Razão e realidade: Estrutura humana de convivência. A ética da razão em Xavier Zubiri.

Por José Fernández Tejada

INTRODUÇÃO (da tese de doutorado defendida em 2000, 441 páginas)

É cada vez mais estranho e paradoxal para os “amantes do saber das coisas” exercitar seu saber para viver no mundo atual, onde a quantidade e a qualidade de conhecimentos, de métodos e de resultados das ciências, e dos que abdicam do papel das mesmas, nos embalam e nos aquietam. Fica difícil querer aprofundar a questão da inteligência humana, fora do âmbito da consciência e do conhecimento, porque, também, nossa mente não é “tábua rasa”. É complicado aprofundar o que as coisas são e sua realidade fora do mundo idealista ou pragmatista-positivista num impulso desenfreado de tecnologia, a serviço do mercado, e não do homem, apresentada como único paradigma da evolução dos povos e, em última instância, da “felicidade humana”. Fala-se da necessidade de usar cada vez mais a inteligência e o “capital do conhecimento” como a alavanca para um mundo melhor, entretanto “esses intelectuais” mantém uma “estrutura pensante” que continua a excluir milhões de pessoas. Fala-se da necessidade de resgatar ou criar novos valores, mas que são propriedade de uns, e sua prática é exigida dos outros. O século XX parece estar mergulhado no limite de uma crise do saber na forma da crise da razão. Tanto as coisas, com as quais o homem vive quanto a inteligência foram trivializadas em simples funcionalidades e a vida humana e do planeta não valem nada

Temos, ainda, a sensação de que o saber humano está se servindo por um lado com o intuito de catalogar a espécie humana e, por outro, para ganhar status de classes sociais superiores às quais quer pertencer e se sobressair para dominar e se aproveitar da ignorância dos outros. Nesse impasse da crise da razão, a filosofia nos parece reduzida a simples empregada das ciências, sendo chamada apenas para servir a algumas necessidades das urgentes investigações científicas, como de ideologias subjacentes de todos os tipos. Nós, que criticamos que a filosofia foi ancilla da teologia, a convertemos hoje em ancilla de muitas ciências e de um sem fim de racionalidades. Até a moral e a ética são obrigadas a servir às ciências e às ideologias de todos os tipos. O mundo das ciências, até o da economia, segue medindo sua importância pelos títulos de PhD para alavancar o futuro humano, mas esses “Doutores em Filosofia” reduzem quase tudo ao narcisismo e monetarismo. Contudo o homem ainda está de pé porque não conseguimos eliminar os dois pilares da filosofia: a Natureza (phýsis) e a Verdade (altheia), que de várias formas ainda estão presentes entre muitos pensadores, sabendo-o ou mesmo sem sabê-lo, porque o desafio do real, de sua força e descobrimento ainda ressoa, cada vez mais forte entre cientistas e pensadores, e principalmente entre todos os homens em todas as partes do planeta.

Na ânsia de um saber absoluto, talvez tenhamos nos perdido pelo caminho. Continuamos a excluir a filosofia dos assuntos humanos, porque ainda a pressentimos “perigosa” ou talvez porque sentimo-la impotente na sua exclusividade racional. Com que tipos de inteligência e racionalidade podemos ainda contar num mundo que alardeou a morte de Deus, da Metafísica, do Homem e de sua História para a humanidade continuar a existir? A quem podemos recorrer mais, senão a força que sentimos todos dentro de nós mesmos? Porque, do senso comum grego nasceu a busca das coisas e da verdade delas para o homem. A partir de toda tradição filosófica, sem nada excluir, ainda nos sentimos partícipes da eterna repetição da filosofia. Ainda queremos repetir a ímpar preocupação dos gregos de esquadrinhar com a mente humana as misteriosas forças da Natureza, do Mundo e dos Homens (de todos os homens do planeta) no contexto atual para seguir procurando a melhor possibilidade para nossa realização.

A filosofia não é uma ocupação a mais, nem sequer a mais excelsa do homem, mas é um modo fundamental de sua existência intelectual” [HD 269] (grifos nossos de aqui em diante). Esta expressão não é uma simples definição da filosofia, mas a constatação histórica da novidade da experiência humana de seu filosofar. Essa constatação abre o desafio do filósofo espanhol Xavier Zubiri com Hegel na presença de seu mestre Ortega y Gasset. O jovem filósofo, que acabara de estudar com E. Husserl, M. Heidegger e M. Scheler e de se adentrar nas mais diversas ciências com Plank, Schrödinger, Einstein, Jäeger, Deimel, entre outros, começa a balizar seu afazer filosófico com ninguém menos que Hegel, pois “com ele a Filosofia alcança sua plena maturidade”. E este é o problema de fundo em que vamos nos mover e onde pretendemos fazer nossa proposta: o afazer filosófico como um modo fundamental da existência intelectual do homem contemporâneo, vivido por cada filósofo dentro do contexto de cada época para iluminar o caminho humano sempre buscando a verdade dos “assuntos humanos”.

Não conseguiremos o nosso propósito estudando a filosofia para levantar bandeiras de escolas ou sistemas filosóficos (de qualquer país), que são necessários na filosofia para tecer críticas a favor ou contra, mas mergulhando na própria experiência do afazer filosófico. Os gregos, o homem real individual, social e histórico,  somos cada um de nós. Tentaremos usar nossos esforços não com o intuito de abrir uma simples polêmica feita de juízos, argumentos e princípios filosóficos, coisa típica da filosofia de nosso tempo, mas queremos refazer a questionadora experiência filosófica em geral e de cada filósofo, que acompanharemos, porque ela “não nasce de um arbitrário jogo de pensamentos, mas da azarosa e problemática situação na qual o tempo, seu tempo, tem lhe colocado” [id. ib.]. Nós não podemos viver fora de nosso tempo e por isso nos perguntamos: qual é o modo fundamental da existência intelectual do final do século XX que vivemos a partir do Brasil? Só dentro desse modo fundamental e que teremos luz para entender os problemas paradoxais que vivemos. Assim, pretendemos nos debruçar na linha da experiência humana, que por ser uma força noérgica (frente à pura noética) se expande na força noemáta. Entendemos que é neste espaço real onde se deve trabalhar e assim encontrar soluções para as tramas reais da humanidade.

