“Un señor que vino del Brasil”

*Por José Fernández Tejada

“Aldeia de caboclos em Cantagalo”, pintura de Jean-Baptiste Debret, datada do século XIX (Imagem: Reprodução)

“Um senhor que veio do Brasil” é o título de um trabalho científico publicado na Revista de Índias. Américo Castro nasceu em Cantagalo, no Rio de Janeiro, em 1885, e morou na cidade na sua infância. Seus pais tinham o Bazar Espanhol e foram muito participantes na cidade. Américo casou com Carmen Madinaveitia na Espanha. E tiveram dois filhos, Carmen e Luis. A vida dos Américo Castro foi movimentada por causa de sua importância intelectual e política: esteve na América Latina, na Alemanha e nos Estados Unidos, entretanto nasceu no Brasil. E X. Zubiri casou com a filha de Américo, Carmen.

Ao centro, Xavier Zubiri sentado ao lado de Américo Castro, em Alemanha 1931.( Foto: Reprodução)

Desejamos lembrar esta ligação com Brasil. Somos todos humanos, gente e inteligentes sencientes em qualquer lugar da terra. Somos todos itinerantes: buscamos o melhor, entretanto, nem sempre o encontramos. Devemos enfrentar as dificuldades da vida e dar conta delas. Somos caminhantes “com pedras no caminho”, mas seguiremos sendo caminhantes, porque queremos viver e transmitir a vida, que de nossos pais recebemos. Cada um a sua maneira, sempre com trabalho físico e mental. Pois bem, Zubiri casou com Carmen Castro, filha do filólogo, escritor, historiador e humanista Américo Castro, e reconhecido republicano atuante, que nasceu em Cantagalo (RJ) em 1885. Américo ainda é lembrado na cidade fluminense, onde morou com sua família, quando voltou com ela para Granada, na Espanha, onde se formou e foi detrás de sua inquietude. Todavia é hispano-brasileiro como o mostra nos seus escritos sobre a história da Península Ibérica expandindo-se e emigrante. Teve amizade com Gilberto Freyre – tanto que existe um centro de pesquisa dele na Espanha – e voltou a Cantagalo à convite da UFRJ, em 1946, quando deu palestras e minicurso sobre suas ideias e métodos.

Historiador, Humanista e Filólogo de fama mundial, Américo Castro nasceu e morou em Cantagalo (1885-1972).  Jornal da Região. 28/9/2020.

Mais de 40 anos depois de ter saído, Castro visitou Cantagalo. Como foi aquele reencontro com os seus conterrâneos?

Ele foi convidado pela Universidade do Rio de Janeiro para dar umas conferências, mas estava com vontade de ver Cantagalo. Castro falou o seguinte para o jornal carioca A Noite, no dia 4 de julho de 1946: “Fui lá pelo desejo de conhecer minha cidade natal. Venho encantado com ela. Uma pequena e deliciosa cidade de ruas largas e limpas, bem traçada, singela, mas cheia de vida. Ali as coisas se tocam de um ar civilizado. A própria cadeia parece um hotel. Há pessoas de boa cultura. Tive surpresas até no domínio da filosofia. As moças de lá não são apenas bonitas e amáveis, mas cultas e interessadas pelos problemas de ordem geral. Gostei de conversar com elas. A cidade, apesar da pequena população que possui, desfruta de uma vida intensa. É um curioso exemplo de municipalismo, mas tem também características intelectuais de um grande centro. Não sou estranho às fases críticas por que passou Cantagalo; tenho, por isso, a impressão de que renasce nesta hora. Suas fazendas de gado e café reconquistam uma economia seriamente ameaçada. Dão-lhe, porém, o lastro econômico para estimular a nova fase que atravessa. É curioso recordar o palácio que lá deixou o barão de Nova Friburgo. Seu atual proprietário, filho de quem o havia adquirido, está tentando restaurar o palácio em suas linhas tradicionais, removendo para lá o mobiliário disperso e restabelecendo o ambiente, no que contribui para a restauração de um monumento. Mas não é apenas isso: esse moço é um espírito moderno e empreendedor, e está transformando a fazenda numa fazenda moderna, à maneira dos homens de visão larga, consagrando suas energias à terra, com amor e cultura. Pelo que vê, venho encantado de Cantagalo. Foi para mim uma alegria testemunhar a sua vitalidade e o surpreendente aspecto de civilização que oferece, apesar de seus poucos recursos. Um belo exemplo, enfim, de cidade do interior”.

