Ainda podemos falar e recorrer à Metafísica?

TRIBUNA DO NORTE. POLIFÔNICAS IDÉIAS. (02/março/2002)

Por José Fernández Tejada

Temos ainda muito presente à experiência paradoxal do século XX diante das contradições e euforias do fim do milênio e do estrear violento do XXI. Uma rápida retrospectiva desta questão nos leva a concluir, negativamente, à pergunta de nosso questionamento, se não pararmos para saber e entender o que queremos fazer com a Metafísica e o que realmente ela é. Então, vamos acompanhar, porque sem questionar, a comitiva fúnebre do enterro da metafísica. Certamente ela não é a “panaceia” para todas as obscuridades da humanidade. E nem, “um buraco sem saída”. E nem coisa impossível para o homem, porque foi ele quem a trouxe para suas grandes interrogações. Foi a ela que no meio das perguntas e respostas, os gregos recorreram e legaram.  Então, não podemos participar só por acompanhar, nem aplaudindo e nem lastimando-nos, do “enterro da Metafísica”. Estaremos participando desse enterro sem saber o que tem no caixão? Contudo, para que serviria “uma dita ciência do além do que são as coisas” que procura as explicações da vida em essências, substâncias, em ideias e conceitos pré-estabelecidos ou, em última instância, em “Deus”, sempre do além? Será que a interpretação dada por Aristóteles foi bem entendida e seguida? Será que vale a pena perguntarmos pela metafísica se nos sentimos aquém de tudo do que ela propôs e parece insistir? Apesar da premência que a vida do homem tomou já nos finais do século XIX, os “pensadores” do século XX a reduziram em seus projetos salvadores a um “coeficiente de provisoriedade” da vida intelectual, segundo o filósofo Xavier Zubiri. Por isso, na linguagem dos críticos da globalização, a vida em geral e a humana em concreto, são apenas “matéria prima” para “os tiranos”, como o mercado, que tudo justifica, orienta e devora. Estaríamos voltando ao pé da letra de Aristóteles a grandeza descoberta nela? Podemos afirmar que teríamos descoberto e substituído por outra metafísica do “além de nós”? Ou aquela indicação primeira, como indicava Aristóteles, deve mudar de direção, de dentro de nós, (não do além) do indivíduo e do concreto, do físico humano?

Nessa forma confusa e desorientada, também do politicamente correto e pelo social, atravessamos todo o século que passou e nesta mesma tormenta de “bombas e pão” parece estamos encaminhando o XXI. Assim se expressava um leitor do Jornal do Brasil diante do drama dos refugiados afegãos em alto mar: “Será que questões diplomáticas são mais importantes do que 438 vidas dos afegãos?” A burocracia dos tribunais não é metafísica, senão ao contrário, que determina sobre o status de emigrantes ou refugiados? Quem são os afegãos diante dos fanatismos políticos, econômicos e religiosos? Pura matéria a formar, que vem do além, ao seu capricho. Porém, essas pessoas, antes, de mais nada são realidades humanas situadas no Afeganistão e, por isso, são parte da Humanidade, como nós. Que pode fazer por elas a “Metafísica”? Do jeito que a entendemos e praticamos como forma volátil, nada, porque somos intramundanos. Por que tal situação do mundo de hoje nos leva a corroborar a “morte da Metafísica” para sempre? Mas que “morte” e de que “metafísica” devemos falar? Onde que estaria a metafísica chegando indicada por Aristóteles diante das perguntas gregas sobre as coisas?

Assim, será que podemos recuperar a Metafísica numa época em que se deu por encerrada a sua possível vitalidade? Mas, essa mesma metafísica que se tenta enterrar, não continua sorrateiramente dando-nos sustentação teórica (princípios) para as decisões políticas, econômicas e sociais? Que princípios e que raízes são esses? Não se escondem nelas as razões últimas de tudo o que hoje se faz e planeja? Então, de novo, que é metafísica? Que força poderia ter a busca de uma “explicação abstrata” e além de nossas vidas e possibilidades reais e concretas? Onde estariam as “ultimidades da vida, do mundo e do homem”? Será que isso é a Metafísica? Ao menos nos encontramos numa grande confusão sobre o que significa e realmente seja a “Metafísica” e com nela nos debatemos.

