Sobre la esencia (1962). (Parte I)

Segunda etapa do pensamento de X. Zubiri

Metafísica da realidade-

Minhas reflexões seguiram uma via oposta: o ser se fundamenta na realidade”. “Foi o tema de meu livro Sobre la esencia” (NHD. 28 e 29).

Não se trata, em efeito, de tomar dois conceitos já feitos, o da substância e o da essência, e ver de acoplá-los de uma ou outra forma, senão em colocar-se o problema, que debaixo desses dois vocábulos late, o problema da estrutura radical da realidade e de seu momento essencial (SE. 6).

É realidade todo e somente aquilo, que atua sobre as demais coisas ou sobre sí mesmo em virtude formalmente das notas que posse. Expliquemo-lo” (id. 104).

“Desde outro ponto de vista, dentro das realidades humanas, há uma radical diferença de condições metafísicas. A realização humana, em efeito executa atos que como tais são a realização de algo possível” (id. 204).

“Pois bem, esse caráter constitucional é justo o que chamamos “substantividade”. O que a constitui é uma substantividade, e realidade assim constituída é uma realidade substantiva” (id. 146).

O fim do saber essencial não é intuir nem definir, senão apreender na sua unidade coerência primária, as notas constitutivas necessárias, e suficientes para que a realidade substantiva tenha todas suas notas” (id. 353).

“Segundo costumo falar desde há muitos anos, a coisa me é presente como algo ‘de seu’” (id. 394).

Introdução. (de Sobre la esencia)

Por Xavier Zubiri.

“Esta (é uma) especulação sobre a substância”.

(Aristóteles, Met. 1069 a 18.)

Essência é o título de um dos temas centrais de toda metafísica. O vocábulo latino essentia é um termo culto; é o abstrato de um presunto particípio presente essens (esente) do verbo esse (ser).Morfologicamente é, pois, o homólogo exato do grego ousía, que é pela sua vez (ou quando menos assim era percebido pelos gregos) um abstrato do particípio presente feminino ousía do verbo eînai (ser). Esta homologia poderia levar a pensar que ousía significava essência. Sem embargo, não é assim.  O vocábulo grego, na linguagem usual, é muito rico em sentidos e matizes; e muitos deles usa Aristóteles. Mas, quando o filósofo o usou em termo técnico, significou não essência, senão substancia, substância. Pelo contrário, o que este vocábulo latino traduz exatamente é o termo úpokeímenon, aquilo que “está-por-baixo-de”, o que “é-suporte-de” acidentes (sinbebnókta).

Não é uma mera complicação de azares linguísticos; e para o próprio Aristóteles, a ousía, a substância, é especialmente e em primeira linha (malvista) o úpokeímenon, o sujeito, o subs-tante. Pelo contrário, a essência corresponde mais bem ao que Aristóteles clamou tó t´em eínai e os latinos de quidditas, “o que” é a oúsía, a substância. Para Aristóteles, a realidade é radicalmente substância e a essência é o momento dela.  A essência é, pois, sempre e só, essência da substância.

Esta implicação, ou mútua referência de essência e substância dentro de sua inegável distinção, tem percorrido como é forçoso, ao longo de toda a história da filosofia, porém cobrando distinto caráter. Durante a Idade Média se repetem fundamentalmente as ideias de Aristóteles sobre esse ponto. Mas, a partir de finais do século XIV e culminando a ideia em Descartes, a essência começa a dissociar-se da substância, e fica referida a esta de um modo, por assim falar laxo. Descartes não duvida. Em efeito, de que a só evidência imediata garante que a essência do ego é ser res cogitans, algo pensante, entanto que a essência do mundo é ser uma res extensa, algo extenso.

Agora bem, aqui, res não significa coisa, isto é substância, senão tão somente o que a escolástica entendia por res, a saber, a essência no seu sentido latíssimo, o “que”; contudo tenho traduzido o termo por “algo”. E esta res ou essência é tão distinta de “coisa” ou substância, que para apreender àquela seria suficiente à cogitação evidente, entanto que para assegurar-se de que a essência se encontra realizada em “coisas ou substância”, não basta a Descartes com a evidência, senão que tem que dar o problemático rodeio de apelar nada menos que a veracidade infinita. A essência e a substância ficam implicadas, pois, mas da maneira mais laxa concebível: tão somente pela potentia Dei ordinata, pelo poder “razoável” de Deus.

A partir de este momento esse vínculo quase cai por sí mesmo, e a substância fica além da essência; não podia menos de suceder assim. Porém, a essência continua referida a uma substância especial, a substância pensante. Que em quanto pensante seria um sujeito substancial. A essência seria então um ato formal de concepção desse pensamento ou quando menos seu termo meramente objetivo: é o idealismo da essência nas suas formas e matizes.

Na filosofia atual, é verdade que ainda esta implicação parece desvanecer-se. Fiel, se não à letra, sim ao espírito cartesiano, Husserl seguindo ao escolástico Brentano, afirmará que as essências nada tem que ver com as substâncias, porque a consciência mesma não é substância pura. De sorte que o orbe inteiro das essências repousa sobre sí mesmo. As substâncias não são senão suas incertas e contingentes realizações. É a deformação mais cartesiana do cartesianismo. Um passo a mais, e des-substancializada a consciência, fica reduzida ao ser “minha consciência”, e este “mim” cobra o caráter de ser simplesmente “meu próprio existir”. Com o qual, o que antes se chamou “sujeito” pensante, consciência, etc., é agora somente uma espécie de ímpeto existencial, cujas possibilidades de realização dentro da situação em que se encontra, são justamente a essência, algo assim como um precipitado essencial do puro existir. É a tese de todos os existencialismos. A realidade tem ficado des-substancializada e a essência realizada em forma puramente situacional e histórica.

Poderíamos pensar, então, que os acontecimentos intelectuais tenham recaído mais bem sobre a substância que sobre a essência, como se o conceito desta se tivesse conservado imperturbavelmente idêntico na filosofia. Nada mais errôneo. Porém, é um erro explicável, porque os termos consagrados pela má tradição multissecular podem produzir, pelo mero fato de sua consagração, a enganosa impressão de que ao empregá-lo, todos entendem da mesma maneira, quando a verdade é que muitas vezes envolvem conceitos diferentes. E isso é o que ocorre em nosso caso.

Ao fio da transformação do conceito de realidade como substância, se tem transformado o conceito de “o que” é essa realidade, a saber, a essência. Por singular paradoxo nos encontramos, pois, diante mesmo problema, que desde um princípio teve que debater-se o próprio Aristóteles: a implicação entre a estrutura radical da realidade e a índole de sua essência.

Por isso é que tenho colocado, como lema do trabalho, a frase com que começa Aristóteles o livro XII de sua Metafísica: “Esta (é uma) especulação sobre a substância”.  Nesta passagem Aristóteles reafirma sua ideia da realidade como substância, e trata de encontrar suas causas. Mas nada impede -todo o contrário- aplicar àquela frase uma investigação acerca da essência da substância tal como ele a leva a cabo no livro VII. Agora bem, ao inovar essa frase não o faço como título de um propósito de repetir as ideias, senão como lembrança da primariedade com que Aristóteles enfrenta esse problema, e como um convite a recomeçá-lo. Não se trata, em efeito, de tomar dois conceitos já feitos, o de substância e da essência, e ver de acoplá-los numa outra forma, senão de plantear-se o problema que debaixo desses dois vocábulos late, o problema estrutural da realidade e de seu momento essencial (SE. 6).

Capítulo primeiro. O problema da essência.

“Em definitiva nos perguntamos em primeiro lugar, pela essência considerada não como término de nossa maneira de afrontar as coisas reais, senão como momento delas. No segundo momento, nos perguntamos da entrada por esse momento considerado em si mesmo, e não no seu eventual respeito à existência. Em terceiro lugar, no perguntamos finalmente por esse momento como momento estrutural e físico da coisa real. Tal é a direção que vamos afrontar o problema da essência. A primeira vista pudesse parecer que é uma redução do problema metafísico da essência da coisa à “mero essencial” dela, quer dizer, somente ao mais importante do que a coisa é. Porém, veremos no curso desse estudo que não é assim, senão todo o contrário.