A trama do nosso tempo nos mergulha numa situação paradoxal, “sentida por todos como problema”, de tal forma que o próprio homem fica excluído de sua humanidade pela forma atual de exercitar a sua função intelectual. No “seu exercício” o homem é obrigado a ser simples coisa descartável ou puro ente que pode ser definido e manipulado inventado a contento, para ser simplesmente jogado nos bolsões de pobreza, de violência, de doenças, como se fossem a lata de lixo da história. O homem hoje é um ser que vive no coeficiente da provisoriedade no meio das urgências da vida, guiado pela tirania de ideias, sempre defendidas por boas intenções e racionalidades de todas as correntes e sistemas. O saber humano parece ter perdido sua função filosófico-democrática, e por incrível que pareça, dá a impressão de que voltou a ser teocrático e exercido de cima para baixo, como se fosse algo anexado ao homem e não a forma radical de o homem enfrentar-se com as coisas, abrindo caminho para pensar e projetar sua melhor situação de realidade humana no mundo real. O saber não mais guia o homem para criar uma situação melhor, mas para jogá-lo como algo provisório. Entretanto, a história humana, desde o homem das cavernas até hoje, é a história do homem com os pés no chão, descobrindo “humanamente” uma nova situação de sobrevivência, sempre nova, no mundo e no cosmos.

O homem das cavernas não podia filosofar, mas sobreviveu exercitando sua experiência inteligente para adquirir e firmar sua situação humana sobre o seu pedaço de terra e região. Nela cultivando, alimentando-se pelo seu trabalho e morando, ele realizou sua cultura de sobrevivência material e humana. Abriu-se da sua mais radical experiência humana à primeira aproximação da realidade com a consciência mítica. O homem, através dos gregos, iniciou um modo fundamental da sua existência inteligente: o saber último das coisas para tirar delas algumas de suas melhores possibilidades dentro da harmonia do cosmos e de sua polis. Mas, o que são as coisas para os homens? Certamente no início, a experiência grega, tal como de outra forma a experiência da sabedoria oriental, não é a procura de simples coisas e nem a procura de grandes conceitos. Suas experiências são o esforço inteligente pelo qual criaram uma situação especial, não só de sobreviver, mas de instaurar uma situação que possibilitasse a sua realização humana, individual e social. Contudo, Grécia nos deu o caminho que marcou a humanidade ocidental na tentativa de explicar para ordenar o homem e o mundo com sua descoberta da força mental. Não somente para interpretar sua experiência dentro das coisas, mas descrevê-las e explicá-las para ordená-las e dar conta delas. Sempre para sua realização em todas as épocas com diferentes possiblidades.

Certamente nós, hoje no século XX, somos herdeiros dessa possibilidade aberta pelos gregos, e que não somente nos ocupa, mas que caracteriza nosso modo fundamental de nos enfrentarmos com as coisas. Ao mesmo tempo sentimos o que Zubiri falava ao dialogar com Hegel: “enquanto a Europa se formava, o homem foi sentindo-se comodamente alojado nela; mas ao chegar a sua maturidade, sente como falaria Hegel, rejeitada a sua própria existência” [id. ib.]. E esta é a constatação da nossa situação hoje: os grandes avanços dos pensadores e cientistas, se por um lado têm nos oferecido caminhos e enormes subsídios para melhorar a vida humana, por outro lado temos a cruel experiência de que suas formas de pensamentos parecem, apesar de tudo, constituir uma densa neblina tanto material como intelectual para os homens de todas as regiões da terra. Sumimos dentro dela e perdemos o nosso caminho. Não temos realidade e sentido?

Zubiri expressou muito bem esta situação de desorientação: “no lugar de um mundo temos um caos e, nele, a função intelectual vaga, também, caoticamente” [NHD 32]. Estando no meio das coisas elas não nos pertencem. E a nossa inteligência não consegue dar conta delas. Se por um lado não podemos negar todos os avanços da filosofia e das ciências, da mesma forma não podemos negar que a exclusão humana, nas suas mais diversas formas, também é cada vez maior. O homem atual se sente manipulado e, na própria elaboração do saber, se sente exausto, em descobrir uma nova saída, uma nova possibilidade que abra caminho para toda a sociedade humana. O saber humano parece estar esgotado no final de um labirinto. E só algumas ciências como nós as praticamos hoje, parecem indicar os únicos caminhos para o homem. Porém, estes caminhos se tornam cada vez mais excludentes, pois ficamos embalados por métodos também cada vez mais elaborados com suas leis e protocolos até mundiais, apoiados em “profundos” conceitos e “ótimas” ideias, sempre “presentes” nessa elaboração, mas longe do saber real humano e de nossa própria realidade.

Na nossa Dissertação de Mestrado[1] começamos o enfrentamento com este problema: a derrocada do pensamento moderno que se prolonga na plena manifestação da crise da razão. Sem dúvida a crise da modernidade é uma crise do saber, enquanto esse saber torna o homem estranho às coisas, ao seu mundo e a si mesmo. Durante séculos o povo, o homem comum do mundo ocidental, assim o sentiu porque foi dirigido por muitas normas bem discutidas em todos os tipos de instituições, explicadas e ditadas pelos que lidavam com muitos conceitos, ideias e razões. Diante de tal paradoxo encontramos a sintonia intelectual na obra de Xavier Zubiri e não nos deixamos abater por essa crise da razão e suas consequências, mas apoiados nele procuramos radicalizar os sintomas na busca de suas raízes para então sinalizar algumas respostas.

Por que Zubiri dialoga com Hegel, fazendo-o o centro antes e depois da crise da razão? Na interpretação zubiriana o filósofo alemão sentiu o drama que a história do saber filosófico lhe ofereceu e foi até o final no aprimoramento dos grandes conceitos, nos quais se debatia a filosofia. Para Hegel, recolhendo e fazendo seu o esforço de todos os filósofos o filosofarem não se inicia com o pensar, mas “o ato de que o absoluto seja transparente a si mesmo é o que constitui o pensamento. Não é o pensamento razão do imediato, mas o imediato razão do pensamento” [NHD 279]. O único a priori agora é o Absoluto, a Ideia. É o saber absoluto que constrói a história real dos homens e seus atos. A ciência do absoluto é a que constrói a única ciência da realidade. Assim só a razão lógica que fundamenta o real e a realidade é apenas um conceito formal desse absoluto. E isto porque no devir hegeliano “não há verdadeira inovação, nem verdadeira criação, nem nas coisas, nem no próprio espírito humano. É uma desmedida conservação de si mesma em pura concepção” [SE 58].

O saber filosófico deixou sua ligação com as coisas e ficou reduzido a um saber puramente concipiente, se auto-alimentando de seus próprios conceitos e portanto se auto-conservando, por isso só pode provocar a desunião e a quase incomunicabilidade dos homens. Hegel, na “roupagem abstrata e abstrusa, da Fenomenologia do Espírito” expõe na realidade “a confissão intelectual da crise de sua inteligência”, e “nela faz crise uma época” [NHD 179-180]. E aqui a descrição aguda da situação em que nos encontramos: “É pôr em marcha o espírito concipiente, pois para Hegel, nada se deve esperar dos indivíduos: somente o geral conduz a história” [ib. 181]. Tal parece ser a situação que hoje vivemos cuidados e dirigidos pelo espírito concipiente, que na sua prática também concipiente ainda dá as cartas, onde os indivíduos não têm vez. E a permanência da crise se deve ao fato de que estamos trilhando nessa via do espírito concipiente.

