A quem compete a moral e a ética? A quem compete a realização do ser humano?

ENEAs 2002.

Prezados reverendos (da Igreja presbiteriana) e colegas professores: boa tarde.

1.- A confusão da moral e da ética no mundo moderno.

No mundo em que vivemos, a formulação que fizemos para conduzir nossa apresentação A quem compete a moral e a ética? poderia ser atiçada pelo pensamento de Zuenir Ventura: “o que se espera de um tempo de esperteza e sucesso a qualquer preço, em que só o dinheiro interessa, só o capital tem direitos, em que a técnica substituiu a ética e em que o mercado é a medida das coisas?”. Ou então com o diagnóstico de Josué de Castro, em Geografia da fome feito em 1946, que diz: “uma cultura racionalista como a nossa, que procura por todos os meios impor o predomínio da razão sobre o dos instintos da conduta humana”. Poderíamos afirmar que a moral e a ética estão sendo domesticadas para servir ao poder de plantão.

Se fizermos uma pequena história da Moral e da Ética percebemos que elas surgem da própria realidade humana, quer dizer, da necessidade da sobrevivência, coesão e convivência dos povos. Surgem então as mais diversas formas de dar conta dessa necessidade humana de viver como indivíduo pessoa, mas sempre enfatizando os conteúdos e meios. Os Mandamentos tentam garantir a unidade do povo de Deus para guardar a Aliança. O cultivo das virtudes formarão o cidadão na Grécia. O cristianismo, apesar de vincular a moralidade a um ideal de pessoa humana, eliminará os aspectos hedonísticos e naturalísticos da ética grega, para subordinar a moral a princípios religiosos: é o que chamamos a ética de salvação. A face protestante do cristianismo vai dissociar a salvação do comportamento terreno, estudada muito bem por Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo. A moral e a ética saem da competência exclusivamente religiosa para abrir-se a moral social, elaborada no século XVII e XVIII na Inglaterra na organização do sistema representativo no plano político. O sentimento moral é o que justifica a existência coletiva. (Seus articuladores foram Pierre Bayle, Locke, Anthony Cooper -Conde de Shafsterbury-, D. Hume). Kant definitivamente vai separar a moral da religião na sua grandiosa obra Fundamentação metafísica dos costumes. Os juízos morais que todo homem faz se apoiam no imperativo categórico do dever ser, é algo a priori: “procede de maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de todos os outros, sempre ao mesmo tempo como fim e nunca como puro meio”. (X. Zubiri interpretou: “uma moral que não resista a prova da universalidade está minada radicalmente na sua raiz” (SH 431). )

A Moral moderna se apoia em definitivo na pergunta kantiana: o que é o homem? como espaço para a sobrevivência, coesão e convivência humana e cuja resposta é o dever. Com Hegel perdemos a dimensão individual do homem para diluí-lo na dinâmica da moral história. A reação virá pela materialização dos valores com a axiologia e pelo existencialismo recuperando a ontologia, onde o homem está jogado no mundo e nós devemos cuidar dele. Como? Esta é a questão, que completa a nossa formulação: A quem compete a realização do ser humano?

Se por um lado a moral é requisitada pela religião, pelo estado, pela família, pela escola ou pela sociedade, por outro lado a apoiamos na virtude, na justiça, na utilidade, no prazer, no dever, na consciência moral, no sentimento moral, nas normas e nos valores. Hoje no discurso mediante o agir comunicativo. Será que a realização do homem está no consenso de todos ou, segundo Appel e Habermas, no melhor discurso dos interessados? Repetimos: A quem compete a moral e a ética? Concordamos com o professor, de Ética e Sociedade da Uerj., Olinto Pegoraro: “A tese de recolocar no centro de tudo a pessoa é a maior revolução que a humanidade pode fazer”. Mas, que homem-pessoa é esse? É uma criatura de Deus? É uma criatura do homem? Ou é uma realidade já constituída?

