Antônio Conselheiro documento vivo da realidade humana

*Por José Fernández Tejada

Este texto, aqui copiado, foi publicado em Paradigmas, (Londrina) N.1, Vol. 2. 1998. pp. 73-100. E em 2002 (em versão espanhola) em The Xavier Zubiri Review N. 3 (2002-2003), pp59-85. Washington, EE. UU. Posteriormente (em 2011) ao apresentar estes trabalhos para a editora É Realizações, quando do lançamento da Trilogia senciente, consideraram, talvez, o único ensaio filosófico sobre Antônio Conselheiro de Euclides da Cunha naquele aniversário, e que iriam publicar. João Cezar de Castro Rocha, professor titular de Literatura Comparada na UERJ junto com a editora assumiram tal compromisso. Não o fizeram.

1.- INTRODUÇÃO.

“Tenho por ele (Euclides da Cunha) imensa admiração porque no momento em que o Brasil viveu essa elação com Canudos, ninguém queria ver a realidade. Tanto do lado dos republicanos como dos jagunços, só se enxergava os prejuízos e a ideologia”.

           Mario Vargas Llosa

É nosso propósito refletir sobre a moral conflitante vivida no arraial dos Canudos. Para tal, situamos nosso trabalho no cap. IV de O Homem do livro Os Sertões de Euclides da Cunha: Antônio Conselheiro documento vivo do atavismo.

Dentro da nossa pesquisa, de indagar sempre a realidade das coisas, contestaremos as abordagens messiânicas ou sociológicas como fragmentadoras da realidade vivida em Canudos. Não desmerecendo a importância que a abordagem sociológica tem adquirido a partir do laborioso tratamento de Max Weber (1864-1920), partimos para um tratamento mais radical: a abordagem filosófica. Para isso nos apoiamos nas claras e abrangentes explicações dos textos de Antônio Paim: Fundamentos da Moral e Modelos Éticos. Entretanto, a abordagem filosófica está alicerçada nas análises que o filósofo espanhol contemporâneo Xavier Zubiri (1898-1983) faz do Homem como Animal de realidades e como Realidade Moral em vários textos que constam na Bibliografia.

Não há como negar a experiência negativa dos sucessivos modelos de moral que as sociedades foram vivendo. Mas, por que a moral não correspondeu às esperanças nela sempre depositadas pelos homens? Por que a moral, ao invés de ajudar a vida do homem, parece atrapalhar? Mesmo assim, ele continua sempre apelando para ela. Suspeitamos que esses modelos éticos possam estar sendo trabalhados fora de seu centro de fundamentação. Do contrário poderemos concluir que a moral só atrapalha ao homem, ou então que é justificável qualquer tipo de moral e, o que ainda é pior, que só é válida para alguns homens e não para outros. Porém, por que em todos os povos, desde as cavernas até o computador, existe a preocupação da importância da forma de realizar as suas ações? Por que hoje, no meio de tantos desvarios políticos, econômicos, sociais e comunicativos, apela-se para a moral?

Euclides da Cunha (1866-1909), no texto escolhido, nos dá uma pista. Para melhor entender o conflito da guerra dos Canudos, que era este o seu projeto como relata na Nota Preliminar, situa-lo dentro de seu mundo, na preocupação inegável de entender seu povo, com a descrição absolutamente sincera e minuciosa de: A Terra e o Homem. Assim surge Antônio Conselheiro como a figura humana do sertão. Pois bem, deixando de lado o contexto positivista do autor, também nós queremos denunciar com ele dentro de nossa indagação filosófica: foi um “crime” a moral vivida naquele arraial, porque foi mais um “refluxo” ao domínio das ideologias, já que “ninguém queria ver a realidade”, fazendo nosso o espanto de Mario Vargas Llosa. O desafio está lançado.

2.- NINGUÉM QUERIA VER A REALIDADE.

            2.1.- A indagação da realidade.

Hoje em dia encontramos muito mais, tanto nas conversas diárias dos cidadãos como nos textos escritos e falados dos intelectuais, um apelo cada vez mais premente a uma espécie de força maior, que fundamenta e norteia nossos pensamentos e comportamentos: a realidade. Palavra que todos gostamos de usar, mas que, tal vez por falta de um tratamento mais reflexivo ou simplesmente porque nunca foi respeitada, temos medo de enfrentá-la. De qualquer forma, mantemos a esperança de que poderemos contar com ela através de constantes apelos: na realidade, ler a realidade, entrar na realidade, consciente da realidade, ouvir a realidade, não se pode negar a realidade, cair na realidade, respeitar a realidade, voltar à realidade… Sentimos, então, que não podemos “ficar surdos à realidade”, ou como sabiamente diz o provérbio popular: não podemos tampar o sol com a peneira. Mas, o que sinalizam estes apelos à realidade? Parece que todos damos como pressuposto o que seja a realidade, ainda que, por mais próxima que a percebamos, não sabemos pensá-la e menos ainda vivê-la, embora sempre tenha sido o objeto primordial da reflexão filosófica através do espanto diante das “coisas”.

O encontro e o enfrentamento com as coisas fez o homem primitivo descobrir a roda, e usá-la em seu benefício. O espanto diante da phisis fez soltar o pensamento, como definitivamente determinante, para configurar-se como filosofia: amante do saber das coisas. O encontro com a realidade mudou a vida de Mario Vargas Llosa ao ler Os Sertões de Euclides da Cunha. Segundo seu próprio depoimento, o escritor peruano nunca mais conseguiu ficar surdo à realidade que o atormentava desde criança e, que definitivamente tomaria conta dele após enfrentá-la tragicamente no frio dos Andes, quando participou da comissão que apurou a morte de oito jornalistas. A realidade peruana mostrava-se em toda sua nudez e em toda sua inexorabilidade na vida dos moradores dos Andes. Quem de nós não sentiu em certas situações a necessidade de apelar à realidade após o seu enfrentamento?

Por que apelamos tanto à realidade? Por que não podemos deixar de ouvir sua voz? Por que nela parece que encontramos o aliado honesto diante de tantas explicações e razões inconsistentes? Mas, ao mesmo tempo, que nos sentimos protegidos quando apelamos a realidade, não conseguimos fazê-la parte integrante de nossas vidas. Sentimos sua relação inexorável, mas ao mesmo tempo não sabemos desvencilhar-nos das teias que o homem teceu ou permitiu à sua volta.

Os Sertões possuem uma força especial porque sua linguagem fustigante e universal revela a tentativa radical do autor de encarar de perto a realidade. Não é só pelo seu estilo narrativo que ele ganhou os 15 votos “dentre os intelectuais de porte do país” na tentativa feita pela Veja [ano 27, 47 (23-11-94), pp. 108-112] de montar um “cânone brasileiro” da nossa cultura “em todos os setores e em todas as épocas”. Em Os Sertões está descrita a trama trágica de nossa realidade brasileira. Por isso Euclides queria tirar a limpo qual era aquela realidade, que as forças religiosas como as forças políticas e militares republicanas não conseguiam dominar. O comportamento de todos eles sofria o distanciamento da realidade. Euclides enfrenta tal situação. Por isso M. V. Llosa reconhece por ele sua admiração em entrevista a Claudia de Souza [Demônios em harmonia 2], quando do lançamento de seu livro de memórias Peixe na água aqui no Brasil:

“(…) porque no momento em que o Brasil viveu essa elação nacional com Canudos, ninguém queria ver a realidade. Tanto do lado dos republicanos como dos jagunços, só se enxergava os prejuízos e a ideologia. Euclides foi o primeiro a fazer um esforço de racionalidade, e com lucidez extraordinária, entendeu o que tinha acontecido, esquecendo os preconceitos e recorrendo à todas as ciências para explicar os eventos. O que ele desvendou não foi a realidade dos Canudos, mas a realidade do Brasil e da América Latina“. (os grifos nossos em todo este ensaio estão configurados em letra itálica; responsabilizamo-nos também pelas traduções dos textos em espanhol).

Que tipo de enfrentamento teve Euclides com a realidade que nos leva tão dentro de algo que não pode ser encoberto nem pela sua leitura positivista, nem pelo seu relato ficcional? O que fica ao desnudo e, o que se passava nos sertões baianos? Tão radical é este espanto que o próprio Euclides não saberá lidar com a força de sua própria realidade pessoal. A saída será o suicídio físico, intelectual ou moral tão sem sentido como todas as soluções ideológicas construídas a partir da não realidade humana?

