Uma tentativa de aproximação de duas culturas

Os Meninos nas cartas Jesuíticas de l549 à 1558.

Por José Fernández Tejada

Nota importante. Tomo a liberdade de oferecer este trabalho de antropologia brasileira, que pertence às primeiras monografias do curso de mestrado-doutorado, ainda sem referências explícitas sobre Zubiri. Entretanto, o ofereço porque tem dois motivos muito importantes. O primeiro é como foi direcionando minhas inquietações livrando-me no possível de infinidade de preconceitos culturais religiosos e filosófico-científicos e ao mesmo tempo buscando a raiz das coisas e do homem para nossa época e história. Certamente já foi trabalhado e feito dentro da ainda não assimilado entendimento da proposta zubiriana, contudo seguindo suas inspirações.  Segundo, tem outro motivo muito relevante para mim, e espero que o seja para todos os que se dedicam a “pensar as coisas que dão que pensar”. Precisamos nos abrir Detrás desta preocupação escolhi a matéria de antropologia brasileira sem pensar nas dificuldades, a não ser senão adentrar-me no tema dos problemas brasileiros. Todos os colegas me criticaram por escolher aquela matéria, pois era oferecida pelo Prof. Paul Simon, especialista em Sartre, e falavam que era difícil de entender e muito rígido, e ainda sempre suspendia. De verdade fiquei com certo receio, porém não desisti dessa aparente predar no caminho. Chegou o dia de entregar minha monografia esperando de tudo. Eram, também, meus primeiros passos. Quando recebi a monografia me assustei. Eles estariam certos? Empezando a folear fiquei assustado, pois as páginas todas estavam corregidas, como um bom revisor de livros e trabalhos acadêmicos, tanto nas linhas como nas margens. Fiquei quase tremendo, contudo tinha feito o melhor para mim. Estava corregido até meu português. No final tinha folha e meia fazendo seu julgamento da monografia. Lendo-o foi percebendo algo diferente. E noutra página em dois pequenos parágrafos me dava nota máxima e ainda pedia para publicar. Se se quisesse podia usar suas sugestões para melhorar.

Como fiquei? Conservo esta “ajuda” na procura do melhor para a realidade humana e materialmente esta monografia assim corregida, diríamos de cima a baixo. Tenho um carin ho e cuidado até hoje. Porqur despertei “a vida”. Desejo que muitos, e você leitor, possam ter essa ocasião privilegiada de se abrir e andar no aprofundamento de sua intelectualidade seja na área que for.

Assim, fiquei meio atordoado e muito animado. Sobre Paul posso falar com alegria, que aprendi a pesquisar e escrever os temas de minhas preocupações dentro do âmbito da reflexão e da rigidez de pensamento. Louvo aqui, seu trabalho humano e intelectual, porque ele me empurrou para frente no afazer filosófico. Um verdadeiro mestre. Obrigado Paul Simon!

Trabalho publicado mais tarde na Revista Augustus. RJ. V. 05, nos 10-11, 2000. pp. 19-27.

RESUMO: É comum, também no ambiente educativo, lastimar nossa relação cultural com a península ibérica, principalmente com Portugal. O fato é que eles iniciaram a construção irreversível de um novo horizonte na história. Nossa proposta é fazer uma nova leitura antropológico-filosófica, desde o prisma da “ocidentalidade”, que os ibéricos implantaram na nossa cultura indígena. Mas ao acompanhar tal experiência, concretamente através das cartas dos jesuítas de 1549 à 1558, ficamos surpresos com as intuições e compromissos de elaborar e realizar projetos educativos. Refletimos sobre o primeiro projeto educativo do Brasil de cuidar integralmente dos meninos, já naquele tempo, para fazer uma “nação formosa”. Os desatinos foram grandes. Seu comprometimento maior ainda. Acreditamos que esta leitura educativa-existencial possa ajudar a enfrentar o nosso processo educacional e evitar, ainda hoje, o que foi o erro deles, as mais sofisticadas formas de ocidentalismo.

Palavras-chave: Ocidentalismo, Jesuítas, Meninos, Educação.

ABSTRACT: It’susual, also in educative atmosphere, lament our cultural relation with the Iberian Peninsula, fistly with Portugal. The fact is that they had begin an anreversible construction of a new history’s horizon. Our purpose is make a new antropologic-philosophy lecture, since the occidental aspect, that iberians implant in our native culture. But, if we attend this experience, concretely through jesuit letters between 1549 and 1558, stay surprise with intuitions and engagements to perfect and realize educative projects. Reflect about the first educative project on Brazil to take care of the childrens to make a “beatiful nation”, in that times. The folly was too big. Their involvement biger than. We believe this educative-existencial lecture can help us to oppose our educative process and avoid, nowadays, what was theirs mistakes, the most sofisticates occidental shapes.

Key words: Occidental, Jesuit, Childrens, Education.

            1. Introdução.

Os diversos movimentos ecológicos hoje são uma realidade. Aos poucos foram ganhando força, de tal forma que estão mudando o relacionamento do homem das supermáquinas com a natureza, e conseqüentemente, a própria visão do homem. Como podem coexistir e conviver as grandes indústrias, símbolo do desenvolvimento do homem, com as extraordinárias forças do ecosistema da mãe natureza? Mil perguntas poderíamos levantar e questionar. Mas o certo é, que hoje, o movimento ecológico é uma forma importante, que é transformado até em Partidos Verdes em quase todos os países do mundo, na tentativa teimosa de manter o alerta da convivência enriquecedora com a natureza. Não há dúvidas de que é um novo passo na “Descoberta do homem e do mundo”.

A luta pela ecologia conseguiu provar que é possível e necessária uma convivência pacífica e criadora para o próprio desenvolvimento tecnológico, respeitando até nos mínimos detalhes a própria natureza. A técnica não pode ser sinônimo de destruição da natureza, e esta não é sinônimo de atraso, pois o homem é uma realidade inteligente enraizado no Planeta Terra.

Este movimento ecológico ficou representado plasticamente, no início da década de noventa, no encontro histórico do cantor Sting e do cacique Raoni. Um cantor de rock e um índio do Brasil estampados, de mãos dadas, nas manchetes de todos os jornais.

