Antonio Conselheiro documento vivo da realidade humana (continuação)

4.- O HOMEM COMO REALIDADE MORAL

Antonio Conselheiro documento vivo da realidade humana (continuação)

4.- O HOMEM COMO REALIDADE MORAL

            4.1.- Não podemos abrir mão do homem.

Pelo teor de nossa investigação a problemática da moral de A. Conselheiro, junto com os moradores do arraial e da moral do poder religioso e republicano ficam comprometidos ou adquirem novas dimensões. Se o homem é, antes de animal racional, animal de realidades, e não ao inverso, como fica o campo do debate ético da comunidade e participantes da guerra dos Canudos? Continuamos com a mosca detrás da orelha: por que a moral deve sempre ser avaliada por normas quase sempre produzidas por um poder de dominação seja religioso ou político? Será que o certo são as normas, que vem de fora, e o errado é o homem que sempre deve ser teleguiado? Será que a moral ao longo de sua vivência e discussão perdeu seu centro de gravitação no próprio homem para “dar aos conceitos a função primária e radical”? Como então explicar a constante interrogação do homem pela realidade ao sofrer no seu estômago, na sua dignidade e na sua liberdade? Como entender o fato de que, no meio desse turbilhão moralístico, o homem exige o seu respeito, não mais se deixando enganar pelos políticos, pelos falsos religiosos, pela voracidade das informações e do consumismo? Por que no centro da discussão ética parte-se do homem e os comportamentos morais tornam-se exploradores? Nesta queda de braço, sempre favorável ao poder de qualquer tipo de dominação, não está havendo alguns sinais indiscutíveis de que o homem vai fazendo valer a força de sua realidade humana?

Onde se justifica a moral? Na realidade do ser humano (de qualquer ser humano) ou nas intenções dos que tem a dominação de plantão de ditar as normas? Fazemos nossa a colocação de Antonio Paim de que:

“não se pode imaginar a vida social sem a presença de regras de conduta a que se devam cingir seus protagonistas. Contudo, o processo segundo o qual essa esfera da cultura ganha autonomia e vem a ser considerada sem referenciais religiosos, ou de outra índole, é de muito difícil reconstituição” (ME 11).

Para tanto nós escolhemos um tratamento filosófico diante da situação trágica do arraial dos Canudos no fim do século passado, pois hoje tal situação é a mesma para milhões de homens em muitos arraiais da vida em todo o planeta. Isso nos levou ao verdadeiro problema de fazer filosofia sempre a partir do mais radical. E aceitamos o desafio de tentar reconstituir esse processo da esfera da moral desde sua última raiz. Pois seguindo a linha marcada por A. Paim “antes de atingir esses estágios avançados de sistematização, deve ter-se efetivado o esforço inimaginável na linha de fixação de normas que contribuíssem para a coesão e a sobrevivência dos agrupamentos humanos” (ib. 11). É essa inspiração que nos alenta porque, em primeiro lugar, como ser humano, não podemos abrir mão da necessidade de que essa coesão só pode ser realizada a partir de uma relação última, sempre harmônica e que deve adquirir uma dimensão também lógica e política. E em segundo lugar, também nós queremos não apenas sobreviver em agrupamentos, mas que eles sejam humanos para todos. Podemos entender e aceitar que haja homens que apenas sobrevivem e sejam agrupados por castas sociais enquanto outros, sempre os dominadores, querem a vida somente para eles? Quem será o juiz que poderá justificar tal sentença?

Nietzsche indignou-se contra tais desvarios da mente idealista, mas não conseguiu entender a radicalidade da realidade humana à que tanto apelou. Deixou-se levar pela corrente racionalista, quase sempre dominadora, de querer ser o novo criador do super-homem, substituindo o sub-homem produto da modernidade. Mas, por que insistir em criar um novo homem se ele já é real?  Será que nos devemos negar a tentar reconstruir ou flagrar o homem no seu momento de estabelecer normas para sua vida em percurso? Por que parece que temos medo de sermos aquilo que já somos? Quem pode negar que somos realmente? Por isso não abrimos mão de que a investigação filosófica é desnudar a verdade real do homem no arraial do mundo. Queremos repetir as fórmulas que mantém o sofrimento humano ou queremos mesmo é lançar-nos na força da investigação filosófica inaugurada pelos gregos?

Na investigação filosófica perguntamos sempre à realidade sem medo do que ela seja. É necessário saber distinguir as forças ocultadoras da mesma. “O homem comum, diz Germán Marquínez Argote sobre pensador colombiano Fernando González, acredita nos santos vestidos. O filósofo pelo contrário, é o que tem perdido a fé nos mesmos” (DII 142-143). Fernando González se desiludiu dos santos ao levantar o vestido ao intrépido Paulo de Tarso na sacristia da Igreja e “vimos que o seu corpo era um pedaço de madeira ordinária”. Será que de debaixo das “saias” sociais, políticas, religiosas e científicas do homem encontraremos a realidade humana ou a mesma é “algo ordinário” que podemos usar ou zombar? E se existe realmente, por que não descobri-lo a partir de sua constituição? Hoje parece ao contrário: o homem comum acredita no homem real e não nas suas vestes, enquanto o “intelectual” acredita nas vestes e tem medo de acreditar no homem de carne e osso.

O que há debaixo de todos os códigos e normas morais? De outra forma, por que podemos falar da moralidade humana, se o homem não é constitutivamente moral? Se não é santo por que vesti-lo de santo e depois malhá-lo e manipulá-lo? Se for homem vamos revesti-lo daquilo que realmente é: homem. Então como relacionar o homem com a moral? Ele é apenas um “sujeito” que pode ser coberto pelas mais diversas roupas normativas produzidas na cabeça dos maiores costureiros das modas morais de cada época histórica?

O homem é uma realidade pessoal. Sua tensão vital humana é de enfrentar-se com as coisas e apropriar-se-ão através de atos e comportamentos. Sem dúvida esta é a base onde se movem a moral judaica e grega aproximadas pelo cristianismo. Assim a explicita A. Paim:

“A pregação de Cristo repousa na ideia de pessoa, a que não chegara à civilização greco-romana. Nesta, embora estejam presentes vários ingredientes do conceito de pessoa humana, o característico do homem era a condição de cidadão, isto é, de pertencer à cidade, o que encaminhava a meditação no sentido de averiguar distinções entre os homens ao invés daquilo que os aproximava. Assim, somente com o cristianismo seria dado o passo essencial no sentido de vincular a moralidade a um ideal de pessoa humana, ou da pessoa ideal, isto é, o homem virtuoso” (ME 14).

Já esclarecemos as distorções mútuas realizadas da pessoa no sentido cristão pelo conceito de substância como sujeito e da realidade grega pela criação ex nihilo. Todavia, a formulação dos modelos éticos vigentes em diferentes épocas surgiram desta base comum através dos Dez Mandamentos em Israel e depois pela Igreja, na discussão do livre arbítrio na Idade Média e da ética social até a obra de Kant. Mas, o que todo esse esforço humano religioso, político ou social tenta explicitar? Na nossa investigação estamos procurando o que A. Paim afirma ao tratar dos pré-requisitos da moral dos que partiu Max Weber, mas procurando maior radicalidade: “A moral é anterior à meditação que chega a ensejar” (ib. 33). Por que é anterior e em que é anterior? De onde arrancam os decálogos e as convenções, hoje em dia os protocolos? Por que as ações humanas são morais? Por que elas tem uma força que sustenta a conduta humana? Por que o homem aceita ou rejeita as normas? O que está tentando justificar? O que buscamos, não são os “pré-requisitos weberianos” da moral da autoridade e da obediência, mas o que é anterior como fundamento. Como surgem as ações humanas e como elas vão se realizando? Não é nosso propósito fazer um estudo exaustivo de todos os desdobramentos, como o faz Xavier Zubiri; somente indicaremos alguns momentos para poder destacar como a realidade humana é moral.

            4.2.- Comportar-se ou apropriar-se: a pessoa humana.

Certamente não nos movemos na ideia ou ideal da pessoa humana no sentido kantiano, esclarece Zubiri, como “se o homem estivesse polarizado para um ideal” (SH 393). A nossa investigação tenta sempre a realidade. Não é que não devamos ter ideias do homem, mas estas devem atualizar a realidade humana. A. Paim destaca muito bem que a moral atual move-se dentro dos arquétipos kantianos (ME 23-48). O homem não é um arquétipo inspirador, mas é um animal de realidades. Por isso, e somente por isso, poderá se comportar como pessoa. O homem na tradição judaica é um “ímpeto vital” que na dinâmica histórica estabelece uma relação de enfrentamento consigo, com o povo e com Deus de forma responsável, por isso o decálogo. Da mesma forma a palavra bíblica não é algo que se diz, mas que se dá, acontece: é uma doação, uma realização. O que coincide com o dinamismo que o grego entreviu no cosmos como estrutura do real. Portanto, o homem é o enfrentamento com a realidade. Ele é pessoa, porque apreende sua própria realidade como real e daí todo esforço para apropriar-se-á em seus atos. O homem não teria ações próprias se não tivesse uma estrutura própria de enfrentar-se com as mesmas.

O homem como senciente não responde por meros estímulos, mas porque toma conta da situação como realidade pela sua inteligência, pelo seu sentimento e por sua vontade. É o campo das ações humanas, “entretanto não são três ações, mas três momentos especificantes de uma só ação única e indivisa: comportar-se com a realidade” (SH 17). Por isso a vida humana é “um processo de autopossesão de sua própria realidade” (ib. 18). É o gozo de sua realidade. Toda ação humana será humana se realiza essa posse de si mesma dando resposta a essa situação da qual toma conta. A forma desta resposta é o seu comportamento, que poderá ser problemático.

Entretanto, o homem tem um modo próprio de enfrentar-se (habérselas) com as coisas, que “jamais pode ser problema: se tem ou não se tem” (ib. 19). E se tem é real. Tal enfrentamento deve estar sempre nas ações que fazem o comportamento vital, intelectual e moral do homem. Caso contrário, tiraríamos o homem da realidade. Por esse enfrentamento real com as coisas, o homem abre-se às múltiplas possibilidades do real para fazer-se cargo delas, não como representação, mas como apresentação. Desta forma estamos numa posição do ideal da pessoa humana, pois “o animal humano (animal de realidades) está instalado não só ‘entre’ realidades, mas ‘na’ realidade, no transcendental” (ib. 40).

Dessa forma o homem está aberto a outras realidades e a si próprio por determinação própria. Estamos no centro da questão da pessoa humana. O homem pode executar os mais variados atos intelectivos ou volitivos, mas só será pessoa se tais atos forem próprios. Mas como sou eu mesmo? Como um sujeito que possui uma natureza, que através de estruturas psicobiológicas, executa fisicamente seus atos? Se aceitássemos tal definição de pessoa as suas ações reais e possíveis de lembrança, amor, desejos… “nenhuma delas formaria parte constitutiva do sujeito”. Pois, por um lado seria sujeito e por outro executor de ações através de condições ou instrumentos de sua inteligência, de sua vontade e liberdade. Vejamos o paradoxal dilema planteado por Zubiri diante desta análise:

“Então nos perguntamos, o que é este sujeito? Seria um sujeito, goro, vazio: absolutamente inoperante em e por si mesmo. O que é esse eu que não é nem a sua intelecção, nem seu apetite, nem seus desejos, etc., mas que somente tem tudo isso? Não seria nada de aquilo que constitui sua natureza, não seria, portanto, princípio de operação. Como vamos dizer então que  sou eu quem executa aquelas ações? Em definitiva o eu pessoal seria um sujeito evanescente, ter-se-ia convertido em pura vacuidade, porém todos sentimos que é o mais querido de nós mesmos, contudo, queremos ser verdadeiros autores de nossas ações. Mantida com todo rigor a noção de pessoa como sujeito diferente realmente de sua natureza, tanquam res et res, fica volatilizado o eu pessoal. Isto não pode ser. É o eu pessoal quem executa seus atos” (ib. 108).

Zubiri na sua análise debate-se com a dualidade que todos sentimos: como somos pessoas e como nos realizamos como pessoas, se somos tratados apenas como sujeitos de trabalhos de todos os tipos? Querem que sejamos responsáveis de algo, mas nada disso nos pertence e tudo é imposto. Não podemos aceitar que sejamos pura contradição fragmentada do eu, de sua natureza e de seus atos. Como podemos ser executores de tais atos, se também não somos princípio de nossas operações? Isto é impossível de aceitar, pois se o homem apenas possuísse estruturas para a ação, e elas não fossem constitutivas, como justificar seus atos? “Porque, diz Zubiri, se estas estruturas não fossem momentos formalmente constitutivos do eu, podemos perguntar-nos, com que e de que vai tirar o eu seus projetos e executar suas ações”? (ib. 109). A relação sujeito e atos terá sentido porque ela pertence a uma “unidade superior”, que é a realidade pessoal.

O homem, antes de nada, é uma realidade “em propriedade de si mesma”, é uma realidade substantiva. Mas, não só como dona do seu nariz, segundo o sentido de nossa expressão popular, para decidir o que tenha vontade com respeito dos seus direitos, da sua liberdade e da sua moral.

“Se trata, afirma Zubiri, de uma propriedade em sentido constitutivo. Eu sou minha propriedade, seja ou não dono dela. Porque, precisamente por sê-lo, e na medida em que o sou, tenho a capacidade de decidir. A recíproca, porém, não é verdadeira” (ib. 111).

Desta forma sou uma pessoa, não porque possa me conhecer, mas porque me pertenço plenamente e de modo subsistente. Assim essa propriedade pessoal, que sou, abre-se e atualiza-se nos meus atos como o eu que é agente, autor e ator de minha vida (ib. 123-127). Só essa realidade pessoal poderá ser “a figura” de todos os mesmos atos e o “ideal” a ser realizado em todas as minhas ações e condutas frente a qualquer realidade. “A pessoa, conclui o autor, é um relativo absoluto“. O homem se por um lado é um ser finito, por ser pessoal é absoluto frente a todas as realidades.

A pessoa é a propriedade de si mesmo como único ponto de partida para qualquer ato do ser humano. Nas vivências da vida o homem vai fazendo, desfazendo ou refazendo não uma personalidade de tipo psicológico, social, intelectual… porém, vai configurando ao longo de sua vida sua realidade absoluta. Não como algo adventício, nem intencional, mas como realidade senciente que é “sua vida transcorre no tempo e sucessivamente”. Conclui Zubiri: “pelo fato de ser senciente a pessoa humana, que é constitutivamente pessoa, deve despregar-se forçosamente numa série de atos e tomar uma figura constitutiva de personalidade” (ib. 114). Assim, a pessoa a cada momento vai reafirmando aquilo que já era: realidade pessoal.

            4.3.-O homem como realidade moral

No decorrer desta análise podemos já entender que o “ideal de pessoa” proposto por Zubiri está diametralmente oposto aos embasamentos de substância e de sujeito que direcionaram a moral humana. Kant teve o grande mérito de desvincular a moral da religião, mas acabou ficando no meio do caminho: amarrou-a ao imperativo categórico do dever provindo das ideias a priori, de um arquétipo como que criado ex nihilo. O mesmo aconteceu noutros momentos da história quando a moral foi amarrada ao saber, à vida eterna, ao puro indivíduo, às inclinações morais, aos fins, aos valores ou até à fórmula weberiana da ética da responsabilidade. Zubiri entende que a moral é uma dimensão mais radical. Por isso ao fazer referência a alguns desses desenvolvimentos repete dentro de sua análise filosófica: “mas isto não é suficiente” ou “isto que é verdade dentro de seus limites, não é verdade suficiente” (SH 356 e 357). É mais, enfatiza Zubiri: “uma moral que tropeçara com uma conexão absolutamente externa seria uma moral que se jugulou” (ib. 427). Dessa forma o homem continuará a ser proibido de viver e realizar sua vida em favor, sempre, de alguns defensores de tais colocações insuficientes.

Então o que é a moral antes de qualquer meditação? O que é que está detrás dos decálogos religiosos ou cívicos? Qual é autonomia da moral? O que está sustentando a percepção humana de que é necessária a moral? O que está como fundamento de todas as formas de moral tentadas até agora? É claro que a moral só é encontrada nos homens. Mas ela só poderá ser justificada a partir do “homem racional”, que sempre se inclina para os “afortunados” em detrimento do homem comum? Ainda é muito cedo para aceitar a proposta zubiriana como definitiva. Tal atitude negaria as preocupações filosóficas do autor, pois como concluir que estamos na última radicalidade do pensar?. Mas é indiscutível o seu esforço humano e filosófico para poder deter o sofrimento do homem em prol de tantas “morais”, colocando o problema a partir de um tratamento mais radical da realidade e da inteligência. Pelo menos dentro dessas análises a vida humana parece adquirir novo alento, nova luz e novo encaminhamento.

O homem por ser “animal de realidades” é o único “animal pessoal” que deve apropriar-se, que deve realizar-se na sua biografia, na sociedade e na história. Pois ele é a única realidade aberta pela sua inteligência senciente a tudo quanto há de realidade: é o mundo, na linguagem zubiriana Nas realidades apreendidas só homem é capaz de preferir e de decidir quais as possibilidades apresentadas para sua realização. Deverá escolher umas possibilidades a outras, umas formas das mesmas a outras, mas sempre projetando a única coisa que ele é: uma pessoa que constitutivamente consiste em apropriação. O campo das possibilidades é irreal, mas o tornamos real ao escolher o projeto “em vista do qual o homem vai preferir o que se apresenta como possibilidade entre várias, para ser de uma maneira diferente ou igual ao que era antes” (ib. 141). O homem é sensitivo e decorrente por isso deve apropriar-se por eleição as possibilidades. “A apropriação, diz Zubiri, é constitutivamente a forma mais radical e elementar da moral” (ib. 144). E continua o autor, só podemos dizer que o homem:

“está desmoralizado porque não se apropria as possibilidades que poderia se apropriar, que deveria se apropriar ou que quisesse apropriar-se. Quando está nesta condição, encontra-se como aplastado e retrotraído a sua pura condição natural. A moral é o caráter das propriedades apropriadas pelo homem” (ib. 144).

