O significado da filosofia de Xavier Zubiri na filosofia espanhola

José Manuel San Baldomero Ucar.

(Aula Inaugural do ano letivo 1998-1999, ministrada na sede da Universidade de Educação a Distância de La Rioja, Espanha, em 28/10/1998, por José Manuel San Baldomero Ucar)

Traduzido, para o lançamento da Trilogia senciente em São Paulo em 2011 -Espaço Cultural. Editora É Realizações.


Por José Fernández Tejada e Fernanda Maria da Silva Fernández Tejada. Foram entregues mais de 30 exemplares para os participantes.


Ilustres autoridades e queridos amigos e amigas.

No dia 4 de dezembro de 1898, portanto há cem anos, nasceu em San Sebastián um menino que fora batizado, já no dia seguinte ao seu nascimento, na paróquia de Santa Maria, e lhe colocaram os nomes de José, Francisco, Xavier e o sobrenome Zubiri Apalategui.

Eu realmente não sei se comemorar centenários tem um significado importante na cultura de todos os povos. Entretanto, tenho certeza de que fazer tal comemoração no centenário do nascimento de Xavier Zubiri significa mais do que homenagear a memória de uma pessoa já conhecida. Na realidade, significa apresentar um grande desconhecido.

Escolhi palestrar sobre o significado da filosofia de Zubiri na filosofia espanhola porque qualquer outra questão sobre o seu pensamento teria a desvantagem de ser explicado e também ser entendido com muita dificuldade. Isso ocorreria por não se conhecer, de antemão, o léxico metafísico zubiriano, que é muito rico e denso e nada fácil de entender.

Afinal, mesmo hoje, cem anos após seu nascimento, o significado da filosofia de Zubiri permanece um grande mistério, tal como escreveu Diego Gracia, e seu desconhecimento é um “fato cultural escandaloso”, como também afirmou Pedro Cerezo Galán.


De acordo com Diego Gracia, a cultura espanhola sofreu por muitos anos o caso Zubiri de forma realmente conflituosa: mais emocional que intelectual. Houve adesões inquebráveis e rejeições absolutas, motivos pelos quais Zubiri ainda hoje é um mistério.

Por que isso aconteceu? Em que consiste o caso Zubiri?

Para começar a elucidar esse mistério e eliminar o escândalo de sua ignorância, tentarei esboçar a resposta aproximada para duas questões fundamentais:

Quem é Xavier Zubiri Apalategui? Qual é o significado de sua filosofia?

Itinerário da vida de Zubiri


De maneira sucinta, vamos delinear, em primeiro lugar, características e observações do transcurso de sua biografia. Elas são marcos que balizam o espaço que vai de San Sebastián a Madri, passando por Louvain, Freiburg, Berlim, Paris e Roma, e que envolvem os anos de 1898 a 1983.

Xavier Zubiri, como já foi dito, nasceu em 4 de dezembro de 1898, em San Sebastián. Frequentou uma creche onde, tal como na sua casa, só se falava o euskera (língua com raízes anteriores a indo-europeia), e até os seis anos de idade essa foi a sua língua de costume. Em 1905 começou a estudar no Colégio dos Maristas dessa cidade, e em 1915 se formou no ensino médio pelo Instituto de Ensino Secundário de San Sebastián.


No início do curso ministrado entre 1915-1916, entrou no Seminário Conciliar de Madri, onde estudou, de 1915 a 1919, os quatro anos de teol ogia e filosofia de regulamentação da carreira eclesiástica, sob a orientação do padre e professor de filosofia Juan Zaragüeta. Sua formação no seminário de Madri era obrigatoriamente completada participando do curso de filosofia da Universidade Central. Foi nessa instituição que Zubiri conheceu,
em janeiro de 1919, o professor José Ortega y Gasset, com o qual teve uma amizade duradoura, que foi além de suas diferenças filosóficas.


Em 1920 foi para Louvain para graduar-se e doutorar-se em filosofia católica no Instituto Superior de Filosofia, centro patrocinado pelo Cardeal Mercier, como propulsor do movimento da restauração escolástica. Com a devida licença, Zubiri se mudou para Roma, onde obteve, através de um exame especial realizado em novembro, o doutorado em teologia no Collegium Universitas Theologicum Romanae. Voltou para Louvain, e
em 24 de fevereiro de 1921 obteve a licenciatura em filosofia com distinção. No mesmo mês de fevereiro Zubiri defendeu a sua dissertação, orientada por Leon Nöel, com o título Le Problème de l’Objectitvité d’Après Ed. Husserl. I. La Logique Pure.


Em setembro do mesmo ano foi ordenado diácono em San Sebastián. No último trimestre de 1921, Zubiri conseguiu a graduação e o doutorado em Madri. Ortega y Gasset foi o orientador na sua tese de doutorado, Ensayo de una Fenomenologia del Juicio (a primeira obra sobre fenomenologia na Espanha). No dia 21 de maio de 1921, à sua tese foi atribuída a qualificação com laude. E, em outubro, recebeu um prêmio especial pelo seu trabalho.
Em 31 de março de 1923 lhe foi oferecida uma vaga como professor auxiliar na universidade Central por três anos. Entretanto, ele renunciou em 11 de junho do mesmo ano para se concentrar mais em um trabalho pessoal. Na realidade, nessa época ele já estava matriculado na Faculdade de Ciências Matemáticas.


Em novembro de 1926 Zubiri se apresentou ao concurso da cadeira de história da filosofia da Universidade Central, que ficara vaga poucos meses antes, após a morte repentina de seu titular Adolfo Bonilla San Martín. O resultado foi a aprovação por unanimidade. Zubiri estava com 28 anos e estreou como professor catedrático em janeiro de 1927, fechando o curso 1927-1928.

De 1928 a 1931, durante três anos letivos consecutivos, Zubiri foi estudar na Alemanha, por sugestão de Ortega y Gasset. De 1928 a 1930 permanece em Freiburg, frequentando os cursos de Husserl e Heidegger para completar a sua formação filosófica. Na festa dada por Husserl em sua casa, para comemorar sua aposentadoria, ele conheceu Edith Stein, a famosa discípula judia de Husserl, que logo depois passou a freira
carmelita descalça, e posteriormente fora assassinada pelos nazistas. O Papa João Paulo II a canonizou em 11 de outubro de 1998.

Durante os anos de 1930 e 1931 viveu em Berlim, na famosa sociedade científica Kaiser Wilhelm, estudando física teórica com três prêmios Nobel: Max Planck, Erwin Schrödinger e Albert Einstein.


Ao retornar da Alemanha, Zubiri deu suas aulas de filosofia na Faculdade Central, chamada Faculdadelaboratório. Nela, Manuel García Morente, como decano (1931-1936), desenvolveu uma atividade eletrizante na reforma universitária, que possibilitou o ambiente de reforma política que a Segunda República Espanhola havia trazido em 1931. Nos verões de 1933, 1934 e 1935 Zubiri também participou muito ativamente, com
Pedro Salinas, Ramón Menéndez Pidal e Blas Cabrera, na organização dos cursos de verão da Universidad Internacional de Santander.

