Nossa finalidade

*Por José Fernández Tejada

Encontrei esta figura (caricatura) de Zubiri, quando comecei a estudá-lo, dentro de um dos livros do autor, que Pe. Emílio Silva tinha em sua inesquecível biblioteca, na rua Paissandu-RJ, (mais de 70.000 livros, que ele mesmo pegava, com seus noventa anos, até subindo numa escada, e sempre nos fazia lanchar).  Dentro de um desses livros de Zubiri estava um recorte de um periódico espanhol com essa foto. Fiquei encantado e instigado pela sua pessoa, pelo que já conhecia inicialmente de suas obras. Por isso, postei como triunfo a cultivar essa imagem na contracapa de minha dissertação de Mestrado, defendida em 1993. Foi um desafio. Hoje os ofereço com carinho e contínuo desafio: “Dedicamos, através deste trabalho, nossa lembrança e homenagem no décimo aniversário de seu falecimento. Esperamos abrir um novo espaço para que o seu modo radical e modesto de fazer filosofia seja experiência e patrimônio de toda a humanidade” (1993).

Queridos amigos, bom Brasil para todos e, também, para os inquietos zubirianos. Há muitos anos que desejava dialogar com vocês.

A finalidade deste espaço é conhecer e sentir o que estamos fazendo, por meio do encantamento que tivemos com a proposta de Zubiri. Esta comunhão e comunicação nos farão mais fortes e atrevidos na descoberta da fundamentação de uma realidade a esclarecer, em que se apoiam nossas inquietações, fundamentações e aplicações para nossa preocupação e nossas vivências diárias.

Desde 1990 nos deparamos com Zubiri por motivos acadêmicos. Outros tiveram suas datas, horas e motivos. Tempos difíceis, labor de tartaruga e levados para pensar e elaborar nossas perguntas sobre a realidade de nossa gente, que sempre deseja o real. Daria certo? Precisamos dar um valor mais profundo e positivo ao nosso “cair no real”, não para sofrer mais, não entitativo e camaleônico. Por isso, foi uma aprendizagem motivadora e desafiadora. Chegamos a captar com Zubiri, que o nosso pensar concreto e individual, tanto religioso, social como histórico, deve ser libertado de conceitos inventados e criados pelas forças mentais, no desafio grego do que é o ser das coisas, que remonta a Sócrates e em parte a Parmênides. Contudo, parece que o pensamento ocidental foi por outros caminhos. Estávamos perto, mas não continuamos na pista da realidade das coisas.

Nossa história humana parece andou nessa via racional que nos confunde. Para Zubiri, a vida plena e dinâmica do ser humano, intelectual e prática, deve ser liberada, dos conceitos de essência-substância de um lado, porque somos reais, e do outro de inteligência concipiente, como se o juízo fosse medida das coisas, porque somos sencientes. E nós? Mas, isso não é coisa do passado grego ou moderno, senão que neles nos apoiamos e continuamos praticando. Percebemos, que nos apoiamos em ideias e conceitos bem intencionados, mas quase sempre especulações, deixando fora o real. Elaborado tal desafio, abrimos nossos pequenos atrevimentos ariscados no estudo e aplicações para nossa realidade brasileira. Esta é a situação de todos os que estudam e elaboram seus estudos inquietos no e desde o Brasil sobre Zubiri – hoje somos mais de 50, segundo estudo-narrativo-filosófico, que estamos fazendo, chamado “Rios voadores do pensamento de Zubiri no Brasil”.

Este blog tenta jogar sem descanso na nossa terra brasileira, em que “plantando tudo dá”, a semente do real com esforço e unidade de todos sobre o pensamento de Zubiri. Para isso, vamos resgatar com o esforço e a unidade de todos, nossos trabalhos, feitos e a fazer, para uni-los e sacudir nossas preocupações sobre a realidade e a exigência da via senciente, que nos resgata os sentimentos afetantes e a vontade volente de cada um de nós. Juntos, como se diz, seremos mais fortes para ajudar nossa gente. Parece que entramos num caminho vivo e forte.

