Presença (semeadura) de D. Gracia entrega valores humanos ao Brasil

“Gracias Gracia”, Instituto Premier e Instituto Paliar. SP. 16/agosto/2019.

Diego Gracia Guillén começou sua semeadura e entrega de valores (“que ficam incrustados”) na história da realidade humana em Latino-américa, a partir da década de 1990, e também no Brasil. E isso pela sua formação de médico (psiquiatra) e de filósofo, surgido na sua apresentação dentro da amizade fraternal de Laín Entralgo e X. Zubiri. Vejamos como Corominas (Soledad Sonora, p. 650-651) nos relata esse fato singular.

“Aos 71 anos, já feitos, Zubiri vê se aproximar a sua obra a alguns jovens formados integralmente baixo a ditadura. Diante da confusão de ver o autor de Natureza, Historia, Dios classificado como neoescolástico e acusado de não ter em conta a Kant ou a modernidade, alguns decidem resolver suas dúvidas perguntando ao próprio Zubiri. Entre eles se destaca Diego Gracia, um estudante inquieto que aos 29 anos, como muitas pessoas de sua geração formadas baixo o franquismo, mantém profundas inquietações sociais e busca seu lugar numa Espanha, que nada reconhece. Interessam-lhe, ainda, diversas correntes marxistas. De mão de Laín complementa seus estudos de medicina com os filosóficos. Também, tem estado convivendo um bom tempo com os franciscanos em Salamanca. Tem lido (nessas inquietações) os livros de Zubiri (NHD e SE) e de seus artigos (em Cruz y Raya, Revista de Occidente…) e tem seguido as resenhas de Jorgina Satrústeguides sobre os cursos particulares que publica em ABC, no dia seguinte de cada lição.

Uma vez terminada a carreira de medicina, Diego tem seguido estudando psiquiatria, porém nada o satisfaz tanto como abordagem histórica, e também teórica, dos grandes problemas da medicina. Ele quer entroncar a filosofia num saber concreto. Este ano há começado a trabalhar sua tese doutoral sob a orientação de Laín Entralgo, que apresenta a Zubiri.

Neste encontro Diego pede uma entrevista para apresentar-lhe seus problemas Sobre la esencia. Zubiri aceita recebê-lo e o escuta atentamente, mas sem grande entusiasmo. As questões de Diego sobre o livro, como as de outros jovens, lhe parecem desfocadas e por isso se vai desiludindo de continuar publicando. Assim, Zubiri se sente incompreendido. Tem algum sentido seu saber? Entretanto, Diego ouvindo-o falar nessa entrevista tem a evidência da diferença entre os que sabem coisas de filosofia e um filósofo criador. Assim, Diego sai impactado de que não tinha entendido quase nada de Sobre la esencia“.

Para entender melhor este encontro humano, médico e filosófico de D. Gracia, preferimos copiar a seguir, embora seja longa, sua própria descrição em 1986 (Voluntad de Verdad. Para leer Zubiri, p x-xi) depois de explicar o contesto próximo deste trabalho apresentado, porque ele ” não adquire seu sentido senão no contexto de uma longa, dilatada preparação remota”. Qual foi?

“Iniciei meu contato, escreve Gracia, com a obra de Zubiri ao redor do ano de 1956, na incipiente adolescência, lendo e relendo, como tantos jovens de aqueles anos Natureza, Historia, Dios (primeiro livro de Zubiri em 1944). Não posso negar que suas páginas deixaram em mim uma marca indelével e me ajudaram a tomar certas opções de vida. Quando, anos depois, em dezembro de 1962, apareceu Sobre la esencia, estudava os cursos de Filosofia. Durante todo o ano de 1963 li uma e outra vez este texto. O rigor, a originalidade e o frescor daquele pensamento faziam o livro abismalmente diferente dos manuais de Metafísica e de Teoria do conhecimento em uso universitário. Porém, junto a esta impressão positiva havia outra que não era. Pois, a chave escrita deste livro era completamente distinta, e quase contraditória, com a de Natureza, Historia, Deus. Isto colocava ao leitor diante de uma espécie de decisão salomónica, obrigando-o a optar pelo Zubiri entusiasta do existencialismo e da ciência moderna de 1944, ou por uma sorte de gênio neoescolástico de 1962. Como tantos outros, me resisti a tentação de aceitar a segunda alternativa. Porém, suspeitei que era necessário melhor força de vontade e um mais agudo entendimento, que os meus de então, para salvar o autor da acusação de relativista ingênuo. Por sus páginas parecia que não passou Kant e nem as complicações posteriores da teoria crítica do conhecimento. Carregado de razões abandonei a filosofia pela ciência e iniciei os estudos de medicina.