Diante das colocações que fizemos podemos afirmar com a filósofa Adela Cortina: “a ética é uma incompreendida e por isso está sem trabalho, quer dizer, sem nada a fazer. Simplesmente, porque ninguém sabe ao certo que fazer com ela”. A pesar de a chamarmos  a toda hora, como em toda época a ela se apelou para a boa convivência dos homens, continuamos sem saber o que fazer com a ética. A vemos como uma tábua de salvação para os as crueldades e desvios humanos, pessoais, políticos e sociais. Mas assim a tratamos: “a ética não é para este mundo”, “a ética é de momento”, “a ética como diferencial de competitividade”, “ética em estado terminal” ou então como no aforismo forense: “o que não está nos autos não está no mundo”. Na educação, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais devemos buscar a revitalização do Brasil através do “pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (LDB art.2o). Mas quase estamos invertendo ou subvertendo os propósitos da LDB nos preocupando excessivamente de preparar o educando para o mercado do trabalho. Mas, quem garante trabalho para todos os nossos adolescentes e jovens? Ninguém. Entretanto uma coisa é inadiável: devemos garantir a realização da realidade humana que todo jovem é. A importância da educação e da saúde ressoam nas bocas de todos os políticos, mas na hora crucial seus orçamentos são desviados, porque suas atitudes são simples posturas diante do homem. Da mesma forma que fazemos quando não acreditamos que a escola possa ajudar a mudar o Brasil, quando pais, sociedade e política vivemos sem compromisso, sem responsabilidade, sem amor, sem solidariedade, sem diálogo e por outro lado há escolas que não se decidem a se arriscar a pôr em prática as propostas da LDB. Adiantará substituir Moral e Cívica por Convívio Social e Ética se a ideia do homem-educando não é real? Não sabemos o que fazer com a ética, pior ainda, a ética está domesticada, porque estamos domesticando o homem. Transformamos o homem numa pura definição, num ente de razão.

2.-A relação racionalista-sofista da moral e da ética com o homem.

Apesar destas colocações e apesar dos entraves que encontramos no caminho humano o homem continua sonhando pela sua realização, pela sua perfeição através da moral e da ética nas mais diversas formas religiosas, sociais e históricas. Será que esta busca incessante é pura ilusão, ledo engano? Por que o homem busca o bem, a bondade, a felicidade e seus interesses, a liberdade e sua autonomia?, se questiona o filósofo X. Zubiri:

Se trata de uma armadilha da natureza pela qual deu ao homem a ilusão de uma felicidade e um bem perfeitos, para que o homem possa agüentar sobre a terra? Mesmo sendo assim, ainda que se dêsse essa emboscada da razão, como falava Hegel, só pode se dar com uma condição: que ninguém a descubra, porque se alguém a descobre para ele se acabou a moral. Por isso, se é uma condição imposta pela própria natureza para a realidade própria do homem e, ainda, de forma inexorável e indestrinçável (impenetrável) para o homem, nos perguntamos: com que direito se chama ilusão?” (Sobre el hombre (SH) 434-435).

A dignidade da pessoa humana não é ilusão. O homem não abriu e nem abrirá mão da sua dignidade, de sua autonomia e da possibilidade de realizá-la, de ficar e andar de pé. O homem, apesar de tantas emboscadas sofridas na sua história, não deixará de lutar por algo que é seu, ele próprio: uma realidade que não depende de conceitos elaborados e construídos por ele, como deveres, consciência moral, valores e normas. O homem radicalmente não é algo intencional, mas real. Entretanto parece que estamos sempre numa tremenda ratoeira construída pela deformação de nossas melhores idéias, quer dizer, da razão absoluta. Esta razão há dois séculos está em crise e nela estamos sentindo o desmoronamento e a bancarrota dos meios que tínhamos construído para a realização humana nas suas dimensões individuais, educacionais, sociais e históricas. Hoje dominadas pelo lucro e pelo mercado, últimas formas da modernidade. Até o espirito esportivo se contaminou desse novo deus, que é a razão da modernidade: se a lei de Gerson não era suficiente, temos agora a lei de Barrichello, que na interpretação de Millôr reza: “Fé na tábua e pé em Deus”. A razão do mercado nos convence que o irreal é a verdadeira realidade. “A ideologia está nas coisas”, nos alertou repetidamente Milton Santos. A experiência humana está domesticada pelos desvarios de sua razão. Quando na filosofia o embate entre inteligência e a realidade, os dois eixos de fundaram o filosofar, ficou limitado a definição das coisas, direcionamos o caminho para a pura lógica e hoje nela estamos perdidos. No lugar de buscar a força nas coisas nos limitamos a força surgida das definições, dos juízos e argumentos deixando a realidade humana reduzida a puro ente. Entificamos ou mumificamos o homem porque logificamos e reduzimos a puro discurso a inteligência. Falamos muito, fazemos muitos discursos, muitas reuniões e seminários mas falamos como se não pensássemos nas coisas.