Pode ser que, ao propor-nos buscar as “ultimidades da vida, do homem e do mundo” nos tenhamos perdido de inflexão em inflexão, de desvio em desvio até tal diagnóstico e celebração “oba oba” da razão e da ciência, sem saber bem do que está morrendo. Parece que sintonizamos com o que “sábios de plantão” perceberam e falaram do por que da inutilidade dessa metafísica para o mundo, e ainda, como “alunos preguiçosos”, levamos a sério só a indignação do seu grito e não entendemos o que eles queriam dizer e em que se apoiar. Nós perdemos no caminho, tal como eles se perderam, dentro de “categorias existentes” de um “saber transcendental”, sejam aristotélicas, escolásticas ou modernas de Descartes, Hegel e Kant, ou pós-modernas, não entendemos bem o que elas discutam e nos detemos em discussões e mais discussões. Se o sol dá calor e brilha não é pelo que nos acusamos dele, senão se o acusamos o mais fielmente, porque é real, esquenta e é foco de luz. Mas, o que essas categorias nos falam de um saber transcendental? Assim, nos sentimos alegres ao poder repetir o grito: “abaixo os preconceitos”, mas continuamos apoiados em novas formas de preconceitos, princípios e teorias soltas do que é. Criamos uma algazarra de conceitos e mais conceitos, de fragmentos e mais fragmentos do homem, de sua vida, de seus projetos e de seu futuro. Juntamos, amontoamos e fazemos cruzamentos de informações e pensamentos em função de quê (metafísica)? Somos como crianças que desfazem o brinquedo para depois tratar montá-lo. O cultivo fútil da “metafísica” nos levou a usá-la como “meios de vida”: sobrevivência, mas sobrevivência de prazer hedonista, fama, espetáculo, financiamentos de pesquisa, claro que sempre mercadológicos. Neste pedestal se constitui o saber atual como postura intelectual e não como atitude.

Foi assim quando os sofistas rejeitaram os filósofos da Natureza e, como eles, se perderam em belos e astuciosos raciocínios. Foi assim na época da decadência da Grécia com os filósofos enciclopedistas porque se tornaram meros repetidores de Sócrates, Platão e Aristóteles, não entenderam o que eles levaram nas “suas mãos”. Também repetimos durante muitos séculos os andaimes lógicos da filosofia aristotélica e nos perdemos em discussões, que a nada levaram ou distorceram. A “morte da metafísica” não veio nos mostrar que estávamos fazendo metafísica onde ela radicalmente não estaria? Perdidos que estávamos em brigas de escolas, nas ideias, conceitos, sistemas metafísicos e teorias do conhecimento fomos afastando-nos das coisas que são realmente as que nos dão o que pensar e viver. Assim, as coisas, incluindo o homem, hoje são esvaziadas de sua própria realidade pelo “discurso e pela propaganda”, canção repetitiva de muitos intelectuais. A metafísica da inteligência clássica não encontrou sua sustentação para apreender a realidade e por isso conceber e abrir um caminho vivo?

A filosofia se debatia já nesta confusão, quando Andrônico de Rodas no século X só quis ajudar a catalogar os livros recém-descobertos de Aristóteles. Então, colocaram os volumes sobre a Natureza em primeiro lugar, depois os livros sobre a Filosofia Primeira. Dessa forma parece que a filosofia, como metafísica, fosse considerada, diríamos apenas geograficamente e de arrumação bibliotecária, como depois da física. A confusão em parte, estava feita e cristalizada: o afazer metafísico passou a significar somente o que está “mais além” do físico. Platão nunca usou o vocábulo transcendente, mas foi ele quem iniciou sua elaboração ao separar das coisas sensíveis as “ideias”; entretanto as ideias estavam presentes nas coisas e eram seus paradigmas. Aristóteles discordou desta separação, mas elaborou sua “filosofia primeira” desde uma substância separada, que é a substância eterna. Assim, esta ideia de metafísica marcou o pensamento ocidental. O “meta-físico” passou a ser somente o “ultra-físico”. Exemplo, como em Kant é a inteligibilidade do conhecimento ou razão transcendental. Hoje é a confusão e o caos. E o que eram as coisas com as quais convivemos? Então, é melhor enterrar essa metafísica. Bela solução pragmatista.