Na época da revolta do General Franco, em 1936, Zubiri estava em Roma. Ele havia viajado em 1935 para estudar línguas orientais. Zubiri nessa data já dominava grego, hebraico e latim (além de euskera, espanhol e francês). Mas naquela época queria aprender, ou pelo menos familiarizar-se, com a linguagem suméria, akádia, hitita, iraniana e aramaica. O jesuíta orientalista Anton Deimel, professor do Instituto Bíblico, o ajudou a introduzir-se na língua suméria, hebraica e aramaica. O espanhol Luis Palácios, naquele momento professor do Centro Santo Anselmo, Centro Universitário dos Beneditinos em Roma, o auxiliou na aprendizagem do aramaico.


Mas havia um segundo motivo pelo qual Zubiri viajou para Roma: conseguir resolver seu estado eclesiástico pessoal na Sagrada Congregação De Disciplina Sacramentorum. Alcançado o objetivo de laicização, Zubiri casou-se na mesma cidade, em 23 de março de 1936, com Carmen Castro, filha de Américo de Castro e titular da cadeira de Língua e Literatura Espanhola do Instituto de Ensino Secundário de Madri. Ela tinha a aprovação do Conselho de Ampliação de Estudos para preparar sua tese de doutorado.

Em 8 de setembro de 1936, Zubiri deixou Roma (por inquietações e medo do apoio de Mussolini a Franco) e foi para Paris. Ali ele e Carmen viveram no Colégio de Espanha da Cidade Universitária até o outono de 1938. Zubiri continuou a trabalhar com matemática e física. Graças a Blas, Cabrera o admitiu nas aulas do Prêmio Nobel de Física de Luis de Broglie, dos Joliot-Curie e do Cartan. Marcel Bataillon apresentou-o à Masignon e ao famoso linguista iraniano Benveniste. Jacques Maritain, que se tornou amigo de Zubiri na Universidade de Verão de Santander, agora o ajudava, também, a se relacionar com um grupo seleto de orientalistas como Dhore, De Menasce, Laporte e Labat. Em junho de 1938, apresentado por Masignon e Benveniste, foi eleito para a Societé Asiatique. Naquele mesmo ano ele recebeu o diploma de Hautes Etudes. Maritain conseguiu que Zubiri desse dois cursos de curta duração sobre história das religiões no Institut Catholique.

Em 2 de setembro de 1939, um dia após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, praticamente sem documentos e em situação apátrida, o casal regressou a Madri. Perceberam que seriam impraticáveis algumas ofertas que receberam para seguir seus estudos em Uppsala e em Jerusalém.


Não foi fácil a situação de Zubiri durante o novo regime. Discípulo do professor Ortega y Gasset, formado nos inovadores ares filosóficos e científicos europeus, padre secular e, ainda, casado com a filha do intelectual republicano Américo Castro. Estes eram os ingredientes de uma situação pessoal bastante problemática no momento para não ter a simpatia do Novo Estado nacional-católico.

No entanto, o casal Zubiri foi bem recebido em Madri pelo ministro da educação Ibañez Martin. Mesmo assim Carmen Castro aparece em uma lista de catedráticos demitidos de seu cargo no Instituto, onde era concursada. No Natal de 1939, o ministro também comunicou a Zubiri que ele não teria problemas para ficar como catedrático em Madri. Porém, o arcebispo Leopoldo Eijo e Garay fez uma interpretação restritiva da lei canônica sobre sua secularização e forçou a transferência de Zubiri para Barcelona.


Em Barcelona logo consegue grande êxito com os alunos, mas certos acontecimentos o levaram a afastar-se voluntaria e definitivamente de sua cadeira de filosofia. Por quê?


Em primeiro lugar, um dia um decano falangista o repreendeu por explicar Kant na aula de história da filosofia, quando deveria abordar São Tomás de Aquino.

Além disso, houve o episódio da tese de doutorado de Julian Marías. Zubiri, como orientador da tese, avisou a Marías que a leitura de sua tese poderia ser imprudente naquela situação política. Apesar de tudo, Marías decidiu apresentar a tese. Porém, como Zubiri sabia da animosidade que alguns filósofos, membros da banca examinadora, tinham contra ele, optou por não comparecer para não prejudicar o aluno, mas enviou-lhe um telegrama de apoio irrefutável. Juan Zaragüeta assumiu a responsabilidade de defender Marías. Mas uma intriga interna do dominicano Manuel Barbado levou ao fato incomum de suspender uma tese de doutorado. Isso ocorreu porque Marías, um jovem muito promissor, não escondia ser discípulo de Ortega y Gasset e de Zubiri.

A última gota d’água: Zubiri recebeu uma comunicação por escrito do decano da faculdade com a ordem de que os professores deveriam começar cada aula com demonstrações de apoio ao regime.

Em junho de 1942 Zubiri renunciou à sua cadeira de história da filosofia, reconhecendo a incompatibilidade do modelo da Universidade Nacional-Católica com a liberdade necessária para a investigação e o ensino. Esse fato confirmou a depuração já feita em 1937 pelo governo da Frente Popular. Zubiri tornou-se, assim, como qualificou Elias Diaz, “um exilado no interior”.
Depois disso o casal Zubiri tentou voltar para Madri, tendo apenas uma pequena economia de 125 pesetas. Essa volta só foi possível graças a um cheque de seu amigo Alejandro Araoz (a quem Zubiri dedicaria seu primeiro livro, Natureza, História, Deus), equivalente ao salário de um ano de professor. Além disso, as traduções, as aulas particulares, as colaborações na revista Escorial e a edição, logo depois, de Natureza, História, Deus, foram os primeiros socorros para sua sobrevivência.

Um grupo de amigos que se reunia semanalmente com Zubiri para discutir questões filosóficas teve a ideia de transformar essas reuniões domésticas em reuniões com um grupo maior de profissionais. Pedro Lain Entralgo e Carlos Jiménez Diaz, ambos médicos, lideraram um grupo de amigos com os quais organizaram as primeiras conferências-colóquios semanais. As companhias de seguro La Unión e El Fênix cederam o local e os frequentadores pagavam voluntária e generosamente uma quantia de dinheiro. Pouco depois essas conferências deixaram de ser coloquiais e se transformaram em Lecciones de Filosofia. Portanto esses cursos de Zubiri foram originalmente uma ideia para a obtenção de reserva econômica para o sustento digno do filósofo.


Em 1947, Zubiri se reencontrou com seu amigo Juan Lladó. Este era então banqueiro e presidente do Banco Urquijo, fundador e mecenas da revista Cruz y Raya, e foi um dos participantes na redação da Constituição da República de 1931. Ele quem proporcionou a Zubiri uma renda anual para se dedicar a seus estudos, com a única exigência de ministrar cursos anuais de filosofia nas sedes habilitadas pela Sociedad de Estudios y Publicaciones, já existente dentro da instituição bancária.


De 1942 até sua morte, a vida de Zubiri transcorreu silenciosa no exílio interior de sua casa em Madri. Suas saídas se limitavam, quase sempre, às exigidas pelos cursos anuais nas diversas sedes da Sociedad de Estudios e Publicaciones.

Durante anos: rasteiras, silêncio e perseguição. Rasteiras foram, por exemplo, as dificuldades com o clero nacional-católico no verão de 1943. Nessa data estava na imprensa o livro Natureza, História, Deus. No entanto, os maldosos censores foram dando o imprescindível Nihil obstat a cada artigo (já antes publicados em revistas) que compunha o livro, motivo pelo qual sua edição fora atrasada um ano. Silêncio porque, apesar do sucesso editorial em 1944 de Natureza, História, Deus, as revistas do Conselho Nacional de Investigações Científicas, Arbor e a Revista de Filosofia nem sequer mencionaram o livro, mesmo não sendo abundante a produção bibliográfica espanhola na área da filosofia. Mas, acima de tudo, a perseguição à sua pessoa e ao seu trabalho.