Fica com isso marcado o caminho inicial de nossa pesquisa. Antecipando ideias, começarei por uma determinação provisional do conceito de essência, que será por sua vez uma formulação mais precisa de nosso problema. Examinarei depois alguns conceitos mais importantes do que se tem dado na filosofia para essência, não tanto por um legítimo desejo de informação, senão como meio, em certo modo dialético, para enfocar a visão de essência. Então, estaremos já em franquia para tratar finalmente de enfrentar-nos de uma maneira direta e positiva com o problema da essência” (id. 10).

(Editora Alianza S. A., Madrid, 1985. Primeira ed. em Aliazana Editorial S. A.. Depois de quatro edições da “Sociedad de Estudios y Publicaciones”: 1962, 1963, 1963 e 1972. Pp. 1-6 e 10).

Resumo Introdutório. Capítulo sexto. (SE. 97-101).

Por Xavier Zubiri.

(Traduzimos, também, este capítulo, porque é considerado o melhor resumo do próprio Zubiri de problema enfrentado em Sobre la esencia o que ajudará a que fique mais claro a problematição feita por ele.)

Nós propomos averiguar que a essência. Com o objetivo de acercar-nos melhor ao problema, é que tenho demorado na discussão de alguns conceitos clássicos da existência. O resultado mais tangível dessa discussão tem sido mostrar-nos que se queremos saber que é primária e formalmente a essência, é forçoso retrotrair-nos à realidade por si mesma e inquirir nela qual é esse momento estrutural seu, que chamamos essência, tomando-o em si, independentemente de toda função ulterior que possa desempenhar, seja na ordem da existência, seja na ordem da especificação, etcetera.

Para isso, voltemos ao ponto de partida de nossa investigação. Comecei por uma determinação provisional do conceito de essência. Não tinha naquele momento mais finalidade que a de encaminhar a discussão com as ideias usuais de essência. Agora, ao entrar já a tratar diretamente da essência, como momento estrutural da realidade, é necessário recolher rápida e sistematicamente o dito naquela determinação provisional para orientar nossos próprios passos.

Na acepção mais inócua, essência é pura e simplesmente o “que” de algo, quer dizer, a totalidade das notas que possui, tomadas na sua unidade interna. Porém, este “que” pronto se nos mostra em nossa experiência como algo mais ou menos variável, sem que por isso a coisa deixe de ser a mesma. E então, é essência a unidade interna daquelas notas que presumivelmente compõem a mesmidade da coisa e impedem confundi-la com outras. E isso nos força a perguntar-nos, quais são, dentro dessas notas que pertencem à mesmidade da coisa, as que em estrito rigor não podem faltar a essa coisa, e ainda, que tem de possuir necessariamente para que não deixe de ser o que era antes na acepção anterior. Ao conjunto unitário destas notas, que necessariamente possui a coisa real, é ao que no sentido formal e próprio chamamos essência.

Esta unidade da essência tem dois caracteres fundamentais. Em primeiro lugar, é uma unidade primária, porque nela as diversas notas, não são senão momentos abstratos em que se desprega aquela unidade originária. Em segundo lugar, como não todas as notas que uma coisa real possui hic et nunc lhe são essenciais, resulta que a essência, frente a todo o demais que tem ou pode ter ou não ter a coisa, constitui na sua unidade de realidade verdadeira de dita coisa; o princípio de suas demais notas. Uma unidade primária realidade verdadeira e principial: é aqui, pois, os dois caracteres que, por tanto, possui a essência como unidade interna daquilo que não pode faltar à coisa, que compete necessariamente a ela.

Em definitiva, em nossa determinação provisional, a essência compreende, pelo menos, cinco pontos, que convêm destacar distintamente:

1º. A essência é um momento de uma coisa real.

2 º. Este momento é unidade primária de suas notas.

3 º. Esta unidade é intrínseca à coisa mesma.

4º. Esta unidade é um princípio em que se fundamentam as demais notas (necessárias ou não) da coisa.

5º. A essência, assim entendida é, dentro da coisa, sua verdade, a verdade da realidade.

Pois bem, o breve análises das ideias mais usuais acerca da essência, não tem sido uma mera curiosidade histórica nem uma simples discussão dialética, senão o caminho que nos tem aproximado positivamente ao preciso problematismo da essência. E isso por duas maneiras.  Em primeiro lugar, ao mostrar-nos que aquelas concepções não são totalmente falsas, porém sim radicalmente insuficientes, a discussão nos tem feito ver o que a essência não pode ser, e o que formalmente tem de ser, quer dizer, nos têm levado a destacar tematicamente esses cinco pontos. A unidade primária, efetivamente, não pode ser extrínseca à coisa, senão intrínseca a ela, de sorte que é inamissível interpretar a essência como “sentido”, que flutuará sobre si mesmo, independentemente da realidade de fato. Por outra parte, como realidade verdadeira, é a essência a que tem de ser fundamento de todo conceito formal e objetivo, e não ao contrário. Finalmente, a essência não é formalmente o princípio da especificação expressado numa definição, senão que é um momento estrutural físico da coisa tomada em e por si mesma. Correlativamente, o inessencial não é o puramente fático; nem tampouco é um “mero ser”, nem é o extra conceitual, nem é o individuante.

Porém, a discussão teve ademais outro objetivo. Não somente destacou aqueles cinco pontos, senão que os mostrou radicalmente problemáticos. Neste sentido, a discussão não foi uma “refutação”, senão todo o contrário, uma espécie de primeira aproximação por tateios aporéticos, à correta conceição desses pontos. Basta com deter-nos um momento na reflexão sobre cada um deles. Por exemplo, depois do que temos dito a propósito do insuficiente da diferença entre o natural e o artificial em Aristóteles, que se entende por coisa real? Que as notas essenciais constituam uma unidade per se, o sabemos desde Aristóteles e o repetem Descartes e Leibniz. Porém, de que unidade se trata? Não é unidade conceptiva, como diria Leibniz. Que esta unidade seja intrínseca à coisa, o demonstrou Husserl, porém não sabemos a ciência certa, que é formalmente intrínseca a essência na coisa mesma.   Que a essência seja o princípio é claro; porém que é esse princípio e de que é princípio? Não o é desde logo, um princípio gerante, como queria Hegel. E a essência não é princípio tão só de certas notas necessárias. Finalmente, que a essência seja realidade verdadeira da coisa, está sempre claro que por essa verdade não se entenda primariamente a correspondência com o conceito, como falavam Leibniz e Hegel, seguindo, em parte, a filosofia medieval. Que essa correspondência exista, é inegável, porém é formalmente alheia à essência e à verdade primária da coisa. Então, que é essa verdade da coisa?

Com a nossa reflexão descobrimos, pois, que a fórmula provisional do que é essência, não passa de ser uma vaga indicação, cujos possíveis erros temos descoberto pelas ideias anteriores. É necessário, por tanto, precisar com rigor aquela fórmula. Enfrentados diretamente com a realidade, é nela onde devemos buscar isso que é sua essência e qual é a índole daqueles cinco pontos, quer dizer, qual é essa chamada “função especial”, que o que designamos com o nome de essência, desempenha dentro da coisa real mesma e pelo que ela é em si mesma. Essa função é o que constitui a essência como momento estrutural “físico” da coisa. É aqui o que buscamos.

Para poder precisar sua índole procedamos pelos que enumeramos. Ao analisar a ideia aristotélica de essência, e a título de antecipação, sugerimos o exame das três questões que designei então, de uma maneira quase puramente nominal: o essenciável, o essenciado e a essência mesma. Entendo por “essenciável” o âmbito só dentro do qual existem as coisas que possuem essências, embora nem todas as possuam. Chamo “essenciada” à coisa, que dentro desse âmbito possui própria e estritamente essência. Finalmente, temos que encontrar a “essência” mesma como momento estrutural e formal de dita coisa. Estes três conceitos são o título dos três problemas que aponta a ideia de essência:

1º A essência, falamos, é o conjunto do que não pode faltar à coisa real, o que é necessário a ela. Porém, de que se trata? E que se entende aqui por realidade? É justamente, a delimitação estrita da área do “essenciável”.