O homem resolve seu projeto por decisão. O homem, por ser realidade substantiva “tem necessariamente propriedades por apropriação, justamente o que entendo por realidade moral ,diz Zubiri. O moral no sentido usual de bens, valores e deveres, só é possível numa realidade que é constitutivamente moral no sentido exposto” (ib. 345). Não é o intuito de este trabalho fazer uma exposição completa deste tema, mas somente indagá-lo para poder alicerçar o redimensionamento filosófico entrevisto no campo ético que estamos estudando no arraial dos Canudos. Entretanto destacaremos alguns pontos que iluminem um pouco mais nosso questionamento sem necessariamente seguir toda a elaboração do autor.

O homem, então, deve resolver sua vida por decisão para poder apropriar-se-á . “Esses atos decididos, pergunta-se Zubiri, estão justificados ou não. Os atos humanos tem ou necessitam justificação”? (ib. 345). Estamos no âmago da questão da moral. Neste texto sobre El Hombre, Realidad Moral, encontramos o Zubiri mais provocativo no meio de suas aristotélicas análises. Como é então a justificação dos atos humanos? O autor assim expõe a espinha dorsal de sua argumentação:

“A pergunta é inevitável. O problema da justificação pode tratar-se apelando  a esses termos intencionais do bem que o homem intenta, como se de um lado estivessem a intenção, os valores, os deveres, as normas sociais, e do outro uma espécie de canhão que vai dirigindo os tiros a um ou a outro  frente, a esses alvos que se põem a diante? Poderemos por, de uma maneira arbitrária e artificiosa, de um lado as tendências ou os mecanismos que o homem coloca em jogo, e do outro o dever, a intenção, a bondade abstrata ou puramente intentada de seus mecanismos. Isto é quimérico. A bondade ou a maldade, quer dizer, o caráter justificando por razão de uma bondade, compete a realidade qua realidade da própria pessoa humana” (ib. 360)à

O homem como realidade pessoal deve apropriar-se de algumas possibilidades para sua realização, mas sempre o faz por decisão. Pois ele como animal de realidades, ao enfrentar-se com as coisas, considera as mesmas antes de executar seus atos. Mesmo até nos momentos de precipitação o homem mede o que vai fazer. Não é isso que acontece ao animal, que  necessariamente está sempre ajustado para viver sua vida. Entretanto os atos humanos surgem de um processo de ajustamento que depende da possibilidade escolhida. No mecanismo da própria ação humana está a justificação, e não que esta seja elemento externo à mesma. Dessa forma o homem constrói sua vida, porque ao escolher uma possibilidade vai transformá-la em realidade. Pela sua inteligência articula-se entre o real e o irreal em forma de possibilidade. Então tal possibilidade será preferida porque ela é desejável por ele. Mas desejável por quê ? Este é o nó que Zubiri quer desatar.

Essa preferência não pode ser explicada pelo conteúdo das possibilidades, que nos arrastam e nos obrigam a preferir. Pois a justificação não é uma simples explicação de uma ação concreta. Ela deve “dar razão da razão” da preferência das coisas desejáveis. Onde posso inscrever tal preferência desejável? Na sociedade e seus sistemas vigentes em cada época, no dever categórico ou nos valores? Zubiri não concorda. Esses quadros de pressões sociais, do imperativo e dos valores revelam a “verdade dentro de seus limites, (o que) não é verdade suficiente” (ib. 357). Formam parte da meditação da moral, mas não é o que justifica os atos morais. As preferências sociais marcam uma sociedade. Mas isso não é o “decisivo” para justificá-las, pois o homem pode revelar-se contra elas e ainda preferir umas às outras. O conflito do arraial dos Canudos prova tal argumentação. Embora Euclides pense todo o contrário, dando uma interpretação positivista. Como positivistas são todas as explicações que damos à moral, até à religiosa, quando não mergulhamos na realização da real “figura” humana. Os usos e costumes não são morais porque são sociais, nem por serem uma maneira de agir.

“Seriam, diz Zubiri, maneiras, modos, hábitos no sentido de automatismos. De forma nenhuma seriam costumes. São costumes quando o homem apropriasse-lhes, e por essa apropriação, entra dentro do sistema  de usos e costumes… Um uso e um costume não são simplesmente uma maneira de agir, mas um sistema de possibilidades. Embora estas possam ser de origem social, incumbem a cada um dos homens por razão de apropriação” (ib. 377).

Ainda fica mais clara a argumentação do autor ao concluir da insuficiência dos dois tipos de moral propostos por Bérgson: a moral de pressão e a moral por aspiração. Tomados separadamente, nem morais são. São apenas duas dimensões. Porque continua Zubiri:

“O que chama Bérgson de aspiração é esse coeficiente inexorável de transcendência que tem o real de um copo de água a respeito das possibilidades do mesmo, e o que tem de pressão é o conteúdo desse copo, ou das coisas que os demais homens me impõem. Somente entanto que tem o coeficiente de realidade é possibilidade, e é apropriável somente entanto que apropria seu conteúdo específico. Não são duas fontes de moral, nem dois morais; são os dois ingredientes que constituem a moral enquanto tal ” (ib. 378).

Então serão as possibilidades desejáveis pela força do dever? O dever ser poderá ser o julgamento definitivo, mas de onde recebe tal força? Da maneira como ele realiza as ações, ou pelo que o homem faz nelas? Parece que Kant separa a realidade do dever como normas que vêm de fora, como então se faz a ligação? Só através de um julgamento prescindindo da inteligência que se enfrenta com as coisas como realidades? De onde o juízo tira seus julgamentos? Como julgar um ato se ele não está incluído no mundo real? E ainda na minha vida há situações em que não tenho dever de fazer uma coisa, mas fazê-la ou não adquire dimensões morais. Zubiri reconhece: “Não há moralidade sem um mínimo de dever, mas o dever não esgota a moralidade” (ib. 357). Então, atreve-se a perguntar a Kant: “as coisas são boas porque se devem fazer, ou se devem fazer porque são boas? Não depende o dever de algo que o faça viável?” (ib. 357). O que faz viável o dever é porque “está inscrito na forma de realidade que é a realidade humana, aberta constitutivamente a toda forma de realidade” (ib. 410). Pois a única possibilidade de todas as possibilidades é a realização humana, sua perfeição e sua felicidade. O homem não poderá abrir mão para ninguém de sua apropriação: é a única dimensão do percurso de sua vida. Negar tal dimensão é tirá-lo de sua realidade pessoal que é. Assim o dever não é uma norma externa (imperativo categórico), mas, porque está ligado inexoravelmente a sua realidade, é obrigado a escolher a melhor possibilidade para realizar-se. Porque o dever é o “caráter devitório” da realidade humana.

Da mesma forma os valores de Max Scheler ficam dentro da linha intencional do caminho percorrido pela meditação ética. Diz ele que os deveres são fundamentados nos valores que são apreendidos já hierarquizados. Mas de onde provém tal hierarquização? Existem valores puros? Não é apenas a superioridade de um valor que vai ser a fonte de nossos deveres. Os valores seriam objetivos? Mas respeito de que? Do sujeito ou da realidade? Afirma Zubiri: “se os valores são valiosos é porque as coisas são válidas para uma realidade, que é a realidade humana” (ib. 358). O homem, como animal de realidades, continua sendo o único centro de que as realidades sejam fontes de valores, não pelas realidades, mas porque o homem ao tomar conta delas as considera boas para sua realização. “Pois, o bem, contrapõe o nosso filósofo, não é a coisa como suporte de valores, mas ao contrário: como raiz dos valores, como sua fonte” (ib. id.)

A felicidade, a bondade, o bem aparecem como o fiel da balança para justificação dos atos humanos, o qual contradiz a tese kantiana, que exclui a felicidade da moral. “Não cabe, afirma Zubiri, disjunção entre ser feliz e ser moral” (ib. 394) Pois o homem está anteposto a si mesmo como possibilidade de resolver-se numa apropriação, não como presente de sua natureza. Assim, para o nosso filósofo, o homem e as coisas são reais e efetivamente bons porque formam parte integrante de sua “figura humana desejável”. Porque, continua o mesmo:

“Quando falamos que o homem, em virtude de suas tendências, se abre a um sistema de coordenadas dentro do qual vai inscrever as coisas como preferíveis umas respeito das outras, é necessário dizer que o âmbito que se abre lhe ao homem é o âmbito da bondade, da realidade boa. No entanto, enquanto o homem depõe sua fruição na realidade boa, nessa medida se inscrevem todas as possíveis ações, e sua própria realidade, em forma de algo desejável, em forma de algo preferível” (ib. 358-359).

A tentativa da justificação dos atos humanos nos levou ao centro de nossa questão: a moral não pode ser uma razão intencional, imposta. Mas a moral é o óbvio: a realização da própria realidade humana. As ações serão morais pela forma que são inscritas no decurso da vida humana. Sua normatização será válida se sempre se reportar para garantir a escolha da melhor possibilidade para ação vital e todas as suas sequências vitais. Essa ação vital o levará a descrever e a determinar a “figura real e efetiva”, o “ideal real” de si mesmo. Pois o homem não pode deixar de antepor-se como ideal do que ele é.

“O homem, conclui o autor, não é uma conjunção de duas coisas: uma realidade e um ideal, mas ao contrário: é uma realidade que não pode ser real a não ser sendo precisamente ideal. Não é uma oposição entre o real e o ideal, mas entre o real puramente real e o ‘realmente ideal’. O homem é animal de ideais por e para ser animal de realidades” (ib. 393).

O que está em questão na moral não são primariamente seus códigos, suas normas mas o que é anterior e tentam explicitar. Por isso conclui Zubiri:

Mós não significa pura e simplesmente um hábito, uma maneira de conduzir-se. Também não significa puramente adequação a uma tábua de valores. Significa a realidade física de um conduzir-se qua realidade humana e pessoal. A realidade humana é uma realidade moral” (ib. 361).

            4.4.- Antônio Conselheiro frente a moral intencional.

Vamos tentar, no nosso ensaio, iluminar com estas propostas da realidade moral o conflito das ações de Antônio Conselheiro, dos clérigos e dos republicanos. Devemos nos armar de coragem para “tirar as vestes de uns e de outros”, e ficar cara a cara frente a verdadeira realidade que move “seus supostos ideais”. Vimos na capítulo anterior que o nosso personagem, representante dos sertanejos, está numa relação real com as suas realidades sem negá-las, sem enfeitá-las nas poucas aparentes possibilidades despertadas. Mas ele, ao apreendê-las, faz desencadear suas energias vitais, intelectuais e morais. Antônio Conselheiro não interpretou ao seu gosto e nem alterou caprichosamente as condições reais da vida sertaneja, mas as enfrentou implantando-se nelas. Ela é a única relação possível no animal de realidades (inteligente senciente), cuja força o acompanhará sempre na maneira problemática de realizar sua vida.

O homem está implantado na realidade (das coisas e dele mesmo), que deverá ser apropriada como seu bem nas possibilidades que se lhe abrem: é a vida de Antônio Conselheiro. A pessoa humana, que ele é, não é um sujeito vazio ou que aceita qualquer veste, que não seja humana. Ela é agente, autor e ator de seus atos realizando aquilo que mais querido todos temos: a nossa realidade pessoal. Por isso que o nosso personagem não liga e nem aceita as intenções cultas dos afortunados de qualquer posição social ou oficial do complexo de clã, também não entra no jogo hereditário dos rancores e das vinganças familiares. Ele não desencadeou a violência e a irracionalidade, ele não criou as lendas nem as peregrinações e nem os preceitos montanistas. Antes de seguir façamos algumas precisões que Zubiri faz ao expor o homem como realidade moral, para melhor indagar a última parte de nosso ensaio.

Poderemos estar pensando, ainda, que o ideal de pessoa descrito por nosso filósofo, pode ser semelhante ao vidro de perfume, que basta abri-lo para que saia sua essência. Para ele, e é como nos sentimos, a pessoa humana não é uma espécie de riqueza já feita de vez por natureza, posta ao mundo no ato de nascer. Mas, que sendo a mesma, deve-se realizar no esforço humano para construí-la a cada momento. O homem defende Zubiri, é uma individualidade substantiva pela que fica constituída a espécie e não ao contrário (SH 187-193). Mas por isso mesmo precisa afirmar-se na diversidade real vertendo-se aos demais: é a convivência de realidades pessoais constituindo a sociedade. Essa convivência é a estrutura na qual o homem tem seu “lugar” e “entra em comunhão” com os outros, que por sua vez o afetarão na forma de enfrentar-se com os mesmos. Zubiri chama de “socialidade” a essa forma de como levamos dentro de nós os outros: é pelo que o homem é social e não por uma relação externa (ib. 193-198). E, ainda, o homem é um animal histórico: porque somos geneticamente prospectivos, somos projetados para adiante, para viver a vida na realidade aberta, que somos. Por isso para o autor a história não é uma evolução do tipo natural, pois esta é só genética, enquanto a humana é real e portanto histórica. Então, conclui o filósofo, “o homem instalado no mundo sobrevive por entrega e por invenção de formas de vida na realidade: é a história” (ib. 202).

A figura da realidade humana de Antônio Conselheiro redimensiona-se nas formas étnicas, sociais e históricas do arraial dos Canudos. Ele não foge, como qualquer ser humano, a esta implantação real. O homem não é uma realidade pura e abstrata, mas deve ser apropriada nas dimensões individuais, sociais e históricas. Entretanto temos ainda outro elemento a destacar para esclarecer qualquer dúvida a respeito da moral de Antônio Conselheiro. Ele é agente e autor de sua vida, mas também é ator. Por isso é sertanejo na segunda metade do século XIX, como hoje a realidade humana é atriz de sua vida na roça ou na cidade, na favela ou nos apartamentos de luxo, no centro empresarial ou no armazém, no primeiro ou no terceiro mundo. Pois bem, este homem que é real e implantado numa situação, diz Zubiri:

“Encontra-se inexoravelmente inscrito numa trama de realidade da que não é dono, pela que não é agente e autor. O homem encontra-se numas determinadas circunstâncias históricas, numas determinadas circunstâncias sociais, numas determinadas circunstâncias inclusive internas, com sua própria biografia, em virtudes das quais podemos falar que ao homem tocou-lhe desempenhar certo papel” (ib. 126).

Neste contexto situacional desenvolve-se o caráter trágico da vida de Antônio Conselheiro e de todo ser humano. Zubiri chama de “trama argumental da vida”. Pois o homem não decide e executa seus atos somente, mas deve aceitar “seu destino”, porque “possuir-se não é sinônimo de ser dono-de, é definir-se naquilo de que não é dono” (ib. 587). Para esclarecer este caráter de aceitação Zubiri se adentra na tragédia grega, na impassibilidade estoica, no desígnio de Deus em Israel, na armadilha da vida biológica e na configuração teológica da razão hegeliana. Mas “a unidade radical da vida vem do caráter de autopossesão” (ib. 593). O homem então está dentro de uma conexão estrutural situacional que é o enredo da vida, que ele deve representar e desempenhar no seu papel, mas sempre se definindo.

Antônio Conselheiro foi realizando sua vida dentro destas dimensões radicalmente humanas. Devemos fazer um esforço filosófico para flagrar a realidade moral de nosso personagem. Mario Vargas Llosa na sua entrevista a Cláudio Figueiredo, como Euclides em Os Sertões, fala do drama de seu personagem de Lituma nos Andes, como se fosse ele: “porque a impressão era que todos ao meu redor já haviam desistido de entender com suas afirmações dogmáticas, seus autos de fé” (VTI 8). Essa trama da realidade, quando não aceita e definida, pode levar, afirma Llosa:

“aos extremos da violência e brutalidade: não só por parte do Sendero Luminoso, mas também pela repressão. O que mais me surpreendeu é que, devido a tudo isto, velhas práticas religiosas, mágicas, haviam ressuscitado. Mais tarde, descobri que o mito grego de Dionísio era não só a embriaguez, mas sobre o retorno a um mundo irracional, um mundo pré-racional, onde os instintos podiam desenvolver em total liberdade. Inclusive manifestações de violência, como sacrifícios humanos” (ib. 8).

Zuenir Ventura, analisando a situação de conflito das favelas do Rio de Janeiro quando da ocupação militar para expulsar os narcotraficantes, vai tirar a pior conclusão a que podemos chegar: “quando parecia que as coisas estavam melhorando, a mais recente onda de violência começou a espalhar de novo uma generalizada impotência, aquele gosto amargo de que se é assim, se nem o Exército resolve, é porque Rio não tem mesmo jeito” (PRV 7).