Estamos focalizando nosso estudo. É possível a aproximação de duas culturas tão distantes em tudo? Os conflitos dessa aproximação são positivos ou negativos? Há quase 500 anos acontecia de uma maneira surpreendente e inusitada o encontro de duas culturas, com a chegada dos europeus ao Brasil. O português vestido dos pés à cabeça, levantando espadas e cruzes, e o índio nu. As armas e as insígnias dos europeus são para a conquista e conversão. As flechas nas mãos dos índios são para a sobrevivência. Certamente era a inauguração de uma nova experiência da humanidade, que estava mudando o destino do mundo e, com isso, possibilitando o nascimento de um novo povo: Brasil.

Os encontros e misturas de culturas e raças, que ocorrera aos poucos no decorrer da história nas mais diversas partes do mundo, e de maneira quase sempre violenta, como tinha acontecido na própria península ibérica, agora tomam uma nova dimensão irreversível e inédita. Aqui, pela primeira vez, o encontro de duas culturas separadas pelo Oceano Atlântico, muito diferente do Mediterrâneo, e milênios de anos. A européia e a dos índios do Brasil e de toda América. A européia, como caldeira em plena ebulição mercantil, econômica, religiosa, científica, artística, social e intelectual, representada nas forças de “El Rei” e a Igreja. A indígena unida a própria natureza com suas entranháveis possibilidades e mistérios.

Por isso a pergunta de espanto e questionamento de Pe. Nóbrega: “Que vós parece deste gentio do Brasil, segundo experiência, que tendes delle, os annos, que há que com elles conversais?” [Cartas Jesuíticas I: 232].(Transcrevemos ao pé da letra as citações no português original, tanto na grafia como no estilo diferenciado, segundo a categoria intelectual de seus autores).

Esta imensa distância das duas culturas é aproximada dentro da já vigente mentalidade ocidental: de “que todos temos uma alma e uma bestialidade naturalmente e sem graça todos somos nús” [Ib.: 238]. Nóbrega, porém, sente-se atônito e perplexo ao constatar as terríveis diferenças: “mas como são os outros todos mais polidos, sabem lêr e escrever, tratam-se limpamente, souberam a philosophia, inventaram as sciencias, que agora há, e estes nunca souberam mais que andarem nús e fazerem uma frécha?” [Ib.: 239]. Não é essa mesma a vivência existencial que experimentamos, ainda hoje, quando nos defrontamos com as mais variadas e bruscas diferenças étnicas ou sociais?

Realmente estas perguntas do Pe. Nóbrega representam a voz trêmula e corajosa da consciência dos jesuítas do encontro e enfrentamento de que são duas culturas absolutamente diferentes. Uma longe da outra, mas, já no mesmo questionamento, em grau de valores superior e inferior. Está claro que o padrão ocidental é superior, e será o padrão que vai moldar o inferior: os índios. Instala-se em terras do Brasil uma visão unilateral de conquistador, de inteligência, de poder, de religião, de verdade, de valores “superiores”.

Por isso, a conquista inicia mudando os nomes tupis e guaranis dos rios, das plantas, até dos índios, que expressam e representam o significado sagrado da sua relação com as possibilidades da natureza, por nomes europeus que são mais convencionais, e cheios de todas as ricas características e paradoxais estigmas da cultura, agora já poder, ocidental.

A coroa portuguesa, como tormenta incontrolável da cultura ocidental, manda o primeiro Governador Geral para garantir a ordem, a defesa comum e a unidade de todas as capitanias. É neste momento da colonização que chegam os jesuítas. Eles expressam a vontade do poder de D. João III e devem ser portadores de um padrão de comportamento social, moral, religioso, econômico, intelectual, como em Portugal. A cruz será o braço forte “d’El-Rei”.

Nosso intuito é descrever e resgatar a experiência e preocupação dos jesuítas, diretamente com os Meninos do Gentio. Este trabalho dos jesuítas também englobará na sua empreitada desde os Meninos Órfãos de Portugal até os Meninos do Gentio e Órfãos da terra. Há uma intenção premeditada: aproveitar a disponibilidade e o entusiasmo dos Meninos para educar e doutrinar os pais e os avós. Sendo assim, a missão religiosa dos jesuítas, aos quinze dias de vivência dessa situação totalmente nova, transforma-se no primeiro projeto educativo do Brasil.

Como isso se realizará? Neste ponto está o problema que vamos apresentar, sem deixar-nos levar pelas discussões antropológicas e filosóficas, que não formam parte de nosso trabalho. A este respeito pode ser consultado o excelente trabalho filosófico de Enrique Dussel, especialmente: 1492 O encobrimento do outro: Origem do mito da modernidade. Entretanto, nos restringimos ao trabalho de educação dos jesuítas com os Meninos nesses dez primeiros anos de atuação, para flagrar a presença irreversível do Poder do Ocidente; prejudicando, na maioria das vezes, todo o esforço de seu exemplar trabalho. Pois eles vão educar os Meninos sem perceber os costumes indígenas, e sem respeitar os comportamentos dos índios e dos valores neles inscritos. Como isso se deu?

            2. Por que os Jesuítas se preocupam com os “meninos”?

Os jesuítas, ao chegarem ao Brasil no ano de 1549, sentem o choque das duas culturas, de suas diferenças geográficas e climáticas, mas principalmente da maneira de viver neste Brasil. Eles têm roupas (necessidade imposta pelo frio da Europa), intenções mercantilistas, conceitos religiosos de cristandade, sentido de conquista. O índio está nu, símbolo de pobreza e miséria para o português. O índio deverá ser protegido, e por isso transformado. “Estão papel branco para neles escrever à vontade” [Ide. I: 125].

O primeiro contato com os índios é de satisfação, porém cedo sentem que é difícil converter os Gentios. Os jesuítas vêem somente as dificuldades como expoentes das qualidades negativas dos índios e fazem delas repetidamente minuciosa enumeração: “o largo costume que tinham, em comer carne humana, e dar-se a vícios sujissimos” [Id. II: 196]. “Porque em cousa nenhuma creem”[Id. I: 41], “e matam aos contrários” [Id. II: 197]. “A nenhuma lei, a nenhuma autoridade se submetem” [Id. III: 41]. Além disso, não tem moradia certa, bebem muito e são coléricos [Id. II: 76 e 77], “andam nús, moram em casas de madeira e barro, cobertas de palha ou cortiças de árvores” [Id. III: 45].