2º A essência é a realidade verdadeira. Quer dizer, dentro do essenciável há algumas realidades, não todas, que são “verdadeiras”, a diferença de outras que não o são. Quais são estas que chamamos “verdadeiras realidades”? Estas serão as realidades “essenciadas”.

3 º A essência é uma unidade primária de suas notas e princípio necessitante, quando menos de algumas das demais notas da coisa. Quais são estas notas? Em que consiste o carater principial intrínseco da real? Só averiguando-o teremos apreendido a “essência” em si mesma, como momento estrutural e físico da realidade, o que constitui, dentro dela, a diferença entre o essencial e a inessencial.

O essenciável, o essenciado, a essência mesma: é aqui, pois, os três círculos do problema com que nos temos que enfrentar.

(Editora Alianza S. A., Madrid, 1985. Primeira ed. Em Aliazana Editorial S. A.. Depois de quatro edições da “Sociedad de Estudios y Publicaciones”: 1962, 1963, 1963 e 1972. Pp.97-101)

Nota 1. Breve apresentação sobre a leitura de Sobre la esencia.

“Minhas reflexões seguiram uma via oposta: o ser se fundamenta na realidade. A metafísica é o fundamento da ontologia” (NHD 28)

“Diante dessas quatro gigantescas substantivações, do espaço, do tempo, da consciência e do ser, tentei uma ideia do real anterior àquelas. Foi o tema de meu livro Sobre la esencia (Madrid 1962). “A filosofia não é filosofia da objetividade nem do ente, não é fenomenologia nem ontologia; é filosofia do real enquanto real, é metafísica” (NHD. 29).

Todos nos espantamos de uma “maravilha da natureza”, seja como se locomove uma centopeia, como da imensidão e força das águas das cataratas de Iguaçu ou da garganta do Diabo, e de tantas outras no mundo. Diante desse espanto logo nos perguntamos, onde surgiu essa energia e força? Como anda a centopeia? Por isso, que Thomas Fowler escreveu a respeito: da filosofia proposta por Zubiri:

“Alguma vez já se comoveu com uma peça musical, ou se emocionou ao máximo diante de uma grande obra de arte, ou um poema magnífico deixando-se em temor? Você não acreditou que esse momento comunicava a você uma grande verdade? Ao ler uma grande obra de literatura, você não fala acerca de Hamlet e Dom Quixote como se fossem reais? Ao estudar matemáticas, na houve um momento em que a beleza e o poder do assunto o levaram a desejar saber acerca da realidade dos objetos que estudou? E sua experiência diária da vida: tocar e ouvir? Não lhe comunicam uma experiência deprimente da realidade do mundo: pessoas, lugares, coisas, eventos […] não se dá conta de uma caraterística de sua apercepção da realidade que de alguma maneira só garante a si mesma? […] você não pensa que a ciência nos diz algo acerca do mundo também? Aristóteles disse que a filosofia começa com admiração, pois bem se você desejou saber qualquer dessa coisas achará Xavier Zubiri e sua filosofia imediatamente interessante e acessível”.

Por isso, Saldanha Alves Braga, quando em 2005, fez o primeiro TCC no Brasil sobre Zubiri (A crítica da inteligência em Xavier Zubiri), postou este parágrafo de Fowler no primeiro capítulo, como expressão de sua admiração e espanto diante do que ele percebeu em Zubiri. A surpresa ímpar que temos ao ler Zubiri é esse maravilhamento diante de uma elaboração filosófica que nos atrai irresistivelmente, embora não a entendemos de repente e nem a possamos aplicar plenamente. Ao igual do que sentimos diante de uma centopeia, de umas cataratas, da imensidão dos oceanos, de uma música de Bach ou gregoriana, da flauta no Andes, das pinturas desde as rupestres até a atuais, desde o primeiros números sentidos pelos fenícios, de tantos avanços científicos, diante dos milhões de informações da via digital […] não nos despertam para a realidade radical, nua, do mundo e da nossa, seja qual for, frente as realidades deformadas que nos servem todos os dias e a todas as horas? Não nós levam, a expressar, finalmente, rendendo-nos  a desejar “cair no real”?

Bem essa é experiência desafiadora que sentimos ao ler Zubiri desde as primeiras páginas, sejam da época que sejam, ou dos anos 1940 ou de 1962, ou de 1980. O que nos espanta e atrai é que estamos entrando (imersos) em nosso terreno, em nossa vida, situações e problemas com a iluminação de um foco de luz radiante e diáfano, “violentamente diáfano”, totalmente diferente da luz de penumbra e pobre dos conceitos milenares, apenas nos dando uma obscura e limitada representação da realidade. Mas, essa experiência que vemos, e relatada por muitos leitores de Zubiri, falam de cativação, de “amores a primeira vista”, “quase devoção”, dedicação, diante das obras de Zubiri. Isso que desejamos a você ao se debruçar em Sobre la esencia.

O espanto certamente será como ele nos oferece uma nova sabedoria da formalidade da realidade, que se faz presente e se atualiza na inteligência, que sente. Entretanto, sabemos que essa admiração vai ser diferente e até rejeitada com a forma, rigor e cuidado de seu pensamento nessa exposição sobre o resgate da realidade e nós como realidades de “carne e osso”. Sua admiração diante de Sobre la esencia terá momentos de “tédio de lógica” e sabedoria dos motivos e temas dos gigantes da filosofia, mas valerá a pena sua admiração final pelo que nos abriu do horizonte da realidade.

Por que essa preocupação com a leitura de Zubiri especialmente de Sobre la esencia? Ademais, de alertar, da experiência marcante e longa de Ortega para fazer filosofia na Espanha como ensaio, nesse ambiente se produziam as expectativas mais variadas como veremos, está a forma de tratado que Zubiri inaugura depois de Natureza, História, Deus. Não chega a ele por capricho filosófico. Zubiri estudou toda a crise da razão e da sociedade, o que exigiu dele uma visão ais ampla da filosofia e um tratamento mais rigoroso e insistente. Fora da ambivalente recepção de sua obra, os verdadeiramente interessados, já sentiam isso na participação nos seus cursos.

Por isso, o ímpeto jovem de I. Ellacuría ao descobrir Zubiri, logo apresentará em 1965 ao próprio filósofo os famosos Índices de Sobre la esencua de Xavier Zubiri, com 194 páginas. Nele Ellacuría, não de forma insubstintuível, apresenta um Índice de Materias, um Índice esquemático e um Índice ideológico. E isso, “para facilitar o manejo desta obra tão importante e tão difícil de dominar e ainda de estudar” (Ellacurría 7).

Pelos mesmos motivos, o interessado por Zubiri, E. Ramos Gangoso escreveu em 1964 uma Exposicióm Sumária e Crítica de Sobre la esencia del Doctor X. Zubiri, com 69 páginas. Assim justifica esse trabalho: “Foi meu propósito fazer algo menos difícil para muitos leitores, a leitura do original, não muito fácil, entre outros motivos pela introdução de palavras novas, inventadas ou postas em circulação pelo autor. Difícil, também, pela multidão de distinções e subdistinções que superam os cérebros de Suarez e Duns Escoto, e pelas abundantes repetições que entorpecem a leitura e obscurecem o sentido” . Hoje ainda, entendemos, devido a tantos “pensamentos débeis” da ciência e dos ensaios filosóficos achamos conveniente seguir essas preocupações com a leitura de Zubiri, principalmente com a leitura de Sobre la esencia.

Várias vezes temos lido essa obra e em situações diferentes, ainda me lembro da primeira vez atolondrado na metade da década a de 1990, porém essa leitura tem sido um desafio constante e incalculável diante da riqueza dela. “Difícil o osso de roer”, mas também degustando esse algo mais que ele nos transmite, que é o fundo desse estremecimento de todos os que se aproximam dele. Como vamos explicar na próxima nota não foi fácil para ninguém, e nem para ele. Zubiri foi elaborando como ourives, sua inspiração radical –a realidade é antes do ser– a passo de tartaruga, com reflexão rigorosa e vigorosa. Grão a grão, degrau sobre degrau, elo por elo até chegar mais perto a riqueza da insoldável estrutura da realidade.