Quando, a trama da vida não é aceita e definida pelo animal de realidades, a “suposta força racional” promove e provoca em cadeia um tratamento muito “lógico” e muito “louco”, porque está desligada da realidade. É quando vemos a inconsistência da moral que vivemos, que Zubiri comparava a um canhão que podemos dirigir da forma preconcebida para os alvos que quisermos. Dessa forma tornamos a vida mais trágica fazendo da trama da vida uma verdadeira tocaia para o homem. Esta última análise do texto sobre Antônio Conselheiro é muito rica para indicar uma moral realmente mais humana que a imposta pelas forças religiosas e republicanas, pois finaliza Zuenir Ventura: “da vitória sobre Antônio Conselheiro, o que ficou não compensa, como se sabe, foi uma dramática herança: em um século, a favela criada pelos soldados pobres dos Canudos se multiplicou por quase 600, dando a irônica impressão de que o Exército está tendo que resolver hoje o que ele próprio criou” (ib. 7). Essa dramática herança é a da humanidade que tentou muitas vezes fazer sua moral sem contar com a fonte da moral, que é ele próprio. Dessa forma está sempre querendo consertar o que ele sem parar está estragando.

A moral de clã consagrou-se no agreste nordestino pela “prepotência sem freios dos mandões de aldeia” (OS 114). Não é nosso propósito analisar este texto de Euclides à luz da sociologia ou das manifestações messiânicas, pois o estamos investigando filosoficamente. Mas devemos reconhecer o acertado de Euclides em situar o seu personagem, dentro das dimensões sociais, históricas e familiares, no sentido de apropriar-se as melhores possibilidades para a sobrevivência e convivência com os outros sertanejos. A trama da vida de Antônio Conselheiro situa-se no conflito desencadeado entre a sua família dos Maciéis, e a dos Araújos.

A família dos Maciéis é composta por “homens vigorosos simpáticos, bem apessoados, verdadeiros e serviçais”, de “reputação invejável” (ib. 115), dedicados aos seus trabalhos e unidos, não pela lei do clã, mas por uma harmonia entre os mesmos. A família dos Araújos surge como a razão desenfreada a impor suas intenções. É a razão do lobo querendo se impor ao cordeiro pela lei natural da força. Eles não vêem “com bons olhos a família pobre (dos Maciéis) que lhes balanceava a influência, sem a justificativa de vastos latifúndios e boiadas grandes” (ib. 115). A moral de dominação mostra suas “boas intenções” criadas ex nihilo para destruir a vida e a convivência dos Maciéis. É o rompimento da moral, como apropriação das melhores possibilidades para realizar a verdadeira figura humana, para tomar o seu lugar e impor seus códigos e normas, deixando a realidade humana de ser o centro de gravitação.

Antônio Conselheiro seguirá a linha da moral de sua família. Entretanto, os Araújos fazem uso da violência tentando dizimar os Maciéis numa sequência de mortes, intrigas e assassinatos e, para ajudá-los, “chamaram a postos a guarda pretoriana dos capangas”. “Não faltavam, então, como não faltam hoje, facínoras de fama que lhes alugassem a coragem”, juntando na “empreitada criminosa” uma “matula turbulenta” cangaceiros terríveis e sicários tornando o agreste uma tocaia para os Maciéis. Está, plasticamente desenhada, a dualidade dos dois tipos de moral , que discutimos.

Nesta situação cresce Antônio Conselheiro. O pai preocupa-se dar uma educação para “isolá-lo da turbulência familiar” (ib. 119). Segundo Euclides, “testemunhas de vista, ainda existentes”, apresentam-no como um jovem normal, que na morte do pai, vai se responsabilizar pelo cuidado das três irmãs, e “só depois de tê-las casado” vai cuidar de sua vida. A esposa escolhida marcará dramaticamente sua vida, não pela incompatibilidade de gênios, mas “pela péssima índole” da mesma, que acabará fugindo com um policial (ib. 119). Mas ele não se deixa abater e inicia a luta pela vida “sem bens e fortuna” procurando logo emprego por donde passa “para não ser pesado a ninguém”. Será que a suspeita levantada por Euclides, de que estaria procurando “profissões menos trabalhosas, porque exigem menos esforço”, podem ser interpretadas, como a “tendência acentuada para a atividade mais irrequieta e mais estéril, o descambar para a vadiagem franca”? (ib. 119). Então, quantos senão todos pelos mesmos motivos, não devem ser catalogados da mesma maneira? Ele nunca se envolveu “na carreira aventurosa, em que poderia entrar como tantos outros, ligando-se aos condutícios de qualquer conquistador de urnas, para o que tinha o prestígio tradicional da família” (ib. 120). A força da vida do nosso sertanejo não é motivada pelo prestígio ou pelo aproveitamento, mas pelo ímpeto de sua realidade humana.

Antônio Conselheiro continua enfrentando-se com a realidade das coisas e com sua própria realidade. Nem se deixa intimidar, como ator de sua vida, pelo drama obrigado a desempenhar, quando preso porque feriu sem culpa o parente que o hospedava (ib. 120), nem pela absurda e arrepiante lenda de que tinha matado a esposa e a mãe por uma intriga da segunda (ib. 122-123). Nem em 1876 perde a inteireza e firmeza pela confabulação da repressão legal, quando é levado para a capital da Bahia. Era acusado de “velhos crimes, cometidos no torrão nativo” (ib. 124). A comunidade em geral matou sua curiosidade doentia, a escolta “espancou-o covardemente” no caminho e os juízes, ao ficar estupefatos no interrogatório, mandam-no à sua terra natal, o Ceará; onde “reconhecida a improcedência da denúncia, é posto em liberdade” (ib. 124).

Não podemos aceitar, pela própria descrição de Euclides, que Antônio Conselheiro seja um homem pelo avesso, mas uma pessoa implantada na realidade de sua sociedade e de sua história. Ele é o homem que age, atua e deve assumir um pesado papel de realizar sua figura humana naquela trama trágica, que como teias de aranha tentam maniatá-lo para entificá-lo a contento. Dessa forma a realidade humana, uma vez esvaziada, é obrigada a vestir a roupa que os outros gostam para poder usá-la melhor. Obrigam, assim, a realidade substantiva a virar sujeito (substância), tornando-a indigente da dominação de códigos e normas os mais variados e requintados. É fácil, uma vez transformado o homem em apenas sujeito, impor-lhe as vestes de “homem bronco”, que “satisfaz-se sempre com este papel de delegado dos céus” (ib. 113). É justificável, para os que se dizem sábios, cultos, afortunados em posições oficiais de poder usar todos os meios de “exploração pecaminosa” desencadeada sobre a esquisita e feia figura do sertanejo Antônio Conselheiro. Não é hora de ter em conta o alerta socrático, que o próprio Sócrates viveu com seu corpo mal feito, frente aos famosos e afortunados da época?

Não é de estranhar que Euclides, com ideias preconcebidas da ciência culta, cubra-o com roupas de messias, de asceta, de montanista, de profeta, de herege, mas sempre feitas de lendas e mais lendas, favorecidas pela abertura à valores mais altos dos sertanejos, não oferecidos pelos padres e as autoridades. Mas por que se projetou na história? Por que ele foi adquirindo aquela figura de peregrino messiânico? Ele é a “psicose mística do indivíduo” que se revela contra a “ordem natural”? (ib. 114). Ou é a força da realidade humana que vai dando forma a sua verdadeira figura através da escolha das melhores possibilidades? É claro que essa forma de viver a sua “figura humana” coloca em xeque as razões bem intencionadas das sociedades cultas.

Ele, também, não é o falso apóstolo, porque é levado pelo excesso de subjetivismo, mas é o verdadeiro apóstolo da realidade humana, porque tenta desvencilhar-se do excesso e sutil subjetivismo das criações ex nihilo para continuar vivendo na realidade. Por isso, que a “multidão aclamava-o representante natural de suas aspirações mais altas” (ib. 112), pois estava implantado na consistência da realidade. Por isso o respeitavam e o seguiam escolhendo-o “em pouco tempo árbitro incondicional de todas as divergências ou brigas, conselheiro predileto em todas as decisões” (ib. 121). Não era a soma dos “erros de dois mil anos” de misticismo que lhe davam força, mas a sua constituição de homem de realidades, que toda pessoa possui, como realidade individual, social e histórica.

E até suas ações tomavam aspeto de milagres pela inteireza e transparência com que vivia sem preocupar-se com os preconceitos. “A grande série de milagres” eram a reconstrução do muro do cemitério, da Igreja renovada, do conselho dado, da briga apaziguada, da penitência que de “ordinário redundava em benefício das localidades” (ib. 129), a participação nos trabalhos de ricos e pobres de todas as regiões e profissões. Era o milagre “de nada usufruir” promovendo “todos os atos de onde saem os rendimentos do clero: batizados, desobrigas, festas e novenas” (ib. 129), o encorajamento na hora do trabalho difícil, o milagre da rebeldia contra as formas desencarnadas da autoridade da Igreja e contra a República pela imposição de impostos à aquelas comunidades (ib. 128 e 133).Como também a “dádiva providencial de um açude” (ib. 171). Era o apelo constante à realidade das coisas, que as pessoas de posição oficial descuidavam e ele liderava.

Mas isto irritou os desenraizados do sertão: os padres e as autoridades locais, como o trabalho bem feito por qualquer trabalhador, irrita os colegas, o chefe, o vizinho, a autoridade e até o narcotraficante. Com “esses milagres” pregava a “desgraça dos poderosos” tirando-os de seu mundo criado do nada, a não ser de seus delírios egoístas e naturalistas, para reimplantá-los na realidade. Exasperava, porque pregava que abandonassem seus haveres e vaidades, pois a vida é real, aberta e compartilhada. Dessa forma fazia “vitoriosa concorrência aos capuchinhos” por uma pregação que chegava ao povo, “eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando, fazia-se autoridade única” (ib. 125) da realidade sertaneja.

Portanto, Antônio Conselheiro suscita a esperança humana, que na raiz da mensagem bíblica é cultivada na forma de vida, de ímpeto pessoal, de responsabilidade pelo caminho a percorrer. Levanta a esperança pelas coisas, cujo movimento é entendido pelos gregos como estrutura do real. Fala-se do messianismo como alienação do povo, mas não será que o poder constituído e irritado entifica a esperança do homem, instaurando-se como messias criador, que sempre adia a realização de suas promessas para ficar sempre a cavalo? O nosso personagem, sem cultura de poder, consegue fazer frente e descobrir que o falso D. Sebastião é uma mistura de poder religioso e político que, na disputa pelo mesmo, deixa a descoberto sua inconsistência. Eles ainda reconhecem que ele é um “homem inteligente e sem cultura” (ib. 122) e “ainda quando muito instruído e virtuoso” (ib. 130), mas ele não tem autoridade para exercer a influência e arrebatar o povo.

Antônio Conselheiro é o documento vivo da realidade humana do arraial dos Canudos. Ele é agente, autor e ator de suas vidas, que mantém com os sertanejos uma relação de realidade vital e moral, mesmo nos papéis cada vez mais pesados  deve desempenhar. Os padres, os policiais locais e suas autoridades maiores sentiam-se encurralados pelo “homem pelo avesso”. Ele mostrava a realidade e a fazia explodir na frente de todos. Os que a justificavam ou dissimulavam, teimando mantê-la entificada, procuraram ajuda ao arcebispo da Bahia e ao ministro da província. Não sabiam lidar com a realidade e, novamente mais dissecada, a remetem para o ministro do Império. Eles não enfrentam a realidade, e nem querem tomar conta da situação do homem do arraial, envolvendo-a num “ciclo de providências legais”, que mostra apenas o seu espírito cego e manipulador. Pois ninguém queria ver a realidade de um povo, que tenta apropriar-se as poucas possibilidades, que o sertão lhe oferece, para sua sobrevivência e agrupamentos comunitários.

Fica descoberta a moral teimosia dos que estão em “posições oficiais” de não ater-se à realidade das coisas e do homem. A logificação excessiva mumificou o homem na melhor das intenções de compreendê-lo, roubando-lhe a sua própria constituição: a realidade pessoal. Produziu-se assim a dicotomia entre a moral de códigos e normas e a realidade moral que é o homem. A moral da intencionalidade continua a distanciar-se do homem comum e, assim, parece alguma coisa que, se bem do homem, está fora do homem, com autonomia e leis próprias. De um lado, submetido o homem de carne e osso; do outro lado, onipotente, o moralista da dominação.

Mas deixemos, para fechar nossa investigação, falar o próprio Euclides do processo “admirável” de logificação do homem, que uma vez entificado, quer dizer tirado da realidade, é mandado e devolvido de uns para os outros, manipuladores da moral, como objeto de presente indesejável, pois pelas suas apenas “boas intenções” perderam a fé no homem de carne e osso, do homem comum e o único que existe. Vale a pena refletir sobre estes dois parágrafos de Euclides sobre o “empurra empurra ” do desespero de não querer enfrentar a realidade. Diz Euclides:

“Ao que se figura, este apelo, feito em termos tão alarmantes, não foi correspondido. Nenhuma providência se tomou até meados de l887, quando a diocese da Bahia interveio de novo, oficiando o arcebispo ao presidente da província, pedindo providências que contivessem o ‘indivíduo Antônio Vicente Mendes Maciel que, pregando doutrinas subversivas, fazia um grande mal à religião e ao estado, distraindo o povo de suas obrigações e arrastando-o após si, procurando convencer de que era Espírito-Santo, etc’.

Ante o reclamo, o presidente daquela província dirigiu-se ao ministro do império, pedindo um lugar para o tresloucado no Hospício de Alienados do Rio. O ministro respondeu ao presidente contrapondo o notável argumento de não haver, naquele estabelecimento, lugar algum vago; e o presidente oficiou de novo ao prelado, tornando-o ciente da resolução admirável do governo” (OS 131).

Não precisa de muitos comentários. Nesta descrição de Euclides da Cunha fica consagrada, infelizmente mais uma vez, a melhor imagem plástica e dolorosa das pessoas que se negam a enfrentar e viver a responsabilidade pela realidade da vida dos homens. Como é fácil nesse caso embrulhar a realidade, pois já está entificada, com normas e com códigos religiosos, com leis e com ordens políticas, com deveres e valores sociais. E assim, mandar e desmandar nas pessoas como se fossem objetos a manipular e não realidades. O pior é que não se vê o fim desse comportamento negador da realidade, pois Euclides insiste no capítulo seguinte Canudos: Antecedentes, na mesma entificação da realidade. É a exacerbação cega dos que se negam a ver a realidade, tornando-a mais trágica através de novas explicações literárias, religiosas, intelectuais, científicas, militares, sociológicas e políticas. Canudos, no dizer de Euclides da Cunha, é “a ubrs monstruosa, de barro, (que) definia bem a civitas sinistra do erro” (ib. l36).

Fica assim entificado o mundo dos homens, que só os afortunados entendem e exploram, porque pairam como deuses criadores nos seus novos olimpos, pouco se importando com os homens e ainda querendo sempre usá-los para manter-se endeusados. Canudos deve ser destruída com suas “psicoses coletivas”, com seus males sociais, com suas insurreições, com seus casebres, com suas “condições do estádio social inferior”, com “sua peçonha dos maiores vícios”, com seus catecismos, com suas rezas, com seu templo, e principalmente com o seu Conselheiro e com seu povo para criar um sertão novo de acordo com os ideais republicanos e positivistas. É a missão da “pregação abortiva” de infinidade de “capuchinhos” bem intencionados que querem impor uma veste “republicana” na sofrida e perseguida “comunidade de Canudos” dos homens.

Mas Antônio Conselheiro é o documento vivo da realidade humana. O homem como animal de realidades, como homem comum, nunca se deixará enganar, nunca deixará de ouvir a voz do real e de sua realidade. Nunca deixará de ser uma constituição de inteligência senciente e por isso, até no seu silêncio ou na aparente passividade, gritará sempre pelo menos no seu interior como Fabiano, o homem de realidades descrito por Graciliano Ramos em Vidas Secas.Ele vive, também, seu dramafrente aos “outros brancos”, que são diferentes do “seu Tomás da bolandeira”, que apreendia, vivia e pensava a realidade da vida sertaneja. “Os outros brancos” eram os que, sempre com boas intenções de dominação, nem pisavam na fazenda e tudo faziam para mostrar que sabiam de tudo. Ouçamos as palavras de Graciliano na apreensão da realidade feita por Fabiano:

“Os outros eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, e Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e se prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida?” (VS 22-23).

Só os homens criadores ex nihilo, que parecem não ter dúvida de que eles são mais homens, impõem sua moral. Só eles tem argumentos notáveis e vontades admiráveis para sentirem-se donos de todas as situações. Só eles podem descompor e querem manipular qualquer realidade, a humana também. Os mandões da terra estão disfarçados de muitas maneiras, pois desligados da realidade, nunca vêm à fazenda do mundo real, nunca querem apreender a realidade da vida. Por isso insistem em mostrar autoridade, mesmo ficando ao ridículo com seus “regulamentos notáveis e admiráveis” e que tudo fazem para mostrá-los como fruto de suas “boas intenções”. Não vêem a relação aberta de Antônio Conselheiro para o povo, não querem ver a relação inteligente e laboriosa dos Fabianos da vida, que fazem o gado aumentar, que sempre desempenham suas funções, que trabalham até mais de oito horas por dia.

Certamente, os mandões de plantão poderão impor o silêncio bem comportado dos homens, mas nunca poderão mudar a constituição humana de ser animal de realidades na apropriação de si mesmo. Nunca poderão tirar do homem o poder de decisão diante das possibilidades, até para ficar submisso. Porque como homem de realidades e como realidade moral sempre vai jurar não mudar a realidade, e nem pode, onde ele está implantado como realidade substantiva e pessoal. Que fica dele se não estiver na realidade? Essa relação radical com a realidade é a verdadeira ordem do homem na sua constituição, como no decurso de sua vida.

