões e ações, até erros ou herexías zubiranas, “do poder do real” de mais de 30 anos. Somos poucos, porém somos muitos descobrindo e agarrando-nos a uma nova proposta filosófica para Brasil. E a estamos experimentando. Estes “estudos brasileiros” são um grato reconhecimento da importância da Filosofia do Real e da Inteligência Senciente em todos, também para nossas sociedades e culturas. “Cair no real”, “bater no batente”, ou no noroeste “bater o dedo do pé no batente”, tem o sentido na nossa língua de “despertar para a realidade”. Não podemos aceitar ingenuamente, “quebrar a cara no real” para seguir pensando que a realidade é contra nós. Nós formamos parte da realidade e a realidade somos nós, que, como pessoas, é a favor de nossa realização plena. Isso, sentimos lá dentro de cada um de nós, porque sempre apelamos ao real, no qual estamos imersos, vivendo nas nossas culturas e países, vivendo, crescendo, chorando, sofrendo, dançando, gritando, discordando e até dando opiniões de novas saídas. Qual a raiz e o sentido?

Estamos na empreitada de despertar para a realidade, de onde não devíamos ter saído, melhor não devíamos ter permitido que nos tirassem. Tentamos agora enriquecer e aprender seu lado profundo: a realidade de todos e de cada um. Estamos, então, no caminho vivo que nos oferece possibilidades mais salutares para nossa gente. E, como nos falou D. Gracia, “seremos os primeiros beneficiados”. Poderemos sonhar com um país melhor, porque real, como todo brasileiro continua sonhando, porém ainda sofrendo. Vamos ir superando. Estamos buscando novos apoios e caminhos. Seremos rios voradores para melhorar o dia a dia das pessoas brasileiras de norte a sul, e de leste ao oeste, como da cidade e do sertão, do interior e das costas do mar, levando a “chuva suficiente do real” para todos os rincones da nossa realidade brasileira, despertando e “dando a mão senciente” a todo o mundo. Porque as leituras de Zubiri nos cativaram e logo nos levaram a iluminar, primeiro abrindo nossas mentes no espanto filosófico dentro de nossas inquietudes, e por isso não temos medo dos novos caminhos de nossa realidade, de nossa cultura, religiões e intelectualidades, que possam dar conta de nos: “mais suficientes” porque sencientes. Porém, seguimos enfrente.

Nós sentimos entusiasmados. Contudo, devemos ter em conta, para desafiar essa empreitada, o que Roberto S. Kalmeyer-Martens nos avisa na situação de receber Zubiri no Brasil, no Prefácio do livro STUDIUM. Max Scheler: novas recepções (editora Vivens 2019): “Recepcionar e hospedar um pensamento a ponto de este fixar-se e passar a pertencer a uma cultura filosófica, não é algo que se promova por iniciativa isolada, a partir do esforço de um ou de poucos. São necessárias levas de tentativas, trabalho persistente de apropriação, operado por muitas mãos, até que o pensamento ‘estrangeiro’ passe a habitar entre nós como familiar”. Eu completaria melhor, até que um filósofo nos ofereça mais consistência e suficiência em seus motivos, inspirações e descrições, do fato de que somos e como podemos seguir vivendo.

Somos sencientes e, por isso, conscientes de tal situação. Teremos que ser incansáveis estudando (alguns mais de trinta anos), interpretando e discutindo, e corrigindo, o inédito pensamento senciente de nossa realidade, que tanto nos cativou elaborando nossos trabalhos filosóficos. Sabemos que estamos entregando um tesouro real e herança filosóficos, que parecem ser o novo foco luminoso. Vale a pena! Porque, sabemos da importância e da necessidade, para nossas tarefas diárias, dos choques com nossos problemas, de nossos difíceis estudos, porém envolventes e caminhantes. Sabemos que não pode ser definitivo, mas estamos num caminho vivo.