O trabalho dos jesuítas será, portanto, conseguir que deixem esses maus costumes e reuni-los em verdadeiras aldeias. Eles, no encontro com os índios, porque são do ocidente, só vêem os defeitos, os maus costumes; não conseguem perceber as significações profundas de cada particularidade desta cultura. Por isso, só há uma solução: “Havia que conseguir que deixassem os maus costumes e congregar a todos” [Id. I: 104], “que disto a glória do Nosso Senhor resultará e a terra se povoará em temor e conhecimento do Criador” [Ib.: 125)]. Estes intrépidos ibéricos e soldados de Cristo se sentem diante de uma grande tarefa, e não duvidam para “poder ter fruto com elles” acudirem à “força e (a)o auxílio do braço secular (…) para dominá-los e susbmetê-los ao jogo da obediência” [Id. III: 45].

Aqui está o centro da questão da aproximação desigual das duas culturas, mas já deslocado. Não vêem nada de bom, nenhum valor. A solução é usar todos os meios para transformar este “Gentio”. Aqui se assumem como o lado certo e único a que têm direito, obrigação heróica de agir e até de moldar o “outro”, segundo a outra forma perfeita do outro lado do Atlântico. Tal empreendimento vai ter seus acertos e seus erros. Esta forma de aproximação é justificável no esforço desinteressado por parte dos jesuítas, mas questionável nos seus desenvolvimentos e resultados.

Pois bem, os jesuítas, para conquistar o Gentio para “El-Rei” e para o “Reino de Deus”, descobrem uma brecha, um ponto de apoio: a aproximação e cultivo dos Órfãos de Portugal, que junto com os Meninos dos Cristãos e do Gentio será a esperança tanto desejada “para que deixando seus costumes, vai-se fazendo formosa povoação” [Id. I: 145], claro, ao estilo do Ocidente. Não chegam a perceber a milenar cultura indígena em total equilíbrio de vida com a Mata Atlântica (esta cultura já não é povoação formosa?). Destacamos que os Meninos Órfãos de Portugal dentro do grupo indígena representam uma parcela insignificante de valor e de poder de qualquer espécie, mas são do lado de lá: são do Ocidente.

Por isso eles podem ajudar. Realmente houve a intenção premeditada, como podemos concluir por esta observação, “quanto aos órfãos de que o Pe. Domenico tinha cargo, trabalharia que não mandassem mais, todavia este ano passado de 555 anos, mandaram 18 ou 20 à Bahia que não foi pequena opressão para os padres que ali estavam (…)” [Ib.: 152, 137 e 138. Id. III: 67].

Os jesuítas estão desbravando o caminho descoberto e traçado: a aproximação e convivência dos Meninos de Portugal e dos Meninos do Gentio será mais fácil e proveitosa que a dos adultos, já feitos. Psicologicamente eles estavam certos. A criança é mais aberta e sem preconceitos para interagir com os outros, e receber novos valores. A junção das vidas destes meninos, seria a melhor esperança para a aproximação e transformação de seus costumes e comportamentos.

É com estes meninos que eles vão trabalhar, traçando caminhos, métodos, aplicações, não economizando qualquer sacrifício “para que sucedendo depois a seus paes, tornem o povo agradável a Cristo” [Ib: 39].

O padre Navarro descreverá claramente, a 28 de março de 1550 da Bahia, a envergadura, não livre de erros e acertos, desta estreante tarefa educacional:

“Os mais velhos são tão maliciosos, em grande parte, que todo bem que lhes diga convertem, como aranha, em veneno; só aos pequenos acho com boa inclinação, si os tirassemos de casa de seus paes, o que não se poderá fazer sem que sua Alteza faça edificar um colégio nesta cidade com o destino a essas crianças para as educar, de maneira que com os maus costumes e malícia dos paes se não perca o ensino que se ministra aos filhos” [Id. II: 77].

A ligação está feita: “os Meninos Órfãos, que nos mandaram de Lisboa, com seus cantares atraem os filhos dos Gentios e edificam muito os Cristãos” [Id. I: 115].

Certamente nessa tensão conflitante e enriquecedora das duas culturas iniciou nossas primeiras diretrizes e nosso sistema de ensino com os primeiros colégios na Bahia e em São Paulo.

            3. A Casa dos Meninos

Em depoimento numa rede de TV, uma criança de rua responde à pergunta da jornalista: “o que é mais importante para você no dia de amanhã?”. “Eu quero uma casa para morar com minha mãe e meu pai”. Este depoimento é um verdadeiro paradoxo ao trabalho dos jesuítas de separar as crianças de seus pais. Mas ao mesmo tempo, a Casa dos Meninos será a resposta ideal encontrada para dar a essas crianças do Gentio e de Portugal a proteção de uma casa ao estilo de Portugal, do Ocidente.

A orfandade naqueles tempos, como há poucas décadas atrás, era realmente dura: pai morto e mãe sem condições de trabalhar para dar a união e o sustento de cada dia. Naquela época, as casas dos Meninos de Portugal e as confrarias eram uma valorosa tentativa de diminuir os problemas desta parcela de crianças desamparadas de teto para morar, de comida e de alguém que tomasse conta.

Os jesuítas se espantaram com a fragilidade da família indígena. Achavam muito semelhante à família das viúvas e dos órfãos da Europa. A final, os índios viviam em casas feitas de madeira e palha, diferentes das casas de pedra de Portugal. “São suas casas escuras e fedorentas e afumadas” [Id. II: 199]. Os índios não eram previdentes, pescavam e colhiam o alimento de cada dia; para os portugueses era como pedir esmola à natureza. Em Portugal se plantava no verão para poder comer, também, no inverno. Po isso os jesuítas “(…) que pretendi(am) criar os Meninos do Gentio” [Id. I: 137], “e vendo (…) a dificuldade de manter os Meninos que de lá vieram” [Ib.: 138], “trabalhavam para dar princípio a casas, que fiquem por enquanto o mundo durar” [Ib :137].

Era necessário fazer algo forte, sólido e duradouro, que desse proteção a estes Meninos. E nesta empreitada todos devem colaborar: “e logo assim, nós, por nossas mãos, como rogando aos índios da terra, como os escravos dos brancos e elles mesmos (…)” [Ib.: 138]. Um verdadeiro mutirão para cuidar e garantir a comida, e os cuidados dos Meninos.

Entretanto, a casa idealizada pelos jesuítas deveria alimentar aos Meninos de maneira regular e autônoma. Era necessário garantir alimentação diária e farta. Não se podia confiar no entusiasmo improvisado ou nas esmolas. “Porque as esmolas que se pediam não bastavam a um só comer, porque pouca gente nella (terra do Brasil ), que lhes pudesse dar esmolas” [Ib.: 138].