O sertão e os seus habitantes naquele momento revelam que tipo de comportamento real? Pois, o homem parece não abrir mão de que deve apropriar-se, a partir de uma situação, das possibilidades que realizem sua realidade pessoal, social e histórica. Isto estava acontecendo? Não, falará Llosa dando atualidade ao espanto de Euclides: “Todas as crianças deveriam ler este livro para que vissem o que é, e sobre tudo o que não é a América Latina” [ib. 2]. O caminho “adotado e adaptado de outras partes do mundo” tornava impossível todo tipo de apropriação humana. Sendo assim, eram mais algumas variantes das leituras ocidentais que tornavam seus habitantes variantes de tipologias morais distantes ou assoladoras da construção dos homens. Não será nosso estudo mais um levantamento esclarecido dos diversos tipos de comportamento humano para presenciar seus devaneios, lastimando-nos e afirmando mais uma vez: “não temos jeito”. Todavia, estamos sim tentando fazer uma leitura filosófica para resgatar algo mais radical.

            2.2.- A realidade abandona o homem?

A capital do Império, Rio de Janeiro, no final do século XIX é atingida pela notícia de uma figura avassaladora que surge no meio da caatinga baiana: Antônio Conselheiro (1830-1897). Sua vida e palavras despertam no mais fundo da alma nordestina as mais diversas e paradoxais reações existenciais. Uns seguem-no nas pegadas de um caminho novo de vida. Outros, a Igreja e a força republicana, temem-no declarando-lhe guerra aberta, pois o teor de seus discursos e de suas ações tira-lhes o poder para continuar orientando o comportamento dos homens do sertão. Qual é a trama descoberta por Antônio Conselheiro que faz tremer e estremecer os jagunços, os padres e os republicanos? Não viviam a realidade, e seus comportamentos eram moralmente ideológicos e desencarnados da mesma. Queriam impor outras ideias e outros comportamentos que arrancavam o sertanejo de seu mundo, que mesmo enfrentando-o na sua dureza, eles conseguiam sobreviver.

O jovem jornalista Euclides da Cunha deixa a vida festiva da corte monárquica, situada entre a beleza verdejante da Mata Atlântica e o azul do mar. O encontro com o sertão abre-lhe à outra realidade, não somente de seca e queimadas, mas da realidade humana com todas as suas possibilidades emaranhadas. No momento, sente-se encorajado com o ímpeto juvenil e a sua nova luz: a ciência dos fatos. Será que eles podem explicar e reorientar a vida humana? Euclides sente aquele desafio como algo radical: a vida trágica de seu povo. A sua formação positivista é o novo instrumento confiável para a preocupação de descobrir intimamente o que estava se passando em Canudos. Entretanto, o mais radical do positivismo, como de todas as “boas intenções”, desencaminham por caminhos puramente racionalistas.

Mas como flagrar esse elemento maior? Para tentar explicar a guerra de Canudos (la e 2a expedição em 1894, 3a fase de janeiro a outubro de 1897), Euclides a situa nos seus contextos. Como entender Antônio Conselheiro fora do sertão? O homem do sertão vive uma relação real com a terra, que embora inóspita, o acolhe. É uma relação quase que constitucional da realidade humana sertaneja. Será suficiente apenas uma relação colonialista ou científica para descrever os traços exploradoramente variáveis da fisionomia da terra e dos homens?

Confessa Euclides, mesmo ao mais simples observador, o que ele não era, “ao atingir aquele ponto (a entrada no sertão) estaca surpreendido” [OS 10]. A sua facies é impressionadora, esclerosada, decomposta, inóspita, estranha, estéril, atormentada… “Entra-se de cheio, no sertão adusto (…) (cujas passagens) (…) denunciam (…) é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas” [ib. l4]. Novamente assusta-se Euclides: “E por mais inexperto que seja o observador (…) tem a impressão persistente de calcar o fundo do recém-sublevado de um mar extinto, tendo ainda estereotipada naquelas camadas rígidas a agitação das ondas e das voragens” [ib. l6]. É a força misteriosa da realidade das coisas que marca o visitante do sertão.

O espanto humano, e só o humano, pois o animal leva susto e tenta fugir, sente de perto a realidade em si mesma. Por isso, apesar das detalhadas e científicas descrições, Euclides é impressionado por uma presença mais radical. Ouçamos o mesmo autor: o regímen desértico é “a região incipiente (que) ainda está se preparando para a Vida: o líquen ainda ataca a pedra, fecundando a terra” [ib. 18]. Aquelas configurações desérticas são sentidas pelos seus habitantes, e também por Euclides agora, que os forçam a dialogar para a apropriação da Vida. A caatinga não é a fácies de desolação, mas é um modo de ser daquele lugar que poderá ser apropriada para o bem de seus habitantes. A caatinga parece “afogar” o viajante com seu aspecto desolador, mas não ao ponto de eliminar a vida com sua “flora moribunda” [ib. 32]. O homem no sertão não é destituído de seu ideal humano, ele também é agente, autor e ator de sua vida numa relação estreita com a terra. Vejamos a firme confiança de Euclides desta relação radical entre o sertão e o homem:

“O homem luta como as árvores com as reservas armazenadas nos dias de abastança e, nesse combate feroz, anônimo, terrivelmente obscuro, afogado na solidão das chapadas a natureza não o abandona de todo” [ib. 41].

Embora reflita uma posição positivista, a força da expressão euclidiana transparece a iniciativa humana: o homem sente-se de posse de todos os elementos co-determinantes de sua estrutura humana para apreender essa relação inexorável com a realidade, que não o abandona e não pode decepcioná-lo no seu caminhar humano. O homem é o único ser vivo que pode se espantar, e ser impressionado pelas coisas e, que a partir daí, fica nelas enraizado pelos seus comportamentos, pelos seus atos e saberes para a realização de sua vida.

A leitura positivista toma conta de Euclides desviando essa relação, por isso nós a questionamos: é o homem “um agente geológico notável” de como se faz um deserto? Será que o homem só pode assumir “o papel terrível de fazedor de desertos”? [ib. 43]. Se isto aconteceu, e acontece hoje como estava acontecendo em Canudos, é porque o homem desligou-se da realidade e, portanto, está fazendo uma apropriação que já não é humana. Ou melhor, não realiza o homem. Estamos sinalizando outro tipo de moralidade que surge da própria estrutura humana.

Mas, será que essa relação com a realidade das coisas só pode ser mantida pelas “ciências”? Será que o fazedor de desertos é “um desastroso legado indígena”? [ib. 43]. Que o homem possa descobrir as coisas como elas são na realidade pela sua racionalidade, não quer dizer que ele, como ser humano, não possa estabelecer uma relação de realidade. Segundo a arqueóloga e pesquisadora, diretora do Serviço de Arqueologia do Museu Nacional, Maria Beltrão, as pinturas rupestres descobertas numa das cavernas (Toca da Lagoa da Velha) da Chapada Diamantina, na Bahia, mostram que 8.000 anos atrás os tucanos foram habitantes destes lugares e, que teriam migrado para a região amazônica, onde vivem até agora. Motivo: uma seca teria assolado a Chapada de Diamantina [MM 46]. Os nossos ancestrais, como seres humanos, manifestam uma forma inteligente de apreender a realidade e de apropriá-la para sua sobrevivência em comunidades. Esta mesma relação de apreensão da realidade nos manifesta o índio Aílton Krenak da tribo xavante de Minas Gerais ao dividir os segredos de sua tribo com os cientistas ocidentais. Os corredores e nichos da fauna e da flora já eram conhecidos por seus antepassados “respeitando os complexos sistemas de interação natural”. “No ambiente natural, explica Aílton, as frutas (aratum, baru ou pequi) tinham toxinas e não podiam ser consumidas. Nossos antepassados foram tirando estas espécies do ambiente agressivo, e as cultivando onde suas defesas não precisavam agir” [NPT 4].

Os nossos indígenas mostram claramente essa sensibilidade pela realidade das coisas, com as quais mantêm uma interação inteligente. O colonizador “não copiou” dos indígenas a desolação de terra. Por isso Euclides, de alguma forma, representa a leitura e a vida dos homens desligados da realidade. O homem, e discordamos de Euclides, não é “uma componente nefasta entre as forças daquele clima demolidor” [OS 45]. Mas ele é, sim, a única estrutura real que, na sua raiz, estabelece essa relação com as coisas. O homem não precisa esperar novas ideias cultas de novos colonizadores para poder viver essa relação primordial com a realidade, pois os sertanejos estão construindo de forma própria sua sobrevivência, suas comunidades e sua história. Por que tantas ideologias finalmente soltas sempre da realidade?