O discurso de nosso encontro é apoiado nas definições ou na realidade sempre em busca de equilíbrio da Igreja Anglicana?

Os sofistas, ao direcionar a filosofia para “o homem como medida das coisas”, tentaram corrigir o desvario dos filósofos naturalistas absorvidos nas estrelas. Mas a reduziram a um jogo de raciocínios contra raciocínios, fazendo deles o meio de vida. É a metafísica da futilidade intelectual que de desvio em desvio nós herdamos deles deixando-nos num labirinto sem saída.

Mas em que consistia esse “homem-medida”, de Protágoras? Para Protágoras claro que era o homem individual e de carne e osso entendido pelos gregos da época. A verdade das coisas usuais, e sua utilidade, era ajudar os excluídos daquela época, os comerciantes, que já sustentavam materialmente a cultura grega, para entrar na polis, ou seja na construção da democracia. Assim se constitui a via dos assuntos humanos, da doxa, da opinião, a via do sentir, que logo se adentrará num puro relacionismo, como Hume se perderá mais tarde no associacionismo das sensações. Tudo desembocará no relativismo. O homem-medida, como cânon dessa utilidade do saber, poderá tornar o argumento mais frágil em mais forte. Institui-se um relativismo utilitarista segundo a conveniência de cada um. Entra-se na antilogia que é a técnica da persuasão. É a racionalidade sustentada na própria contradição: um torneio de razões contra razões.

Se tudo é discutível, tudo é inconsistente, portanto tudo é aparente, não real. A antilogia produz a antinomia. Que convivência poderá sair desta racionalidade antilógica e antinómica? A nova areté da polis é a astúcia (eubolia) que produz os enganos cínicos. Dá-se a separação entre o ser e o pensamento. Porque só o sofista pode substituir o que pode ser nocivo para o cidadão em bom, quer dizer, em útil. Onde está e em que consiste o critério da singularidade humana? O homem-medida é ficar sempre de pé pelo seu pensar e sua vida ou é o cânon usado pela astúcia do sofista? Esta é a primeira vez que o discurso se instalou nas coisas. Instaurou-se um relativismo utilitarista. É a hegemonia do discurso e da publicidade. O logos se soltou da força das coisas. Um tipo de iluminismo que é pura metafísica da frivolidade. Os sofistas logificam a sensibilidade humana do homem medida; pois falam como se falassem de algo, mas só falam e não pensam. O saber sofista está desfundamentado: liberta-se do sentir do homem-medida na base da confiança ilimitada na razão. O que passa a medir não é o próprio homem, mas o homem contraditoriamente educado pelo jogo de razões contra razões. É a metafísica da frivolidade que se entroniza como lugar (tópos) do manipulável.

Frente a esta situação surge Sócrates, que Nietzsche (não entendo porquê) vai responsabilizar pelo racionalismo. Mas vejamos mais profundamente essa acusação. Os grandes filósofos dos últimos séculos se debatem com o lema husserliano: racionalidade ou caos. Quer dizer, ou continuamos acreditando na mesma razão que produziu a crise ou procuramos o oposto, como caos. Não é esse o problema do dilema de Sócrates frente aos sofistas, mas a maneira inconsistente de investigar o homem. Como de uma racionalidade inconsistente, solta das coisas e antilógica, pode ajudar à existência e desenvolvimento da polis? Este é em definitiva o verdadeiro problema dos gregos. E Sócrates não aceita deixar o grego à deriva da frivolidade.

Sócrates não reage somente frente aos sofistas, mas também reage frente aos filósofos da Natureza. E aqui está a força socrática. Não é importante interferir nos conteúdos e nas verdades ou falsidades de suas especulações, mas na própria aparência de sabedoria que está se instituindo. Ela não mais pertence à mente pensante: os filósofos da Natureza perdem-se no que acontece nos céus e os sofistas perdem-se com o que acontece aos homens. Como falam sem pensar “não lhes resta mais do que a notícia de que essas coisas acontecem”. Como seu logos e discurso não têm força, esta deve vir da publicidade. A procura da verdade como descobrimento das coisas fica reduzida a “simples receituário de idéias”. Sócrates critica de uns e de outros o desvio provocado na sabedoria ao constituir a “futilidade como meio de vida”. A frivolidade do discurso exige a publicidade e a propaganda. O sofista faz de sua futilidade o meio de vida. Esta é a conseqüência grave do problema que detectamos nos que praticam o discurso vazio: fazem de sua futilidade meio de vida.

