Sobre o Prólogo de Natureza, História, Deus a tradução inglesa

Primeira etapa do pensamento de X. Zubiri.

A filosofia vinha sendo uma mistura de positivismo, historicismo e pragmatismo apoiada em última instância na ciência psicológica, um apoio que se expressou como teoria do conhecimento” (NHD 27).

“A primeira metade do século XIX foi o frenesi romântico dessa especulação. O cientista foi o elaborador de sistemas especulativos. Em face dele alçou-se a voz de “voltas às coisas”. Saber não é raciocinar nem especular: saber é ater-se à realidade das coisas” (id. 82).

“Um exame minucioso ainda que superficial dos estudos recolhidos no volume Natureza, História, Deus fará aperceber ao menos perspicaz que é essa inspiração comum de todos eles” (id. 28).

Natureza, História, Deus (1944) é um clássico na literatura espanhola do século XX. É ainda um livro fundamental na produção escrita de seu autor Xavier Zubiri. A feliz confluência nele se produz por três grandes criações intelectuais: a filosofia grega, a ciência moderna e a tradição fenomenológica, o que o tornou um pensamento rico e ágil, tão enraizado na tradição como rigorosamente inovador. Ao longo das páginas desse livro destacam-se, como o diz seu título, alguns dos conceitos mais importantes da filosofia, como os de natureza, história e Deus. Trabalhando com eles Zubiri formula, por sua vez, suas teses básicas sobre a realidade, a inteligência e a religação, que depois serão desenvolvidas de modo extenso em Sobre la esencia, Inteligência senciente e o Homem e Deus, obras toda publicadas nesta mesma coleção. Dessa forma vista desde os volumes de sua época de maturidade, as velhas páginas de Natureza, História, Deus que agora se publicam em edição definitiva, cobram renovado vigor e crescente atualidade. Isso nos permite afirmar que esse livro é, sem dúvida alguma, a melhor introdução à filosofia de Zubiri. Natureza, História, Deus é um clássico na literatura espanhola. É, ademais, um livro fundamental na produção escrita do autor, Xavier Zubiri” (Editora Alianza Editorial).

Prólogo à Tradução Inglesa

Por Xavier Zubiri.

“Este livro – Natureza, História, Deus – recolhe uma série de estudos publicados em diversos momentos compreendidos entre 1932 3 1944. O fato de pertencerem a esses anos dá ao livro seu carácter próprio. E isso é essencial para orientar o leitor. Porque tal lapso tem duas significações. Uma concerne a cada um dos estudos tomados em si mesmos. Outra concerne à totalidade daqueles. Ou me explicar-se.

Antes de tudo, concerne a cada um dos estudos porque cada um deles tem sua data precisa; e é referindo-se a ela que deve ser lido. Sublinho-o mui energicamente. Cada efeito medeia considerável distância entre a data em que cada estudo foi publicado o momento atua. E nessa distância aconteceram muitas coisas. Em primeiro lugar, foi um tempo em que, conservando o essencial das ideias, me vi forçado a desenvolvê-las em sua própria linha.

Assim no que se refere ao conceito de história. No estudo “O Acontecer Humano: a Grécia e a sobrevivência do Passado filosófico” conceituei a história, como acontecer de possibilidades. Mantenho-o hoje integralmente, mas tal conceituação me levou a um conceito mais radical: a história como acontecer de possibilidades funda-se na história como capacitação.  É graças unicamente à capacitação que se dá, e tem de dar-se necessariamente, o acontecer da possibilitarão e das possibilidades. A história como capacitação foi o tema de um estudo publica do em Realitas I, p. 11-41. (Madri, 1974). Apontarei para isso já no estudo

O mesmo sucede, de certo modo, com o estudo “Em Torno do Problema de Deus”. O problema de Deus revela-se momento estrutura do homem: a religação. Mas esta religação necessitava de ulteriores desenvolvimentos conceituais. Desenvolvimentos na linha de uma sistematização do problema. Apontei para isso já no estudo “Introdução ao Problema de Deus”, publicado na quinta edição desde mesmo livro. Mas desenvolvei a ideias de religação em outra direção, na direção da religação como momento estrutural do homem. É o que chamei dimensão teologal. Foi o tema de vários cursos meus, ainda inéditos, sobre tudo dois. Em primeiro lugar “O problema Teologal do Homem: Deus, Religião, Cristianismo” (Madri, 1972). E depois o curso sobre “O Homem e Deus”, professado na Faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana (Roma, 1973). Um esboço desse ponto de vista está publicado no volume de Homenagem a Karl Rahner (Madri, 1975). Não será demasiado recordar que o estudo “o Ser sobrenatural: Deus e a Deificação na Teologia Paulina” é o estudo essencialmente histórico. Seu conteúdo propriamente teológico foi depois mais precisamente desenvolvido, em meus cursos  professados na Sociedad de Esudios y Publicaciones.

Em outros caos, finalmente, o estado atual do saber científico é muito mais rico e preciso que o daqueles remotos anos. Por isso, o estudo “A Ideia de Natureza: a Nova Física” teria tido de abarcar hoje muitos conceitos essenciais. Certamente, mantenho a ideia de natureza exposta, mas o problema das partículas elementares conduz a problemas filosóficos essenciais. Por exemplo: que é a elementaridade de uma partícula a? Que é uma partícula virtual? Que é a individualidade de uma partícula? Que é a perda de simetria? São temas filosóficos que hoje teria de enfrentar, mas, repito, conservo a ideia de natureza exposta em 1934.

Assim, pois, as ideias básicas de que é natureza, de que é a história e de que é o Deus revelado da religação não só não prescreveram para mim, mas por continuarem vivas é que me forçam aqueles ulteriores desenvolvimentos. É o que expresso dizendo que cada um dos estudos compreendidos neste volume tem uma data precisa.

Pois bem, o lapso 1932-1944 tem um sentido mais profundo que o de fixar as data dos meus estudos. Esse lapso constitui uma etapa de minha vida intelectual. A diferença entre lapso e etapa é essencial, porque se inscreve no conceito mesmo de tempo.

O tempo, com efeito, não é uma adição de datas, mas possui unidade própria, não meramente aditiva.  As datas não são senão momentos dessa unidade que chamamos tempo. Que é essa unidade? Não é este o lugar para tratar tão sério problema. Em seu aspecto meramente descritivo, já o expus em Realitas II, (Madri 1976). Mas agora não aludo a esse conceito descritivo, e sim a um conceito mais profundo: é a unidade estrutural do tempo. O tempo não é algo separado das coisas, mas tão somente um momento delas: as coisas não estão no tempo são temporais. Voltarei logo a essa ideia. Em virtude disso, por serem temporais, essas coisas qualificam seu tempo: é o tempo mesmo o que é qualificado. E esse tempo assim qualificado é o que chamo unidade estrutural. Essa estrutura pende, pois, da índole das coisas.