Em 1990 nos deparamos com Zubiri, incógnito pessoal e filosoficamente. Não foi só por ser espanhol e pela língua espanhola. Nossa história, como a de todos, teve altos e baixos. Essas leituras zubirianas responderiam às nossas constantes inquietações? Entramos na pós-graduação e escolhemos uma linha de pensamento que incluísse nossas perguntas desde criança, (escutamos muitas vezes: quando tenhas o uso das razão…quando um cidadão terá “o uso da razão” diante do chefe e dos políticos a quem deu o trabalho e o voto?), quase eternas, até hoje. Apesar de mais de 25 no Brasil, e com raízes já brasileiras, aprofundamos a antropológica brasileira com as leituras, entre outras, de “As cartas Jesuíticas”“Terra sem mal”“Os sertões”“Vidas secas”; mais tarde Os Meus Romanos de Ina von Binzer, Prefácio de Paulo Duarte e Apresentação de Antonio Callado; “Conscientização”, de Paulo Freire, e “Por uma outra globalização” e outros livros de Milton Santos, entre outros. Também, fomos assíduos dos jornais diários ou semanais. Estudamos História das Ideias de A. Paim (o teimoso pesquisador sobre ao pensamento brasileiro e português) e a mesmo tempo Filosofia do Direito de Miguel Reale. Senti com a leitura de Reale, porquê, até na Europa é tanto estudada sua proposta da teoria tridimensional do direito, fundamentando as normas jurídicas nos valores gerados primeiramente na descrição dos fatos, (eu mesmo o escutei num Simpósio de Filosofias Nacionais em Londrina afirmar: “Que antes da cultura e dos fatos está a realidade”). Entretanto, nos chamou mais a atenção de Tobias Barreto, de quem ele se inspirou, que preocupado com os problemas do povo brasileiro, soube buscar saídas nas propostas oferecidas, as assumiu filosoficamente como mais um passo e, também, as descartou sem medo, (nós cativou sua empreitada nesse caminho: “devemos nos agarrar ao manto de Kant”, e mais tarde, “devemos largar o manto de Kant”). Assim o fez até com o positivismo, sabia e sucessivamente, porque não davam conta de sua preocupação principal até chegar a “Cultura de seu povo”. Aquela dinâmica meio “atordoada” nos convencia mais. Poderíamos seguir nesse caminho? O que nos oferecia Zubiri?

Assim, motivados, mas não sabendo aonde chegaríamos, começamos a fazer estudos e aplicações. Zubiri nos encantou nessa tentativa com suas palavras, estilo, às vezes duro, (Sobre la esencia foi a subida íngreme que devíamos alcançar para um novo horizonte, a sua leitura e estudo o fizemos sozinho, como nas outras obras. Nela presenciamos o “giro metafísico”), mas sempre claramente reflexivo, e elaborações para fazer estudos mais profundos desta situação brasileira. Desta maneira, fomos começando a aprender filosofia e a filosofar. Percebemos em Zubiri, que ele tinha a mesma problemática de Tobias ou de tantos outros: melhorar nossos países e nossa gente nas suas raízes e nos seus problemas. Buscava novos fundamentos e caminhos, porque os trilhados pareciam debilitados e insuficientes. Por isso, felizmente, não fiquei preso ao caminho indicado pelas “intrigas ideológicas” de nossas universidades, privadas e públicas, que infelizmente, de uma forma ou outra, continuam até hoje. Elas seguem repetitivamente se debatendo, sem progredir, em teorias filosóficas, que marcam ideários políticos, que se mostram exaustos na dinâmica humana e filosófica. Embora, todas essas teorias tem uma motivação, não suficientemente investigada e seguida, da época e da história. Também, criam um círculo “acadêmico” e político, curto e fechado, que praticam com os não acadêmicos e os intelectuais aposentados. Husserl, mesmo substituído por Heidegger, deu aula aos discípulos até mais de 80 anos. Não encontramos nessas teorias, e políticas, consistência para a problemática enfrentada.

Porque, nos parece com Zubiri, que devemos escutar a força e dinamicidade do saber filosófico sempre em renovação para ajudar o homem no seu crescimento e propagação. Que homem e que sociedade não quer melhorar independente de qualquer especulação? E, assim, na busca desse insondável abismo pelo homem, pela sociedade e pela história humana, tínhamos que estudar o que cativou, indicar e abrir novos caminhos. Não é o que constatávamos, infelizmente em todo o mundo, e de maneiras sutis, preferindo as modas fáceis do pensamento (como se falava com tensão na época: pensamento duro x pensamento débil) .