As coisas e o homem foram quebrados ao meio, porque se separou o sensível do inteligível. O homem será comporto da faculdade da inteligência e da faculdade de sentir. As coisas, que são suficientes por si mesmas, ficaram para trás, sempre desconsideradas até serem manipuladas e entificadas a “imagem e semelhança” do ilustrado de plantão. De Santo Agostinho a Hegel viveu-se uma “metafísica da niilidade”: “as coisas são um desafio à nada”. Frente ao assombro dos gregos, de que as coisas mudam, o assombroso, a partir do cristianismo, é que haja coisas, que estão sendo presentes. Os grandes filósofos sempre experimentaram esse radical assombro frente às coisas: que são elas? Para que servem a homem? Mas, o afazer metafísico se constituiu, não sobre as coisas, que estão presentes, mas sobre a mudança e sobre a niilidade. A metafísica foi caindo mais na representação, e não na apresentação, da inteligência e do sentir. Claro que só podíamos cansar-nos e afastar-nos dessa filosofia dita primeira, metafísica porque nada tinha a ver com ao homem e seus projetos no mundo.

Então, mais do que a morte da metafísica estamos diante do único e verdadeiro desafio dos filósofos com os quais estamos submergidos, segundo Zubiri, “num conflito do qual não podemos sair por combinações dialéticas, mas pondo em marcha, cada um dentro de sí, o penoso e penosíssimo esforço do trabalho filosófico”. E este é o problema da filosofia contemporânea: continuar assombrar-se com as coisas de hoje, iluminá-las e dar conta delas real e metafisicamente, mas não apenas a partir de minhas construções mentais.

A filosofia sempre caminhou procurando a Metafísica das coisas nas ideias, nos conceitos, e hoje nos discursos de consenso e argumentativos. Reduziu todo seu esforço às coisas em si ou para si e não no que as coisas são, porque elas estão sendo, são reais. Construiu belos castelos metafísicos, mas sempre na direção do mais-além, deixando o homem e sua história aqui na terra desbaratados.

E se o metha da metafísica fosse o mais dentro das coisas, da realidade, do homem? Quer dizer o intrafísico, o intrahumano e o intramundano? Em que significado? Não é nessa direção que clamaram as vozes reais do homem no século XX e continuam a gritar neste início de século XXI, como relatamos no início? Não são esses os gritos do povo americano e islâmico, que antes de tudo querem ficar de pé? A luta, pela terra, pela saúde, pela educação, pelo tratamento urgente da AIDS, pela dignidade da criança, do negro, do índio, da mulher, da dignidade humana, não são os gritos, como diz Milton Santos, dos “de embaixo”? E é nessa direção que parece ressurgir a força da verdadeira Metafísica.

Se os filósofos foram ficando confusos e desorientados com esse tipo de construção oca da metafísica, também foram ficando descontentes com a forma de justificá-la diante das primariedades da vida e do homem. Algo ficou perdido nesse laborioso afazer filosófico que no século XIX toma conta de Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Marx, Husserl, Heidegger… E também de cientistas como Plank, Einstein, Heisenberg, Gödel e que a física quântica recuperou a experiência sobre os conceitos e teorias. Todos estes pensadores, e todos os homens da terra, se encontraram com o real maniatado pela metafísica em vigor. Mas, “não se pode tampar o sol com a peneira”. Condenaram a Metafísica, mas sempre queriam dar conta das coisas, pelo menos as usufruindo. Criticaram e se indignaram, mas desde a mesma postura do além da metafísica reinante. Lutaram e nem sempre saíram ilesos, mas deram sua contribuição negativa. De novo passaram a criticar as diferentes posições, mas se perderam na mesma confusão, porque não encontraram o ponto sublime e esquecido da Metafísica radical: o real das coisas, das coisas mesmas.

Husserl estava certo ao captar por onde deveríamos recuperar o valor da Metafísica: “a volta às coisas” e “às coisas mesmas”. O homem não vive sua vida nos conceitos feitos além, mas com os pés no chão: vive com coisas e no meio delas para dar conta delas. O filosofar não estaria primeiramente em conceber ideias, mas em sentir inteligentemente as coisas: apreender a realidade. Então, Zubiri exigiu desse volta às coisas, que fosse “desde as coisas mesmas”.

Na experiência metafísica ocidental as coisas ficaram entificadas porque a função intelectual vaga caoticamente no meio dos conceitos. Quer dizer, somente desenvolvemos a função concipiente da inteligência e não a função co-determinante de inteligência senciente. Aumentamos o fosso iniciado por Platão de separar as ideias das coisas e resgatamos “a volta às coisas”, mas, também com Husserl, ficamos presos a objetividade da consciência e as coisas mesmas ficaram entre parênteses. Com Heidegger resgatamos o ser das coisas, jogado no mundo, mas não a realidade, e gastamos nossas melhores forças com os existencialismos, que só provocaram mais angústia no homem. E com eles as coisas foram jogadas na lata de lixo da história como resíduos. Perdemo-nos hoje na analítica, na hermenêutica e na linguística, que também ancoram suas ideias no método e no sentido.