Se as coisas temporais são as que chamamos coisas físicas, então essas coisas físicas conferem ao tempo uma qualidade própria: o número e a medida. As coisas físicas, com efeito, tem atuação sucessiva. A sucessão é um caráter puramente físico. Pois bem, a sucessão confere ao tempo uma qualidade própria. O tempo é então mensura de sucessão: uma hora, dois dias, dez anos, etc. O tempo como mensura é, assim, cronometria. Se as coisas temporais são os seres vivos, então o tempo é biologicamente qualificado. E a qualidade do tempo biologicamente qualificado é a idade. A idade não é um número, mas uma qualidade temporal própria. Jovem, adulto, velho, etc., são estruturas biologias, e sua qualidade temporal é a idade.  Certamente, a idade pode ser mensurada porque os seres vivos são também coisas físicas. Mas esse número não é idade mesma, senão somente o momento numerante da idade. A velhice de uma célula é numerada, mas esse número não é a idade. Se as coisas temporais são de índole psíquica, ou melhor, psicofísica, então tem uma qualidade estrutural diferente. A vida psíquica constitui como se dizia já desde o início do século XX, uma corrente, um fluxo. Chamavam-na, então fluxo da consciência (deixemos de lado agora a referência à consciência). Pois bem, a corrente psíquica, o fluxo psíquico confere ao tempo uma qualidade original: é a durée, a duração. O caráter numeral do que dura não é a duração mesma, mas o caráter numeral do numerante. A duração é anterior à sua suposta numerabilidade, sua mensura é extrínseca porque a duração em si mesma não é adequadamente apreensível em números. Quando as coisas temporais são os homens na integridade de sua vida, então surge uma qualidade temporal nova. A vida do homem nessa sua totalidade tem um momento essencial constitutivo: é projeto. Pois bem, o projeto: é o tempo como acontecer. Eis, portanto as quatro unidades estruturais do tempo, as quatro qualidades do temo mesmo: mensura, idade, duração, acontecer. Resta o problema de que é o tempo mesmo. É o conceito modal do tempo que chamo de temporalidade. Mas não posso entrar aqui nesse problema. Já o esbocei em Realitas II.


Cada uma das estruturas temporais se matiza, por sua vez, muito diversamente. Assim, o acontecer pode ser biográfico, social, histórico. Quando os projetos humanos dentro de um lapso de tempo respondem ao que poderíamos chamar inspiração comum, então o tempo do acontecer tem matiz temporal próprio: é a etapa (que pode, por sua vez, ser, biográfica, social, ou histórica). Etapa é o acontecer qualificado por uma inspiração comum. Agora se vê que lapso de tempo não é o mesmo que etapa. A etapa é uma qualidade de um lapso de aconteceres. A mudança de inspiração comum é o início de uma nova etapa.

Pois bem, o lapso 1932-1944 é, em sentido rigoroso e estrito, uma etapa de minha vida intelectual. Minhas reflexões filosóficas responderam nesse lapso a uma inspiração comum difícil de definir, mas fácil de perceber.

A filosofia achava-se determinada antes dessa data pelo lema da fenomenologia de Husserl: zu den Sachen selbst, “as coisas mesmas”. Certamente, essa filosofia não era dominante até então. A filosofia vinha sendo uma mistura de positivismo, historicismo e pragmatismo apoiada em última instância na ciência psicológica, um apoio que se expressou como teoria do conhecimento. Partindo dessa situação, Husserl criou, com uma crítica severa, a fenomenologia. É uma volta do psíquico a coisas mesmas. A fenomenologia foi um movimento mais importante a abrir um campo próprio ao filosofar enquanto tal. Foi uma filosofia das coisas e não só uma teoria do conhecimento. Essa foi q remota inspiração comum da etapa 1932-1944: a filosofia das coisas.  A fenomenologia teve assim uma dupla função. Uma, a de apreender o conteúdo das coisas. Outra, a de abrir o livre espaço do filosofar diante de toda servidão psicológica ou científica.  E esta última função foi para mim a decisiva. Naturalmente, a influência da primeira função é sobejamente clara não só em mim, mas em todos os que se dedicam à filosofia desde aquela dada. Mas minha reflexão pessoal teve dentro desta inspiração comum uma inspiração própria.  Por que o que são as coisas sobre as quais se filosofia? É esta a verdadeira questão. Para a fenomenologia, as coisas eram o correlato objetivo ideal da consciência, Mas isso, ainda que obscuramente, sempre me pareceu insuficiente. As coisas são a meras objetividades, mas coisas dotadas de uma estrutura entitativa própria. A essa investigação sobre as coisas, e não só sobre as objetivardes da consciência, se chamou indistintamente ontologia e metafísica. Assim a chamava o próprio Heidegger em seu livro Sein und Zeit. Nessa etapa de minha reflexão filosófica, a concreta inspiração comum foi ontológica ou metafísica. Com isso, a fenomenologia é relegada a ser uma inspiração pretérita. Não se trata de uma influência – aliás inevitável – da fenomenologia sobre minha reflexão, mas da progressiva constituição de um âmbito filosófico de caráter ontológico ou metafísico. Um exame, ainda que superficial dos estudos recolhidos no volume Natureza, História, Deus fará perceber ao menos perspicaz que é essa inspiração comum de todos eles. Era já uma superação incoativa da fenomenologia. Por isso como me expressava no estudo Que é Saber? que eu laboriosamente procurava é o que então chamei de Lógica da Realidade. Recolho todos esses trabalhos no presente volume como testemunho de uma etapa concluída.

A esta etapa se seguiu, pois, uma nova. Por que são a mesma coisa metafísica e ontologia? São a mesma coisa realidade e ser? Já dentro da fenomenologia, Heidegger vislumbrou a diferença entre As coisas e seu ser. Com o que a metafísica passava para ele fundar-se na ontologia.  Minhas reflexões seguiram uma via oposta: o ser se funda na realidade. A metafísica é o fundamento da ontologia. O que a filosofia estuda não é a objetividade nem o ser, mas a realidade enquanto realidade. A partir de 1944 minha reflexão constituiu uma nova etapa: a etapa rigorosamente metafísica.

Nela recolho, como é obvio, as ideias cardeais da etapa anterior, ou seja, dos estudos já publicados neste volume. Mas essas ideias adquirem um desenvolvimento metafísico para além da objetividade, para além de toda ontologia.

Tarefa que não é fácil. Porque a metafísica moderna, dentro de todas as diferenças, esteve fundada sobre quatro conceitos que ao meu modo de ver são quatro falsas substantivações: o espaço, o tempo, a consciência, o ser.  Pensou-se que as coisas estão no tempo e no espaço, que são toda a apreendidas em atos de consciência, e que sua entidade é o momento do ser. Pois bem, ao meu modo de ver isso é inadmissível. O espaço e o tempo, a consciência o ser não são quatro receptáculos das coisa, mas tão somente caracteres das coisas que já são reais; são caracteres da realdiade das coisas, de coisas – repito –já reais em e por si mesmas. As coisas reais não estão no espaço nem no tempo como pensava Kant (seguindo Newton); as coisas são espaçosas e temporais, algo muito distinto de estar no tempo e no espaço.

A intelecção não é um ato de consciência como pensa Husserl. A fenomenologia é a grande substantivação da consciência que corre na filosofia moderna desde Descartes. No entanto, não há consciência; há tão somente atos conscientes. Tal substantivação já se havia introduzido em grande parte da psicologia do final do século XIX, para a qual a atividade psíquica era sinônimo de atividade da consciência, concebendo-se todas as coisas, como “conteúdos de consciência”. Ela criou inclusive o conceito de “a” subconsciência. Isso é inadmissível, porque a coisas não são conteúdos de consciência, mas tão somente termos da consciência: a consciência não é o receptáculo as coisas. Por seu lado, a psicanálise conceituou o homem e sua atividade referindo-se sempre a consciência. Assim nos fala da consciência, do inconsciente, etc. O homem será em última infâmia uma estratificação de áreas qualificadas com relação à consciência. Essa substantivação é inadmissível. Não existe “a” atividade da consciência, não existe “a” consciência, nem “o” inconsciente, nem a subconsciência; há somente atos conscientes, inconscientes e subconscientes. Mas não são atos da consciência, nem do inconsciente, nem da subconsciência. A consciência não executa atos. Heidegger deu mais um passo. Ainda que de forma própria (que nunca chegou a conceituar nem definir), levou a cabo a substantivação do ser. Para ele, as coisas são no e pelo ser, as coisas são por isso entes. Realidade não seria senão um tipo de ser. É a velha ideia do real, esse reale. Mas o ser real não existe. Só existe o real sendo, realitas in essendo, diria eu. O ser é tão somente um momento da realidade.