Porque continuamos teimando em fundamentar nossa vida e nossas políticas nas ideias, argumentos especulativos e mais conceitos. Elas se transformam em teorias racionais ou racionalistas, as vezes difíceis de entender e aceitar, e por sua vez , em ideologias, que fundamentam todo, tornando-se absolutas e deterministas (meu partido ganhou as eleições…). Da mesma maneira, os filósofos, e nós, também, caímos nesse falso caminho, porque achamos na formação recebida, não na experiência da vida entre adultos e poderosos, que encontrávamos a certeza de pensar e viver. Assim, elas são o novo deus, a nova metafísica, a nova ciência, o novo “calcanhar de Aquiles”, o mal compreendido “ponto de Archimedes”, o novo parâmetro, e medida, que sustentam as ações humanas de todos os tipos: culturais, religiosos, políticos e científicos acadêmicos da falsa dialética da modernidade. Parecem e as praticamos como nossa e nova salvação. Em palavras de Zubiri, com esse pensamento e comportamento teóricos, separados da realidade da gente, “entificamos a realidade” e por isso, a cada um de nós, como entes e ets, correndo no espaço por comida das amas e pelo mineral e domínio do Universo, ou múmias totalmente passivas, mais parecidos a ficções literárias, científicas ou de filmes. Não nós damos conta, que somente usamos elaborações conceituais e nelas não encontramos apoio suficientes. Então, nós somos radicalmente conceituais?

Que podíamos fazer? Diante dessa situação, não podíamos abrir mão do que os gregos descobriram no seu envolvimento com as coisas, com a physis, com o mistério do ser grego. Disso dependia sua polis. Entretanto, Aristóteles diante desse enfrentamento filosófico, pelos seus motivos, querendo corrigir ou superar Platão, destacou mais a lógica da realidade na racionalidade, que muito ajudou no rigor e reflexão de nosso pensar filosófico e científico. Contudo, desvirtuamos seus motivos e por isso falamos e aprendemos e praticamos mais a força de seus argumentos dos silogismos e da lógica. Confundimos motivos, boas intenções e argumentos concretos. Nos desviamos da procura filosófica grega, embora sempre estamos no meio das coisas, “do ser misterioso” para realizar nossa vida. Aristóteles foi mal interpretado, porque fragmentamos sua elaboração, (rigorosa, maravilhosa, mas unilateral) de seus motivos, não reparamos o que ele tinha em mente: podemos chegar à verdade (aspiração genial dos gregos) pelos argumentos e pelo sentir. Entretanto, ele se dedicou mais ao desenvolvimento dos silogismos. Mas, nunca excluiu o valor do sentir, que é capaz de chegar à verdade, ou algo tem a ver com a busca da verdade no ser. E nós caímos nessa dicotomizado entendimento. Não percebemos suficientemente a proposta inicial de Aristóteles. Ficamos na “lógica” do “ser” . E cultivamos a lógica como lógica, não para ativar o ser, como realidade. Cultivamos e decoramos seus argumentos racionais. Os usamos como esgrima intelectual. Inventamos “nossos argumentos” por muitos motivos. Caímos nos aristotelismos, e em todos os “ismos” subsequentes, conscientes ou não, que foram perpetuando o domínio do “homem como animal racional” . E o homem real? Parece que não acabamos de entender o que a filosofia grega levantou sobre a realidade das coisas (e da nossa) e o que temos que fazer.

É bom, então, trazer o texto de 1936 de Zubiri, quando de seu enfrentamento primeiro, como todos hoje, naquelas épocas com as filosofias presentes, que viviam envoltas nesses labirintos racionalistas, com o qual sintonizamos hoje, que nos faz tremer, pela sua clareza ao debruçar-nos com essa incógnita da busca da filosofia, já nessas décadas. Zubiri, sentindo na carne essa situação procurou além da filosofia as ciências. As valorizou e estudou, não somente as humanas, mas as exatas, como poucos o fizeram, assim ele entendeu sua relação de gêmeas-siameses ou simbióticas, Zubiri terá a coragem de afirmar que são congêneres, para a única estrutura dinâmica do homem. Assim diz Zubiri:

“A definição da física não é obra da ciência física. (Zubiri fala disso mais tarde, quando no vídeo de 1978 escutamos dele, que a ciência da astronomia não está nos livros de astronomia senão nas estrelas do firmamento). Enquanto, a obra da filosofia é a conquista de sua própria ideia. Nesse ponto, naquele momento inicial não tem nada para fazer: a filosofia adquiriu consistência própria, e com ela seu conceito adequado: o conceito que a filosofia forjou de si mesma. Já não é o filósofo quem porta ao conceito da filosofia, como acontecia no começo; é a filosofia e seu conceito que portam o filósofo. Nessa captura ou concepção que é o conceito, já não é a mente que capta ou concebe a filosofia; é a filosofia que capta e concebe a mente. O conceito não é propriedade do filósofo; o filósofo é que é propriedade do conceito, porque este brota do que é a filosofia é em si mesma. A filosofia não é obra do filósofo; o filósofo é que obra da filosofia“( NHD 155).