Os seis anos da aprendizagem de medicina foram uma experiência fascinante, e tem criado em mim uma espécie de segunda natureza, que imprime caráter ao todo que vejo e faço. Entretanto, a realidade terrível da enfermidade e da morte, e o estudo científico do homem que as sofre, não somente acabaram com minhas velhas inquietações, senão que pouco a pouco foram se elevando a uma nova ordem. Não teria sabido o que fazer nessas circunstâncias sem o saber e a amizade, de Pedro Laín Entralgo, que desde esse momento nunca me abandonou. Através dele conheci a Zubiri.

Foi em outono e 1970, quando aproveitei a primeira oportunidade para expor, na minha opinião, objeções inobjetiváveis Sobre a esencia. Então, assisti a um espetáculo insólito , e por suposto, inesperado. Longe de contestar-me com respostas tópicas, comecei a perceber a surpreendente riqueza intelectual e humana, e a fina originalidade de um criador, sim de um filósofo criador, de um grande filósofo. E só podia recordar aqueles parágrafos de Naturaleza, Historia, Dios:

‘O difícil da questão é que a filosofia não é algo acabado, que esteja aí e de que basta lançarmos mão para nos servir ao nosso bel-prazer. Em todo homem, a filosofia é coisa que deve ser fabricada por um esforço pessoal. Não se trata de que cada um deva começar do zero ou inventar um sistema próprio. Muito pelo contrário. Precisamente, por trata-se de um saber radical e último, a filosofia se acha fundada, mais que qualquer outro saber, sobre a tradição. Trata-se de que, ainda admitindo filosofias já acabadas, tal adscrição seja resultado de um esforço pessoal, de uma autêntica vida intelectual. Tudo o mais é brilhante “aprendizado” de livros ou esplêndida elaboração de lições “magistrais”. Podem-se, em efeito, escrever toneladas de papel e pode se consumir uma longa vida numa cátedra de filosofia, e não ter roçado, nem sequer de longe, o mais leve vestígio de vida filosófica. Reciprocamente, pode-se carecer absolutamente de “originalidade” e possuir, no mais recôndito de si mesmo, o interno e calado movimento filosófico’. (NHD. ed. brasileira É Realizações, 63-64).

A partir deste primeiro encontro se iniciou uma relação progressivamente mais estrita, que com o tempo chegou a ser íntima. Deixando de lado o que nela foi pessoal, teve uma nova vertente estritamente filosófica, que se desenvolveu, geralmente, dentro dos limites do Seminário de Filosofia, continuação da Sociedade de Estudos e Publicações e antes a Fundação Banco Urquijo…”

Este Diego Gracia apresentado, e auto-apresentado, se abriu à medicina e à filosofia, foi o pioneiro do primeiro curso Magister de Bioética na Complutense de Madri. Porque ele, como pessoa ancorado e desafiado nas suas inquietações, se abriu ao campo da filosofia para entender e ajudar humanamente a medicina. E isso através do estudo profundo do pensamento histórico surgido de Hipócrates. Tanto a filosofia como a medicina, em quase todos os tempos, não conseguiam tratar do homem real e do doente ser humano. Gracia pioneiramente, introduz com estranheza de todos na matéria de História da Medicina a Filosofia, e filosofia como a que foi aberta por Zubiri: saber a ser feito por cada um. Com isso colaborou com uma medicina mais humana e que deve servir para todas as ciências.