No entender de Zubiri, “seja qual for nossa posição frente a Hegel, toda a iniciação atual à filosofia deve consistir, em boa parte, numa ‘experiência’, numa investigação, da situação em que Hegel nos deixou instalados” [ib. 182]. E certamente nos deixou instalados numa situação de admiração diante da plasticidade arquitetônica da força absoluta da razão e por outro lado de perplexidade de como podemos confiar plenamente nela e em suas forças, já que quase sempre nos sentimos brinquedos dos que a praticam. A proposta de Hegel nos atrai, pelo paradoxo a certeza moderna, porém nos deixa extraviados. Esta situação é sem dúvida nenhuma uma relação paradoxal e dicotômica entre razão e realidade. Pois a marcha do espírito concipiente faz com que na procura da sua maturidade nos sintamos rejeitados, porque nele a imediatez é a razão do pensamento e o seu devir é uma desmedida conservação provocando a desunião e a incomunicabilidade dos homens, da qual nada devem esperar os indivíduos. Esta relação paradoxal foi sentida já por Hegel ao confessar a crise da inteligência. Mas foi Nietzsche que, como ninguém, descobriu tal paradoxo e de forma inédita e ousada tentou a destruição de toda a construção filosófica racional para começar do zero, iniciando um caminho oposto, inclusive antes da própria filosofia, na tragédia. Com isso se inicia o século XX, perdendo a fé cega na razão.

Zubiri, desde sua situação concreta, sente, na “sua carne” pessoal, social e histórica, o paradoxo dessa via concipiente. Sua crítica se delineará dentro de uma preocupação radical: o que as coisas dão no que pensar neste mundo de contradições?A volta às coisas” dos escolásticos vai permitir a Husserl instaurar a radicalidade no pensar, mas ele ainda ficará no modo de consciência em que se dão as coisas. E este modo de consciência será a nova forma do Absoluto. O filósofo espanhol, assim como tantos outros, percebeu a existência de tal desvio e reclama com Husserl, pois esse jamais diz em que consiste algo: “isto é inadmissível (…) ele tem perdido, no próprio enfoque da questão, o essencial da realidade. Conseguirá ao máximo um tipo de ‘pensar essencial’, mas nunca a essência das coisas” [SE 28]. Concluirá amargamente Zubiri ao perceber que a pretendida rigorosidade do pensar husserliano não consegue desprender-se do lastro idealista: “ao separar esses dois momentos – essencialidade e facticidade – e substantivá-los em benefício de dois tipos de saber – saber absoluto e saber empírico – Husserl tem separado a realidade, e ela tem ido para sempre das mãos” [ib. 32]. É a permanência da situação paradoxal entre razão e realidade. A filosofia de Husserl, que representa um novo método de filosofar, a sua própria filosofia e principalmente a liberdade e radicalidade no pensar filosófico, na expressão de Paul Ricoeur, está formada, também, “pelas heresias por ele provocadas”[2]. Ela se tornou a matriz filosófica e o “caldo de cultivo” para a filosofia do século XX diante do dilema paradoxal a partir de Hegel: racionalidade ou irracionalidade.

Foi com Heidegger que esse dilema chegou ao seu momento crucial. O discípulo brilhante de Husserl, mais técnico e profundo e mais conhecedor das origens da filosofia, percebeu o peso idealista de seu mestre e enveredou pela ontologia fundamental, chamando a atenção para o esquecimento do ser e isto num momento histórico em que estava sendo celebrado o desaparecimento da metafísica. Zubiri herdou de Ortega y Gasset a preocupação de avançar filosoficamente através do Ser e tempo de Heidegger. Entretanto, o próprio Ortega se debaterá com Heidegger na situação da encruzilhada filosófica aberta através do diálogo pós-hegeliano para situar a história e a vida. Ortega se agarra à vida e pretende levar a razão além dos caminhos da lógica e da dialética, mas sem eliminá-los. Sentia-se na obrigação filosófica de sair do Absoluto e por o homem sobre suas circunstâncias, sobre sua realidade vital. Tal influência ele recebeu de Nietzsche, através do qual não abre mão do postulado de seu inspirador sobre a reivindicação do corpo no sujeito e no animal racional, por isso a sua proposta filosófica da “razão vital”.

Fora Nietzsche, existe na Alemanha uma rica e densa filosofia idealista e Ortega a percebe agora na linguagem metafórica do Ser e Tempo, no excesso determinologias sem a completa explicação; tanto que vai se irritar contra a filosofia transcendental, idealista ou existencialista. É exatamente Ortega quem se debate no labirinto da razão idealista (primeiro Ortega) e existencial de Heidegger e sua ontologia (segundo Ortega). Ortega, apesar de possuir uma formação neokantiana, pretende reforma-la inspirado nas filosofias da vida de Nietzsche e Bérgson, e agora luta contra a presença ainda forte da racionalidade idealista de seus mestres germânicos.

Zubiri compartilhará de forma diferente com seu mestre Ortega toda essa inquietação. Como ainda está em formação, entende que é na “volta às coisas” que está, para ele, o verdadeiro problema que aflige a vivência da crise da razão. E é através da inspiração escolástica e husserliana que procurará a radicalidade nos primórdios do filosofar. Assim, no meio da crise da metafísica, não vê outro caminho a não ser o de fazer metafísica. Se Heidegger escolhe a ontologia, Zubiri escolhe a metafísica, porque se Heidegger vislumbrou a diferença entre as coisas e o ser, aquele vislumbrará a diferença entre o ser e a realidade. O ser não é o mais radical, por isso os existencialismos, surgidos de uma interpretação antropológica da ontologia heideggeriana, consideram o homem como “um precipitado essencial do puro existir. É a tese de todos os existencialismos. A realidade ficou des-substancializada e a essência realizada em forma puramente situacional e histórica” [ib. 5]. Desta forma o ser ficou substantivado, somando-se às substantivações do tempo, espaço e consciência. Mas o filósofo espanhol não abre mão da realidade no verdadeiro desempenho da razão e empreenderá um longo caminho, através do qual mudará a forma de fazer metafísica, desde a realidade, mas não a realidade fenomênica, mas da realidade enquanto tal. No lugar da “compreensão do ser” das coisas que se mostram, Zubiri abrirá e construirá seu desafio diante da crise da razão com a função primária do homem de enfrentar-se radicalmente com as coisas, pela qual “apreende primordialmente a realidade”.