Esta situação de entusiasmo e teimosa ciaminhada, que não é apenas nossa, a sentimos mais detalhada e profunda no desafio da comissão do IV Simposio Internacional del Instituto de Pensamiento Iberoamericano, “Un filósofo Iberoamericano: Zubiri desde el siglo XXI”, Salamanca, 16-18 octubre 2008”. (Resenha, CAURIENSIA, V. V. 2010, P. 357-396). Sua leitura, embora longa, será de muito proveito para todos na situação que nos encontramos nos estudiosos zubirianos.

“Apresentamos a obra coletiva deste Simpósio (falam os organizadores), na ocasião de uma efeméride dos 25 anos (hoje são mais de 35 anos) da morte de Xavier Zubiri. Ela foi concebida como soma de muitas pessoas na revitalização de um pensamento concebido de forma universal, (…) ela nos coloca nos antecedentes da etiologia, do objetivo e da concepção dessa empreitada (…).

Contudo, além do juízo que podemos fazer da filosofia de X. Zubiri, ninguém pode duvidar do valor intelectual, que vem da grande raiz de influência Ibérica. Trata-se, sem dúvida, de uma façanha que se enraíza na tradição filosófica ocidental, aborda com lucidez e valentia o tema da realidade sabendo conscientemente da atitude antimetafísica de seu tempo, e o faz sem fugir, enfrentando os fatos desde outra forma não redutível à aproximação de um olhar científico, investigando e aprofundando a tentativa husserliana de enfrentar os fatos filosoficamente.

No século XXI, falando filosoficamente é claro, é dividido entre pós-modernos e pesquisadores do fundamento metafísico da realidade, o filósofo donostiarra (da região do norte de Espanha) deve ser ouvido, pois depois de 35 anos de sua morte, sua obra segue vigente e ainda para descobrir e redimensionar. Neste sentido o coordenador destes Anais (A. Pintor-Ramos) nos lembra da especificidade do “caso de Zubiri”, que é um exemplo do que acabamos de sinalizar. ‘O caso de Zubiri’ (assim denominado pelos pesquisadores zubirianos) é um tanto peculiar, pois no momento de sua morte as obras publicadas, embora muito densas, eram escassas, mas com densidade não desprezível, e compreende 21 volumes (hoje são 30), todos eles no catálogo da editorial comercial. Devemos observar, que a editora não descatalogou nenhum livro, porém, teve necessidade de várias edições ou reimpressões de muitos de eles. Isso é algo fácil comprovar e não acontece com quase nenhum dos coetâneos de Zubiri, e certamente não é a regra na literatura filosófica na língua espanhola’.

Entretanto, reconhece Pintor-Ramos, essa colocação não supõe que se tenha um conhecimento suficiente de sua filosofia. Por isso, contamos com a participação direta neste Simpósio de 22 pesquisadores (dois brasileiros: Everaldo Cescon e Joathas Bello), que apresentaram em profundidade a Filosofia de Zubiri. Pintor-Ramos frisa que a concepção zubiriana da filosofia é falar de sua proposta. Isso foi bem feito e os autores, ao compartir tais estudos, entram no terreno da opinião, da decisão e da convicção pessoal a partir de uma aposta racional. (…).

Iniciávamos esta resenha sinalizando, seguindo as palavras do coordenador da obra, Pintor-Ramos, que existe uma demanda do conhecimento de Zubiri, apesar da vigência que transluze a atividade editorial entorno de suas obras. O grande problema da filosofia de Zubiri, além de todo o que se fala, embora muito desconhecido por muitos, reside precisamente nisso: porque no desconhecimento existe, consequentemente, uma difusão escassa, em boa parte das instituições que se dedicam ao ensino da filosofia. É verdade que o homem atual está muito longe de uma racionalidade pensada e clarificadora de sua vida, e como sinalizam J. A. Vicens e J. Corominas na sua apresentação: ‘se como pensa Zubiri é verdade que a “cegueira do homem da caverna é mais radical hoje em dia”, resulta explicável a incompreensão do que tem sido objeto sua filosofia e sua pessoa. Porém, não é menos certo que “a penumbra espanhola” não pode ser só justificadora da situação de um pensamento não compreendido ou não conhecido como deveria ser. A isso contribui de alguma maneira, a forma de escrever do filósofo espanhol (e seus presentes e “carregados” neologismos). E acontece, também, pelo fato de seus aspectos formais e de conteúdo, como pelo tipo do leitor atual, inclusive da filosofia, muito distanciado (penosamente) dessas profundidades.