            2.3.- Enfrentar ou acomodar a realidade.

O homem, queiramos ou não, vive uma relação muito própria com as coisas. Ele não pode ser “uma componente nefasta” na história humana. Nem a formação do homem brasileiro, como afirma Euclides, “é altamente duvidosa, senão absurda” [OS 53]. A sua raça mestiça nas diferenças sertanejas é prova de seu modo próprio de lidar com sua própria realidade, independentemente de suas caraterísticas étnicas, antropológicas e de seus desenvolvimentos culturais, mas também através delas. Euclides mostra na sua obra um pessimismo pelo homem, que reflete sua leitura positivista. “O sertanejo não tem, por bem dizer, ainda a capacidade orgânica para se afeiçoar à situação mais alta” [ib. 104]. Os padres e os republicanos não pensavam a mesma coisa? Mas, qual é essa realidade mais alta do que a da própria realidade humana? O homem não é mais um fato e o constituinte de todos os fatos religiosos, republicanos e positivistas? Será que o homem pode ser mais do que é na sua estrutura substantiva? Euclides nos dá uma variante de tal pessimismo, pois o homem do sertão:

“Está na face religiosa de um monoteísmo incompreendido, eivado de misticismo extravagante, em que se rebate o fetichismo do índio e do africano. É o homem primitivo, audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo, deixando-se facilmente arrebatar pelas superstições mais absurdas” [ib. 104].

A religião mestiça, também, não tem nenhum elemento que possa realizar o homem? Será que o que o homem manifesta através das variantes religiosas não sinaliza ou manifesta a base de toda “religação” humana? O pessimismo de Euclides apresenta Antônio Conselheiro como “documento vivo de atavismo”. É “o falso apóstolo” do sertão, que por ser o “resumo abreviado dos aspectos predominantes do mal social gravíssimo” [ib. 111], vem apontar o caminho da salvação: Antônio Conselheiro é a encarnação do messias. Marco Antonio Villa em Canudos: o povo da terra, contesta, também, essa interpretação unilateral messiânica.

Antônio Conselheiro é apenas a resistência das tradições religiosas locais à romanização da Igreja, que se iniciou em 1840. O arraial é o duplo foco de resistência às mudanças religiosas e à exploração política, que se dá a partir da proclamação da República ao mudar a hegemonia política do Recôncavo da Bahia para o sertão. Tal explicação apoia nossa tentativa de fazer uma leitura mais real e radical para tentar captar a situação primordial do enfrentamento de Antônio Conselheiro com a sua realidade. As leituras sociológicas e carismáticas fazem um recorte do real e, a nosso ver, não são suficientes para um tratamento em profundidade da moralidade do comportamento humano. Muito mais quando aqui essas duas leituras só poderão ser feitas dentro do contexto positivista em que se move Euclides da Cunha. Mas, de qualquer forma, Antônio Conselheiro não só rompe a ordem racional constituída (religião e república) como também acena para a reintegração numa ordem primordial que é a realidade, como fundamento de qualquer realização. Daqui o título de nosso trabalho: Antônio Conselheiro, documento vivo da realidade. No lugar de estarem caçando males sociais, pecados, agitações, loucuras… do homem, vamos tentar fazer uma leitura mais real da vida humana a partir de sua própria realidade, como indivíduo pessoal dentro de sua comunidade. Defrontamo-nos então, não com a ordem do ser, mas com a realidade, aquilo que fundamenta o ser, a história e a sociedade. Onde se fundamentariam caso o homem não fosse realidade?

Queremos ver em Antônio Conselheiro a dimensão radical do homem de enraizar-se na realidade. O seu comportamento moral tenta tal vez explicitar tal dimensão. Como continuar nossa pesquisa? Na interpretação do texto de Os Sertões nos deparamos em primeiro lugar com a aporia que Paul Ricoeur estabelece Interpretação e Ideologias [II 17] entre explicar e compreender um texto. A consulta de tal autor nos alerta também para a possibilidade de que poderemos cair na armadilha de que não devemos “aceitar como evidente uma análise em termos de classes sociais” [ib. 64]. A realidade individual é anterior e mais radical que a realidade da espécie e, muito mais das classes sociais. Por isso, o melhor é nos mantermos na procura filosófica, que é mais radical e global. A tarefa do filósofo é buscar o que está dentro da realidade, não somente para rescrever a realidade, mas para reatualizá-la. Do contrário podemos cair no mesmo defeito assinalado por Paul Ricoeur para as ideologias frente às utopias: “as ideologias se acomodam à realidade que justificam e dissimulam, ao passo que as utopias enfrentam a realidade e a fazem explodir” [ib. 88]. Como Antônio Conselheiro enfrenta a realidade antes de fazê-la explodir? Encontramo-nos na tarefa socrática de investigar que a realidade está mais perto de Antônio Conselheiro do que dos poderes republicanos e religiosos da época. Ouçamos o alerta socrático:

“Pelo Cão, atenienses! Já que vos devo a verdade, juro que se deu comigo mais ou menos isto: investigando de acordo com o deus, achei que aos mais reputados pouco faltava para serem os mais desprovidos, enquanto outros, tidos como inferiores, eram os que mais visos tinham de ser homens de senso” [SO 9, 22a].

Posicionamo-nos na dimensão filosófica de que, entre as duas partes em conflito em Canudos, Antônio Conselheiro – tido como inferior pela ciência positivista e pela leitura messiânica – pode enfrentar-se melhor com a realidade do arraial, sendo sua moral uma apropriação da verdadeira realidade humana. Enquanto, o poder da Igreja e da República está justificando uma realidade “criada ex nihilo” a partir de seus interesses e não do único interesse, se podemos falar assim, da realização da vida sertaneja sem exploração. Saímos logo à objeção de que estamos numa posição intelectualista, ao que o filósofo Xavier Zubiri responde:

“O intelectualismo só se dá na inteligência concipiente: e consiste, na verdade, em determinar aos conceitos a função primária e radical. Mas aqui não se trata de que o conceito seja o determinante das demais estruturas. Isso seria absolutamente falso. Aqui se trata da inteligência senciente. E o que faz tal inteligência não são os conceitos, mas a apreensão do sentido como real” [IRE 283-284].

Encontramo-nos numa dimensão mais radical que a positivista, sociológica ou messiânica, é a dimensão da realidade. Foi o filósofo espanhol Xavier Zubiri que nos inspirou tal leitura de Os Sertões e, em especial de Antônio Conselheiro, não como “documento vivo de atavismo”, não como “desvio ideativo”, nem possuído pelo “pleno excesso de subjetivismo”, tampouco um messias fanático que gravitou sempre “para o completo obscurecimento da razão” [OS 112]. A leitura zubiriana de Antônio Conselheiro nos leva a uma radicalidade maior do que a do “quarto avô”. O homem, na sua constituição, não aceita atavismos como parcelamento lúdico da mesma, deixando os melhores caracteres sempre nos poderosos, e os negativos para os desprovidos de tudo. O homem é humano ou não é? Então o que é a realidade humana?

Por que então “a multidão aclamava-o (Antônio Conselheiro) representante natural de suas aspirações mais altas”? [ib. 112]. Por que sintonizavam mais com aquela figura simples do que com a Igreja e a República “cultas”? Quem estava mais ligado à realidade ? Quem tinha mais prejuízos na leitura da realidade da vida do arraial? Para podermos ensejar uma resposta, nos valeremos das duas coordenadas propostas por Xavier Zubiri nas suas obras Sobre la Esencia, Inteligência y Realidad e  Sobre el Hombre: o homem como “animal de realidades” e como “realidade moral“. Está claro que o real que procuramos não é o ser real maquiavélico do agir político, pressuposto de todo o estudo weberiano, mas do mesmo agir radicalmente humano, onde unicamente pode dar-se a moral. Entendemos que o fundamento da moral não está no poder de salvação ou de dominação provindos de fora, mas que a própria força da realidade humana será o único poder de realização da mesma. Não é que não devamos fazer colocações desde os diferentes recortes do real, etnológico, antropológico, sociológico, messiânico… mas, embora necessários, não são os mais radicais e nem suficientes, afirmaria Zubiri. O tratamento filosófico tem por si essa dimensão de radicalidade, que deve marcar qualquer desenvolvimento subsequente. E Zubiri, por isso, mergulha numa tentativa metafísica da realidade à qual tanto apelamos de muitas maneiras.