Diante dessas quatro gigantescas substantivações, do espaço, do tempo, da consciente e do ser, tentei uma ideia do real anterior àquelas. Foi o tema de meu livro Sobre la Esencia (Madri, 1962): a filosofia não é da objetividade nem do ente, não é fenomenologia nem ontologia; é filosofia do real enquanto real, é metafísica. Por sua vez, a intelecção não é consciência; é mera atualização do real na inteligência senciente. É o tema do livro que acaba de publicar-se. Inteligencia Sentiente (Madri, 1980).

Desse modo, o presente livro, Natureza, História, Deus é uma etapa não somente superada, mas assumida nessa metafisica do real, em que há 35 nos me acho empenhado. É, repito, a etapa determinada pela inspiração comum do real enquanto real. É uma etapa rigorosamente metafísica. Nele me vi forçado a dar uma ideia diferente do que é intelecção, do que é a realdiade e do que é a verdade. São os capítulos centrais do livro Inteligencia Sentiente.

(No original Zubiri continuava no final agradecendo a dedicação de Fowler: “Agradeço sinceramente ao meu amigo, o grande físico Thomas B. Fowler pela iniciativa, seu entusiasmo e a precisão e exatidão com que tem realizado a tradução deste livro, graças ao qual poderá ser lido em Norte América e nos países de fala inglesa. Muito obrigado, também, a todos quantos tem feito possível esta edição. X.Z.  Madri, novembro de 1980.

(Natureza, História, Deus. Editora É Realizações, São Paulo,  2010.  p. 23-30).

Nota explicativa 1.

História do início dos estudos de Zubiri em América do Norte.

Por Thomas Fowler.

“O interesse pela filosofia de Zubiri na América do Norte se remonta a década de 1960. Duas pessoas foram fundamentais para apresentar o trabalho de Zubiri ao público de fala inglesa nesses primeiros anos de vida. O professorFritz Wilhelmsen (1923-1996) estudou na Espanha e se doutorou em Filosofia na Universidade de Madri em 1958. Foi depois professor na Universidad de Pamplona até 1965. E logo depois se transferiu para a Universidade de Dallas, Texas. Publicou um livro importante The Metaphysics of Love em 1962. Posteriormente foi traduzido ao francês e espanhol. Embora, tomista, Wlhelmsem admirava a filosofia espanhola e escreveu com simpatia sobre os principais pensadores ativos em Espanha durante o século XX, incluindo Unamuno, Ortega y Gasset e, também, Zubiri, a quem descreveu  como o melhor metafísico de Espanha. O próprio Wilhelmsen nunca conheceu Zubiri e ainda quando escreveu seu livro só conhecia os trabalhos dele até inícios dos anos 60. Não parece haver seguido o interesse que teve no início pelo pensamento de Zubiri, embora viajou, depois com frequência para Espanha.

A segunda pessoa que estudou e escreveu sobre a filosofia de Zubiri nesses primeiros dias foi o professor A. R. Caponigri (1915-1984), da Universidade de Notre Dame, South Bend, Indiana.  Diferentemente de W Wilhelmsen, Caponigri conheceu pessoalmente a Zubiri e assistiu aos principais seminários em Madri. Mas ao igual que Wilhelmsen, estudo também os principais pensadores espanhóis do século XX e fez traduções de algumas de suas obras. Seu primeiro livro foi sobre Contemporary Spanish Philosophy em 1967 e nele continha um ensaio sobre a antropologia de Zubiri, escrito originariamente a finais da década de 1940, “A origem do Homem”. Junto com de Theres Sandok. O. S. M., Caponigri tomou a decisão, naquela data, de traduzir a obra original Sobre la esencia. Completou a tradução a finais da década de 1970 e escreveu uma extensa introdução, além de compilar um glossário dos termos filosóficos de Zubiri. Todavia, devido as demoras associadas ao processo editorial, a tradução de Caponigri, com o título Of Essence só apareceu em 1982. Caponigri faleceu antes de conhecer o pensamento último de Zubiri, publicado nos três volumes da Inteligência Senciente e outras obras afins. Como resultado, sua introdução, embora valiosa não reflete a filosofia madura de Zubiri.

Pois bem, ao final da década de 1960, Thomas Fowler, estudante na Universidade de Mayland (College Park, Maryland), se interessou pela literatura e cultura espanhoas e leu o livro de Wilhelmsen. A partir dessa leitura Thomas procurou saber mais sobre Zubiri, e numa viagem a Espanha em 1968 conseguiu cópias dos livros de Zubiri que estavam já impressos. A saber: Cinco lições de filosofia, Sobre la esenciaNaturaleza, Historia, Dios.

Fowler ficou muito impressionado com a claridade e perspicácia dos ensaios deste último livro e começou a traduzi-los para que os leram seus amigos. Visitou Caponigri em South Bend em 1975 e com ele aprendeu muito mais sobre Zubiri e como trabalhava sobre Zubiri. Caponigri proporcionou a Fowler a direção de Ignácio Ellacuría e o recomendou que contatasse com ele para que ele o pudesse apresentar a Zubiri. Então Ellacuría afirmou a Fowler que Zubiri estaria feliz de reunir-se com ele em Madri. Finalmente, Fowler completou sua tradução e o levou consigo o manuscrito em inglês numa viagem em setembro de 1978.  Lá conheceu Zubiri pela primeira vez e mostrou-lhe a tradução, intitula lada Nature, History, God.

Zubiri ficou supresso porque não tinha conhecimento da tradução daquele jovem e ficou atônito e encantado ao constatar que todo o livro já estava traduzido. Zubiri o mostrou a sua esposa Carmen, que conhecia o inglês melhor que ele próprio. Ela lhe afirmou que estava bem feito, com o que ficou satisfeito. A partir desse momento os dois Zubiri e Fowler se fizeram bons amigos, e Zubiri o animou a seguir adiante com o propósito de publicá-lo. Então Fowler pediu a Zubiri que fizesse uma introdução a essa edição inglesa, que Zubiri escreveu logo e mandou a Fowler em 1980. Em esta apresentação à tradução inglesa Zubiri relatou pela primeira vez as três etapas de seu desenvolvimento filosófico (este texto se conhece em espanhol como “Duas etapas”).

Nature, History, God foi publicado em 1981 pela University Press of America, Washington D.C., Fowler visitou Zubiri novamente e participou num dos seminários, em que se discutia com Zubiri a Inteligência e Razão. Durante essa visita Zubiri pediu a Fowler que traduzisse a Inteligência Senciente. Fowler começou a tarefa um pouco mais tarde nesse mesmo ano. Porém, percebeu que tardaria 16 anos sem acabar a tradução devido a complexidade e dificuldade do trabalho, como também pelo compromisso com outra tarefas. Também, durante essa visita de 1982, Fowler conheceu a Diego Gracia, e os dois rapidamente ficaram amigos. Depois de falecido Zubiri no ano seguinte Fowler manteve profícuo contato com Gracia, que o orientou, pediu e trabalharam juntos nos subsequentes projetos zubirianas” . (Enviado por Thomas Fowler em  4/6/2021).