Porém, como a penetração, o exercício da razão, a busca da realidade é algo irredutível, teremos que realizar uma forte aposta por melhorar sua difusão. E assim, o podemos dizer, devemos aumentar as vocações não arraigadas, à leitura de Zubiri, porque ele é pouco lido e conhecido (…) também, entre os zubirianos. O leitor de Zubiri é uma pessoa ávida de seu conhecimento, pensando como muitos, um homem fiel ao seu pensamento, o que justifica a validade de seus escritos, porém isso não tem reflexo na extensão da comunidade filosófica, especialmente fora do âmbito hispano, o que é a maioria das vezes por fatores exógenos (porque, então, continuamos estudando tantas vezes e tantos pensadores estrangeiros)? Não podemos ter medo, desse desafio típico do século XXI, porque deve atender às pessoas capazes de transpassar o círculo de entendidos e entusiastas de Zubiri. Contudo, sem sair fora, quer dizer sem enfrentar o problema, porque é preciso dar a conhecer seu pensamento clarificando-o, atualizando-o, fazendo-o atrativo, sem renunciar a suas intrínsecas virtudes e especificidades, de modo que os cativados acreditem que são instrumentos eficazes de difusão zubiriana.

Certamente isto não é fácil, mas obras desse tipo o pretendem de certa maneira. O conseguem? (O conseguiremos?) Isso é algo que deve julgar o leitor, ao que recomendamos encarecidamente esta leitura (…). E como se indicava na publicidade do Congresso do Instituto do Pensamento Americano: “Um bom conhecimento de nossa história, comum ou compartida, nos pode ajudar a organizar, com maior garantia de êxito, a colaboração dos povos de América e da península Ibérica. Porque, a esse passado pertencem nossos poetas, novelistas, científicos e filósofos. Um deles é Xavier Zubiri, que nos legou uma herança de reflexão e análises filosóficas”.

Esta citação foi longa, uma aula magistral, mas esclarecedora de nossa situação particular, em que nos encontramos todos. Sim, devemos mergulhar na nossa cultura diversa, na nossa história real plural, na nossa antropologia sem prejuízos para descobrir “o fio a meada do real”, “a luz do foco luminoso” em todos os atos e obras de todos os filósofos brasileiros, para enfrentar os problemas, que temos descobertos e tratados do Brasil. Dessa forma, nos sentiremos mais afinados para a novidade da proposta senciente de Zubiri, como, o fizemos desde o “Deus senciente” (não ente), até o “homem animal de realidades” de uma “liturgia senciente” nas religiões e na vida de cada dia (não somente racional). Por isso esperamos uma vida, uma fé senciente nas culturas, religiões e políticas. Assim, ressume e arrisca nosso investigador: “Uma nova Filosofia, um novo Deus, um novo Homem em Zubiri”. E podemos seguir: um novo país e um novo mundo. Por isso, nos devemos animar a estudar e a tomar decisões e aplicações, até erradas, porque queremos pensar e clarificar com o fundamento do real nossa vida e do Brasil, para que ele desperte ao real e viva o que é. Devemos falar sem medo dessa proposta senciente.

Compartindo tais estudos, nos arriscamos, entrando no terreno da opinião, dos erros, “das heresias filosóficas”, da decisão e da convicção pessoal a partir de uma aposta racional. E isso “sem renunciar a suas intrínsecas virtudes e especificidades dessa proposta senciente, de modo que os cativados acreditem que são instrumentos eficazes de difusão zubiriana”. Não podemos ter medo das racionalidades oriundas das possibilidades do real, mas sim das que vivemos e pregamos das racionalidades praticadas separadas do real e, portanto, de todos nós. Nestas estamos sofrendo e gritando, porém, nas racionalidades do real nos sentimos animados.

