O que é pesquisar?

Por Xavier Zubiri.

Posfácio de Inteligência e razão. Editora É Realizações, 2011. Pp. 283-287. Tradução de José Fernández Tejada e Fernanda Maria da Silva Fernández Tejada.

“Discurso lido com o motivo da recepção do Prêmio Ramón y Cajal a investigação. Outorgado pelo Ministério da Educação, Ciência a Xavier Zubiri e a Severo Ochoa conjuntamente. O ato teve lugar em 18 de outubro de 1982 na Aula Magna da antiga Faculdade de Medicina de São Carlos, onde ensinou o mesmo Ramón y Cajal. Participaram na entrega os reis e o então presidente do governo Leopoldo Calvo Sotelo. O texto foi publicado no periódico Ya, no dia 19 de outubro de 1982, p. 32” (Descrição na Apresentación, pp. XIX do livro Xavier Zubiri Escritos Menores (1953-1983). Alianza Editorial. Madri. 2006. Pp.321-325.) Gostaríamos de aclarar que o colega e amigo de Zubiri Severo Ochoa, festejado com ele, foi prêmio Nobel e de Fisiologia e Medicina molecular em 1959 com Arthur Kornberg. Ele foi pioneiro da síntese do ácido nucléico (RNA) em 1955. Encontramos a foto desta celebração não final da página do blog: Nossa proposta.

Nota: um pouco da história da importância desse texto.

Entendo necessária esta nota por vários motivos a considerar. É escrito no último ano de sua vida e em pleno amadurecimento. Como apreciaremos, a pesquisa foi seu desafio desde os nos 1920, desde os primórdios. Estudou profundamente todos os caminhos dela. E ainda se deparou com a enfatização da pesquisa como fato científico iniludível para a sociedade humana. Participou do desenvolvimento das ciências em renovação e da busca da filosofia para fundamentar melhor os novos caminhos, praticamente todo o século XX. Então temos em mãos uma síntese dele de todo esse envolvimento intelectual. E poderemos apreciar melhor, a clareza, não logificante pelas racionalidades técnicas e instrumentais, do que seja a pesquisa.

Hoje em dia, como fruto da ciência tecnológica de um mundo melhor, parece temos resolvido todo com a Pesquisa em laboratórios e com mais e mais técnicas e instrumentos. O sistema computacional parece dar conta de todo o problema humano e das sociedades. Essa busca de uma saber maior no ser humano começou desde os primórdios, mas foram os países do oriente médio que para tal desenvolveram os presságios, os mitos, a astrologia, a escrita, a astronomia, a agricultura, e a filosofia que se firmou quando descobre o “saber teorético” diante do espanto criativo desses povos, e por isso o saber da filosofia teorética: não somente fazer o homem pode fazer, mas tem que saber fazer. É o início da busca científica. E nesse saber, se desenvolvem os maravilhamentos admirados da terra e do universo pela presença humana através do logos e da razão. É o problema da “mente humana”, da inteligência.

A Filosofia foi durante muitos séculos, inclusive como nascimento das universidades, a ciência de investigação e pesquisa para a polis, para a religião, que englobavam então todas as ciências existentes ou em via de formação. O Ph.D. dos títulos universitários vem dessa época como Philosophiae  Doctor (Doutor em filosofia, que hoje o usam e manipulam nas ciências, que até renegam a filosofia). Assim, a pesquisa parece que não tem nada haver com a inteligência como buscadora do real, mas com os conhecimentos e tecnologias. Essa busca, já científica, da ajuda de novas técnicas e instrumentos, podemos dizer que começa no humanismo no final da Idade Média para melhorar a realização do homem, como ser humano.  Entretanto, desenvolvemos sentir, não estudado pela filosofia clássica, como capacidade de sentir, o desenvolvem através dos sentidos como sensórios como instrumentos, “humanos”, para se aproximar e buscar a realidade que continua maravilhando o homem.

Então, porque traduzimos esse pequeno texto O que é Pesquisar, para fechar a novidade inédita da tradução esperada ao português da Inteligência senciente?