Nota explicativa 2.

Esclarecimento sobre o prólogo à tradução inglesa de NHD e um pequeno percorrido.

Por José Fernández Tejada.

Na minha terra, Espanha, dizemos: “vinho novo em odre velho nunca é velho”. Este provérbio, vindo dos hebreus e dos evangelhos, tem adquirido na história várias significações. Até Freud (era descendente de judeu) parece que se debruçou nele para sua temática e inclusive existe um livro: Freud, Dora e sua nova ‘neurótica. O problema do sentido dado a esse provérbio é a insensata comparação da juventude e do ancião, da coragem e da experiência, da força  e da inteligência. Porém, tem a energia original do cuidado dos povos antigos de guardar seus vinhos, (como de levá-los ao trabalho da rosa), e o significado, indubitavelmente, do avançar do homem na sua sociedade e história, buscando o novo, mas dentro de estruturas velhas.  É o verdadeiro conceito de tradição, tradere. Achamos, assim, que esse provérbio nos pode ajudar a um bom entendimento das centelhas da proposta inédita de Zubiri, mas ele faz questão de seguir as pegadas da descoberta da sabedoria filosófica, que infelizmente nós a prostituímos ficando com substituições quase não entendíveis, todavia devemos aceitar como formas que nos afastam mais e mais da realização do homem. Parece que foi pior no caminhar da sabedoria concipiente (vasilhas velhas) que os contos de fadas mal interpretados, dos filmes de ficção científica e dos desenhos animais, percebendo que estão se distanciando do homem, embora seja para entreter o homem. Sim Zubiri escreveu vinho novo em odres velhos da tradição filosófica, que nos garante os passos suficientes do vigor e rigor de nosso pensamento.

Sempre temos que ter em conta que os toneis velhos de carvalho, e como todos recipientes, devem se limpos e higienizados antes de colocar o vinho novo. Quer dizer o odre velho deve ser limpo das impurezas advindos do uso. O mesmo parece fez Zubiri ao estudar e analisar as corrupções e desvios da filosofia clássica. Muitos preferiram ou não entenderam tal sabedoria e sem compromisso nenhum ou então por urgência e por consumo desenfreado, criaram vinhos, ditos novos, rejeitando os odres modernos e moderníssimos. Resultado, temos um saber moderno e contemporâneo, que não é palatável, bebível e digerível, porque mantem os erros e desvios que cometemos. É confusão de querer construir um mundo novo com um andaime conceitual, rejeitando a tradição que nos sustenta. Erramos de novo na bebida e na forma.

Assim segue nos mostrando, depois de quase 80 anos, o primeiro livro de Zubiri. Ele foi feito com o empenho de uma vida intelectual manifestando os estalos de uma atrevida inspiração filosófica, que se estava amadurecendo. A semeadura foi muito dolorosa. Separou o joio do trigo do saber e da sabedoria filosófica, estudando, muito criteriosamente, por isso a passo de tartaruga e com cuidado começou a dar-nos um vinho especial para nossa vida. Essa constatação, não apenas se deu na década de quando foram escritos, quando muitos na Espanha se sentiram cúmplices daquela forma de pensar, mas hoje é mais patente e fonte de atrevimentos filosóficos, cobrados repetidamente pelo mesmo D. Gracia que o léu de jovem: “Não posso no dizer, que suas páginas  deixaram em mim uma marca indelével e me ajudaram a tomar certas opções de vida”. Por isso defendo que não podemos considerá-lo apenas como uma simples introdução didática e acadêmica ao inquieto pensamento zubiriano.

Podemo-lo ler como uma grande introdução para familiarizarmos com o talante de Zubiri, mas não de forma corriqueira, teórica e repetitiva, porém sempre inspiradora e dinâmica. Ela parece que nos atrai, que nos disse muito mais do que está escrito. Assim poderemos descobrir o que Zubiri levava entre suas mãos filosóficas até a Inteligência senciente, e deixando ainda aberta a inspiração chocante mas que nós atrai, sua criatividade rigorosa e amadurecimento singular. Lega-nos  a tarefa de enfrentar o “problema da inteligência”.

Natureza, História, Deus é a primeira obra de X. Zubiri em 1944, traduzida no Brasil em 2010. Antes, em 1980 foi traduzida para o inglês por Thomas Fowler. Zubiri aceitou de ele fazer um Prólogo especial para esta tradução, em reconhecimento ao trabalho de Fowler. Na obra original constam dois prólogos de Zubiri: Prólogo à primeira edição e Nota à quinta edição, onde Zubiri fala da forma do livro sem dar-se importância, embora fosse interpretada por muitos naquele tempo como se fosse apenas como recolhimento de alguns texto e ainda para ganhar o pão de cada dia.  Nunca buscou Zubiri a fama de filósofo. Para sua mulher falava diante das muitas incompreensões: “gênio não sou, mas também não tonto”. Assim, podemos dizer hoje nesse empenho zubiriano. O que ele nos fala é de um intelectual sério e “assumido” como filósofo, que acabara de se demitir da Universidade Espanhola, porque ela “não tinha mais ambiente propício para a liberdade de pensar”. Parecia uma grande loucura ou suicídio intelectual, mas pensava mais no ambiente propício aberto por Ortega, e por muitos intelectuais espanhóis de todas as áreas do saber, para a tarefa de pensar o homem e a terra da Espanha, senão também do mundo inteiro.

Esta obra é a que mais edições têm necessitado de fazer pela sua procura. Hoje, já são mais de 13 edições, sempre em primeiro lugar de todas as publicações de Zubiri. Por isso, Natureza, História, Deus, foi enriquecida pelo diálogo amigo e rigoroso entre ele e Fowler com um Prólogo, que já se tornou parte do livro, para a Tradução Norte-Americana. Este prólogo de Zubiri, que fez quando já estava escrevendo em pleno amadurecimento sua obra máxima a Trilogia senciente  Por isso, esse prólogo forma parte de Natureza, História, Deus embora o livro tivesse sido escrito na década de 30.

Zubiri nos prólogos existentes parece ficar nos passar certa dúvida da unidade destes texto; apenas afirma que são textos de uma época. Mas, segundo D. Gracia não é mera compilação dos artigos da década de 1930, e nós concordamos, mas deve ser considerado “como um texto com entidade própria e independente, irredutível à simples soma dos artigos que lhe serviram de base”. E este prólogo da edição inglesa mostra isso: Zubiri descreve-o como a está de influência fenomenológica. Foi escrito por Zubiri em pleno desenvolvimento e consciente do que sua vida intelectual sempre estará aberta.

O próprio Zubiri nesse prólogo nos diz que esta obra corresponde a sua primeira etapa de reflexão filosófica, chamada fenomenológica, onde ele se sentiu ajudado pela fenomenologia, não somente pela volta as coisas mesmas, mas pelo espaço de liberdade de pensar aberto por ela.

A intenção da publicação no blog neste prólogo é ajudar o interessado a iniciar sua leitura zubiriana com textos, que parecem soltos e em forma de ensaio, como o ensinou Ortega, mas que revelam uma unidade própria, Zubiri o afirma assim no Prólogo.  Uma iniciação ás andanças filosóficas de Zubiri, mas que são um verdadeiro mergulho na filosofia inédita do autor.