            5.- CONCLUSÃO

Foi a nossa tarefa, neste estudo, mergulhar na consistência do apelo à realidade, que o homem faz no decorrer de sua vida. O ser humano sente sua força mesmo sendo fragmentada, dissimulada ou negada. Mas tal apelo não pode ser interpretado, sempre pelos que detém a logificação do saber, por um lado como fruto do senso comum, como campo para exacerbar o ressentimento dos “escravos”, como etapa preparatória para a resignação estoica ou pelo outro lado como reclame angustioso da amante usada pelo pensador de plantão para continuar servindo de laboratório para as suas teses científicas, filosóficas, literárias, sociológicas, políticas e educadoras. Entretanto sentir a realidade não é privilégio ou demérito de ninguém. Estamos constitutivamente imersos e sempre ancorados na realidade. Nós, como Mario Vargas Llosa e Euclides da Cunha, não podemos negar-nos a ver a realidade, porque ela é alteridade.

Através da abordagem filosófica enfrentamo-nos com a realidade à qual não podemos ficar surdos. Xavier Zubiri nos ajudou nessa preocupação humana e filosófica. Pois o homem pela sua constituição inteligente-senciente está no mundo, não para brincar com as coisas como objetos de seus conceitos admiráveis, mas está implantado na realidade pela apreensão do sentido como real. Fora desta situação o homem estará desenraizado. Flagramos em Antônio Conselheiro esse enfrentamento de animal de realidades fundamentado unicamente no mundo real das comunidades do sertão. Pois, independente das qualidades, sentidos ou conteúdos das coisas, ele as apreende como alteridades, porque se possui a si mesmo como realidade substantiva e aberta, independente da prepotência dos mandões de aldeia. Sua vida primordialmente, como de qualquer homem, é apreender a realidade das coisas e de si próprio, pelo qual fica implantado em cada momento e para sempre na mesma.

Procuramos, então, o que é anterior a qualquer meditação ética deste animal de realidades e nos deparamos com dois elementos fundantes: a relação pessoal no caminhar religioso do povo judaico e a constituição do real no afazer filosófico grego. Esclarecemos, como no tratamento posterior dado pelo cristianismo, deram-se uma troca dos signos desses elementos transformando-se em sujeito e ente respectivamente, o que possibilitou a meditação ética ficar presa nos códigos religiosos, políticos e sociais como constituintes da moral. Mas o homem é uma realidade moral, não pelas normas ditas morais, pois como realidade pessoal, não somente executa os atos, mas é o princípio de todas as ações. Por isso ele vai apropriar-se por decisão a melhor das possibilidades para seu bem. Realiza assim a “figura ideal” de si mesmo, como agente, autor e ator no decurso argumental de sua vida. Antônio Conselheiro também vive essa relação de realidade moral ao apropriar-se para si e para os outros as melhores possibilidades para a vida sertaneja. E isto, até o limite trágico a que foi levado pelas admiráveis resoluções moralistas das bem intencionadas autoridades.

Não é a nossa intenção, como diz Zubiri, propor uma nova ética, mas principiar nossa vida moral naquilo que é fundamento de toda meditação ética: a realidade humana como realidade moral. Certamente ficamos perplexos perante tanta entificação das coisas e do homem ao não conseguirmos deixar de ouvir a força da realidade. Entretanto podemos ficar presos, como Euclides, na leitura positivista ou noutra qualquer moda de pensadores tornando a trama argumental de nossas vidas mais dolorosa e até suicida. Como Mario Vargas Llosa fica preso, também, ao propor a separação da racionalidade política e dos “seus demônios literários”, como se a realidade fosse diferente para uns e para outros. E assim por diante para políticos de todas as ideologias, para os sociólogos de todas as escolas, para as religiões de qualquer crença, para os intelectuais de todos os tipos. É a vivência da dicotomia paradoxal de romper a unidade constitucional do homem pelo predomínio das nossas admiráveis intenções. Por isso colocamos sempre a barreira da intencionalidade naquilo que devia ser o momento de escolher as melhores possibilidades nas diferenças de nossas culturas, línguas, etnias, países, religiões, costumes para tornar real a única figura humana para todos, deixando de estranhar-nos uns aos outros.

Todos nós somos realidades implantadas num mundo real, cuja vida é a apropriação no meio da trama argumental da vida da única figura ideal do homem. É o gozo de realizar o absoluto do homem nas finitudes relativas de nossas vidas. É a fruição de viver cada momento como construção do ideal absoluto de nossa realidade humana. Não são as tragédias e os sofrimentos que nos tornam mais realistas e mais humanos, mas porque, como seres inteligentes-sencientes, podemos apreender a realidade das coisas e suas possibilidades como apropriantes. Por isso que não podemos deixar de ver a realidade. Como os sertanejos, o homem sente a realidade e não pode deixar de apreendê-la para seu bem. Do contrário, continuaremos alimentando umas responsabilidades, bem admiráveis, que nos tornassem militantes de “guerras e planos santos”, porque justificadas por boas intenções. A vida do homem é para ser vivida, realizada, fruída e não para continuar sendo uma dolorosa tocaia.

Estamos vivendo num momento em que o homem está exigindo seu respeito a níveis individuais, sociais e históricos. É a procura de algo mais radical. Mas, também, percebemos que essa exigência continua sendo intencional. O uso do cachimbo faz a boca torta. Parece que o homem, que desmascara as admiráveis intenções dos plantonistas do poder, não sabe lidar com a realidade. Sente-a mais perto, mas continua tratando-a como pequeno e novo Todo-Poderoso criador ex nihilo e entificando-a para seu interesse, para não perder o emprego ou o cargo político, para não contrariar o amigo ou o chefe, para não perder certas regalias ou as próximas eleições. Deixa-se levar pelos conceitos admiráveis, mas não pela realidade. Kant teve a grande ousadia que entrever e separar a moral da religião, mas entificou o homem tirando-lhe a alteridade pessoal para cobri-lo com a alteridade abstrata do universal. A predominância de seus conceitos a priori foram os responsáveis de tal subversão. A predominância dos deveres, dos costumes da sociedade, dos valores e das responsabilidades ainda mantém o homem desolado de sua realidade.

Abre-se um caminho muito difícil e longo: o de termos a coragem de separar a realidade moral humana não somente da religião, mas da política, da filosofia, da sociologia, da literatura, das ciências quando com seus argumentos admiráveis continuam a manipular o homem, porque são apenas intencionais. Ou então resgatar da religião e de todas as formas racionais aquilo que é anterior e fundamenta a vida de todo homem; do homem comum de carne e osso para podermos escolher, decidir e conceituar realmente o verdadeiro destino de nossas vidas. Os Antônios Conselheiro, os Fabianos da vida, são o documento vivo e a esperança da possibilidade da realização do homem como animal de realidades e como realidade moral. Dessa forma poderemos ver um dia não o que não somos, mas que somos todos de carne e osso.

Continuaremos surdos à realidade trilhando no caminho das boas intenções religiosas, políticas, sociais e intelectuais? O desafio é nosso. Se tal não fizermos, estaremos perpetrando e perpetuando o crime da moral vivida no arraial dos Canudos e do mundo de hoje, nos autodestruindo. Mas se escutarmos a realidade estaremos reimplantando-nos na mesma, cuja alteridade apreendida será a única garantia de nossas ações individuais, sociais e históricas. O homem por ser animal de realidades é uma realidade moral, que se apropria o melhor de suas possibilidades na realização de sua vida.

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____________. Sobre la esencia. (5a.ed. Sociedad de Estudios y Publicaciones).1a ed. Madri: Alianza Editorial/Sociedad de Estudios y Publicaciones, l985, 574 p.           SE

____________. Naturaleza  Historia y Dios. 10a. ed. Madri: Alianza, 1994, 567 p. NHD

____________. Sobre el Hombre. Madri: Alianza Editorial, l986, 709 p. SH

____________. Inteligencia y Realidad (Inteligencia sentiente). 3a.ed. Madri: Alianza Editorial, l984, 313 p. IRE

Nota necessária e desafiadora após esta leitura sobre o ser humano “conselheiro”.

Vinte tantos depois, desta reflexão sobre a realidade brasileira, sinto que não posso fiquei e não posso ficar parado. A releitura deste trabalho sempre me surpreendeu. E continha a me surpreender tanto na sua elaboração como nas apreciações subsequentes. E ainda me desafia, porque na sua leitura sinto resgatar, ou melhor, abrir e soltar a grandeza e força da realidade humana, de nosso tempo e de todos os tempos. Primeiro, porque foi um verdadeiro mergulho muito trabalhoso, todavia desafiador, na cultura brasileira e, mais ainda, ao enfrentar tal provocação de procurar fazer uma leitura do homem como animal de realidades, como descrito por Zubiri: ser vivo de inteligência senciente, de sentimento afetante e de vontade volente e que por isso se apropria das melhores possibilidades de sua realidade.  A elaboração foi uma dádiva e a leitura de Os Sertões de Euclides da Cunha um assombro.

O esforço incrível positivista de Euclides me intrigou, porque, mesmo com esse intuito positivista da época, ele mostra o oposto à realidade humana e brasileira. Euclides parece que se traicionou revelando-nos o melhor do positivismo como busca do real. Usou a forma positivista, mas nos mostrou a força da realidade humana do sertão no meio das agruras de sua vida. Quais seriam os valores do homem e do povo em nosso país? Como chegamos a esta situação de viver de cabeça para abaixo? Sentimos que estávamos diante do poder da realidade humana frente às invenções humanas e suas multiples puras racionalidades religiosas e políticas, científica e políticas.

 Na presença da figura de Antonio Conselheiro, vilipendiado e rebaixado de sua dignidade de ser humano, se revelava a gente, a pessoa, o ser humano caminhando superando as pedras no caminho. Uma coisa é relatar positivamente os fatos, até entendidos com a filosofia da hora e outra é sentir o poder e os valores do homem na terra que ocupa. Aprofundamos nossa leitura com Vidas Secas de Graciliano Ramos e Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. E o grito de Geografia da fome de Josué de Castro. E outros.

Porém, sempre ficamos estupefatos e felizes de tal trabalho. E, mais ainda, por escutarmos recentemente a voz de Ariano Suassuna, como cavaleiro do sertão, portanto do homem da seca, do “nordestino”. E ele consegue levar essa inspiração para a cultura da vida de cada dia, através da poesia, da literatura e dos cordéis contando a histórias da superação do homem que vive na seca. E é dela que poderá viver e prosperar e se realizar. Em contato com o gigante da cultura humana e nordestina Ariano Suassuna escutamos ao seu companheiro Dr. Manelito, “seu quatro mãos com Suassuna”: “nunca escutei, que haja projetos de acabar com a neve nos países do norte. Então, por que fazer projetos para acabar com a seca aqui para viver com todas as necessidades humanas na nossa terra com níveis sazonais e pobres de água?”. Esses homens profundamente humanos imersos na dura realdiade, nos revelaram e fizeram possível essa realidade autônoma de sobrevivência. Deram o exemplo de superação de tais dificuldades ao se debruçar sobre sua terra e as possíveis forças e mudanças no sertão, sabendo da falta de chuvas, descobriram a potencialidade de proteínas de vários capins nascidos no sertão, através do rebanho caprino, ovino e bovino. Poe isso, hoje temos leite de cabra e queixos caprinos em nosso país.

Só posso me lembrar de um pensamento resumido esclarecedor, desafiador e aberto para elaborar o ser humano, de X. Zubiri em Estructura dinámica de la realidad, quando descreve “La colocación del ser viviente entre las demás realidades” (p. 167-170). Sim, o homem está “colocado” e “instalado” como vivente, não como um corpo físico. Então, está “colocado de forma diferente”. Sim, todo ser vivente tem um em torno, um meio que o circunda. Mas não é como um eléctron, “que tem um campo eletromagnético que o circunda”. E este em torno no vivente tem uma categoria de situação, do “situs”. Então, a “situação” supõe o “locus”. Mas, atenção nos fala o filósofo, “não são duas categorias independentes”. Porque elas são “o meio do ser vivente”, não como o meio do campo eletromagnético para o eléctron. Sim, é o meio como de uma simples ameba, porém no vivente humano não é puro em torno. Sendo, assim, o ser vivo “está no meio como um centro seu”, por isso vai executar suas ações, e “tem uma estrutura espaço-temporal”.

Desta forma, o ser vivo tem uma direção como “orientação” constitutivamente, ao contrário dos corpos no espaço que tem apenas direção, como descreve a Geometria. “O Espaço não somente é um espaço de orientação, senão também de livre mobilidade: o espaço vital”. “A isso se agrega um caráter do Tempo, em virtude do qual todo ser vivo tem um caráter de certa idade, e ademais executa suas funções com certo caráter mais ou menos periódico”.

Então, se isso vale para o ser vivente, se “tomamos muitos viventes juntos, o meio tem um caráter distinto: é um caráter ecológico”. É sua casa, seu oikós. E aqui é melhor ouvir ao pé da letra o que nos diz Zubiri:

“Agora bem, o oikós, como estrutura ecológica dos seres vivos, é essencial na Biosfera, e especialmente na evolução. É o que permite a associação de viventes entre sí, e por isso, o isolamento de uns grupos de viventes, respeito dos outros. Dessa forma, vemos o papel decisivo que, na evolução dos seres vivos, desempenha o isolamento, ademais a índole da região em que estão isolados.

Todavia, não somente é apenas um meio ecológico, senão que, ademais, se consideramos a totalidade dos viventes, nos encontramos com um fenômeno curioso… é a rapidez vertiginosa os seres vivos se tem estendido na terra –sobre tudo na Terra- e tem constituído  Biosfera. Não somente o meio tem caráter ecológico, senão também tem um caráter de Biosfera. A vida, ademais de geração e de evolução, tem um caráter misterioso, porém inegável, fator que é a dispersão. A vida se difunde e se dispersa por todo o Planeta. É, aqui mais ou menos, algumas das coisas que devemos falar em relação à colocação de um ser vivo no Universo”.

Se lermos com atenção o que nos falou Zubiri, de como o ser vivo se localiza e situa no meio, como mobilidade de direção e orientação criando um espaço vital, se confirmam as possibilidades da região nordestina vivenciadas por Ariano e Manelito em Pernambuco. Porque certamente estão isolados como biosfera especial e ecologia própria dos nordestinos, e isso “ainda da índole da região em que estão isolados”, de outros viventes e viventes humanos, tendo seu espaço vital próprio, como a região do sul tem o seu espaço vital ou os seres vivos do polo norte. Nem na mobilidade humana e nem na pluralíssima dispersão, se perde a realidade do homem. Onde a humanidade se fixou percebeu a realidade de sua sobrevivência individual e futura. Por isso, o que estamos refletindo sobre essa “riqueza inóspita” do nordeste, podemos aplicar a qualquer região da terra como “na evolução dos seres vivos, desempenha o isolamento, ademais a índole da região em que estão isolados”. Regiões como a nordestina, do pantanal, ou das regiões rurais e dos bairros periféricos de todo o mundo.

Diante disso, não podemos de refletir, nem científica e nem politicamente, querer convencer o povo russo no final do século XIX e durante boa parte do século XX, que a savana de neve quase perpétua, pudesse produzir milho adaptado para alimentar o povo russo, para matar a fome do povo, como T. Lisenko pregou ideologicamente (influenciado por Stalin) frente ao seu mestre o geneticista N. Vavílov. Não é atual esta contradição desses desvarios das racionalidades humanas? Não é isso que fizeram e provaram Antonio Conselheiro, Ariano e Manelito em Pernambuco? Sim cada região poderá sustentar seus dispersos povoadores, como espaço vital de seres vivos e dos seres vivos humanos. Temos riquezas insuspeitadas de viver bem e sobreviver. Voltemos ao diálogo que nos ocupa.

 Por isso, o homem sabe e consegue tirar seu sustento e seu progresso das possibilidades concretas que a realidade inóspita em que, contudo isso faz, porque ele é uma riqueza de possibilidades para sua realização de gente. O trabalho sobre Antonio Conselheiro, documento vivo da realidade humana quer dizer isso. Todos, estamos e necessitamos de um em torno feito meio, como “centro seu”, mas é para poder melhor dar conta de seu próprio valor e dignidade.  Abre-se aqui, um trabalho intelectual filosófico e científico para que cada “região” do Brasil, e do Mundo, através da associação, do isolamento regional, da evolução, da orientação, da livre mobilidade para que o próprio ser vivo e o homem executem suas ações e funções. Assim sentiremos que vivemos em nossa Casa Terra que nos oferece a Biosfera para viver e realizar-nos plenamente. Canudos, e todos os arraiais da terra, estão habitados por seres humanos, por pessoas, por gente, “por nordestinos”.

Dessa forma, na aproximação e cativamento com Ariano e Manelito nos abrimos a um desafio maior. E Ariano nos relembra como aprofundar, não somente o que aconteceu no Arraial do Canudos, mas, também, nos Arraiais da Guerra do Contestado (com o Beato Zé Maria) entre Rio Grand de Sul e Santa Catarina, e como símbolo de todos Ariano “criou” o Arraial da Pedra do Reino em Pernambuco. Sim, devemos e podemos aprofundar os “arraiais da vida”. Ariano construiu um “santuário ao ar livre do Sagrado e do profano”, contudo poderá ser questionado e corregido por Zubiri ao perguntar ao próprio Rudolf Otto: o homem é mais que sagrado e profano, é pessoa na terra como um santuário global ao homem real disperso. Como podemos aceitar falar da dicotomia brasileira de corpo e mente, quer dizer “de um Brasil oficial e do povo”, ditada e mantida por qualquer poder? A nossa terra nos seus lugares, situações, regiões tem o meio natural, sem dúvida humano, é a Casa humana para sobreviver, se expandir e dar conta de sua plenitude, cuja base é o homem de realidades que Zubiri descobre e separa do homem dos conceitos, cuja história está degradando e explorando o ser humano e suas terras. Com Suassuna voltamos aos “mitos originários”, que perceberam o mais profundo deles e com Zubiri tentamos sais da tirania das racionalidades muitas vezes soltas do sertão e do real. Este é o nosso problema, nossa discussão e nossa tarefa humana, e por tanto, filosóficas, como o são de todo pensamento da gente e de toda ciência.