De 1942 a 1958, alguns importantes representantes do clero se envolveram em uma campanha de desprestígio do trabalho de Ortega, proibindo a leitura e a distribuição de seus livros na Espanha. A perseguição atingiu seu auge em 1958, após a morte do filósofo, quando o dominicano Santiago Ramírez pretendia “mostrar que o pensamento filosófico de Ortega é contrário aos dogmas e princípios da religião católica e que sua leitura é perigosa para aqueles que aceitam a fé e o ensinamento da Igreja”.

Zubiri fez profissão pública de “Mi Maestro Ortega” em 18 de março de 1936 nas páginas da revista El Sol num artigo intitulado Ortega, Professor de Filosofia, e outro em 19 de outubro de 1955 no ABC, com motivo da morte de Ortega. Por conseguinte, a operação ortodoxa que levou ao Índice de livros proibidos, A Agonia do Cristianismo e Do Sentimento Trágico da Vida de Miguel de Unamuno, também dirigida contra Ortega e Zubiri. Os ataques continuaram contra Zubiri, especialmente no artigo Em Torno ao Problema de Deus.
No entanto, esses ataques adquiriram uma virulência especial no dominicano Teófilo Urdánoz, em 1946, na revista La Ciência Tomista. Urdánoz coloca Zubiri dentro do antropocentrismo existencialista e o considera revolucionário e totalitário em comunhão espiritual direta com as ideias de Unamuno e Ortega.

O dominicano “nega o pão e o sal”. Quer dizer: nega o lugar de Zubiri como um historiador da filosofia, que considera “a história das aberrações humanas”, e nega também sua força de pensador, que aponta para um sistema próprio no panorama filosófico do momento. Deve ser dito, no entanto, que Zubiri também recebeu reconhecimentos.

Em 1953 recebeu uma homenagem (revista Alcalá, dois volumes) pelos seus 25 anos como professor universitário. Em 1968, por seus setenta anos, recebeu outra grande homenagem de seus velhos amigos, intelectuais e prestigiados cientistas espanhóis da época e dos exílios exterior e europeu.


Em 1973, Zubiri e sua obra receberam mais um decisivo reconhecimento público: ele foi convidado pelo prelado geral dos jesuítas Pedro Arrupe para dar um curso de doze aulas sobre o problema teológico do homem na Universidade Gregoriana em Roma. Na verdade, não foi a primeira vez que Arrupe reconhecia o valor de Zubiri e de sua filosofia, porque desde 1965 havia ordenado que o jesuíta Ignácio Ellacuría viajasse todos os anos de El Salvador para Madri a fim de ajudar Zubiri na publicação de seus escritos inéditos.


Mas Zubiri, além do duro exílio interno na sua casa em Madri, ainda, podemos dizer, sofre de outro exílio, não tão dramático como o da universidade, mas não por isso menos sentido. Até 1980, nunca havia dado nenhuma aula em sua terra natal. Porém, isso aconteceu em 1º de outubro desse ano, aos 81 anos. Zubiri fez seu discurso, como Doctor Honoris Causa em teologia concedido pela Universidade de Deusto, por ocasião do centenário da sua Faculdade de Teologia. Dessa forma os jesuítas acabam com seu exílio de Euskadi.


Pouco antes de sua morte chegaram os reconhecimentos oficiais. Em novembro de 1979, o Presidente da República Federal da Alemanha condecorou Zubiri com Das Grosse Verdienst Kreuz em sua categoria mais elevada para quem não é chefe de Estado.

Em 18 de outubro de 1982, Xavier Zubiri e seu amigo Severo Ochoa, laureado com o Nobel, receberam, do Rei Juan Carlos, o Prémio Ramón y Cajal de Investigação, concedido pela primeira vez pelo Ministério da Educação e Ciência.


Zubiri morreu em 21 de setembro de 1983, dia de São Mateus. Há um aspecto simbólico acerca de sua morte que não passou despercebido pela imprensa: o sepultamento por vontade própria no cemitério civil, ao lado de seu sogro, Américo Castro, político e intelectual heterodoxo em tantas formas. O fato tem todo um simbolismo do que representa o pensamento e a vida de Zubiri. Com a decisão de ser enterrado no cemitério civil, mesmo sendo um crente cristão, Zubiri deu a lição final de sua secularizada
filosofia: uma ponte entre a margem sagrada e a margem profana, afirmando sua radical unidade pela religação ao poder do real.

O significado das linhas de filosofia de Zubiri


Se delinear uma vida complicada de 85 anos foi difícil, explicar o significado de uma história intelectual e de uma filosofia tão complexa como a zubiriana, sempre em evolução até seu resultado final, é tarefa impossível. Entretanto, tentarei, também, delinear precariamente, em esboço, algumas notas que, do meu ponto de vista, constituem o significado da filosofia zubiriana na filosofia espanhola.

Para essa tarefa, vou usar uma anedota que, metade a sério e metade brincadeira, o próprio Zubiri associou com o destino intelectual de sua vida e ao sentido último de sua própria obra, de acordo com sua esposa Carmen Castro.


Trata-se do significado em euskera de seu nome e sobrenome. Em euskera, Xavier significa “casa nova”.


Como se sabe, esta fora a designação dada ao castelo da família Jaso, em Navarra, que foi a família de São Francisco Xavier. Zubiri ou Subiri significa, em euskera, “ao lado da ponte”. Apalategui tem em euskera o significado de “uma prateleira do armário” ou “uma prateleira”, mas no basco-francês significa simplesmente “biblioteca”.

Biblioteca (Apalategui), ponte (Zubiri) e casa nova (Xavier). Aqui estão três símbolos pelos quais podemos tentar compreender o significado da filosofia de Zubiri.

1 Apalategui, “Biblioteca”.


Vamos começar com o último: Apalategui, biblioteca. Zubiri foi um escritor de livros e artigos que já ocupam um lugar importante na produção bibliográfica da cultura filosófica espanhola. O quanto escreveu Zubiri? Onde escreveu? Como escreveu? Sobre o que escreveu?