Contudo, por que a dimensão carismática, que parece a mais doida, nos leva tal vez a enfrentar-nos mais profundamente com as coisas, nos fazendo apelar ao mistério, como lugar de radicalidade? Será que sua verticalidade não provém das alturas, mas da própria raiz do homem? Será que a confluência do humano e do profano não está na realidade unívoca e única do mesmo? Estamos no âmago do que é filosofia: será que a realidade humana é o oblíquo, enquanto as ideias sobre ela são o caminho reto? Kant entendeu que, na sua questão “que é o homem”, estava superando todos os limites antropológicos chegando ao eu transcendental, mas nos alertará Ignácio Ellacurría ao fazer a primeira análise da Trilogia Sentiente de Xavier Zubiri:

“Diz (Kant) que nisto consiste o giro copernicano que o levou das coisas mesmas ao homem, não ao homem como lugar de realidade, mas ao homem como constituinte da mesma, embora seja só na sua inteligibilidade. Dessa forma só levou até suas últimas consequências as raízes idealistas, que se escondiam na teoria da inteligência clássica desde Parmênides, Platão e Aristóteles” [NOZIS 200].

O que é o homem como lugar de realidade? Como sua vida e comportamento deverão ser a partir deste posicionamento mais radical? Certamente não primordialmente, como diz o Prof. Ricardo, “ao sabor da metafísica da saudade portuguesa de estilo platônico de uma realidade nova que há de vir”, mas a partir da única posição que se dá, segundo a incitação zubiriana: “o homem como animal de realidades”.

                                   3.- O HOMEM COMO ANIMAL DE REALIDADES.

            3.l.- Zubiri e a lógica da realidade.

Por que o homem tanto apela à realidade? A insistência de tal apelo e a confiança que nele depositamos são apenas saídas “ingênuas” ou “positivistas”? Não, respondia-se Zubiri aos 26 anos de idade na primeira análise feita sobre La crisis de la conciencia moderna em l925. Tais respostas “não conseguem aconselhar ao homem nas suas horas de amargura outro gesto senão a resignação estoica diante dos ‘fatos’ ” [CCM, 210-220]. Porém, a vida humana não é para vivê-la resignadamente, senão para vivê-la realmente.

“Pois a vida, conclui Zubiri, não é só um problema filosófico, é também especialmente uma realidade e às vezes uma profunda tragédia. Para resolvê-la e para corrigir os desvarios da inteligência, é necessário certamente o freio das ideias. Mas seria inútil e injusto pedir à razão pura uma eficiência e uma virtualidade de que por natureza encontra-se despossuída; as verdades necessárias para a vida não basta conhecê-las, nem também só estudá-las; é necessário vivê-las para compreendê-las; e isto, embora não seja assunto da filosofia teórica, mas da vida real, não deixa de ter seu entroncamento no sistema” [ib. 223)].

O autor reflete já a sua grande preocupação pelo homem no meio da realidade das coisas. Os sofrimentos da Primeira Grande Guerra Mundial colocam em xeque mate a realização do mesmo. Mas, Zubiri já entrara no verdadeiro espanto filosófico com a confiança de poder descobrir uma nova luz para os problemas da humanidade. Como devia ser o seu entroncamento, também, no sistema do pensamento humano?

Xavier Zubiri é um homem e filósofo contemporâneo. Nasceu em l898 e morreu em l983. Só não viveu materialmente a queda do muro de Berlim. Mas, como todos os homens de sua época, sentiu na carne a dificuldade de viver sua vida humana no seu contexto espanhol e internacional e também os limites idealistas das novas propostas. O homem como senhor de si mesmo estava se autodestruindo e justificando os exageros dos mais diversos signos. Zubiri herda, através de Unamuno, a inconformidade da sua “razão trágica”. Mas é através de Ortega y Gasset que aprende a filosofar. O mestre o faz refletir sobre a crise da consciência moderna, dentro da crítica empreendida por Bolzano e Brentano propondo uma objetividade das coisas. Era necessário acabar com a “tirania da ideia”. A filosofia e todas as ciências arregaçaram as mangas e trabalharam nesse esforço crítico, que pode ser resumido na formulação husserliana da “volta às coisas”. A física quântica, a biologia, a linguística foram subsídios que Zubiri foi estudar para poder melhor entender a sua preocupação filosófica. Entretanto, percebe que o rigor de Husserl era insuficiente. Após estudar com o mesmo, procura Heidegger que o envereda na radicalidade do ser.

Todavia, será que o ser é a estrutura fundante da objetividade das coisas? O que estava em questão, não era só a volta  as coisas, mas o que eram as coisas. A fenomenologia abriu a Zubiri “o livre espaço do filosofar frente a toda servidão psicológica científica” [NHD 14]. Assim nos anos de 1932 até l944 trabalha dentro do “âmbito filosófico de caráter ontológico ou metafísico”. A inteligência humana deve ter uma estrutura radical de imersão nas coisas, que o nosso filósofo chamou inicialmente de “lógica da realidade“, que deveria fundamentar a “lógica dos princípios” [NHD. 75] e não o contrário. Por isso, dentro do espaço livre do filosofar pergunta-se:

“Pois, é o mesmo metafísica e ontologia? É o mesmo realidade e ser? Porque já dentro da fenomenologia, Heidegger vislumbrou a diferença entre as coisas e o seu ser. Dessa forma a metafísica ficava fundamentada pelo mesmo na ontologia. Minhas reflexões seguiram um caminho oposto: o ser se fundamenta na realidade. A metafísica é o fundamento da ontologia. Assim o que a filosofia estuda não é a objetividade, nem o ser, mas a  realidade enquanto tal” [NHD 14-15].

 Zubiri agora se pergunta, mas por que o homem vive nessa crise da modernidade? Mais ainda, por que se está autodestruindo? Será que o homem é um animal contraditório? O filósofo queria criticar tal situação. Mas como? Qual o caminho? Deparava-se frente ao urgente e o imediato do sofrimento humano, mas como mudar tal situação? Zubiri filosoficamente não entrará no “coeficiente de provisoriedade” das urgências que ameaçava a muitos dos preocupados com o bem da humanidade. Contudo, será fiel o máximo possível ao saber filosófico. Qual é a realidade humana diante da crise que atravessamos? Então, pergunta-se “de onde arranca, em que consiste, em último análise, a última razão da existência humana como luz  das coisas ?” [NHD 286]. E não é essa a mesma expectativa quando nós também apelamos a solução das dificuldades da vida? Não foi esse também o espanto do jovem Euclides ao chegar ao sertão baiano? Não foi essa a mesma situação indagadora que M. V. Llosa se defrontou quando os filhos das famílias ricas peruanas se aproveitavam sexualmente das empregadas e que culminou ao subir os Andes para investigar a morte dos jornalistas?

No esforço filosófico não podemos usar apenas uma crítica hermenêutica dos diferentes apelos humanos de explicar a realidade. A filosofia vai sempre além (metha). E de múltiplas formas Zubiri tentou chegar à realidade. Por isso defendemos, com Pintor Ramos falando de Zubiri, que “o recurso à realidade não é nenhum recurso ao ‘senso comum’ ou a alguma coisa parecida, mas o resultado de um penoso esforço mental” [GFFZ 106]. Portanto, por que essa espécie de ultimidade que damos à realidade, como único pressuposto válido de nossos métodos, teorias e pontos de vista e mais ainda de nossos comportamentos e de nossas vidas?

Zubiri viveu como nós numa época em que a realidade estava levando uma nova rasteira com as construções pós-modernas.

“Hoje, afirma o autor, estamos todos inegavelmente envolvidos por uma onda sofística. Como nos tempos de Platão e de Aristóteles, também hoje nos arrastam inundatoriamente o discurso e a propaganda. Mas a verdade é que estamos modestamente instalados, mas incontestavelmente na realidade” [IRE 15].

Como Zubiri teve a ousadia de fazer tal proposta com consciência filosófica? Seu atrevimento não foi fruto de ímpeto ibérico, pois antes de determinar sua pesquisa vai se munir com preferência dos pontos de vista das ciências matemática, física e biológica, como também da psicologia, sociologia, filologia e história das religiões. Muito bem resume Pintor Ramos tal situação de Zubiri, como a que hoje nos preocupa.