Não há dúvidas de que o início do século XX foi marcado pela crise da razão. E Zubiri teve que enfrentar esse labirinto da crise da razão que a filosofia vivia, tal como o fez tantos outros pensadores. Mas como falar da razão no meio da desaparição do pensamento metafísico? O conceito absoluto agora é a des-fundamentação e a fragmentação? É o paradoxo entre razão e realidade, entre as racionalidades que alimentam a vida e a política e a realidade dirigida e manipulada por elas mesmas. É a “situação paradoxal” das primeiras décadas do século XX, que até hoje nos invade. As ciências também estavam em crise, o que corroborou ainda mais com a crise da razão.

L. Wittgenstein, e toda a “generalização do giro linguístico”, mostra o fracasso da razão analítica, pois ao não poder reduzir a matemática à lógica não se pôde dizer tudo. Se a filosofia seguir apenas o estatuto da razão ela é limitada, imperfeita e paradoxal. É a posição de Wittgenstein no final de seu Tractatus na conclusão da análise da razão realizada a partir de Hume. Na razão não está mais a verdade e nem nas suas proposições analíticas ou nas simples relações de ideias. Portanto, encontramos outro campo de enfrentamento com a crise da razão e a sua impotência de encontrar as coisas: há coisas que podemos mostrar, mas não podemos dizer. Esta é uma crítica, por outro flanco, ao idealismo alemão, porque rejeitando o poder absoluto da razão encontra não mais nas sensações, mas no sentimento e no sentir, a maneira de encaminhar o paradoxo entre o pensar e as coisas ou entre razão e realidade.

A física quântica nos confirma que a “experiência é anterior à teoria”. De todas as teorias. Ainda, dentro desse campo das ciências, K. Gödel, através de seu teorema da incompletude dos conjuntos, também confirmaria a debilidade intrínseca e inerente à razão. O teorema de Gödel põe em xeque a matemática cientificamente, tal como o tinha feito o princípio da incerteza de Heisenberg com a física. Ambas corroboram cientifica e filosoficamente a crise da razão. O otimismo na razão ficou deteriorado profundamente com estes teoremas tanto quanto com o crash da bolsa de 1929. Situações que até hoje marcam a nossa vida: o mundo e a vida parecem um caos, porque a atitude intelectual vaga caoticamente. Parece que estamos num eterno torvelino histórica entre a crise das teorias por serem muito racionalistas (realistas ou idealistas) entre a razão e seus efeitos perniciosos para buscar outros caminhos das pessoas e da natureza.

O saber filosófico, por ter se tornado concipiente, inoculou todo o saber humano perpetuando a crise da razão. Zubiri tentou quebrar esse círculo vicioso, descobrindo metafisicamente a via senciente da inteligência pela apreensão primordial da realidade. O tratamento adequado do sentir será o ponto de partida para a restauração da vida intelectual e com isso, pensa, poderemos sair do labirinto da razão e eliminar o caos em que vivemos, ainda mais, poderemos construir uma nova situação onde a vida dos homens seja real. O homem, O homem, antes de tudo é animal de realidades, porque ele apreende as coisas como realidades, não como objetos e signos resposta. Só ele por isso tem as ciências e a filosofia. Radicalmente, o homem é uma força noérgica, porque se enfrenta com as coisas como reais para sua realização. Por isso no final de nosso trabalho de mestrado[3] falávamos: “abre-se, assim, um esperançoso leque de perguntas, que nos incitam a novas investigações no sentido de fundamentar a vida do homem na sua única estrutura básica: dar conta da realidade, já que está imerso constitutivamente nela (…) A nova via da inteligência senciente nos oferece longos desafios intelectuais para refazer nossos conceitos dentro de suas exigências mais reais e esperançosas”. Na realidade nós já estamos, mas a razão não consegue dar conta dela, porque se debate numa via exclusivamente concipiente. O novo desafio, aberto naquela ocasião e agora retomado, é que devemos conceituar o real e que a conceituação é uma função inexorável na via senciente, mas “seus conceitos devem ser adequados aos modos de sentir intelectivamente o real dado ‘n’a inteligência” [IRE 87]. Daí a formulação de nossa tese: Razão e Realidade: Estrutura Humana de Convivência. A ética da razão em Xavier Zubiri.

O século XX parece ter celebrado que a filosofia chegou ao fim de suas potencialidades e, portanto, dever-se-ia perder definitivamente a fé na razão, que durante tanto tempo empenhou-se em tratar as coisas e entender o real. O iluminismo virou penumbra. E seus propósitos pareciam cada vez mais com sonhos não agradáveis. Pois hoje estamos jogados no caos das disputas racionais de todos os tipos reduzidas a leis e constituições, deixando, na prática, a liberdade e a igualdade humana de lado. E esta é a nossa situação: devemos perder para sempre a fé na razão para viver a realidade? O homem, na sua estrutura humana inteligente, só tem a “faculdade da razão”?

Desde o início do filosofar estabeleceu-se o apalpar e, singularmente, o ver as coisas como metáfora de seu afazer. Por que a metáfora dos sentidos para desenvolver essa nova idade mental grega? Parmênides possibilitou o encaminhamento desta situação ao distinguir duas vias para chegar à verdade das coisas: o sentir e o entender. A filosofia privilegiou o entender como conceber ideias, principalmente a partir de Platão e Aristóteles. Tendo a razão uma estrutura lógica toda a inteligência humana deve ser lógica. Deixou-se sem tratamento o sentir, embora muitos pensadores de várias formas dele se preocuparam. O resultado foi a exclusão do sentir da inteligência humana, já configurada como lógica. Com isso foi surgindo e estabelecendo-se uma oposição dicotomizada entre inteligência e sentir, razão e realidade. Na ausência do sentir criaram-se formas intelectuais, que se tornaram últimas ou sucedâneas da estrutura da realidade humana, fazendo com que o homem esteja privado de se apropriar das melhores possibilidades. É a situação em que hoje nos encontramos. Perdemos a fé na razão e nos seus atos.