Pensemos que Zubiri falava isso da década de 1930 no meio da bancarrota da crise da razão. Por isso, também, já sentia que a filosofia tinha que mudar.

Porque, a racionalidade e a verdade, foram o grande achado dos gregos, para o pensar humano e filosófico (pelo menos, do ocidente), pois como Zubiri mesmo diz, a sabedoria indiana, se podia tornar: “numa orgia mística ou num frenesi intelectual”. Pois, é diferente o sentido do ser ón grego do sat- indiano. “Para os gregos, a essência é uma caraterística puramente lógica e ontológica para chegar às coisas: é, assim, o que corresponde nas coisas à sua definição e o que lhes dá sua natureza própria. Em contrapartida, o indiano sempre subordina essas noções e outras, mas elementares e de caráter diferente. Para ele, a essência é antes de tudo o extrato mais puro da atividade das coisas; no mesmo sentido em que empregamos ainda hoje o vocábulo quando falamos de essência em perfumaria” (NHD 211).

Por isso, o sast- é calma e paz vedântica, que os gregos, também, perceberam no mergulho no universo, como é a quietude eleática. Porém, os pré-socráticos foram quebrando esta quietude. Porque eles descobrem e nos situam no horizonte da mobilidade para chegar ao ser. Esta foi a herança grega: a humanidade poderia mudar, melhorar. Mas, quem se movia e como se movia?

É verdade que a racionalidade se desenvolveu para esse movimento do ser, foi por isso que somos ocidentais, porque usamos a especulação e razão, mas cada vez mais lógicas, que junto com a definição se tornaram a própria e única racionalidade em forma de sofística, que se estende até nossos dias. Essa especulação em forma sofista é o que vivemos hoje de muitas formas e cores: desde a boa intencionalidade da fundamentação da velha metafísica, do ente e além das coisas, passando pelas formas fechadas e anquilosadas de governos e das teorias sociais e até dos fake neuws, que como falava Leonardo Sakamoto em UOL 10/02/2021: teremos que levantar justificativas quânticas “para (entender) que as mensagens são verdade e mentira ao mesmo tempo”.

E o que percebi, resumidamente, no estudo realizado dentro de diversos e dedicados autores até se transformar arriscadamente em ondas sofistas, racionalidades egoístas longe do pensar reflexivo e do real, que permanecendo nelas, estão fazendo sucesso, soltas e bem pagas e anunciadas nos esconderijos da internet (apenas propaganda?) no mundo em que vivemos. Como nos posicionar pessoal e intelectualmente?

Dessa forma, o lugar da experiência da realidade se fixou no racional. Porém, foram esquecendo “o comércio com as coisas“, (não no sentido atual), da realidade, onde nascemos e devemos fazer e realizar a vida. Não descobrimos “nesse comércio com as coisas” dos gregos, que podíamos mudar constantemente, como gente, como pessoas. Estamos no meio da coisas e delas devemos da conta. Porém, fomos esquecendo o que os gregos descobriram, e também desvirtuamos o comércio com as nossas coisas das quais nos alimentamos cada dia. Implantaram, ou implantamos, a racionalidade solta de nossas vidas, que sempre nascem, crescem e morrem “no meio das coisas” (mundo, universo) Contudo, foi Parmênides, que iniciou uma ontologia do ser, frente a ontogonia indiana. Parece, que até hoje, não conseguimos dar conta e nem a superamos.

Assim, Zubiri foi abrindo os olhos filosóficos e, por isso, afirmamos que essa herança filosófica sempre em construção a fechamos na bolha da repetição, e mais repetições, tanto escolásticas como modernas e muito mais pós-modernas, das mais variadas formas de entes, do conhecimento com seus apriori, de sua mal dirigida fundamentação positivista e científica feitos da puro constatação sensorial, positivista. Hoje de palavras vazias e cheias de boas más intenções. Parece nós sentimos donos da ciência e da filosofia, enquanto somos obra da filosofia que buscamos para explicar e viver como humanos, através da ciência. (O animais não descobriram a filosofia, e nem a ciência, e se as tem, como afirmaria Zubiri, não estamos dentro deles). Ou, então, pedimos ajuda ao mundo oriental sem captar e entender seus valores e seus caminhos, só por mudar, só por novidade. Entretanto, vamos ocupar-nos do que somos, temos por e desde dentro, tanto oriental como ocidentalmente. Todos somos gente, humanos.