Primeiro: por que o traduzimos para sua publicação na tradução da Inteligência senciente? A leitura da proposta de Zubiri, nas suas principais obras em vida, nos podem levar a pensar que foi um filósofo fechado e podemos tirar a conclusão de que ele enfrenta o problema da filosófica no século XX de efervescência científica e filosófica de forma hermética, dura com estilo aristotélico e do metafísico espanhol F. Suárez, assim desligando-se do seu país e da humanidade. Não podíamos entender melhor a obra de Zubiri, porque todos estávamos imbuídos do idealismo de Descartes, Kant e Hegel. Ele se queixou de sua produção com a mulher Carmem: “gênio não sou, mas também não sou tonto”. Foi um desabafo coma mulher de perceber como foi recebida a inspiração e a elaboração de sua proposta pelos intelectuais filósofos de sua terra e ainda dos pares alemães e ingleses. Vários deles colegas iniciantes discípulos.

Certamente, lendo um pouco mais profundamente Zubiri, entendemos essa forma de fazer filosofia, sem rejeitar o que seus pares lhe entregaram e dentro de seus motivos, formas mentais e elaborações. Então, percebemos que ele busca a filosofia e o saber rigoroso e reflexivo, os motivos de cada filósofo e descobre o teor de suas elaborações: a filosofia como saber teorético do homem para possibilitar e desenvolver a polis, a humanidade, o mundo. E não podemos deixar de ver esse motivo principal ao refletir sobre os diferentes momentos dinâmicos da obra dos filósofos clássicos e modernos, inclusive tomando conta da história de cada época. E assim estudamos Zubiri. Ele ao partir da descrição fenomenológica das coisas, deixando no seu lugar o método puramente explicativo, começa a elaborar sua pesquisa desde as coisas, como os gregos nos mostraram. Assim temos em mãos esse resumo do que ele entende por pesquisa.

 Bem, X. Zubiri vive entre 1898 e 2983 num mundo em crise, responsabilizando os desvarios dessa crise aos saberes desenvolvidos pela humanidade e também ao saber filosófico, em concreto ao idealismo que concebe a realidade. Isso, o apalpamos e sofremos na carne com os guias políticos e também intelectuais. E ainda, Zubiri sente isso na carne com a situação “invertebrada da Espanha”, detectada por Unamuno. Zubiri viveu a queda do comércio dos pais (secos e molhados) com a perdida das últimas colônias de Porto Rico e Cuba como o sentiram, todos os espanhóis. Espanha estava numa situação caótica social, política e intelectual.


Zubiri vive essa situação grave de todo espanhol e habitante do mundo: a gripe espanhola (1918), a primeira guerra mundial (1919), a bancarrota econômica do mundo (1829). A guerra civil espanhola (1936) e a segunda guerra mundial (1945) e ainda a guerra fria, cujos participantes querem dominar o mundo, quer dizer suas encomias, culturas e políticas, chamando-os de aliados. Vivi em parte todos esses momentos e seus frangalhos impostos na vida familiar e intelectual. A realidade das pessoas continuava sendo deixada de lado, cultivando puras especulações e racionalidades lógicas e instrumentais.

Ele, já inquieto no colégio dos maristas na sua cidade, descobre a filosofia e vê a renovação escolástica e a filosofia fenomenológica, como uma resposta a crise da modernidade, que separava o pensamento da realidade, e ainda o desprezo dos países do norte da Europa para os países da Europa mediterrânea, cultivando “a lenda negra”. Hoje podemos dizer da enxurrada descarada dos fake news. Todavia, no colégio é despertado a desenvolver a força da ciência para entender e melhorar o mundo e seu país. J. Zaragüeta será seu mentor. Acompanha esse ambiente de renovação nas ciências na construção e uso de um grande telescópio para o colégio, que ainda mais o instiga a busca de um saber mais radical. Hoje podemos constatar e apreciar o que isso supôs na busca, quase eterna, do homem com as possiblidades e frutos, a partir do telescópio Hublle para a humanidade e com os computadores quânticos.

O resgate da pesquisa o faz desde as metafísica, de dentro das coisas para fora, que entende que as ciências e a filosofia não o mesmo, mas se precisam.

Em segundo lugar: por que foi colocado como posfácio de Inteligência e Razão?

Pela reflexão anterior vimos a necessidade de traduzir esse texto, não acadêmico, mas científico filosófico que esclareceria em poucas palavras o trajeto de mais de sessenta anos do filósofo. A nossa confusão do emaranhado da pesquisa somente como científica, e também para nossa expectativa, poderiam ser melhor esclarecido por ele mesmo.