“Américo Castro (Cantagalo, Brasil, 1885 – Praia de Aro, Gerona, Espanha, 1972), é o autor de uma das mais importantes interpretações da História da Espanha. Foi fundador da seção de estudos hispano-americanos do Centro de Estudos Históricos. Impulsionou a criação da revista “Terra Firme”, que se editou entre 1935 e 1938, e é antecedente da “Revista de Indias”. Nesse trabalho se estudam os aspetos americanistas de sua obra e se analisam os principais episódios de sua ação política, seus périplos americanos e de seu exilio em várias universidades norte-americanas”. “Un señor que llegó del BrasilAmérico Castro y la realidad histórica de América”. In Revista de Indias, 2002, vol. LXII, núm. 226 Págs. 651-674, ISSN: 0034-8341 R. I., 2002, n.º 224 SALVADOR BERNABÉU ALBERT, Escuela de Estudios Hispanoamericanos, CSIC.

Américo Castro sem condição de viver e pensar intelectualmente, perseguido e julgado no regime militar em Espanha, se instala, entre várias opções da América, nos Estados Unidos, em Pricenton. Já, dando aulas na cátedra de Língua espanhola, consegue mandar algum subsídio para o casal Zubiri, o que ajuda a melhorar o nível do casal na pós-guerra. Zubiri, quando visitou os sogros em Pricenton em 1945, pode se reunir com colegas alemães e espanhóis que estudaram juntos na Alemanha. Entretanto ficará feliz de conseguir encontrar, graças a uma bibliotecária iranista sempre atualizada, um artigo que ele sabe que foi publicado em Upsala, sobre a língua suméria, porém não relembra do tema nem do autor e revista em que foi publicado. Zubiri se surpreende, porque ela em poucos minutos traz esse trabalho raro e ainda oferece uma cópia. ( Corominas e. in Soledad sonora).

Assim em 1945 o casal Zubiri, depois de vários anos, visita a seu sogro Américo, mulher e filho e revê alguns de seus amigos. Zubiri, ademais estar satisfazendo o apego familiar, se encontra com o velho amigo Severo Ochoa, seu grande parceiro. Se contaminam falando de neurobiologia e variantes encontradas, de que é especialista Ochoa e ele em filosofia. E também se encontra com o neurologista, Espanhol Rafaell Lorente de No, do Instituo Rockefeller. Estes contatos com eles serão muito importantes ao longo do desenvolvimento da inédita proposta zubiriana. Fruto desse encontro familiar e intelectual, entre sogro e genro, Américo mandará mais tarde uma carta a Zubiri em 1964 pedindo: “aclarações sobre as noções filosóficas como ‘substantividade’, porque quer usar para “fortificar” seus estudos históricos”. Este era o novo apoio que o genro, que tinha descoberto, para fundamentar desde a pessoa até a inteligência, e, também, fundamentar e mudar o buscar das ciências. Porém, sempre a partir e para a melhor realização humana.

Por essa ocasião, de 1945 em Princenton, Zubiri não perde a ocasião de expor sua inspiração radical no meio de cientistas e matemáticos e dá uma conferência na biblioteca do Departamento de Filosofia de Princenton: “Le réel e las matematiques: un problème philosophique”. Zubiri se aproxima da incompletude K. Gödel, onde se confirma, estudando matemáticas, sua tarefa inédita de que o real é antes do ser. Zubiri se apega, como foi com a física quântica, ao teorema de Gödel, porque ele “acaba confirmando a teoria de Wittgenstein sobre a debilidade inerente à razão. Há coisas que não podem ser demonstradas senão somente mostrar” (Corominas in Soledad sonora, 536-537). Essas temáticas da fraqueza da razão, junto com a crise dela, é que preocupavam Zubiri e o desafiam na sua inspiração. E como superá-la? Os dois sogro e genro estão empenhados.