A obra de Zubiri inclui 19 livros publicados, com 28 reedições, oito traduções – alemão, inglês, italiano [agora também em português, pela Editora É) –, 30 artigos, alguns também traduzidos para francês, inglês e italiano, 18 prefácios, introduções e epílogos, e outras obras menores. Por outro lado, ainda não foram publicados cerca de 20 cursos oferecidos na Sociedad de Estudios y Publicaciones.
Onde escreveu? Sem contar as publicações acadêmicas (Louvain e Madri) e outras menos significativas, Zubiri escreveu principalmente nas revistas Cruz y Raya, Revista de Occidente, Escorial, Editora Nacional, Sociedad de Estudios y Publicaciones e Alianza Editorial. Como escreveu Zubiri? Os principais caracteres formais da escrita filosófica zubiriana são: a autenticidade, a integridade, a concisão, a cristalinidade e patetismo, como fora ressaltado em várias ocasiões por Lain Entralgo. Esse conjunto de caracteres pode ser resumido numa nota radical e constitutiva de sua escrita: rigor. Zubiri escreve com rigor. Rigor significa, acima de tudo, a ruptura consciente com o ensaio como forma de expressão filosófica, que é imediatamente percebida por quem se aproxima de sua obra pela primeira vez. Fazer filosofia com rigor significa pensar e escrever sem concessões para o público e, ainda estar a salvo dessas tentações de publicidade, propaganda e burocrático-administrativos, que normalmente acocham em nosso país o exercício público da profissão de filósofo.
Sessenta anos de dedicação à filosofia, confrontando-se com os magos e os pirotécnicos da linguagem filosófica, fizeram de Zubiri um artesão do conceito e da palavra na mais séria tentativa para elevar a língua espanhola a um nível filosófico de coerência e disciplina a que nunca chegou. Escrever com rigor não é mumificar nem arcaizar. Com completo domínio da terminologia filosófica, Zubiri procurou injetar nas palavras o sentido que exigia o pensamento. Para tal rejuvenesceu arcaísmos, Espaço Cultural É Realizações
Xavier Zubiri – Homenagem aos trinta anos da Trilogia Senciente mergulhou nas profundezas das etimologias dando significado rigoroso aos termos da linguagem coloquial, e com seu “talento denominador” criou uma infinidade de neologismos quando o léxico velho se mostrava incapaz de expressar as suas descobertas.


Sobre o que escreveu? Tendo em conta a produção já realizada, mas não publicada na íntegra, poderíamos falar que Zubiri escreveu sobre inteligência, realidade, Deus, homem e história.


Zubiri primeiro escreveu sobre o problema da inteligência. Esse problema da inteligência ocupa muitas páginas na produção zubiriana. Portanto, sua contribuição decisiva materializou-se a partir do ano de 1976, quando começou a escrever o manuscrito que mais tarde se tornaria a Trilogia da Inteligência Senciente. A ela dedicou praticamente seus últimos sete anos e foi publicado a partir de 1980, em três volumes, com os títulos:
Inteligência e Realidade, Inteligência e Logos e Inteligência e Razão. Zubiri desenvolveu sistematicamente, nessa obra, uma teoria de inteligência para responder, de forma mais implícita do que explícita, a muitas das objeções decorrentes da hesitação temerosa dos leitores distanciados e próximos de Sobre la Esencia.


Zubiri escreveu, em segundo lugar, sobre o problema da realidade. Sobre la Esencia (1962) é a elaboração mais sistemática e precisa das obras de Zubiri sobre a realidade. Mas posteriormente ele deu alguns cursos importantes sobre o mesmo tema. Por exemplo, o livro Estrutura Dinámica de la Realidad e, ainda, o importantíssimo texto Respectividad de lo Real. Zubiri também tem alguns estudos cosmológicos. Entre seus escritos há materiais muito elaborados para pensar sobre um corpo de estudos cosmológicos: um longo estudo sobre a matéria, escrito em 1973; outro curso com quatro aulas sobre o espaço (1973), publicado em 1974 em Realitas I; ademais, outro com duas aulas sobre o tempo (1970),
que foi parcialmente elaborado no texto El Concepto Descriptivo del Tiempo. E, em 1996, dois cursos (de 1970 e 1973) e outros textos foram publicados sob o título de Espacio. Tiempo. Materia.


Em terceiro, Zubiri escreveu sobre o problema de Deus. Esse tema aparece prematuramente nas preocupações do jovem Zubiri, e quase em todas as obras dedicadas ao estudo de acesso do homem a Deus levam no seu título a palavra “problema”: Sobre el Problema de Dios (1935), El Problema de Dios (1948-1949), Introducción al Problema de Dios (1963), El Problema Filosófico de la História de las Religiones (1965), El Problema de Dios en la História de las Religiones (1965), El Hombre y el Problema de Dios (1968), El Problema Teológico del Hombre: Dios, Religión, el Cristianismo (1971-1972), El Problema Teologal del Hombre (1975), El Hombre y Dios (1984), El Problema Teologal del Hombre: Cristianismo (1997). Somente a lista de seus títulos reflete que, para Zubiri, Deus, a religião e a história das religiões são questões filosóficas que preocuparam o autor ao longo de sua vida. Sua descoberta central é o conceito de religação, em resposta ao problema teologal do homem, e não a um problema teológico. Zubiri enfatizou muitas vezes que os problemas são diferentes: o teologal é o que envolve a versão ao problema de Deus e o teológico é o que envolve a Deus mesmo.


Em quarto lugar escreveu sobre o homem. Como descreveu Ellacuría, a preocupação e a ocupação de Zubiri sobre o problema filosófico do homem foi constante e ininterrupta ao longo de seus mais de sessenta anos de produção teórica. Embora ele não tenha publicado um livro definitivo sobre o homem, podemos dizer que tudo o que fora escrito e falado filosoficamente por Zubiri tem a ver com o homem. E isso se dá seja porque o ser humano torna-se objeto imediato de sua reflexão, seja porque o ser humano fica iluminado pelo menos imediatamente por essa mesma reflexão. A verdade, entretanto, é que os escritos de Zubiri são mais de índole metafísica que antropológica. Zubiri tem um rico histórico de palestras e escritos que apresentam, no todo ou em parte, como tema o homem, do qual somente uma parte está publicada: El Origen del Hombre, El Hombre Realidad Personal, El Problema del Hombre, El Hombre y su Cuerpo, Notas sobre la Inteligencia Humana, La Dimensión Histórica del ser Humano, El Problema Teologal del Hombre e Sobre el Hombre (1986).


Em quinto lugar, Zubiri escreveu sobre história e história da filosofia. Os títulos expressivos dessa abordagem são: Sobre o Problema de la Filosofia, Hegel y El Problema Metafísico e Filosofia y Metafísica. Estes dois últimos estudos foram publicados no livro Natureza, História, Deus. O último texto mencionado foi dividido em duas partes: a primeira intitulada La Filosofia y la Justificación de su Objeto y a segunda Qué es Saber?
Ainda escreveu Cinco Lecciones de Filosofia (1963), La Dimensión Histórica del ser Humano e Los Problemas Fundamentales de la Metafísica Occidental (1994)
que completam, por agora, o panorama da obra escrita de Zubiri sobre a história da filosofia.


Aqui concluímos uma breve e forçada revisão da densa biblioteca (Apalategui), criada em sua vida por Xavier Zubiri.

2. Zubiri, “Ponte”


Como mencionado, o nome Zubiri em euskera é outro símbolo do destino e do significado da obra de Xavier Zubiri. “Zubiri” significa, em euskera, junto à ponte. Esse nome foi escolhido na Idade Média para nomear uma pequena cidade do vale de Esteribar (Navarra), localizado na margem direita do rio Arga, no local onde uma ponte fora construída para possibilitar a rota de peregrinação que vinha de toda a Europa e por Roncesvalles até Santiago de Compostela. Simbolicamente, então, Zubiri significa a ponte no caminho
para a Alemanha.


Certamente não foi Zubiri a primeira ponte intelectual estendida desde Espanha para a Alemanha. Na verdade, a germanofilia filosófica despontou na vida intelectual espanhola com a visita de Julian Sanz del Rio a Heidelberg, durante o curso de 1843 à 1844. Continuou com a viagem para Leipzig com Ortega y Gasset em 1905 até 1907 e ainda com a viagem de Zubiri a Freiburg e Berlim de 1928 a 1931. Essa viagem realizada por Zubiri deve ser inserida numa tradição que precisa ser levada em conta para compreender o
sentido e o alcance da estadia do autor na Alemanha.