Fizemos, por isso, a tradução, com anuência da Fundação de Madri. Entregamo-la à Editora É realizações com um resumo desses motivos e as considerações do Antonio González, diretor de publicações dela. Embora, não formava parte na obra Inteligência senciente, entendíamos de sua importância para entender esse fio condutor da busca do homem se entender e orientar-se no mundo através das ciências e da filosofia.  Dialogamos muito. E felizmente a editora É Realizações, depois das considerações que o lugar dele seria como Posfácio de Inteligência e Razão.

Dessa forma aplaudimos a decisão e a vemos como um resumo sintético do filósofo que “pensava nas coisas que nos dão que pensar”. Arrematava o resumo de toda obra da trilogia: “A inteligência humana sente a realidade. Não é uma inteligência que começa por conceber e julgar a realidade. A filosofia contrapôs o sentir e inteligir fixando-se somente no conteúdo de certos atos. Mas escorregou na formalidade. E aqui é que inteligir e sentir não se opõem, mas, apesar de sua essencial irredutibilidade, constituem uma só estrutura, uma mesma estrutura que, segundo o ângulo por que se olhe, devemos chamar de inteligência senciente ou sentir intelectivo. Graças a isso, o homem fica inadmissivelmente retido na e pela realidade: fica nela sabendo dela. Sabemos o quê? Algo, muito pouco, do que é o real .  Mas retido constitutivamente na realidade. Como? É o grande problema humano: saber estar na realidade” (IRA 282).

Como podemos pesquisar a realidade, a nossa realidade brasileira? Façamos a leitura do texto, captando a riqueza do próprio Zubiri. Façamos a leitura, individual e coletivamente, que será grande alavanca de reflexão mais segura para os que se decidem a serem “sábios pretendentes” a entender, trabalhar e aplicar o dom da realidade nas diferentes áreas do saber.

Estamos aqui reunidos por ocasião do Prêmio à Pesquisa concedido pela Sociedade Espanhola através dos senhores. Então encontro outra fome de expressar minha gratidão a esta premiação senão de esclarecer em poucas palavras o que é esta “pesquisa”, que tão generosamente premiam.

O que é se pesquisa? Evidentemente investigamos a verdade, mas não uma verdade de nossas afirmações, senão a verdade da própria realidade. É a verdade através da qual chamamos o real de verdadeira realidade. É uma verdade de muitas ordens: física, matemática, biológica, astronómica, mental, social, histórica, filosófica, etc.

Mas como investigar esta verdadeira realidade? A pesquisa da verdadeira realidade não consiste num simples ocupar-se dela. É muito mais: é uma dedicação; pesquisar é dedicar-se à verdadeira realidade. De-dicar significa mostrar algo (deik) com uma força especial (de). E tratando-se da dedicação intelectual, essa força consiste em configurar ou conformar nossa mente segundo a exposição da realidade e oferecer o que assim se nos é mostrado à consideração dos demais. Dedicação é fazer com que a verdadeira realidade configure nossas mentes. Viver intelectivamente conforme esta configuração é o que chamamos de profissão. O pesquisador professa a verdadeira realidade.

Esta profissão é algo peculiar. Aquele que apenas se ocupa desta realidade não pesquisa: possui a verdadeira realidade ou pedaços dela. Mas quem se dedica à verdadeira realidade tem uma qualidade oposta: não possui verdades, mas pelo contrário está possuído por elas. Na investigação vamos de mãos dadas com a verdadeira realidade, estamos sendo arrastados por ela. Este arrasto é justamente o movimento da pesquisa.

Esta condição de arrasto impõe à própria pesquisa caracteres próprios: são os caracteres da realidade que nos arrasta.

Antes de mais nada, devemos perceber que tudo o real é real só e respetivamente a outras realidades. Nada é real se não é respectivo a outras realidades. Quer dizer, toda coisa real é desde si própria constitutivamente aberta. Somente se a entendermos desde outras coisas, as quais deveremos buscar, é que teremos entendido o que é a coisa que queremos compreender. Entenderemos assim o que a coisa é na realidade. O arrastamento com que nos arrasta a realidade faz de sua intelecção um movimento de busca. E como isso apenas acontece com outras coisas desde as quais percebemos o que queremos entender, resulta que ao estarmos arrastados pela realidade nos encontramos envolvidos num movimento inacabável. A pesquisa é inacabável não somente porque o homem não pode esgotar a riqueza do real, mas porque é radicalmente. Quer dizer, porque a realidade enquanto tal é desde si mesma constitutivamente aberta. É, o meu modo de ver, o fundamento da famosa frase de Santo Agostinho: “busquemos como buscam os que ainda não encontraram, e encontremos como encontram os que ainda tem de buscar”. Pesquisar o que algo é na realidade é uma tarefa inacabável porque o real nunca está acabado.