A. Pintor-Ramos falava, nesse Simpósio, com toda experiência e dedicação desde há muitos anos e no meio da situação espanhola, da “penumbra espanhola” das instituições acadêmicas respeito à Zubiri. Sim, falamos de instituições acadêmicas, porque sentimos falta do despertar ao real das nossas universidades públicas, que tem a herança milenar de dinamizar o movimento do pensamento em todas as áreas. Elas começaram pela filosofia e a teologia e a expandiram para todas as ciências. Por que são respeitadas as Universidades, para nomear algumas, de Oxford, Paris, Cambridge, Coimbra, Salamanca, Bolona e Harvard? (embora, também nelas “tem o joio e o trigo”). Por que o medo e desconhecimento, ao parecer proposital, de parte dessas instituições, de uma proposta que surge a partir da fenomenologia e é mais radical superando até agora todas essas aspirações? Não sentimos que podemos mudar para melhorar? Zubiri se demitiu de sua cátedra (e salário) da Complutense de Madri porque não encontrou liberdade de pensar, mas sempre falou filosoficamente e com rigor e precisão intelectual, não para satisfazer o povo sofrido nas suas urgências. Nem filosofias segundas e nunca autoajudas. Não falou o que os outros pares e o povo queriam escutar. Quer dizer, sempre acreditou na sua tarefa de “pensar nas coisas que dão que pensar”, e nós continuamos nessa empreitada, que dentro dessas instituições estava a matriz geradora de uma nova Polis, de novos pensamentos e propostas sempre se superando. Este é o problema real da a verdadeira história da filosofia.

Nessa proposta zubiriana se encontravam as raízes, os motivos, os tropeços racionais e novas alternativas. Por que ficar sempre repetindo as mesmas ideias, como se servindo da “despensa dos pensamentos ranços” (bibliotecas mumificadas ou alimentadas com comidas ideológicas), para manter nossas instituições? Porque, como falava Zubiri: elas têm objetivos diferentes (embora, também entre as diversas faculdades), porém buscam sempre o real nas ciências, como o necessitamos todos nós. E quase no final de sua vida falou convencido e abertamente: Porque, “investigar é dedicar-se à realidade verdadeira” (IRA 283). “Toda a filosofia necessita das ciências e toda ciência necessita de uma filosofia. São dois momentos unitários da pesquisa. Mas, como momentos, não são idênticos” (id. 285). Será que não percebemos e vivemos essa união vital da ciência e da filosofia pelo mesmo homem real? Zubiri, assim o resumiu nos seus grandes questionamentos de Natureza = ciências, História = homem e a sociedade e Deus = as religiões, porque todas elas tem como preocupação o ser humano. E assim, o entendeu nos seus estudos com os prêmios Nobel da física quântica na Alemanha. “Não foi um capricho ou um jogo de conceitos, –essa é a grande significação-, mas uma exigência da evolução mesma das ciência, que começou com Einstein e chegou aqui nasceu grau máximo: a subordinação da teoria à experiência” (NHD321). Sim, Zubiri na Alemanha buscou nas ciências exatas e humanas para iluminar sua teimosia sobre o real. Também estudou fisica quântica com Heisenberg e o amigo Schrödinger e outros. Por isso vemos na foto esse fato da relação de Zubiri (que usou esse quadro surpreendente de Einstein), que comungava com as ciências sua inspiração radical, de que a realidade é antes do ser. E assim, ele sempre tinha em conta as ciências e a elas ofereceu novos apoios, não deterministas.

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A relação de Zubiri com Einstein, e no meio da inquietação de várias ciências, sobre o valor dado a razão, é emblemática no amadurecimento do filósofo. Seus estudos das ciências exatas sempre o desafiavam ( pensou em estudar matemáticas, mas ele não queria deixar de ser filósofo). Assistiu, depois de vários países, a palestra de Einstein em 1923 em Madri. Ficou encantado. Ortega e Rey Pastor (o maior matemática espanhol), desafiaram Zubiri a estudar ciências matemáticas junto com as ciências humanas. Todos eles pensavam, assim, numa nova Espanha. Porque ” as novidades no campo das ciências (a teoria da relatividade em Física, as teorias funcionais e neovitalistas em Biologia…) questionam a hegemonia no positivismo. E do subjetivismo, porque está quebrando o campo da filosofia, que é enfrentado pela fenomenologia de Husserl e a ética dos valores de Scheler…” Estas eram as preocupações de Ortega e outros cientistas que buscavam nas ciências em renovação. “A física quântica abre a porta a uma perspectiva mais ampla e complexa das relações entre a inteligência e a realidade”.