Por isso “assentamos de tomarmos terras e começamos a roçar e fazer mantimentos aos Meninos”[Ib. I: 138]. Mais adiante, Nóbrega relata todo o suporte conseguido: “Pedi terras ao Governador, ovelhas, alguns escravos d’El- Rei e umas vacas para a criação” [Ib.: 150] “Tem a casa um barco e escravos, que matam o peixe” [Ib.: 139]. Finalmente o resultado feliz: “Já agora que os mantimentos se vão comendo vai a casa em mui crescimento e os Meninos tem o necessário cada vez melhor” [Ib.: 138]. Os jesuítas estão entusiasmados, conseguiram quebrar as dificuldades, montar uma estrutura e assumir a responsabilidade de proteger e alimentar os Meninos “quantos se pudessem manter em casa” [Ib.: 150]. Por isso “tudo aplicamos à casa dos Meninos e nós no vestido remediando-nos com o que ainda do Reino trouxemos” [Ib.: 138]. Estes estreantes e entusiasmados educadores do Brasil não medem sacrifícios: os Meninos em Portugal e no Brasil são iguais e precisam proteção e comida. Certamente separam os Meninos do Gentio dos pais, mas com a intenção de dar-lhes, ao seu entender ocidental, um apoio maior, uma casa forte, um alimento seguro: “uma casa para morar” enquanto o tempo durar.

            4. A Escola dos Meninos.

Mas a preocupação pelos Meninos vai além das necessidades de proteção e comida. O homem é uma realidade inteligente e livre, que deve se realizar. Os jesuítas sentem que os índios “muito admiram de como sabemos ler e escrever”(Id. I: 92), e por isso a Casa dos Meninos será também “a eschola de ler e escrever”. Em todas as cartas dos jesuítas, mas principalmente em Nóbrega e Anchieta, vemos uma preocupação incessante de ensiná-los a ler e escrever para que melhor possam discernir as coisas. É claro, que, também, para melhor receber a mensagem do Ocidente. Será que eles têm consciência das imposições que estavam fazendo?

O trabalho da escola será feito pelos “Irmãos”, homens auxiliares, dedicados e que mais tarde poderão se tornar padres. Eles acompanharão os Meninos “explicando a lição de gramática [Id. III: 43], também, “o que diz respeito ao estudo dos elementos e à escrita” [Ib.: 36]. Eles são os companheiros, os professores e, principalmente, os educadores dos Meninos. Anchieta relata muitas vezes valorizando esse zelo do “Irmão explica(ndo) a lição de gramática (até) no campo” e “mesmo no frio se aplicam à lição” [Ib.: 43]. Eles serão os encarregados de visitar as aldeias dos índios para motivar e trazer os Meninos para as casas e escolas. O Irmão João Gonçalves será de suma importância neste trabalho de “contratar com os índios” [Id. II: 195].

Assim a escola será a grande oportunidade para despertar o pleno conhecimento das coisas, para poder melhorar a vida e os costumes dos índios. A escola é, portanto, a continuação necessária da Casa dos Meninos.

Cientes desta importância, os jesuítas se queixam de que não poderem, já naquele tempo, ter escola “de manhã e de tarde”, horário integral. Da mesma formal que em Lisboa, pretendiam que a escola em l559 fosse oferecida e aberta com horário integral. Por isso o Pe. Nóbrega se justifica: “(…) a eschola de Meninos, que (é) para isso cada dia uma só vez, porque tem o mar longe e vão pelas manhãs pescar para si e para seus paes que não se mantêm, d’outra cousa e as tardes têm eschola tres horas ou quatro” [Id. I: 179].

Os jesuítas fundaram colégios desde Piratininga, “que foi o primeiro”, até a Bahia: eles representam a semente e o início do nosso processo educacional brasileiro. É oportuno destacar, para efeito comparativo, que nesta época os franciscanos espanhóis já tinham fundado Universidades em São Domingos (1538) e, na época de nosso estudo outras duas universidades no México e em Lima (1551).

A orientação vocacional, na sua verdadeira dimensão, é uma função importante da escola e forma parte do processo educacional. Pois bem, os jesuítas naquele tempo iniciaram ao seu jeito este trabalho: se preocupando “(…) dáquelles (que) mostrarem e terem melhor habilidade para estudarem e melhores partes para poderem ser da Companhia, todos os mais órphãos são dados a offícios, por não serem para isso; a estes não vemos outro remédio, salvo tornál’os lá a mandar”[Ib.: 171].

A escola é uma realidade universal, abrangente e criadora. Por isso, deste trabalho dos Meninos nestas primeiras escolas nascerá o primeiro intercâmbio cultural entre o Brasil e a Europa: mandando Meninos à Espanha para voltarem “daqui a oito ou nove anos”, ou fazendo “troca com os Irmãos do colégio de Coimbra (…)” [Id. III: 68]. Também é bom observar que os jesuítas iniciam, também nesta época, o intercâmbio do Brasil para Portugal, e vice-versa, por questões de saúde.

Assim foi a vivência do primeiro projeto educativo que os jesuítas idealizaram e fizeram (sua) realidade na terra do Gentio.

            5. A Educação dos Meninos.

Na verdade a maior preocupação dos Jesuítas com os Meninos é educá-los. Despertar e cultivar  todo seu lado físico e mental. O homem é uma realidade inteira, que por ser individual, é social e histórica. Por isso, o fio condutor dessa preocupação é criá-los no momento para projetá-los no futuro. Um futuro incerto, e a realizar, que está acontecendo com a aproximação de duas culturas.

Como percebem isto? Como realizarão suas “boas intenções”? O que é educar para eles? Educar é abri-los à vida, acompanhar seu crescimento, é aprender a discernir o bem e o mal. “Sustentá-los em bons costumes com exemplo e contínua conversação” [Id. I: 125]. É cuidar dos “Meninos que havia muito perdidos e faltos de criação e doutrina” [Ib.: 150]. A conscientização, o diálogo, o acompanhamento são fundamentais na educação. Além da percepção dos valores dos educandos. Os esforçados educadores reparam que os Meninos “aprendem muito bem e há muitos entre eles de muito bom engenho” [Ib.: 158]. Até os valores físicos são percebidos e destacados: “(…) da segunda vez (o Irmão João Gonçalves) trouxe tres (Meninos) mui bonitos, a que o padre Ambrosio Pires poz os nomes dos tres Reis Magos” [Id. II: 195].