Zubiri, já na sua tese de doutorado[4], constata que o problema do juízo é central em todas as investigações e de todas as épocas. E isto porque quase sempre está vinculado ao problema da verdade ditada pela razão, como lógica. Naquela ocasião, 1921, ele vai sentir que as ciências o estão obrigando a tomar novas posições intelectuais, que para ele, naquela época, deveriam levar em conta o ponto de vista da objetividade pura. E isto porque ao fazer a síntese das teorias do juízo encontra uma relatividade tanto do objeto conhecido, como do próprio conhecimento; definido por ele naquela situação como: “o mecanicismo matemático e idealista à base de uma teoria subjetivista” [op. cit. 19]. Idealismo (questão de essências) e subjetivismo (questão de existências) são os signos específicos da Filosofia Moderna. Mas o autor, para encaminhar sua proposta ainda fenomenológica, nos coloca diante de dois paradoxos vividos naquela época e que até hoje soam com toda sua força. O primeiro se refere ao paradoxo entre os sentidos e a razão: “como é possível que distanciando-nos da realidade cheguemos a obter o mais perfeito conhecimento da mesma? Isto equivale a dizer que a realidade é mais real quanto mais racional for, quer dizer, mais espiritual?” O segundo soma-se ao primeiro: “se o mundo racional é real, que se faz do mundo empírico?”.

Tais paradoxos ocorrem, entendemos com Zubiri, porque se priorizou o saber sobre a realidade. Um saber desligado das coisas, que se desenvolveu eminentemente concipiente. O saber ficou reduzido apenas ao conhecimento de algo. Mas será que o saber repousa sobre si mesmo? Será que a razão é pura e absoluta? Será que ela é o único estatuto de toda realidade e de toda verdade? Nosso propósito, dentro desta situação paradoxal em que vivemos, é contribuir para discutir e alertar acerca do perigo incoado e manifesto no pensamento absoluto concipiente praticado ainda hoje, e empreender com dificuldades um novo caminho que possibilite uma unidade radical do saber e da realidade. Vivemos ainda hoje na bancarrota de várias formas de pensamento, porque todas elas, percebendo ou sem perceber, têm uma estrutura concipiente. Por isso a unidade não poderá ser feita através de conceitos e ideias, de forma somatória ou dentro da lógica, dialética ou de consensos. O ponto de partida é a experiência humana radical da sua unidade estrutural, como modo fundamental de sua existência intelectual hoje. É o paradoxo entre razão e realidade, porque o homem primordialmente apreende a realidade em cada coisa real e não abre mão de dar conta delas.

Nessa unidade estrutural o sentir co-determina a inteligência humana e esta co-deteminação, faz  andar o homem  com os pés no chão, ser um “animal de realidades” para ser um “verdadeiro animal racional”, que poderá, sempre trabalhosamente, dar conta do real. Desta forma, quer dizer, dentro desta restauração intelectual, poderemos viver um horizonte intramundano, mais real e justo para todos os homens. Afinal, como deter de outra forma a perversidade das diversas racionalidades embutidas nas mais diversas formas políticas, econômicas, sociais, históricas do mundo caótico em que vivemos que sempre revelam e transpiram um saber absolutamente concipiente? Como parar a corrida de exclusão humana, o perigo da seleção genética humana e de levantar a bandeira do problema social como algo somatório na construção de uma nova cidadania para todos os homens? Como mudar o rumo da situação em que hoje vivemos? Basta ler os últimos textos de qualquer pensador que tenta superar as crises em que vivemos e sentir que na prática o “geral”, o absoluto só apoiado em ideias e racionalidades, tem mais força que os indivíduos, e que de forma avassaladora esse próprio pensamento praticado produz todo tipo de barbárie na sociedade humana.

O século XX se construiu, pelo menos na prática, no domínio das boas ideias e boas intenções dos que sabendo ou sem se perceber sentem-se os donos da razão absoluta. Uma espécie de jogo intelectual descompromissado. É difícil se libertar do modo concipiente multissecular de pensar. Mas também, e isto é o que nos move realmente, a voz do homem real que está enraizado com os pés nesta terra tem gritado cada vez mais alto. Esta experiência é muito mais radical e anterior ao hábito da via concipiente. Por todos os cantos do planeta o homem de carne e osso tem reivindicado, sempre de forma nova, o que ele é. A desconfiança, que já vem de longe, da fé iluminista na força concipiente da razão tem levantado os gritos de muitos pensadores, acadêmicos ou não, reclamando da “visão cínica”, do “vampiro da razão”, da “falência da razão”, do “enfeitiçamento do nosso entendimento”, do “eclipse da razão”, da “razão que enlouqueceu”, das “manias da razão”, dos “sonhos da razão”, do “cinismo da razão”, das barbáries de muitas lógicas, dialéticas e consensos… Podemos resumir todas e outras reclamações na expressão de Olgária Matos[5]: “autismo da razão”, porque a razão nas mais variadas formas acabou perdendo o contato com a realidade criando um mundo próprio. Por isso, filósofos, escritores, poetas, políticos, religiosos, jornalistas, fotógrafos, todos os homens realmente, têm ajudado a aumentar e fazer valer os gritos da fome, da miséria, da dor e da violência sentidas igualmente por todas as classes sociais. Tem possibilitado que a voz das coisas e dos homens seja cada vez mais ouvida, porque são atuais e reais. O que estas críticas e estes gritos têm a dizer? O homem não é apenas um sujeito, um ente que pode gritar, mas seu grito não é real. Como fazê-lo ouvir realmente e realizá-lo dentro de uma relação paradoxal entre a razão e sua própria realidade, que estamos experimentando?

Nós estamos vivendo um modo fundamental da nossa existência intelectual e insistimos: e se nós pudéssemos seguir filosofando e realizando o enfrentamento inteligente do homem com as coisas? E se nós pudéssemos fazer metafísica da realidade? E se Deus não tivesse morrido? E se o homem fosse real no lugar de puro sujeito, ou de ente, agora, de forma virtual? Como fazer metafísica num mundo caótico onde tudo é provisório e alavancado por ideias? Poderemos dar um caráter preciso àquilo em que consiste a ultimidade da vida e das coisas? Onde está o metha que sempre estamos procurando? Xavier Zubiri se empenhou em fazer metafísica no meio da celebração da extinção da metafísica. Com ele aprendemos que da viagem que fizemos durante séculos de uma metafísica ultrafísica, voltamos de mãos vazias, e por isso nos debatemos em plena crise da razão. Mas se voltamos, é porque já estávamos no lugar real, onde estamos enraizados. É dentro dessa primária apreensão que esperamos empreender um caminho em que a metafísica seja intrafísica. Não é nessa direção que os esforços das ciências, da filosofia e dos homens de carne e osso estão indicando? Se o homem não pode apreender-se como real, como seus conhecimentos podem pretender dar conta do real? A nossa proposta pretende, considerando o esforço de toda a tradição filosófica, defender que a razão pode e deve partir do sentir-inteligente e só por isso com “seu esforço-senciente” pode dar conta do real de forma conceptiva, e portanto problemática. Por isso o subtítulo de nossa formulação: A ética da razão em Xavier Zubiri. Esse é o caminho que vamos empreender.