“Através desse material Zubiri se perguntará o que é a realidade enquanto tal, o que é o que faz que todas essas realidades sejam precisamente realidade… A realidade não é o resultado de uma espécie de enquete indutiva que reúne uma série de características que aparecem em todas as realidades, mas principalmente a base que faz que emerjam essas características; embora, também é certo que na nossa situação, não teríamos acesso à ela sem passar o longo calvário de seus modos de manifestar-se em distintas realidades concretas” [GFFZ l05].

Proibido de lecionar na Universidade de Madri, e por tanto de seu salário, exila-se dentro de Espanha. Seu ensino limita-se aos Cursos Particulares, muitas vezes assistidos pela polícia franquista. Os temas sempre são sobre o homem: Três definições clássicas do homem (33 aulas, 1946-47), Cuerpo y Alma (34 aulas, l950-51), La libertad (33 aulas, 1951-52), El problema del hombre (35 aulas, 1953-54 ), deste ano em diante os cursos são cada vez menores, mas sempre o tema central é o homem, assim em l959 continua discutindo El problema del hombre e no mesmo ano Sobre la persona (5 aulas), em 1961 o Sobre la voluntad (5 aulas) e logo após lançar o Sobre la esencia (l962) discute o tema El hombre, realidad personal. Claramente Zubiri estava preocupado com o homem, mas como recuperar sua realidade humana ?

O próprio autor, como ser humano, sofre na carne os exageros das construções do idealismo nacionalista franquista e republicano. Como aceitar uma guerra civil? Nem por isso tomará atitudes imediatistas, pelo que será mal interpretado e sofrerá consequências dos dois lados. Ele tem uma grande suspeita: será que não foi dado aos conceitos a função primária e radical para dirigir a realização do homem? Então, que tipo de coordenadas foram usadas para pensar o homem?

Como resposta a estes questionamentos Zubiri elaboraSobre la esencia. A edição esgotou-se em poucos dias. Mas também ficou sozinho. Não trazia uma resposta existencialista, tão em moda na época. Ele estava no afazer filosófico próprio, e não se deixava levar pelo imediato e urgente, mas procurava o importante e o último, onde a vida humana pudesse ser construída a partir de sua própria realidade. Zubiri está no campo da metafísica. Mas é possível fazer uma tratamento metafísico da realidade sem justificar previamente a possibilidade desse mesmo saber? Zubiri o tinha conseguido em Sobre la esencia, e por isso não estava sendo entendido. Num mundo onde  tinha sido decretada a morte da metafísica ele retoma sem medo “à primariedade com que Aristóteles aborda este problema, como um convite a replantear o problema da estrutura radical da realidade e de seu momento essencial” [SE 6]. Como podemos “assegurarmos da retidão de cada um dos nossos ulteriores passos intelectivos” se não nos perguntarmos “pela unidade principal da coisa real“? [ib. 18]. Então, que tipo de realidade estava sendo apreendida por Antônio Conselheiro, pelos jagunços, pela Igreja e pelos republicanos? Como estava sendo “construída” essa realidade? Que tipos de conceituações estavam sendo usadas, que garantissem a apreensão da realidade enquanto realidade? Só assim poderemos encontrar a consistência de seus comportamentos, que não deverão ser impostos, mas coerentes com a mesma realidade.

            3.2.- Explicar ou descrever a realidade.

O que é, então, a realidade enquanto tal? Que pode esperar o homem dessa realidade? Que tipo de realidade é o mesmo? Ele pode fazer-se cargo e tomar conta dessa realidade?

Para poder melhor entender o caminho do autor na procura da realidade, perguntamo-nos: qual é o método ou estatuto noológico, na sua própria expressão, que Zubiri vai estudar a realidade? Para ele só ha um caminho: os fatos e não as teorias. O autor penetra dentro do que os diversos positivismos apenas indicavam, e preocupa-se com aquele resíduo que as teorias da consciência desprezavam. Por isso afirma o pesquisador zubiriano e hoje diretor da Fundación Xavier Zubiri Diego Gracia: “A filosofia de Zubiri não é primariamente ‘hermenêutica’, como a de Heidegger, mas ‘positivista’; é o positivismo radical, frente aos positivismos superficiais e penúltimos” [VV 204].

A chave do filósofo para chegar à realidade é “ater-se aos fatos“. Vamos resumir a profunda exposição do tema por Diego Grácia no item 7 do IV capítulo da obra citada “Descrição ou explicação?” [ib. 203-210], analisando como Zubiri o expôs na sua obra Inteligencia y Razón. Ao ater-se às coisas, o homem capta os fatos na pura positividade, não como interpretação, mas como “apresentação”. Entretanto, essa positiva apresentação ainda não é um fato, para que tal aconteça deve ser observável por qualquer pessoa. As introspeções psicológicas são reais, mas não são fatos. Isto equivale a dizer que tal fato é ” o fato científico”? Não. Todo fato científico sempre faz referência a um sistema ou esboço racional. O cientista vai observar os fatos de acordo com os conceitos ou teorias determinadas a priori. Portanto, no campo das ciências não existem puros fatos, mas construções da razão. Então a realidade, na análise de Zubiri, é o fato que pode ser apreendido no ato da apreensão primordial ou da afirmação (logos) dessa apreensão. Na afirmação a apreensão da pura factibilidade é o que servirá de referência para seus atos, e não o que acontece na razão, onde sua referência é intencional.

Está claro que é dentro desta explicação, que pode ser entendido o que Mario V. Llosa falava de Canudos: ninguém estava vendo a realidade, porque todos a queriam explicar a partir de seus “prejuízos”. Quem conseguia ver melhor os fatos do arraial? Os sertanejos, Antônio Conselheiro ou os representantes da República e da Igreja? Quem estava fazendo referência à realidade e quem o estava fazendo a partir de seus pressupostos? Por isso, a melhor hermenêutica, sem levá-la aos extremos nos alerta Diego Gracia, será a da descrição dos fatos e não somente a da sua explicação, pois esta corre o risco de impor sua leitura da realidade. Da apreensão afirmativa (logos) surge o conceito descritivo de Zubiri como reconstrução do “puro fato“.

Zubiri, que, repetimos, se move dentro da temática filosófica, sentiu o apelo à realidade como todos nós, mas tentou dar um tratamento metafísico, não além da realidade, mas dentro da mesma. Ou será que a realidade depois de tantos apelos é oca, ou é apenas um modelo que podemos vestir e desvestir a contento? A análise descritiva dos fatos é proposta pelo autor como o estatuto ou o modo do homem flagrar a realidade. O fato que nós apreendemos e onde está a realidade não é produzido por nenhuma teoria, mas é o puro-fato, é o que está presente em e por si mesmo e que pode ser observado e apreendido por todos. A maior ou menor adequação à realidade explica-se a partir da afirmação da realidade pelos logos, que tira a definição da mesma. Os fatos científicos serão sempre verificáveis como tentativa de explicação do que já, é a realidade mesmo. Dessa forma ao mover-nos na análise zubiriana estaremos garantindo o contato com a realidade, entanto que ao ater-nos às teorias produziremos explicações verificáveis, que dependerão de seu confronto com a realidade. Assim a análise dos puros-fatos mantém o apelo que fazemos à realidade, nos enraizando cada vez mais, pois embora não possamos ter a garantia da total adequação, temos a firmeza de que são caracteres efetivos da realidade. Os fatos filosóficos a que devemos ater-nos não funcionam como uma rede de circo para não quebrar-nos no chão, mas são a confiança efetiva de que deles todos podemos partir para reconstruir o verdadeiro sentido da realidade. Explica Zubiri:

“A realidade profunda não é algo inteligido como se fosse uma magna coisa, mas o modo de estar atualizada esta realidade profunda é ‘estar-fundamento’: realidade fundamento” [IRE 171].

Por isso, que a hermenêutica zubiriana não é pura explicação, mas descrição da realidade. Assim Zubiri justifica seu estatuto noológico:

“Esta explicação não é questão de argumentos conceituais, mas é questão da análise dos fatos da intelecção, certamente uma análise complexa e não fácil” [IRE 14].

Assim, ater-nos à realidade é ater-nos primordialmente aos puros-fatos e aos atos da inteligência, e não aos fatos científicos ou às faculdades da inteligência. Zubiri procurou durante mais de 25 anos “afanosamente” a lógica da realidade deixando o campo da pura explicação dos fatos. Queria deixar-se levar pela força da realidade. Como? Foi durante mais outros 35 anos que estabeleceu o resultado de sua investigação do real através do tratamento metafísico do mesmo. O fio condutor dessa tão fecunda etapa foi o mesmo: “é, repito, a etapa determinada pela inspiração do real enquanto que real” [NHD 17].