Para Sócrates caímos no risco constitutivo de toda expressão: deixar de expressar pensamentos para ser um puro falar como se fosse pensado. Daí a restauração socrática: viver pensando e pensar vivendo. Por isso inventou o diálogo como modo de pensamento, tanto consigo mesmo como o diálogo sonoro com os demais [Naturaleza, Historia, Dios (NHD). 245]. É a atitude profundamente ética: assentar a vida intelectual na inexorável unidade do saber das coisas. Não cabe de um lado ser intelectual e do outro ser ético, como hoje se pretende. O homem não pode ser engajado ou não, ele já está engajado porque é ser humano. Sócrates nunca foi um intelectual preocupado com a ética buscando autoridade e fama. Também nunca se preocupou com os problemas cosmológicos e matemáticos da época. Não inventou nenhum conceito e definição de nada. Nunca falou mal dos conteúdos dos filósofos da Natureza e dos Sofistas para mostrar seus conhecimentos. Não fez grandes inventos éticos e nem podemos afirmar que foi um homem justo de moral perfeita. Só teve uma preocupação. Sócrates “não foi um sofista a mais; nem um bom homem, nem um intelectual. Na realidade inaugurou um novo tipo de Sabedoria. Nada mais e nada menos” [ib. 244]. “O essencial, resume Zubiri, é que o intelectual deixou de ser um vagabundo que vive nas estrelas para converter-se em homem sábio. A sabedoria como ética: é aí a obra socrática. No fundo uma nova vida intelectual” [ib. 248]. “É necessário apoiar o raciocínio e o diálogo na substância das coisas, próxima a desvanecer-se em Atenas. A ironia socrática salvou assim a ciência e a política” [ib. 260].

Sócrates coloca, definitiva e filosoficamente, o homem de pé através da sua experiência sobre os assuntos humanos, que sente frio e calor, que não abre mão de viver o esplendor grego. É o homem de carne e osso de sua época: é o resgate da aísthesis (sentir) e da doxa (opinião) para buscar a verdade. Não permitiu que os “assuntos humanos” (prágmata= “as coisas das quais o homem se preocupa na vida” e khémata= “as coisas das quais o homem se serve para satisfazer suas necessidades ou descansar”) fossem desvanecidos para sempre. O homem medida não podia ser reduzido a puros raciocínios ou as astúcias utilitaristas de seus donos. O homem tem uma realidade que não pode ser manipulável mas desenvolvida e acordo com o que ela é. E este é o desfio da moral e da ética que hoje ainda devemos enfrentar.

3.-O homem “sendo” é uma realidade moral.

Refletimos até agora que a realização humana está deteriorada pela nossa maneira de entendê-la e vivê-la. Está deteriorada porque a esvaziamos de sua realidade e a tratamos como ente. A nossa relação com o homem não vem da própria essência humana, mas dos instrumentos que nós criamos, como se fossemos deuses e manipuladores. Fizemos da vida humana uma ilusão que deve ser mantida através de virtudes, mandamentos, deveres, valores, sentimentos e consciências; como se estas técnicas nada tivessem a ver com o próprio homem. O homem real não é suas vestes, mas nós fizemos acreditar que o homem são suas vestes e temos medo de acreditar no homem de carne e osso. Reduzimos o homem a definições: animal racional, político, religioso, lobo, econômico, social, cidadão, falante, hoje virtual. São variantes ou vestes, mas não o homem real. Pela cultura racionalista de nossa civilização ficamos nas definições: pedaço do universo (microcosmos), criatura de Deus, eu subjetivo, ente, resíduo, excluído em fim. Mas o que é ser homem? Esta deve ser nossa estranheza, sofrida, também, por Manoel Bandeira em 25-02-47 na visão desde sua janela da imundície do pátio de sua casa:

“Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.”