Assim, nossa tese pretende não anular a razão para apregoar qualquer estranho racionalismo, anti-racionalismo ou irracionalismo, mas tenta esclarecer e viabilizar que o homem por ser radicalmente senciente-inteligente enfrenta-se realmente com as coisas, e por isso pode ser racional dando conta de suas realidades. Defenderemos a unidade estrutural entre razão e realidade. Não porque agora a realidade deva libertar-se da razão e dominá-la, como foi o estilo marcado pelo “socialismo real”. Mas porque o homem, pela sua inteligência humana, pode sentir que apreende o real e dentro dele e caminhando por ele pode encontrar as melhores possibilidades para realização humana. O real tem uma respectividade que o torna transcendentalmente aberto a toda realidade e a novas formas de realidade. O desenvolvimento da via senciente poderá nos explicar muitas situações, que são incompreensíveis dentro da via concipiente. Com isso poderemos poupar muitos esforços, ou usá-los melhor para marcar a direção de uma caminhada mais real para a humanidade.

Como já o fizemos na dissertação de Mestrado, apoiaremos nossa tese na obra de Xavier Zubiri. Encontramos em toda sua obra uma preocupação denodada em entender a crise da razão no duplo sentido de caos no mundo, provocado pelo descompromisso da função intelectual concipiente, porque se apoia só em ideias e conceitos. E desde cedo levanta a suspeita de que a filosofia esqueceu o tratamento do sentir como constituinte da realidade humana. Todo o nosso suporte conceitual se apoia na sua obra, mas sempre de forma crescente na direção de sua obra madura a Trilogia Sentiente, escrita entre 1980 e 1983. Descobriremos esse caminhar no qual iremos apoiando nossa tese.

Alertamos que a originalidade do tratamento feita pelo filósofo pode causar uma primeira estranheza, como também o tipo de rigor e precisão conceitual. Zubiri transita com facilidade dentro da Fenomenologia, da filosofia moderna, escolástica e clássica, como dentro de várias ciências. Mas não se perde e se satisfaz nas suas exposições; pelo contrário, busca o que esses filósofos levam em mãos e por isso penetra nos sentidos originais dos seus conceitos e expressões, que sempre recuperam, como também o faz com os sentidos originais da linguagem comum. Por isso muitas vezes se vê obrigado, como ele próprio reconhece, a criar palavras e expressões para poder expressar a radicalidade da exposição de seus “conceitos sencientes”, que nem sempre serão felizes. Na Dissertação de Mestrado fizemos um Glossário, ao qual nos remetemos várias vezes nesta tese, mas na elaboração da nossa proposta deveremos usar outras expressões e precisões de seu afazer filosófico, que exigem um esforço constante. Buscamos para a empreitada da sua melhor interpretação o apoio de alguns de seus discípulos: I Ellacurria, A. Pintor-Ramos, D. Gracia, A. Ferraz, J. Bañón e P. Cerezo Galán. Alguns compartilharam mão a mão com o mestre durante vários anos o afazer metafísico e viram nascer a Trilogia. Outros se distinguem pela clareza e firmeza na interpretação do mestre.

Assim, então, fica formulada nossa tese Razão e Realidade: Estrutura Humana de Convivência. A ética da razão em Xavier Zubiri. Colocamos propositadamente “razão e realidade” e não “realidade e razão”, não porque consideremos que primeiro são os conhecimentos e depois a realidade, seguindo as estruturas clássicas das Teorias do conhecimento. Também não o fazemos para compactuar e manter veladamente de qualquer forma a dicotomia entre razão e realidade, privilegiando de algum modo lógico ou dialético a primeira para resgatar a segunda. Moveremos-nos, dentro da proposta zubiriana de que “saber e realidade são congêneres na sua raiz” [IRE 10] tentando o desafio triste da modernidade: a separação da razão e da realidade. O desafio é que na experiência radical humana não podemos deixar saber que estamos na realidade, quer dizer, não podemos abrir mão nem da razão e nem da realidade para realizar as nossas vidas pessoais, sociais e históricas. Assim, desafiou Zubiri os desvios da razão: poder imbricar a realidade e razão.

Este desafio, que há tempo formulamos, encontrou respaldo nas lúcidas e desafiantes observações de alguns dos citados estudiosos de Zubiri: “a ‘segunda navegação’ da filosofia de Zubiri tem seu ponto culminante na trilogia” [Bañón ZTBR 79]. Nossa formulação, desde esta incitação, chegava a sua explicitação para ser elaborada de que só desde sua última parte, Inteligencia y Razón, poderíamos entender a apreensão primordial da realidade de nossa experiência radical de realidades humanas. A realidade que pleiteamos não é segura, clara e definitiva, como algo acabado e concluso. Entretanto, o ato elementar de apreensão primordial da inteligência humana apreende sim primordialmente a realidade de forma compreensiva, “no estrito sentido de que inclui todos os modos ulteriores de intelecção”. Este é o ponto mais radical e sempre presente na análise de nossa experiência humana e portanto de nossa tese. O homem nem está fechado na realidade e nem fechado na razão. Mas esta deve ser o amadurecimento da apreensão primordial de realidade. Por isso que em toda nossa pesquisa e elaboração está sempre presente esta preocupação formulada sinteticamente “razão e realidade”. A razão deve ser o amadurecimento dessa apreensão primordial da realidade que, embora a realidade esteja presente nessa apreensão de forma “inespecífica”, já tem dentro de si o ponto radical de referência e o cânon para que os esforços inexoráveis do “logos e razão sencientes” possam ir especificando-a num horizonte intramundano dando conta da realidade de cada coisa. É no campo da razão que em definitiva descobrimos os problemas que nos afligem, mas ela só poderá entendê-los realmente e encaminhar soluções verdadeiras se voltar, passando pelo movimento senciente do logos, à formalidade de realidade que está presente na apreensão primordial da inteligência.

É, desde a análise da razão feita pelo filósofo espanhol, que poderemos entender a sua proposta da “metafísica da realidade”. Nela poderemos perceber que em toda experiência humana se dá uma ligação radical desses dois momentos, historicamente elaborados e vividos como opostos: razão e realidade. Por isso o ponto de partida é o de tentar fazer um tratamento adequado daquilo que tinha sido esquecido, embora presente em todos os filósofos: o sentir inteligente. Não pretendemos cultivar uma ocupação filosófica, por certo prazerosa, mas viver o enfrentando fundamental de nossa existência intelectual, que hoje não se pode escamotear. Dentro dessa situação entendemos que a razão é inexorável para a realização humana, mas tem por obrigação dar trabalhosamente conta do real, no qual já está. A situação filosófica da razão hoje está no limite de sua crise, porque continua se desligando das coisas, mantendo uma ligação puramente concipiente entre razão e realidade. Assim propomos nossa argumentação, tendo em vista a explicitação da queixa repetida por Zubiri: “estamos mal acostumados a ver as coisas desde a inteligência concipiente”.