4.- O HOMEM COMO REALIDADE MORAL

            4.1.- Não podemos abrir mão do homem.

Pelo teor de nossa investigação a problemática da moral de A. Conselheiro, junto com os moradores do arraial e da moral do poder religioso e republicano ficam comprometidos ou adquirem novas dimensões. Se o homem é, antes de animal racional, animal de realidades, e não ao inverso, como fica o campo do debate ético da comunidade e participantes da guerra dos Canudos? Continuamos com a mosca detrás da orelha: por que a moral deve sempre ser avaliada por normas quase sempre produzidas por um poder de dominação seja religioso ou político? Será que o certo são as normas, que vem de fora, e o errado é o homem que sempre deve ser teleguiado? Será que a moral ao longo de sua vivência e discussão perdeu seu centro de gravitação no próprio homem para “dar aos conceitos a função primária e radical”? Como então explicar a constante interrogação do homem pela realidade ao sofrer no seu estômago, na sua dignidade e na sua liberdade? Como entender o fato de que, no meio desse turbilhão moralístico, o homem exige o seu respeito, não mais se deixando enganar pelos políticos, pelos falsos religiosos, pela voracidade das informações e do consumismo? Por que no centro da discussão ética parte-se do homem e os comportamentos morais tornam-se exploradores? Nesta queda de braço, sempre favorável ao poder de qualquer tipo de dominação, não está havendo alguns sinais indiscutíveis de que o homem vai fazendo valer a força de sua realidade humana?

Onde se justifica a moral? Na realidade do ser humano (de qualquer ser humano) ou nas intenções dos que tem a dominação de plantão de ditar as normas? Fazemos nossa a colocação de Antonio Paim de que:

“não se pode imaginar a vida social sem a presença de regras de conduta a que se devam cingir seus protagonistas. Contudo, o processo segundo o qual essa esfera da cultura ganha autonomia e vem a ser considerada sem referenciais religiosos, ou de outra índole, é de muito difícil reconstituição” (ME 11).

Para tanto nós escolhemos um tratamento filosófico diante da situação trágica do arraial dos Canudos no fim do século passado, pois hoje tal situação é a mesma para milhões de homens em muitos arraiais da vida em todo o planeta. Isso nos levou ao verdadeiro problema de fazer filosofia sempre a partir do mais radical. E aceitamos o desafio de tentar reconstituir esse processo da esfera da moral desde sua última raiz. Pois seguindo a linha marcada por A. Paim “antes de atingir esses estágios avançados de sistematização, deve ter-se efetivado o esforço inimaginável na linha de fixação de normas que contribuíssem para a coesão e a sobrevivência dos agrupamentos humanos” (ib. 11). É essa inspiração que nos alenta porque, em primeiro lugar, como ser humano, não podemos abrir mão da necessidade de que essa coesão só pode ser realizada a partir de uma relação última, sempre harmônica e que deve adquirir uma dimensão também lógica e política. E em segundo lugar, também nós queremos não apenas sobreviver em agrupamentos, mas que eles sejam humanos para todos. Podemos entender e aceitar que haja homens que apenas sobrevivem e sejam agrupados por castas sociais enquanto outros, sempre os dominadores, querem a vida somente para eles? Quem será o juiz que poderá justificar tal sentença?

Nietzsche indignou-se contra tais desvarios da mente idealista, mas não conseguiu entender a radicalidade da realidade humana à que tanto apelou. Deixou-se levar pela corrente racionalista, quase sempre dominadora, de querer ser o novo criador do super-homem, substituindo o sub-homem produto da modernidade. Mas, por que insistir em criar um novo homem se ele já é real?  Será que nos devemos negar a tentar reconstruir ou flagrar o homem no seu momento de estabelecer normas para sua vida em percurso? Por que parece que temos medo de sermos aquilo que já somos? Quem pode negar que somos realmente? Por isso não abrimos mão de que a investigação filosófica é desnudar a verdade real do homem no arraial do mundo. Queremos repetir as fórmulas que mantém o sofrimento humano ou queremos mesmo é lançar-nos na força da investigação filosófica inaugurada pelos gregos?

Na investigação filosófica perguntamos sempre à realidade sem medo do que ela seja. É necessário saber distinguir as forças ocultadoras da mesma. “O homem comum, diz Germán Marquínez Argote sobre pensador colombiano Fernando González, acredita nos santos vestidos. O filósofo pelo contrário, é o que tem perdido a fé nos mesmos” (DII 142-143). Fernando González se desiludiu dos santos ao levantar o vestido ao intrépido Paulo de Tarso na sacristia da Igreja e “vimos que o seu corpo era um pedaço de madeira ordinária”. Será que de debaixo das “saias” sociais, políticas, religiosas e científicas do homem encontraremos a realidade humana ou a mesma é “algo ordinário” que podemos usar ou zombar? E se existe realmente, por que não descobri-lo a partir de sua constituição? Hoje parece ao contrário: o homem comum acredita no homem real e não nas suas vestes, enquanto o “intelectual” acredita nas vestes e tem medo de acreditar no homem de carne e osso.

O que há debaixo de todos os códigos e normas morais? De outra forma, por que podemos falar da moralidade humana, se o homem não é constitutivamente moral? Se não é santo por que vesti-lo de santo e depois malhá-lo e manipulá-lo? Se for homem vamos revesti-lo daquilo que realmente é: homem. Então como relacionar o homem com a moral? Ele é apenas um “sujeito” que pode ser coberto pelas mais diversas roupas normativas produzidas na cabeça dos maiores costureiros das modas morais de cada época histórica?

O homem é uma realidade pessoal. Sua tensão vital humana é de enfrentar-se com as coisas e apropriar-se-ão através de atos e comportamentos. Sem dúvida esta é a base onde se movem a moral judaica e grega aproximadas pelo cristianismo. Assim a explicita A. Paim:

“A pregação de Cristo repousa na ideia de pessoa, a que não chegara à civilização greco-romana. Nesta, embora estejam presentes vários ingredientes do conceito de pessoa humana, o característico do homem era a condição de cidadão, isto é, de pertencer à cidade, o que encaminhava a meditação no sentido de averiguar distinções entre os homens ao invés daquilo que os aproximava. Assim, somente com o cristianismo seria dado o passo essencial no sentido de vincular a moralidade a um ideal de pessoa humana, ou da pessoa ideal, isto é, o homem virtuoso” (ME 14).

Já esclarecemos as distorções mútuas realizadas da pessoa no sentido cristão pelo conceito de substância como sujeito e da realidade grega pela criação ex nihilo. Todavia, a formulação dos modelos éticos vigentes em diferentes épocas surgiram desta base comum através dos Dez Mandamentos em Israel e depois pela Igreja, na discussão do livre arbítrio na Idade Média e da ética social até a obra de Kant. Mas, o que todo esse esforço humano religioso, político ou social tenta explicitar? Na nossa investigação estamos procurando o que A. Paim afirma ao tratar dos pré-requisitos da moral dos que partiu Max Weber, mas procurando maior radicalidade: “A moral é anterior à meditação que chega a ensejar” (ib. 33). Por que é anterior e em que é anterior? De onde arrancam os decálogos e as convenções, hoje em dia os protocolos? Por que as ações humanas são morais? Por que elas tem uma força que sustenta a conduta humana? Por que o homem aceita ou rejeita as normas? O que está tentando justificar? O que buscamos, não são os “pré-requisitos weberianos” da moral da autoridade e da obediência, mas o que é anterior como fundamento. Como surgem as ações humanas e como elas vão se realizando? Não é nosso propósito fazer um estudo exaustivo de todos os desdobramentos, como o faz Xavier Zubiri; somente indicaremos alguns momentos para poder destacar como a realidade humana é moral.

            4.2.- Comportar-se ou apropriar-se: a pessoa humana.

Certamente não nos movemos na ideia ou ideal da pessoa humana no sentido kantiano, esclarece Zubiri, como “se o homem estivesse polarizado para um ideal” (SH 393). A nossa investigação tenta sempre a realidade. Não é que não devamos ter ideias do homem, mas estas devem atualizar a realidade humana. A. Paim destaca muito bem que a moral atual move-se dentro dos arquétipos kantianos (ME 23-48). O homem não é um arquétipo inspirador, mas é um animal de realidades. Por isso, e somente por isso, poderá se comportar como pessoa. O homem na tradição judaica é um “ímpeto vital” que na dinâmica histórica estabelece uma relação de enfrentamento consigo, com o povo e com Deus de forma responsável, por isso o decálogo. Da mesma forma a palavra bíblica não é algo que se diz, mas que se dá, acontece: é uma doação, uma realização. O que coincide com o dinamismo que o grego entreviu no cosmos como estrutura do real. Portanto, o homem é o enfrentamento com a realidade. Ele é pessoa, porque apreende sua própria realidade como real e daí todo esforço para apropriar-se-á em seus atos. O homem não teria ações próprias se não tivesse uma estrutura própria de enfrentar-se com as mesmas.

O homem como senciente não responde por meros estímulos, mas porque toma conta da situação como realidade pela sua inteligência, pelo seu sentimento e por sua vontade. É o campo das ações humanas, “entretanto não são três ações, mas três momentos especificantes de uma só ação única e indivisa: comportar-se com a realidade” (SH 17). Por isso a vida humana é “um processo de autopossesão de sua própria realidade” (ib. 18). É o gozo de sua realidade. Toda ação humana será humana se realiza essa posse de si mesma dando resposta a essa situação da qual toma conta. A forma desta resposta é o seu comportamento, que poderá ser problemático.

Entretanto, o homem tem um modo próprio de enfrentar-se (habérselas) com as coisas, que “jamais pode ser problema: se tem ou não se tem” (ib. 19). E se tem é real. Tal enfrentamento deve estar sempre nas ações que fazem o comportamento vital, intelectual e moral do homem. Caso contrário, tiraríamos o homem da realidade. Por esse enfrentamento real com as coisas, o homem abre-se às múltiplas possibilidades do real para fazer-se cargo delas, não como representação, mas como apresentação. Desta forma estamos numa posição do ideal da pessoa humana, pois “o animal humano (animal de realidades) está instalado não só ‘entre’ realidades, mas ‘na’ realidade, no transcendental” (ib. 40).

Dessa forma o homem está aberto a outras realidades e a si próprio por determinação própria. Estamos no centro da questão da pessoa humana. O homem pode executar os mais variados atos intelectivos ou volitivos, mas só será pessoa se tais atos forem próprios. Mas como sou eu mesmo? Como um sujeito que possui uma natureza, que através de estruturas psicobiológicas, executa fisicamente seus atos? Se aceitássemos tal definição de pessoa as suas ações reais e possíveis de lembrança, amor, desejos… “nenhuma delas formaria parte constitutiva do sujeito”. Pois, por um lado seria sujeito e por outro executor de ações através de condições ou instrumentos de sua inteligência, de sua vontade e liberdade. Vejamos o paradoxal dilema planteado por Zubiri diante desta análise:

“Então nos perguntamos, o que é este sujeito? Seria um sujeito, goro, vazio: absolutamente inoperante em e por si mesmo. O que é esse eu que não é nem a sua intelecção, nem seu apetite, nem seus desejos, etc., mas que somente tem tudo isso? Não seria nada de aquilo que constitui sua natureza, não seria, portanto, princípio de operação. Como vamos dizer então que  sou eu quem executa aquelas ações? Em definitiva o eu pessoal seria um sujeito evanescente, ter-se-ia convertido em pura vacuidade, porém todos sentimos que é o mais querido de nós mesmos, contudo, queremos ser verdadeiros autores de nossas ações. Mantida com todo rigor a noção de pessoa como sujeito diferente realmente de sua natureza, tanquam res et res, fica volatilizado o eu pessoal. Isto não pode ser. É o eu pessoal quem executa seus atos” (ib. 108).

Zubiri na sua análise debate-se com a dualidade que todos sentimos: como somos pessoas e como nos realizamos como pessoas, se somos tratados apenas como sujeitos de trabalhos de todos os tipos? Querem que sejamos responsáveis de algo, mas nada disso nos pertence e tudo é imposto. Não podemos aceitar que sejamos pura contradição fragmentada do eu, de sua natureza e de seus atos. Como podemos ser executores de tais atos, se também não somos princípio de nossas operações? Isto é impossível de aceitar, pois se o homem apenas possuísse estruturas para a ação, e elas não fossem constitutivas, como justificar seus atos? “Porque, diz Zubiri, se estas estruturas não fossem momentos formalmente constitutivos do eu, podemos perguntar-nos, com que e de que vai tirar o eu seus projetos e executar suas ações”? (ib. 109). A relação sujeito e atos terá sentido porque ela pertence a uma “unidade superior”, que é a realidade pessoal.

O homem, antes de nada, é uma realidade “em propriedade de si mesma”, é uma realidade substantiva. Mas, não só como dona do seu nariz, segundo o sentido de nossa expressão popular, para decidir o que tenha vontade com respeito dos seus direitos, da sua liberdade e da sua moral.

“Se trata, afirma Zubiri, de uma propriedade em sentido constitutivo. Eu sou minha propriedade, seja ou não dono dela. Porque, precisamente por sê-lo, e na medida em que o sou, tenho a capacidade de decidir. A recíproca, porém, não é verdadeira” (ib. 111).

Desta forma sou uma pessoa, não porque possa me conhecer, mas porque me pertenço plenamente e de modo subsistente. Assim essa propriedade pessoal, que sou, abre-se e atualiza-se nos meus atos como o eu que é agente, autor e ator de minha vida (ib. 123-127). Só essa realidade pessoal poderá ser “a figura” de todos os mesmos atos e o “ideal” a ser realizado em todas as minhas ações e condutas frente a qualquer realidade. “A pessoa, conclui o autor, é um relativo absoluto“. O homem se por um lado é um ser finito, por ser pessoal é absoluto frente a todas as realidades.

A pessoa é a propriedade de si mesmo como único ponto de partida para qualquer ato do ser humano. Nas vivências da vida o homem vai fazendo, desfazendo ou refazendo não uma personalidade de tipo psicológico, social, intelectual… porém, vai configurando ao longo de sua vida sua realidade absoluta. Não como algo adventício, nem intencional, mas como realidade senciente que é “sua vida transcorre no tempo e sucessivamente”. Conclui Zubiri: “pelo fato de ser senciente a pessoa humana, que é constitutivamente pessoa, deve despregar-se forçosamente numa série de atos e tomar uma figura constitutiva de personalidade” (ib. 114). Assim, a pessoa a cada momento vai reafirmando aquilo que já era: realidade pessoal.

            4.3.-O homem como realidade moral

No decorrer desta análise podemos já entender que o “ideal de pessoa” proposto por Zubiri está diametralmente oposto aos embasamentos de substância e de sujeito que direcionaram a moral humana. Kant teve o grande mérito de desvincular a moral da religião, mas acabou ficando no meio do caminho: amarrou-a ao imperativo categórico do dever provindo das ideias a priori, de um arquétipo como que criado ex nihilo. O mesmo aconteceu noutros momentos da história quando a moral foi amarrada ao saber, à vida eterna, ao puro indivíduo, às inclinações morais, aos fins, aos valores ou até à fórmula weberiana da ética da responsabilidade. Zubiri entende que a moral é uma dimensão mais radical. Por isso ao fazer referência a alguns desses desenvolvimentos repete dentro de sua análise filosófica: “mas isto não é suficiente” ou “isto que é verdade dentro de seus limites, não é verdade suficiente” (SH 356 e 357). É mais, enfatiza Zubiri: “uma moral que tropeçara com uma conexão absolutamente externa seria uma moral que se jugulou” (ib. 427). Dessa forma o homem continuará a ser proibido de viver e realizar sua vida em favor, sempre, de alguns defensores de tais colocações insuficientes.

Então o que é a moral antes de qualquer meditação? O que é que está detrás dos decálogos religiosos ou cívicos? Qual é autonomia da moral? O que está sustentando a percepção humana de que é necessária a moral? O que está como fundamento de todas as formas de moral tentadas até agora? É claro que a moral só é encontrada nos homens. Mas ela só poderá ser justificada a partir do “homem racional”, que sempre se inclina para os “afortunados” em detrimento do homem comum? Ainda é muito cedo para aceitar a proposta zubiriana como definitiva. Tal atitude negaria as preocupações filosóficas do autor, pois como concluir que estamos na última radicalidade do pensar?. Mas é indiscutível o seu esforço humano e filosófico para poder deter o sofrimento do homem em prol de tantas “morais”, colocando o problema a partir de um tratamento mais radical da realidade e da inteligência. Pelo menos dentro dessas análises a vida humana parece adquirir novo alento, nova luz e novo encaminhamento.