O homem e o animal tem algo constitutivo em comum: uma vida auto-suficiente e que se auto-possui. Mas o homem tem uma estrutura diferente, além de auto-possuir-se deve ajustar suas ações. O animal sobrevive porque está ajustado, repete suas respostas. O homem deve ajustar-se até para matar a fome mesmo que não seja agradável, por isso que não é bicho. O homem tem uma vida, tem um sentir e tem uma inteligência, mas não como soma de notas, mas constituído com essas notas. Quer dizer, o homem não é uma essência, uma substância, que pode ser mudada, mas uma substantividade, uma realidade constituída como aberta, Quer dizer, uma estrutura que é agente, ator e autor de sua vida. Por isso o homem é uma realidade por um lado absoluta, mas pela sua estrutura aberta é inconclusa, como nos repete o educador Paulo Freire. O homem é uma realidade própria que tem como propriedade primária se apropriar escolhendo as melhores possibilidades para se realizar. É assim uma realidade pessoal na sua constituição como na sua realização. Esta relação constitutiva é a realidade moral. O homem é um animal de realidades e sendo assim é uma realidade pessoal. Não é algo só pensado, uma definição, um conceito, ou uma realidade abstrata.

O homem é uma substantividade. É uma realidade sua, própria. É uma realidade implantada dentro das outras realidades, mas de forma absoluta. Ele é uma realidade absoluta que deve se realizar e aí é uma realidade sendo, portanto relativa. Tem necessidade de escolher a melhor possibilidade para se apropriar dela própria. O homem é uma realidade que deve se atualizar, não unicamente como sujeito, nem de forma lógica, mas de forma real.

Heidegger restaurou a ontologia e com ela definiu o homem como luz do mundo. Também Jesús Cristo é chamado a Luz do Mundo. Mas o mais radical não é a luminosidade que irradia, mas o que constitui a luz. O homem tem uma constituição geradora da luz que ilumina o horizonte de sua vida. É desde esse foco de luz, desde esse homem real-pessoal que se abrem as demais realidades e enraizado nela que o homem se vai apropriando as melhores possibilidades. O homem é moral desde suas estruturas psico-biológicas (não no sentido genético-evolucionista). O homem é livre ao distanciar-se dos estímulos, como também é livre ao escolher entre várias referências, que constituem as variadas possibilidades que escolhe para sua apropriação. O homem tem que fazer seu ajustamento para sua realização. Ajustar-se a que? A sua forma de realidade constitutivamente diferente da realidade animal e das demais coisas. A constituição humana é uma estrutura moral. A moral só compete ao próprio homem, porque ele é pessoa e para tal deve se apropriar as melhores possibilidades tentadas e desejadas para sua realização. “A propriedade por apropriação, isso é a moral” (SH 374).

O homem se constitui de dentro para fora e não de fora para dentro, como na construção da lógica ou das virtudes, das normas, dos costumes, dos valores e dos juízos morais. O homem pela sua estrutura se sente real, se distancia das coisas reais, escolhe a melhor possibilidade descoberta e querida para se apropriar dela. O Homem tem uma inteligência, que não é só sensível ou racional, mas senciente. Não tem na sua estrutura uma vontade para escolher a capricho o que quer, tem uma vontade que tende para o melhor dele: ser pessoa.. E o seu sentimento, não é puro sentimentalismo, mas a resposta criativa e humana para suas necessidades como pessoa humana que deve ser.

O homem como estrutura pessoa deve se religar ao que ele é. Não pode aceitar ser diferente de sua estrutura pessoal. O homem como realidade pessoal é uma realidade moral. A moralidade é a necessidade humana de se realizar como pessoa através dos diversos atos de sua vida. O homem tem que estar ligado a ele mesmo. Se cortar esta relação estrutural ele se destrui. Então o bem e o mal nascem aqui, aliás radicalmente só existe a bondade: a realidade pessoal, que deve realizá-la. Assim a moral é a realização da bondade humana através das melhores escolhas, onde os atos bons se dão ou deixam de se dar, esta última alternativa é o mal. O dever, a consciência, os valores… serão formas conseqüentes pelas quais deveremos dar conta desta apropriação. O homem deve realizar-se vinculado à realidade, e esta vinculação fundamenta o caráter moral da realidade humana. Por isso através de seus atos o homem vai criando uma forma nova de ser pessoa. É aqui onde nasce o éthos: o espaço, o lugar e a casa do ajustamento à realidade e a realidade pessoal que é. A moral e a ética são assim um ajuste criador do homem ao real, não ao intencional. “O homem não a junção de duas coisas: uma realidade e um ideal. Antes ao contrário, é uma realidade que só pode ser real sendo exatamente ideal. Não é uma oposição entre o real e o ideal, mas entre o real puramente real e o ’realmente ideal’. O homem é animal de ideais por e para ser animal de realidades” ( SH 393). O ideal humano não um “chute no vazio”, não é uma espécie de criação romântica…é uma necessidade da realização de sua própria pessoa.