Este é motivo que sentimos durante anos até hoje ao ler e reler Natureza, História, Deus. Vemos Zubiri naquela época arrumando e enriquecendo sua casa intelectual, mostrando a profundidade sem igual da crítica desses conhecimentos e a ousadia de sua inspiração totalmente diferente de seus mestres e colegas, que fizeram sucesso no século XX. Certamente a fenomenologia foi inspiração comum a todos com a volta as coisas mesmas. Porém, Zubiri compreendeu profundamente a fenomenologia como tal e vai completar esse desafio: da volta ás coisas mesmas desde as coisas. Com isso ele chegou aos mistérios e labirintos do ser. E conflitando e discordando com as formas dos caminhos descobertos expressou sem medo e sem pressas, sua crítica e inspiração,  sempre com rigor intelectual: a realidade é antes do ser.

Por isso, agora, depois de ler e reler quase todas suas obras durante muitos dias e anos, podemos apalpar em NHD a força de sua inspiração radical, que já está presente no decorrer dos artigos escritos na década de 1930, que a primeira vista são apenas lições soltas de filosofia, como se fossem de um professor excelente. Assim, Natureza, História, Deus não pode ser apenas uma introdução ao pensamento de Zubiri, mas mergulhar na originalidade, sempre pujante e por isso incompleta, que devemos ir elaborando com ele ou ele conosco. Entendo que a devemos estudar como parte de uma dinâmica de reflexão filosófica do autor, que nos quer contagiar com esse “pensar nas coisas que nos fazem pensar”. Alguns pensamentos ao longo desses artigos revelam o verdadeiro ponto de partida, confuso e em crise nas ciências e na sociedade, indicando os passos lentos a dar, que para ele sempre devem ser completados.

Nota Explicativa 3.

Adentrando-nos em História, Natureza, Deus.

Convidamos a estudar essa obra acompanhando a reflexão esclarecedora e instigante dele, criada pela nova proposta do saber humano, da sabedoria filosófica e metafísica, e, portanto, da necessária, não a “melhor” realização do homem, mas para uma “ótima” realização das pessoas de nossa humanidade.

É nossa firme convicção de amante do saber cativante zubiriano, tirar a cabeça dela do chão, maltratados pelos conceitos de uns e pisar vivendo dentro de nossa realidade de pessoas. Por isso, aproveitamos esta ocasião para separar algumas frases ou pensamentos que indicam essas centelhas da iniciante inspiração de Zubiri. Mas, não somente como centelhas que se desfazem, mas que reiniciam o movimento de uma sabedoria real e apresentativa, não representativa. Gostamos de ver, então, como uma oficina do torneamento das peças novas de um andaime real e senciente a elaborar. Já estamos cansados e confusos de limitação dos andaimes conceituais das formas representativas de nosso saber e da filosofia, e, portanto, da ciência como a praticamos. Só assim a humanidade poderá sair dessa crise dilaceradora, da crise provocada pelo corona vírus e da  aprisionadora normalidade do saber concipiente.

Assim, na leitura de Natureza, História, Deus reparamos muitas vezes, não somente o teor dessa busca, mas também a construção do novo andaime senciente para ir desfazendo-se do concipiente, que não se sustenta mais. E não nos sustenta. Duro e demorado trabalho o de Zubiri, facilitado agora para nós e pro cada um de nós. Vamos separar esses pensamentos que formam a raiz de toda a proposta zubiriana. São faíscas consistentes do grande foco de inspiração radical. Zubiri nós faz pensar desde as coisas e por isso desde a mesma realidade das coisas. A leitura desse novo prólogo como veremos, nos anima nessa convicção e empreitada de todos.

Vejamos alguns exemplos, que podiam ser muitos mais. Todos eles estão sublinhados tanto na nossa obra original como na tradução em português pela É Realizações no Brasil. Desde as primeiras leituras Zubiri surpreende com uma das peças fundamentais da grande inspiração do problema da inteligência, e seu enfrentamento e novas possibilidades. Diz de repente: “saber não é raciocinar nem especular: saber é ater-se modestamente à realidade das coisas (p. 82). É o primeiro enfrentamento escrito sobre a realidade e sobre a inteligência. Podemos ainda separar alguns que nos inquietaram para a abertura do pensar e outros muitos que vocês podem indicar, diante de uma filosofia especulativa e repetitiva que nos inunda, porque a leitura de Zubiri nós abre o dinamismo humano na vida e na inteligência.

Em Nossa situação Intelectual podemos descartar vários pensamentos que surgem como pequenas pedras fundamentais do problema filosófico da inteligência que Zubiri está enfrentado. Mas, vamos separar uma das mais importantes. “Necessita (nossa inteligência) a aprender a aproximar-se das coisas para que elas se lhe manifestem cada vez mais” (p. 50). “Parece que a ciência consiste em dar-nos coisas de que primária e radicalmente não teríamos posse” (id. 56) “São as coisas que nos impõem nossos esforços” (id. 58). “O difícil da questão é que a filosofia não é algo acabado, que esteja aí e de que baste lançarmos mão para nos servirmos a nosso bel-prazer” (id. 63). “A filosofia, pois, deve ser feita, e por isso não é questão de aprendizagem abstrata” (id. 64).

A realidade da verdade nos manifesta realmente a verdade de uma realidade sentida em nosso sentir” (id. 84). “A categoria especial dos sentidos, no homem, reside não em serem ‘sensórios’, mas em serem ‘sentidos’” (id. 84). “A busca do ser real e verdadeiro depende, pois, em ótima instância, da busca desses infalíveis e elementares sentires, para, atendo-se a sua infalível verdade, ter realidade verdadeira das coisas” (id. 90). “O homem não só sente, mas ‘tateia’, por assim dizer, sua impressões das coisas até dar sentido” (id. 92).

“Daqui que Aristóteles, ao desenvolver o problema da ousía, se veja obrigado a tratá-la como ‘sub-stancia’” (id. 127). “Necessitamos saber se a filosofia e o ser do homem vão nutrir-se, em ótima instância, do que ‘acontece no mundo’ ou do que as coisas e o homem ‘são na realidade’” (id. 129).

Ocupar-se da história da filosofia não é, pois, uma simples curiosidade: é o movimento mesmo a que se vê submetida à inteligência quando empreende precisamente a ingente tarefa de pôr em marcha a si mesma partindo de sua última raiz… A filosofia não é sua história; mas a história da filosofia é filosofia” (id. 145). “Porque, definitivamente, a objeção à filosofia procede de certa concepção da ciência que, sem prévia discussão, pretende aplicar-se univocamente a todo e qualquer saber estrito e rigoroso” (id. 148). “Enquanto a ciência imatura é imperfeita, a filosofia consiste no processe mesmo de sua maturidade… A filosofia não é obra do filósofo; o filósofo é que obra da filosofia” (id. 155).

A riqueza e precisão infinitesimal do vocabulário escolástico constitui um dos tesouros que é mais urgente pôr em rápida circulação” (id. 161). “Indubitavelmente, o legado completo de sua razão (de Descartes) genial só foi para alguém, que o recebeu como sutil obséquio de sua intimidade. Par quem?° Deus sabe” (168). “Podemos, com efeito, entesourar toneladas de conhecimentos filosóficos e não ter roçado, nem sequer de longe, o mais vestígio de sua (Pascal) autêntica vida filosófica… os pensamentos de Pascal são, como poucos, gigantescos esforços por perceber original e indeformadamente, diante de sua mente, a realidade do mundo e da vida… Não significa (esse esforço de Pascal) o cego sentimento e oposição à pura razão cartesiana, mas o conhecimento constitutivo do ser cotidiano do homem” (170). “A história não é, para Hegel, supraindividual, mas forçosidade supraindividual”, (id. 176).