O homem por ser “animal de realidades” é o único “animal pessoal” que deve apropriar-se, que deve realizar-se na sua biografia, na sociedade e na história. Pois ele é a única realidade aberta pela sua inteligência senciente a tudo quanto há de realidade: é o mundo, na linguagem zubiriana Nas realidades apreendidas só homem é capaz de preferir e de decidir quais as possibilidades apresentadas para sua realização. Deverá escolher umas possibilidades a outras, umas formas das mesmas a outras, mas sempre projetando a única coisa que ele é: uma pessoa que constitutivamente consiste em apropriação. O campo das possibilidades é irreal, mas o tornamos real ao escolher o projeto “em vista do qual o homem vai preferir o que se apresenta como possibilidade entre várias, para ser de uma maneira diferente ou igual ao que era antes” (ib. 141). O homem é sensitivo e decorrente por isso deve apropriar-se por eleição as possibilidades. “A apropriação, diz Zubiri, é constitutivamente a forma mais radical e elementar da moral” (ib. 144). E continua o autor, só podemos dizer que o homem:

“está desmoralizado porque não se apropria as possibilidades que poderia se apropriar, que deveria se apropriar ou que quisesse apropriar-se. Quando está nesta condição, encontra-se como aplastado e retrotraído a sua pura condição natural. A moral é o caráter das propriedades apropriadas pelo homem” (ib. 144).

O homem resolve seu projeto por decisão. O homem, por ser realidade substantiva “tem necessariamente propriedades por apropriação, justamente o que entendo por realidade moral ,diz Zubiri. O moral no sentido usual de bens, valores e deveres, só é possível numa realidade que é constitutivamente moral no sentido exposto” (ib. 345). Não é o intuito de este trabalho fazer uma exposição completa deste tema, mas somente indagá-lo para poder alicerçar o redimensionamento filosófico entrevisto no campo ético que estamos estudando no arraial dos Canudos. Entretanto destacaremos alguns pontos que iluminem um pouco mais nosso questionamento sem necessariamente seguir toda a elaboração do autor.

O homem, então, deve resolver sua vida por decisão para poder apropriar-se-á . “Esses atos decididos, pergunta-se Zubiri, estão justificados ou não. Os atos humanos tem ou necessitam justificação”? (ib. 345). Estamos no âmago da questão da moral. Neste texto sobre El Hombre, Realidad Moral, encontramos o Zubiri mais provocativo no meio de suas aristotélicas análises. Como é então a justificação dos atos humanos? O autor assim expõe a espinha dorsal de sua argumentação:

“A pergunta é inevitável. O problema da justificação pode tratar-se apelando  a esses termos intencionais do bem que o homem intenta, como se de um lado estivessem a intenção, os valores, os deveres, as normas sociais, e do outro uma espécie de canhão que vai dirigindo os tiros a um ou a outro  frente, a esses alvos que se põem a diante? Poderemos por, de uma maneira arbitrária e artificiosa, de um lado as tendências ou os mecanismos que o homem coloca em jogo, e do outro o dever, a intenção, a bondade abstrata ou puramente intentada de seus mecanismos. Isto é quimérico. A bondade ou a maldade, quer dizer, o caráter justificando por razão de uma bondade, compete a realidade qua realidade da própria pessoa humana” (ib. 360)à

O homem como realidade pessoal deve apropriar-se de algumas possibilidades para sua realização, mas sempre o faz por decisão. Pois ele como animal de realidades, ao enfrentar-se com as coisas, considera as mesmas antes de executar seus atos. Mesmo até nos momentos de precipitação o homem mede o que vai fazer. Não é isso que acontece ao animal, que  necessariamente está sempre ajustado para viver sua vida. Entretanto os atos humanos surgem de um processo de ajustamento que depende da possibilidade escolhida. No mecanismo da própria ação humana está a justificação, e não que esta seja elemento externo à mesma. Dessa forma o homem constrói sua vida, porque ao escolher uma possibilidade vai transformá-la em realidade. Pela sua inteligência articula-se entre o real e o irreal em forma de possibilidade. Então tal possibilidade será preferida porque ela é desejável por ele. Mas desejável por quê ? Este é o nó que Zubiri quer desatar.

Essa preferência não pode ser explicada pelo conteúdo das possibilidades, que nos arrastam e nos obrigam a preferir. Pois a justificação não é uma simples explicação de uma ação concreta. Ela deve “dar razão da razão” da preferência das coisas desejáveis. Onde posso inscrever tal preferência desejável? Na sociedade e seus sistemas vigentes em cada época, no dever categórico ou nos valores? Zubiri não concorda. Esses quadros de pressões sociais, do imperativo e dos valores revelam a “verdade dentro de seus limites, (o que) não é verdade suficiente” (ib. 357). Formam parte da meditação da moral, mas não é o que justifica os atos morais. As preferências sociais marcam uma sociedade. Mas isso não é o “decisivo” para justificá-las, pois o homem pode revelar-se contra elas e ainda preferir umas às outras. O conflito do arraial dos Canudos prova tal argumentação. Embora Euclides pense todo o contrário, dando uma interpretação positivista. Como positivistas são todas as explicações que damos à moral, até à religiosa, quando não mergulhamos na realização da real “figura” humana. Os usos e costumes não são morais porque são sociais, nem por serem uma maneira de agir.

“Seriam, diz Zubiri, maneiras, modos, hábitos no sentido de automatismos. De forma nenhuma seriam costumes. São costumes quando o homem apropriasse-lhes, e por essa apropriação, entra dentro do sistema  de usos e costumes… Um uso e um costume não são simplesmente uma maneira de agir, mas um sistema de possibilidades. Embora estas possam ser de origem social, incumbem a cada um dos homens por razão de apropriação” (ib. 377).

Ainda fica mais clara a argumentação do autor ao concluir da insuficiência dos dois tipos de moral propostos por Bérgson: a moral de pressão e a moral por aspiração. Tomados separadamente, nem morais são. São apenas duas dimensões. Porque continua Zubiri:

“O que chama Bérgson de aspiração é esse coeficiente inexorável de transcendência que tem o real de um copo de água a respeito das possibilidades do mesmo, e o que tem de pressão é o conteúdo desse copo, ou das coisas que os demais homens me impõem. Somente entanto que tem o coeficiente de realidade é possibilidade, e é apropriável somente entanto que apropria seu conteúdo específico. Não são duas fontes de moral, nem dois morais; são os dois ingredientes que constituem a moral enquanto tal ” (ib. 378).

Então serão as possibilidades desejáveis pela força do dever? O dever ser poderá ser o julgamento definitivo, mas de onde recebe tal força? Da maneira como ele realiza as ações, ou pelo que o homem faz nelas? Parece que Kant separa a realidade do dever como normas que vêm de fora, como então se faz a ligação? Só através de um julgamento prescindindo da inteligência que se enfrenta com as coisas como realidades? De onde o juízo tira seus julgamentos? Como julgar um ato se ele não está incluído no mundo real? E ainda na minha vida há situações em que não tenho dever de fazer uma coisa, mas fazê-la ou não adquire dimensões morais. Zubiri reconhece: “Não há moralidade sem um mínimo de dever, mas o dever não esgota a moralidade” (ib. 357). Então, atreve-se a perguntar a Kant: “as coisas são boas porque se devem fazer, ou se devem fazer porque são boas? Não depende o dever de algo que o faça viável?” (ib. 357). O que faz viável o dever é porque “está inscrito na forma de realidade que é a realidade humana, aberta constitutivamente a toda forma de realidade” (ib. 410). Pois a única possibilidade de todas as possibilidades é a realização humana, sua perfeição e sua felicidade. O homem não poderá abrir mão para ninguém de sua apropriação: é a única dimensão do percurso de sua vida. Negar tal dimensão é tirá-lo de sua realidade pessoal que é. Assim o dever não é uma norma externa (imperativo categórico), mas, porque está ligado inexoravelmente a sua realidade, é obrigado a escolher a melhor possibilidade para realizar-se. Porque o dever é o “caráter devitório” da realidade humana.

Da mesma forma os valores de Max Scheler ficam dentro da linha intencional do caminho percorrido pela meditação ética. Diz ele que os deveres são fundamentados nos valores que são apreendidos já hierarquizados. Mas de onde provém tal hierarquização? Existem valores puros? Não é apenas a superioridade de um valor que vai ser a fonte de nossos deveres. Os valores seriam objetivos? Mas respeito de que? Do sujeito ou da realidade? Afirma Zubiri: “se os valores são valiosos é porque as coisas são válidas para uma realidade, que é a realidade humana” (ib. 358). O homem, como animal de realidades, continua sendo o único centro de que as realidades sejam fontes de valores, não pelas realidades, mas porque o homem ao tomar conta delas as considera boas para sua realização. “Pois, o bem, contrapõe o nosso filósofo, não é a coisa como suporte de valores, mas ao contrário: como raiz dos valores, como sua fonte” (ib. id.)

A felicidade, a bondade, o bem aparecem como o fiel da balança para justificação dos atos humanos, o qual contradiz a tese kantiana, que exclui a felicidade da moral. “Não cabe, afirma Zubiri, disjunção entre ser feliz e ser moral” (ib. 394) Pois o homem está anteposto a si mesmo como possibilidade de resolver-se numa apropriação, não como presente de sua natureza. Assim, para o nosso filósofo, o homem e as coisas são reais e efetivamente bons porque formam parte integrante de sua “figura humana desejável”. Porque, continua o mesmo:

“Quando falamos que o homem, em virtude de suas tendências, se abre a um sistema de coordenadas dentro do qual vai inscrever as coisas como preferíveis umas respeito das outras, é necessário dizer que o âmbito que se abre lhe ao homem é o âmbito da bondade, da realidade boa. No entanto, enquanto o homem depõe sua fruição na realidade boa, nessa medida se inscrevem todas as possíveis ações, e sua própria realidade, em forma de algo desejável, em forma de algo preferível” (ib. 358-359).

A tentativa da justificação dos atos humanos nos levou ao centro de nossa questão: a moral não pode ser uma razão intencional, imposta. Mas a moral é o óbvio: a realização da própria realidade humana. As ações serão morais pela forma que são inscritas no decurso da vida humana. Sua normatização será válida se sempre se reportar para garantir a escolha da melhor possibilidade para ação vital e todas as suas sequências vitais. Essa ação vital o levará a descrever e a determinar a “figura real e efetiva”, o “ideal real” de si mesmo. Pois o homem não pode deixar de antepor-se como ideal do que ele é.

“O homem, conclui o autor, não é uma conjunção de duas coisas: uma realidade e um ideal, mas ao contrário: é uma realidade que não pode ser real a não ser sendo precisamente ideal. Não é uma oposição entre o real e o ideal, mas entre o real puramente real e o ‘realmente ideal’. O homem é animal de ideais por e para ser animal de realidades” (ib. 393).

O que está em questão na moral não são primariamente seus códigos, suas normas mas o que é anterior e tentam explicitar. Por isso conclui Zubiri:

Mós não significa pura e simplesmente um hábito, uma maneira de conduzir-se. Também não significa puramente adequação a uma tábua de valores. Significa a realidade física de um conduzir-se qua realidade humana e pessoal. A realidade humana é uma realidade moral” (ib. 361).

            4.4.- Antônio Conselheiro frente a moral intencional.

Vamos tentar, no nosso ensaio, iluminar com estas propostas da realidade moral o conflito das ações de Antônio Conselheiro, dos clérigos e dos republicanos. Devemos nos armar de coragem para “tirar as vestes de uns e de outros”, e ficar cara a cara frente a verdadeira realidade que move “seus supostos ideais”. Vimos na capítulo anterior que o nosso personagem, representante dos sertanejos, está numa relação real com as suas realidades sem negá-las, sem enfeitá-las nas poucas aparentes possibilidades despertadas. Mas ele, ao apreendê-las, faz desencadear suas energias vitais, intelectuais e morais. Antônio Conselheiro não interpretou ao seu gosto e nem alterou caprichosamente as condições reais da vida sertaneja, mas as enfrentou implantando-se nelas. Ela é a única relação possível no animal de realidades (inteligente senciente), cuja força o acompanhará sempre na maneira problemática de realizar sua vida.

O homem está implantado na realidade (das coisas e dele mesmo), que deverá ser apropriada como seu bem nas possibilidades que se lhe abrem: é a vida de Antônio Conselheiro. A pessoa humana, que ele é, não é um sujeito vazio ou que aceita qualquer veste, que não seja humana. Ela é agente, autor e ator de seus atos realizando aquilo que mais querido todos temos: a nossa realidade pessoal. Por isso que o nosso personagem não liga e nem aceita as intenções cultas dos afortunados de qualquer posição social ou oficial do complexo de clã, também não entra no jogo hereditário dos rancores e das vinganças familiares. Ele não desencadeou a violência e a irracionalidade, ele não criou as lendas nem as peregrinações e nem os preceitos montanistas. Antes de seguir façamos algumas precisões que Zubiri faz ao expor o homem como realidade moral, para melhor indagar a última parte de nosso ensaio.

Poderemos estar pensando, ainda, que o ideal de pessoa descrito por nosso filósofo, pode ser semelhante ao vidro de perfume, que basta abri-lo para que saia sua essência. Para ele, e é como nos sentimos, a pessoa humana não é uma espécie de riqueza já feita de vez por natureza, posta ao mundo no ato de nascer. Mas, que sendo a mesma, deve-se realizar no esforço humano para construí-la a cada momento. O homem defende Zubiri, é uma individualidade substantiva pela que fica constituída a espécie e não ao contrário (SH 187-193). Mas por isso mesmo precisa afirmar-se na diversidade real vertendo-se aos demais: é a convivência de realidades pessoais constituindo a sociedade. Essa convivência é a estrutura na qual o homem tem seu “lugar” e “entra em comunhão” com os outros, que por sua vez o afetarão na forma de enfrentar-se com os mesmos. Zubiri chama de “socialidade” a essa forma de como levamos dentro de nós os outros: é pelo que o homem é social e não por uma relação externa (ib. 193-198). E, ainda, o homem é um animal histórico: porque somos geneticamente prospectivos, somos projetados para adiante, para viver a vida na realidade aberta, que somos. Por isso para o autor a história não é uma evolução do tipo natural, pois esta é só genética, enquanto a humana é real e portanto histórica. Então, conclui o filósofo, “o homem instalado no mundo sobrevive por entrega e por invenção de formas de vida na realidade: é a história” (ib. 202).

A figura da realidade humana de Antônio Conselheiro redimensiona-se nas formas étnicas, sociais e históricas do arraial dos Canudos. Ele não foge, como qualquer ser humano, a esta implantação real. O homem não é uma realidade pura e abstrata, mas deve ser apropriada nas dimensões individuais, sociais e históricas. Entretanto temos ainda outro elemento a destacar para esclarecer qualquer dúvida a respeito da moral de Antônio Conselheiro. Ele é agente e autor de sua vida, mas também é ator. Por isso é sertanejo na segunda metade do século XIX, como hoje a realidade humana é atriz de sua vida na roça ou na cidade, na favela ou nos apartamentos de luxo, no centro empresarial ou no armazém, no primeiro ou no terceiro mundo. Pois bem, este homem que é real e implantado numa situação, diz Zubiri:

“Encontra-se inexoravelmente inscrito numa trama de realidade da que não é dono, pela que não é agente e autor. O homem encontra-se numas determinadas circunstâncias históricas, numas determinadas circunstâncias sociais, numas determinadas circunstâncias inclusive internas, com sua própria biografia, em virtudes das quais podemos falar que ao homem tocou-lhe desempenhar certo papel” (ib. 126).

Neste contexto situacional desenvolve-se o caráter trágico da vida de Antônio Conselheiro e de todo ser humano. Zubiri chama de “trama argumental da vida”. Pois o homem não decide e executa seus atos somente, mas deve aceitar “seu destino”, porque “possuir-se não é sinônimo de ser dono-de, é definir-se naquilo de que não é dono” (ib. 587). Para esclarecer este caráter de aceitação Zubiri se adentra na tragédia grega, na impassibilidade estoica, no desígnio de Deus em Israel, na armadilha da vida biológica e na configuração teológica da razão hegeliana. Mas “a unidade radical da vida vem do caráter de autopossesão” (ib. 593). O homem então está dentro de uma conexão estrutural situacional que é o enredo da vida, que ele deve representar e desempenhar no seu papel, mas sempre se definindo.

Antônio Conselheiro foi realizando sua vida dentro destas dimensões radicalmente humanas. Devemos fazer um esforço filosófico para flagrar a realidade moral de nosso personagem. Mario Vargas Llosa na sua entrevista a Cláudio Figueiredo, como Euclides em Os Sertões, fala do drama de seu personagem de Lituma nos Andes, como se fosse ele: “porque a impressão era que todos ao meu redor já haviam desistido de entender com suas afirmações dogmáticas, seus autos de fé” (VTI 8). Essa trama da realidade, quando não aceita e definida, pode levar, afirma Llosa:

“aos extremos da violência e brutalidade: não só por parte do Sendero Luminoso, mas também pela repressão. O que mais me surpreendeu é que, devido a tudo isto, velhas práticas religiosas, mágicas, haviam ressuscitado. Mais tarde, descobri que o mito grego de Dionísio era não só a embriaguez, mas sobre o retorno a um mundo irracional, um mundo pré-racional, onde os instintos podiam desenvolver em total liberdade. Inclusive manifestações de violência, como sacrifícios humanos” (ib. 8).

Zuenir Ventura, analisando a situação de conflito das favelas do Rio de Janeiro quando da ocupação militar para expulsar os narcotraficantes, vai tirar a pior conclusão a que podemos chegar: “quando parecia que as coisas estavam melhorando, a mais recente onda de violência começou a espalhar de novo uma generalizada impotência, aquele gosto amargo de que se é assim, se nem o Exército resolve, é porque Rio não tem mesmo jeito” (PRV 7).