Nos perdemos nesse caminho concipiente, principalmente de forma hegeliana. E, “gastamos nossas melhores energias e produzimos toneladas de papel”, afirma Zubiri: textos, teses, livros, escolas filosóficas, palestras presencias e on-line, brigas ideológicas e políticas e até suntuosos congressos. Livros e mais livros, muitas revistas e hoje muitas teleconferências, aulas e conferências magistrais, que levantam hipnotizando o público, Deixamos a parte essencial: a realidade humana em todos os cantos do planeta e sua plena e diversa realização, porque a embalamos sempre em conceitos, que em geral nos fazem sofrer, porque esqueceram de melhor ser, da realidade das coisas e de todos nós. Esse é o caminho da morte, apenas e brilhantemente concipiente.

Vemos então que, não estudamos e interpretamos bem, em nossas inquietudes e motivos, o essencial de nossos cansativos e necessários estudos, que vem desde os gregos. É verdade, que cada filósofo fez o máximo na sua época para mostrar o melhor caminho, mas entendeu como “caminho absoluto”, (os outros povos e pessoas são castas, ignorantes), elaborando o ente, até ser o concipiente o “eu penso”, como o fez como ninguém Hegel e outros. Hoje estamos entretidos com a certeza da incerteza dessas teorias especulativas, parecem valentes, mas ocas e infecundas. E vivemos no relativismo puro e destruidor alegremente. Praticamos a máxima elaboração dessa certeza do caminho marcado e determinado, pelos “sábios de plantão” e, ao mesmo tempo, plena exaustão de seguir explorando a busca radical do saber filosófico.

Nesse caminho marcado, absoluto, geométrico, certo e determinado, e formulado, de várias formas, certo e errado ao mesmo tempo, como o faz Zubiri nos primeiros capítulos de Sobre la esencia, para de vez ter clareza dessa nova forma de essência especulativa, não encontramos nada, aberto para melhorar o homem. Assim, podemos resumir o resultado de todo o esforço do realismo ingênuo, tão vilipendiado, com o distorcido senso comum e, como Zubiri descobre, do idealismo ingênuo, tão elogiado pelo subjetivismo enquistado e celebrado inocentemente por todos. Ambos, ingenuamente, acreditam que as coisas são como elas aparecem ou como são fruto de minha mente (da tábua rasa ou do fatídico eu penso.) Se perderam nos racionalismos e não encontraram o ser, a realidade de todas as coisas e a verdade delas. Eles sempre ficaram longe, separados entre parêntesis ou como resíduos para jogar fora no lixo da história. Então, porque eles vivem ou vivemos, dos benesses de uma sociedade perdida na sua própria crise? Não é essa a grande crise da humanidade diante da imposição da pandemia do Covil-19, porque pensamos não seria possível no nosso mundo tão moderno, rápido e com meios de saúde? Qual deve ser o teor dessa queixa da crise racional -ciência x ter um pensar negacionista unilateral- que enfrentamos?

Desta grande interrogação surgem os inquietos filósofos, da pós-modernidade, que escolhem novos fundamentos para tal: materialismo-socialismo, o inconsciente, a vida, a consciência objetiva, o existencialismo badalado, a linguagem, etc., e como não reconhecer que estamos perdidos, como nunca pela velocidade dos contatos humanos e digitais globais, entre tantos caminhos mal abertos e elaborados, até se contaminando com os fake news, porque são todos concipientes.

Voltemos ao nosso afazer. 

Brentano (1838-1917), um grande escolástico, foi professor e influenciador de E. Husserl (1858-1938). Também teve influência em E. Freud e outros. Brentano e Husserl foram fundamentais na renovação filosófica e criadores da fenomenologia, de finais do século XIX e início do século XX. A objetivação da consciência de Husserl superou a abertura de Brentano da objetivação do pensar. Contudo, Husserl (que era de origem judeu, rejeitado deixou mais de 40.000 folhas manuscritas, que foram salvas por medo à limpa nazista, por um padre franciscano que as levou para Louvain e é aí que suas ideias e escritos foram difundidos), mesmo com suas aberturas, caiu na armadilha idealista, que ele não aceitava. Porém, ele nos abriu a liberdade de pensar e a busca cada vez maior de seus fundamentos. É o essencial da fenomenologia a partir da real e da descrição dos fatos.