A educação dos Meninos é um trabalho sincero, que tenta ser inteiro, apreciando e cultivando: seu físico, sua mente, sua religiosidade e sua importância na cultura e sociedade. Assim entendemos o seguinte texto do Pe. Nóbrega:

“Estes sabem bem a doutrina (cristã) e as coisas da fé, leem e escrevem, já cantam e ajudam alguns a missa (…) depois uma hora, de noite, se tange o sino e os Meninos têm o cuidado de ensinarem a doutrina a seus paes e mais velhos e velhas, os quaes não podem tantas vezes ir à egreja…” (Id. I: 179).

Mas como era de se prever, há uma excessiva enfatização do lado religioso: “ensina-os a ler e fazer o sinal da cruz, a fazer orações, a se afeiçoarem no amor de Deus e no desejo do Batismo”[Ib.: 92 e 103]. Pode haver uma educação que possa prescindir das características antropológicas, sociais e religiosas dos educadores? Por isso para os jesuítas, que tinham ainda o voto de obediência, educar será também ensinar a obedecer. “Tem grande obediência aos Padres, ninguém da aldêia sai fôra sem pedir licença aos padres e se algum faz alguma travessura, faz penitencia, que lhe dão, e às vezes é disciplinar-se na egreja” [Ib.: 158]. Assim elogiarão repetidamente: os índios “carijós, (são) mais mansos e propensos as coisas divinas” [Id. III: 47]. Sob o seu prisma ocidental, obedecer não era virtude da grande maioria dos índios do Brasil.

A salvação divina é a finalidade última, e a educação, portanto, deve ser para a fé, e tudo deve ser feito. No desenvolvimento da educação dos Meninos são apresentadas a grande envergadura e a problemática da aproximação dessas duas culturas. Neste trabalho não são medidos esforços, porque “(…) neles está muita parte da edificação ou destruição desta terra, como também porque como línguas e interpretes, para nos ajudarem na conversão dos Gentios” [Ib.: 67]. Em Piratininga “temos uma grande escola de Meninos índios, bem instruídos em leitura, escrita e bons costumes, os quais abominam, os usos de seus progenitores…êstes são a nossa alegria e consolação, porque seus pais não são mui domáveis” [Ib.: 79 e 85].

Aqui novamente detectamos outro desenfoque do desenvolvimento dessa educação tão desafiante. Essa doutrinação, que é o grande serviço de Deus, começa a trilhar por caminhos questionáveis. Os jesuítas sentem-se empolgados porque os meninos “repreendem asperamente os paes, dizendo que serão assados pelo demonio, e já aprenderam “até abominar os costumes paternos…” [Ib.: 42]. Também, porque “freqüentam a nossa eschola” apreendem a não saudar, a não falar e a esconder-se dos pais, porque são abomináveis [Ib.: 42]. “Outros Meninos com a idade bem pequenos enganaram seus paes, dizendo que iam nadar para ter ocasião de se vir com o Irmão” [Id. II: 196]. Os Meninos “longe de mostrarem para ele(s) o amor (de filhos), pelo contrário, só lhe(s) fala(m) rarissimamente e de má vontade e compelidos por nós” e “assim antepõem em tudo ao amor dos pais o nosso, louvor e glória a Deus, de quem tudo procede” [Id. III: 42].

Educar é, agora, radicalizar as divergências? Este é o mesmo Deus que ensina honrar pai e mãe? O seu trabalho parece ter saído fora do enfoque inicial. Está noutro plano: o plano dos ” soldados de Cristo”, convencidos do lado da verdade e da Contra-reforma, imbuídos do poder ocidental. Esses Meninos, assim educados(?), são a sua consolação, porque já são do Ocidente em pensamentos e obras.

Para tanto a educação se transformará em ensinar leis de comportamento, formas externas justificadas pela fé e trabalhadas com todo sacrifício e abnegação. Ensinam às crianças “em cada sexta feira, (a) disciplinar-se com suma devoção até fazerem sangue, saem em procissão” [Ib.: 39]. Disciplinar-se é aprender a ter autodomínio ou aprender a destruir-se? Como pode o índio entender isto? Não é uma agressão? “Se por acaso algum deles se entrega a qualquer ato, que saiba aos costumes gentios, ainda que em proporções mínimas, quer nos trajes quer na conversação ou em qualquer outra cousa, imediatamente os escarnecem” [Ib.: 89]. Educar é motivar a dedurar os outros? Isto é educação à serviço de Deus?

O menino índio tem dentro da família uma participação especial: trabalha para abastecer de comida a sua família. Mas não poderá ser mais aos domingos. “Como se encontra-se um deles tecendo um cesto ao domingo, no dia seguinte o levou para a escola e na presença de todos o queimou, porque o começará a tecer no Domingo” [Ib.: 89]. O cesto não era para colher os frutos e os peixes para o sustento da família? A coordenação motora, o espírito criativo, a persistência no trabalho não são momentos importantes na educação? Só porque era Domingo? Domingo aqui novamente é uma lei externa da cultura religiosa ocidental. A religiosidade do índio está plenamente ligada aos ciclos da própria natureza e de sua sobrevivência. Os jesuítas, quando escrevem as cartas, parece que não partem de uma análise sincera dos valores reais dos educandos. Será que naquela época isso era possível? Mas com isso estavam destruindo o que com tanto sacrifício e dedicação tentavam educar.

Os símbolos e ritos para a cultura indígena, assim para qualquer outra cultura, são a pedra angular de sua leitura sobre a vida. O tembetá, a pedra de várias cores inserida num orifício profundo no lábio inferior dos jovens índios, era ritual cheio de significações, que representava virilidade, compromisso com o grupo e senso de individualidade. Pois bem,

“d’entre muitas cousas referirei uma que bastante me maravilhou, e foi ensinando um dia o Padre João de Aspilcueta os meninos a ler e fazer o sinal da cruz e tendo os ditos Meninos certas pedras de várias côres nos lábios, que é uso trazer  furados, e muito estimam, embaraçando as pedras de fazer o sinal da cruz, veiu a mãe de um delles e para logo tirou a pedra dos lábios de seu filho e atirou ao telhado; de repente os outros fizeram o mesmo: e isto foi logo quando começamos a ensinar” (Id. I: 92).