Em 1930 Zubiri tem a ocasião de encontrar Planck, Einstein e Schrödinger, quando de sua estadia na Alemanha. Sua relação com esses físicos, como com os cientistas daquela época na Alemanha, foi grande e amiga. Se reuniam com frequência e Zubiri convidou várias vezes a Eisntein comer na sua casa, quando crise alemã de 1930-1931. Esse grupo de jovens cientistas ainda vivendo as consequências da Grande Guerra sofreram as consequências monetárias e sociais de todos os alemães: ficaram sem marcos, comida e roupas. novas. Entretanto, esses intrépidos sonhadores nessas circunstâncias continuam pensando e se reunindo. Assim o expressa o físico Sommerfeld: “Naquele tempo tínhamos o estômago vazio e nenhum tipo de recursos. Embora, a verdade é que isso nos ajudou a formular a mecânica quântica (que era chamada na Alenanha de “física dos jovens”.)”. A mecânica quântica está dando o último e decisivo golpe à concepção moderna e determinista do mundo”. Esta convivência instigadora se centraliza no centro Harnark Haus. Neles continua sempre inquieto com Plank, Heissember, Einstein e Schödinger, entre tantos outros de várias ciências.

Isto vai definindo a tensão zubiriana da filosofia mudar diante do mundo. “Se a ciência mudou, a filosofia deve mudar”, falava. Com eles descobre que agora “o observador só faz constatar os fatos. É alheio aos fatos que observa; …assim no conteúdo dessa relação não intervém o homem…”. Por isso, depois do esforço de Heidegger de enfrentar essas questões que surgiram está preocupado. “Até que ponto a filosofia de Heidegger é âmbito adequado para recolocar filosoficamente essas noções básicas…?” Porque, ” a revolução física dilui o sistema rígido dos conceitos da física clássica”. Então, vem a pergunta zubiriana: “A filosofia deve pensar sempre à reboque da ciência ou pode de algum modo liberar à ciência de prejuízos para facilitar sua tarefa?” Tremendamente clara a pergunta de Zubiri.

Ele vive nesse ambiente anticonvencional do início do século XX. Isso é fruto semeado pelos descobrimentos recentes: desses cientistas: o inconsciente, as partículas elementares, a Gestalt, a entropia… Por isso, foi fácil Zubiri, no meio dessas forças vivas de renovação, se fazer amigo de carismático e simples Schödinger. Esta revolução de pesquisa científica é confirmada com “o teorema de Gödel que acaba confirmando a teoria de Wittgenstein sobre a debilidade inerente à razão. Há coisas que não se podem dizer senão somente mostrar”. Neste ambiente, depois do esforço decisivo de Husserl, Heidegger é como o caminho de resposta para continuar pensando nessa crises mundial. Aqui, Zubiri terá sua inspiração de que “o ser é posterior à realidade”. E Zubiri seguirá seu caminho inédito e só. E até incompreendido pelos pares colegas na Alemanha. E isso acontecerá muito tempo, como um tesouro escondido até que…