Quando, a trama da vida não é aceita e definida pelo animal de realidades, a “suposta força racional” promove e provoca em cadeia um tratamento muito “lógico” e muito “louco”, porque está desligada da realidade. É quando vemos a inconsistência da moral que vivemos, que Zubiri comparava a um canhão que podemos dirigir da forma preconcebida para os alvos que quisermos. Dessa forma tornamos a vida mais trágica fazendo da trama da vida uma verdadeira tocaia para o homem. Esta última análise do texto sobre Antônio Conselheiro é muito rica para indicar uma moral realmente mais humana que a imposta pelas forças religiosas e republicanas, pois finaliza Zuenir Ventura: “da vitória sobre Antônio Conselheiro, o que ficou não compensa, como se sabe, foi uma dramática herança: em um século, a favela criada pelos soldados pobres dos Canudos se multiplicou por quase 600, dando a irônica impressão de que o Exército está tendo que resolver hoje o que ele próprio criou” (ib. 7). Essa dramática herança é a da humanidade que tentou muitas vezes fazer sua moral sem contar com a fonte da moral, que é ele próprio. Dessa forma está sempre querendo consertar o que ele sem parar está estragando.

A moral de clã consagrou-se no agreste nordestino pela “prepotência sem freios dos mandões de aldeia” (OS 114). Não é nosso propósito analisar este texto de Euclides à luz da sociologia ou das manifestações messiânicas, pois o estamos investigando filosoficamente. Mas devemos reconhecer o acertado de Euclides em situar o seu personagem, dentro das dimensões sociais, históricas e familiares, no sentido de apropriar-se as melhores possibilidades para a sobrevivência e convivência com os outros sertanejos. A trama da vida de Antônio Conselheiro situa-se no conflito desencadeado entre a sua família dos Maciéis, e a dos Araújos.

A família dos Maciéis é composta por “homens vigorosos simpáticos, bem apessoados, verdadeiros e serviçais”, de “reputação invejável” (ib. 115), dedicados aos seus trabalhos e unidos, não pela lei do clã, mas por uma harmonia entre os mesmos. A família dos Araújos surge como a razão desenfreada a impor suas intenções. É a razão do lobo querendo se impor ao cordeiro pela lei natural da força. Eles não vêem “com bons olhos a família pobre (dos Maciéis) que lhes balanceava a influência, sem a justificativa de vastos latifúndios e boiadas grandes” (ib. 115). A moral de dominação mostra suas “boas intenções” criadas ex nihilo para destruir a vida e a convivência dos Maciéis. É o rompimento da moral, como apropriação das melhores possibilidades para realizar a verdadeira figura humana, para tomar o seu lugar e impor seus códigos e normas, deixando a realidade humana de ser o centro de gravitação.

Antônio Conselheiro seguirá a linha da moral de sua família. Entretanto, os Araújos fazem uso da violência tentando dizimar os Maciéis numa sequência de mortes, intrigas e assassinatos e, para ajudá-los, “chamaram a postos a guarda pretoriana dos capangas”. “Não faltavam, então, como não faltam hoje, facínoras de fama que lhes alugassem a coragem”, juntando na “empreitada criminosa” uma “matula turbulenta” cangaceiros terríveis e sicários tornando o agreste uma tocaia para os Maciéis. Está, plasticamente desenhada, a dualidade dos dois tipos de moral , que discutimos.

Nesta situação cresce Antônio Conselheiro. O pai preocupa-se dar uma educação para “isolá-lo da turbulência familiar” (ib. 119). Segundo Euclides, “testemunhas de vista, ainda existentes”, apresentam-no como um jovem normal, que na morte do pai, vai se responsabilizar pelo cuidado das três irmãs, e “só depois de tê-las casado” vai cuidar de sua vida. A esposa escolhida marcará dramaticamente sua vida, não pela incompatibilidade de gênios, mas “pela péssima índole” da mesma, que acabará fugindo com um policial (ib. 119). Mas ele não se deixa abater e inicia a luta pela vida “sem bens e fortuna” procurando logo emprego por donde passa “para não ser pesado a ninguém”. Será que a suspeita levantada por Euclides, de que estaria procurando “profissões menos trabalhosas, porque exigem menos esforço”, podem ser interpretadas, como a “tendência acentuada para a atividade mais irrequieta e mais estéril, o descambar para a vadiagem franca”? (ib. 119). Então, quantos senão todos pelos mesmos motivos, não devem ser catalogados da mesma maneira? Ele nunca se envolveu “na carreira aventurosa, em que poderia entrar como tantos outros, ligando-se aos condutícios de qualquer conquistador de urnas, para o que tinha o prestígio tradicional da família” (ib. 120). A força da vida do nosso sertanejo não é motivada pelo prestígio ou pelo aproveitamento, mas pelo ímpeto de sua realidade humana.

Antônio Conselheiro continua enfrentando-se com a realidade das coisas e com sua própria realidade. Nem se deixa intimidar, como ator de sua vida, pelo drama obrigado a desempenhar, quando preso porque feriu sem culpa o parente que o hospedava (ib. 120), nem pela absurda e arrepiante lenda de que tinha matado a esposa e a mãe por uma intriga da segunda (ib. 122-123). Nem em 1876 perde a inteireza e firmeza pela confabulação da repressão legal, quando é levado para a capital da Bahia. Era acusado de “velhos crimes, cometidos no torrão nativo” (ib. 124). A comunidade em geral matou sua curiosidade doentia, a escolta “espancou-o covardemente” no caminho e os juízes, ao ficar estupefatos no interrogatório, mandam-no à sua terra natal, o Ceará; onde “reconhecida a improcedência da denúncia, é posto em liberdade” (ib. 124).

Não podemos aceitar, pela própria descrição de Euclides, que Antônio Conselheiro seja um homem pelo avesso, mas uma pessoa implantada na realidade de sua sociedade e de sua história. Ele é o homem que age, atua e deve assumir um pesado papel de realizar sua figura humana naquela trama trágica, que como teias de aranha tentam maniatá-lo para entificá-lo a contento. Dessa forma a realidade humana, uma vez esvaziada, é obrigada a vestir a roupa que os outros gostam para poder usá-la melhor. Obrigam, assim, a realidade substantiva a virar sujeito (substância), tornando-a indigente da dominação de códigos e normas os mais variados e requintados. É fácil, uma vez transformado o homem em apenas sujeito, impor-lhe as vestes de “homem bronco”, que “satisfaz-se sempre com este papel de delegado dos céus” (ib. 113). É justificável, para os que se dizem sábios, cultos, afortunados em posições oficiais de poder usar todos os meios de “exploração pecaminosa” desencadeada sobre a esquisita e feia figura do sertanejo Antônio Conselheiro. Não é hora de ter em conta o alerta socrático, que o próprio Sócrates viveu com seu corpo mal feito, frente aos famosos e afortunados da época?

Não é de estranhar que Euclides, com ideias preconcebidas da ciência culta, cubra-o com roupas de messias, de asceta, de montanista, de profeta, de herege, mas sempre feitas de lendas e mais lendas, favorecidas pela abertura à valores mais altos dos sertanejos, não oferecidos pelos padres e as autoridades. Mas por que se projetou na história? Por que ele foi adquirindo aquela figura de peregrino messiânico? Ele é a “psicose mística do indivíduo” que se revela contra a “ordem natural”? (ib. 114). Ou é a força da realidade humana que vai dando forma a sua verdadeira figura através da escolha das melhores possibilidades? É claro que essa forma de viver a sua “figura humana” coloca em xeque as razões bem intencionadas das sociedades cultas.

Ele, também, não é o falso apóstolo, porque é levado pelo excesso de subjetivismo, mas é o verdadeiro apóstolo da realidade humana, porque tenta desvencilhar-se do excesso e sutil subjetivismo das criações ex nihilo para continuar vivendo na realidade. Por isso, que a “multidão aclamava-o representante natural de suas aspirações mais altas” (ib. 112), pois estava implantado na consistência da realidade. Por isso o respeitavam e o seguiam escolhendo-o “em pouco tempo árbitro incondicional de todas as divergências ou brigas, conselheiro predileto em todas as decisões” (ib. 121). Não era a soma dos “erros de dois mil anos” de misticismo que lhe davam força, mas a sua constituição de homem de realidades, que toda pessoa possui, como realidade individual, social e histórica.

E até suas ações tomavam aspeto de milagres pela inteireza e transparência com que vivia sem preocupar-se com os preconceitos. “A grande série de milagres” eram a reconstrução do muro do cemitério, da Igreja renovada, do conselho dado, da briga apaziguada, da penitência que de “ordinário redundava em benefício das localidades” (ib. 129), a participação nos trabalhos de ricos e pobres de todas as regiões e profissões. Era o milagre “de nada usufruir” promovendo “todos os atos de onde saem os rendimentos do clero: batizados, desobrigas, festas e novenas” (ib. 129), o encorajamento na hora do trabalho difícil, o milagre da rebeldia contra as formas desencarnadas da autoridade da Igreja e contra a República pela imposição de impostos à aquelas comunidades (ib. 128 e 133).Como também a “dádiva providencial de um açude” (ib. 171). Era o apelo constante à realidade das coisas, que as pessoas de posição oficial descuidavam e ele liderava.

Mas isto irritou os desenraizados do sertão: os padres e as autoridades locais, como o trabalho bem feito por qualquer trabalhador, irrita os colegas, o chefe, o vizinho, a autoridade e até o narcotraficante. Com “esses milagres” pregava a “desgraça dos poderosos” tirando-os de seu mundo criado do nada, a não ser de seus delírios egoístas e naturalistas, para reimplantá-los na realidade. Exasperava, porque pregava que abandonassem seus haveres e vaidades, pois a vida é real, aberta e compartilhada. Dessa forma fazia “vitoriosa concorrência aos capuchinhos” por uma pregação que chegava ao povo, “eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando, fazia-se autoridade única” (ib. 125) da realidade sertaneja.

Portanto, Antônio Conselheiro suscita a esperança humana, que na raiz da mensagem bíblica é cultivada na forma de vida, de ímpeto pessoal, de responsabilidade pelo caminho a percorrer. Levanta a esperança pelas coisas, cujo movimento é entendido pelos gregos como estrutura do real. Fala-se do messianismo como alienação do povo, mas não será que o poder constituído e irritado entifica a esperança do homem, instaurando-se como messias criador, que sempre adia a realização de suas promessas para ficar sempre a cavalo? O nosso personagem, sem cultura de poder, consegue fazer frente e descobrir que o falso D. Sebastião é uma mistura de poder religioso e político que, na disputa pelo mesmo, deixa a descoberto sua inconsistência. Eles ainda reconhecem que ele é um “homem inteligente e sem cultura” (ib. 122) e “ainda quando muito instruído e virtuoso” (ib. 130), mas ele não tem autoridade para exercer a influência e arrebatar o povo.

Antônio Conselheiro é o documento vivo da realidade humana do arraial dos Canudos. Ele é agente, autor e ator de suas vidas, que mantém com os sertanejos uma relação de realidade vital e moral, mesmo nos papéis cada vez mais pesados  deve desempenhar. Os padres, os policiais locais e suas autoridades maiores sentiam-se encurralados pelo “homem pelo avesso”. Ele mostrava a realidade e a fazia explodir na frente de todos. Os que a justificavam ou dissimulavam, teimando mantê-la entificada, procuraram ajuda ao arcebispo da Bahia e ao ministro da província. Não sabiam lidar com a realidade e, novamente mais dissecada, a remetem para o ministro do Império. Eles não enfrentam a realidade, e nem querem tomar conta da situação do homem do arraial, envolvendo-a num “ciclo de providências legais”, que mostra apenas o seu espírito cego e manipulador. Pois ninguém queria ver a realidade de um povo, que tenta apropriar-se as poucas possibilidades, que o sertão lhe oferece, para sua sobrevivência e agrupamentos comunitários.

Fica descoberta a moral teimosia dos que estão em “posições oficiais” de não ater-se à realidade das coisas e do homem. A logificação excessiva mumificou o homem na melhor das intenções de compreendê-lo, roubando-lhe a sua própria constituição: a realidade pessoal. Produziu-se assim a dicotomia entre a moral de códigos e normas e a realidade moral que é o homem. A moral da intencionalidade continua a distanciar-se do homem comum e, assim, parece alguma coisa que, se bem do homem, está fora do homem, com autonomia e leis próprias. De um lado, submetido o homem de carne e osso; do outro lado, onipotente, o moralista da dominação.

Mas deixemos, para fechar nossa investigação, falar o próprio Euclides do processo “admirável” de logificação do homem, que uma vez entificado, quer dizer tirado da realidade, é mandado e devolvido de uns para os outros, manipuladores da moral, como objeto de presente indesejável, pois pelas suas apenas “boas intenções” perderam a fé no homem de carne e osso, do homem comum e o único que existe. Vale a pena refletir sobre estes dois parágrafos de Euclides sobre o “empurra empurra ” do desespero de não querer enfrentar a realidade. Diz Euclides:

“Ao que se figura, este apelo, feito em termos tão alarmantes, não foi correspondido. Nenhuma providência se tomou até meados de l887, quando a diocese da Bahia interveio de novo, oficiando o arcebispo ao presidente da província, pedindo providências que contivessem o ‘indivíduo Antônio Vicente Mendes Maciel que, pregando doutrinas subversivas, fazia um grande mal à religião e ao estado, distraindo o povo de suas obrigações e arrastando-o após si, procurando convencer de que era Espírito-Santo, etc’.

Ante o reclamo, o presidente daquela província dirigiu-se ao ministro do império, pedindo um lugar para o tresloucado no Hospício de Alienados do Rio. O ministro respondeu ao presidente contrapondo o notável argumento de não haver, naquele estabelecimento, lugar algum vago; e o presidente oficiou de novo ao prelado, tornando-o ciente da resolução admirável do governo” (OS 131).

Não precisa de muitos comentários. Nesta descrição de Euclides da Cunha fica consagrada, infelizmente mais uma vez, a melhor imagem plástica e dolorosa das pessoas que se negam a enfrentar e viver a responsabilidade pela realidade da vida dos homens. Como é fácil nesse caso embrulhar a realidade, pois já está entificada, com normas e com códigos religiosos, com leis e com ordens políticas, com deveres e valores sociais. E assim, mandar e desmandar nas pessoas como se fossem objetos a manipular e não realidades. O pior é que não se vê o fim desse comportamento negador da realidade, pois Euclides insiste no capítulo seguinte Canudos: Antecedentes, na mesma entificação da realidade. É a exacerbação cega dos que se negam a ver a realidade, tornando-a mais trágica através de novas explicações literárias, religiosas, intelectuais, científicas, militares, sociológicas e políticas. Canudos, no dizer de Euclides da Cunha, é “a ubrs monstruosa, de barro, (que) definia bem a civitas sinistra do erro” (ib. l36).

Fica assim entificado o mundo dos homens, que só os afortunados entendem e exploram, porque pairam como deuses criadores nos seus novos olimpos, pouco se importando com os homens e ainda querendo sempre usá-los para manter-se endeusados. Canudos deve ser destruída com suas “psicoses coletivas”, com seus males sociais, com suas insurreições, com seus casebres, com suas “condições do estádio social inferior”, com “sua peçonha dos maiores vícios”, com seus catecismos, com suas rezas, com seu templo, e principalmente com o seu Conselheiro e com seu povo para criar um sertão novo de acordo com os ideais republicanos e positivistas. É a missão da “pregação abortiva” de infinidade de “capuchinhos” bem intencionados que querem impor uma veste “republicana” na sofrida e perseguida “comunidade de Canudos” dos homens.

Mas Antônio Conselheiro é o documento vivo da realidade humana. O homem como animal de realidades, como homem comum, nunca se deixará enganar, nunca deixará de ouvir a voz do real e de sua realidade. Nunca deixará de ser uma constituição de inteligência senciente e por isso, até no seu silêncio ou na aparente passividade, gritará sempre pelo menos no seu interior como Fabiano, o homem de realidades descrito por Graciliano Ramos em Vidas Secas.Ele vive, também, seu dramafrente aos “outros brancos”, que são diferentes do “seu Tomás da bolandeira”, que apreendia, vivia e pensava a realidade da vida sertaneja. “Os outros brancos” eram os que, sempre com boas intenções de dominação, nem pisavam na fazenda e tudo faziam para mostrar que sabiam de tudo. Ouçamos as palavras de Graciliano na apreensão da realidade feita por Fabiano:

“Os outros eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, e Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e se prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida?” (VS 22-23).

Só os homens criadores ex nihilo, que parecem não ter dúvida de que eles são mais homens, impõem sua moral. Só eles tem argumentos notáveis e vontades admiráveis para sentirem-se donos de todas as situações. Só eles podem descompor e querem manipular qualquer realidade, a humana também. Os mandões da terra estão disfarçados de muitas maneiras, pois desligados da realidade, nunca vêm à fazenda do mundo real, nunca querem apreender a realidade da vida. Por isso insistem em mostrar autoridade, mesmo ficando ao ridículo com seus “regulamentos notáveis e admiráveis” e que tudo fazem para mostrá-los como fruto de suas “boas intenções”. Não vêem a relação aberta de Antônio Conselheiro para o povo, não querem ver a relação inteligente e laboriosa dos Fabianos da vida, que fazem o gado aumentar, que sempre desempenham suas funções, que trabalham até mais de oito horas por dia.

Certamente, os mandões de plantão poderão impor o silêncio bem comportado dos homens, mas nunca poderão mudar a constituição humana de ser animal de realidades na apropriação de si mesmo. Nunca poderão tirar do homem o poder de decisão diante das possibilidades, até para ficar submisso. Porque como homem de realidades e como realidade moral sempre vai jurar não mudar a realidade, e nem pode, onde ele está implantado como realidade substantiva e pessoal. Que fica dele se não estiver na realidade? Essa relação radical com a realidade é a verdadeira ordem do homem na sua constituição, como no decurso de sua vida.