Praticamente desconhecendo esse passado inquieto aprofundando na medicina, Diego Gracia, como filósofo, presidente da Fundação Xavier Zubiri, entrou em contato comigo em 1993, após enviar-lhe medrosamente minhas primeiras peripécias sobre Zubiri. Foi profundamente receptivo, pelo ser humano que é. Ele nos pediu em carta escrita a máquina (ainda conservamos), que fizéssemos um relato, como o estava fzendo, já naquela época R. Lazcano (Repertório Bibliográfico deXavier Zubiri), a cada seis meses ou a cada ano, das iniciantes produções brasileiras sobre e desde Zubiri.  Assim seria ajudaria a todos a estudar melhor e e consultar a herança filosófica de Zubiri. E ainda, juntos estaríamos propagando melhor seu criativo pensamento. É nesse momento me convidou, já também como médico, para o primeiro curso de Bioética em Chile. Não tive oportunidade de ir. Foi uma decisão dolorosa. Teria encontrado lá pessoas que, como verão adiante, se encantaram bioética e educacionalmente com Diego Gracia: como médico e como filósofo, como educador através da bioética. De lá para cá, cada um, como médicos ou enfermeiras, foram tocados e cativados pela sua presença, como ele foi com Laín e Zubiri. Cada um participante fez seu caminho na área da medicina, de filósofos e teólogos, e eu como aprendiz a filosofia Assim começou um educador, médico e filósofo humano para Latino-América: Diego Gracia.

Na internet me deparei desta presença graciana através da “pessoa Samir Saman” que nos fez ir adiante com nosso sonhos humanos, ao receber em 2019 o Prêmio Averroes do Hospital Premier de São Paulo. Esta instituição privada e os institutos Premier e Paliar, depois de vários prêmios concedidos para personagens brasileiros, dedicam este prêmio ao primeiro estrangeiro, ao mestre e amigo D. Gracia. No vídeo da cerimonia todos eles reconhecem e cantam a importância dele para direcionar sua vida e profissão. Todos ele se sentem realizados e felizes nas inquietações da juventude, poque reconhecem que foi ele quem indicou o caminho da deliberação dos valores incrustados na nossa história e cultura para deixar nova bagagem para futuras gerações. São muitos os envolvidos nesta continuação de despertar valores até no leito da morte, como ponto essencial dos cuidados paliativos: preservar cada momento da vida plena do ser humano.

Apresentamos os alunos inquietos pela vida, discípulos da vida em plenitude que D. Gracia passou, também, para o Brasil. Neste vídeo esse alunos, hoje já superando o mestre aplicando ao Brasil, exaltam de alegria aqueles contatos de sua inquieta juventude da década de 1990: alunos preocupados em sugar na tarefa da profissão médica os valores da vida humana em cada paciente nascido em cada lugar, época e historia. São eles: Samir Salman, Maria Goretti Maciel, Ivan Vilela, Ivan Eduardo de Siqueira, Elma Zoboli, Dalva Matsumoto, Josimário Silva, Ricardo Ayer, Ricardo Tavares, Ana L. Zamboni Gomes…e todos, desde a cozinheira, que em todo Brasil e no Mundo, cuidam desses grandiosos momentos da vida.

Quando me deparei com estra notícia fiquei estupefato e tenho que reconhecer que me confirmou a justiça que no meu blog (zubiribrasil. wordpress.com) fizemos a Diego Gracia pelo aspecto filosófico de seu apoio ao Brasil. Mas a presença dele é mais aberta e dinâmica e interminável. As pessoas que se encontram com ele como homem teimoso de filosofar na medicina estavam reconhecendo a importância de sua educação humana na sprofissão. Nos vídeos sobre esse evento podemos apreciar o quanto ele foi importante para bioética feita por brasileiros. Podemos ouvir deles de como os motivou e ofereceu caminhos na problemática da medicina, que apenas se ensinava e se praticava como tecnologia cada vez mais precisa e necessária como instrumento imposto. Mas, não o ensinaram a ser médico humano de um paciente humano.

Este prêmio é um reconhecimento “de amores antigos” destes “jovens brasileiros”, revelando seus primeiros encontros secretos e  fortes vividos avidamente despertados pela pessoa, sábia, humana, médico e educador Diego Gracia. Seguiremos nessa empreitada todos “hasta que el cuerpo aguente”.

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