Américo Casto, depois de um longo exílio, morre na Espanha em julho de 1972. As raízes humanas onde nascemos não podem ser cortadas. Elas nos deram a vida que vivemos. Alguma imprensa espanhola ainda comete a gafe, em parte com muita razão, de que “é um historiador brasileiro”. É sim, Américo Castro é hispano-brasileiro. Contudo, temos certeza que Américo nasceu em Cantagalo de Rio de Janeiro. Embora, no início houve uma relação algo difícil, intelectual e religiosa, entre os dois, sogro e genro, os dois se motivaram. Insólito, Zubiri um filósofo-teólogo cristão pede no seu testamento que o enterrem no cemitério civil, no túmulo do sogro Américo Castro, que foi republicano. Terminam juntos, um agnóstico e um homem de fé católica -não tradicionalista- que sempre lutaram juntos por uma Espanha e mundo melhor. Os dois estão pensando o mesmo: a radicalização do pensar de Zubiri, parece chega primeiro, e o faz no giro metafísico, que posiciona a busca, tanto científica como filosófica, antes das especulações de todo tipo: cultural, religioso, filosófico e histórico e de tudo. É o que Américo estava buscando para fortificar seus estudos, pedindo ajuda zubiriana da substantividade da realidade humana. E assim, Zubiri se junta para sempre a Américo na tarefa o de unir as “duas Espanhas” (tradicional religiosa e em recuperação). Relembramos que a Biblioteca particular de Américo está no mesmo recinto que a Biblioteca de Zubiri.

A seguir copiamos para os interessados, para facilitar a pesquisa da história brasileira e espanhola, o texto na íntegra do Jornal da Região 2020.

“Pesquisador espanhol publica novos dados sobre a desconhecida biografia cantagalense de Américo Castro

Pablo González Velasco é um antropólogo espanhol, especializado em Gilberto Freyre, e acaba de publicar um artigo na Revista Estudios Brasileños da Universidade de Salamanca, intitulado “Saudades de Cantagalo. Nuevos datos sobre la desconocida biografía brasileña de Américo Castro”.

Em sua pesquisa, Pablo González afirma que o historiador de fama mundial Américo Castro nasceu e morou na rua Mão de Luva, em Cantagalo. Nessa entrevista, Pablo González publica novos dados sobre a desconhecida biografia do cantagalense Américo Castro.

Por que se interessou pela vida de Américo Castro em Cantagalo?

A amizade do pernambucano Gilberto Freyre com o hispanobrasileiro nascido em Cantagalo, Américo Castro, estimulou minha curiosidade para pesquisar a infância cantagalense do filólogo e historiador universalmente conhecido. Tinha lido cartas de Américo Castro na Casa de Recife do mestre de Apipucos. Os dados biográficos que existiam dos discípulos de Castro eram contraditórios e confusos. Valia a pena pesquisar porque trata-se de uma ponte de união entre Espanha e Brasil. Castro foi um pioneiro de uma elaboração da história da Península Ibérica com fontes literárias, dando valor aos grupos tradicionalmente excluídos como os judeus e os mouriscos. A família Castro vinha de Granada e voltou ao mesmo lugar.

Como foi feita a pesquisa?

Pablo González Velasco é o antropólogo e pesquisador espanhol que publicou novos dados sobre a desconhecida biografia cantagalense de Américo Castro
Pablo González Velasco é o antropólogo e pesquisador espanhol que publicou novos dados sobre a desconhecida biografia cantagalense de Américo Castro

Foi feita através de fontes locais em Cantagalo, especialmente no Acervo Edmo Rodrigues Lutterbach, e a hemeroteca digital brasileira. Wesley da Silva Gonçalves, historiador e coordenador local do Centro de Memória, Pesquisa e Documentação de Cantagalo, teve uma participação decisiva.

Exatamente quais foram os achados?