Novamente o poder ocidental dominando, invadindo e mudando, como num passe de mágica, significações milenárias que constituem parte da base existencial da vida do índio. Não poderiam questionar-se os jesuítas pelo que tanto eles estimavam essas pedras? Sentem-se como que realizados de que a mãe indígena arranque a própria identidade do filho, de seu povo. “O que me consolou muito”, concluirá pleno de gozo missionário o próprio Pe. Aspilcueta [Id. II: 97].

O índio vive nu neste Brasil. Para os jesuítas isto é sinal de miséria e de pecado. Para o índio uma total integração existencial com a própria natureza amena deste Brasil. Pois bem, os jesuítas fazem questão de vestí-los ao estilo do ocidente nas procissões, nas festas religiosas e no dia a dia com “o pano que El-Rei dá de esmola” [Id. III: 86].

Também, segundo a apreciação dos jesuítas, os meninos índios não têm, da mesma forma que seus pais, nenhuma noção religiosa; os feiticeiros são como demônios. Hélène Clastres [Terra Sem Mal da Editora Brasiliense] investigará este tema descobrindo a profunda religiosidade dos índios contra as impressões dos jesuítas. Estes de  tudo farão, sempre na melhor das intenções, para em pouco tempo tentar imprimir na alma dos mesmos a “verdadeira religiosidade”: a ocidental.

Os jesuítas não esquecem nem dos Meninos que morrem: “mas tem-se tento que não morram sem baptismo” [Id. I: 189]. Missão cumprida, “se batizam e mandam ao Ceu alguns Meninos que nascem meio mortos” [Id. III: 149]. Entretanto, qual é o sentido de tantos textos em que os filhos do Gentio por não serem cristãos se foram ao profundo do mar e “todos os cristãos até os Meninos de mama se salvaram?” [Id. II: 134]. Por que esta distinção exclusivista? Amavam todos os Meninos, mas a sua formação religiosa do ocidente os traíra mais uma vez.

            6. A volta dos Meninos à casa de seus pais.

A tarefa dos jesuítas era muito abrangente, determinada e heróica. Mas, a realização foi árdua e trabalhosa demais, extrapolando até nas suas boas intenções. Sentirão, também, as amarguras de não verem seus ideais realizados. As dificuldades são imanentes a toda realização: aproximar a cultura indígena em gritante oposição a aquela dicotomia, estruturada, de matéria e espírito da civilização ocidental.

As dificuldades externas e materiais sempre rompem o envoltório provisório dos ideais, e deixam o problema a olhos vistos. Há problemas, também, na sustentação dos Meninos. O imenso trabalho e mutirão pela sustentação dos Meninos está ruindo. “A esmola d’El-Rei é incerta”. As normas recebidas dos superiores em Portugal e Roma, diante daquelas amarguras, fazem concluir que “obrigamo-nos a cousas que não são do nosso instituto”, por isso é melhor “andal-nos doutrinando por suas povoações a paes e filhos” [Id. I: 152, 153 e 154]. Não era possível o trabalho de aproximação daquela maneira. E a falta de sustentação econômica faz repensar a opinião dos jesuítas, levando de volta os Meninos às povoações de seus pais: as aldeias e as malocas dos índios, verdadeira situação de origem para educar realmente e dar-se a verdadeira aproximação.

É a primeira lição aprendida. O educador deve chegar aos educandos, e não arrancá-los e criá-los em redomas, onde cultiva, muitas das vezes, seus próprios ideais religiosos, políticos e até pessoais.

Mas na base desta primeira experiência aprendida existe um problema mais grave. Estas necessidades materiais não são provenientes da pobreza da Mata Atlântica, nem da preguiça dos índios em colher seus frutos em ciclos perfeitos de sobrevivência, nem do esforço heróico dos jesuítas, que continuam dando suas vidas, suas esmolas e até suas roupas para os Meninos.

Mais uma vez, o responsável é o choque violento da aproximação da cultura indígena e dos maus cristãos, que moram no Brasil a apenas 50 insignificantes anos. Os responsáveis são os maus portugueses e padres que vivem no Brasil desde a chegada de Cabral. Os próprios jesuítas chamam a esta situação de agressora “de nossa desconsolação e trabalho” no ano de 1558. “A terra”, o Brasil, diante da chegada dos navios de Portugal com as provisões esgotadas, estava

“em aperto de mantimentos, porque não os havia para os da terra, porque os índios não o fizeram, nem os tinham e havia fome geram entre elles, a causa disso foi porque nunca estiveram seguros, mas medrosos que os expellissem da terra, como agora os expellem. Os cristãos tão pouco tinham, se não alguns, porque os desta terra (os cristãos em questão), mas se dão a folgar e jogar e passear, fizeram nesta terra antes de tempo côrte de Príncipes” [Id. II: 214].

Tanto o Padre Leonardo Nunes em São Vicente em 1550 [Ib.: 83 e 89], como o Irmão Antônio Blasquez na Bahia em 1558 [Ib.: 206], detectam e enumeram a raiz de tanto mal: “os desejos insaciáveis dos bens temporais”, “os tyránicos desejos”, “os interesses”, “a grande cobiça dos cristãos desta terra”, que “salteam as suas (dos índios) terras” e “lançam daqui de em redor da cidade dos índios”. Os maus cristãos, por isso, roubam as roças dos índios “por todas as vias”, – perseguem, enganam, mentem, fazem cativos, dão pauladas, e tomam as filhas e as vezes as mulheres, e “ferindo-os e matando-os”. “Esta é a piedade dos corações da gente desta terra (aqui maus cristão), assim para os corpos, como para as almas dos Gentios”, desabafará o Irmão Antônio Blasquez [Ib.: 207].

Por isso, “sobreveio grande inquietação entre os gentios, de maneira que cada um buscava fazer o ninho em outro frente, levando-nos os filhos já doutrinados onde não temos esperança de os ver” [Ib.: 206].

Esta é a terrível constatação dos jesuítas sobre o resultado de seu árduo trabalho; o choque da aproximação é violento. Alguma coisa está falhando. Vêem, apenas, uma parte do problema: o mau exemplo dos cristãos. Porque, longe das “Casas dos Meninos”, eles estão de novo brutalmente jogados na situação desestabilizada de origem, e no meio de suas famílias serão piores que os próprios pais. Porque com o mau “exemplo dos cristãos vão os índios imitando-os no mal, e assim ajuntam a sua maldade com a daquelles e fazem uma mescla diabólica” [Ib.: 207].