Para melhor encaminhar nossa proposta dividimos nosso trabalho em duas partes. Na primeira, assim enunciada Os esforços e fracassos no labirinto da crise da razão no século XX, que abarca os quatro primeiros capítulos, mostramos essa situação paradoxal em que vive nosso século. Herdamos a crise da razão do século XIX com umas características que ainda exacerbaram mais drasticamente e que nos levaram a novos desvios de tal situação. Certamente nos sentimos vivendo num caos, e isto porque, embora pelos desenvolvimentos ocorridos, fomos nos instalando comodamente no acontecer do nosso século, ao mesmo tempo nos sentimos rejeitados e excluídos de tal forma que nem sequer temos o direto aos bens do planeta para sobreviver e até de viver unidos na paz como irmãos. Devemos nos vangloriar de ter criado a velocidade cibernética dos meios de comunicação,  todavia continuamos incomunicados tanto externa como internamente. Os problemas que vivemos parecem ter recrudescido porque nos chocamos com o muro sem saída da nossa forma concipiente de pensar. E de alguma forma não conseguimos prever e prevenir esse choque. Mas também deveremos ressaltar que neste século XX tivemos grandes pensadores que se esforçaram de todas as maneiras para encontrar possíveis saídas, nem sempre com sucesso. Contudo, dentro destas diversas formas da crise da razão e através da sua situação limite encontramos e quase que na contramão, o filósofo espanhol que aprofundando a radicalidade do filosofar da Fenomenologia, iniciado nas inquietações da escolástica, faz uma proposta no sentido oposto. Fazendo um tratamento adequado do sentir como co-determinante da inteligência humana nos oferece a possibilidade de darmos conta do real, por isso a enunciação da segunda parte: Uma proposta senciente para “o grande problema humano: saber ‘estar’ na realidade.

Assim então encaminhamos as diversas partes de nosso afazer filosófico.

No primeiro capítulo equacionamos o ponto de partida. Embora haja uma relação paradoxal entre razão e realidade, ela não se determina somente pela quantidade e gravidade de problemas que nos afligem, mas porque no meio e dentro deles deve-se descobrir o problema radicalmente filosófico: o que as coisas são e o que é a inteligência. Partiremos com Zubiri de que estamos envolvidos por uma “onda de sofistica” tal como nos tempos de Platão e Aristóteles, mas ao mesmo tempo estamos incontestavelmente na realidade. As formas de pensar que ainda não conseguem dar conta do real, segundo nossa hipótese, são herdeiras da manifestação da onda de sofística do discurso e da propaganda A crise da razão pode ser comparada à onda de sofistica, porque embora queira resolver os problemas humanos de todas as áreas, usa sempre uma série de raciocínios para nos convencer de que suas elaborações e regras são as que melhor nos conduzem à “paidéia atual” do bem-estar humano. O “pensamento débil” e o “pensamento único” são sua maior expressão, diluídos em muitas formas de pensar. O modo fundamental pretendido da existência intelectual hoje não é uma atitude verdadeiramente filosófica, mas parece uma simples postura intelectual. O século XX ficou envolvido num ambiente de sofistica, que por um lado recupera a via da doxa, mas por outro a desenvolve num jogo de racionalidades individualistas cristalizadas em forma do “discurso e propaganda” nas mais diversas áreas da vida política, econômica e científica. É na descrição de alguns problemas atuais que melhor podemos descobrir a inundação da onda de sofística e de propaganda, à qual poderíamos chamar de “metafísica da frivolidade”. As racionalidades de nosso século parecem cultivar assim uma “vontade de verdade ideias” e não uma “vontade de verdade real”.

No segundo capítulo procuramos esclarecer e aprofundar o que autor chama de “onda de sofística do discurso e da propaganda” em 1980. Encontramos no texto de 1940, Sócrates y la sabiduria griega, subsídios para esclarecer a interpretação zubiriana da onda de sofística. Para poder adentrar-nos e apreciar a envergadura da acusação, buscamos para contrapor a interpretação do reconhecido pesquisador da Grécia, e em especial sobre os sofistas, G. Reale na sua História da Filosofia Antiga. Reale destaca a importância dos sofistas enquanto conseguiram ouvir e dar forma às manifestações sociais e culturais da vida grega. Assim inauguraram a via da doxa, da singularidade humana e dos sentidos para tratar dos assuntos humanos tentando sair da exaustão da proto-indagação da phýsis. O próprio Reale reconhece que a máxima de Protágoras, “o homem é a medida das coisas”, não ficou bem definida, pois os sofistas não fizeram um tratamento adequado da via dos sentidos, pelo qual se instaura a singularidade da impressão de cada um e por tanto um torneio de razões contra razões. Zubiri faz um tratamento próprio dos sofistas enquanto perderam o importante do filosofar: o que as coisas são. E assim como os físicos ficaram presos às zonas da natureza, os sofistas vão ficar presos às zonas da paidéia, mas ambos já se desligando do que as coisas são. Zubiri então entende que dessa forma a mente, ao separar-se das coisas, inicia uma escalada através de ideias e conceitos para construir toda a arquitetônica da razão. O logos ficou solto. O enfrentamento socrático com os sofistas é interpretado por Zubiri como a recuperação da mente se atendo às coisas e assim definir para sempre o saber filosófico. Sócrates tenta manter a atitude radicalmente filosófica, frente à postura intelectual dos sofistas, que falam como se as coisas fossem assim. Com os sofistas a mente ficou solta. Essa é a preocupação zubiriana: o logos e a razão foram se constituindo cada vez mais longe das coisas pelo que se desenvolveu uma logificação da mente, o que levou a uma entificação do real. Instaurou-se assim uma frivolidade intelectual.

No terceiro capítulo começamos a encaminhar a forma como vai ser dada a resposta a esse pensamento solto das coisas, manifestado numa espécie de descomprometimento e frivolidade intelectual do século XX. Era necessário especificar e ter uma visão panorâmica da situação intelectual do século que o autor viveu para contrastá-la com sua proposta. O saber humano parece estar caminhando por uma via morta. Ainda nos deparamos com uma série de antirracionalíssimos e com a tentativa do “sumiço da realidade”. Vivemos no domínio da Metafísica da Modernidade: uma postura niilista onde nem a própria razão escapa. Numa segunda parte deste capítulo reconstituiremos as primeiras intuições e formulações de Zubiri, tendo por base o especial teor filosófico do autor na busca de algo mais importante para enfrentar a crise da razão.