A pesquisa aborda diferentes aspectos: a localização da casa onde nasceu, a situação da família, as atividades da sua visita em 1946, suas impressões de Cantagalo, os reconhecimentos post-mortem e as “saudades” que ele expressou em carta a seus amigos brasileiros. Sem pretender questionar, em termos gerais, as interpretações de seus discípulos, é possível realizar novas análises biográficas complementares, enfatizando sua infância brasileira (lusófona) e sua capacidade de entender a pluralidade étnica.

Quanto tempo morou a família Castro em Cantagalo e onde nasceu Américo?

Aproximadamente 14 anos, no final do século XIX. Eles eram “negociantes” e tinham o Bazar Hespanhol, onde também moravam. Aí nasceu Américo Castro no dia 4 de maio de 1885. Estava na Rua Mão de Luva, 22. Como aconteceram várias mudanças de nome de rua, acreditamos que ficava a 22 metros da esquina das ruas Barão de Cantagalo e Maestro Joaquim Antônio Naegele, em sentido oposto à Praça João XXIII. Sabemos que o pai António de Castro Pérez tinha muita participação na vida social da cidade, e a mãe, Carmen Quezada Gálvez, passou em Cantagalo os mais felizes anos da sua vida. Ela presenciou a visita do imperador Dom Pedro II.

Mais de 40 anos depois de ter saído, Castro visitou Cantagalo. Como foi aquele reencontro com os seus conterrâneos?

Ele foi convidado pela Universidade do Rio de Janeiro para dar umas conferências, mas estava com vontade de ver Cantagalo. Castro falou o seguinte para o jornal carioca A Noite no dia 4 de julho de 1946: “Fui lá pelo desejo de conhecer minha cidade natal. Venho encantado com ela. Uma pequena e deliciosa cidade de ruas largas e limpas, bem traçada, singela, mas cheia de vida. Ali as coisas se tocam de um ar civilizado. A própria cadeia parece um hotel. Há pessoas de boa cultura. Tive surpresas até no domínio da filosofia. As moças de lá não são apenas bonitas e amáveis, mas cultas e interessadas pelos problemas de ordem geral. Gostei de conversar com elas. A cidade apesar da pequena população que possui, desfruta de uma vida intensa. É um curioso exemplo de municipalismo, mas tem também características intelectuais de um grande centro. Não sou estranho as fases críticas por que passou Cantagalo; tenho, por isso, a impressão de que renasce nesta hora. Suas fazendas de gado e café reconquistam uma economia seriamente ameaçada. Dão-lhe, porém, o lastro econômico para estimular a nova fase que atravessa. É curioso recordar o palácio que lá deixou o barão de Nova Friburgo. Seu atual proprietário, filho de quem o havia adquirido, está tentando restaurar o palácio em suas linhas tradicionais, removendo para lá o mobiliário disperso e restabelecendo o ambiente, no que contribui para a restauração de um monumento. Mas não é apenas isso: esse moço é um espírito moderno e empreendedor, e está transformando a fazenda numa fazenda moderna, à maneira dos homens de visão larga, consagrando suas energias à terra, com amor e cultura. Pelo que vê, venho encantado de Cantagalo. Foi para mim uma alegria testemunhar a sua vitalidade e o surpreendente aspecto de civilização que oferece, apesar de seus poucos recursos. Um belo exemplo, enfim, de cidade interior!”.

Américo tinha saudades de Cantagalo?

Tinha. Assim o expressou a várias cartas com seus amigos brasileiros, em particular com o cantagalense Edmo Rodrigues Lutterbach, que foi quem divulgou a vida e obra de Américo em Cantagalo. Inclusive Edmo disse que Cantagalo não esqueceria jamais.

O que recomenda para Cantagalo recuperar a memória deste filho pródigo?