A leitura, que convido a fazer, não é completa e nem exaustiva, nem para ele foi, porque o faremos da mão –de Sobre la esencia-, palavra por palavra, frase por frase, e página por página. Pensamento por pensamento para desgranar e tentar assimilar pausadamente e  com paradas bruscas, porém dadivosas. Um exercício de pensar nas coisas que a todos nos fazem pensar, porque somos reais, porém temos a experiência de que fomos tratados como entes, como seres soltos da realidade, de nosso mundo. “Como marionetes”.

Nota 2. “O ambiente” de expectativa da publicação de Sobre la esencia.

A publicação de Natureza, História, Deus em 1944 foi o início “público” do filósofo X. Zubiri. Mas, não no sentido dos sofistas para ensinar e viver melhor. Não vendeu seu saber, nem para a universidade oficial franquista. Podemos comparar sem receio essa atitude dele, repetimos diferente da postura sofística, com Sócrates, que se retira do público dos sofistas e só se dedica aos amigos e povo de sua vizinhança. Ele cria assim uma nova Sabedoria (socrática) no meio dos conhecidos e de sua cidade e que a autoridade pública não aceitou, até o condenou a morte.

Assim, Zubiri cativado e possuído por essa sabedoria socrática, com os pés no chão do saber, a admiração e espanto pelo homem, tomou a decisão de sair do ambiente das faculdades públicas espanhoas, para dialogar com todos e dedicar-se com liberdade a pensar nas coisas que o faziam pensar, com seus amigos e colegas. Como Sócrates não abriu mão do verdadeiro saber da realidade do homem. Foi sua fonte de inspiração e para eles ensinava a pensar. Aqueles textos, daquela  primeira obra, mostram isso e “necessariamente” tinham como base a crítica da atitude intelectual e humana, ou humano e intelectual, sempre separados. Para Zubiri foi uma libertação das armadilhas do controle seu pensamento, porque nos continuam tornando infecundos para a vida, e, ainda, nos ensinam a fazer repetições ocas, que só interessavam ao poder político do momento, como foi no caso de Sócrates no tempo dos sofistas.  

Por isso, se desligou da Universidade Pública oficial da época. Não ficou receoso e com medo de sua atitude intelectual. Sem um dinheiro no bolso voltou a Madri, onde ele teve a liberdade de pensar motivado por Ortega e outros intelectuais e a pedido dos amigos começou a expor aquela inédita sabedoria na Espanha, retrógrada e ditatorial, frente a toda a filosofia “macarrônica” que se ensinava nas faculdades e colégios, através de cursos privados para seus amigos e “vizinhos”. E claro, com eles foi complementando seu sustento diário com as traduções que ele e sua esposa (doutorada em literatura espanhola) foram fazendo do alemão e francês.

Com esse livro, Natureza, História, Deus, houve um despertar de muitos espanhóis que o leram, sendo ajudados a se preparar para a vida escolhendo cargos e carreiras, que exigiam um saber pensante das coisas reais. Enriqueceu e ajudou muitos na hora de decidir seus caminhos. A leitura desses textos respiravam outros ares. Por isso a aceitação, até hoje, com sucessivas edições (mais de 13) e traduções (mais de 5). Esse despertar dos espanhóis, e dos vizinhos do mundo, para um saber reflexivo, critico e criador será reforçado mais tarde com a leitura de Cinco lições de Filosofia. São os dois livros que mais edições têm até hoje. Espanhóis anônimos e discípulos declarados foram cativados para andar melhor na luz do saber humano, seja do povo, religioso, filosófico e científico.

Na elaboração destes trabalhos Zubiri teve a firmeza de sua inspiração radical de todos os homens, que a fez sua, de que tinha que mudar o fundamento do saber: a realidade das coisas, e a realidade do homem são antes do ser, de sua existência. Em definitiva, todos, sentimos, que, temos nascido num país de terra, de pais de carne osso, precisávamos comer dos frutos plantados na terra, nela temos nosso sustento, nossas alegrias e tristezas, nela temos nossos amores e filhos. Tínhamos que elaborar que a realidade, a nossa também, é anterior a qualquer elaboração posterior. Mas, como podia ser nesse mundo dos pré-conceitos? Porém, Zubiri teimou que esse era o caminho. “A anterioridade, da que fala Zubiri, é uma anterioridade na ordem intelectiva: “a coisa-realidade” e “coisa-sentido” são congêneres, porém equivalentes; a segunda envolve intrinsecamente a primeira e se encontra estruturalmente fundada nela” (Corominas 616). Assim seria nosso caminho de vida.

Essas inquietações de sua intrépida preocupação intelectual foram reforçadas com a fenomenologia, mas logo descobriu que ela e outras muitas tentativas eram dualistas e representativas da realidade, sem compromisso com a realidade humana existente, e acontecendo, e, diríamos, funcionando.

Esse primeiro livro é a expressão da primeira etapa, despertou, até no povo falsamente eufórico, uma expectativa de esperá-lo com ansiedade com motivos muito diversos, com a expectativa do seu outro livro que falavam estava escrevendo. Não podia ser menos depois de estar fazendo todas as formas para tirar “Espanha invertebrada” do mundo entitativo em crise total.  Essas expectativas foram muito diversas, até em alguns dos primeiros discípulos. O fato é que Zubiri publicou Sobre la esencia no meio destas expectativas. Mas, sobre o que estava escrevendo, si ele estava dedicado totalmente aos cursos privados? Entretanto, nos cursos privados falava coisas que respondiam aos anseios profundos e do dia das pessoas, tanto que em alguns desses cursos eram frequentados por pessoas de outros países, inclusive do Brasil. Esses cursos eram verdadeiras fornalhas de expectativas inusitadas para uma via nova para as pessoas, embora não claras. Todos viram neles pensamentos incoativos de nova sabedoria.

É verdade que Zubiri, que sempre trabalhou intelectualmente a passo de tartaruga Zubiri, não gostava se exibir e nem aceitar imposições sofistas, seja da universidade seja da sociedade, nem de seus pares. Não gostava de propaganda vazia, porém recebia muito bem a todos, inclusive aos que se aproximavam fazendo perguntas. Assim o fez como muitos discípulos, como, por exemplo, com Ignácio Ellacuría que o elevou a amigo, quase filho, e colaborador de sua criatividade, durante muito tempo nesse caminhar. Ele lembrava para algum deles: “eu também perguntava muito a Husserl”. E ele sempre tentava responder e motivar. Assim, quase ninguém conseguiu entrever o amadurecimento irreversível a que chegou a Sobre la esencia. O que sentiam e se encantavam os frequentadores de seus cursos é que suas aulas eram um lugar criativo de uma fome nova de falar da filosofia.

Nesse envolvimento intelectual com o mundo, Zubiri foi buscando o que é realidade primordialmente para a pessoa. Por isso, fruto desse esforço incomum, passou a escrever denodadamente sobre a gente, que era o que mais o fazia pensar: Sobre a Pessoa. Dedicou muito tempo a essa impreterível tarefa e chegou a escrever mais de 200 páginas. À respeito diz Corominas:

“Tinha previsto dar cinco lições tituladas “Sobre la persona” (num curso que esta dando. Entanto, quando as desenvolve se produz um drástico cambio de orientação no projeto do livro que está escrevendo. A análises da realidade pessoal o conduz inexoravelmente a uma doutrina geral da realidade que, ainda não tem todavia bem elaborada. Para despegar uma noção da pessoa que seja uma boa alternativa a outras baseadas na ideia de substância, deve desenvolver mais ideias sobre a estrutura, as propriedades e a essência da substantividade.  Zubiri acredita agora que antes de escrever um livro sobre a pessoa deve escrever sobre a realidade e suas estruturas básicas. Este novo livro, que se titulará Sobre la esencia, deverá conter uma nova teoria zubiriana da substantividade e da realidade em quanto tal. Tardará três anos mais em acabá-lo” (Corominas 602-3). (As aulas do curso sobre a pessoa estão recolhidas, hoje, parcialmente na Revista de Occidente e postumamente no volumem Sobre el hombre).