O bem que procura o homem, a fruição de sua vida, e a perfeição que ele busca são a necessidade desse ajustamento, não são ilusões, armadilhas para que o homem agüente as durezas da vida. Cada um de nós devemos viver a nossa vida porque somos obrigados a realizar o nosso absoluto. O bem radical do homem é ser ele mesmo. Então a intencionalidade, quer dizer a idéia que vamos fazendo de nós mesmos, não é algo anexada, mas surgem da propria estrutura moral em que o homem deve apropriar-se as melhores possibilidades. O homem por ser animal de realidades é pessoa e portanto uma realidade moral. Quer dizer a possibilidade de autorealizarmos é a possibilidade mais radical. Assim as idéias, os conceitos, as normas, os valores… são formas ideais, que só o homem pode fazer para se apropriar o que ele é. Somos sim animal de ideais, porque somos animal de realidades, animal pessoal e moral.

Nós somos uma realidade moral, queiramos ou não. Mas a figura da felicidade da realização depende do decurso biográfico de cada um de nós. A realidade moral, embora é absoluta, mas sua necessidade de se realizar pode escolher e tomar e toma diferentes ideais. Por isso pode haver e há diversas morais e éticas.

Resumindo: o homem, não é um pura definição, de onde partem o racionalismo e Kant, o homem é um animal de realidades, uma animal pessoal, um animal moral, portanto uma realidade em construção social e historicamente. A moral é constituída pela estrutura da realidade humana que é uma realidade pessoal. A partir dessa realidade moral iniciam-se os problema morais para realizar em concreto essa moralidade. A ética enraíza aqui para criar formas concretas através de vários modos de ser pessoa na unidade de todas as pessoas, criando a vida em comunidade. Da moral como estrutura surge a moral como conteúdos: Relação estrutural do interior com o exterior, que deve criar uma atitude, não apenas uma postura. É a unidade do pensamento com as coisas pretendida pela filosofia primeira. O homem, como realidade aberta e possibilitante, recebe do exterior as mais diversas possibilidades encontradas ou criadas para sua realização. Mas é ele próprio a sua medida. Assim o exterior não alienará e não será uma ledo engano.

Sem dúvida nenhuma esta dimensão apresentada da moral e da ética, uma dimensão antropológia-filosófico-metafísca do homem, está mais perto da mensagem anunciada pelo Evangelho. A Boa Nova anunciada por Cristo chama a despertar esta vida real do homem pertencente a humanidade. O homem é uma criatura de Deus. Deixemos de ver o homem como dependendo de Deus. Mas como criatura que ele é, esta é a primeira experiência do homem: ele mesmo, como uma realidade, pessoal, moral, educacional, social e histórica. Religemos primeiro o homem a ele mesmo, talvez então teremos mais chance de religá-lo a Realidade Maior: Deus Pessoa. Será que a Mensagem do Cristo ao chamar a atenção para os pequenos, os pobres, os pecadores não é marcar o caminho dessa exigência humana de se realizar? Construiremos assim a unidade humana e dos homens criaturas reais de Deus. A religião não seria um adendo ao homem. Mas um postulado radical da realidade humana que se entende como absoluto e relativo. O serviço ao este homem não é uma concessão ou uma glória, mas ajudá-lo a despertar a realidade pessoal e moral que ele é. A força do real (Deus, o homem pessoa, coisas…) nos leva a dar conta do que somos. E o sentir humano (sentir inteligente, “saber de experiência feito” (Paulo Freire), o homem de pé, o homem de carne e osso , o homem real=pessoa) é a chave mestra para tirar o homem da cápsula da pura exterioridade, das boas intenções, das antigas e da últimas definições e didáticas filosóficas e pedagógicas. Todo o processo educacional deita suas raízes na realidade moral que o homem é : realizar-se como pessoa.

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