O desabafo da desilusão pedagógica do Pe. Anchieta é realista: “(…) os mesmos muchachos que quase criamos a nossos peitos com o leite da doutrina cristã, depois de serem já bem instruídos, seguem seus pais primeiro em habitação e depois em costumes” [Id. III: 92]. E mais adiante aceitará essa dura constatação: “trabalhamos muito com elles para reduzir ao caminho certo, nem nos espanta esta mudança, pois vemos que os mesmos christãos procedem da mesma maneira” [Ib.: 156].

Apesar disso, extrapolam o seu desânimo encontrando a explicação no “poder da salvação”: esta situação é obra do Demônio. “Nossos antigos discípulos, os quais como que há muito tempo tomando os costumes do Demônio, estão afeiçoados a este ruim mestre, que mui pouco querem aprender de nós outros” [Ib.: 166].

Este choque do comportamento dos maus cristãos chega a minar até a sua própria sinceridade e credibilidade, o seu bom exemplo: “ficamos entre elles (índios) havidos por mentirosos e por conseguinte toda a nossa pregação e doutrina desacreditadas” [Id. II: 206].

Entretanto, a sua coragem é maior; não desanimam, não desistem de sua missão, continuam visitando os Meninos nas aldeias de seus pais, trazendo à memória o batismo e os mandamentos. A sua dedicação plena, sincera e exaustiva continuará. Aqui um novo fato irá entrar na aproximação problemática das duas culturas, que é a chegada e atuação de Mem de Sá, que foge ao alcance de nosso trabalho. Com este novo fato inicia-se o segundo projeto pedagógico educativo no Brasil. As Missões, principalmente dos jesuítas, que coincidem com a mesma decisão dos franciscanos nos países que estão sendo descobertos e dominados pelos espanhóis.

            7. Conclusão.

Neste estudo de antropologia existencial das cartas jesuíticas, nos debruçamos na interação altamente complexa da cultura indígena e da ocidental. Certamente é a primeira grande experiência de encontro de duas culturas tão distantes e diversas no processo histórico da humanidade. Acompanhamos os jesuítas e portugueses, praticamente bloqueados, e até mesmo impossibilitados de entender a vida, os costumes e a vivência dos índios, porque sobrepujando sempre uma visão platónica-agostiniana, vêem aos índios como almas perdidas e aos seus costumes como demoníacos. Essa visão filosófica-religiosa (grego-cristã) do predomínio das coisas de Deus (iluminação, valores, objetivos e vontade divinos) serão o único ponto de vista para a explicação dos jesuítas: a salvação do homem, somente para honra e glória de Deus.

Devemos, entretanto, distinguir algo muito importante: uma coisa foi a vivência dessa aproximação, e outra a apreciação momentânea dos escreventes das cartas. Não há dúvidas, também, de que no meio dessa confusão devemos reconhecer momentos heróicos, integradores e lúcidos de abertura e estreita interação dos índios, dos jesuítas e dos portugueses, mas que se perderam no meio de tantos extremos e excessos da onda de ocidentalismo que se alastrava.

E parece que não poderia ser feito de outra maneira naquele tempo histórico do século XVI, quando definitivamente se instaura a ocidentalidade com o Renascimento. Na Idade Média, foi criado o mito do poder pela cristandade. As Duas Cidades de Santo Agostinho, com a prevalência absoluta da divina absorvendo totalmente com sua dinâmica e seus valores a terrestre, estão presentes na idealização e realização da missão dos jesuítas. Toda a realidade natural e humana é criada e regida por Deus, tanto nos meios, como no seu fim único e último de Salvação. Não há espaço para outros valores e direitos dos indivíduos de outras culturas, que serão sempre minados. Haverá uma única realidade: a moral cristã deturpada pelo platonismo que, com suas leis, regerá todos os comportamentos. O poder, a moral e as leis do ocidente subjugando o oriente “confuso, pobre”: agora a recém descoberta e milenar cultura indígena brasileira e de todo o continente americano.

É isso mesmo que presenciamos no acompanhamento do trabalho dos jesuítas com os Meninos: esforços incansáveis, incessantes, mas do Ocidente, que tentaram impor “pela glória de Deus” seus valores. Dessa forma, surgem as conseqüências negativas e positivas, que marcam a nova sociedade brasileira, que está se fazendo.

Mas o importante não é criticar para massacrar o passado, agiríamos como “ocidentais”. O homem continua vivendo e se aproximando sempre um do outro, uma cultura da outra. Quanto mais se abre aos outros, mais deve descobrir a sua própria identidade. Devemos, hoje conscientes, aprender com o passado para não mais cair nos mesmos erros. O trabalho em favor da ecologia é um bom exemplo: a convivência e integração das industrias de Cubatão com o meio ambiente da Baixada Santista e dos rios, não menos poluídos, Sena (Paris) e Tâmisa ( Londres) com os seus ecosistemas. Poderíamos pensar hoje que o ideal da humanidade é manter isoladamente suas culturas fechadas a sete chaves? Como discernir o momento da abertura? Que elementos deveriam interagir? Certamente, não os puramene econômicos, como na tão decantada globalização. Se para nós é difícil responder a estas perguntas e seus desdobramentos, como podemos cobrar isenção total dos jesuítas e portugueses na aproximação “necessariamente histórica” destas duas culturas?

No que diz respeito à educação, hoje temos a mesma tarefa e responsabilidade com as crianças do Brasil. Devemos trabalhar com eles para serem “nação formosa” da realidade brasileira neste fim de milênio. Os jesuítas não estavam errados no objetivo de tentar fazer, através dos Meninos, uma sociedade melhor. A falha foi retirá-los de suas famílias e impor-lhes bruscamente uma nova ordem totalmente alheia a sua cultura. Não é o que hoje fazemos com tantas instituições para menores abandonados ou com tantos jovens abandonados, embora, vivendo na casa do que chamamos “família”? Onde está a presença educadora dos pais se, segundo estimativas (Folha de São Paulo: Cad. Cotidiano. 13-8-1995, p.1), nascem no Brasil 200 mil crianças de pais desconhecidos? A casa do índio não era a frágil maloca construída de paus e palha, mas a sua instituição familiar formando parte da tribo. Enquanto a nossa casa hoje em dia é um lugar quase puramente físico para dormir e comer, cada vez mais vai perdendo a sua relação integradora de indivíduos entre si e com as comunidades mais amplas da sociedade.

Este é o nosso problema hoje com as crianças do Brasil, do Rio de Janeiro, do Amapá e do Rio Grande do Sul. Existe uma real preocupação de educar integralmente nossas crianças e nossos jovens? Ou queremos que sejam meios de nossas pretensões pessoais, econômicas e políticas, sempre deturpando a nossa presença educadora? Será que o ensino público e particular está realmente preocupado em educar, ou em ter mordomias, status, empregos garantidos e lucros econômicos? Não estamos praticando o mesmo ocidentalismo, que criticamos farisaicamente dos jesuítas? Eles, e não há como ocultar ou menosprezar, mudaram sua pátria (e naqueles tempos! Hoje não queremos trabalhar nos subúrbios e no interior); deram seu trabalho, suas esmolas, até suas roupas e a própria vida pelos Meninos. Nós estamos dispostos a enfrentar o ensino com a mesma preocupação corajosa dos jesuítas? A resposta fica como um desafio comprometedor.

Será que no meio do tamanho e abrangência de nosso processo educacional saberemos, como os jesuítas, abrir mão de nossos imediatos interesses para abrir-nos à necessidade imperiosa de arregaçar as mangas para criar o melhor processo educativo no nosso país? Será que entendemos que a educação infantil deve se iniciar na presença dos pais numa casa forte para morar? Será que a alimentação das crianças dentro da escola nos tranqüiliza para deixar de lado o fato de possibilitar a todos os casais um emprego digno para alimentar sua família? Será que nosso processo educativo não está impregnado excessivamente de nossas “boas intenções” políticas, empresariais e religiosas? Será que a educação no Brasil não sofre do mesmo problema que tempo dos jesuítas, faltando até comida porque estamos fazendo do campo da educação, antes de trabalhar e investir, “terra e corte de príncipes”?

Os excessos conflitantes nunca ajudaram na integração dos comportamentos. As crianças possuem uma situação natural e cultural, de serem educados no meio de sua família, leia-se também cultura. São os pais, o bairro, a região, a própria cultura, onde encontraremos as melhores possibilidades para o cultivo dessa nação brasileira, que deve ser “formosa” realmente. Precisamos da mesma forma que os jesuítas, despertar um mutirão para a educação das nossas crianças. Mas também deveremos sempre nos policiar para evitar “os ocidentalismos”, sejam eles europeocentrismos, americanismos, populismos, ideologias e moralismos da direita e da esquerda, interesses políticos ou econômicos, imposições sutis ou descaradas na educação das crianças através da mídia da agressividade, do erotismo e do consumismo, etc., que imponham seus únicos valores ao próprio desenvolvimento de nossa cultura latino-afro-america.

Temos, sim, que seguir a visão filosófica-antropológica: o homem, a humanidade é sempre inacabada (não imperfeita, mas sempre se fazendo). A realidade humana deve escolher pessoal, social e historicamente as melhores possibilidades para sua realização, portanto cheia de imprevistos e conflitos. Por isso, o encontro de duas culturas é conflitante. A humanidade sempre foi evoluindo, também, através de seus opostos, de grupos de tensão. A etologia nos mostra que até a própria natureza é organizadora em seus conflitos. Mas a antropologia filosófica nos leva mais adiante: o homem só avança quando toma consciência do risco de desequilibrar-se, o que significa impulsionar o homem para frente. E, o que instaura este equilíbrio possibilitante e organizador é a força exclusivamente humana de pensar, de refletir, de se corrigir, de aprender individual e coletivamente, criando novas atitudes sociais e éticas, garantindo assim a sua liberdade nesta empreitada e voltando-se sempre para a realidade com a qual se encontra em relação especial.

A leitura das Cartas Jesuíticas, nestes preparativos do “Brasil 500 anos”, muito nos poderão ajudar numa reflexão sincera de nosso processo educacional. O que nós estamos fazendo e escrevendo sobre como e por que estamos comprometidos com a nossa educação hoje? Três propostas principais estão em andamento: “Brasil 500 anos: Experiência e Destino“, “Brasil 500 anos: o futuro do Brasil está na escola“, e “Fraternidade e educação: a serviço da vida e da esperança“. Quais são as novas formas do “ocidentalismo” que podem interferir negativamente na busca e realização do nosso melhor processo educacional? Este será sempre um desafio, que não deixará de ser conflitante. Mas a expriência educacional dos jesuítas poderá ser uma grande lição em todos os sentidos para continuar descobrindo o homem e o seu fazer histórico.

            8. Bibliografia.

CLASTRES, Hélène. Terra Sem Mal. Trad. de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 1978, 123 p.

DUSSEL, Enrique. 1492 O ENCONTRO DO OUTRO (A origem do “mito da Modernidade”). Petrópolis: Vozes, 1993, 196 p.

MAIRET, Gérard. L’Ideologie d l’occidente: signification d’um mythe organique. In CHÂTELET, François. Histoire de Idéologies. 20 vol. De L’Eglise à Etat du IXe au XVIIe Siecle. Paris: Hachete, 1978, pp. 23-36.

_______________.- Du coeur gravé ao corps mysthique: naissance d’un ordre juridique. In CHÂTELET, François. Histoire des Idéologies. 20 vol. De L’Eglise à Etat du IXe au XVIIe Siecle. Paris: Hachete, 1978, pp. 164-180.

_______________.- Moyem, Age, Humanisme, renaissance: naissance d’une idéologie. In CHÂTELET, Francois. Histoire des Idéologies. 20 vol. De L’Eglise à Etat du IXe au XVIIe Siecle. Paris: Hachete, 1978, pp. 233-249.

MORREAU, Pierre François. Le Saint Empire. In CHÂTELET, François. Histoire des Idéologies. 20 vol. De L’Eglise à Etat du IXe au XVIIe Siecle. Paris: Hachete, 1978, pp. 58-77.

MORIN, Edgar. O enigma do Homem. 2a ed. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1979, 227 p.

VÁRIOS. Cartas Jesuíticas I. Cartas de Manoel de Nóbrega. Rio de Janeiro: Officina Industrial Gráfica, 1931, 258 p. (*Na edição da Itatiaia/EDUSP de 1988 a paginação coincide com esta edição que usamos).

_______.- Cartas Jesuíticas II. Cartas Avulsas. Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1988, 529 p.

_______.- Cartas Jesuíticas III. Cartas de José de Anchieta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S.A., 1933, 567 p. (*Na edição da Itatiaia/EDUSP de 1988 a paginação muda em 10 páginas a menos).

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