Quando Zubiri viaja, em 1928, à capital da Floresta Negra, aconteciam os chamados “anos míticos deFreiburg” (1928-1933). Naqueles tempos, ao lado de Husserl, como professor emérito e de Heidegger, davam suas aulas o historiador H. Friedrich, o filólogo Fraenkel, o economista Eucken e o sucessor de Heidegger, W. Szilasi. Nesses anos estudaram em Freiburg Karl Löwitt, Hannah Arendt, Edith Stein e Leo Strauss.


Em Berlim, como dissemos, Zubiri estudou física teórica na famosa sociedade científica Kaiser Wilhelm com Plank, Schrödinger e Einstein. Aqueles foram os dias em que, como ele mesmo costumava falar, produzir física na Alemanha era “um fato biológico, um fato tão natural como o cabelo produzir caspa”.


Zubiri, a ponte para a Alemanha, aparece, portanto, como uma ponte com três arcos. Um arco com a filosofia de Martin Heidegger, o outro arco para a Grécia onipresente, e um terceiro arco para a física.


2.1. Zubiri, a ponte para Martin Heidegger.


Pode-se dizer que Martin Heidegger foi para Zubiri, como escreveu recentemente H. G. Gadamer, o que aquele mestre tinha sido para ele. De acordo com Gadamer, “Heidegger era um mestre do pensamento e um mestre do ensino, capaz de levar os alunos a outros mestres do pensamento”.


Não é fácil responder à pergunta de quais foram os conteúdos específicos da filosofia de Heidegger que convenceram Zubiri. Alguém poderia pensar que Zubiri veio de Freiburg transformado num filósofo existencialista. Entretanto, deve-se esclarecer que não há nenhuma razão decisiva para colocar o rótulo de existencialista a Heidegger e sim muitos contra. Zubiri faz a leitura de Heidegger decididamente ontológica, contrária, portanto, a qualquer interpretação existencialista ou antropológica existencial. É nesse nível ontológico (CLF, 270) onde Zubiri estabelece um diálogo crítico com Heidegger, de consequências decisivas para o pensamento zubiriano.


Pode-se dizer que, na comunicação com os seus discípulos, Heidegger aparecia como a ruptura com toda a tradição e a exigência de um novo começo filosófico muito mais radical. A filosofia de Heidegger serviu, portanto, para ratificar as carências já identificadas por Zubiri na fenomenologia de Husserl e incentivá-lo a romper o círculo encantado de consciência, com uma nova sensibilidade para os problemas filosóficos. Zubiri seguiu Heidegger no caminho que o levou a separar-se de Husserl, para fazer da filosofia uma ontologia pura e simples e despertá-lo à questão da verdade (NHD 38, 57, 61, 71,
73, 74, 82, 240, 476).


Mas acima de tudo, Zubiri acompanhou Heidegger na sua volta à Grécia. Embora Heidegger não deixasse de refletir sobre os pré-socráticos a partir do seu primeiro curso, parece que eles só foram importantes e decisivos após Ser e Tempo (1927). Essa referência constante aos gregos o fez acreditar que Heidegger sentia pelo mundo grego uma nostalgia continuadora dos diferentes ressurgimentos do sonho helenizante, que obcecou periodicamente o pensamento alemão (Goethe, Schlegel, Hegel, Nietzsche). Não é assim. Heidegger tinha afirmado a impossibilidade de qualquer “volta aos gregos” comparável com “zu zurück Kant” dos neokantianos. O que está em Heidegger é um intenso esforço para voltar-se para os gregos para compreendêlos melhor do que eles se entendiam a si mesmos, com o objetivo de radicalizar a fenomenologia fazendo de Aristóteles um fenomenólogo “avant la lettre”.


Zubiri reconheceu que foi Heidegger que revelou a importância fundamental dos filósofos gregos e encorajou-o a prestar-lhes mais atenção. Isso o levou a tomar consciência histórica da própria época e a buscar possibilidades filosóficas para o pensar desde si mesmo, através da reconstrução dos grandes motivos do passado presentes nas principais filosofias. As referências ao passado nunca tiveram para Zubiri uma função erudita e enciclopédica, mas eram possibilidades para apropriar-se do presente. Quando Zubiri
considera a filosofia como eterna repetição, como Heidegger (Wiederholung), está pensando nessa assunção de possibilidades de que falava Heidegger.


2.2. Zubiri, a ponte para Aristóteles


Em Heidegger, Zubiri encontra principalmente um grego: Aristóteles. A biografia do filósofo alemão aparece desde o início ligada à figura de Aristóteles. Como o próprio Heidegger confessou, seus interesses iniciais para a filosofia foram despertados enquanto ainda era estudante do ensino médio, com a leitura do texto de abertura do curso de 1862 de Brentano, A Significação Múltipla do Ser em Aristóteles, que em 1907 lhe deu de presente Conrad Gröber, amigo da família, pároco de Costanza (Konstanz) e depois arcebispo
de Freiburg. Esse livro, um estudo rigoroso da doutrina do ser, sensibilizou e motivou Heidegger pelo caminho do estudo contínuo de Aristóteles e da filosofia grega.
Heidegger repetida e intensamente dedicou-se ao estudo de Aristóteles. O que ele foram os temas principais de sua obra: o problema do ser é o problema mais radical por seu modo onímodo e onipresente; o conceito da linguagem (logos) como essencialmente apofânica; a compreensão da verdade como desvelamento; a relação entre Ser e Verdade; e a intelecção do ser como presença.


Zubiri assumiu todas elas, como demonstram seus escritos imediatamente posteriores ao seu retorno a Alemanha.


2.3. Zubiri, a ponte para a ciência.

Zubiri queria fazer filosofia com o rigor e a profundidade que fosse possível, mas à altura dos tempos. Essa expressão de Heidegger em O que é Metafísica significava que a filosofia, longe de negligenciar o progresso da ciência, tinha que fazer dele elemento integrante do filosofar.

A concretização de como entendia Zubiri a expressão de Heidegger “estar à altura dos tempos” está contida em seu estudo “A Nossa Situação Intelectual”. Essa situação foi caracterizada pela erupção maciça da ciência, que deixava o cientista e o filósofo no vai e vem (“corda bamba”) de três tendências muito perigosas: a positivação niveladora do saber, a desorientação da função intelectual e a ausência de vida intelectual.


Essas três tendências representavam uma ameaça radical à inteligência e constituíam o risco iminente de que deixara de existir a vida na verdade. E era isso que tinha que ser superado. Mas não abandonando a ciência pelos perigos apresentados para a vida intelectual, pelo contrário, enfrentando em cheio os desafios que o saber científico colocava. Só assim se conseguiria superar a confusão, a desorientação e o descontentamento íntimo consigo mesmo. Essa superação era para Zubiri uma exigência do nosso tempo e quem não o tentara não estava à altura de nossos tempos.


Zubiri respondeu a essa exigência de “altura de nossos tempos” de duas formas. Primeiramente, adotou um espírito científico com o próprio filosofar: a filosofia não deve deixar que nenhum outro saber a supere em exigência e rigorosidade, objetividade e autolimitação na busca das coisas como elas são ou como se encontram. Mas, em segundo lugar, tentou estar em dia, o mais possível, com os melhores conhecimentos científicos testados e os que mais se aproximavam dos cânones tradicionais da ciência.