Seria interessante que os estudantes de Cantagalo conheçam, por exemplo, o livro de Américo “Iberoamérica: su historia y su cultura”, onde fala também do Brasil, ou “La realidad histórica de España”, onde fala da história da miscigenação cultural dos cristãos, dos judeus e dos mouros na Península Ibérica. Como propõe Wesley da Silva Gonçalves, com meu apoio e do vereador João Bôsco, poderia se criar o dia da imigração espanhola em Cantagalo, com uma homenagem inicial, com algum elemento material, como uma placa, para imortalizar a memória de dom Américo. Sobre as possíveis efemérides a comemorar, além do nascimento (acabou de fazer seu 135 aniversário), temos no dia 30 de junho de 2021 (1946) os 75 anos da visita de Américo Castro a Cantagalo. Com certeza, teriam o apoio do Instituto Cervantes do Rio de Janeiro e de outras autoridades espanholas”.

Sim, amigos de Cantagalo, assino embaixo: recuperemos nossa história, porque não nascemos do nada, espontaneamente, ou como, jogados por ninguém, falamos da cegonha. Somos filhos de nossos pais que se amaram, que lutaram para abrir-se na vida o lugar que os acolhe. Como diria Zubiri, somos agentes (nascemos num lugar e de uns pais), atores (desempenhamos nosso papel nesse espaço vital), mas somos autores (escolhemos sempre, como isso fazemos ao longo da vida). E você de Cantagalo tem esse orgulho de ser agente e ator, de ter nascido entre vocês Américo Castro, que agora relembramos, para juntar-se com a honra do nascimento, também, em Cantagalo de Euclides da Cunha e de todos vocês. Parabéns a todos que moram nessas serras (morros -do-mar) que plantando tudo dá: café, feijão, cana-de-açucar, milho, mandioca… Hoje explora a extração de calcário para cimento e cal e, também, para corretivo dos solos. Embora, o seu problema preocupante é a deterioração do meio ambiente. Entretanto, sempre os que fazem a história de Cantagalo são vocês: são seus autores. Podem contar conosco. A história está em nossas mãos. Obrigado por conhecê-los.

Como podemos apreciar nesta pequena pesquisa, Américo Castro ressalta saudosamente os valores encontrados na sua cidade de Cantagalo, perdida nos “morros-do-mar”, a 200 quilômetros de Rio de Janeiro. Fala com carinho de sua gente aberta e em concreto do novo dono que está recuperando a casa-palacete que foi residência do Barão de Nova Friburgo. Para Américo, a renovação do palacete seria o símbolo do amadurecimento cidadão e social de Cantagalo. Pois, não aceitam o fracasso, o sofrimento, a passiva aceitação, como falamos, “dão a volta por cima”. Este palacete de que fala Américo está na chamada Fazenda São Clemente. Podemos apreciar a seguir.

Vista aérea da cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

Para saber mais sobre a Fazenda São Clemente, leia este texto.

Dialogando com os pesquisadores do Centro de Estúdios brasileños de Salamanca e com a Revista de estúdios brasileños de Madri. Rio de Janeiro 18/02/2021.

(conferir blog: estadoiberico. Conferença -YouTube- de José Manuel Santos: Porqué estudiar el Brasil Hispánico? e na Revista de Estúdios brasileños (vol. 7, numero 15, pp225-234) : Saudades de Cantagalo: nuevos dados sobre la desconhecida biografia de Américo Castro, de Pablo González Velasco. VEr:

Conceito de Gilberto Freyre é discutido na Espanha
Nos 120 anos do sociólogo fundador da Fundaj, instituição pernambucana é co-parceira em Congresso Internacional em Salamanca, na Espanha. Por Portal FolhaPE25/02/20 e
Congresso Internacional de Ciências Sociais e Humanas «La hispanidad y las presencias andalusíes y orientales en la obra de Gilberto Freyre». Congresso em Salamanca, Espanha, em 02/2020.

Chamada para trabalhosCiências Humanas e SociaisEstudos Brasileiros

É com muita alegria, é claro saudoso até a morte da terra e família, de ser mais brasileiro (de 1964 até hoje=quase 56 anos) que espanhol (nasci e morei em Aldealobos de Ocón, La Rioja, até os 26 anos), que minha preocupação humana está sempre presente do porquê colocamos impedimentos de todas as classes para sentir e reconhecer realmente que somos todos iguais e com muitos valores diversos.