Sentimos a seriedade de nosso filósofo e a fazemos nossa, melhor de todo homem. Mas será que tal reflexão sobre o real nos pode conduzir à sensação de que cairemos mais uma vez numa espécie de euforia anestésica da realidade produzida pelos conceitos? Tal tarefa não é fácil, como não foi para Zubiri, que durante muitos anos ficou sem o emprego da Universidade e até sem discípulos. Por que apelar tanto ao real, se ele é apenas um conceito? A filosofia sempre suspeitou que não fosse assim. Por isso seguimos nossa investigação de que Antônio Conselheiro é documento vivo da realidade humana.

            3.3.- Intencionalidade ou apreensão da realidade.

A realidade dos Canudos era, e é, a realidade do Brasil, como também da América Latina. Uma trágica realidade: justificada pelas ideologias, mas explosiva por aqueles que ainda mantinham uma relação radical com a mesma. Como justificar a exploração do homem  seja ela política, econômica, religiosa, empresarial, sexual, intelectual, do marketing, da mídia ou do bandido que sequestra, mata e estupra? Temos a sensação de que somos usados à contento de intenções, sempre de “boas intenções”, como objetos úteis para as mesmas, mas não para nós como realidade própria com identidade pessoal. Por quê? Por que o “homem” sempre foi tema de reflexões e estudo de teses, dissertações, seminários, monografias… mas que no final recebe um tratamento de objeto de consumo das boas intenções do poder vigente? Eis a queixa dura do índio xavante Aílton Krenak [NPT 4] a respeito: “Para mim é natural que uma pessoa que pertence à tradição de cientista sociólogo, como o professor Jaguaribe, fique fazendo laboratório com a cultura alheia”.

Entretanto, eis a resposta já madura de Zubiri a tal impasse:

“Por que a filosofia moderna, dentro de todas as diferenças, tem estado montada sobre quatro conceitos que, ao meu modo de ver, são quatro falsas substantivações: o espaço, o tempo, a consciência e o ser. Tem-se pensado que as coisas estão no tempo e no espaço, que são todas apreendidas em atos de consciência e que sua entidade é um momento do ser. Agora bem, no meu modo de ver, isto é inadmissível. O espaço, o tempo, a consciência e o ser não são quatro receptáculos das coisas, mas carateres das coisas que já são reais, são carateres da realidade das coisas, de umas coisas, repito, já reais em e por si mesmas” [NHD 15].

A realidade, que no despertar filosófico foi a alteridade de riquezas inesgotáveis, hoje se tornou apenas um referencial confuso do conhecimento humano. Desenvolveram-se tanto os processos cognitivos e teorias do conhecer, que ao procurar a realidade embalada com tanto esforço, a encontramos desfigurada, entificada. É objeto de muito estudo, mas não como alteridade enriquecedora. Não podemos contar com ela como o outro de nossas vidas: é um ser digno de lástima, que só nos faz sofrer. Mas Zubiri é categórico: “só existe o real sendo, realitas in essendo. Pois, o ser é tão só um momento da realidade” [ib. 16]. Não podemos abrir mão da presença da mesma, embora não a conheçamos. Qual seria então o ponto de partida para pensar e conhecer a realidade das coisas? Não podemos abrir mão do tratamento metafísico: a realidade enquanto realidade e de que o homem como realidade no seu ato radical de intelecção apreende e atualiza o real primordialmente. Pois o homem não é uma contradição. Que houve para que as coisas agora sejam o secundário arrancando delas a sua identidade real?

Zubiri além de filósofo é doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. É dentro da teologia que o autor também se coloca o problema da realidade de uma forma crítica. Vejamos a clareza de tal questionamento:

“Com todas suas limitações, a filosofia grega nasceu, pelo menos, de si mesma, frente às coisas em imediato contato com elas. Mas o homem da era cristã não se encontrou consigo nunca de uma maneira imediata, senão mediante Deus, quer dizer, com o olhar fixo no ente infinito” [SPF II 117].

Quais foram as consequências para ambas? No embate de defender o poder do Deus bíblico, frente aos pagãos, a teologia cristã vai posicionar a filosofia “num sistema de referência” que não é o da mobilidade grega, mas da niilidade: como se Deus tivesse criado o mundo “a partir da matéria informe”. Desta forma o pensamento bíblico através dos primeiros cristãos, vai descrever a criação com categorias helênicas identificando o relato bíblico do Gênesis com o Timeo de Platão.

            Zubiri não está interessado, como o teólogo Enry de Lubac no seu livro La posterité spituale de Joaquin de Fiori, em esclarecer o ideal messiânico na civilização ocidental. Isto não explica e encaminha a situação desenraizada do homem contemporâneo. O problema não é só entender, mas dar a possibilidade ao homem de se realizar. Zubiri entende que logo depois dos primeiros pensadores cristãos a filosofia entra num sistema não real, mas intencional.

O logos grego que revela a estrutura íntima do real é interpretado desde o logos criador, salvador e revelador bíblico. A verdade filosófica não é mais a patência (descobrimento) das coisas, mas sua razão última está em Deus. “Neste momento, afirma Zubiri, a ‘palavra de Deus’ tem-se convertido na ‘razão do universo’, e o mundo clássico alojou-se definitivamente no pensamento cristão” [SPF II 109].

Como fica então a relação do homem com as coisas? O logos grego e por tanto o ocidental, adquire dimensões absolutas: as coisas são uma manifestação da razão divina, porque elas provém de Deus. Assim a natureza é racional antes de ser real [SPF II 113]. As coisas não são como elas são, mas são criadas. É a razão toda-poderosa que as tira “desde o nada”. Por outro lado a categoria grega de substância vai configurar o conceito de pessoa cristão em termos subjetuais; embora não seja esse o conceito bíblico e cristão. No pensamento bíblico a pessoa é o alento vital, o sopro e o espírito. No Novo Testamento, o Cristo não é uma mistura de naturezas divina e humana, mas é uma unidade física, é pessoal. Assim, no embate estabelecido entre os conceitos de pessoa e de substância, esta acabará impondo o seu horizonte subjetual. Desta forma sintetiza Antonio González a tese de Zubiri ao falar da Trindade:

“Para Agustín em Deus não haverá mais que uma substância, e as obras ad extra das três pessoas serão comuns. A pessoa não é aqui uma substância natural, mas sim um sujeito de seus atos, anterior e distinto dos mesmos. Esta ideia será decisiva, segundo Zubiri, para o desenvolvimento histórico do conceito de pessoa na história da filosofia, concebida cada vez mais segundo o modelo de um sujeito alheio à natureza (cfr.SH 106-107). Na realidade, o conceito de substância e o de sujeito coincidem em referir-se ao ipokeimenon a suas ações e propriedades. Mas, embora a ideia de substância destaque o caráter natural da mesma, o conceito de sujeito indica justamente aquela separação da natureza que Zubiri tem destacado como característica do horizonte da niilidade. Entretanto, o problema colocado pela teologia à filosofia moderna não se esgota na mesma teologia, mas deita suas raízes no conceito grego entendido numa perspectiva nova: é o conceito da realidade como algo subjetual” [NTFZ 15].

Certamente que sempre houve discrepâncias tanto antigas com Ricardo de São Vítor (existência), como modernas com W. Pannemberg (sujeito-de e sujeito-a). Mas, que continuam sendo pensadas dentro da categoria de “sujeito”, como “alguém diferente de sua atividade” [ib. 18]. Tanto o pensamento cristão, como o pós-helênico acomodaram o pensamento do outro dentro de perspectivas próprias esvaziando as coisas e a pessoa de sua realidade.

Pela via da análise crítica da teologia, Zubiri chega a mesma problemática para encaminhar sua preocupação pelo homem contemporâneo. É o que queríamos indicar para a nossa pesquisa: estamos pensando sobre conceitos de niilidade e de subjetualidade desligados da realidade tanto das coisas como do homem. Assim posiciona Antonio González a proposta zubiriana antes de expor sua relevância para a teologia:

“Realidade frente ao ser, apreensão frente ao logos, suidade frente ao sujeito, serão três dos conceitos chaves que Zubiri utilizará no seu enfrentamento crítico com a filosofia inteira desde Parmênides até os nossos dias” [ib. 20].