Esse interesse pela ciência para tomar altura foi o que levou Zubiri a estudar física teórica em Berlim. Mas, antes de ir para Berlim, Zubiri estava ciente da necessidade de contar com a ciência para o afazer ilosófico. Na verdade, seu interesse pela matemática o levou para reestudo da mesma na Faculdade de Madri. Também é conhecida sua participação com Julio Rey Pastor na Secção de Matemática da Associação Espanhola para o Progresso das Ciências; ele também foi, desde 1925, sócio numerário (membro) da Sociedade
Matemática Espanhola. Berlim foi uma ponte de conhecimento e de interesses, que acarretou em estudos posteriores em Paris, com Louis de Broglie (1936-1938) e com o matrimônio Joliot-Curie. Essa ponte levou Zubiri a estabelecer uma relação intelectual e uma amizade posterior com o prêmio Nobel W. Heissenberg, que aliás esteve, várias
vezes, visitando Zubiri em sua casa no exílio madrilenho.


Em suma, como escreveu Carmem Castro, pastas inteiras cheias de escritos de filosofia e de física trouxe Zubiri da Alemanha para a Espanha. Elas estavam cheias de ideias, esboços, problemas, tensões e preocupações intelectuais. Possibilidades para investigar. Eram pedras brutas para polir, perfilar, reformar ou rejeitar, pelo artesão do conceito, a estrutura de sua própria filosofia, para uma casa nova.

3.-Xavier, “Casa Nova”


Repetimos que Xavier significa em euskera “casa nova”. A novidade na filosofia espanhola da casa construída e habitada por Zubiri no exílio interno é, do meu ponto de vista, triplo: é uma filosofia pura, é uma filosofia radical e é uma filosofia como forma de vida.


3.1. Xavier, casa nova, significa uma filosofia pura.

A casa nova que inaugura Zubiri na filosofia espanhola é aquela na qual habita uma filosofia pura. Contra qualquer tipo de concessão à dispersão temática de signo estético, político ou psicológico (casa antiga), antes de qualquer ponto de partida extrafilosófico, Zubiri foi um filósofo puro.


Zubiri pode ser justamente considerado o primeiro filósofo puro da filosofia espanhola. É verdade queo jesuíta Francisco Suárez representou na história do pensamento espanhol um elevado nível de coerência e de disciplina metafísica. Mas Suárez escreveu no século XVII em latim. Ortega, tal como Unamuno e Eugenio d’Ors foram pensadores, entretanto suas ideias se dispersaram em dissertações políticas, estéticas, morais, psicológicas, ficcionais e até mesmo irônicas e pitorescas. Principalmente Unamuno e Ortega não
puderam fazer na sua vida somente filosofia, nem filosofia pura. As urgências intelectuais de suas respectivas circunstâncias vitais fizeram com que seu pensamento filosófico andasse, inevitavelmente, misturado com a literatura e o jornalismo.


Toda a obra de Zubiri, no entanto, é estritamente filosófica. Um trabalho tão tenso, vigoroso e rigorosocomo a filosofia pura, que, como disse José Luis López Aranguren, fazem de Zubiri nem um pensador nem um intelectual, mas sempre um filósofo.


Fazer filosofia pura significava para Zubiri fazer filosofia como foi feita na Grécia. Em 1933,
portanto dois anos depois de voltar da Alemanha, escreveu em um artigo na Revista de Occidente sobre o problema da filosofia: “Com todas as suas limitações, a filosofia grega nasceu, pelo menos, por si só, enfrentando-se com as coisas em contato imediato com elas. Mas o homem da era cristã não se encontrou nunca consigo mesmo de uma forma imediata, senão mediante Deus, isto é, sempre olhando fixamente no ente infinito” (SPF, II, 117).


A criação do mundo a partir do nada, a ideia judaico-cristã com que a filosofia grega não contou foi para Zubiri o ponto de partida da teologização da filosofia. A partir desse momento não houve mais filosofia pura, porque tudo o que é chamado de filosofia de Santo Agostinho a Hegel era um imensa teologização da filosofia, não filosofia pura (CLF, iii; SPF, II, 116).


A filosofia com o cristianismo começou a ser essencialmente teológica (NHD, 229). Dessa forma o mundo perde a sua verdade, as coisas são um nada vistas desde Deus, e se elas são algo, é desde seu ato criador (SPF II, 112). A filosofia, assim, ficou instalada no horizonte do que é podendo não ser, e a metafísica se transformou em teoria da criação (SE, 200). A filosofia depois da Grécia é a filosofia do nada (SPF, II, 114). O espírito humano foi separado do universo e se projetou excentricamente sobre a divindade convertida em razão do universo (NHD, 229).


Fazer filosofia pura significou, portanto, para Zubiri, fazer uma metafísica intramundana. Com esse termo Zubiri segue uma questão heideggeriana (SE, 201, 210, 237, 303), tentando evitar a concepção da realidade como “outra” realidade separada ou anterior as coisas reais. Por isso a apresenta sempre em função da talidade das coisas reais. Contra qualquer tipo de logicismos, Zubiri reivindicou a primazia do físico. A metafísica tem de ser radicalmente “física”. Para Zubiri, físico não é nem algo natural, como oposto ao técnico ou artificial (Aristóteles), nem o que tem “physis”, natureza em si (própria), mas o físico é o fisicamente real, “puro pleonasmo, mas muito útil” (SE, 13). Físico, nesse sentido, não se opõe ao metafísico, como seria de se identificar com o empírico ou positivo, mas é por excelência o metafísico.


O físico pode, portanto, ser considerado a partir de duas perspectivas. Como um termo do saber positivo é simplesmente o que é real. E, como o objeto da metafísica é a estrutura formal e última da realidade enquanto tal. “Portanto, o que é chamado de metafísico, quando se fala de essência metafísica, é para mim mais bem conceptivo que metafísico” (SE, p. 276). “A realidade física é a realidade qua realidade, portanto, o seu caráter físico é eo ipso um caráter formalmente metafísico” (SE, 292). O metafísico, portanto, não é uma
fuga para algo diferente do físico, mas ater-se ao físico mesmo. Pois, enquanto o saber físico-positivo se atém ao que é a coisa real, a sua determinada concreção real; o saber físico-metafísico se atém ao que a coisa real enquanto tal e a estrutura da realidade enquanto realidade. Então, Zubiri procurou superar a dualidade ônticoontológica estudando a realidade em sua dupla vertente: de talidade e de transcendentalidade funcional trascendentalmente vinculadas.
12

3.2. Xavier, casa nova, significa uma filosofia radical


Quem lê a obra de Zubiri vai descobrir constantemente contínuas chamadas à radicalidade.
Encontramos nas suas obras filosóficas nominações como raiz, radical, radicalismo, e expressões como consideração radical, polo radical, raiz radical, última raiz comum, raiz metafísica, realização radical. Todas elas formam os acabamentos de um pórtico indicador de uma vontade de radicalidade. Isso levou a vários autores a qualificar de radicalismo, com muita propriedade, a filosofia de Zubiri como uma filosofia radical. Mas o que é uma filosofia radical?