F. Nietzsche (1844-1900) no meio deles, completa de “forma irreverente” a situação da filosofia naquele momento, a sua tensão e crescimento incontestável nessa metade do século XIX e início do século XX. Critica esses caminhos sobre a objetividade da consciência, porque ainda dão continuidade a crise da razão. Com suas “loucuras” consegue ir mais profundo nas crise da razão, que deve ser enfrentada e resolvida, nem no inconsciente, nem na vida. É um alerta da continuidade do fracasso e debilidade da razão radicalizando mais esses grandes esforços. Mas não por esses caminhos. Será inspiração de muitos filósofos, inclusive de Zubiri.

Por isso, D. Gracia em 1986, depois de estudar e entender Zubiri, como poucos, falou no final do prefácio de Voluntad de Verdad: “O título deste livro é profundamente zubiriano, embora a expressão Wille zur Wahrheit proceda de Nietzsche, ou tal vez por isso mesmo. Se algo pretendo fundamentar ao longo deste trabalho é a condição rigorosamente pós-nietzscheana ou pós-moderna da atitude filosófica de Zubiri. Também, podemos chamar a esta tarefa filosófica de pós-idealista ou pós-conceptista”.

Por que? Todos sempre desejamos e esperamos, o que Gracia nos reafirma no final do novo prefácio da segunda edição em 2007, vinte anos depois: ” Não é possível fazer filosofia sem empenhar nisso a própria vida. O qual torna inteligível o porquê leva sempre, quando se toma à sério, uma autêntica transformação pessoal. Algo que se encontra a mil léguas de qualquer tipo de erudição ou dilentantismo”. Isso nos lembra que o nosso Gilberto Kujawski ao falar que “a filosofia é própria do homem”. E diz: “Se alguém é capaz de filosofar é capaz de ser homem”. O que nos leva a atitude explicita de Sócrates, a primeira puxada de orelhas de Sócrates, para os dedicados à sabedoria frente aos sofistas. Para que serve, então, o saber? Para ensinar e dirigir os outros? Para que serve o saber do homo sapiens e do “homem que fala o que vê“? Para que servem os conselhos do “amigo”, quando estamos perdidos ou no buraco? Só para mudanças históricas, sociais, políticas, econômicas e empresariais, que chamam “estruturais”, na visão mais forte de Marx, como de outros tantos? Tudo isso queria falar Nietzsche dos caminhos da filosofia.

Entretanto, quem começou esse árduo caminho? Foi a escolástica inquieta de Brentano que alertou e incentivou Husserl, abrindo o caminho da objetividade da fenomenologia, que possibilitou outras fundamentações e vias filosóficas. Contudo, Zubiri e outros muitos reconheceram, que, essas filosofias fenomenológicas, não a fenomenologia profunda e inquieta de Husserl, ficam na racionalidade idealista. Muitas ciências se agarraram a elas, como um triunfo, à essa tentativa da objetividade da consciência fenomenológica e nela permanecem sentindo o desconcerto do “balaio” do caminho concipiente. O movimento racional para o melhor da humanidade fica preso. Não perceberam o mais importante: a busca teimosa de Husserl, não entendida por muitos, do melhor fundamento.

José Ortega e Gasset, professor de Filosofia da Universidade Complutense de Madri, iniciador e incentivador da fenomenologia na Espanha, conheceu Zubiri dentro de suas classes como estudante do seminário de Madri. Andavam juntos para a Universidade. Logo descobriu Ortega o talante filosófico do aluno Zubiri. O teve como discípulo de grande futuro filosófico com outros grandes professores. O transformou em amigo. E o lançou ao desafio filosófico, depois de que escutou do discípulo Zubiri, o texto de Hegel e o Problema Metafísico em 1931. Não se arrependeu de ter dado ao aluno esse incentivo e o primeiro exemplar do Ser e o Tempo de Heidegger, como porta instigante de sua abertura filosófica. Com ele Zubiri estudou um bom tempo e dialogou. Se inspirou na radicalidade indicada no racovitalimso de Ortega, mas teimou em que a realidade á antes do ser, incluindo o raciovitalismo.

Zubiri, Rubio Scristán, Ortega e Pedro Salinas na Universidade Internacional de verão de Santander, em 1933 (Foto: Reprodução)
Zubiri, Ortega y Gasset e Garcia Morente, catedráticos da Universidade Central, em Madri, em 1928 (Foto: Reprodução)