Um exemplo. Por que as crianças das pequenas aldeias, onde nasci, brigávamos mutuamente com os de outra aldeia não sei porquê, até de pedradas, se vivíamos à menos de 700 metros, e tomávamos banho todos juntos na mesma represa pequena e até éramos primos? Por que finalmente nos tornávamos inimigos naqueles momentos? Por que cultivávamos tais impedimentos? Que diferenças defendíamos para deixar de sermos pessoas crianças, já inoculados por motivos quase desconhecidos? Esta experiência e inquietude infantis são o belo exemplo do que estamos preocupados ao desentranhar no comportamento e ambientes familiares, sociais e históricos. Então vamos continuar refletindo.

Bem, o “trabalho histórico” de José Manuel Santos e toda sua equipe de Salamanca e de Pablo Gonzalez Velasco, de Madri, nos anima e nos desafia de novo nessa tarefa que não podemos apagar e menos deixar de lado. Em primeiro lugar, muito obrigado por este encontro onde compartilhamos nossos mesmos desafios. Os serei sempre agradecido e seguiremos juntos até… A José Manuel pelo esforço inquieto de historiador dividindo esse trabalho com seus colegas.

Sim José Manuel: somos itinerantes. E você nos mostra ricamente como mapa dessas viagens, que não são puramente comerciais, mas estatais e missioneiras. A realidade é aberta escolhendo um montão de possibilidades, nem sempre como as nomeamos de egoístas. A Pablo nossa alegria de encontrar-nos numa indagação dos laços de Espanha e Brasil, podiam ser outros países, e aprofundar como isso foi feito com pessoas amigas, mas inquietas pela superação das pedras no caminho desses países por homens itinerantes pela sua plural e diversa realização do ser humano. Obrigado por valorizar Gilberto Freire, tão esquecido propositalmente por nós brasileiros, fazendo-nos quase ressuscitá-lo entre nós.

Sim, todos podemos enriquecer nossa terra em que nascemos e vivemos nossas vidas. Américo Castro, que nasceu em Cantagalo, é um exemplo singular. O seu nome vem do desejo do pai de relembrar América, Brasil. Américo, mais tarde, conseguiu entrar como exilado nos Estados Unidos, graças a nacionalidade brasileira. Porque embora, voltou, com pequena idade com a família, para sua terra Granada, essa estância brasileira foi importante tanto afetivamente, como os insigts raros de historiador: rompendo os muros desses impedimentos históricos, intelectuais, bairristas e de cores. Foi, também, espanhol. Na sua cultura e língua espanhola mergulhou como ninguém, também em Cervantes, e tentou iluminar tais raros e sofredores entraves, que sentiu na carne, como filho de emigrante. Nunca esqueceu! Superou refletindo, falando e escrevendo essas inquietações e sua superações.

Por que nos estranhamos se somos a mesma gente radicada, homo sapiens sapiens em cada lugar onde nascemos e vivemos? Segundo, mais se pesquisa, essa força especial de Américo é fruto em boa parte dessa vivência brasileira e espanhola, que revolucionou a história. Na sua inspiração Américo escreveu com firmeza que Espanha e Portugal, não somente são cristãs, mas, ao mesmo tempo, são judeus e mouros. Dessa maneira, somos, tal vez os únicos estados e países, do mundo, incluindo Brasil, que se pode afirmar, que somos ocidentais e orientais ao mesmo tempo. Estaria nessa riqueza nosso problema humano? Parece que sim, porque esse ambiente-paisagem (situs) e teor do caminho, de tantas e ricas diferenças foi criado pelo homem para se realizar. Acertou? Temos muitas dúvidas. A história dos povos deve ser pesquisada e falada com menos preconceitos fáceis e muitas vezes injustos.

Atualmente me deparo com essa relação tão ímpar de Américo e Zubiri, cada um na sua tarefa, que trabalharam distantes, mas unidos pelos mesmos objetivos.

O que podemos afirmar, de nossa parte de fazer filosofia fazendo, é que a filha de Américo Castro Carmem Castro casou com X. Zubiri. Eles se conheceram em Berlin, porque Zubiri era professor da Carmem, e conviveu com os jovens espanhóis em Berlin. Américo naquele tempo era professor mais experiente em sabedoria e política, porque tinha decidido ser republicano. Por isso, Américo estava de embaixador em Berlin. Porém, Zubiri ainda estava fazendo sua vida pessoal e intelectual e era padre. Vimos os dois juntos na foto passeando num barco. Essa tranquilidade era parte da vida intelectual itinerante dos dois.

Embora, Zubiri tinha ido à Alemanha para continuar seu desafio intelectual, também lá, se enamorou da filha de Américo. Certamente ele não gostou muito que sua única filha se enamorasse de um padre, esquecendo um pouco do valor do professor jovem Zubiri, reconhecido até por ele. É normal que um pai zele pelos seus filhos. Mas isso, piorou porque o casal tinha uma diferença de dez anos e surgiram certos distanciamentos, que a filha sempre resolvia, como ela o fez com Zubiri, com seu jeito de mulher e formada e estudiosa da literatura espanhola. Américo perseguido pela ditadura teve que refugiar-se em vários países. O casal Zubiri visitou a família em 1945 em Wassington. E, a partir dessa visita foi mudando o distanciamento.

Em 1964 Américo Castro pede em carta a filha ajuda ao genro Zubiri. O Zubiri de sua filha tinha afirmado, em Sobre la esencia, que a realidade era substantiva, não mais ente ou substância, fruto de qualquer tipo de teorias. Sua aparente tensão familiar será selada na paz e união dos dois: Zubiri deixou o pedido de ser enterrado no mesmo túmulo do sogro Américo Castro no cemitério civil. Assim reza a placa de mármore.

Por isso, Américo Castro, pouco antes de morrer com 87 anos, escreve ao amigo Edmo Rodrigues Lutterbar desafiando-se: ” um dia virá em que superados os ódios, se veja que uma explicação do passado no Pensamento Ibérico, possa interessar, através de Portugal ao Brasil”. Sim, todas nossas distâncias e querelas se resumem no ódio entre as pessoas ignorantes e interesseiras. Porém, o homem e seus estados não são radicalmente ódio. Zubiri morreu , mas sua pessoa inquieta segue até hoje. E nos poderemos segui-lo. Isto nos leva a trazer à tona o exemplo de rixa entre crianças das pequenas aldeias. Sim, naquele momento defendendo de que somos da aldeia de Aldealobos ou de Los Molinos, diferença aparentemente infantil e boba, se pratica o ódio, que quando jovens e adultos se transformará em brigas sociais e históricas e até familiares.

Que diferenças podem justificar a tensões entre os estados e países? Que diferenças há entre hispânicos, portugueses e brasileiros? Que diferença há entre hispânicos, judeus e mouros?° Que diferenças há entre regiões de cada país para nos distanciarmos? Que diferença há entre Oriente e Ocidente? Não são todos povoados por pessoas que buscam e “emigram” para viver? Uma notícia mal entendida, mal contada (hoje acontece muito isso, intriga ou fofoca nacional ou internacional e como os fake news favorecem as intrigas), uma história unilateral sem apoio de dados realmente pesquisados, despertam o pior dos sentimentos que o homem é capaz para viver bem e unidos.

A grande riqueza de todas nossas diferenças que temos e cultivamos sempre, sendo todos pessoas, são motivo muitas vezes dos nossos ódios.

Entretanto, gostamos de praticar, e até cultivamos em todo tipo de bullyinng, (no meu tempo rir e zombar dos outros, era brincadeira feia) de muitos modos, até escondidos. De novo, como tantas vezes, nos perguntamos: por que esse ódio se somos iguais e irmãos? Parece que essa expressão de que somos iguais e irmãos enche nossa boca, mas não tem ação correspondente, contudo, essa deve ser a empreitada de todos. E nós estamos tentando fazer a nossa parte, como José Manuel e Pablo estão fazendo a sua.

Gostaria, juntos, seguir tentado nosso empenho pelo homem, revelado em vários escritos feitos, e mais agora neste blog, de colocar meu grau de areia nessa tarefa inóspita, porém inadiável, do entendimento e união de todos os povos.

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