            3.4.- A apreensão da realidade por Antônio Conselheiro.

O real não é sinônimo do físico como a classe de “corpos inanimados” ou como um “círculo de coisas”. Para a antiga filosofia físico é “um modo de ser”, que brota de si mesmo, opondo-se ao artificial, cujo princípio está na ideia do artífice. O real não pode ser de nenhuma maneira artificial e por tanto intencional como nos “séculos pós-cartesianos tão pouco exigentes em sentido de precisão” [SE 12]. Mas o real também não é a “coisa-sentido” de Heidegger, que representa os usos dados pelos homens. Como podemos verificar a descrição da realidade foi o sério desafio que Zubiri realizou consciente tanto humana como filosoficamente. Ele deixou um tratamento sistemático da realidade. Aqui vamo-nos limitar a alguns pontos chaves para o esclarecimento de nossa indagação: Antônio Conselheiro, documento vivo da realidade humana. Uma vez descartada, no possível, a via intencional (concipiente, assim chamada por Zubiri) ele continua através da “simples análise” (não da análise simples como ele mesmo esclarece) do ato da intelecção como momento mais radical de realidade. A intelecção não é faculdade, nem consciência, é antes de tudo apreensão. O que é essa apreensão?

“Na intelecção algo me ‘está’ presente do que eu ‘estou’ dando-me conta. A unidade indivisa destes dois momentos consiste, pois, no ‘estar’. O ‘estar’ é um caráter físico, e não só intencional da intelecção… A unidade deste ato de ‘estar’ entanto que ato é o que constitui a apreensão… a apreensão não é uma teoria, mas um fato: o fato de que estou dando-me conta de algo que me está presente…” [IRE 22 e 23].

Estamos no maior nível de radicalidade descrito por Zubiri de como nós chegamos ao real: ele está presente porque o capto como presente. As formas lógicas, científicas… (também as messiânicas ou sociológicas), são princípios racionais, e “não dados imediatamente manifestos da mesma apreensão”, esclarece Diego Gracia citando o alerta de Juan Bañon [VV 128-129]. A apreensão da realidade é independe do nível de desenvolvimento dos conhecimentos humanos. Ela é o único patamar de nossa vida. Não há como tampar o sol com a peneira. Por isso quem esteja mais desprovido dos prejuízos ou ideologias de qualquer tipo, estará mais perto da realidade. Não há dúvida, que é por isso, que todo e qualquer homem apela para a realidade como único ponto de apoio e fidelidade de seu comportamento.

Dedicamos nossa dissertação de mestrado (A ética da inteligência e a inteligência da ética em Xavier Zubiri) aos questionamentos e compreensão da inteligência como apreensão da realidade. Desenvolvemos largamente o que Zubiri entende como apreensão de realidade [pp. 93-136],entretanto aqui retomaremos tal assunto apenas resumidamente para a sequência de nossa problemática. Mas antes ponhamos um exemplo que nos pode ajudar tanto na compreensão da apreensão zubiriana, como na indagação em que estamos ocupados. O prof. Ricardo Vélez Rodríguez, no Seminário Ética e Política na Cultura Brasileira, quando debatemos os diferentes modelos éticos brasileiros, pede para ler o texto do dia três vezes “para morrer na praia” e até cinco vezes para captar e apreender a realidade do texto. Pois bem, no início de cada sessão pergunta-nos: “resumam como o texto os impressionou“. Para que possamos dar nossa impressão deveremos ter lido o texto, quer dizer, devemos ter sido impressionados pelo mesmo no ato da leitura; só então que poderemos ter a compreensão maior ou menor pela reatualização do mesmo. Só a partir daí que se abrem as possibilidades para o nosso afazer filosófico. Terá aproveitado mais quem tenha estado mais em contato com o texto, que por sua vez, o abre para novas realidades. Mas voltemos a descrição de Zubiri.

A apreensão, na sua análise, é uma apreensão senciente, pois é essa a forma primordial que o homem se enfrenta com as coisas. O sentir é impressão. No primeiro momento da impressão somos afetados pelas coisas. No segundo momento, o que afeta ao senciente, é algo presente como “outro”, que no terceiro momento impõe-se ao senciente.

Pois bem, é neste segundo momento que o “outro” é realidade. O homem, à diferença do animal, independe do conteúdo, das qualidades ou dos sentidos das coisas. Embora o homem também possa e deverá trabalhar com essas categorias, isso é insuficiente, alerta Zubiri. Porque “devemos ancorar nossa reflexão sobre a alteridade” (IRE 33).

A alteridade é para o animal puro elemento de subsistência, é objeto. Para o homem essa alteridade é realidade. O animal passa fome. O homem sente a fome captando que ela é algo próprio. O que sente o animal é signo-de (estímulo) resposta. No farejar do primeiro alimento ele comerá, e até morrerá se estiver envenenado. O homem sente na dimensão humana: sente que aquilo que está presente tem características próprias e que lhe pertencem independente de sua apreensão. É a realidade. Por isso ele consumirá a comida envenenada mesmo para se matar. Assim se expressa Zubiri: “Realidade é o caráter formal – a formalidade – segundo o qual o apreendido é algo ‘em próprio’,  ‘de seu’ ” (ib. 10).

Estamos enraizados na realidade pela impressão que recebemos das “notas” das coisas. Este é o único gancho possível tanto pelo sentir, como pelo inteligir numa estrutura única de “apreensão primordial da realidade”. Porque no homem não se dão separados. A alteridade de realidade são essas “notas” em oposição ao que está ignoto, “com tal que, se apressa em esclarecer Diego Gracia interpretando Zubiri, se elimine toda alusão tanto ao conhecer (isto seria mais bem o cognitum), como ao saber (que deu origem à noção e à notícia)” [VV 169]. Tais “notas”, então, são independentes da apreensão, mas só são apreendidas pela apreensão. Por isso, “as notas apreendidas, por ser ‘de seu’, independentes, tem um caráter formal próprio: são constituição, a constituição do real” [IRE 201].

Mas que tipo de constituição possui o real? Poderá ser manipulado? A análise zubiriana está cada vez mais exigente. Uma nota ou várias “notas” constituem a realidade. A esta “suficiência”, a essa “autonomia” o autor denomina de substantiva. É a substantividade do real: a alteridade substantiva.

Entretanto a realidade não é apenas substantiva nas coisas, mas de uma maneira especial no homem. Daqui que o mesmo não pode ser realizado como substância=sujeito, mas como a única substantividade capaz de apreender as coisas como realidade. O homem é a única realidade “aberta”, pois a estrutura senciente do mesmo apreende a realidade “sentida em impressão de realidade” [SE 507]. O homem antes de nada é animal senciente. Quer dizer antes de ser animal simbólico, falante, estético, racional, político, técnico, é aberto à todas as possibilidades humanas e, só por isso, é animal de realidades. O “seu modo de ser” não é artificial e nem pode ser realizado com boas intenções. Ouçamos a primeira formulação de Zubiri em l963:

“Só no homem -e isso pela sua inteligência-assistimos à constituição plena e formal de sua estrita substantividade individual: é a “inteligização” da animalidade. Pela inteligência o homem enfrenta-se com o meio e consigo mesmo como “realidades” -nisto consiste formalmente a inteligência- e na sua virtude se possui a si mesmo como realidade formalmente  própria” [SE 173].

Segundo esta proposta zubiriana a figura do Antônio Conselheiro no meio do arraial dos Canudos adquire novos traços. Quem está mais perto do apelo da realidade, que só pode ser feito através da apreensão impressiva da mesma?

É claro que todos os homens vivem a vida. É certo que todos os componentes do arraial sentem a sua realidade. Mas enquanto para os jagunços, os padres e os republicanos as “notas” dessas realidades podem ser apenas qualidades, notícias e informações que podem ser aplicadas ou não, para o sertanejo e para Antônio Conselheiro são “notas” sentidas que os enraízam na realidade, dela tiram seu sustento e com ela convivem. Essas “notas” são a alteridade com a qual sempre podem contar, nem sempre facilmente. O sertão não abandona ao seu habitante, porque este está numa relação real: a apreensão primordial da realidade.