É verdade que Heidegger sentiu isso e entendeu a radicalidade do ser dos gregos, que tinha sido esquecido milenarmente e transformado em ente, como domínio especulativo da razão. Deu uma virada na fenomenologia de Husserl. Este passo meio turbulento husserlinano e heideggeriano, foi inspiração e ponte para Zubiri descobrir que antes do ser está a realidade. Temos que reconhecer, que tanto estávamos acreditando e vivendo nesse caminho concipiente, que nos levou a pensar que não exista saída para o ser pensante, a gente, para o homem imerso na realidade com os pés no chão. Como podemos viver e seguir pensando, somente guiados pelos entes? “Temos que nos aguentar”, porque a realidade (falsa) é assim. Nossa realidade e das das coisas é para sofrer, e criticamos ferrenhamente o “vale de lágrimas” da religião, das sociedades e de todas as políticas. E nele, devemos no obedecer e ser manipulados. Triste futuro. Não podíamos pensar o melhor caminho, embora a todas horas o pensamos e desejamos, porque estávamos no emperramento do horizonte da mobilidade grega e do nihilismo da modernidade, desde Agostinho, elevado finalmente a “Deus-Ideia-Conceito” e por isso endeusado também “como conhecimento separado do real”.

Nietzsche desconfiou e criticou, como que derrubando e duramente esse andaime conceitual e tem a coragem de rasgar sua inspiração, no meio daquele esforço mental, chamando a atenção para essa terrível encruzilhada. E Husserl e Heidegger seguem apostando na luz indicada da objetividade da consciência e do ser. Nietzsche foi inspiração para muitos pensadores, porém, ficamos na “vontade de poder” e não “a vontade de verdade”.

Aconteceu que o jovem Heidegger substitui a Husserl na sua cadeira de filosofia e surge uma nova busca pelas radicalidade com o ser. O novo conceito de “verdade” como “despir as coisas”, terá suas inspirações e, também suas limitações. Heidegger foi um professor brilhante, quando Husserl já era velho e renegado por ser descendente de judeu. O primer dia se apresentou eufórico, ainda de pantalão curto, relata Zubiri. Os interessados se agruparam junto a suas palavras. Escreveu O Ser e o Tempo na famosa cabana da “serra negra” alemã. A essa região e cabana ele dirigia todos os anos seus seguidores e alunos (inclusive Zubiri esteve lá, para gozar a esplêndida paisagem da primavera alemã brilhando de pequenas flores no gramado.) Abaixo o vemos com sua mulher e filhos.

Com o estudo do filósofo X. Zubiri, vemos que se abre um caminho diferente, que nos devolve a imersão na realidade, da qual nos tiraram, e nos maltrataram, e podemos andar com nossos pés no chão, embora sempre poderemos sentir as pedras no caminho na nossa diversa realização. Zubiri nos convidará, como Sísifos, a subir a montanha dos “Andes” (Sobre la esencia), para nos surpreender e ficar atônitos e atrevidos diante da nova visão que se abriu: o horizonte da realidade, intramundano, concreto e individual. Por isso, os que descobrimos Zubiri mergulhamos nesse mar imenso sem medo, embora podemos não encontrar nada. Mas, conscientes de que lutamos num caminho real, porque é senciente, não de conceitos. E um dia podemos chegar lá pelo caminho da realidade.

Tivemos que acompanhar Zubiri com afinco, para usufruir dele. Como todos, iniciamos nossos primeiros passos mostrando nosso encantamento e conhecimentos zubirianos. Hoje não temos medo de expor esses momentos e crescimentos meio aturdidos e seguros. Só em 2010-2011 ajudamos no acabamento da proeza da tradução de “Natureza, História, Deus”, e com mais dedicação no acompanhamento da tradução dos três volumes de “Inteligência senciente” e “Cinco lições de filosofia”, pela editora É Realizações. (Abaixo a foto da tradução de Cinco lições de filosofia e de seu original em formato de bolso, muito usado na Espanha)

Fotos das obras publicadas de X. Zubiri pelas É Realizações entre 2010 e 2011. O Sr. Edson Manuel de Oliveira Filho dono da editora nos deu de presente gentilmente. A usamos até hoje.

A seguir, iremos colocando, nesta ágora simples e atrevida, esses nossas inquietações e textos que produzimos nas leituras destas obras e das que tinta do autor. Por isso continuaremos ajudando as publicações dessas outras obras a nossa língua. Estaremos estudando dentro do nosso pensamento e podemos enriquecer nossa língua brasileira. Esse encantamento e o esforço necessário tem a finalidade de nos expor e motivar os outros a fazer o mesmo. Desta forma iremos criando uma unidade de estudos e desafios zubirianos. A finalidade é divulgar mais as propostas de Zubiri e assim que elas possam ajudar para pensar e esclarecer novos fundamentos intelectuais, para a atividade inteligente brasileira e suas aplicações na vida de pessoas, de gente com os pés no chão.