“Sócrates introduz na Grécia um novo modo de Sabedoria. Isso necessita de uma explicação” (id. 184). “Contra o que prega o idealismo absoluto, a filosofia não nasce de si mesma” (id. 185).“A experiência do homem, como dizia eu,  é o lugar natural da realidade, graças precisamente a sua limitação, que lhe permite apreender certas coisas e certos aspectos delas com exclusão de outros” (id. 187-188). “O pensar humano, que tomando estaticamente num momento do tempo, é o que é, portanto verdadeiro ou falso, é, tomando-se dinamicamente em sua projeção futura, verdadeiro e falso segundo a via que empreenda… Porque não se trata tão somente de que essas possibilidades que ao pensamento se oferecem sejam verdadeiras ou falsas, mas de que as vias sejam ou não vias mortas. Em cada instante de sua vida intelectual, cada indivíduo e cada época se acham colocados sobre o constitutivo risco de avançar por uma via morta” (id.191-192). “O próprio da mente pensante não é ser uma faculdade de pensar, que tanto pode acertar como errar, mas o possuir uma espécie de tato profundo e luminoso que nos faz ver certeira e infalivelmente as coisas” (id. 207­). “Nasceu o mundo do logos… Porque a partir desse novo estágio, o lugar natural da realidade verdadeira será a razão” (Id. 220). Com Protágoras, “encontrámo-nos a mil léguas da racionalidade do ser que a ciência de seus contemporâneos descobre. Tudo é discutível; porque nada tem consistência firme, o ser é inconsistente” (id. 224). E “o homem se vê entregue à deriva da frivolidade” (id. 224 e 233). “Com isso seu saber deixou de ser sabedoria para tornar-se coisa manejável, tópos, tópico, que se utiliza em benefício próprio ou por ocasião de consagração pessoal mediante a polémica. O zelo e a indolência tem idêntica raiz: o tópico.” (id. 231).

“A sabedoria nasceu da mente pensante. Ao perdê-la, deixou de ser Sabedoria. O saber já não é de uma vida intelectual, s simples receituário de ideias. Por isso a elimina Sócrates” (id. 234). “Sócrates se retira para casa, e nessa retirada recobra seu noûs e deixa a sabedoria tradicional em suspenso. O ‘e’ readquire sua importância e sua gravidade. As coisas recuperam a consistência, tornam-se novamente resistente e suscitam autênticos problemas. Com isso, o homem mesmo adquire gravidade” (id.235). “Paras uns, Sócrates era mais sofista; para outros um bom homem. Para sua descendência foi um intelectual. Na verdade inaugurava simplesmente um novo tipo de Sofia. Nada mais, mas nada menos” (id. 238). Sócrates, “tem seus amigos, e com eles fala. Para um bom grego, o falar está unido ao pensar como era para o semita rezar e recitar; a oração do semita é justamente isso, oração algo de que participa sempre se os, sua boca. Para um bom grego, o falar não se dá isoladamente do pensar: o logos é, a um só tempo, um e outro. Ele sempre entende o pensamento como um diálogo silencioso da alma consiga mesma, e o diálogo com outros como um pensamento sonoro. Sócrates é um bom helénico: pensa falando e fala pensando. De fato, dele sai o diálogo como modo de pensamento” (id.239). “Ao mesmo tempo, Platão e Aristóteles nos deram com isso um lição magistral de história da filosofia, uma lição socrática. A história da filosofia não é cultura nem erudição filosófica. É encontrar-se com os demais nas coisas sobre as quais se filosofia” (id. 256).

“Dizer que uma coisa se apoia no espírito absoluto, equivale a dizer permanece nele como momento seu. Por isso diz Hegel que a verdadeira substância é o sujeito. Esse é o ponto de partida da filosofia de Hegel: o absoluto como sujeito” (id. 267). “O difícil para captar o absoluto de Hegel, não é pensar muito, mas justamente o não pensar nada” (id.268). “ Se não tivesse existido mais que simples visão do mundo, facilmente toda a filosofia teria degenerado numa orgia mística, num frenesi intelectual. Com a frase de Parmênides de que a visão do que é e o ser são a mesma coisas, não seria passado a filosofia do nível de um intuição intelectual, como se repete em Schelling. Essa foi uma das genial contribuições de Palitão para a filosofia” (id.272). “Esta genial visão de Que é o ser?, mas algo como  dizia Platão , que está para além do ser. Em genial visão , dizia obscuramente  Aristóteles que a filosofia surge da melancolia; mas de uma melancolia por exuberância de saúde, katà phýsim, não da melancolia enfermiça do bilioso, katà nóson. Nasce a filosofia da melancolia, isto é no momento em que, de modo radicalmente diferente do cartesiano, o homem se sente sozinho no universo. Enquanto essa solidão significa, para Descartes, recolher-se as si mesmo, para Hegel, em não poder sair de si, a melancolia aristotélica é justamente o contrário: quem se sentiu radicalmente só é quem tem capacidade para estar radicalmente acompanhado. Ao sentir-se só, aparece-me a totalidade do quanto há, enquanto me falta. Na verdadeira solidão, os outros estão mais presentes do que nunca” (id. 274-275).

A nova física é, em maior ou menor grau, justamente isto: uma novidade e, por isso mesmo, um problema (filosófico)” (id.282). “Um colaborador de Rutherford, Nils Bohr, aplicou em 1923 a ideia de Planck para explicar o modelo atômico de seu mestre, e seu êxito experimental acabou por abrir aos pés da ciência o abismo absoluto que a separava da experiência” (id, 287). “E a teoria da relatividade terminou de afastar decididamente das teorias físicas a imaginação. Bem entendido, a imaginação como órgão que representa e, nesse sentido, conhece o que o mundo é. Viu-se então que nas teorias físicas havia dos elementos essenciais: a imagem do mundo seu a estrutura ou formulação matemática, e que desses dois elementos o primeiro é absolutamente caduco e circunstancial: só o segundo expressaria a verdade física. Isto, pois pareceu com bastante claridade antes que se sistematizasse a nova física” (id. 314). “Nada disso acontece na física nova. Além dos citados erros, em toda observação, o observador, pelo mero fato de observar, modifica essencialmente a natureza do observado, porque, como vimos, precisa iluminar seu objeto” (id. 315). Há, pois, uma tentativa, ainda mais radical que a teoria da relatividade, de ater-se à verdade experimental, de criar conceitos experimentais para experiências efetivamente experimentadas. Daí procedem, os distintos caracteres dos fatos de que parte, dos problemas  que a respeito deles suscita e do sentido da solução que encontra para eles” (id. 315).

A nova física levou a sério esse conceito de probabilidade e de observação. Em face da física anterior, tem a virtude com audácia a probabilidade e mover-se sem dissimulá-la. É labor que custou séculos à humanidade. Mas tal vez, que a de acolher-se à necessidade. Não foi um capricho ou um jogo de conceitos – essa é sua grande significação -, mas uma exigência da evolução mesma da ciência, que começou com Einstein e chegou aqui a seu grau máximo: a subordinação da teoria à experiência” (id. 321). “Resumindo: para Aristóteles , a Natureza é sistema de coisas substâncias materiais que vem a ser por causas; para Galileu, a Natureza é determinação matemática de fenômenos (acontecimentos) que varia; para a nova física, Natureza é distribuição de observância. Para Aristóteles, física é etiologia da Natureza: para Galileu, medida matemática dos fenômenos; para a nova física, é cálculo provável de medições observáveis” (id.339).