Euclides ficou impressionado com o sertão, com o sertanejo, com Antônio Conselheiro e o drama que estavam vivendo, mas, embora tenha tentado, não conseguiu ver a realidade. Tirou suas conclusões, suas impressões, embora honestas, impondo-as como mais um gesto de boas intenções (positivistas e literárias) dos dominadores. Não é o agreste primordialmente que se abre ao homem, mas este que pela impressão da realidade se abre ao sertão: a realidade das coisas, onde se realiza o animal de realidades. Só o homem é realidade aberta, que apreendendo o real e sem sair dele, vai realizar todas as possibilidades guardadas na realidade. Euclides impressionado pela realidade, não soube descrevê-la. Cobriu-a com o manto do pessimismo das intencionalidades vigentes das raças inferiores, do sebastianismo e da dominação culta, que são conceitos, mas não são a realidade.

Antônio Conselheiro não é o “resumo do mal social”, não é a explosão de “todos os componentes nefastos étnicos”. Ele certamente não tem a “capacidade culta para se afeiçoar às situações mais altas” da intencionalidade, nem também é “delegado dos céus” para criar de novo os homens. Mas ele na sua vida sertaneja está ancorado e enraizado na realidade. Ele é o delegado da realidade, mas vitimado pelas ideologias até dos sanguinários jagunços. Foi a dominação dos homens de maior “fortuna” e “posição oficial” das famílias dos Araújos (ética do complexo de clã) que vão tirá-lo da realidade pessoal, familiar e social. Essas intencionalidades sempre se chocarão com a realidade, e no seu enfrentamento revelarão apenas que estavam tentando manipular a realidade. Ouçamos o próprio Euclides fazer o comentário ao depoimento do coronel João Brígido dos Santos:

“Os fatos criminosos a que se refere são um episódio apenas entre as razias, quase permanentes, da vida turbulenta dos sertões. Copiam mil outros de que ressaltam, evidentes, a prepotência sem freios dos mandões de aldeia e a exploração pecaminosa por eles exercida sobre a  bravura instintiva do sertanejo” [OS 114-115].

“A lei fatal dos tempos”, a que se refere o coronel, é a “prepotência” e a “exploração” da dominação sobre a “bravura instintiva do sertanejo”, quer dizer sobre o homem de realidades que vive no sertão. Este homem estabelece uma relação de vida a partir de sua realidade: a seca, a terra, os arbustos, os animais, o habitantes humanos e sua realização. O arraial, ao igual que para os índios tucanos ou xavantes, é o mundo das realidades, o único possível. A vida sertaneja do arraial era autônoma, suficiente na produção até para comercializar com outras comunidades nas feiras semanais e não aceitavam pagar impostos. Antônio Conselheiro está implantado nesta comunidade e a encarna. É claro que em torno dele estavam os aproveitadores, lideranças políticas e militares. Porém, ele é a independência e suficiência da realidade humana que vive reconstruindo a riqueza do real apreendida impressivamente.

O próprio Euclides não consegue, e nenhum artífice o conseguirá, deixar escapar essa relação real com as coisas. Vejamos alguns exemplos do homem do sertão como animal de realidades. A característica do sertão não é fácil mas “ampara-o muito além das horas de desesperança, que acompanham o esgotamento das últimas cacimbas” [ib. 41]. A primeira vista falta-lhes tudo, “é o homem permanentemente fatigado”, isso é pura impressão, puro preconceito. Pois o escritor não consegue encobrir a força da realidade do sertanejo e reconhece:

“Entretanto, toda aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpreendente do que vê-lo desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe  o desencadear de energias adormecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firmasse-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias [ib. 86-87].

Euclides brinda-nos com a melhor descrição do homem de realidades. O que realiza o sertanejo não são as ideologias religiosas ou políticas de que é obrigado a alimentar-se. Ele no seu sentir inteligente apreende cada realidade e por isso transforma-se reatualizando a força dessas realidades. As suas forças, não são originariamente religiosas, da dominação do clã, dos meios sociais, elas são humanas e provém da realidade aberta que é. No enfrentamento com as coisas deixa-se possuir humanamente pela força do real. Basta, como diz o autor, aparecer qualquer incidente, qualquer realidade, que o impressionando exige-lhe uma resposta decisiva para tomar conta da melhor das possibilidades. Aqui não há lugar para intenções ou prejuízos, mas é a força da inteligência senciente que desencadeia todo o processo intelectivo do ser humano atravessando todas as estruturas humanas. Só assim é que o homem resolve seus problemas “em todos os pormenores da vida sertaneja”. Não é essa a nossa experiência de cada dia?

Entretanto Euclides deixa-se levar pelas suas boas intenções “cultas”, “científicas” reconstruindo o arraial dos Canudos a partir de preconceitos religiosos e políticos. Assim Antônio Conselheiro, como todo sertanejo, provém da “mestiçagem das raças inferiores” produzindo desequilíbrios incuráveis [ib. 82], também da “mestiçagem das crenças” [ib. 104] e do “misticismo político do sebastianismo” [ib. 105]. Por isso Antônio Conselheiro :

“Em seu desvio ideativo vibrou sempre, a bem dizer exclusiva, a nota étnica. Foi um documento raro de atavismo. A constituição mórbida levando-o a interpretar caprichosamente as condições objetivas, e alterando-lhe as relações com o mundo exterior, traduz-se fundamentalmente como uma regressão ao estádio mental dos tipos ancestrais da espécie” [ib. 112].

A constituição do homem é “ideativa”, “mórbida” e “regressão dos tipos ancestrais”? Não foi a realidade do sertão que tornou pessimista Euclides, mas a maneira de descrevê-la a partir, sim, dos desvios ideativos e mórbidos dos dominadores bem intencionados da ciência positivista, da Igreja e da República.

Antônio Conselheiro não é um “agnóstico bronco” [ib. 112]. Ele não é “um grande homem pelo avesso” [ib. 113]. Antônio Conselheiro é o grande homem pelo direito: ele é animal de realidades, em cuja constituição, o próprio homem em primeira mão, abre-se às realidades enraizado nelas mas de maneira problemática na sua realização. Quem faz estardalhaço no sertão, não são os seus moradores, mas os que como permanentes colonizadores continuam a impor suas desencarnadas intenções. As lindas intenções literárias, as conjecturas e “mais lendas” de todo tipo e de todos os cantos farão de Antônio Conselheiro um “evangelizador monstruoso” [ib. 121]. É o desabafo do Euclides angustiado, do homem desquiciado da realidade, preso nas teias de seus preconceitos. É a triste conclusão de não conseguir romper a barreira da realidade confessando sua desolação e amaldiçoando-se na figura de Antônio Conselheiro. Mais uma vez rende tributo aos preconceitos.

“Aquele dominador, fala o autor, foi um títere. Agiu passivo, como uma sombra. Mas esta condensava o obscurantismo de três raças. E cresceu tanto que se projetou na História …” [ib. 121].

Infelizmente quem se projeta na história da vida dos homens são os processos ideativos, preconceituosos e ideológicos, “dissimulando a realidade” sempre, dizia P. Ricoeur. “Não querendo ver a realidade“, nos falava Mario Vargas Llosa. Zubiri irá mais profundo, pois através de tantas “lógicas” temos “entificado o real” e infelizmente nossos pensamentos e projetos se movem sempre em areia movediça.

Mas, a realidade é sentida e não pode ser concebida do nada, ela não pode ser entificada, pois explodirá de muitas maneiras. Entretanto o homem é animal de realidades, é uma realidade substantiva, constituída. Pois bem, o mesmo, ao inteligir o real, não pode descartar a unidade do processo do sentir (suscitação, modificação tônica e resposta), “nem se superpor à mesma como se tem feito desde a inteligência concipiente, ao longo da filosofia atual” [IRE 284]. Então o homem está ancorado na realidade, como que “implantado”, porque a apreende sencientemente e sem sair dela a reatualizará em todos os seus processos intelectivos e vitais. Dessa forma estamos imersos na realidade com certeza, mas sua reatualização será sempre problemática. Zubiri a estas alturas já respira aliviado com o caminho percorrido e nos diz:

“Vertido à realidade o homem é por isto animal de realidades: sua intelecção é senciente, seu sentimento é afetante, sua volição é tendente. Ao determinar estas estruturas especificamente humanas, a intelecção determina inexoravelmente o caráter próprio da vida no seu percurso. A vida humana é vida em ‘realidade’, portanto, é algo determinado pela intelecção mesma” [ib. 284-285].

Que tipo de consequências pode trazer tal leitura zubiriana para as ações e comportamentos dos homens do sertão? Como é a moral do homem de realidades?

(continuaremos)

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