Mas, além de aberta, a realidade é múltipla. E o é pelo menos em dois aspectos. 

Em primeiro lugar, porque há muitas coisas a investigar, cada uma com seus caracteres próprios. Pesquisar as notas ou caracteres próprios de cada ordem de coisas reais é justamente o que constitui a investigação científica, ou seja, o que constitui a pesquisa das diversas ciências. Ciência é investigação do que as coisas são na realdiade.

Mas, em segundo lugar, o real é múltiplo não somente porque as coisas apresentam muitas propriedades diferentes, mas também, por uma razão muito profunda: porque o que é aberto é seu próprio caráter de realidade.

E isso arrasta não somente à pesquisa das propriedades do real, mas à investigação do próprio caráter de realidade. Esta pesquisa é um saber de forma diferente: é justamente o que penso eu que seja a filosofia. É a pesquisa daquilo em que consiste o real.

Assim enquanto as ciências investigam como são e como acontecem as coisas reais, a filosofia pesquisa o que ser real. Ciência e filosofia, embora diferentes, não são independentes. É necessário ter isso sempre muito presente. Toda filosofia necessita das ciências e toda a ciência necessita de uma filosofia. São dois momentos unitários da pesquisa. Mas, como momentos, não são idênticos.

Essa questão do que ser real é, antes de tudo, uma autêntica questão por si mesma. Porque as coisas não são somente o riquíssimo elenco de suas propriedades e de suas leis, mas cada coisa real e cada propriedade sua é um modo de seu ser real, é um modo de realidade. As coisas não diferem não somente nas suas propriedades, mas podem diferir no seu próprio modo de ser reais. A diferença, por exemplo, entre uma coisa e uma pessoa é radicalmente uma diferença de modo de realidade. Pessoa é um modo próprio de ser real. É necessário conceituar o que é ser coisa e o que é ser pessoa, quer dizer, devemos pesquisar o que é ser real. Porque há muitos modos de realidade diferentes de ser coisa e pessoa.

Este conceito e essa diferença de modos são uma grave questão. Porque as pessoas estão certamente vivendo “com” coisas. Seja qual for a variedade e a riqueza dessas coisas, aquilo no que estamos situados com elas é na realidade. Cada coisa com que estamos nos impõe uma maneira de estar na realidade. E isso é decisivo. Do conceito que tenhamos do que é realidade e de seus modos depende nossa maneira de ser pessoa, nossa maneira de estar entre as coisas e entre as demais pessoas, depende nossa organização social e histórica. Daí a gravidade da pesquisa do que é ser real. Esta força de imposição é o poder do real: é a realidade mesma como tal, e não somente suas propriedades, o que nos arrasta e domina. Por isso, o poder do real constitui a unidade intrínseca da realidade e da inteligência: é justamente a marcha própria da filosofia.

Por isso Hegel escreveu: “tão assombroso como um povo para o qual não serve de mais nada seu direito político, suas convicções, seus hábitos morais e suas virtudes, o é também o espetáculo de um povo que perdeu sua metafísica”.

Finalmente, pesquisar o que é real é uma tarefa muito difícil. Por isso falava Platão a um jovem amigo principiante na filosofia: “é belo e divino o ímpeto ardente que te lança às razões das coisas, mas exercita-te e treina-te enquanto és jovem nos esforços filosóficos, que aparentemente para nada servem e que o vulgo chama de falatório inútil; do contrário, a verdade e escapará dentre as mãos” Platão se dedicou a esse esforço durante toda a sua longa vida. Algumas vezes se sentia desanimado. Em certa ocasião escreveu: “apeireka tà ónta skopaôn (fiquei exausto esquadrinhando a realidade)”.

Quando os senhores falavam de pesquisa em sua premiação, também estavam pensando na filosofia. É a primeira vez que isso acontece. E eu, e comigo todos os dedicados cultivadores da filosofia, nos sentimos legitimamente satisfeitos. Obrigado em nosso nome”.

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