A Grécia não representa, para nós, um museu de tipos filosóficos clássicos. Representa, em primeiro lugar, a maneira concreta como o espirito do homem entrou na filosofia. Em seu momento de maturidade, os próprios gregos tiveram clara consciência desse enorme fato” (id. 350). “É  mister, que renunciemos resolutamente à ideia de clássico e nos aproximemos da filosofia que o homem adquiriu em sua primeira ascensão ao filosofar, que decidiram a trajetória e a sorte concreta da filosofia na história, e que constituem, sabendo-o ou sem sabê-lo, a base primária sobre a qual se acham abertas e assentadas nossas próprias possibilidades filosóficas. Não é que os gregos sejam nossos clássicos: é que, de certo modo, os gregos somos nós” (id.351). “A Grécia traçou, nesse sentido, a rota da filosofia europeia. Por isso, somos gregos, não por um classicismo romântico. Na Grécia, a inteligência alcançou a primeira fase de sua plena maturidade. E tudo o que veio depois se ergue, em numa u outa medida, no pensamento grego. Por               que a historia não é indiferente o momento em que as coisas acontecem. Um mesmo fato que acontece em duas ordens de possibilidades pode significar coisas absolutamente diferentes” (id. 372).     

Ser coisa consiste precisamente em ‘possuir’ de seuo conjunto de notas que constituem a natureza. Mas, então, o possuir tem duas vertentes. Uma, que dá para fora: as ações de uma coisa sobre as demais. Outra, que dá para dentro: o que constitui o âmbito interno da coisa mesma. Se pela primeira esta posse se chama natureza, pela segunda recebe o nome de realidade, de ser. É a ideia de ousía, da sustância aristotélica, em que culmina sua ideia do ser. É certo que, em Aristóteles, o ser não se acha tematicamente limitado à natureza. Mas sempre se acha plasmado um pouco à imagem e semelhança sua. A substância aristotélica é o ponto cuspidal  da trajetória grega. Da natureza ao ser: aí está a rota que a Grécia seguiu” (id. 377).

“Este carácter fundante faz com que o homem em seus atos não seja só uma realidade atuante de uma ou outra forma, mas uma realidade religada à ultimidade. É o fenômeno da religação. A religação não é senão o carácter pessoal absoluto da realidade humana atualizado nos atos que executa. O homem está religado à ultimidade porque em sua própria índole é realidade absoluta no sentido de ser algo ‘seu’. E, enquanto religante a ultimidade é justamente essa orla de ultimidade que chamamos deidade … Essa abertura para a realidade não é resultado da consciência moral, nem é um sentimento, nem mais uma experiência psicológica, nem estrutura social, senão, que pelo contrário, esses quatro aspectos são o que são somente na e pela religação. Esses quatro aspectos são suscitados algo pela religação. Religação não é, pois, mais um ato do homem, nem é o carácter de alguns atos privilegiados seus, mas o caráter que todo ato tem por ser ato de uma realidade pessoal. A descoberta da deidade não é resultado de determinada experiência do homem, seja histórica, social ou psicológica, mas é  princípio mesmo de toda essa possível experiência. A religação não tem uma ‘origem’, mas um ‘fundamento’. Mostrá-lo assim é obra da inteligência” (id. 397).

Filosoficamente, a inteligência empreende justificadamente, partindo do homem mesmo e das coisas, uma marcha segundo aqueles três passos já indicados: deidade, realidade divina , Deus” (id. 401).

“Basta-nos, por ora, dizer que a pessoa é o ser do homem. A pessoa encontra-se implantada no ser ‘para realizar-se’. Esta unidade, radical e incomunicável, que é a pessoa, realiza-se a si mesma mediante a complexidade do viver” (id 413). “Há, como indiquei antes  e vamos ver a seguir, um problema intelectual em torno de Deus; mas isso não quer dizer que o modo primário de patentear a Deus seja um ato de conhecimento ou de qualquer outra faculdade, nem que o conhecimento seja a última reflexão sobre uma quimérica experiência religiosa; não se trata de nenhum ato, mas de ser homem” (id. 422-3).

A teologia não se identifica com a religião, mas tampouco é um apêndice reflexivo, fortuito e eventual metre acrescentado a ela: toda religião envolve constitutivamente uma teologia. Não pretendia mais” (id. 432).

“O mundo, em cada época, é dotado de peculiares graças e pecados. Não é  forçoso que uma pessoa tenha sobre si o pecado dos tempos, nem, é lícito que lhe seja imputado, por isso pessoalmente. O tempo atual é tempo de ateísmo, é uma época soberba de seu próprio êxito. O ateísmo afeta hoje, primo e per se, nosso tempo e nosso mundo. Os que não somos ateus somos o que somos a despeito do seu³.  A nossa época é rica nesse tipo de vidas, exemplares em todos os sentidos, mas diante das quais sempre surge um último reparo: ‘Pois bem, e daí?…; existências magníficas de esplêndida figura, desligadas de tudo, errantes e errabundas… Como época, nossa época é época de desligamento e de desfundamentação. Por isso, o problema religioso de hoje não é problema de confissões, mas o problema religião-irreligião. E, naturalmente, não podemos esquecer que é também, a época da crise da intimidade”. (id. 441). “A religação é a possibilidade da existência enquanto tal” (Id. 442).

A perspectiva teológica dos gregos (patrística) é muito diferente da latina. É uma teologia essencialmente personalista. O movimento primário como uma prioridade metafísica e intelectual, e não só de fato, do homem para Deus é um movimento de pessoa para pessoa…

 Isso é Deus para os gregos. Uma pura ação pessoal, insondável; na pureza de seu ato já está expressa o caráter de sua pessoa. Em Deus, a natureza é tida por identidade radical na pessoa. Visto de fora, manifesta-se como êxtase infinito, como fecundidade infinita; e por isso concebemos a Deus como amor. Sua unida metafísica é um êxtase. E na pureza de seu ato se expressa finalmente, também a absoluta unificação de todos os atributos com seu próprio ser, em intimidade metafísica…

Aí está, pois mais ou menos alcançado, o ponto de partida. Deus é essencialmente uma pura ação, um puro amor pessoal. Como tal, extático e efusivo. A estrutura desse êxtase é a fusão mesma do amor em três planos: uma efusão interna, a vida trinitária; uma criação externa e uma doação deificante. É o que vamos ver” (id. 469-471).

Resumamos. Em Deus, como amor efusivo, seu êxtase procede à produção de uma vida pessoal que subsiste o ato puro de sua natureza: é a Trindade. Seu ser efusivo tende a exteriorizar-se livremente em duas formas. Primeiro, ‘naturalmente’, produzindo coisas diferentes dela: a criação. Depois, ’sobrenaturalmente’, deificando sua criação inteira mediante uma Encarnação pessoal em Cristo e uma comunicação santificadora no homem pela graça. Por essa deificação, que afeta de algum modo à criação inteira, essa volta a associar-se à vida íntima de Deus, mas de modo diverso: em Cristo, por uma verdadeira circumincessão da natureza humana na divina; no homem, por uma posse extrínseca, mas real, de Deus; nos elementos visíveis por uma transfiguração gloriosa” (id. 525-6). (in Xavier Zubiri. Natureza, História, Deus. É Realizações, São Paulo, 2010)

A modo de conclusão sempre aberta.

Selecionamos para o leitor alguns pensamentos de X. Zubiri da primeira obra Natureza, História, Deus. São pensamentos de um intelectual de filosofia que ainda não constituem uma forma ou sistema de pensar, mas já percebemos claramente nela essa pretensão ousada dentro da situação atual do saber e da sociedade.