            5.- CONCLUSÃO

Foi a nossa tarefa, neste estudo, mergulhar na consistência do apelo à realidade, que o homem faz no decorrer de sua vida. O ser humano sente sua força mesmo sendo fragmentada, dissimulada ou negada. Mas tal apelo não pode ser interpretado, sempre pelos que detém a logificação do saber, por um lado como fruto do senso comum, como campo para exacerbar o ressentimento dos “escravos”, como etapa preparatória para a resignação estoica ou pelo outro lado como reclame angustioso da amante usada pelo pensador de plantão para continuar servindo de laboratório para as suas teses científicas, filosóficas, literárias, sociológicas, políticas e educadoras. Entretanto sentir a realidade não é privilégio ou demérito de ninguém. Estamos constitutivamente imersos e sempre ancorados na realidade. Nós, como Mario Vargas Llosa e Euclides da Cunha, não podemos negar-nos a ver a realidade, porque ela é alteridade.

Através da abordagem filosófica enfrentamo-nos com a realidade à qual não podemos ficar surdos. Xavier Zubiri nos ajudou nessa preocupação humana e filosófica. Pois o homem pela sua constituição inteligente-senciente está no mundo, não para brincar com as coisas como objetos de seus conceitos admiráveis, mas está implantado na realidade pela apreensão do sentido como real. Fora desta situação o homem estará desenraizado. Flagramos em Antônio Conselheiro esse enfrentamento de animal de realidades fundamentado unicamente no mundo real das comunidades do sertão. Pois, independente das qualidades, sentidos ou conteúdos das coisas, ele as apreende como alteridades, porque se possui a si mesmo como realidade substantiva e aberta, independente da prepotência dos mandões de aldeia. Sua vida primordialmente, como de qualquer homem, é apreender a realidade das coisas e de si próprio, pelo qual fica implantado em cada momento e para sempre na mesma.

Procuramos, então, o que é anterior a qualquer meditação ética deste animal de realidades e nos deparamos com dois elementos fundantes: a relação pessoal no caminhar religioso do povo judaico e a constituição do real no afazer filosófico grego. Esclarecemos, como no tratamento posterior dado pelo cristianismo, deram-se uma troca dos signos desses elementos transformando-se em sujeito e ente respectivamente, o que possibilitou a meditação ética ficar presa nos códigos religiosos, políticos e sociais como constituintes da moral. Mas o homem é uma realidade moral, não pelas normas ditas morais, pois como realidade pessoal, não somente executa os atos, mas é o princípio de todas as ações. Por isso ele vai apropriar-se por decisão a melhor das possibilidades para seu bem. Realiza assim a “figura ideal” de si mesmo, como agente, autor e ator no decurso argumental de sua vida. Antônio Conselheiro também vive essa relação de realidade moral ao apropriar-se para si e para os outros as melhores possibilidades para a vida sertaneja. E isto, até o limite trágico a que foi levado pelas admiráveis resoluções moralistas das bem intencionadas autoridades.

Não é a nossa intenção, como diz Zubiri, propor uma nova ética, mas principiar nossa vida moral naquilo que é fundamento de toda meditação ética: a realidade humana como realidade moral. Certamente ficamos perplexos perante tanta entificação das coisas e do homem ao não conseguirmos deixar de ouvir a força da realidade. Entretanto podemos ficar presos, como Euclides, na leitura positivista ou noutra qualquer moda de pensadores tornando a trama argumental de nossas vidas mais dolorosa e até suicida. Como Mario Vargas Llosa fica preso, também, ao propor a separação da racionalidade política e dos “seus demônios literários”, como se a realidade fosse diferente para uns e para outros. E assim por diante para políticos de todas as ideologias, para os sociólogos de todas as escolas, para as religiões de qualquer crença, para os intelectuais de todos os tipos. É a vivência da dicotomia paradoxal de romper a unidade constitucional do homem pelo predomínio das nossas admiráveis intenções. Por isso colocamos sempre a barreira da intencionalidade naquilo que devia ser o momento de escolher as melhores possibilidades nas diferenças de nossas culturas, línguas, etnias, países, religiões, costumes para tornar real a única figura humana para todos, deixando de estranhar-nos uns aos outros.

Todos nós somos realidades implantadas num mundo real, cuja vida é a apropriação no meio da trama argumental da vida da única figura ideal do homem. É o gozo de realizar o absoluto do homem nas finitudes relativas de nossas vidas. É a fruição de viver cada momento como construção do ideal absoluto de nossa realidade humana. Não são as tragédias e os sofrimentos que nos tornam mais realistas e mais humanos, mas porque, como seres inteligentes-sencientes, podemos apreender a realidade das coisas e suas possibilidades como apropriantes. Por isso que não podemos deixar de ver a realidade. Como os sertanejos, o homem sente a realidade e não pode deixar de apreendê-la para seu bem. Do contrário, continuaremos alimentando umas responsabilidades, bem admiráveis, que nos tornassem militantes de “guerras e planos santos”, porque justificadas por boas intenções. A vida do homem é para ser vivida, realizada, fruída e não para continuar sendo uma dolorosa tocaia.

Estamos vivendo num momento em que o homem está exigindo seu respeito a níveis individuais, sociais e históricos. É a procura de algo mais radical. Mas, também, percebemos que essa exigência continua sendo intencional. O uso do cachimbo faz a boca torta. Parece que o homem, que desmascara as admiráveis intenções dos plantonistas do poder, não sabe lidar com a realidade. Sente-a mais perto, mas continua tratando-a como pequeno e novo Todo-Poderoso criador ex nihilo e entificando-a para seu interesse, para não perder o emprego ou o cargo político, para não contrariar o amigo ou o chefe, para não perder certas regalias ou as próximas eleições. Deixa-se levar pelos conceitos admiráveis, mas não pela realidade. Kant teve a grande ousadia que entrever e separar a moral da religião, mas entificou o homem tirando-lhe a alteridade pessoal para cobri-lo com a alteridade abstrata do universal. A predominância de seus conceitos a priori foram os responsáveis de tal subversão. A predominância dos deveres, dos costumes da sociedade, dos valores e das responsabilidades ainda mantém o homem desolado de sua realidade.

Abre-se um caminho muito difícil e longo: o de termos a coragem de separar a realidade moral humana não somente da religião, mas da política, da filosofia, da sociologia, da literatura, das ciências quando com seus argumentos admiráveis continuam a manipular o homem, porque são apenas intencionais. Ou então resgatar da religião e de todas as formas racionais aquilo que é anterior e fundamenta a vida de todo homem; do homem comum de carne e osso para podermos escolher, decidir e conceituar realmente o verdadeiro destino de nossas vidas. Os Antônios Conselheiro, os Fabianos da vida, são o documento vivo e a esperança da possibilidade da realização do homem como animal de realidades e como realidade moral. Dessa forma poderemos ver um dia não o que não somos, mas que somos todos de carne e osso.

Continuaremos surdos à realidade trilhando no caminho das boas intenções religiosas, políticas, sociais e intelectuais? O desafio é nosso. Se tal não fizermos, estaremos perpetrando e perpetuando o crime da moral vivida no arraial dos Canudos e do mundo de hoje, nos autodestruindo. Mas se escutarmos a realidade estaremos reimplantando-nos na mesma, cuja alteridade apreendida será a única garantia de nossas ações individuais, sociais e históricas. O homem por ser animal de realidades é uma realidade moral, que se apropria o melhor de suas possibilidades na realização de sua vida.

            6.-BIBLIOGRAFIA

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Nota necessária e desafiadora após esta leitura sobre o ser humano “conselheiro”.

Vinte tantos depois, desta reflexão sobre a realidade brasileira, sinto que não posso fiquei e não posso ficar parado. A releitura deste trabalho sempre me surpreendeu. E continha a me surpreender tanto na sua elaboração como nas apreciações subsequentes. E ainda me desafia, porque na sua leitura sinto resgatar, ou melhor, abrir e soltar a grandeza e força da realidade humana, de nosso tempo e de todos os tempos. Primeiro, porque foi um verdadeiro mergulho muito trabalhoso, todavia desafiador, na cultura brasileira e, mais ainda, ao enfrentar tal provocação de procurar fazer uma leitura do homem como animal de realidades, como descrito por Zubiri: ser vivo de inteligência senciente, de sentimento afetante e de vontade volente e que por isso se apropria das melhores possibilidades de sua realidade.  A elaboração foi uma dádiva e a leitura de Os Sertões de Euclides da Cunha um assombro.

O esforço incrível positivista de Euclides me intrigou, porque, mesmo com esse intuito positivista da época, ele mostra o oposto à realidade humana e brasileira. Euclides parece que se traicionou revelando-nos o melhor do positivismo como busca do real. Usou a forma positivista, mas nos mostrou a força da realidade humana do sertão no meio das agruras de sua vida. Quais seriam os valores do homem e do povo em nosso país? Como chegamos a esta situação de viver de cabeça para abaixo? Sentimos que estávamos diante do poder da realidade humana frente às invenções humanas e suas multiples puras racionalidades religiosas e políticas, científica e políticas.

 Na presença da figura de Antonio Conselheiro, vilipendiado e rebaixado de sua dignidade de ser humano, se revelava a gente, a pessoa, o ser humano caminhando superando as pedras no caminho. Uma coisa é relatar positivamente os fatos, até entendidos com a filosofia da hora e outra é sentir o poder e os valores do homem na terra que ocupa. Aprofundamos nossa leitura com Vidas Secas de Graciliano Ramos e Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. E o grito de Geografia da fome de Josué de Castro. E outros.

Porém, sempre ficamos estupefatos e felizes de tal trabalho. E, mais ainda, por escutarmos recentemente a voz de Ariano Suassuna, como cavaleiro do sertão, portanto do homem da seca, do “nordestino”. E ele consegue levar essa inspiração para a cultura da vida de cada dia, através da poesia, da literatura e dos cordéis contando a histórias da superação do homem que vive na seca. E é dela que poderá viver e prosperar e se realizar. Em contato com o gigante da cultura humana e nordestina Ariano Suassuna escutamos ao seu companheiro Dr. Manelito, “seu quatro mãos com Suassuna”: “nunca escutei, que haja projetos de acabar com a neve nos países do norte. Então, por que fazer projetos para acabar com a seca aqui para viver com todas as necessidades humanas na nossa terra com níveis sazonais e pobres de água?”. Esses homens profundamente humanos imersos na dura realdiade, nos revelaram e fizeram possível essa realidade autônoma de sobrevivência. Deram o exemplo de superação de tais dificuldades ao se debruçar sobre sua terra e as possíveis forças e mudanças no sertão, sabendo da falta de chuvas, descobriram a potencialidade de proteínas de vários capins nascidos no sertão, através do rebanho caprino, ovino e bovino. Poe isso, hoje temos leite de cabra e queixos caprinos em nosso país.

Só posso me lembrar de um pensamento resumido esclarecedor, desafiador e aberto para elaborar o ser humano, de X. Zubiri em Estructura dinámica de la realidad, quando descreve “La colocación del ser viviente entre las demás realidades” (p. 167-170). Sim, o homem está “colocado” e “instalado” como vivente, não como um corpo físico. Então, está “colocado de forma diferente”. Sim, todo ser vivente tem um em torno, um meio que o circunda. Mas não é como um eléctron, “que tem um campo eletromagnético que o circunda”. E este em torno no vivente tem uma categoria de situação, do “situs”. Então, a “situação” supõe o “locus”. Mas, atenção nos fala o filósofo, “não são duas categorias independentes”. Porque elas são “o meio do ser vivente”, não como o meio do campo eletromagnético para o eléctron. Sim, é o meio como de uma simples ameba, porém no vivente humano não é puro em torno. Sendo, assim, o ser vivo “está no meio como um centro seu”, por isso vai executar suas ações, e “tem uma estrutura espaço-temporal”.

Desta forma, o ser vivo tem uma direção como “orientação” constitutivamente, ao contrário dos corpos no espaço que tem apenas direção, como descreve a Geometria. “O Espaço não somente é um espaço de orientação, senão também de livre mobilidade: o espaço vital”. “A isso se agrega um caráter do Tempo, em virtude do qual todo ser vivo tem um caráter de certa idade, e ademais executa suas funções com certo caráter mais ou menos periódico”.

Então, se isso vale para o ser vivente, se “tomamos muitos viventes juntos, o meio tem um caráter distinto: é um caráter ecológico”. É sua casa, seu oikós. E aqui é melhor ouvir ao pé da letra o que nos diz Zubiri:

“Agora bem, o oikós, como estrutura ecológica dos seres vivos, é essencial na Biosfera, e especialmente na evolução. É o que permite a associação de viventes entre sí, e por isso, o isolamento de uns grupos de viventes, respeito dos outros. Dessa forma, vemos o papel decisivo que, na evolução dos seres vivos, desempenha o isolamento, ademais a índole da região em que estão isolados.

Todavia, não somente é apenas um meio ecológico, senão que, ademais, se consideramos a totalidade dos viventes, nos encontramos com um fenômeno curioso… é a rapidez vertiginosa os seres vivos se tem estendido na terra –sobre tudo na Terra- e tem constituído  Biosfera. Não somente o meio tem caráter ecológico, senão também tem um caráter de Biosfera. A vida, ademais de geração e de evolução, tem um caráter misterioso, porém inegável, fator que é a dispersão. A vida se difunde e se dispersa por todo o Planeta. É, aqui mais ou menos, algumas das coisas que devemos falar em relação à colocação de um ser vivo no Universo”.

Se lermos com atenção o que nos falou Zubiri, de como o ser vivo se localiza e situa no meio, como mobilidade de direção e orientação criando um espaço vital, se confirmam as possibilidades da região nordestina vivenciadas por Ariano e Manelito em Pernambuco. Porque certamente estão isolados como biosfera especial e ecologia própria dos nordestinos, e isso “ainda da índole da região em que estão isolados”, de outros viventes e viventes humanos, tendo seu espaço vital próprio, como a região do sul tem o seu espaço vital ou os seres vivos do polo norte. Nem na mobilidade humana e nem na pluralíssima dispersão, se perde a realidade do homem. Onde a humanidade se fixou percebeu a realidade de sua sobrevivência individual e futura. Por isso, o que estamos refletindo sobre essa “riqueza inóspita” do nordeste, podemos aplicar a qualquer região da terra como “na evolução dos seres vivos, desempenha o isolamento, ademais a índole da região em que estão isolados”. Regiões como a nordestina, do pantanal, ou das regiões rurais e dos bairros periféricos de todo o mundo.

Diante disso, não podemos de refletir, nem científica e nem politicamente, querer convencer o povo russo no final do século XIX e durante boa parte do século XX, que a savana de neve quase perpétua, pudesse produzir milho adaptado para alimentar o povo russo, para matar a fome do povo, como T. Lisenko pregou ideologicamente (influenciado por Stalin) frente ao seu mestre o geneticista N. Vavílov. Não é atual esta contradição desses desvarios das racionalidades humanas? Não é isso que fizeram e provaram Antonio Conselheiro, Ariano e Manelito em Pernambuco? Sim cada região poderá sustentar seus dispersos povoadores, como espaço vital de seres vivos e dos seres vivos humanos. Temos riquezas insuspeitadas de viver bem e sobreviver. Voltemos ao diálogo que nos ocupa.

 Por isso, o homem sabe e consegue tirar seu sustento e seu progresso das possibilidades concretas que a realidade inóspita em que, contudo isso faz, porque ele é uma riqueza de possibilidades para sua realização de gente. O trabalho sobre Antonio Conselheiro, documento vivo da realidade humana quer dizer isso. Todos, estamos e necessitamos de um em torno feito meio, como “centro seu”, mas é para poder melhor dar conta de seu próprio valor e dignidade.  Abre-se aqui, um trabalho intelectual filosófico e científico para que cada “região” do Brasil, e do Mundo, através da associação, do isolamento regional, da evolução, da orientação, da livre mobilidade para que o próprio ser vivo e o homem executem suas ações e funções. Assim sentiremos que vivemos em nossa Casa Terra que nos oferece a Biosfera para viver e realizar-nos plenamente. Canudos, e todos os arraiais da terra, estão habitados por seres humanos, por pessoas, por gente, “por nordestinos”.

Dessa forma, na aproximação e cativamento com Ariano e Manelito nos abrimos a um desafio maior. E Ariano nos relembra como aprofundar, não somente o que aconteceu no Arraial do Canudos, mas, também, nos Arraiais da Guerra do Contestado (com o Beato Zé Maria) entre Rio Grand de Sul e Santa Catarina, e como símbolo de todos Ariano “criou” o Arraial da Pedra do Reino em Pernambuco. Sim, devemos e podemos aprofundar os “arraiais da vida”. Ariano construiu um “santuário ao ar livre do Sagrado e do profano”, contudo poderá ser questionado e corregido por Zubiri ao perguntar ao próprio Rudolf Otto: o homem é mais que sagrado e profano, é pessoa na terra como um santuário global ao homem real disperso. Como podemos aceitar falar da dicotomia brasileira de corpo e mente, quer dizer “de um Brasil oficial e do povo”, ditada e mantida por qualquer poder? A nossa terra nos seus lugares, situações, regiões tem o meio natural, sem dúvida humano, é a Casa humana para sobreviver, se expandir e dar conta de sua plenitude, cuja base é o homem de realidades que Zubiri descobre e separa do homem dos conceitos, cuja história está degradando e explorando o ser humano e suas terras. Com Suassuna voltamos aos “mitos originários”, que perceberam o mais profundo deles e com Zubiri tentamos sais da tirania das racionalidades muitas vezes soltas do sertão e do real. Este é o nosso problema, nossa discussão e nossa tarefa humana, e por tanto, filosóficas, como o são de todo pensamento da gente e de toda ciência.

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