Não há dúvidas de que a inconsistência dos discursos pós-modernos são a nova forma desse sofisma. E o que foi um “torneio de razões contra razões” hoje mais parece uma guerra pirotécnica das estrelas (bombas mortíferas), indiscutivelmente, do mercado, dos meios de vida dos poucos escolhidos. Por isso lemos nas manchetes dos jornais: “ricos põem planeta à beira da recessão” ou “só os ricos ficam mais ricos, com a riqueza americana dos anos 90”. E isso, não somente se aplica a Estados Unidos, Europa e Japão, mas também ao Brasil e tantos outros países pobres ou ricos, onde a divisão de renda não muda; “os ricos” fizeram de suas riquezas, meios de vida e a morte dos “outros”.

As ideias e conceitos, que já eram separadas das coisas, entraram em conluio na velocidade cibernética, constituindo seu castelo virtual. São os desejados aviões comerciais transformados em bombas mortíferas nas torres gêmeas de Nova York. É a tecnologia da guerra que joga bombas e alimentos no Afeganistão. É o pó do antraz entregue em casa aos possíveis milhões e milhões de endereços de seres humanos no mundo. É a nova plasticidade do conceito de Ideia Absoluta de Hegel. É a mais “bela” manifestação da crise da razão em não dar conta do real. Hoje por todos os lados e latitudes a inconsistência do discurso se alimenta da mesma metafísica inconsequente, que não morreu, mas que continua não podendo dar conta do real, porque está separada da realidade.

O filósofo espanhol, Xavier Zubiri (1898-1983), percebeu tal confusão e atrevidamente sai do domínio exclusivo do giro antropológico da filosofia moderna, que rodopia e vagueia em torno da subjetividade. Ele também atravessa o giro linguístico do sentido como representação da realidade e enfrenta a crise da metafísica desde seu âmago propondo um giro metafísico: quer dizer, fazer girar o centro do afazer metafísico desde o real e seu poder. É com as coisas que vivemos e delas devemos dar conta, não podemos procurar qualquer tipo de caminho que nos separe delas. É o que aconteceu com a metafísica, cuja morte e sepultamento desejam-se celebrar.

A proposta do filósofo espanhol é que ao recuperar a questão fenomenológica do sentido, possamos inserir esse sentido através do sentir as coisas: não primariamente as “coisas- sentido”, mas “coisas-realdiade”. Pois somente depois de sentir as coisas e dentro delas é que podemos dar sentido varridíssimo às mesmas para o nosso benefício. A debilidade inerente e intrínseca à razão foi descrita por Wigenstein e ficou provada pelo teorema de Gödel. Zubiri escolhe aquilo que foi preterido: o caminho do sentir e da sensibilidade, estruturalmente com o inteligir, para recuperar o vigor da Metafísica. Nos leva ao fundamento do filosofar: as coisas são sentidas na nossa inteligência. Conclui um de seus estudiosos, Diego Gracia: “é a atitude de Zubiri que deste modo tenta saldar uma conta secular da filosofia. Com Zubiri a filosofia tem deixado de andar de cabeça, e se apoia, espero que de uma vez por todas, sobre os pés”.

Temos exemplos no Brasil de pensadores que não embarcaram nessa metafísica traidora que buscou sem resultados as explicações últimas de uma racionalidade que se perde nos devaneios do ultra-fisico. Josué de Castro em 1946 constrói sua Geografia da Fome exatamente sobre uma crítica ao racionalismo que deixou de lado o “instinto da fome”. Paulo Freire nos fala do “saber de experiência feito” e Milton Santos não se cansa de repetir que o futuro da humanidade está na “sabedoria da escassez”. Com Zubiri, todos parecem concordar, que o afazer metafísico estaria no que foi deixado de lado e jogado na lata da história: a realidade da vida, do homem e do mundo. O homem pode e deve fazer metafísica porque é “animal de realidades”.

Que nos decidamos logo elevar-nos a estes reais e verdadeiros conceitos Metafísicos. Voltemos a fazer “Metafísica do real”. Voltemos e experimentemos a radical pergunta Metafísica: o que são as coisas no meio das quais vivemos para dar conta da vida, do mundo e do homem brasileiro, americano e afegão neste início do século XXI.

Que vamos fazer com a “Metafísica”? Uma querela mal enfrentada e resolvida ou uma querena que nos leva por mares novos  e nunca navegados do ser humano. Decidamos sabiamente.

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