As três primeiras, intitulamos de Trilogia da realidade (Sobre la esencia, Sobre lo real e Estructura dinámica de la realidad) estavam prontas para serem publicadas, não o foram. Era a promessa de publicar, ainda, Os problemas fundamentais de la metafísica Occidental e Sobre el Sentimiento y Volición. Dois grandes obras que fechariam as bases do inédito pensamento zubiriano. Todas elas constam na compra dos direitos autorais, pela secretária geral Marta LLadó da Fundação de Madri, para o português. Esperemos, pela necessidade de nossos estudos luso-brasileiros e riqueza de nossa língua filosofando, que sejam editadas brevemente essas obras e, assim, poderemos estudar, em nossa língua de forma rigorosa e aprovada pela Fundação de Madri, obra fundamental de Zubiri, que nos servirão de base para as nossas pesquisas zubirianas. Desejamos um dia, próximo e necessário, ter, também, a insondável, imprescindível e inspiradora Trilogia Teologal em recuperação mais original (Sobre el Hombre y Dios, Sobre la Religión e El problema Teologal del Hombre: Cristianismo* -(hoje, El problema teologal del Hombre: Dios, religião, critianismo) seja traduzida ao português. O interesse de muitos autores mostram a necessidade de refazer o tema de Deus e suas doutrinas e ritos no Brasil e tradução dessa trilogia seria fundamental para todos. Esperemos que isso aconteça, logo, junto com os cursos privados e desafiadores, (hoje já quatro volumes), que já estão publicados pela Editora Alianza, e outros inéditos a serem publicados na responsabilidade do Diretor de Publicações Antonio González da Fundación de Madrid.

E, finalmente, vemos na foto embaixo, o Zubiri jovem com alguns de seus cúmplices intelectuais, passeando e sentindo até os transtornos do dia a dia, mesmo no tempo do descanso e lazer no meio dos vizinhos do lugar do Vale Tiétar. (Não pensemos que pessoa de Zubiri era fechada e metida a intelectual. Gostava de jantar com os amigos e de assistir na sua cidade aos touros, como vemos embaixo). Que fazer? Tomar fôlego juntos e tentar o concerto para que o carro volte a funcionar. Alguma coisa cansou de funcionar, alguma coisa saiu da estrutura e função do motor. E, Zubiri, uma vez consciente com seus amigos do enguiço, ajuda os ajuda no conserto para voltar para Madri. Não adiante se lamentar. Esta será nossa empreitada: aceitar os erros, refletir e tomar decisões no andamento da filosófica brasileira. Ao finalizar nossa apresentação nos perguntamos, como bom brasileiros, diante da foto dos amigos comprometidos com Zubiri: “e agora José?”. Por onde começamos a pensar o país? Vamos que vamos, procurar a meta do “retorno ao real”

(Passeio de Arturo Soria, Xavier Zubiri, Luis Cifuentes diante do carro enguiçado no vale do Tiétar -junho de 1934).

O toureiro Domingo Ortega, X. Zubiri e o cirurgião Mariano Zúmel em San Sebastián no início dos anos setenta. Também ia junto ao irmão Fernando. Zubiri um filósofo especial e diferente junto com seus famosos amigos. Não devemos estranhar esta foto de Zubiri acompanhado por um médico cirurgião e um toureiro, nas suas férias que todo ano ia à casa da família, contudo com malas de livros. (Anedota de 1958 da sobrinha que entra no seu quarto: “Tio, este ano tem trazido mais colas como nunca, assim é qualquer escreve um livro!”). Zubiri foi um filosofo, mas em primeiro lugar foi pessoa, brincava com gosto com seus sobrinhos. Se divertia com seus amigos. Não teve filhos. Era gente de sua terra e região na sua época. Não precisamos de isolamento hermético para pensar filosófica e cientificamente. Só na hora de nossa scholé, que é de muitos modos. Queremos dizer, é que na convivência relaxada, no sofá, a mesa do escritório ou na mesa do café, que saem as discussões e inspirações profundas. A pesar de quase desfalecer ao pensar na poltrona de seu quarto, se juntava com sus alunos e colegas interessados na seu afazer filosófico, num diálogo respeitoso e progressivo. Viveu como todos, teve doenças, muita enxaqueca até quase os sessenta anos, e operações sucessivas. E segundo constatado, o médico plantonista, quando o levaram repentinamente muito doente para o hospital, bosquejou: “Em fim só”. Como todos.

Então, “mãos à obra do real (metafísica do) e da via senciente (noologia)” no meio de nossa gente brasileira, cheia de sol e alegria, para todos retornar ao real.

              

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