No quarto capítulo estudamos, com a ajuda de seus interpretes, algumas questões fundamentais da crítica zubiriana frente à frivolidade intelectual. Diante das possíveis objeções, esclarecemos que a elaboração zubiriana não pretende repetir as armadilhas de qualquer intelectualismo, mas encaminhar-nos pelo que chamamos de “inteleccionismo”, nos levando a uma maior radicalidade através de seu rigor formal e precisão conceitual. A nova proposta nos abre a uma forma original de entender o desenvolver da filosofia através de horizontes, acenando hoje para um horizonte intramundano. O enfrentamento da nossa proposta fica assim equacionada: deixar a “fidelidade ao céu” cultivada pelo desenvolvimento da “faculdade da razão que concebe ideias”, pelo qual se instaurou um reducionismo idealista na filosofia, do contrário seguiremos logificando a mente e entificando o real. Do outro lado da razão concipiente encontramos o sentir-inteligente, através do qual o logos e a razão também serão sencientes que devem criar com as coisas o campo de realidade para que a razão de conta delas.

A partir do quinto capítulo, e primeiro da Segunda Parte, apresentaremos nossa argumentação, interpretando os pontos mais importantes da trilogia da Inteligencia Sentiente para nossa tarefa. Zubiri possibilita esta proposta ao fundamentar o ser na realidade, fazendo a metafísica do real enquanto real dentro da própria crise da metafísica. A apreensão primordial da realidade é a sua formulação frente ao conceber, raciocinar, especular e organizar. Recuperando o sentir na inteligência, pretende-se inteligizar o logos e reificar o ser. Fazemos uma exposição mais detalhada do tratamento do sentir como impressão, estabelecendo os limites, entre o puro sentir (animal) e o sentir intelectivo próprio do homem. O homem apreende as coisas na formalidade de realidade pelo que se constitui animal de realidades, frente ao animal que apreende as coisas na impressão como formalidade de estimulidade ou objetiva. Assim, a inteligência humana é primariamente senciente e não concipiente: é a unidade entre razão e realidade como estrutura humana de convivência. Como temos vários modos de sentir, também teremos vários modos de apreensão de realidade. Assim essa alteridade de realidade tem uma estrutura transcendental, pela qual é respectiva, aberta e suificante. A transcendentalidade da metafísica zubiriana não é uma comunidade universal de conceitos, mas comunicação de realidade. Desta forma, o ato primário da função intelectiva senciente é simples atualização do real, pelo qual o homem poderá dar conta do real no que já está enraizado.

No sexto capítulo desenvolveremos como enfrentar com essa estrutura senciente o grave problema humano de estar na realidade. Quer dizer, o homem pode e deve dar conta do real, mas sempre de forma não definitiva. Esta será sua limitação e, também, sua riqueza. Pela impressão de realidade nós estamos enraizados na realidade. Mas o homem não é um metafísico ambulante e nem jogado no mundo, ele é um animal de realidades que deve fazer-se cargo das coisas e dar conta delas. Ele deve se realizar e acontecer social e historicamente. Têm-se uma estrutura intelectiva senciente ela é, também, sua estrutura senciente de convivência. Por isso ele tem modos específicos de sua inteligência senciente para essa realização. A realidade possibilita ao homem se movimentar entre e em função das coisas criando um campo de realidade. E desde esse campo abre um novo movimento, já na forma de marcha, que constitui a sua atividade pensante e que é a razão. O homem pelo logos senciente re-atualiza o real das coisas entre outras possibilitando as afirmações, os conceitos, os juízos e a verdade se firmando no campo da realidade. Pela razão senciente ele é lançado dentro da realidade para dar conta do que ele é na sua realidade mais especificada. A razão, como o logos, não é uma operação lógica que se fundamenta no ser copulativo, mas é a maturidade da estrutura senciente da apreensão primordial de realidade, que é impressão de realidade. A realidade é o cânon da marcha da razão, porque o sentir na intelecção senciente é o que apreende impressivamente a realidade. E não a razão o cânon da realidade. Por isso o conhecimento é fruto do trabalho da razão o mais senciente possível. E não pura teoria solta da realidade.

Poderíamos dizer que a razão é a forma necessária, trabalhosa e problemática da força do real. Por isso, não podemos começar teimosamente pela certeza senão pela verdade das coisas, nem pela definição das coisas, nem pela lógica e seus silogismos, nem pelas coisas como entes, nem como essências de nenhum tipo, nem pelo eu penso e todos os seus derivados, nem pelo puro empirismo, nem pelo pensar concipiente, nem pelo materialismo, nem pela objetividade e consciência-de, nem pelo psicologismo, nem pela analítica e hermenêutica e filosofias da linguagem, nem pelas fenomenologias, nem pelo ser ou da nada, nem hoje pelo eterno problema, de que tudo se deve explicar pela ciência. E nem como hoje se gasta tanto dinheiro em querer resolver os problemas humanos através dos algoritmos e das neurociências, sempre apoiados em coloridos dualismos, sempre defendidos pelas ciências. O caminho então parece ser, no lugar da representação das coisas, pela apresentação delas e do homem através de um acurado exercício de descrição. Quer dizer, de dentro para fora, com a realidade da  presença senciente humana.

Todo esse encaminhamento nos levará a direcionar nossa vida intelectual dentro de um horizonte intra-mundano, onde, em sentido oposto ao espírito concipiente, o sentir inteligente nos oferecerá o melhor caminho, que o homem de realidades deve percorrer para que o acontecer social e histórico sejam realmente humanos para todos. Dessa forma poderemos poupar muitos esforços intelectuais que nos fadigam porque ainda os estamos exercitando dentro da via concipiente, que sempre vai logificar a mente e entificar o real. O sentir inteligente será a nossa garantia trabalhosa para vivermos e realizarmos na realidade. Esta é a restauração intelectual que pleiteamos como fruto dos esforços e fracassos do afazer filosófico do século XX.


[1] FERNÁNDEZ TEJADA, José. A Ética da Inteligência em Xavier Zubiri. Londrina: UEL, 1998, 247 p.

[2] Citado Pintor-Ramos, A. apud MUGUERZA, Juan. El lugar de Zubiri en la filosofia española. p. 25-26. In VÁRIOS. Del sentido a la realidad. Madrid: Trotta, 1995, 19-31.

[3] Op. cit. p. 171.

[4] ZUBIRI, Xavier. Ensayo de una teoria fenomenológica del juicio. Madrid: Rev. de Arch., Bibl. y Museos, 1923, 188 p.

[5] MATOS, Olgária. A polifonia da Razão. Filosofia e Educação. São Paulo: Scipione, 1997. Série: Pensamento e Ação no Magistério. Ver: “Conclusão: Iluminismo e Autismo da Razão”, pp. 149-165.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: