O Homem como ser Histórico. Como foi o esforço humano para construir sua história: Como animal racional ou animal de realidades?

Semana de Enfermagem da Faculdade Souza Marques. RJ. 08-05-2006.

(Anotações fundamentadas em Zubiri)

Introdução.

“Quando só havia planeta e não humanidade, não havia nem História e nem Geografia. A História é a mudança gradativa do planeta a partir da presença do homem, que modifica e constrói uma Geografia. Devemos surpreender a História como presente e não como passado”. (Milton Santos).

Como foi e pode ser essa encruzilhada?

“Nosso lugar no cosmos é ordinário, mas nós não somos, porque fazemos as perguntas que levam a novas descobertas. Se a ciência não oferece um substituto espiritual para a religião, oferece ao menos razão para preservar a preciosdade da vida”. (Marcelo Gleiser)

O que é essa presença humana no Planeta?

Como se dá essa relação entre o passado e o presente?

Do esclarecimento da primeira questão: Teremos a história do homem e, portanto, a história da enfermagem,

concipiente (animal racional)

ou senciente (animal de realidades.?

            1.- Primeiras considerações.

Podemos resumir sinteticamente a História da enfermagem assim

1.- Antiga: A mulher como nutridora e que apoia e dá firmeza.

2.- Cristã: A mulher que se doa para salvar os outros e para se salvar.

3.- Moderna (séc. XIX): Profissão de Enfermeira: aquela que organiza e controla o espaço do doente técnica e industrialmente.

            Que esforços intelectuais foram feitos para assim definir essa forma concreta de realização da história da enfermagem? Como foi realizado o passado que delineou o presente? Em que horizontes intelectuais se alimentou a experiência da história da enfermagem? COMO FOI A PRESENÇA HUMANA NO PLANETA?

“A sociedade humana foi inventada por nossos antepassados. Quem nasce hoje já a encontra inventada, material e espiritualmente, com seus equipamentos, valores e princípios que a constituem e a definem. É dentro desta realidade cultural, complexa e contraditória, que ele vai se inventar como indivíduo único e inconfundível…

O homem é o único animal que se inventa e inventa o mundo em que vive…O habitat humano vem mudando desde sempre, da caverna natural ao casebre, que se transforma em aldeia, povoado, cidade até chegar à megalópole de hoje.

O homem, para o bem ou para o mal, mudou a face do planeta, utilizou os recursos naturais para produzir seu mundo tecnológico e dinâmico. Mudou a natureza, alterou seu funcionamento biológico, meteorológico, sísmico…

Por que, então, se inventou?

Porque ser melhor do que é, quer ultrapassar o campo do possível”. (Ferreira Gullar)

Como foi essa experiência da história humana? Esta é a questão.

2.- A História é pura sucessão de realidades?

O homem teve história, o homem tem história. Ou, “homem é, em grande parte, a sua própria história?

            Qual e como é feita essa relação do passado com o presente para chegar até o futuro?

Para o classicismo só interessa o passado.

Para o historicismo só interessa o futuro.

Para o pós-modernismo só interessa o presente como presente sem um antes e depois.

A história é uma sucessão de realidades.

A história é um devir: um antes e um depois.

A partir do século XVIII e principalmente do século XIX se desenvolveram duas formas de interpretar essa relação entre o passado e o presente, deixando de lado a forma do classicismo, como lembrança ou mestre do passado.

1.- Em forma de evolução biológica: como um organismo vivo que vai crescendo atualizando o ser do homem.

2.- Em forma de desenvolvimento dialético: o passado como contraditório é urgência do presente.

Nas duas formas o passado se conserva no presente como pedra do edifício. E a historia seria a estratificação orgânica das diferentes camadas ou idades…

 
A história seria um movimento do “espírito humano”? Hegel entende a história como “espírito objetivo”  e nela nos movemos:

A história seria uma gigantesca realidade de um gigantesco homem, que vai desenvolvendo-se no curso do tempo. É o sentido escatológico da finalidade da humanidade que vai se desenvolvendo à caminho da salvação, tanto a través de ganhar o céu, não pela doação, mas pela organização técnica e industrial do espaço da cura do paciente. Nele se fundamentam, também, os meta-relatos da ciência (Comte) e da justiça social (Marx), como, também, as profecias para justificar a decadência e hegemonia do ocidente (Spengler e Toynbee).

O homem é apenas movimento do espirito objetivo?

O esforço humano se racionalizou (salvação, técnica-industrial) deixando de lado o verdadeiro objeto de sua racionalização.

Cabe diante desta situação a atitude intelectual de:- admiração diante do esforço (cultura) e

                                                                                                – rebelião diante a escravidão (asfixia dessa cultura).

O homem não é uma natureza natural (história natural = o que faz)

mas uma natureza humana-natura naturanda- (história humana = o que pode fazer)

O homem é o que faz e o que pode fazer

“O homem é sua própria história” (NHD p.364).

            Como é, então, a realização desse esforço da inteligência em construir a historia do homem? Quer dizer, em construir o homem?

            “Somos, de certa forma, todo o nosso passado” Como? (NHD p. 362)       Mas o que realmente é a nossa história, e a história da própria enfermagem?

                                   Sem dúvida é o esforço humano em resolver os problemas presentes…               A partir de análogas situações…

            Que esforços intelectuais foram feitos para assim definir essa realização? Como foi realizado o passado que delineou o presente? Em que horizontes intelectuais se alimentou a experiência da história da enfermagem? Ou então, o homem não somente tem história, mas é um ser histórico: ele é a fonte de todos os fatos, eventos e afazeres…

            A humanidade facilmente se despistou ao fazer a história dos cuidados com os doentes: ficou discutindo os sentidos da história e não o homem, que estruturalmente é um ser histórico. O esforço da inteligência foi se debatendo nas diferentes épocas da história, mas perdeu objeto primordial: o homem.

            O passado se conserva: Sucessão, idade, duração ou projeto: como acontecer da forma de realidade. A história não é algo que passou ao homem, mas o homem acontece: história…

Vejamos essa primeira alerta:

 “O conhecimento da história é fundamental na hora do planejamento, pois o homem é o único ser vivo da face da Terra capaz de recuperar a trajetória da espécie”. (Aziz Nacib Ab´Sáber)

“Existe mais pressa pelo manuseio da realidade que pelo conhecimento dela”.     (X. Zubiri NHD 328)

“Queremos a política dos homens, não do verde, que é simpática, mas desmoralizadora. Por isso que morrem os Departamentos de Geografia”. (Milton Santos)

Como?

“A barbárie está dentro da própria razão contemporânea…a modernidade explodiu as estruturas e o homem acabou sozinho”. “O efeito barbárie é todo o comportamento e realidade social que esterilizam e empobrecem o homem, em vez de enaltecê-lo. A barbárie está expressa na falta de educação e de cidadania” (Jeam François Mattei)

“A ciência moderna, até onde sabemos, é o projeto mais bem sucedido da história da humanidade. Mas de longe o mais catastrófico também.

Sucesso e catástrofe não se excluem necessariamente, muito pelo contrário: O maior dos sucessos pode encerrar o maior potencial de catástrofe.

Ora a partir do século 17, foi acumulado mais conhecimento sobre a natureza do que em todos os séculos anteriores. Mas à esmagadora maioria das pessoas tal conhecimento se mostrou até hoje, em termos gerais, apenas de forma negativa.

Com o auxílio da ciência aplicada à tecnologia, O mundo não se tornou mais belo. E sim mais feio.

E ameaça da natureza que pesava sobre as pessoas não diminuiu na natureza tecnologicamente modelada pelas próprias pessoas, e assim aumentou”. (Robert Kurz)

“Quais são as causas ocultas desta verdadeira conspiração de silêncio em torno da fome?

Será por simples acaso…? Não cremos.

O fundamento moral que deu origem a esta espécie de interdição  baseia-se no fato de que o fenômeno da fome, tanto da fome de alimentos, como a fome sexual, é um instinto primário,  e por isso um tanto chocante para a cultura racionalista como a nossa, que procura por todos os meios impor o predomínio da razão sobre os instintos na conduta humana….Ao lado dos preconceitos morais,  os interesses econômicos das minorias dominantes, também trabalharam para escamotear o fenômeno da fome do panorama espiritual moderno…

A distribuição e o consumo dos produtos alimentares a se processar indefinidamente como fenômenos exclusivamente econômicos –dirigidos e estimulados dentro os seus interesses econômicos- e não como fatos intimamente ligados aos interesses da saúde pública….  “A própria ciência e a técnica ocidentais, envaidecidas por suas brilhantes conquistas materiais no domínio das forças da natureza, se sentiram humilhadas, confessando abertamente o seu quase absoluto fracasso em melhorar as condições de vida humana no nosso planeta e com seu reticente silêncio sobre o assunto, faziam-se, consciente ou inconscientemente, cúmplices dos interesses políticos, que procuravam ocultar a verdadeira situação de enormes massas humanas envolvidas permanentemente no círculo de ferro da fome”  (Josué de Castro)

Então, ouçamos a nossa Maria Clara:

“Houve uma época em que quis salvar o mundo, pensei em ser assistente social, médica, enfermeira, aprendi a dar injeção e depois veio a idéia de ser missionária, enfim, eu não sabia mesmo o que decidir…

Ser artista é um acidente, importante é ser gente” ( Maria Clara Machado)

3.- O homem, como animal de realidades, é um ser histórico.

O homem não é uma natureza natural (história natural = o que faz)

mas uma natureza humana –natura naturanda- (história humana = o que pode fazer)

“O Homem não somente teve história ou tem história, o homem, em grande parte, é sua própria história” (X. Zubiri, p.364)

A história é um devir. As coisas não são o tempo e não estão no tempo. Mas, as coisas são temporais.

O homem frente às coisas:

As coisas-físicas qualificam o tempo como sucessão.

As coisas-seres vivos qualificam o tempo como idade.

As coisas psico-físicas (consciência) qualificam o tempo como duração: sou o mesmo, mas nunca o mesmo.

As coisas como seres humanos que forçosamente devem viver a vida olhando para a frente esboçando e realizando projetos qualifica o tempo como acontecer. Projeto e acontecer são a historicidade humana: biológica, social e histórica.

Como podemos dizer que eu sou um serei?

Não como simples possibilidade ou futurível…

Sou um futuro, porque tenho possibilidades para escolher esse futuro.

O animal não justifica suas ações, apenas as executa.

O homem para executar suas ações as deve justificar: escolher ou rejeitar umas possibilidades que lhe permitam construir seu futuro.

O homem dá as coisas naturais o sentido, que são as instâncias ou recursos para resolver seus problemas.

As possibilidades estão nas coisas e nele mesmo. A história é as variações dessas escolhas diante das possibilidades abertas. O homem deve dar razão do acontecer…

O ato humano está entre as coisas e as ações como projeto: como o que se quer fazer. As coisas não dadas e postas, mas oferecidas para existir, que o homem, como animal de realidades, e não puramente, racional, deverá decidir quais as que lhe convêm para se realizar.

Desde forma o homem é quase um criador, um quase inventor de sua realização.

O homem é uma realidade sendo (realitas in essendo):

Animal pessoal constitutivamente genético.

Animal social necessita da convivência dos outros. Sou uma estrutura aberta para a comunidade.

Animal histórico. O homem tem um devir de entrega genética, mas não como herança e evolução, mas como invenção: sua nova forma de realidade deve ser elaborada.

                Homem pelas suas ações dever ser:

Agente de sua vida, deve possuir-se a si próprio pela atuação de suas potências e faculdades.

Ator de sua vida: a vida começa num espaço vital. Assim a pessoa é a grande personagem de sua vida.

Autor de sua vida: dentro das possibilidades encontradas nas coisas deve optar, deve escolher a melhor possibilidade para sua realização.

Conclusão: Desafio a refazer dentro deste horizonte a história da enfermagem…

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