Vemos como deixou de escrever sobre a pessoa, onde uma nota que fez sobre de que entendia por realidade ocupava poucas linhas e a partir dela escreveu o livro Sobre la esencia, que tem 517 páginas. Sim, ele estava elaborando a segunda etapa intelectual, que já é metafísica, e não mais fenomenologia e nem ontológica, que publicou quase vinte anos depois de Natureza, História, Deus. Conclui Corominas na apreciação desta etapa: “O objeto particular da atenção de Zubiri nesses anos tem sido a realidade humana. Quem tem seguido seus cursos acreditam haver aprendido dele os perfis de uma nova antropologia” (id. 605). Os temas que vai elaborar mais já estão presentes nos cursos como realidade, realidade pessoal, inteligência senciente, “de seu”, etc. São peças que serão desenvolvidas e encaixadas em Sobre la esencia. E assim o diz várias vezes Zubiri nas próprias páginas desse livro. A estas alturas Zubiri mostra outra forma de fazer filosofia e Corominas resume:

“Por cima do valor decisivo que se atribui a seus ensinamentos está o fato de que muitos o consideram como exemplo e mestre de vida intelectual. Admiram sua autenticidade pessoal e uma incansável vontade de verdade que o conduz continuamente a repensar os problemas e a afinar suas concepções no transcurso de seu trabalho denodado. Sometendo-o agora ao duro ofício de escrever” (id. 606).

O livro foi publicado no meio desses ambivalentes entendidos, com euforia espanhola de quase toda sociedade. A isto ajudou na época a situação histórica de Espanha: que solicita a abertura de negociações com o Mercado Comum Europeu, até por pessoas seguidoras do franquismo. O povo espanhol se abria ao desenvolvendo intelectual e econômico da Europa. O casamento do príncipe Juan Carlos com a princesa Sofia de Grecia, será visto como uma possível saída da ditadura.

Quando em junho de 1961 Zubiri tem quase pronto o novo livro, que mantém o nome em secreto até para o jovem discípulo Ellacuría, escreve a sua esposa Carmem: “Me contento que ateu pai (Américo Castro) não tenha a má impressão de meu engendro. Contento-me que as pessoas não o vejam como inadmissível. O demais! Sabes? Escrever um livro é um grandíssimo fastígio. Caramba” (id. 607).

“Uns dias antes de Natal de 1962, (depois de muitas revisões e desentendimentos com os editores e com ele mesmo) aparece finalmente Sobre la esencia, editado pela Sociedad de Esudios y Publicaciones. Nele Zubiri define sua filosofia enfrentando-se fundamentalmente com Husserl e com Heidegger” … “O livro se converte de imediato num best-seller. Em poucas semanas é necessário fazer duas novas edições para satisfazer a demanda” (id. 614).

Se, muitos compraram o livro, até para revender, seus pares espanhóis, e mais tarde seus pares europeus, criticam a produção de Zubiri tachando, até com ignomínias, e catalogando-o, como escolástico, tradicional e materialista. O título não atrai, tanto que confessará mais tarde o filósofo que devia ter se intitulado o Sobre a realidad, já que era esse o nó a desatar por ele. “E ainda, se deparam (os leitores) com um vocabulário técnico muito difícil para as pessoas acostumadas a ensaios ligeiros. Quem se empenha em ler o livro não costuma ter uns conhecimentos das filosofias de Husserl e Heidegger, suficientes como para apreciar com quem está dialogando Zubiri. Para colmo, a obra deixa em penumbra algumas claves decisivas para a correta assimilação. Zubiri não faz nada para que o leitor, longe de introduzir lhe na sua posição, a dá por suposta; tampouco lhe oferece nenhuma pista sobre o que é verdadeiramente importante. A ambiguidade de alguns fragmentos consegue, inclusive, que intérpretes com a maior boa vontade e conhecedores do transfundo fenomenológico e heideggeriano leiam Sobre la esencia como uma re-atualização de Aristóteles, o que os leva a se perder em questões obsoletas ou marginais” (id. 620).

Entretanto, também foi bem interpretada por alguns dos questionamentos dinâmicos desta obra, mesmo diante das neblinas aludidas.  “Cremos, que Zubiri está dentro da grande escolástica –escreve José María de Alejandro- não dentro de um partido; suas diferenças com Aristóteles não são de princípio, senão de penetração e avanço”. “Na história da filosofia representa o pensamento clássico e Zubiri uma marca importante, sem pretensão de inovação revolucionária de sinalada importância calçado do pensamento clássico, sem gabar-se de inovação revolucionária, vem a completar suas insuficiências, sem desviar-se de sua trajetória fundamental” (J. Zaragüeta). Temos a surpresa grata de saber, que no Brasil nos anos 1963, o espanhol vivendo no Brasil há mais de 30 anos, R. P. Malarriga, biólogo, escreveu um livro em espanhol, aqui no Brasil, depois da leitura de Sobre la esencia, viu “Uma teorira da espécie” a propósito de X. Zubiri Sobre la esencia, (tem mais de 120 páginas),Instituto Geobiológico. Canoas. RS. Ele vê no livro de Zubiri um tesouro, conseguindo destacar no pensamento central de Sobre la esencia uma metafísica intramundana e  ainda no seu “Apêndice” nos diz que naquela “obra havia um pensamento incoativo”.

Porém, teve seus detratores em Espanha, como na Europa: “O realismo ibérico não autoriza a uma indissolúvel vinculação materialista. É pouco estanho e azarado, que o maior pensador dos útimos tempos suscite essas inquietudes” (Pablo Cepada) (Corominas 618).  Apenas vamos nomear os nomes dos que menosprezaram Zubiri: Heidegger (“não faz nenhum comentário”), Gadamer (“sugerindo-me que madure seu livro sobre Aristóteles”) (Corominas 631), Russell (“conheço esse tipo de xerga desde há setenta anos. Lembra-me, muito as declarações dos adictos ao LSD em momentos de trance”), Ayer, Moore e outros ingleses (“Quase todos consideram a filosofia e metafísica espanhola) contagiadas por uma rama da filosofia delirante da filosofia alemã e por infantis obsessões escolásticas”) (Corominas 667). Essa crítica é incompeensível no meio, que se diz intelectual ativo.

Pois bem, é nosso propósito tentar ajudar a ler Sobre la esencia com a experiência incompleta de seu conteúdo especial e criativo numa elaboração inusitada, difícil e às vezes obscuro na sua linguagem. Zubiri como ele mesmo falava “não é um filósofo da moda”. Entendemos, na leitura mais detida e profunda de sua obra, sua maneira estranha e “incoerente” da abertura da Espanha a Europa. Mas, a leitura e releitura e estudos, também, pormenorizados, de suas partes nós levam a apreciar melhor o inconsequente recebimento para a abertura espanhola e de toda a filosofia. Podemos afirmar que a culpa de não ser bem entendido, ainda hoje na filosofia, é o teor de sua obra, portanto ele.

Vamos usar o mesmo método empregado quando apresentamos uma leitura de Natureza, História, Deus. Como veremos, a seleção dos seus pensamentos exige de todos, interesse e preparo em contato, não erudito, com os maiores filósofos, mas inquietos e abertos a uma sabedoria mais real. E por isso, nos surpreendemos e nos cativamos com Zubiri, mais ainda quando o vemos lutar contra todo um pensamento dualístico, que maltrata o homem e a natureza, que descobre como concipiente e por isso, logifica a mente e entifica toda a realidade. Fazendo do homem finalmente como resíduo do ser

Com certeza vamos estranhar a leitura amena e provocativa de NHD, parece ensaísta, porque agora nos deparamos fazendo passo a passo colocações problemáticas do caminho da filosofia, conceitos e categorias ao uníssono com a linguagem técnica, e enorme e profunda sabedoria que envolve a escrita de Sobre la esencia. Zubiri nos está, sem consentimento e sem rodeios, mergulhando num mar nunca navegado que nos cativa e se abre quase infinitamente, e ao mesmo tempo faz um convite de não termos medo onde vamos chegar. Nele está envolvido na tarefa a elaborar de uma filosofia da realidade e de formas coerentes e apresentacionais da realidade, e não mais representacionais, como ele afirma que tem sido quase todas as formas da filosofia desde a grandiosa elaboração de Aristóteles: debatendo-se dentro do misterioso do ser, das nuances da essência e da substancialidade ou subjetualidade. Zubiri embora fale e discorde de muitos filósofos, mas parece que a sua luta é com o próprio Aristóteles, desde as coisas, que desvio os caminhos do saber filosófico. Porque Aristóteles resume e absorve toda essa problemática e por isso Zubiri vai analisar desde seus motivos até sua enorme e estrutural elaboração. Zubiri foi comparado a partir deste livro, Sobre la esencia, com Aristóteles e, também com o metafísico F. Suárez. Neles se espelha elaborando uma reflexão profunda e cuidadosa, criando novas formas de categorias para expressar com rigor a força de seus pensamentos, porém com eles discute o conflito do filosofa, porque buscam o memo. Da mesma forma que fez com Aristóteles o fará com Heidegger, e outros, quando o responsabiliza da ontologia do Dasein, do ser.