 Podemos aplicar a Zubiri na época que escreveu, o que ele nos falou de Pascal: “Por isso, mais que uma filosofia pronta, há em Pascal justamente o que seu título indica: pensamentos filosóficos que ainda não chegaram a ser filosofia. Mas, isto sim, enquanto pensamentos, os de Pascal são, como poucos, gigantescos esforços por receber original e indeformada, diante de sua mente, a realidade do mundo e da vida” (id. 170). Reparemos que Zubiri destaca para aprender e fazer filosofia que tenhamos sempre presente o mundo e a vida. Não entende essa separação do intelectual do que se passa na vida e mundo da humanidade e  do que seja o universo. Ele já tinha claro, estudado e consciente, naquele momento, que o saber filosófico viva um dualismo intelectual e, portanto na sociedade. Era fruto da forma final da  modernidade que separou conceitualmente o pensar e a realidade.

Penso, que isto, é o que nos revelou a esquadrinhar melhor a obra que estamos apresentando e estudando com a ocasião do surpreendente Prólogo a educação inglesa, já na maturidade de seus 80 anos.  Nesses textos, parece que ele estava falando de seus próprios esforços de lutar contra os gigantes da filosofia e não teve medo. Nos textos da obra, como selecionamos para o leitor, vemos Zubiri já dialogando com esses gritantes do pensamento, e sem medo  reprimido e com firmeza clara, de contrariá-los das suas elaborações, tanto nos passos que deram como nos seus objetivos ou motivos, para legar-nos tamanhas elaborações.

É diferente Zubiri, quando fala do envolvimento de Hegel, “quando publica a Fenomenologia do Espírito em 1807. A publicação do livro, diz Zubiri,  significa uma profunda crise para a pessoa de Hegel e para sua época” (id. 175). Concretamente dento “da crise da filosofia da identidade, um apelo irracional ao Absoluto, onde toda diferencia  se desvanece”, que ele ensinava,  e “uma profunda crise se produz em sua inteligência”. De tal forma que na Fenomenologia do Espírito, “palpita uma emoção intelectual e uma veemência que já não voltarão a se encontrar em nenhum outro escrito de Hegel. Sob sua roupagem abstrata e abstrusa, a Fenomenologia do Espírito é, na verdade, a confissão intelectual da crise de sua inteligência. Hegel a chama de experiência, e experiência da consciência” (id. 175).

Assim, Zubiri interpreta a situação desse momento de Hegel, mas conclui: “A Fenomenologia foi e é o despertar para a filosofia. A filosofia mesma, a efervescência intelectual de sua existência como manifestação do que ele chama de espírito absoluto. O humano de Hegel, tão calado e alheio ao filosofar, por um lado, adquire, por outro, caráter filosófico ao elevar-se à suprema publicidade do concebido. É, reciprocamente, o pensar concipiente apreende no indivíduo que foi Hegel com a força que lhe confere a essência absoluta do espírito e o sedimento intelectual da história inteira. Por isso Hegel, é em certo sentido, a maturidade da Europa”.

Pois bem, dentro desta crítica sútil ao estranho e rico envolvimento de Hegel, como humano e como filósofo do absoluto, Zubiri reconhece: “Seja qual for nossa posição última com respeito a ele, toda iniciação atual à filosofia deve consistir, em boa parte, numa “experiência”, numa inquisição, da situação em que Hegel nos deixou instalados” (id. 177).

Não há dúvida que Zubiri se convence e se apega totalmente a Pascal. Embora, o avalie sente nele um palpitar filosófico diferente: “Em Pascal  se assiste, em parte, a um dos poucos ensaios levados a efeito por apreender conceitos filosóficos adequados a algumas das mais importantes dimensões do homem.  Por exemplo, seu conceito, tão vago, é verdade, e, portanto mal entendido e mal usado, de ‘coração’. Não significa o cego sentimento em oposição à pura razão cartesiana, mas o conhecimento constitutivo do ser cotidiano e radical do homem” (id. 170).

Assim que devemos entender os textos aparentemente soltos para filosofar em público de Natureza, História, Deus. Todos eles rebassam, e o vimos nos pensamentos que escolhemos, esse “pensar profundo” para atingir melhor “o conhecimento constitutivo do ser cotidiano e radical do homem”. Zubiri não explicita um sistema filosófico, que o fará mais farde, mas partindo do real, e o revela espontaneamente em peças fundamentais de seu pensamento que delas surgirão as elaborações mais acuradas, coerentes e suficientes, sempre partindo no centro de sua busca a realidade humana, o homem concreto de todos nós.

Finalizamos com palavras de Zubiri sobre Pascal: “Tudo menos um cartesiano cálculo de probabilidades. Como  no caso de tantos outros, percebe-se em Pascal a inadequação entre o que quer dizer e aquilo com que tem de expressar-se: a inadequação entre o pensamento pessoal e o mundo em que se acha inscrito. E isso, com que um pensador tem de expressar-se e até dizer a si mesmo o que pensar, não são somente os vocábulos, mas também o elenco de conceitos que seu mundo lhe oferece, e nos quais tem de apoiar seu pensamento para levar a inteligência própria e de seus leitores para ‘o quer dizer’” (id. 171-2).

Agora desde nossa situação atual, já que temos estudado a trilogia madura de Zubiri, poderemos sentir em Natureza, História, Deus a coerência firme dela para nós diante do impasse despertado pela sua leitura. Concordamos e gostaríamos de aplicar para essa  nossa situação intelectual o que Diego Gracia fala na Presentación da obra Sentimento y Volición em 1992:

“Este princípio heurístico exige um especial esforço por parte do leitor. Supõe, em primeiro lugar, que ele deve ter lido e ter dominado o conteúdo de Inteligência Sentiente. E supõe, também, que, ao ler esses cursos (textos) deve ir recreando seu conteúdo desde as categorias daquela obra. É óbvio que o pensamento vertido neles não está a altura da trilogia, e que é  o leitor quem tem de fazer o esforço de elevá-los a esse nível. Isto exige, certamente, um enorme esforço, mas que será recompensado com fecundíssimos descobrimentos (SS 13). 

Resumamos o desafio de Gracia: para entender mais os textos de NHD agora, devemos entender que as faíscas que nos surgem da leitura de Natureza, História, Deus são a partir da coerência e firmeza da leitura apreendida da obra máxima da Inteligência senciente.  E é porque sintonizamos como os conteúdos dessa leitura que s complementam. Gracia o indica, e nós o repetiremos muitas vezes, que a leitura desses “textos soltos”, que compõem Natureza, História, Deus nos despertam e nos levam a recriar os problemas levantados segundo a Inteligência senciente. E finalmente, para não ficar com medo nunca desse caminho a percorrer, seremos os primeiros beneficiados recompensados com fecundíssimos descobrimentos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Esta foi a situação de Zubiri em Natureza, História, Deus, que vemos tem ainda a ver conosco ajudando-nos em nossa situação do século XXI, buscando conceitos que nos levem à realidade, que não podem ser mais fruto da mente absoluta, mas da realidade concreta da experiência do ser humano. E como temos escutado num vídeo de brasileiros, que fazemos nosso: “não só da natureza vive o homem”, ou então, “todos abrimos os olhos para acordar” E, nós falamos depois de estudar e reler Zubiri: somente podemos viver e escolher os conceitos profícuos que sejam da realidade, “da experiência humana feita conceitos” benfeitores para o homem e o mundo.

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