O radicalismo zubiriano se opõe à repetição de fórmulas que foram criadas para resolver problemas reais, mas que se repetem mecanicamente, sem perceber que tais problemas não são mais os geradores dessas fórmulas. Foi o próprio Ortega y Gasset que opôs a filosofia radical à filosofia escolástica, entendida como fé cega nas autoridades espirituais. E isso porque partem da crença de que determinados textos contêm declarações definitivamente válidas e respostas atemporais. A filosofia radical opõe-se a qualquer filosofia escolástica, pela prioridade que dá à problemática sobre a doutrina. O radicalismo é o oposto da escolástica. Zubiri não é um filósofo escolástico, em qualquer sentido. A
vontade de radicalidade, característica do afazer filosófico zubiriano, significa precisamente a discordância com qualquer tipo de doutrinas ou ideias que são reconhecidas, de antemão, baseadas na veneração à autoridade do mestre que a professa, ou seja, a oposição a qualquer forma de uma filosofia de escola. Contra qualquer interesse de escola, José Gaos afirmou que Zubiri não é um discípulo de alguém, em qualquer sentido do termo. A filosofia de Zubiri é uma filosofia radical, constitutivamente aberta, essencialmente esboçante,
alheia e contrária, portanto, a qualquer tipo de cerração escolástica. Em nenhum momento de sua formação Zubiri conformou-se com a doutrina dos seus mestres. Nem o tomismo, ou mesmo o realismo crítico de Louvain, nem o raciovitalismo orteguiano, nem a nomenologia
de Husserl, nem a ontologia de Heidegger, e tampouco o realismo aristotélico foram etapas definitivas que pararam a investigação de Zubiri.


É verdade que sua formação juvenil proporcionou a Zubiri um bom conhecimento da filosofia escolástica, mas mesmo quando cuidadosamente analisados seus primeiros trabalhos, deixa a impressão de que sua presença é muito difusa. Desde 1925, o único interesse para Zubiri propriamente do tomismo é pela hermenêutica. Confrontado com a intenção da neoescolástica franco-belga por ressuscitar os mortos, Zubiri advoga uma via de exêgesis do tomismo, que o compreenda e o contextualize. Nem a alternativa mais atraente, naquele momento, da renovação do tomismo, o realismo crítico, da Universidade de Louvain, lhe parecia viável. Ele veio de Louvain convencido de que o suposto realismo crítico era realista apenas em suas intenções (CCM 212), e referindo-se a ele em sua tese de doutorado, Zubiri o condenou como perturbador e defunto (TFJ, 110). Zubiri veio de Louvain convicto de que a nova abordagem da filosofia devia se dar no caminho iniciado por Brentano e Husserl (CCM, 205-CCM, 211). Uma maneira de fazer de Zubiri um filósofo escolástico foi com alguma frequência incluí-lo na chamada “Escuela de Madrid”. A expressão “Escuela de Madrid” é designada, na historiografia da filosofia contemporânea
espanhola, a influência da pessoa, da atividade e do pensamento de Ortega y Gasset sobre um amplo grupo de pensadores que começou a funcionar em articulação com o advento da Segunda República, sendo o período entre 1933 e 1936 os de seu estabelecimento e máxima vigência. Além de Zubiri, Manuel García Morente, José Gaos, María Zambrano e Julián Marias foram incluídos no núcleo do entorno orteguiano.


Se a necessidade de um tempo de conformidade com a exigência do mestre é o requisito necessário para que haja uma escola, isso é o que não se deu de forma alguma em Zubiri. A influência de Ortega termina logo. Desde a sua viagem à Alemanha em 1928 e especialmente desde o seu retorno em 1931, Zubiri pode ser considerado desligado do afazer filosófico orteguiano, embora seja eterna sua gratidão ao trabalho de
oxigenador do ar cultural espanhol com o europeu. Além disso, Zubiri deve a Ortega a influência de seu excepcional magistério e uma vinculação remota com a tradição entregue pelo “maestro” como possibilidade e apropriada com um poder, embora superada pelo discípulo radicalmente pela própria criação livre. Zubiri, discípulo de Husserl, tampouco seguiu seu mestre. Embora tenha aceitado desde muito cedo que era necessário colocar os problemas filosóficos na nova linha de Husserl, a fenomenologia, logo percebeu que a obra de Husserl não era suficientemente radical em seu desenvolvimento fenomenológico. Zubiri indicou, logo em 1921, que o verdadeiro problema da filosofia era o da sua radicalização, ou seja, aproximar-se da realidade sem mediações de qualquer tipo. Nem sequer com a mediação fenomenológica, como “a consciência”, “a intencionalidade”, “o sentido”.
Tampouco Zubiri parou em Heidegger. Ele foi gradualmente o abandonando nas colocações e soluções ontológicas, que o amarravam a Heidegger e foi obrigado a tomar posições mais pessoais, que começaram como incipientes esboços e sugestões, ainda sem um nome próprio nos escritos de 1931 a 1944. Entretanto, essa influência de Heidegger transformou tais primeiros passos em elementos constitutivos de seu sistema aberto, em sua etapa estritamente metafísica (1962-1983): a metafísica frente à ontologia, a realidade
frente ao ser, a existência real frente a existência modal (animal de realidades), a possibilidade real frente a possibilidade modal (radicalismo histórico). Foi especialmente a divergência com a concepção heideggeriana do conhecimento o que permitiu o desmonte, por parte de Zubiri, da ontologia de Heidegger. Para este, estar presente na intelecção era
desvelação (IRE, 135). Para Zubiri, no entanto, a desvelação não é formalmente o ato de intelecção, mas sim caráter especial da atualização. Se há desvelação é porque há atualização, e, portanto, o momento de desvelação está fundamentado no momento da atualização. A condição própria e formal do inteligido é estar atualizado na inteligência senciente (SE, 114). Zubiri analisa o dado na impressão sensível. A abertura radical
já está na impressão de formalidade de realidade, cujo caráter não é nem conceptivo, nem lógico, nem sequer intencional, mas físico, real e noérgico.


Para corrigir Heidegger, Zubiri se voltou para Aristóteles. Nele constatou (1935) que entender umas vezes significava demonstrar e outras especular, mas, que no mesmo estagirita, entender significaria, também, experimentar, sentir. A principal tarefa filosófica foi, então, descrever os dados imediatos, não como dados da consciência, mas como dados do sentir, que fazem saber as coisas mesmas em sua realidade (FM 40). O sentir para Zubiri se tornou o único caminho verdadeiro para a realidade.
Desde Aristóteles se falava da atualização como um ato comum do cognoscente e do conhecido, mas não fora dito que o caráter da realidade é o que formalmente constitui a experiência. Zubiri descobre que o constitutivo formal da experiência é ser provação física da realidade, ou seja, atualização das coisas em sua realidade (SH, 570). Os três volumes de sua obra Inteligência Senciente são o resultado do encontro e confronto com Aristóteles sobre o sentir. Essa obra é o desenvolvimento de uma ideia raiz: a intelecção humana é formalmente mera atualização da realidade na inteligência senciente. O neologismo ”senciente” expressa o caráter senciente da inteligência. “Inteligir é uma forma de sentir
e o sentir é no homem um modo de inteligir”, repete constantemente Zubiri. “O sentir humano e o inteligir constituem em sua intrínseca e formal unidade um só e único ato de apreensão” (IRE, 10). A realidade se sente, se apreende como realidade pelos sentidos, e somente se a realidade é de alguma forma sentida poderá ser concebida ou pensada realmente.