Temos detalhando um pouco esse ponto de reflexão e partida original de Zubiri através das várias páginas, que Corominas, dele são várias citações, dedica ao assunto: a crise da razão nas ciências e na filosofia diante da bancarrota europeia e mundial. No índice encontramos mais de 12 citações sobre Einstein. Corominas com J. A. Vincens nesta especial biografia: Xavier Zubiri. La soledad sonora, teve o atrevimento de tentar acompanhar “a vida de um filósofo” amadurecendo até a morte. Esse livro tem de mais de 900 páginas, com mais de 200 páginas de notas dos capítulos e índices, “é humilde e provisório,” mas para nós foi uma mina para acompanhar a proposta “anos luz” de Zubiri. A A fundação está colhendo mais dados para fazer uma biografia mais fiel e detalhada, também será chamada de XAVIER ZUBIRI Soledad Sonora. Porque se, “busca a verdade, sim, mas a verdade imponderável de uma vida humana”. Para isso eles recorreram `a “documentos pessoais, correspondências, testemunhos, memórias, livros, biografias, entrevistas, gravações, transcrições de diálogos e sucessos pessoais”. Obrigado aos autores por nós fazer experimentar a imponderabilidade da vida humana e por nos ajudar em incontáveis consultas.

Essa foto foi escolhida, com muita justiça, por Corominas e Vincens para biografia de Zubiri. Um filósofo não nasce feito. Ele cresceu em tudo ao longo de sua vida, como todos. Assim damos valor a esse Zubiri alegre, até com uma margarida na lapela do paletó, como todo jovem gosta de se enfeitar: é o retrato de sua disposição de “viver denodadamente”. Contudo, também, sofreu com decisões questionáveis, com a Igreja “antiquada”, com a Universidade usurpada pelo poder, com as doenças e as dificuldades de dinheiro até mais ou menos 60 anos. E com seus pares de Espanha e da Europa: “ele estava sendo um escolástico” ou sua filosofia era uma diarreia mental”, falaram os pares afamados ingleses. Por isso, resumidamente sua vida foi: La Soledad Sonora. Podíamos falar que aparentemente não colheu fruto algum de seu árduo trabalho.

Seguindo nossa reflexão sobre o envolvimento de Zubiri com as ciências, assim nos deparamos com Thomas Fowler, matemático e filósofo, relembrando magistralmente de forma resumida a empreitada zubiriana entre ciência e filosofia, na revista The Xavier Zubiri Review: “O trabalho de Xavier Zubiri abrange a ciência moderna, bem como áreas tão diversas como linguística, psicologia, neurologia e teologia. A abordagem de Zubiri é sempre analisar os problemas que as abordagens anteriores geraram e, em seguida, penetrar um nível mais profundo para entender o que deu errado e como uma solução melhor poderia ser encontrada. Assim, ele desenvolve sua filosofia de inteligência senciente, que fundamenta qualquer metafísica ou epistemologia possível” (julho 2008).

Então, podemos juntos repetir e “usufruir” o que Zubiri expressou quase ao final de sua vida, junto com o amigo Severo Ochoa, que descobriu os primeiros secretos do DNA:

“Quando os senhores falavam de pesquisa em sua premiação, também estavam falando na filosofia. É a primeira vez que isso acontece. E eu, e comigo todos os dedicados cultivadores da filosofia, nos sentimos legitimamente satisfeitos. Obrigado em nosso nome”. (id. 287).

Depois desta descrição “docente” e maravilhosa dos participantes do Simpósio (digna de ser lida, muitas vezes, discutida e vivida) e de nossa simples reflexão e desafio, poderemos entrar na relação dos nossos encantamentos tão produtivos entre nós. Hoje, adiantamos que, conseguimos recolher até hoje mais de 200 trabalhos brasileiros escritos na nossa língua, que revelam todo o dito. Obrigado a todos, pela aposta da difusão da teimosia zubiriana, que será também a nossa: “o retorno ao real”. Esse será o melhor prêmio que podemos oferecer a X. Zubiri com sua rara e inédita proposta.

Todavia, não pensemos cedo em receber prêmio algum ou elogio: vamos pesquisar com afinco a realidade das coisas e suas aplicações, e” os primeiros beneficiados seremos nós“, como falou D. Gracia. O bom semeador e bom colhedor não se desaminam, porque tem a mesmo desafio: alimentar os povos do planeta. E, nós aos brasileiros, porque, assim com os nossos trabalhos e atitudes pessoais, muitos deles poderão ser beneficiados. O nosso empenho é essencial e intransferível.

Xabier Zubiri and Severo Ochoa The philosopher (left) and the biologist (right) in the ceremony of the ‘Ramon y Cajal’ prize

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