Mas, antes, sigamos as palavras de Pinto-Ramos sobre essas esperanças versus Sobre la esencia. “São muitos que se consideram incapazes de penetrar no núcleo desse pensamento e alguns se negam resolutamente a intentá-lo”. Por que? Pintor-Ramos, amigo e discípulo, lembra que para entender melhor o que se discute das dificuldades do estilo de Zubiri: “Acredito a filosofia está necessitada vez mais que nunca, de precisão conceitual e rigor formal” (IRA. 172 ). (id. 28)

E segue seu raciocínio: “Uma das razões, que se tem levantando desde a publicação de Sobre la esencia, são os moldes formais da obra de Zubiri: hoje essa dificuldade se fala abertamente. A ideias de fundo poderia resumir-se assim: as obras de Zubiri exigem do leitor um esforço excessivo, que não resulta proporcionado para os resultados que se podem alcançar. A obra de Zubiri cria uma autêntica “linguagem” muito difícil penetração, o qual não passa de ser um artifício gratuito entre as cultura filosófica habitual em nosso médio e a obra de Zubiri, sem que haja nenhuma via de comunicação entre esses dois continentes separados”.

Então se pergunta Pintor-Ramos: ” O gênero literário que utiliza Zubiri é gratúito, inclusive, vantajosamente, por outro gênero?”. ( La filosofia de Zubiri y su género literário. Fundación Xavier Zubiri, núm. 2, p. 3). E vai continuar respondendo inicialmente: “É fácil entender isso se recordamos agora que no fundo da linguagem em que se expressa a filosofia é linguagem ordinária. Para o historiador da filosofia se trata, ademais, de uma linguagem escrita e o mínimo que podemos conceder aos “gramatólogos, é que isto condiciona de modo importante o problema. A escritura implica sempre um espaço público e uma pretensão de objetividade, na que a subjetividade individual do autor fica desdobrada e se submete a umas regras impessoais marcadas por códices linguísticos…” (id. p. 8).

Pintor-Ramos, que conhecia muito bem Zubiri , o seguia e criticava, conclui: Se isso é assim, a ruptura de Zubiri com o ensaio vai tornar muito problemática a recepção de seu pensamento; seus leitores potenciais inicialmente são pessoas não preparadas, enm dispostas a superar o âmbito do ensaio, o qual só é possível se se passa por alto o mais específico do tratado: precisão e rigor. O público filosófico conquistado por Ortega segue a Zubiri, entanto esse equívoco pode manter-se, porém depois da publicação de Sobre la esencia, isso já não é mais possível e exigia a correspondente maturação do antigo leitor para que se mude no leitor de tratados filosóficos. Não parece que isso último se tenha dado de modo geral, nem em Espanha nem no resto de países hispano-americanos” (id. 28-29). Diria eu , que nem no mundo inteiro que continuamos brincando com os coneitos para ver se dá certo.

Pintor-Ramos, amigo e discípulo, lembra para enteneder melhor o que se discute das dificuldades do estilo de Zubiri: “Acredito a filosofia está necessitada vez mais que nunca, de precisão conceitual e rigor formal” (IRA. )- p. 216)???? (id. 28)

Não podemos esquecer que Zubiri foi descoberto e impulsionado como filósofo por Ortega. Ele deu a Zubiri o Ser e o tempo em alemão e instigou-o a estudar com Heidegger e descobrir suas potencialidades filosóficas. “Seus ensaios foram um despertar da filosofia em Espanha e influenciou a muitos, como também em latino-américa” (id. “As propostas dentro do mundo hispânico contra esse domínio do enaismos filosóficos não conseguiram mudar a direção fundamental” ( p. 26).

“Não cabe a menor dúvida que Zubiri emerge na filosofia espanhola depois da estela de Ortega e disfruta desse o começo da altura por ele (Ortega) ganho. Quando em 1936 Zubiri faz uma avaliação mais completa que há na sua obra do trabalho de Ortega, ordena em quatro grandes funções : a) resoador; b) propulsor; c) a sensibilizador; d) acolhedor … Agora bem, Zubiri faz com Ortega o que pouco antes fez com Husserl: separar na sua obra o que é impagável, impulso ao filosofar, de sua própria filosofa concreta e em nenhum momento há sintomas de que Zubiri expressa adesão a filosofia de Ortega” (id. 26-27).

Então, traduzimos a introdução dessa obra para ter o mapa dela feito por Zubiri. Nela Zubiri não nos engana e fala claro seu problema radical e o modo de enfrenta e caminhos a seguir. E o faz com uma forma profundamente clássica e rigorosa no seu caminhar. Então, selecionamos o pensamento central dessa batalha, como a determinação de ver e assimilar a forma nova de falar da realidade e por isso do homem. D. Gracia, na leitura e discussão no Seminário de Investigação sobre realidade e atualidade, no vídeo 1978, dialoga com Zubiri mesmo e participantes e relembra para todos o seguinte pensamento que resume todo seu desafio de Sobre la esencia. “É realidade todo e somente aquilo que atua sobre as demais coisas ou sobre si mesmo em virtude, formalmente, das notas que possui. Expliquemo-nos” (SE. 104).Nesse pensamento podemos ver que estão contidos muitos elementos radicais e suficientes para todo o desafio a esclarecer para regatar o conceito da presença do real. Desse pensamento sairão da sua mente todos os desdobramentos da batalha pela filosofia da realidade. Por exemplo, está falando de formalidade do real, não como representação como ele critica na filosofia, mas formalidade de apresentação da atualidade do real. A realidade não é passiva, mas que atua respectivamente com as outras coisas e com o homem. Ela é a constituição das notas que possui. Por isso, a realidade tem uma estrutura “física” interna.

Queremos advertir que, as obras de Zubiri, quase todas não tem notas de rodapé. Isso vai estranhar até pelos melhores estudiosos. E ele inclusive vai falar expressamente que o leitor interessado deve ter condição de identificar onde estão as fontes dos filósofos tratados. A sua capacidade de ler e reler detalhes importantíssimos das formas anteriores buscando nelas algum elemento que ofereça raízes de sua elaboração da realidade, na que o ser humano vive. Por isso, vamos destacar essas duas notas de várias páginas e que ele elabora para colocar a primeira pedra, e que terá o poder radical para as elaborações. A primeira a encontramos em NHD, quando ele sob a inspiração fenomenológica fala da verdade, á-létheia (NHD 50).  A segunda, está logo no início do livro Sobre la esencia, (páginas 11-13): “Ao longo de todo este trabalho aparece continuamente o vocábulo “físico”, que resumindo sua longa explicação o podemos resumir: o físico se opõe ao artificial”. E no seu caso se preocupa como pode influenciar, e dependendo de como o entendamos, podemos errar no caminho, como tem acontecido. Parece, dirá ele, que não perceberam esse pequeno detalhe que deturpou o pensamento ocidental. “Aqui, pois, o “físico” se contrapõe ao “intencional”. E daí, que “físico”, veio a ser símbolo de “real”, em sentido estrito deste vocábulo”.

Por isso, ao ler o livro veremos muitas vezes, quase sempre entre aspas, a palavra “físico” sendo usada nesse sentido, que será o fundamento, que dinamiza e fundamenta sua elaboração, como permeará todo seu afazer filosófico em construção. Até nos assuntaremos como ele o usa repetidamente quase até a saciedade.

Assim, só usará a palavra físico, como sinônimo de real, não algo fictício e intencional. Essa distinção será a marca de sua proposta. Por isso, teremos que fazer sempre um esforço mental para poder nos colocar no sentido recuperado desta palavra: físico, essência física, real, estrutura física, sistema de notas, substantividade, em próprio, algo de seu. Não, como parte de uma catalogação dos objetos. Do contrário continuaremos em pane intelectual, perdidos e sempre descontentes, melhor não sairemos nunca do pane contraditório do físico-material e objeto de investigação de fatos, usado muitas vezes na vida e sempre nas ciências. Não conseguiremos cair no real que sempre nos acolhe e viver com os pés na nossa terra, porque não vivemos num mundo intencional, mas real, físico, já constituído. O real não é intencional e nem nossa vida é ente. “ ‘O físico’ não se opõe ao ‘metafísico’, senão que é o metafísico por excelência” (id. 276).

Ainda antes de entrar na leitura de Sobre a esencia gostaria o de fazer outra reflexão para não se enterrar-nos na dificuldade da leitura e compreensão desta obra da maturidade central e divisora de águas e definitiva de Zubiri. Pelo que ele diz, e pela linguagem usada, não podemos concluir que ela é uma discórdia de “sábios” dentro do conflito filosófico. Então, assim corremos o perigo de interpretar Zubiri brigando com os filósofos, principalmente com os mais importantes e “clássicos”. E nem podemos tirar conclusões rápidas e ficar com a impressão, fruto da ansiosa espera pelos espanhóis, na época, pelas críticas até ignominiosas, até de discípulos, de leitores, de filósofos da mesma cultura, como das diversas culturas europeias, de que é um livro confuso e desorganizado sem um desafio concreto de enfrentar, lutar e resolver. Porém, ele tem como desafio maior: a pessoa e assim o descobriremos na sua leitura o homem como animal de realidades, e não primariamente animal racional.

A leitura é “difícil” de ler e de interpretar o desafio do autor para seguir os dinamismos da filosofia. Não podia ser de outra maneira, tanto diante do tempo de “oba oba” das formas de filosofia para superar as antigas e modernizar o mundo, quando porque ele se tornou um Sísifo teimoso no forcejo de dar conta da firme inspiração de que a realidade é antes do ser. Zubiri se propôs, de vez, superar todos os caminhos concipientes (querendo fazer dos conceitos a realdiade) do saber que, segundo ele, desviaram o saber e a vida humana. Assim, enfrentou, e rebuscou sem pressas e sem receios, os possíveis desvios do logos e da razão, inédita descoberta dos gregos, que se prenderam mais na logificação de todo o saber, porque o desenvolveram dualisticamente, o pensamento como entitativo e como representativo do que as coisas são, incluindo nesse “balaio”, um montão de “essencialismos” pressupostos, que todo o justificam, mesmo para os não cultivadores do filosofar.

Dessa forma, a filosofia  tornou o saber, como ele bem percebeu desde os anos 1920, num saber subjetivo, mecanicista e matemático. Porém, a vida humana não é primariamente subjetivista, nem é uma máquina e a sua medida não é o determinismo interpretado levianamente das matemáticas. Por isso, se enfrentou a esse pequeno desvio, mas desvirtuado, do caminho vivo e realizador da vida humana, que nos deixou confusos do que sabemos e vivemos. Nessa luta ele não se poupou de nada. E também, não fara para nos facilitar. Como ele, teremos que pensar e pensar, refletir e refletir, elaborar e elaborar passo a passo.

 Por isso, elabora essa obra divisora de aguas, não por ambivalência obscura, mas vivendo o caminho íngreme de um Sísifo. Não se desanimou e nem perdeu o fio da meada de sua inspiração, porque sentia dentro de si que tinha condições de subir nesses caminhos tortuosos, para dar conta que seja a realidade, que todos almejamos todos os dias. Até ele, parece que não ordenou, e nem parou, de escrever seus pensamentos radicais, oferecendo-nos “brutamente” seus esforços de “um abusado e ousado gigante” frente aos gigantes consagrados da filosofia. Esperamos ajudar nesse caminho de mais um Sísifo, você, na leitura e enriquecimento de Sobre la esencia.  Valerá a pena. Chegaremos lá.

Nas páginas finais, veremos que encontramos já definitivo, o que Zubiri nos legou: o porquê e as pedras fundamentais de que não devemos voltar atrás de nossa procura pela realdiade. Sim seremos mais teimosos na realização do homem porque ele é real e com os pés no chão. Vislumbraremos com renovado e diáfano fulgor o horizonte da realidade, do qual não devíamos ter saído. Boa leitura. Não podemos esperar uma leitura amena e fácil pelo que já falamos da situação que rodeou tanto a elaboração de Sobre la esencia como de seu entendimento primário.

Também, gostaríamos que, devemos em conta que ademais de colher os pensamentos que tínhamos sublinhado no livro, procuramos uma leitura mais atenta para não parecem soltos, esse é o nosso propósito, isso nos levará a fazer uma leitura completa buscando e seguindo seu pensamento reflexivo e sempre coerente, devemos falar lógico, dentro da inspiração que oferece esse ritmo e desenvolvimento.

Então, só se tivermos presente esses “alertas duros e sinceros” poderemos adentrar-nos na leitura de Zubiri, já maduro com 65 anos na época, a partir dessa obra. Por isso, no início de Sobre la esencia Zubiri se questiona das várias formas de ater-nos a que tipo de coisas e diz: “Porque não é o mesmo –e sobre isso insistirei largamente no decorrer deste trabalho- a estrutura  de uma coisa em tanto que término do logos, predicativo, e a estrutura “física” interna de uma coisa tomada em si e por si mesma. Toda realidade pode ser feita término de um logos predicativo, porém isso não significa que esteja fisicamente “composta” de um atributo e de um sujeito. É a essência algo fisicamente distinto da existência?” (id. 8-9). A essência foi para todos a busca de um saber maior e também a forma de encobrir as repetições de sabedorias modernas e até falsamente contemporâneas, porque não conseguem realizar um saber de implicar a realidade e o pensamento. Só o podemos conseguir se tomamos a essência como energia da realidade a ir atualizando-se.      

Nota 3. Leitura sintética e sublinhada de Sobre la esencia.

Já limos no início deste trabalho a Introdução desta obra. Então, já nos encontramos com esse homem filósofo e podemos ter sentido muito estranha a colocação do problema filosófico que quer enfrentar. Parece que não é de nosso tempo. É totalmente diferente dos livros de filosofia atuais, que ainda parecem manuais cheios de conhecimentos, datas e pensamentos deles, de teorias até as melhores elaboradas. Então, é fácil “decorar” e aprender filosofia, que para pouco serve. Parece “infelizmente”, que não tem nada a ver como os problemas intelectuais em que nos debatemos. E ainda, que nos pode falar um filósofo espanhol no efervescente século XX, em todas as ciências? Que nos pode apresentar ele diante da contínua crise (bancarrota) da humanidade? Não “revoluciona” nada, não se preocupa das “massas”, como filosoficamente fez seu mestre Ortega e Gasset. Podemos esperar algum benéfico ou transformação de suas obras? Que ele quer com esse estilo e linguagem, que parecem da Idade Média? Assim, quer ser um “metafísico ambulante” pretendendo adivinhar o que se passa no mundo? Podemos dar crédito?

Contudo, já limos sua Introdução à obra central de sua a proposta: Sobre la esencia. Essa Introdução é pequena sim, mas seguida de um montão de páginas, que chegam a 517, e ainda mais, providas de 54 páginas de Indice Analítico. Que podemos esperar de Zubiri legando-nos tal proposta metafísica? Porque já “topamos” com um metafisico. Mesmo assim, vamos tentar acompanha-lo, embora com bastante receio. Se não agradar, o deixamos de lado. Será?

Todavia vamos seguir nosso interesse intelectual teimoso de busca por apoios e caminhos novos, formas vivas, para as inquietações sobre o mundo em pedaços e em constante crise de tudo. Vivemos nele, mas não pensamos muito nos seus problemas, porque nos deprime. Porém, dessa forma de pensar nunca sairemos desse monto quebrado. Certamente em Zubiri encontraremos “um amor à primeira vista” diferente, porém sempre com cuidados de que e como ele nos vai cativando.  Tal vez um dia, felizmente, o descobriremos. Faremos de tudo para que não seja tarde. Isso já aconteceu na Espanha feita pedaços, “invertebrada”, falava Unamuno. e em vários países, entretanto hoje muitos estão cativados dinamicamente por sua proposta, tanto de transformação dos fundamentos, como dos caminhos refeitos. Então, antes de ajudá-lo a fazer um pequeno mergulho na sua elaboração mais criticada, porém “divisora de águas”, Sobre la esencia, vamos resumi-la para estar com você, em poucas palavras, mostrando  o fio condutor, a trama e aonde chegou.

A “história” do trama filosófico de Sobre la esencia é fácil hoje de resumir no papel.  Porém, foi difícil para Zubiri, –e para nós agora seguir compreendendo-, quando a elaborou partindo apenas de que a realidade é anterior ao ser. Quando o ser de Heidegger era no século XX, e para muitos com o materialismo de Marx, a radicalização maior com que a filosofia tinha encontrado. Foi obra de Heidegger, dentro de uma inspiração fenomenológica, gritar contra o esquecimento do ser dos gregos.  Zubiri frequentou os cursos de Heidegger durante um ano e comprou outros, como era costume na época na Alemanha. Eu tive experiência disso em Madri.

Mas, Zubiri se deparou com o mesmo Aristóteles, que foi o que filosoficamente se enfrentou “teoreticamente” com os mistérios do ser grego desenvolvendo a essência como substância. Aqui estaria para ele o início e a deturpação dos caminhos filosóficos do espanto do homem diante do universo. Então, vejamos o que ele tirou a limpo dessa confusão sobre a essência, para despojar dela as vestes lógicas e entitativas, que no decorrer dos tempos, relegou os conceitos da apresentatividade pelos da representatividade do real. Vejamos, em vários atos, como recuperou os conceitos formais da atualização do real. E dessa forma a atualização de nossas realidades.

                3.1. Visão sintética do conteúdo dinâmico de Sobre a esencia.

  1. Em primeiro lugar repassa as ideias clássicas sobre a essência: como sentido em Husserl, como conceito formal em Kant, como conceito objetivo no racionalismo e em Hegel, como correlato real da definiam a partir de Aristóteles.
  2. De posse desses conhecimentos, o esforço de Aristóteles foi crescendo e deturpando, o que seu mestre Platão tinha dito: “o que há depois do ser?”. O problema que encontra Zubiri é que Aristóteles fez esse esforço apoiando-se na substância da essência do ser: ýpokeimenon=substância=subjetualidade=sujeito, que marcou toda a elaboração intelectual do Occidente, filosófica e científica. Dessa forma a essência foi perdendo o que buscava além do ser: a realidade do mundo e do homem. O pensamento foi, sempre, a fonte da vida humana admirando-se em conjunto com o universo. Também, os estudiosos de Aristóteles, fomos desviando o caminho da realidade.
  • Aqui se torna a elaboração mais profunda e “pesada”. Deixa o estilo de ensaio, e escreve de forma rigorosa, como que medindo seu pensamento com suas palavras, Até, terá coragem de neologizar expressões do povo ou científicas (são mais de 120), para enfrentar as dificuldades das línguas. A busca zubiriana da realidade exigirá dele, e ele não se negará custo o que custar, mais reflexão, mais criatividade filosófica e atrevimento. Não deixa dúvida do que ele as colhe ou inventa em cada momento para encadear seus argumentos. Até parece repetitivo e cansativo. Não é assim. E, como ele repete, vai aproveitar as partes que já foi descobrindo nos cursos. Agora, como será sua coerência em tamanha tarefa?
  • Então como ficam as elaborações do ser e da realidade no decorrer dos tempos?
  • Serve-se da “verdade real” como fio condutor para entrar na estrutura da realidade. Realidade é expressão nova nas línguas, para expressar o mais forte e próprio das coisas. A humanidade sempre acreditou e manteve essa verdade. E essa verdade, não como desvelação, mas está dentro das coisas, então o caminho é partir desse dentro. Isso seria o que estaria além do ser em que todos acreditam e sustentam. E que hoje devemos buscar um vocábulo, que diga essa menearia de ser real. Isso é o fato. Por isso: “Inteligir é um mero atualizar a coisa” (id. 113). (vemos já como ele usa o que já elaboro sobre a inteligência, como érgom e dýnamis da mens). Por isso: a realidade é a unidade estrutural do real constitutivamente, não vinda de for, intencional ou artificial, mas “físico”. Por tanto, a realidade das coisas é um sistema, consequentemente é autossuficiente pelas notas constitucionais dele. Assim, não pode ser sujeito substancial ou subjetualidade.
  • Então, as coisas são substantivas e a realidade é substantividade. E o homem é uma realidade substantiva, não sujeito para levar ou suportar os pesos da vida. Só pela inteligência humana assistimos à constituição de uma substantividade plenária e formal de estrita substantividade individual: é a “inteligização” da animalidade. Fica claro nesse enfrentamento de Zubiri com Aristóteles, que a diferença da  substancialidade deste é “aquele caráter segundo o qual brotam ou emergem da realidade, determinadas notas ou propriedades, ativas ou passivas, que numa ou noutra forma lhe são inerentes, precisamente por isto são sujeitos” “Substantividade é, porém, suficiência na ordem constitucional” (id. 157).
  • Por tanto, o constitutivo, e não anexado nem que seja de boas intenções, está constituído por notas constitucionais. Notas-de próprias de qualquer realidade, não intencional como a definição e o predicativo. “A substantividade tem o caráter formal de sistema de notas e não de sujeito delas”.
  • Então, o órgão conceitual adequado que buscávamos para nosso problema é o logos nominal construto. De maneira que a essência não pode conceituar-se nem em função da substância ou sujeito absoluto, nem em função da definição, nem em função racional, senão em função da “construtividade” intrínseca.
  1. Assim, podemos distinguir sem medo nas coisas, na realidade, a talidade (conteúdos ) e a transcendentalidade na ordem do real.
  • E a constituição do homem é sentir e inteligir, portanto, para enfrentar-nos com a realdiade, não podemos conceber primeiro, senão apreendendo-as: impressão de realidade.
  • A realidade não é esse reale, mas está sendo real, realitas in essendo. Por isso a realidade é érgon e a inteligência é noérgica. Dessa forma, a inteligência é atualização do real na inteligência senciente. “É a maneira primária de apresentar-se o real, no seu caráter érgico ou irredutível, à formalidade “de seu”, do em próprio”. “As coisas, começam e terminam onde começa e termina o “de seu””. Dessa forma, o homem não é uma entidade, mas uma realidade de notas constitucionais: a inteligência, o sentimento e a vontade, são constitucionais da realidade humana. Essa formalidade do “de seu”, se move na formalidade do real, e por isso a inteligência senciente, (o sentimento afetante) e a vontade volente se apresentam como prius antes de sua apresentação. “A realidade está presente independente de mim, porque por ter caráter “de seu”, é antes de sua apresentação mesma e como fundamento dela”.”
  • “O “de seu” construtamente determinado é um caráter transcendental de realidade, uno e o mesmo para todas as notas”.
  • “Desde faz muitas páginas, viemos dizendo que essência é sinónimo de realidade”.
  • “Assim, a essência aberta é na ordem constitutiva transcendental “personeidade”,… por essa personeidade, “personaliza” (em princípio) todo quanto deriva de sua talidade ou advém a ela: tem “personalidade”.” Pela sua intelecção senciente o homem é “animal de realidades” e por isso é “animal pessoal”.
  • “Em definitiva, como princípio a essência (realidade) é princípio estrutural da substantividade”

Com Zubiri nesta obra, chegamos ao cimo da montanha dos conceitos e nos deparamos com o horizonte de realidade, escondido e deteriorado ao decorrer de séculos. Poderemos andar nele modesta e problematicamente, que dizer, reconhecendo que estamos nele, e somos dele, porém nos devemos apropriar com a nossa decisão cada dia de suas imensas e insondáveis riquezas. Então seguiremos aprofundado. Valerá a pena o novo esforço. Seremos recompensados.

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