A intelecção consiste em ser mera atualização do real. Isso significa que a função principal e radical da inteligência é deixar-se apoderar pela realidade sencientemente apreendida, e ficar apoderado por ela de tal maneira que as demais funções intelectivas, como afirmar, julgar, etc., se desenvolvam a partir dessa implantação radical na realidade.

Ter superado a tradição filosófica clássica e ter construído uma forma aberta de realismo são as duas características primárias do radicalismo filosófico de Zubiri. Em primeiro lugar, é um realismo aberto porque a realidade está continuamente dando de si “em” e “desde” a matéria. Mas fisicamente não se pode reduzir tudo à matéria, porque existem rredutibilidades estritas e níveis hierárquicos. Segundo Thomas B. Fowler, esse caráter hierárquico da realidade é uma das principais contribuições da reflexão zubiriana para a criação de um novo paradigma de complementariedade entre a ciência moderna e a filosofia. Para Fowler, a abordagem hierárquica dos sistemas de Zubiri mostra que a realidade tem “camadas” ou “níveis”, e que o comportamento de cada nível é limitado por, mas não totalmente determinado pelos níveis abaixo (EDR, 90).Esse enfoque hierárquico leva inevitavelmente ao fracasso de todo reducionismo materialista da realidade. Como ele próprio escreveu:


“Seria um grande erro pensar que as estruturas transcendentais do ser pendem só da
estrutura dos elétrons ou da matéria inanimada. Estamos sempre inclinados a acreditar
que quando se refere ao amor ou às pessoas, na verdade, está se falando sobre algumas
coisas antropomórficas e metafóricas, mas o que conta são os campos eletromagnéticos
e os elétrons. Mas por quê? Aquelas outras coisas não são realidades? (…) Não é o mesmo
a estrutura dinâmica do movimento local, a estrutura dinâmica dos fenômenos físicos, a
estrutura dinâmica de um ser vivo, ou de uma pessoa humana, e muito menos do conjunto
inteiro da história e da sociedade humana. (EDR, 64). O realismo de Zubiri também é aberto, porque a realidade está continuamente dando de si “em” e “para” (hacia). Fisicamente, há uma abertura para a realidade enquanto que realidade, mas ela não apenas se lhe “atualiza” ao homem na inteligência senciente, mas também se “impõe” com uma força
“última”, “possibilitante” e “impelente” (HD, 139). É o poder de real que liga, que “re-liga” o homem à realidade. Isso é o que Zubiri chama de “religação”.


A religação, portanto, é um dado primário, que surge da mera descrição do dado em impressão de realidade. E a esse poder da realidade, enquanto que último, possibilitante e impelente, Zubiri chama de “deidade”. A deidade não é Deus, mas a própria realidade intramundana enquanto poderosa e religante. Mas o poder do real é enigmático (HD, 96-97). Não porque seja obscuro, mas porque aponta para o fundamento da deidade. A religação, o poder do real, não esgota na deidade o problema de Deus, mas apenas
o coloca enigmaticamente (HD, 269). A religação lança a pessoa (HD, 374), realidade relativamente absoluta, para além da impressão de realidade, para a busca, já desde a razão metódica, desse “fundamento” do poder do real, a realidade absolutamente absoluta, Deus.


3.3. Xavier, casa nova, significa uma vida filosófica dedicada à investigação


A novidade da construção zubiriana não só se deve à forma sólida de sua arquitetura filosófica, mas também ao modo vivo de realizar a sua dedicação à filosofia, entendida como forma de vida. É difícil encontrar no passado histórico espanhol a figura de um filósofo, como Zubiri, que tenha mantido tão fortemente a coerência entre a opção vital e sua dedicação intelectual em circunstâncias tão difíceis. Não aparece facilmente na cultura espanhola a figura de um escritor como ele, que não cedeu jamais à moda, não buscou a popularidade ou recompensa material, não bajulava os poderosos nem venerava a autoridade dos seus professores. Não é fácil encontrar o perfil de um pensador que atendesse aos problemas que o grau de aceitação que as soluções pudessem suscitar no público leitor e, ainda mais, que tivesse uma desconformidade tão permanente com sua própria tarefa, de se exigir a revisão constante de suas ideias.
15
Diante desta atitude vital, como poderíamos conceituá-la? Como a de um pro-fissional? Como a de um pro-fessor? Como a de um pro-fesso? O termo “profissão” é um termo ambíguo, que adquire significados diferentes caso se utilize no âmbito civil ou canônico. Na ordem civil, o homem que exerce uma profissão é chamado de “profissional”. Na ordem
canônica, no entanto, o que faz profissão religiosa é chamado de “professo”.

Zubiri, embora fosse profissional e professor de filosofia, ele se nomeava da forma mais simples: “professo” em filosofia. Por quê?


O motivo é que o profissional e o professor de filosofia tendem a considerar-se habitualmente possuidores e depositários de uma verdade. O professo da filosofia, pelo contrário, se vê como um iniciante humilde e eterno, dirigido, arrastado e possuído pelo apelo da verdade. Isso é o que era originalmente o filósofo grego, aspirante à sabedoria, pois somente os deuses são sábios. É o que foi a metafísica em Aristóteles, “um saber
que se busca”.


Esse espírito de professo foi interpretado por Zubiri como uma busca incessante da verdade, como uma profissão de verdade. Zubiri disse tantas vezes com Santo Agostinho: “Procuremos, como alguém que quer encontrar, e encontremos como alguém que ainda precisa continuar procurando, pois, quando o homem termina algo, é justamente quando começa” (NHD, 32).

Assim o repetiu até o final de sua vida.


Em 18 de outubro de 1982, gravemente doente com câncer e pronto para passar pela morte a uma outra forma de realidade, Zubiri foi premiado com o El Premio Nacional de Investigación Santiago Ramón y Cajal. Seu discurso foi uma espécie de testamento, e ao receber o galardão falou olhando-se a mi mesmo e olhando seu grande amigo, o Nobel Severo Ochoa, coparticipante do prêmio:


“A investigação da realidade verdadeira não é uma mera ocupação com ela. Certamente
é uma ocupação, mas não é mera ocupação. É muito mais: é uma dedicação. Pesquisar
é dedicar-se à realidade verdadeira. Dedicar significa mostrar algo (deik) com uma força
especial (de). E se tratamos de dedicação intelectual, essa força consiste em configurar e
conformar nossa mente segundo a apresentação da realidade, e oferecer o que assim se
nos mostra à consideração dos demais (…). Essa profissão é algo peculiar. Aquele que só faz
ocupar-se dessas realidades não investiga: possui a realidade verdadeira ou pedaços dela.
Mas, o que se dedica à realidade verdadeira tem uma qualidade de certa forma oposta: não
possui verdades, mas, pelo contrário, está possuído por elas. Na pesquisa, vamos de mãos
dadas com a realidade verdadeira, estamos arrastados por ela, e esse arrastar é justamente o movimento da investigação” (CRS 43).


Conclusão


Xavier Zubiri Apalategui, aqui estão três nomes cujos significados em euskera, “casa nova”, “ponte” e “biblioteca”, revelam o poder que a realidade deu de si numa filosofia e numa vida, a filosofia e a vida de Xavier Zubiri Apalategui. Muito obrigado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: